Work Text:
Kit Herondale sabia que algo não estava certo com ele. Ele só não sabia dizer precisamente o que era. Tudo o que ele sabia é que havia acabado de vomitar um cravo vermelho. O rapaz ficou encarando a flor por um longo tempo, incrédulo. Com medo. As palmas de suas mãos estavam geladas de suor.
Não era a primeira vez que algo do tipo acontecia, ao longo dos últimos meses, coisas muito estranhas estavam acontecendo. Às vezes no meio da noite ele acordava com folhas pela cama, às vezes elas saiam quando ele tossia. Porém, tossir folhas era uma coisa.
Colocar uma flor inteira para fora? Isso já era completamente diferente.
— Kit? — A voz de Jem flutuou do outro lado da porta, ele era preocupado. Também, como não haveria de estar quando Kit literalmente saiu correndo do meio do treino sem explicações alguma e se trancou no banheiro? — Você está bem?
Kit olhou com pânico para a pia do banheiro, coberta em sangue, folhas e a maldita flor bem no meio de tudo, estampando em zombaria a mesma cor do sangue.
— Hummm... sim. Está tudo bem, já vou sair.
A água desceu com uma forte pressão da torneira no momento em que ele a abriu, e engoliu o que quer que Jem estivesse dizendo. Kit apertou as laterais da louça da bancada e baixou a cabeça, tremendo por inteiro. Esperou tempo o suficiente antes de sair do banheiro.
Ao invés de voltar para o treino, o garoto atravessou os corredores de Cirrenworth Hall em direção à biblioteca e à coleção de livros de magia e doenças mágicas que Tessa e Jem haviam adquirido ao longo de mais de um século de vida. Desde que os “sintomas” — ele não tinha como ter certeza absoluta de que era uma doença mesmo — começaram, meses antes, Kit primeiro acreditou se tratar de um resfriado, uma gripe. Coisas que afligiriam a um mundano, o que ele não era. A persistência do incômodo na garganta, foi o que o fez começar a procurar em cada livro daquela biblioteca e até mesmo a ir atrás de uma ajuda no Mercado das Sombras de Devon.
Ele voltou com absolutamente nenhuma informação. O que era estranho, e isso era algo que o irritava profundamente. Kit havia vivido por quinze anos de sua vida dentro do Mercado das Sombras, fora criado lá dentro pelos submundanos e sua cultura, além do próprio pai biológico. Fora ensinado que, sempre havia uma resposta para um problema que se busca solução. Por isso era, no seu ponto de vista, inaceitável que não conseguisse encontrar qualquer coisa a respeito. Se não às doenças (ou talvez maldições) que faziam pessoas colocarem flores inteiras para fora, então, pelo menos, sobre as flores.
Pelo restante da manhã, Kit procurou livro por livro na biblioteca. Leu mais naquela manhã, do que em qualquer período de tempo da sua vida (não que ele fosse também uma pessoa que abominava livros, amava literatura e tinha uma enorme influência em casa com os pais). Passava do meio-dia quando, finalmente, ele se deparou com algo que pudesse lhe ser de utilidade. O livro tinha uma capa de tecido verde-menta, acabamento em couro e ponteiras douradas para protegê-lo que, coincidentemente ou não, combinavam com a fonte do título.
— Floriografia, a linguagem das flores. — Jem disse, caminhando com as mãos nos bolsos da calça. Ele parecia relaxado e tranquilo consigo mesmo. — Foi um conceito que os mundanos aderiram na minha época, ficou bastante popular na Inglaterra. Claro que, as fadas já se utilizavam dele muito antes do período vitoriano. Afinal, é uma criação delas. É a forma delas se comunicarem.
— Isso eu não sabia, na verdade, nem sabia o que é essa coisa de foro-flori-linguagem das flores.
