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Se não temos nada (temos um ao outro)

Chapter 4: Capítulo 4

Notes:

E aqui estamos no fim da estrada. Não vou mentir que me diverti muito traduzindo essa história, mas também não vou negar que foi um sofrimento e estou feliz de ter finalmente terminado, além de orgulhoso por ter concluído algo pela primeira vez na vida.
Bom, como sempre, espero que gostem <3

Chapter Text


Essas são as coisas que perduram:

Fé, esperança e amor


 

Ele entra no Éter pela segunda vez na vida, dessa vez com as asas de fora e seu poder totalmente restaurado. Aqui ele não tem peso, mal contido pela ideia de forma que ele deveria ter. Desde que Ela havia ido embora, esse lugar chama por ele, desesperado por alguma forma de preencher um vazio impreenchível. 

As ferramentas Dela estão onde foram deixadas. Ele passa os dedos cuidadosamente sobre cada uma, sobre o amor, a devoção e a paciência. Elas estão cobertas por poeira de estrelas, há muito abandonadas, e ele esfrega os dedos para sentir a aspereza, sentir os átomos granulados rolarem sobre sua energia.

Antes de vir, ele achou que o universo poderia estar dormindo sem Ela para cuidar de tudo, mas conforme ele vagueia pelo cosmos, o encontra vivo. Sistemas estelares se espalharam a seu pedido, expondo a marca da sua criadora. Ele coloca as duas mãos nos ecos do toque de sua mãe e pressiona até conseguir sentir Seu amor por baixo deles.

Existem outras criações.

Ele dorme embalado em nebulosas pintadas no vazio pelo pincel de Crowley e se aquece pelas muitas estrelas brilhantes de Michael e Gabriel. Planetas giram em uma dança elaborada ao seu redor, alguns marcados por Ba’al, Uriel e Dagon. Ele encontra a segunda estrela que Ela fez no começo e chora pelo amor que consegue sentir emanando, enquanto ele a segura com as duas mãos.

No limite do universo, ele encontra uma criatura massiva feita inteiramente de energia, sinuosa e atirando chamas assim como um sol. Ela se enrola em seu braço e zumbe, estala e se curva em sua mão como um gato ansioso, e ele acha que talvez tenha sido um dia. Ela pode ter sido inúmeros animais, sua energia transmutada por Ela sempre para ser transformada em algo novo e maravilhoso, libertada aqui para que os humanos encontrassem mais tarde, quando estivessem prontos. Ele a observa seguir seu caminho pacífico e reflete sobre o universo que Ela deixou para eles, tudo que criou e tudo que deixou para trás.

Ainda há trabalho a ser feito.

Ele retorna às ferramentas Dela e levanta a primeira: amor.

Ela é quente, pesada e desgastada com o uso, e com ela, ele começa.

 


 

Existe, abaixo de uma igreja que há muito foi desprovida da santidade, um quarto com uma mesa. É uma mesa resistente e redonda, manchada pelos danos dos anos de uso, com suas bordas desgastadas por causa de todas as barrigas que se sentaram contra ela. Há seis hoje, sentadas em pares e encarando umas às outras ansiosamente. Duas já estiveram ali antes, mas apenas uma vez; Apenas enquanto procuravam um lugar para levar os outros.

Há muito tempo atrás, esses seis talvez se reunissem como associados ao menos, senão como amigos ou irmãos. Há não tanto tempo atrás, se reuniriam como inimigos. Hoje eles se reúnem como aliados, com suas asas nem brancas nem pretas, mas tão cinza quanto as asas dos pombos que cobrem a praça da igreja, aguardando serem alimentados.

Hoje, esses seis precisam de outro.

Hoje, o mundo precisa deles.

“E se nós só… refizéssemos o Céu e o Inferno?” Ba’al pergunta, quebrando o silêncio que se instalou de forma tão desconfortável entre eles após Crowley ousar falar do problema. “Não pode ser tão difícil.”

“Isso anula um pouco todo o trabalho pra chegar até aqui”, diz Aziraphale. "Você não acha?"

“Está um pouco perto demais do domínio Dela”, diz Michael.

