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O Tear das Parcas

Chapter 29: Uma última carta antes do verão acabar

Summary:

E aqui está - O capítulo final!
Agradeço todos vocês, nobres semideuses que aqui chegaram! Obrigado pelos comentários, favoritos e toda força! Espero que tenham se divertido com a história de Mitchel Faircreek. Quem sabe nos veremos no futuro? Só as Parcas podem dizer.
Um abraço em cada um, boa leitura.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

XXIX - Uma última carta antes do verão acabar

Explicar a história a tornava menos crível, ao menos essa era a impressão conforme Mitch a narrava diante da fogueira a frente de todo o Chalé de Hermes. 

Os campistas de todas as idades os assistiam, atentos desde que chegaram guiados por Hécate, tendo se materializado às portas do Chalé 20. A deusa não ficou muito, tendo apenas acariciado a cabeça do filho e recuado para a escuridão mais uma vez.

Os três se alternavam, ambos ladeados por Quíron e pelo Sr. D, que tomava uma coca diet despreocupadamente. Ele ouviu orgulhosamente as partes sobre sua esposa Ariadne, pedindo um bis umas três vezes até o centauro censurá-lo.

- E então nós saímos de Nova York após o confronto com Aëetes, fomos até Boston, onde umas…Acho que eram esfinges? - Mitch falava, recebendo um assentir de Hesper. - Sim, elas tentaram nos matar, mas cada um deu cabo da sua. Eu meio que fui abduzido mentalmente por minha mãe, ela explicou que havia roubado meu fio do destino…

Os filhos de Hermes começaram um murmúrio, embasbacados pelo poder da deusa do roubo. Sem dúvida comparando-a com seu pai olimpiano. Quíron os mandou calar a boca não muito depois.

- Nós fomos para Bar Harbor, que estava meio que sob efeito de uma epidemia de miasma. - Mitch falou, parando e fitando a caçadora de Ártemis, que gesticulou para que ele progredisse no relato. - Nós identificamos a fonte com a ajuda de Leto, pois ela sabia onde o cálice de Hélio estava. E era tipo, o mesmo cara: Títio . Daí eu roubei o copo, Icarus e Hesper enfrentaram o gigante e o mataram. Foi mais Hesper, eu acho.

Icarus assentiu de acordo, os filhos de Apolo e as caçadoras presentes no acampamento deram vivas e bateram palmas. Hesper sorriu para seus irmãos e irmãs, assentindo.

- Vivemos por pouco. - comentou Icarus, cruzando os braços. O casaco coberto de olhos parecia fitar o ruivo atentamente. A boina sobre os cabelos loiros tomava o lugar de seu perdido chapéu de palha. - Mas de lá, após libertarmos Vírbio, rumamos para Salém e encontramos umas bruxas que tinham uma entrada para o Mundo dos Mortos.

- Icarus nos guiou muito bem lá. - Hesper interviu o relato, o garoto enrubesceu. - Amaldiçoou Aëetes, guiou o copo de Hélio e nos ajudou a achar Laverna na Ciméria. Nós a…

- Nós a roubamos. - Mitch mentiu, decidindo ocultar por fim que sua mãe havia ajudado-os tanto no fim das contas. Ela tinha uma reputação terrível a zelar, afinal. - E obtivemos espólios úteis, as armaduras com que viemos. Pegamos meu fio também, é claro. De lá, meu filho de Hécate favorito tornou a viagem um passeio.

- Um exagero. - disse o conselheiro-chefe, recebendo assobios de seus irmãos. - Mas exploramos todas as três regiões onde os espíritos mortais vagueiam. No fim, achamos Admeto e Alceste, que nos guiaram para o esconderijo das Parcas.

O trio se entreolhou, ambos assentiram para que Mitch continuasse a contar.

- Lá nos demos conta que o local inteiro era o tear delas. Estávamos bem perto do Caos Primordial, para falar a verdade. - a multidão inteira murmurou, as chamas se agitaram ao redor deles. - Eu sei, né! Foi doideira! Mas logo Aëetes chegou botando fogo em tudo, com uma carruagem puxada por fênix e essas porras todas!