Jem riu e puxou a cadeira, sentando-se diante dele. Os olhos grandes e amistosos estavam repletos de uma ternura que fez o coração de Kit contrair dentro do peito. Não era justo que ele estivesse passando por aquilo tudo (o que quer que fosse isso) e não pudesse falar com Jem, ou mesmo Tessa. Apesar de que, isso fora escolha única e exclusivamente sua.
— Você me parece bem abatido, tem certeza que está se sentindo melhor? Podemos chamar um Irmão do Silêncio, qualquer coisa, ou…
— Eu estou bem, — ele forçou um sorriso que parecesse, no mínimo, genuíno. Kit pigarreou e ajeitou a postura. — Na verdade, só estou um pouco cansado. Aí decidi vir ler um pouco ao invés de voltar pro treino, foi mal.
— Está tudo bem, — Jem o respondeu. — Então, floriografia. O que o fez querer pesquisar a respeito? Quer conquistar alguém e veio procurar quais as melhores flores?
Kit não conseguiu evitar e revirou os olhos.
— Não, eu só achei que seria interessante aprender mais sobre as fadas, sabe? Já que eu também sou parte fada, o que por si só já é bizarro demais para mim. Aí encontrei esse livro.
— Bem, como eu te disse, floriografia é um dos dialetos que existe entre as fadas tanto da Corte Seelie, quanto da Corte Unseelie. Eu digo que é um dialeto, porque fadas podem se comunicar umas com as outras através de milhares de formas de linguagem.
— O quão importante são as flores para as fadas? — Kit quis saber.
Jem franziu levemente o cenho, pensando à respeito.
— Eu diria que muito importante. Fadas estão para flores assim como os anjos estão para caçadores de sombras. Não é apenas a questão de moradia, ou mesmo linguística. Eles são componentes de um mesmo organismo, se pensar assim.
— Acho que não estou entendendo, mas continue.
— Existem inúmeras e incontáveis lendas a respeito da relação de fadas com as flores. Quando eu era pequeno e vivia no Instituto de Shangai, minha Mǔqīn me contou a lenda da hanahaki. Muito famosa em todo o leste asiático. — Kit franziu o cenho sob a menção da palavra desconhecia. — De acordo com a lenda que ela me contou, quando uma fada amava a outra, mas era algo nutrido de forma unilateral, flores começavam a nascer dentro dela. Desde o seu estômago até seu coração e pulmões. Primeiro vinham as folhas, depois os espinhos, então as flores até que tivesse o buquê completo, levando então à morte daquela fada; sufocada pelo próprio amor.
Kit ficou em silêncio, sem saber o que mais dizer. Não apenas pelo que havia acabado de ouvir, mas pelo pânico de saber que as chances de que isso do que vinha sofrendo há quase um ano, podia ser hanahaki. Todo o seu corpo gelou e ele se contraiu, uma sensação desconfortável tomou conta de Kit, o fazendo até mesmo sentir um leve vertigem.
— Você tem certeza que está tudo bem? Você está pálido.
— Um pouco enjoado com isso tudo. Como pode o amor ser algo tão belo, mas ao mesmo tempo tão cruel?
— Amor é uma lâmina de gume duplo, pode ser a cura, mas também a razão do ferimento. Cabem aos amantes saber como guiá-la. — Os cantos dos lábios de Jem curvaram-se para cima com um sorriso. — Que tal você ir descansar e depois eu te levo um chá? Acho que você está precisando disso.
— É, acho que sim. — ele não forçou a própria voz para tentar parecer bem. Subitamente, ele se sentia exausto e pior, sem esperanças alguma.
Pelas últimas semanas, Kit fez inúmeras visitas ao Mercado das Sombras em Devon, e até se arriscou a ir ao Mercado das Sombras em Londres. Procurou por fadas que moravam nos arredores e que pudessem responder suas milhões de perguntas, mas infelizmente não encontrou nenhuma. O desespero começava a tomar forma dentro dele, crescendo a cada dia que passava, como uma miosótis fincando raízes cada vez mais profundas dentro dele.
