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Cura Ressaca

Chapter 14: Eu tenho o direito de me autodestruir

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“Jesus Cristo, estou tão triste o tempo todo. 

E é apenas assim que me sinto. 

Sempre senti e sempre sentirei.”Phoebe Bridgers.

 

Domingo

Seus olhos miravam o teto há algumas horas. 

Era reconfortante a visão da extensão de branco se alongando até as extremidades de cada parede. Muitas cenas nublavam sua mente. Tudo ao mesmo tempo, numa constante irrefreável.   

Pensamentos se entrelaçavam, se interrompiam, fundiam-se e se perdiam. Aos poucos, ele se entregava ao vazio, refugiando-se no abismo entre seus lençóis. A pulsação retumbando em seu peito era o único vestígio de que o sangue ainda corria por suas veias e de que ele era uma pessoa real, feita de carne e osso.

Ele estava assim desde que o pensamento lhe ocorreu pela primeira vez. 

A realização de que estava destruindo a própria vida, arruinando tudo ao alcance de seu toque, de suas palavras e de suas ações.

Eu tenho esse direito, ele concluiu. É a minha vida.  

O mais surpreendente, no entanto, foi perceber que ele não se importava. 

Que todos queimem, ele repetiu diversas e diversas vezes enquanto a chama familiar crescia em seu ventre. 

Anoiteceu, talvez.

O ambiente começava a escurecer. A luz da lua crescente, como um vagalume suspenso no céu, era cintilante o suficiente para lançar fios luminosos através da janela. A penumbra agora o escondia. E ele permaneceu imóvel. Talvez não tivesse movido nem um único músculo.

Ou piscado uma vez sequer.

Segunda-feira

Ele sabia que já era um novo dia. 

O quarto estava claro outra vez. Carros passavam na rua. Alguém batia na sua porta. E então, a porta foi aberta. Ele não ousou ver quem era. No momento seguinte, o som de algo metálico sendo colocado sobre a escrivaninha. E passos. Cada vez mais próximos. Alguém se senta ao seu lado. Uma mão em sua testa. 

— Jeno, você precisa comer.

Era a voz de seu padrasto, ele reconheceu. Seu tom grave ressoou como um zumbido em seus ouvidos.

— Por favor.

Isso era tudo. 

Mas Jeno não respondeu.

E mais um dia se passou.

Terça-feira

E então outro.

Quarta-feira

 

Depois outro.

Mais pedidos para ele comer. 

Mais perguntas sem resposta.

E mais um dia se esvaindo.

Quinta-feira

Ele se viu sendo forçado a tomar banho. Colheradas de sopa eram enfiadas em sua boca. Poucos minutos depois, ele já estava colocando tudo para fora. Ele era obrigado a beber água através de um canudo de metal que deixava um gosto esquisito em sua língua. Logo após vieram os remédios. Um atrás do outro. Pílulas que o faziam perder a consciência e adentrar um limbo de devaneios e tormentos. Ele acordava desnorteado, suando frio e tremendo, sem saber se era madrugada ou dia, sem saber quem era. 

Mais uma vez, ele era como um recém-nascido, alguém incapaz de funcionar por conta própria.

Sexta-feira

Para ele, passaram-se meros segundos. Mas não era isso o que Seungheon estava dizendo. 

— Jeno, você consegue me entender? — ele enunciava as palavras lentamente. — Se não quiser falar, por favor, balance a cabeça.

Jeno o obedeceu e,  a isso, Seungheon lhe ofereceu um pequeno sorriso. 

— Você sabe que dia é hoje? — um instante. Jeno balançou a cabeça para os lados. — Já se passou quase uma semana. Eu fiz o que pude, mas se você não está melhorando, teremos que te levar ao hospital. Você está fraco e apático. Não sou psiquiatra, mas reconheço que este não é um quadro normal. Você me compreende?

— Não. — sua voz saiu fraca e trêmula devido ao desuso. Jeno quase se esquecera da sonoridade de seu próprio timbre.  — Hospital não.

Seungheon pareceu considerá-lo. Seu conflito interno era evidente até para a mente confusa e cansada de Jeno. 

— Ok. Mas você terá que colaborar com a gente, está bem? Você vai se alimentar, sair um pouco do quarto e respirar ar fresco. Essa é a minha condição, por ora.

Jeno ergueu os ombros com descaso. Essa era sua resposta.

— Onde está a minha mãe?

— Lá embaixo, na cozinha.

— Ela me odeia?

Seungheon franziu as sobrancelhas. 

— Jeno, sua mãe te ama mais do que tudo no mundo.

As imagens vieram de imediato. O olhar aflito observando-o, as mãos gentis conduzindo-o até a banheira, a água sendo derramada sobre sua cabeça, dedos alisando e escovando seus fios de cabelo. Mas ele não sabia se podia confiar nessas imagens, poderia ter sido um de seus sonhos. 

— Doyoung me odeia.

— Isso também não é verdade. Seu irmão te ama e está preocupado com você, todos nós estamos porque te amamos e queremos te ver bem.

Jeno desviou o olhar. Não queria mais falar.

Um suspiro. 

— Termine o seu café da manhã. 