- Nós o enfrentamos, Icarus e eu. Enquanto Mitch rumou para a última das câmaras, indo reparar o remendo das Parcas que o mantinha vivo como um aoros. - Hesper abraçou seu próprio tronco. - Nós o ferimos, mas não fomos capazes de destruí-lo. Ele alcançou Mitch que…

- Eu matei uma fênix sozinho, de nada. - o filho de Laverna deu um sorriso convencido, a multidão no anfiteatro deu risada. - Fiquei lá com as Parcas, aceitei que ia dar merda e elas repararam o dano na trama. E depois disso, foi aí que ele me matou, de novo. Depois eu lembro bem pouco, meu espírito ainda estava lá, eu acho. Icarus e Hesper…

- Nós trucidamos o cara, mas ele sempre se levantava. Ia destruir o trono das Parcas e tomar todo aquele poder para si. - a voz de Icarus ficou carregada. - Teria sido uma catástrofe.

- Mas Mitch retornou. - Hesper interpelou eles. - Ao menos, como um phasma. E juntos, o destruímos diante das Parcas.

- E missão cumprida, galera! - Mitch encerrou o relato, recebendo aplausos dos presentes.

Quíron propôs um brinde coletivo, o que fez todos erguerem os cálices e bradarem em vitória. Muitos vieram cumprimentar os três meio-sangues, um a um.

A.J. deu um abraço apertado em Mitch que fez seus ossos estalarem, Joshua do Chalé de Apolo o cumprimentou junto a Will e os demais. Carlo e Nigel do Chalé de Hebe ofereceram travessas de comida. Mitch surrupiou alguns biscoitos e agradeceu.

Ephraim e os filhos de Hermes se encaminharam, trocando abraços com o filho de Laverna e dizendo: - Quer dizer que vocês tão namorando mesmo, é?

- Hã… - Mitch fitou o feiticeiro não muito longe dele, sendo cercado pelos irmãos. Ele corou e deu de ombros. - Algo assim?

Anya deu risada e negou com a cabeça: - Cara, tu tem um gosto engraçado.

- Icarus é legal. Um amor de pessoa, gente. - ele falou, meio zonzo de súbito. - Deem uma chance a ele, ok?

Ephraim assentiu junto a Anya e Lionell, que deu um tapinha no garoto e articulou umas palavras em inglês: - Eu reclamado. Filho de Hermes! - o espanhol deu um sorriso largo para ele.

Mitch piscou e fitou os demais, encarando a feição desafiadora de Anya e vendo-a assentir, dizendo: - E eu, Nike. Tá-dá!

Ele os abraçou mais uma vez, trazendo-os para um abraço coletivo recheado de risadas. Estava genuinamente feliz por eles, afinal.

Ao lado do britânico, Icarus foi aclamado pelos irmãos mais novos com tapinhas nas costas e risadas.

Samantha gritou: - AAAH, eu quero tanto ir ver mamãe no Mundo Inferior!

- É, nos leve lá depois, Icarus! - disse Abraham, cruzando os bracinhos.

O feiticeiro deu risada e avistou Tabitha no meio dos pequenos. Ela os tomou pelos ombros e disse: - Tenho certeza que Icarus nos ensinará como fazer isso em breve, não é, irmão?

O filho de Hécate abraçou os irmãos coletivamente e deu risada.

- Quem sabe um dia, né.

O garoto se afastou deles, avistando algo na varanda do seu chalé.

Duas figuras, vestidas em túnicas negras como as que ele usara no Mundo Inferior. Os rostos deles estavam ocultos pelas máscaras de riso e tristeza, os cabelos eram escuros como fumaça em movimento e a pele era cinza, salpicada como cascalho.

Icarus parou diante deles, fazendo uma mesura.

- Khairete, Gelos kai Phrike. - “Saudações, Risada e Horror” ele reconheceu os Deuses, diferentes de seus daimones, que eram meros fragmentos dos poderes daquelas divindades. - É um prazer conhecê-los em pessoa.