Ele estava cada vez mais convencido de que seu fim estava próximo. Podia até mesmo sentir , como se as próprias veias já não fossem isso, e sim raízes queimando todo o seu corpo de dentro para fora. Suas buscas se mostraram ineficazes e todos os dias eles acordava com folhas e mais folhas pelo quarto; pétalas e mais pétalas, cobrindo as superfícies ao seu redor.
Lentamente, a doença estava progredindo e ele temia que não tivesse muito mais tempo.
Não era irônico que ele estivesse morrendo por amor?
Naquela manhã, ele estava fraco demais, em pânico demais. Apoiado à pia do banheiro, tentando manter-se de pé quando tudo o seu corpo queria era ceder àquele peso descomunal que se assomava em seus ombros, ele encarava o que poderia ter sido um cenário de um crime. Sua pia e seu banheiro, tomados por sangue, estampando o chão e as paredes. Seus próprios lábios, pálidos, estavam tingidos pelo escarlate forte, escorrendo pelo seu queixo.
Diante dele, castanheiras cobertas em espinhos afiados e flores delicadas, branco-arroxeadas, jaziam em meio a todo o sangue. Castanheiras-do-diabo.
Meu coração escondido por espinhos.
Exceto que agora até os espinhos estavam desesperados para deixar aquele coração fadado à morte.
O puro pânico o manteve paralisado, sem saber o que fazer, ou até mesmo como se mexer. Seu corpo reconheceu o estado, aquele medo puro, e entrou em modo automático. Antes que pudesse se dar conta do que realmente estava fazendo, ele havia limpado todo o banheiro e estava em pé no meio do cômodo, sangue sujando desde os lábios até os joelhos.
Kit simplesmente não suportava mais aquilo, todo o peso sufocante, não apenas da doença, mais dos segredos e das mentiras. Ele queria apenas ceder. Deixar que o peso de tudo o esmagasse, se deixar levar pelo cansaço, como se caísse novamente no mar de Malibu e as águas geladas fossem mãos e braços o esperando para um abraço do qual, certamente, ele não largaria nunca.
Sim, ele queria aquilo.
Talvez lutar e continuar lutando, fosse inútil.
Ele fechou os olhos e por um momento, se transportou, na sua imaginação, para o mar e afundou até às profundezas escuras do desconhecido.
Magnus Bane, o Alto Feiticeiro do Brooklyn, estava usando um fraque de lantejoulas que reproduzia as penas de um pavão e os olhos dourados de gato estavam delineados com lápis azul turquesa. No instante em que Kit entrou na sala de estar, os olhos de Magnus atravessaram o cômodo e o fitaram, houve um relâmpago de reconhecimento naqueles olhos de fendas que se estreitaram, como se ele pudesse ler Kit — e soubesse perfeitamente tudo o quê estava acontecendo.
Kit sentiu um arrepio e estremeceu um passo para trás. Magnus acenou no ar e fagulhas azuis brilharam das pontas dos dedos.
— Estávamos justamente falando sobre você agora mesmo, Christopher.
— Estavam? — ele quis saber.
Magnus não disse nada, mas assentiu. Estava na cara que ele sabia que algo estava acontecendo, mesmo que não soubesse o quê. Se a convivência com aquelas pessoas em particular o havia ensinado de alguma coisa ao longo dos anos, é que não se podia esconder absolutamente de Magnus Bane. De uma forma ou de outra, ele sempre sabia de tudo.
— Recebemos agora uma mensagem de fogo de Emma e Julian, eles estão em Londres ainda. Terminaram a reforma da Mansão Blackthorn e gostariam da nossa presença para uma festa. Clary, Jace e os demais também estarão lá. — Tessa anunciou com um sorriso. — Estávamos falando justamente que seria muito bom você reencontrar com os Blackthorn.