“Bem, eles precisam ir para algum lugar quando morrem” Gabriel diz, com um pouco de raiva. Ele ajeita o paletó e agita suas asas cinza-ardósia. Elas lhe caem bem e combinam com o terno, ou talvez ele havia escolhido o terno para combinar com elas. “Não podemos deixá-los apenas flutuando por aí entre reinos.”

“E a papelada é um pesadelo” adiciona Dagon. “Não consigo arquivar nada enquanto eles não tiverem uma destinação final e agora eles estão todos sentados no limbo. Estou com vontade de começar uma pasta nova chamada “limbo” e que eles fiquem por lá.”

“Eles não podem,” Gabriel argumenta, afrontado. “Eles mal cabem do jeito que está. Tem de haver um lugar para irem.”

“Não podemos sair por aí criando espaços também,” Michel diz de forma firme, com as asas cinzas claras abrindo um pouco para dar ênfase. Crowley passa os olhos pelos padrões suaves em azul claro que foram tingidos nas penas. Alguém foi num estúdio de tatuagem de asas. “Lúcifer tentou e olha no que deu.”

“Ele estava bravo”, Crowley diz finalmente, esperando interromper a discussão antes que ela se transforme em mesquinhez. “Se nós fizéssemos - e esse é um grande “e se”- estaríamos fazendo com cautela. Poderíamos planejar melhor.”

“Mas isso não vai resolver nada de verdade” Aziraphale diz baixinho. Todos olham para ele, que se mexe um pouco desconfortável antes de se ajeitar. Ele tem se tornado um bom líder ultimamente. “A razão pro Céu e Inferno existirem era porque os humanos precisavam escolher um lado e esse lado escolheria para onde cada alma iria quando morresse. Mas não existem lados agora, apenas nós e eles. Separá-los de novo… parece que vai contra os planos Dela.”

“E daí? Ela se foi,” Ba'al zomba, quase encobrindo a dor em sua voz. “E duvido que irá voltar.”

“Ela ainda está aqui” Aziraphale rebate, teimosamente. “Eu consigo senti-la, mesmo que você não possa.”

“Mas ela não está aqui aqui, Aziraphale”, Crowley diz gentilmente, e Aziraphale murcha um pouco. Já se passaram três meses desde que ela os deixou para se virarem totalmente sozinhos. Três meses que eles sentiram a terrível liberdade com a qual ninguém sabia o que fazer. “A forma como Ela- bem, Ela não pode nos ajudar. Não da forma que precisamos. Temos que descobrir isso sozinhos e não contar com Ela para nos salvar.”

O silêncio cai novamente enquanto eles mergulham na verdade.

Eles estão sozinhos.

“Alguém… viu o Adam recentemente?”

 


 

Primeiro ele apenas copia.

Ele modela mundos a partir daqueles que encontra, seguindo a forma como foram feitos. Logo, ele começa a fazer mudanças durante o processo. Ele faz um trio de planetas orbitar uma estrela dourada, inteiramente sozinho, apenas para ver eles colidirem e ruírem, mas ele aprende com cada erro.

Ele esculpe, pressiona, empurra e desliza as mãos no firmamento cru que Ela deixou para trás. Ele cria coisas da própria imaginação e depois apaga se elas não atenderem suas expectativas. Ele sabe o que quer, consegue sentir o que seria mas não consegue fazê-lo.

No desespero, ele esculpe espaços dentro de espaços, assim como o Céu e o Inferno haviam sido, mas acaba preenchendo-os novamente. Eles não são certos, não são o que ele precisa.

Ele está frustrado.

Ele foi feito para isso.

A primeira e última vez que ele A viu, Ela disse que ele não foi feito para destruí-los ou salvá-los, mas para amá-los.

Guiá-los.

E é com essas palavras que ele sabe o que precisa ser feito.

 


 

“Nós não podemos apenas destruir almas humanas,” diz Aziraphale nervosamente, assim que Ba’al sugere isso.