- Criança de Hécate, você encarou suas alegrias e tristezas na sua jornada. Que grandioso, não acha? - disse Gelos, com uma voz masculina recheada de uma zombaria involuntária. - Estamos aqui em nome de sua mãe, ela achou cabível a recompensa.

Friquê, que estava tremendo, falou com uma voz bem mais aguda e feminina que sua antiga sombra: - Ela reconhece seus esforços e o nomeia uma de suas honrosas lampades-em-treinamento. E lhe presenteia com isso.

Os espíritos abriram as mãos, revelando uma chave escura feita de Ferro Estígio, um modelo bastante antigo. Havia também um strophalos com seu símbolo labiríntico e um par de serpentes feitas de escuridão, entrelaçadas como em um bracelete.

- Ela confia que os usará s-sabiamente… - Friquê completou. - Essas pequenezas aqui são presente nosso, entretanto.

Ela apontou para as serpentes, grunhindo em seguida.

A voz sarcástica de Gelos o envolveu em seguida.

- Como venceu nossos daimones de modo justo e eles aceitaram estar contigo mesmo quando os libertou, os presenteamos de volta a ti. Você acha que fez mesmo por merecer, criança?

Icarus aceitou os presentes e falou, resoluto.

- Sim. - ele assentiu com a cabeça e disse: - Obrigado, meus senhores.

As divindades se entreolharam e assentiram, desvanecendo em seguida.

Icarus sentou-se na varanda e deixou a sensação assentar em seu peito. Ela parecia nova em folha. Como uma fresca agradável em seu âmago.

Era orgulho de si mesmo, mais firme e centrado do que antes.

[...]

Hesper caminhou entre as ninfas da acampamento, sendo seguida por algumas de suas irmãs caçadoras. Havia entre elas Rochelle, Thalia e Hunter. Elas haviam chegado ali nos últimos dias, as demais estavam no Bosque, pelo que ouvira.

- Algo que não entendo, ainda, é porque as Parcas deixaram seu amigo voltar… - falou Rochelle, balançando as pernas sobre a água do lago de canoagem. - Quero dizer, um ovo de fênix?

As outras caçadoras olharam Hesper com expectativa, ela meneou com a cabeça e disse: - A minha teoria é a seguinte…Mitch originalmente destruiu os planos de Aëetes e forçou-o a tentar novamente, correto?

Elas assentiram.

- Então tipo, nesse novo ciclo que começou por causa de Laverna, ele se viu forçado a enfrentar o Rei-Bruxo de novo. E dessa vez, nós conseguimos prevenir que ele conseguisse os itens necessários, um após o outro. O que o colocou em uma rota alternativa: Invadir o Além no dia mais claro com uma fênix monstruosa. - ela meneou com a cabeça, lembrando-se da criatura. - Uma fera que transcendia a vida e a morte, perfeita para invadir o Submundo. 

- A oferenda perfeita. - Thalia comentou, divagando enquanto observava o anoitecer sobre a Baía de Long Island. - Elas não dão ponto sem nó, mesmo.

Hesper assentiu, se sentando: - Não dão mesmo. E no fim, conseguimos consertar tudo que estava fora do lugar. Fico feliz.

- Bem, você sobreviveu a semanas inteiras cercada de homens, querida. - Hunter comentou, já dando risada. - Não há provação maior.

As demais continuaram a dar risada, Thalia apenas revirou os olhos.

- Mitch e Icarus são pessoas ótimas, minhas irmãs. - ela respirou fundo. - Fico honrada que Ártemis e meu pai me encaminharam para essa missão.

Rochelle estalou a língua e disse: - É…Sobre isso. Acho que te devo um pedido de desculpas por antes.

A garota a fitou, se sentando na madeira e brincando com os pés na água fria. Rochelle tomou suas mãos e a fitou com os olhos lacrimejando: - Sinto muito se duvidei de você enquanto caçadora antes, eu–...

Hesper a puxou para um abraço sincero e apertado. Ela respirou fundo e apreciou o instante de sinceridade entre as duas. Thalia e Hunter soltaram muxoxos zombeteiros.