Kit não conseguiu esconder sua surpresa, e também o seu alívio. Esperava que eles tivessem descoberto alguma coisa, não esperava que tivessem que ir para Londres. Ele sequer se dera conta, mas ainda estava com aquela expressão de surpresa, os olhos ligeiramente arregalados e a boca aberta. Jem riu de sua expressão, e apontou para a poltrona vaga.
— Por que não se senta e toma um chá conosco? Magnus estava nos contando sobre como andam as coisas na nova Academia. — Tessa falou.
Magnus assentiu novamente e mais uma vez seus olhos se acenderam com aquela fagulha de magia. Ele tomou um gole da xícara de chá. Kit sentou-se com eles e se serviu também. Durante todo o tempo em que eles ficaram conversando, Kit manteve-se absorto e quase não falou, o chá em sua xícara chegou a ficar gelado, poucas vezes ele interagiu ou falou algo. De resto, ele ficou lutando contra aquela sensação de coceira na garganta, quase como se fossem cócegas. Toda vez que ele engolia em seco, seu pomo de Adão subia e descia, e os espinhos em sua garganta arranhavam fundo, o gosto ferroso do sangue subia até a boca. Por vezes, ele sentia o peso do olho de Magnus sobre ele, o que o fazia encolher ligeiramente na sua poltrona.
— Eu lembrei que preciso subir, tenho que terminar um projeto sobre Drácula para a escola — Kit deixou a louça de chá sobre a mesa de centro.
— Li o livro.
— Vi o filme — ele completou a fala de Tessa, com um sorriso.
O garoto subiu imediatamente a escada, com o desconforto tomando conta de todo o seu corpo. De dois em dois degraus, ele chegou rapidamente ao pavimento superior e correu para o quarto, quase sem ter tempo algum de chegar ao banheiro. Quando ele se ajoelhou no chão diante da privada, começou a tossir, as folhas saíram aos montes e o sangue jorrou como um jato. Parecia uma cena de filme de terror, o sangue saia aos montes e seu corpo convulsionava com espasmos enquanto vomitava sem parar. Diversas folhas saíram, algumas repletas de espinhos. Seu corpo estremeceu quando ele sentiu que algo pior estava vindo, abrindo mais a boca e agarrando com força as laterais da privada, Kit soltou sons engasgados, com lágrimas nos olhos, forçando-se até que as flores caíssem por completo dentro da privada.
Ele abaixou a cabeça, os olhos fechados. Sua respiração estava pesada para os próprios ouvidos. Kit se jogou contra a parede às suas costas, e respirou profundamente, tentando controlar o ritmo do próprio coração. Por um longo momento, Kit permaneceu de olhos fechados. Então reuniu forças, os músculos trêmulos e fracos e se levantou, ele ousou olhar em direção à cena catastrófica e se deparou com pelo menos cinco flores em perfeito estado, boiando em meio ao sangue.
— A última vez que eu vi alguém sofrer de hanahaki, a rainha Vitória ainda estava no trono.
Kit olhou em pânico para Magnus em pé à porta do banheiro. O coração passou a socar em seu peito e ele empalideceu, o sangue que manchava seu queixo, parecia ainda mais vivo. Ele se atrapalhou com o sangue e precisou se segurar na pia.
— Magnus! Eu... eu posso explicar! — seu tom de desespero era mais do que evidente.
Magnus, contudo, não disse nada. Ele agitou as mãos no ar, as chamas azuis-turquesa brilharam no ar e o cheiro de pinho invadiu suas narinas, misturado ao cheiro almiscarado da magia de Magnus. Kit olhou ao redor, vendo que todo o banheiro estava limpo e olhou de volta para o feiticeiro.
— Eu sabia que algo estava errado, não vim apenas fazer uma visita a Tessa e Jem, por mais que eu os ame — Magnus disse. — Algo me dizia que estava acontecendo alguma coisa... incomum .
— Como você sabia? — Kit quis saber.
— Ser o Alto Feiticeiro vem com algumas habilidades extras, além de tudo, sou o filho de um Príncipe do Inferno, minha sensibilidade quanto a distúrbios anormais pelo Mundo das Sombras, até mesmo algo tão pequeno, é bem precisa.