Sábado

A porta se abriu com um rangido alto que o fez se sobressaltar na cama. Somente a cabeça de Seungheon estava visível quando ele anunciou: 

— Donghyuck está aqui.

Ele esperou e, por um momento, Jeno só olhou para ele. Não sabia o que dizer. Não queria ver Donghyuk, sentia-se demasiadamente envergonhado para isso. Mas mandá-lo embora seria ainda pior. 

— Pode deixar ele entrar. 

Seungheon assentiu e sua cabeça desapareceu com o fechar da porta. 

Os dois sentaram em silêncio.

Jeno nunca vira Hyuck tão quieto antes. Era desconcertante, um cenário novo e sutilmente assustador. Ele mesmo não sabia como proceder, era como se a pessoa que ele era há uma semana já não existisse mais. 

— Acho que eles vão me internar num hospício.

Jeno tentou interromper o silêncio com uma piada, mas ele sufocou o próprio riso ao perceber que o rosto de Donghyuck manteve-se impassível, sério e frio. 

— Isso não é engraçado.

— Desculpe. 

— Porra, Jeno, eu pensei que você tivesse se matado. — Donghyuck desabafou com um misto de pesar e irritação. — Você estava agindo de forma estranha antes e aí você sumiu. E parou de me responder. Eu achei que… Eu fiquei lá te esperando no estacionamento por mais de meia hora e aí do nada, a sua mãe me liga perguntando se eu sei onde você está? Sendo que era para você estar ali comigo? Eu fiquei desesperado. E agora estou com raiva de você e de mim mesmo, porque eu não deveria estar com raiva de você depois de você ter tido um surto psicótico.

— Eu não tive um surto psicótico.

— Jeno, você ficou deitado nessa cama, sem comer, sem fazer nada por dias. Você parecia um zumbi. Eu mesmo vi. Estive aqui na terça-feira, você lembra?

— Não. Não me lembro de quase nada.

— Pois é.

Silêncio. De novo. 

— Eu sei que eu disse que ia respeitar o seu tempo e que você poderia me dizer quando estivesse pronto, mas o que aconteceu? — ele pausou, recuperando-se com uma respiração profunda. — Desculpe. Estou ficando com raiva de novo. Sinto como se você tivesse passado dos limites e me devesse uma explicação. Eu não queria me sentir assim, mas… Isso não foi legal comigo. Cara, nem mandar uma mensagem depois para explicar? Porque antes de tudo isso eu sei que você foi para casa do Jaemin… E eu sei que estou sendo meio injusto. Mas sei lá. Você é meu melhor amigo. Eu faria qualquer coisa por você.

Jeno ponderou por alguns segundos. 

Ele não tinha mais nada a perder. 

— Eu vou te contar tudo.

— Ok, mas eu não quero te pressionar.

— Não, tá tudo bem. Você precisa me conhecer de verdade. Você precisa saber que eu sou um ser humano horrível.

E então ele contou. Sobre Mark. Sobre o que eles fizeram. Sobre tudo. Quase tudo. Donghyuck o escutou com devota atenção.

— Olha, eu não vou mentir. Essa história é sim horrível, mas vocês eram crianças. Isso não é uma desculpa. É só a realidade e vocês deveriam se responsabilizar por isso. É o único jeito de consertar a situação e não carregar essa culpa para sempre...

— Você não está me entendendo. Eu quase deformei a cara do Renjun no ano passado. Perdi o controle em uma briga.  

— Jeno-

— No dia da festa de Jisung, eu ataquei a minha mãe e disse coisas horríveis para ela e agora ela tem medo de mim.

— O que você quer me dizer com isso?

— É melhor você se afastar de mim… Eu tenho esses momentos que eu perco o controle. Quando sinto raiva, eu ataco as pessoas. 

— Okay…

— O próximo pode ser você.

— Você não vai conseguir me afastar dizendo essas coisas, Jeno.

— Só estou falando a verdade. Está no meu sangue, sabia? Somos uma família problemática. Meu pai era um maluco viciado. Ele vivia surtado. Vivia dizendo que ia se matar na nossa frente. Nos dias em que ele sumia, Doyoung e eu ficamos especulando se ele estava finalmente morto. Mas ele sempre voltava. E cada dia que passava, ele não parecia ser mais a mesma pessoa. Vivia dizendo coisas sem sentido. E um dia ele saiu e jamais voltou. Não sabemos se ele está vivo ou morto.

— Eu sinto muito, Jeno.

— Doyoung acha que ele está morto. Mas ele só diz isso da boca para fora. Eu sei porque ele usa aquele suéter horroroso que era do nosso pai todo natal. É a única coisa dele que ainda existe. A única lembrança. Eu não me lembro de quase nada, mas Doyoung sim. Ele se lembra de tudo.

Jeno se viu incapaz de calar a boca.

— Há uns anos o Doyoung também surtou. Acho que agora é a minha vez, né? O sangue do meu pai  é venenoso, amaldiçoado. Minha mãe me odeia porque eu sou igualzinho a ele. Nós dois não prestamos para nada. Ele me amaldiçoou. 

Uma pausa.

— Eu odeio o meu pai.

Entre um suspiro, ele complementou baixinho:

— E eu sinto a falta dele.

Notes:

Essa fanfic está originalmente postada no Spirit Fanfiction no meu username (@nekkoma).