A filha de Apolo cutucou o rosto da irmã de caçada.

- Está tudo bem. - ela deu de ombros e disse em seguida: - Sei bem quem eu sou. A heroína que sou. Todas nós somos. Meio-sangues, caçadoras, todo o resto. 

As demais bateram palmas e a puxaram para um abraço coletivo, dando gritos de guerra que puderam ser ouvidos noite adentro sob o véu das estrelas.

Hesper soltou os cabelos e se estirou no caís, tranquilamente.

Ela pensou nas cartas que escreveram e se perguntou se Orfne e Simaeta haviam distribuído cada uma. Torceu para que sim, no fim. 

Se sentia em casa perto delas, acolhida e forte.

Mal podia esperar para se juntar à caçada novamente.

Mas havia algo que ela precisava cumprir, antes.

[...]

Os três se encontraram em seu canto particular quando a maioria já havia ido dormir, tendo passado juntos pelo riacho e alcançando o Canto das Melissai novamente, eles avistaram as ninfas-abelha reluzindo como pirilampos ao redor da árvore ao centro.

Um cheiro adocicado emanava naquele recanto oculto da floresta, os meio-sangues apreciaram o silêncio em conjunto, encostados no tronco, com Mitch no centro rodeando os ombros de Icarus.

Hesper soltou os cabelos e relaxou, observando as abelhas voando por suas cabeças, já se encaminhando para suas colméias.

Eles não deveriam estar no Bosque depois de escurecer, mas Mitch precisava de um tempo para processar sua mais recente morte-e-ressurreição.

Sentir a forma de Icarus contra seu corpo esguio e ouvir o murmúrio harmonioso de Hesper foi acalmando seus pensamentos, que estavam a mil por alguns instantes. O ruivo já havia repassado toda sua missão na mente umas três vezes quando finalmente decidiu abrir a boca.

- Acho que quero me aposentar aos dezessete.

A gargalhada que emergiu de Icarus foi grave e pesada, seu rosto alcançando o pescoço do filho de Laverna e ali descansando. Hesper apoiou a cabeça nas mãos e continuou a cantarolar, rindo vez ou outra.

O vento balançou a copa das árvores, as estrelas ficavam visíveis na folhagem.

O silêncio entre eles era repartido com a natureza circundante. Cada suspiro harmonizando com uma brisa levada ao estreito de Long Island. Mitch apreciou o momento, se perguntando como seus amigos estavam em Nova Roma.

- Quando comecei isso aqui, não imaginava que fosse acabar do jeito que acabou.

- Você pensou que fugiria dos problemas. - adivinhou Icarus, recebendo um assentir do ruivo. - Fez mais foi correr em direção a eles, na minha opinião.

- Mitch, você lembra de como foi a sensação…?

A pergunta de Hesper o pegou com a guarda-baixa, seu tom de voz cauteloso o fez pensar em sua morte. Ela estava perguntando sobre aquilo.

- Foi chocante, e então, pacífico. Como tensão suprema, e então, alívio, mesmo em meio a dor. - ele deu de ombros, os olhos vagando para o escuro. - Eu confiava que, mesmo que minha hora tivesse chegado, vocês ainda iam dar um jeito. E deram.

Um sorriso breve brotou no rosto de Hesper.

- Vocês foram malucos de oferecer sua vida por mim.

- Maluco é você de achar que, a esse ponto, alguém ia recuar e te ver morto. - Icarus deu um cutucão na cintura do semideus, que ficou envergonhado e não conteve um sorriso. - Eu amo você, entendeu? Não me faça me repetir.

Hesper tampou o nariz e fez a melodia de Careless Whisper, o que rendeu gritos dos dois garotos para que ela parasse. A filha de Apolo gargalhou tão alto que começou a rolar na grama, os meninos a acompanharam em risada depois. 

A cintura de Icarus foi abraçada pelo ruivo, que deixou um cálido beijo em sua orelha, na bochecha e no seu pescoço. Ele se afastou sentindo cócegas e respirou fundo. 