Kit pareceu incerto por um instante, ele baixou a cabeça e gaguejou.
— Vo...você cont…
— Jem e Tessa não sabem de nada, presumi que o que quer que estivesse acontecendo, você não contaria. Vocês, Herondale e esse orgulho de acreditar que pedir ajuda é demonstrar fraqueza, quando irão aprender?
Isso fez com que Kit ficasse quieto. Magnus revirou os olhos e trancou a porta do quarto com a magia. Kit sentou-se na cama enquanto Magnus ocupava completamente a poltrona à sua frente, quase como se ela fosse um trono magnífico.
— Acredito que você tenha algo para me contar.
Kit suspirou e pela primeira vez se viu diante da possibilidade de realmente contar tudo a alguém e não ter que carregar mais esse peso sozinho. Ele abaixou a cabeça, seus ombros estavam curvos para frente, ele parecia muito menor do que realmente era e sentia-se naquele momento como uma criança perdida, aquela sensação de imensa solidão que se apossa das pessoas.
— Eu nem sei por onde começar.
— Que tal começar sobre quando você descobriu que estava apaixonado pelo Tiberius?
Kit arregalou os olhos.
— Achou mesmo que eu não havia percebido? Agora, vai em frente e me conte tudo.
Kit assentiu e então, o fez. Contar a Magnus sobre tudo foi como tirar um peso enorme de suas costas que ele nem sequer sabia que estava ali. A cada palavra, ele foi sentindo o alívio o inundar; quis chorar, não de tristeza, mas por alívio de que finalmente alguém estava ouvindo e sabendo de toda a história.
Quando terminou, eles ficaram em silêncio por um longo tempo. Então, Magnus estalou a língua e disse:
— Eu sinto muito que você esteja passando por tenta coisa sozinho, Christopher, — a gentileza na você de Magnus foi o que mais o surpreendeu. — Mas eu ainda acho que não precisa ser assim. Você poderia contar a Jem e Tessa. Na verdade, eu acho que deveria.
— Não, Magnus. Eu não posso fazer isso com eles.
— Por que não? Eles te amam.
— Exatamente por conta disso — ele levantou e caminhou até o outro lado do cômodo — Magnus, você não entende. Eu não posso fazer isso com eles. Jem e Tessa… eles já sofreram demais! E sofreram muito para tentar me encontrar. Eu não posso dar a eles mais esse fardo.
— Christopher, quando você vai entender que não é um fardo? Que contar a eles vai justamente te ajudar? Jem foi um Irmão do Silêncio por mais de cem anos, e a Tessa é uma feiticeira experiente. Eles podem te ajudar!
— Promete, — Kit disparou para ele — Promete pra mim que não vai contar nada.
Magnus ficou sem palavras por um momento tamanha a surpresa.
— Kit… eu tenho que fazer o que eu acho que é justo. Eu tenho dois filhos e…
— Nenhum dos dois é parte fada, Magnus! Nenhum dos dois jamais vai ter que saber o que é vomitar flores até quase perder a consciência!
— Ainda assim, — ele respondeu com uma careta por ter sido interrompido — Eu não posso fazer isso com Jem e Tessa. Você sabe o que a Hanahaki pode fazer.
— Promete, Magnus. — Kit sibilou entre os dentes. — Em nome de Asmodeus.
— Como você…? — Magnus semicerrou os olhos e as chamas azul-turquesa ganharam tons avermelhados, refletindo sua raiva.
— Eu ainda sou filho do Johnny Rook, tenho umas cartas na manga. Promete.
A contragosto, Magnus prometeu sob o nome de seu pai demoníaco.
— Você está fazendo uma coisa muito perigosa, Christopher.
— Eu estou fazendo o que eu acho que é certo — ele respondeu com um tom de tristeza bem evidente. — Tem que haver uma forma.
Magnus o observava em silêncio.