“Não seria exatamente destruí-los” Ba’al diz. Eles fizeram muito progresso quando o assunto é imaginação - todos eles - mas eles ainda não chegaram nem perto da claridade que Crowley tem do assunto. “Nós estaríamos apenas… Dispersando eles.”

“Não é uma má ideia, Aziraphale” Crowley diz, entrando na discussão antes que Aziraphale fique realmente irado com isso. “Ela os fez do firmamento, então eles podem muito bem voltar para lá.”

“We cannot just destroy human souls,” Aziraphale says hotly, as soon as Ba’al suggests it a while later.

“Esse não era o plano Dela e você sabe” Aziraphale diz, a voz gélida de julgamento.

Crowley faz uma careta, não tendo certeza de que resgatar Ba'al vale a ira de Aziraphale, não importa se ele concorda ou não, mas ele já chegou até aqui, melhor continuar cavando. “Bem, Ela não vai exatamente nos dizer não, né?” ele pergunta. “Se ela quisesse ter uma opinião, talvez devesse ter ficado.”

“Crowley…”

“Eu concordo,” diz Michael, surpreendendo a todos. Ela deixa as mãos dobradas em cima da mesa, que mesmo sendo redonda, dá a impressão de que ela é a ponta. “Não é uma má ideia. Mas também concordo que não deveria ser a primeira opção. Aziraphale está… correto. Eu não acho que Ela iria querer isso.”

“Não podemos apenas colocá-las de volta?” Gabriel pergunta, batendo as mãos como se estivesse empurrando dois objetos um contra o outro. “Os humanos são bons em fazerem mais deles. Por que nós não só… sabe?”

Um silêncio impera enquanto todos encaram Gabriel. Ele encara de volta de maneira neutra, como sempre, confiante em seu desdém. Aziraphale limpa a garganta e se movimenta para sentar mais reto novamente, não parecendo ter certeza de que entendeu.

“Você quer… pegar todas as almas do limbo, todos que já estiveram no Céu e no Inferno… E colocá-las de volta na Terra, em novos corpos?” ele pergunta hesitante. “Como bebês?”

“Sim,”Gabriel diz. “Isso é exatamente o que eu quero, Aziraphale.”

“Todo mundo?” Crowley reitera. “Todos os melhores e piores, juntos lá embaixo de volta?

“Sim” Gabriel repete. “E mais importante, fora do limbo. É o objetivo, não?”

Mais silêncio ronda o grupo, captando vozes e movimentos.

“Vai nos ganhar algum tempo”, Dagon admite alguns minutos depois. “E resolveria o outro problema, de não podermos criar novas almas também. Os humanos voltariam a ter bebês.”

“Não vai resolvê-lo para sempre,” Crowley aponta. “Nós ainda vamos ficar sem almas eventualmente”.

“Nos ganharia tempo para pensar em outra coisa mas…funcionaria?” Michael diz, a sobrancelha franzida. “Reciclar almas humanas desse jeito, deixando que voltem para a Terra para passar por tudo de novo…?”

“Não vejo porque não,” Dagon diz. “Seria igual reincorporar, mas para humanos.”

“Reencarnação,” Aziraphale diz fracamente. Eles nunca haviam feito isso antes; humanos só tinham uma chance para fazer as suas escolhas. Se eles pudessem voltar e fazer tudo de novo… “Eles já tem uma palavra para isso. Reencarnação.”

 


 

A resposta, ele descobre, é simples.

Já existe um jardim.

Ela o havia criado para eles antes mesmo que existissem e o emparedado para protegê-los do desconhecido. Assim como seu antecessor, Adam pisa no exuberante jardim do Éden pela primeira vez. Os portões permaneceram fechados desde que os primeiros humanos foram embora, mas o jardim ficou intocado.Em todo lugar, plantas crescem, de todos os tipos e tamanhos, e conforme ele anda, é saudado por uma multidão de animais. Muitos deles ele reconhece, outros já estão extintos há muito tempo. Alguns, como o unicórnio no qual ele repousa a mão no nariz como cumprimento, ele achou que nunca havia existido.

E bem no centro ergue-se uma única macieira, em plena floração.

Aqui, ele sabe quando seu olhar pousa na árvore, é onde eles começaram.