- Até quando tu fica aqui, amiga? - perguntou o filho de Hécate.

- Receio que terei que dispensar a escapulida no cinema, meninos. - ela os encarou, o rosto repousando no punho. - Ártemis nos buscará lá para quarta. Então temos uns três dias juntos.

As sobrancelhas de Mitch se abaixaram.

- Oh…Você volta?

- Provavelmente daqui há algumas semanas, sim. - ela falou, divagando. - Títio agitou os monstros com todo aquele miasma dele, eu e as meninas acompanharemos a Deusa na caçada. Pelo visto os sciritae que sobreviveram fugiram e estão causando confusão.

- Oh, adoro matar homem-cobra, posso ir?

- É perigoso, Mitch. - a filha de Apolo falou. - Mas as caçadoras dão um jeito. Nós devemos passar por aqui de novo na volta. Conquanto estejam aqui pelo resto do verão, nos veremos.

- Eu não vou a lugar algum. - Mitch deu de ombros. - Quero dizer, a não ser em algumas escapulidas com meu namorado lampade aqui.

Hesper deu risada: - Então, é verdade?

Icarus assentiu: - Ela até me deu a chave. Com ela, posso ir até lugares sagrados para minha mãe. O que pode, hã, facilitar a visita a Nova Roma…

- É, bem, Hécate tem um templo lá. Com muitas portas, de onde um feiticeiro suspeito pode brotar de vez em quando. É melhor eu ficar de olho. - o sorriso de Mitch era largo e bonito, os olhos cintilando de alegria. - Mal posso esperar para apresentar vocês ao pessoal.

Hesper deu um sorriso bonito para os dois.

- Estou feliz de ter vivido essas doidices com vocês, meninos. 

Ela se pôs ao lado deles e se juntou ao abraço com Mitch.

Os braços do garoto os trouxeram para perto, seus rostos se juntaram aos dele.

- A gente tem muito mais doidice para viver, então se acostume, Lapointe.

Hesper gorgolejou uma risada, Icarus suspirou de tranquilidade.

Mitch assistiu as estrelas como se pudesse ver seu destino escrito nelas.

Naquele instante, tudo parecia bom.

[...]

 

Caro Rhys, 

Escrevo essa carta com mais tranquilidade no coração do que escrevi pela última vez. Se está lendo isso, bem, surpresa! Eu não morri, bem, ao menos não permanentemente! Minha viagem ao Submundo foi um sucesso total, Aëetes virou purpurina rodopiando no Abismo do Caos e agora eu estou curtindo minhas férias do lado grego aqui na América.

É estranho pensar em tudo o que passamos para poder chegar aqui - Vi minha mãe pessoalmente, ela era dantesca e espertona. Vi a danação eterna, a quietude eterna (Asfódelo é a parte mais entediante, sério) e também o Paraíso, que tinha cheiro de churrasco e perfume, combinação estranhamente agradável por sinal! Deuses, precisarei ter uma conversa com Lance sobre seus pais lá no Elísio, eles pareceram tão orgulhosos. Mas isso pode esperar...Algumas coisas dentro de mim ainda estão sendo assimiladas, sabe como é, né? Coisa demais para fazer depois de ressuscitar!

Ao menos estou aproveitando meu descanso com os amigos.

Hesper e eu passeamos pelo Bosque do Acampamento Meio-Sangue juntos, ela me mostrou todo tipo de monstro que já havia caçado, os que ainda não caçou e então acabamos perdidos por algumas horas porque me distraí com uns brilhantes que fui achando. Quem diria que os semideuses perdem tantas coisas por aqui numa floresta infestada de monstros, hein?

Enfim, tivemos que lutar contra um ninho inteiro de serpentes-aladas juntos, mas achamos o caminho de volta são e salvos! Pela maior parte, é claro, Hesper meio que me salvou de morrer pelo veneno.

Ela é a melhor, sério. Aquela caçadora vai longe no que decidir na vida.