— Eu não deveria falar depois do que você me fez fazer — ele não se importou em mostrar que estava profundamente irritado e até mesmo um tanto decepcionado com isso — Contudo, eu não sou um monstro ou uma má pessoa. Há uma forma que você pode acabar com o hanahaki, mas eu devo alertar desde já que é extremamente perigoso e vai afetar não somente a você, como a todos ao seu redor. Principalmente Jem e Tessa.
— Mas…
— É a única forma, que eu conheça, que é possível acabar com isso. Pelo menos, por hora. Até que eu consiga descobrir uma forma menos danosa no Labirinto Espiral.
Kit engoliu em seco, olhando para os próprios pés.
— E o que seria?
Magnus suspirou.
— Há um feitiço, — sua voz pareceu estranhamente cansada, como se todos os mais de quatrocentos anos dele recaíssem sobre seus ombros naquele momento. — Há uns anos, Julian me pediu que eu tirasse seus sentimentos após a perda da Livvy e também por conta da maldição parabatai. Mas eu preciso te alertar que, você se tornará alguém completamente diferente depois do feitiço. Você não será mais esse Kit.
Ele ficou em silêncio, pensativo e apreensivo.
— São os nossos sentimentos que nos fazem ser quem somos, Christopher. São a principal e também mais forte característica humana. Sem eles, não somos nada. — Magnus se levantou e caminhou até Kit e levou a mão até o seu rosto, os dedos cravejados por anéis de pedras de diversas cores acariciaram gentilmente sua bochecha. — Você pode pensar quanto a isso, se realmente é o que quer. Quando tiver uma decisão, você sabe como me contatar. Pense bem, Kit.
E com isso Magnus o deixou a sós.
Londres estava diferente desde a última vez que ele estivera ali. Podia sentir um certo peso no ar, algo completamente asfixiante. Eles saíram do portal diante da Mansão Blackthorn, em Chiswick. Kit encarou boquiaberto toda a construção neopalladiana com colunas altas e um alto domo. Como Julian e Emma sozinhos foram capazes de reformar tudo aquilo era impressionante.
Eles entraram na casa e foram recepcionados por Julian e Emma. Havia tanto tempo que Kit não os via que pareceu como a primeira vez, exceto que agora toda aquela tensão e preocupação que ele notava nos dois quando os via no Mercado das Sombras, não existia mais.
Todos estavam lá. Helen e Aline com seus filhos, Drusilla e a amiga da Academia; Jace, Clary, e Isabelle e Simon; Cristina, Mark e Kieran. Até mesmo Ragnor Fell e Catarina Loss estavam presentes. Kit percebeu o olhar de Magnus sobre ele e encolheu os ombros. Haviam se passado três semanas desde que eles conversaram aquela noite em seu quarto. Três semanas em que Kit pôde pensar melhor sobre qual decisão tomar. Ele devolveu o olhar para Magnus, e se sentiu acalentado por toda a ternura que havia nos olhos do feiticeiro, abraçado ao filho mais novo enquanto o mais velho corria e brincava com Tavvy e Alec.
Kit já podia sentir o seu coração acelerando dentro do peito. Ele sabia que vir até aquele evento, era uma possibilidade de encontrar Tiberius. Sabia que eram altas as chances, especialmente pela época do ano. Os Blackthorn sempre presaram pelo tempo em família, afinal, quando a única família que lhe resta são seus irmãos, você se agarra a isso com todas as forças. E não seria diferente naquele Natal. Mas talvez, só talvez, Kit tivesse rezado para que Ty não tivesse ido.
Entretanto, no momento em que ele viu Ty descer as escadas, sabia que estava condenado.
Ty cujos olhos cinzentos eram um reflexo dos olhos de Tessa. Ty cujos cabelos pretos eram como penas de corvos. Ty cujo magnetismo o atraia com força sobre-humana. Ty que havia partido seu coração e renegado o seu amor.
A pessoa responsável pelo surgimento do hanaki.