Aqui é onde eles pertencem.

Aqui é onde eles sempre pertenceram.

Quatro anjos aterrissam por perto, dois de cada lado. Ele olha primeiro para um lado e depois para outro e nota suas asas de um branco puro. Esses são os últimos anjos verdadeiros, deixados aqui para guardar os portões do Éden. Eles foram banidos do Céu quando a vigília começou – para que não tivessem uma lealdade dividida – e permaneceram lá desde então.

“Vocês guardam esses portões por milênios”, ele diz gentilmente. Não é uma pergunta, mas um lembrete. “Está na hora de parar.”

“Nós precisamos guardar as paredes” eles dizem, um coro de vozes mais numeroso do que os corpos presentes. “Como Ela nos ordenou.”

“Ela deixou esse mundo em mãos diferentes” , ele diz. “Minhas mãos. E é hora de derrubar as paredes e utilizar os tijolos para construir um caminho para eles no lugar.”

Eles encaram, e Adam consegue ouvir os sussurros abafados de suas mentes enquanto falam um com o outro, mas ele lhes dá a cortesia da privacidade. As várias asas deles dobram enquanto eles chegam a uma conclusão juntos. “Ela nos deixou?”

“Mas vocês não estão sozinhos”, Adam diz, estendendo a mão para eles. Eles são quentes, do jeito que uma voz é quente, confortável. “Eu pediria que vocês tivessem fé em mim, agora. Eu enviarei esperança logo, e com ela, uma nova tarefa.”

“Uma nova tarefa?” eles perguntam e Adam consegue sentir suas vontades de obedecer, enraizado como esteve em todos os anjos uma vez. Ele verá isso desaparecer. Eles conhecerão o livre arbítrio em breve.

“Recepcioná-los de volta ao lar”, ele diz. “Quando eles estiverem prontos.”

 


 

Por um tempo, o plano deles funciona. Por um período, eles colocam as almas de volta nos corpos humanos e, por um tempo, a pressão melhora nos espaços entre a realidade e o além. Num primeiro momento os humanos entram em pânico por não haverem nascimentos, mais tarde pela baixa drástica da taxa de natalidade e começam a procurar por uma causa entre si. Quando não encontram nenhuma, eles se voltam para o mundo e tentam consertá-lo. Eles acreditam que serão extintos se não fizerem isso. Eles aprendem e crescem enquanto o mundo se cura um pouco mais a cada dia.

Mas é só por um tempo.

Eles estão perfeitamente conscientes de que o seu plano de colocar velhas almas em novos corpos é apenas um curativo numa ferida mortal. O número de almas é limitado. Eventualmente só poderá haver um fim pois não haverá mais almas para adicionar aos corpos. Eventualmente, todas as almas estarão presentes na Terra.

Crowley não se permite suspeitar que eles chegaram a esse ponto.

Aziraphale faz as contas, conta as almas e descobre que não há almas suficientes para que elas sejam únicas por todos os tempos. Ele também não diz nada.

Mas nenhum deles se surpreende ao encontrar Adam sentado dentro da livraria uma noite, parecendo ser a mesma criança que era quando eles o conheceram. Aziraphale sacode o guarda-chuva, Crowley tranca a porta e Adam vira uma página, esperando. Já se passou mais de um século desde a última vez que se viram.

“Adam”, Aziraphale diz e Adam olha para cima como se os estivesse notando pela primeira vez.

“Eu tinha esquecido os livros” Adam diz, maravilhado. Ele está soando… diferente. O tom enrijece a espinha de ambos os Guardiões. “Acho que esqueci muitas coisas.”

“Onde esteve?” Aziraphale pergunta, estendendo um braço para impedir que Crowley passasse por ele.

“Você gostaria de ver?” Adam diz brilhantemente.

Ele não espera por uma resposta. A realidade dá uma reviravolta enjoativa em torno deles, e eles aparecem exatamente como estavam, mas a quilômetros e quilômetros de casa. O senso de localização de Crowley está tão distorcido que ele não consegue dizer exatamente para onde Adam os levou, apenas que é longe.