E pelo que me falou, está bem mais tranquila e decidida sobre seguir seu caminho ao lado de Diana —perdão, Ártemis. Eu a invejo na determinação, ainda nem sei o que fazer quando acabar o ensino médio.

Ugggh, escola. Eu sou horrível nela. 

Mas deixemos os assuntos ruins para depois.

Icarus e eu fizemos um monte de coisa juntos pelos dias seguintes, explorando o acampamento, nos beijando diante do laguinho de canoagem, passeando de mãos dadas durante as inspeções dos chalés, nos beijando diante do anfiteatro….Entre outras coisas legais e muitos outros beijos.

Eu tentei até fazer uma cerâmica bonita para ele como presente de Ei, você aceita ser meu namorado? , mas minhas habilidades manuais são uma droga, menos pintura. 

Então eu roubei um jarro bonito que Malcolm de Atena havia feito e o dei de presente, depois de pintá-lo de preto e com pequenas caveiras se beijando com um coraçãozinho. 

Icarus amou, por sinal. 

“É horrendo, adorei” - ele disse, em nosso encontro. Assistimos um filme de terror antigo onde havia uma bruxa estranha que era na verdade um polvo (Icarus escolheu o filme, ele é meio metido a cinéfilo). Ele me beijou e disse também: “E aceito. Quero passar tanto tempo quanto tiver contigo. Acho que você é minha pessoa favorita”

Então, real oficial, estamos namorando. Só reforçando: Eu sou TÃO gay, pai. 

Malcolm ainda não me perdoou pelo roubo e prometeu me esmagar durante o próximo “Capture a Bandeira”, mal posso esperar para chutar seu traseiro! Ele nem vai me ver chegando! Icarus e Hesper dizem que eu sou terrível, mas eles dão risada mesmo assim. Acho que eles me amam mesmo, no fim das contas.

É recíproco.

Icarus está ansioso com esse negócio de ser um “lampade” oficial, diz que vai ter que estudar muita coisa sinistra se quiser ser uma das ninfas sombrias de sua mãe um dia. Eu não sei o que tem de tão legal nisso, mas ei, vou apoiá-lo no que quer que seja! Mesmo que envolva necromancia, magia sombria e guiar almas perdidas para o além.

Hã…Mal posso esperar para que você o conheça, ele é um doce, que nem eu (Ha-Ha).

Ele disse que iremos conhecer seu pai em breve. Eles têm se falado mais, pelo que entendi. Icarus tem estado mais aberto com os sentimentos dele, o que é ótimo. Eles precisam se acertar com um monte de coisa.

O que me fez inicialmente pensar em mandar essa carta para o senhor, na verdade.

Eventualmente o verão vai acabar, mas consegui negociar uma escapulida com Quíron. E com negociar eu disse que ia “ir ali em Nova York para uma viagem com Icarus, negócio de lampade super-oficial”. E agora estou na Costa Oeste.

Ok, eu preciso voltar as sessões com a dra. Mallory, sei que meus maus hábitos estão firmes e fortes. Mas…Para falar a verdade, estou tão feliz.

Agora, estou por aqui em Alameda, na casa de um amiga feiticeira minha. Espero poder visitá-lo nas minhas próximas férias, talvez durante o recesso de Inverno. Ouvi dizer que o senhor reformou a fazenda.

Mitch parou de escrever por alguns segundos, ele estava sentado no jardim da casa de Prim, com Icarus ao seu lado tomando um chá preparado pela feiticeira mais velha.

Hesper, que havia escapado junto deles, os olhava preocupada: - Tem certeza que sua chave pode nos levar de volta?

Icarus deu de ombros e ajeitou o novo chapéu de palha sobre a cabeça.

- Ela nunca me falhou. Além do mais, a srta. Crysanthos pode me ensinar algumas coisinhas sobre ser um feiticeiro. Ela tem bem mais experiência do que eu. Então estou tecnicamente em uma missão de aprendizado, não é? Podemos tornar essas visitas um costume… - murmurou o garoto, vendo a forma de Prim se aproximar com uma travessa cheia de sanduíches em miniatura. Seu sorriso bonito combinava com a pele escura e o vestido amarelo florido que usava. - Muito obrigado!