Não era irônico que a causa do seu amor e também da sua morte, fosse tão belo e atraente?
Ele estava ainda mais alto, ainda mais anguloso e as sombras o delineavam, tornando-o um caleidoscópio de extremidades afiadas e também suaves. Os olhos deles se encontraram e um arrepio desceu pela espinha de Kit, como um raio atravessando todos os seus nervos. Eletrizando-o, despertando todos os seus nervos e tornando todos os seus sentidos o mais aguçado possível.
Foi como se o ar dos seus pulmões sumisse, o espaço deixasse de existir. Havia apenas os dois naquele momento e nada mais ao redor. Kit podia ouvir a própria respiração, alta e retumbante, nos seus ouvidos. O coração era batia com a força de um relâmpago no seu, e o som estourava em seus ouvidos sobre os sons da respiração. Naquele momento, era como se dentro dele, estivesse acontecendo uma tempestade com a capacidade de destruir todo o mundo e, ainda assim, ele sentia-se completamente calmo e a mercê de Ty.
Até mesmo as flores dentro dele pareciam crescer, florescendo cada vez mais e mais, envolvendo os seus ossos e os seus órgãos, com gavinhas que serpenteavam e entremeavam cada nervo, cada veia.
— Oi, — Ty disse, seus olhos através de Kit e focados em qualquer ponto do recinto.
— Oi, — Kit respondeu, sentindo-se nervoso e inquieto. Ele engoliu em seco e sua garganta contraiu-se, sentindo os espinhos arranharem-no. — Posso... posso falar com você?
Ty ponderou por um momento, mordendo o lábio inferior e mexendo nervosamente com a barra do moletom escuro. Kit o observava, ele parecia o mesmo Tiberius de anos antes, mas ainda assim... uma pessoa completamente diferente. Ty suspirou e assentiu.
— Vem comigo.
Ty passou por ele e seus dedos roçaram um no outro e seu corpo inteiro voltou a se arrepiar. Kit o seguiu e os dois subiram pelos corredores labirínticos da propriedade até chegarem ao telhado. O céu cinzento e a neve os recepcionaram. Ty se aproximou do guarda-corpo e se apoiou nele e Kit se juntou ao seu lado. O calor que Ty irradiava parecia ser mais do que o suficiente para lhe aquecer.
— O que você queria falar? — Ty quis saber.
— Lembra quando... quando eu…
— Isso é sobre quando você disse que me amava?
Kit ficou boquiaberto e sem reação. Ty olhou em sua direção, apesar dos olhos cinzentos não estarem propriamente fixos nele, Kit sentia ainda assim o peso deles. Ele finalmente assentiu.
— Sim.
— Eu imaginei que fosse. Eu fiquei esperando, todos esses anos, para saber se algum dia você falaria sobre isso.
— Você... é sério? — ele estava verdadeiramente em choque, as extremidades do seu corpo gélidas como aquela noite de inverno.
— Sim. Kit, eu... eu deveria…
Kit assentiu negativamente e tomou um passo para trás.
— Eu estou morrendo, Ty.
Tiberius ficou inumanamente imóvel e Kit temeu que ele sequer estivesse respirando naquele momento, nem mesmo suas roupas pareciam afetadas pelo vento da noite gelada. Então, muito lentamente, ele ergueu a cabeça e o fitou.
— O quê?
— Você está na Scholomance, então acredito que saiba sobre o que é hanahaki.
— A doença das fadas. — Ty balbuciou, seus olhos se tornaram ainda mais escuros. — Você tem a doença das fadas? Como e... por quê?
Haviam lágrimas nos olhos de Kit naquele momento e nem ele mesmo notou até que começassem a rolar pelo seu rosto.
— Por que você acha, Ty? — ele indagou, sua voz rouca e meio embargada pelas emoções.
— Você ainda me ama.
Kit assentiu.