E que a Morte está aqui.

As asas de Crowley se abrem e ocupam a maior parte do espaço da pequena casa, mas Morte não lhe dá atenção. Está olhando uma mulher do outro lado do quarto, uma humana que de alguma forma é tão corajosa quanto é velha, estando tão calma na presença dos quatro sem vacilar. Aziraphale segura o braço de Crowley e a calma se espalha através dele. Talvez não seja uma luta. Talvez a Morte só esteja aqui para levar a humana.

Adam dá um passo à frente e a Morte lhe acena, quase uma reverência, e então Adam fica em frente a mulher. Ela o olha igual um velho amigo olharia, mesmo Crowley tendo certeza de que eles nunca se conheceram. Eles não podem ter se conhecido, Adam está sumido da Terra desde antes dela nascer. Mas quando ela sorri, Adam devolve o sorriso, e Crowley sente algo familiar nessa troca.

“Você está pronta?” Adam pergunta.

“Acho que estou pronta faz um tempo” , ela diz. Gentilmente, ela repousa a caneca de chá que segurava com as duas mãos e arruma um pouco suas roupas, para então alinhar os ombros de sua estrutura que foi curvada pelo tempo.

Adam olha de relance para Aziraphale e Crowley, mas não como uma tentativa de tranquilizá-los. Ele quer que eles assistam. Ambos dão pequenos acenos; eles vieram até aqui, então vão assistir o que vem a seguir. Crowley suspeita saber do que se trata; ele e os outros decidiram que eles não podiam dissolver uma alma, mas isso não significava que ninguém podia. A mão de Aziraphale encontra as suas e aperta, e Crowley sabe que ele está tendo os mesmos pensamentos. Então é isso. O começo do fim. Eles adiaram tanto quanto puderam.

Aproximando-se, Adam coloca as mãos levemente em cada lado do rosto da mulher. Seus olhos se fecham e ela se inclina para frente ao mesmo tempo que ele, até que suas testas se toquem. Crowley prende a respiração, antecipando o que vem a seguir, mas nada acontece.

Atrás dela, asas de um cinza ardósia se desdobram.

Os olhos de Crowley se arregalam e ao lado dele, Aziraphale fica tenso.

Adam se afasta primeiro, e os olhos da mulher piscam e se abrem.

Não, Crowley pensa, Não uma mulher, uma Guardiã.

Adam fez um novo Guardião da alma de um humano que estava pronto para isso.

E com surpresa, Crowley percebe que agora consegue reconhecê-la, agora que a sua fachada mortal se partiu.

As mãos de Adam caem do rosto dela enquanto ele dá um passo para trás, ainda sorrindo. Então ele se vira um pouco, para poder olhar para Crowley e Aziraphale. “Eu acredito”, ele diz calmamente, “que vocês dois se lembram do caminho para o Jardim? Eu prometi que enviaria vocês com ela.”

Crowley acena brevemente enquanto Aziraphale diz: “Sim.”

“Eu fiz algumas mudanças”, Adam os avisa, “mas acredito que irão gostar de lá.”

Eles haviam visto Adam fazer algumas mudanças antes, mas isso certamente não os desviara do caminho, e parece improvável que os leve a algum lugar ruim agora. Aziraphale estende a mão para a nova Guardiã. “Venha, Anathema. É hora de ir para casa.”

 


 

Éden escapa das bordas que um dia o conteve, viajando pelas areias do rastro de Adão e Eva. Se espalha da forma que a vida tende a fazer, lentamente a princípio e depois em grandes explosões à medida que aprende. O solo árido se rende ao crescimento, se torna mais fértil e denso com cada planta que cai na feliz conquista do Éden. A muralha que um dia foi construída para conter e excluir se tornou uma fina fatia cortada no meio, um grande rio de pedra que conduz ao seu coração. 

Caminhando em cima deste rio estão três figuras aladas.

Eles viajaram através dos milênios de existência, um dia por vez, seus caminhos se cruzando conforme eles caminhavam. Todos eles já viajaram do Éden para a Terra separadamente, e agora viajam de volta, percorrendo este novo caminho, um passo de cada vez. Desta vez eles viajam juntos, as duas formas de “primeira vez”, até chegarem ao seu destino.