- Acho que Mitch está passando tempo demais contigo. - murmurou a filha de Apolo, logo aceitando um dos sanduíches. - Já tá mentindo igual.

Prim deu risada e se sentou em uma cadeira, lá dentro, Imann, sua namorada, cantarolava algo em indiano.

- Com certeza tenho mais algumas coisas a ensinar a ti, Asato, desde que me fale como ficou tão habilidoso com necromancia. As histórias que Mitch relatou foram bem…interessantes.

- Ele é exagerado. - o filho de Hécate corou, recebendo uma bitoca do namorado. Rubor tomou sua face, mas ele retribuiu o beijo breve.

Mitch fechou o caderno e aceitou o chá, ela fazia os melhores.

- Você é humilde demais para seu bem. - disse o ruivo, animado e apreciando o gosto do chá em seguida. - Amo camomila e canela, Prim, você é dez!

A legado de Hélio lhe ofereceu um sorriso, sua namorada de longos cabelos cor de chocolate, Imann Madhukar, caminhou até a varanda e disse: - Olha só quem chegou!

Eles se viraram para a entrada, vendo o semblante alto de Lance Giordano, legado de Tempestas, bem diante do portão. Mitch sorriu e foi até seu centurião, já abrindo-o e vendo o rosto belo de Liv Madhukar, legado de Baco, ao lado dele. Distante dos dois e com um sorriso pequeno e tímido, estava Connie O’Sullivan, sua amiga filha de Marte.

Uma sessão de abraços esmagadores se formou.

Os legados e semideuses partilharam de bebida, risadas e histórias trocadas.

Lance narrou as últimas missões onde tiveram que lidar com ogros lestrigões organizados, aparentemente, uma gangue imensa de gigantes liderados por um sinistro rei chamado Antífates. 

Connie foi em detalhes sobre as táticas que eles usaram para enfrentarem os lestrigões. Liv disse: - Eu ignorei metade do plano e improvisei.

- É tão sua cara, Liv. - disse o filho de Laverna, trocando soquinhos com elu enquanto Connie e Lance os lançavam olhares reprovadores.

Prim logo começou a contar de como estava sendo lecionar na Universidade de Nova Roma, se encontrando com Imann apenas nos fins de semana conforme ambas tentavam encaixar suas rotinas havia sido um desafio.

Mitch assistiu tudo com atenção e recontou toda a sua aventura ao lado dos amigos, sendo interrompido toda vez que metia um detalhe novo como “Aëetes explodiu em mil pedacinhos!” ou “Hesper fatiou Títio que nem presunto!”, então a história ficou menos emocionante que o costumeiro.

Depois, todo mundo começou a partilhar histórias ruins de tudo que Mitch já havia roubado de cada um deles. Ele escondeu o rosto de vergonha na maior parte do tempo e deu alguma risada afoita aqui ou acolá.

Conforme a noite foi passando, ele assistiu Liv e Icarus discutindo seus gostos em filmes, Hesper ensinando técnicas de arco a Imann e Connie. Entre outros ótimos momentos, onde ele apresentou o dragão de estimação de Prim, Astris, aos seus amigos. Ele apenas vomitou fogo e voltou a dormir, tendo sido desperto a contragosto.

Ele se sentou-se na varanda, disposto a finalizar sua carta.

Lance estava ao lado dele, de braços cruzados e com uma expressão estoica no rosto.

- Conheço essa cara… - Mitch falou, inclinando o rosto para o amigo. - Fale o que é.

- Nada…É só que… - ele fitou Liv e Hesper fazendo uma competição de arco-e-flecha. O centurião sorriu. - Você parece diferente. Se sente diferente, pequeno?

- Primeiro, eu sou maior que você há quase dois anos, Lance. - o outro deu risada, Mitch exibiu um sorriso e relaxou ao avistar Icarus fitando a lua no meio do jardim. - E sim, estou diferente. Acho que estou feliz, feliz pra valer, meu irmão. É bom poder se acostumar com as coisas boas, entende?