— Eu não queria, achei que se me distanciasse, talvez eu pudesse deixar de te amar. Talvez eu pudesse... pudesse te esquecer. Esse foi um dos motivos pelos quais eu decidi deixar Los Angeles. Porque acreditei que estando longe de você, eu não teria que lidar com isso. Só que eu estava redondamente enganado. — ele engasgou com as próprias palavras e sentiu o corpo formigar de nervosismo. — Ficar longe de você, tentar fingir que você nunca existiu, simplesmente me destroçava por dentro. Eu nunca acreditei em amor, em como ele pode fazer a gente sentir diferentes coisas, mas descobri da pior forma toda a força do amor na nossa vida.
Ty manteve-se em silêncio.
— Eu não consigo parar de pensar em você, ou pensar que eu fui o culpado por tudo ter acabado da forma como acabou e... culpei-me noite e dia. Dizia a mim mesmo que havia estragado tudo, dito ou feito algo que houvesse arruinado tudo. Eu sempre o amei e sempre o irei amar, Tiberius Blackthorn e... eu jamais seria capaz de esquecer todo o meu amor por você, e como eu poderia esquecê-lo também? — ele disse, com lágrimas rolando pelo o seu rosto —Eu sei que você não sente o mesmo por mim e... está tudo bem, eu posso viver com isso.
Ele deu outro passo à diante, ainda falando.
— Nunca achei que estaria novamente diante do único e verdadeiro amor da minha vida e para a minha vida. — Kit chutou as pedras do telhado, tomado de vontade e um sentimento parecia explodir dentro dele. O garoto se afastou, deu as costas para Ty. — Magnus sabe.
Kit não quis se virar para ver a reação de Ty.
— Ele sabe e me ofereceu ajuda.
Tiberius parecia sem palavras.
— Não há ainda uma forma de acabar com a hanahaki, mas ele acredita que pode encontrar uma forma de me ajudar. Há um feitiço, ele disse que usou sobre o seu irmão anos atrás, quando a Livvy morreu…
— Jules se tornou uma pessoa completamente diferente e irreconhecível, sem escrúpulos ou pudor. Não sobrou nada de bom nele, Kit. Você não pode fazer isso! — a urgência na voz de Ty foi como um punhal cravado no seu coração inteiramente exposto.
— Não há o que eu possa fazer, Ty. Você não entende?
— Me deixa te ajudar, Kit! Vamos ser novamente Sherlock e Watson e vamos resolver isso. Você mesmo disse, eu estou na Scholomance, talvez exista algo lá que possa ajudar.
— E se não tiver? E se eu morrer?
— Mas o feitiço... — Ty baixou os olhos e sua voz tornou-se um sussurro quase inaudível. — Você acha que seria justo com a Mina?
Kit pressionou os lábios e assentiu negativamente. A ideia de que ele seria completamente indiferente a Mina era dolorosa demais, mas até mesmo isso era melhor do que ela o perder definitivamente.
— Vai ser para ela o mesmo que você morrer.
— Eu te amo, Tiberius Blackthorn. — Kit o respondeu. — Simples assim, da mesma forma que eu sei que jamais terei forças de amar outra pessoa em toda a minha vida. Nunca haverá ninguém que irá substituir seu lugar em meu coração, não importa o que aconteça. Eu te amo, e eu não poderia ficar mais um dia sequer guardando tudo isso dentro de mim.
— Então não faz isso. — Ty suplicou. Tiberius Blackthorn, que nunca implorava, quem dirá suplicar, estava justamente fazendo isso naquele momento. Kit sentiu-se despedaçar por completo. — Por favor, por mim.
Kit o encarou.
Então a porta do telhado abriu e Magnus Bane apareceu. O dois garotos o encararam.
— Kit? — ele o chamou. — Você já decidiu?
Kit o encarou e depois encarou Ty. Então sussurrou um último “eu te amo” e se afastou. Ele virou suas costas e começou a andar.
— Watson! — Ty exclamou desesperado e segurou o seu pulso.