Quatro anjos os encontram na beira da vegetação. Eles parecem ser querubins, com quatro cabeças, quatro asas e uma auréola brilhante ao redor do corpo que emite uma luz dourada. Eles parecem ser querubins, só que não ficam mais em cima de uma parede para guardar um portão, e suas asas são cinzentas e seus olhos têm o tom exato de azul que pertenceu a um menino em Tadfield, Inglaterra.

Eles não são mais querubins. Mas também não são Guardiões.

Esses anjos fizeram um juramento à Adam de guiar as pessoas para casa.

Eles recebem o trio não com espadas, mas com palavras calorosas, tons suaves e mãos gentis. Um deles pega a mão da mais nova Guardiã e a conduz para longe do caminho de pedra, em direção ao jardim. Já faz muito tempo que ela saiu com Adão ao seu lado, a barriga cheia de vida e o sabor de uma maçã ainda doce na língua.

Os outros guias reconhecem Aziraphale e Crowley e não dizem nada quando eles passam. Muito tempo se passou para eles também. Crowley oferece seu braço para Aziraphale enquanto eles caminham e Aziraphale aceita de bom grado. Juntos eles passeiam pelo jardim, pelo novo caminho que foi feito em cima do antigo. O jardim é maior do que eles lembravam, porém também era familiar.

Eventualmente, eles se encontram no coração dele. Lá, no fim do caminho, eles encontram uma macieira; a mesma que começou a jornada deles. Ela também está maior do que eles lembram, e tão familiar quanto o resto. Seus galhos grossos estão carregados de frutas, tentadores e lindos. Não há mais sinal de alerta.

Crowley estende a mão, seus longos dedos deslizando sobre a pele rubi da maçã, e arranca uma de seu caule. Ele a vira nas mãos, de um lado para o outro, e então sorri suavemente. “Dificilmente parece valer a pena todo esse alarde, não é?”

“Pelo contrário”, Aziraphale concorda. “Você acha que existem mais conhecimentos proibidos nessas?”

“Não dessa vez,” Crowley diz. Ele segura a maçã com as duas mãos como se fosse algo precioso. Ele já se deitou entre os galhos desta árvore e comeu seus frutos antes. Ele se lembra do sabor da esperança e sabe que desta vez o sabor será ainda mais doce.

“Você acha que não?” o ex-anjo pergunta. “O que acha que é então?”

“O amor Dela” Crowley lhe diz, olhando para cima com luz em seus olhos dourados. "Fé, esperança e amor. Isso é o que está no jardim, anjo. Adam, nós e o amor que ela deixou crescendo aqui.”

“Você acha que ela sempre quis que voltássemos então?” Aziraphale pergunta, pendendo a cabeça para trás e olhando para cima, acima do topo da árvore delineado contra o céu azul claro que se estende além. Há tantas maçãs, e ele sabe em seu coração que sempre crescerão mais; quantas forem necessárias, para todo o sempre. “Todos nós, de todos os lados?”

“Talvez”, Crowley responde. Ele estende a maçã para Aziraphale. “Ou talvez ela só… tenha fé em nós. E esperança.”

Aziraphale sorri e aceita o fruto. “E amor?”

“E amor,” Crowley concorda com um suave sorriso.

 

 


O maior destes, porém, é o amor.

-1 Coríntios, 13:13.


 

Notes:

Todas as nomenclaturas se referindo às asas, eu traduzi conforme a nomenclatura das asas de pássaros que encontrei pela internet, portanto:
Pena de contorno - são pequenas e cobrem o corpo da ave, fazendo com que fique mais fácil de voar (eu imagino que se refira à parte que tem os ossos, a "armação" das asas dos anjos e demônios)
Bainha - estrutura temporária que protege a pena em crescimento, é aquela base da pena, que é dura e se conecta à pele.
Plúmula - ficam por baixo das penas de contorno.
Álulas - apêndice da asa de uma ave, que corresponde ao polegar e tem poucas penas curtas.