O silêncio confortável de Lance foi enfeitado por seu assentir de cabeça.

- Também estou bem. - compartilhou, a voz séria fazendo uma sensação de conforto quente aflorar no âmago de Mitch. Ele sorriu para ele e o abraçou com força. - Você faz falta.

- Volto já, não chore.

Lance deu uma risada trovejante.

Ele deu um tapinha firme em seus ombros e caminhou até Liv, abraçando-ê e fitando Mitch de longe. Prim fez o mesmo, os olhos reluzindo em um dourado cálido como uma lareira. Todos com aquele olhar de “pais orgulhosos” que ele já não suportava, mas amava mesmo assim. Eram sua família, ao menos, uma parte dela agora.

Hesper e Icarus o ladearam não muito depois, com o feiticeiro declarando: - Está quase na hora de irmos.

- Seus amigos são muito legais. - a filha de Apolo comentou. - Connie daria uma excelente caçadora.

- É, aposto que sim. - ele murmurou, rindo.

Mitch pegou seu caderno entre os dedos e fitou-se rodeado de um monte de gente que amava. Ele respirou fundo e observou as chamas das velas dispostas pelas mesinhas no jardim.

- Obrigado por virem. Amo vocês. 

O dizer de Mitch os envolveu, tal como o abraço que se firmou no instante seguinte. Eles respiraram junto uns com os outros, rodeando-o com seus braços conforme ele escrevia as últimas palavras.

Mitch deixou seus lábios encontrarem Icarus, o beijo aquecendo o frio singelo da noite californiana.

O braço dele trouxe Hesper para mais perto, a contragosto da garota. Ele a abraçou com a certeza de que sempre estariam na vida um do outro.

Ambos deram risada, ele voltou a escrever depois de um longo suspiro.

 

A vida de um meio-sangue é sempre imprevisível, vocês todos me ensinaram isso.

Exatamente, tu, Rhys Faircreek, me ensinou muita coisa boa. Quase tudo de bom valor que há em mim, acho que veio do senhor (digo isso depois de até conhecer minha mãe, preciso lhe contar tanta coisa!). 

Mas acho que estou pegando a manha de como ir guiando meu próprio caminho. Não sou nenhum filósofo, mas acho que é tudo sobre as conexões que fazemos: Com nós mesmos, com nossos entes queridos e com todo mundo nessa estrada imensa na vida.

Meus vínculos me salvaram e me salvarão muitas vezes. 

E eu amo quem estou me tornando. Amo as escolhas que estou fazendo. Estou crescendo bem, eu acho.

E, sinceramente, estou bem-acompanhado.

Só preciso descobrir o que vou fazer da vida depois que acabar meu tempo na Legião. Mas, ei, um dia de cada vez, não é?!

É com muito amor, e aninhado aos meus amigos (literalmente), que me despeço.

Que isto seja um até logo.

 

Te vejo em breve,

Mitchel Archiebald Faircreek.

 

HESPER.

ICARUS.

MITCH.

Notes:

*Música*
- Recontando uma aventura - https://open.spotify.com/track/6U2sXLGhxJVmKskGUvJzI3?si=4ff59c2aa97c47d7
- Descansando e pensando - https://open.spotify.com/track/5rBXF4jd4xsenZnv5h3mfn?si=b8e281a634e04025

Notes:

*Glossário*
- Laverna - A deusa romana (de origem etrusca, na verdade) do roubo e dos charlatões. É uma deusa do submundo, louvada por ladrões na literatura romana.
- Autômato - Uma criatura mecânica feita de bronze e imbuída com magia.

*Links*
- Playlist de Mitch Faircreek, o Fugaz Fanfarrão - https://open.spotify.com/playlist/06xwj8LHARWTwizJhNhud3?si=c914379f30684af7

É isso pessoal, espero que se divirtam com as aventuras deste britânico larápio. Ele tem muito a viver por aqui e quem sabe nós viajemos juntos para alguns cantos inexplorados da mitologia greco-romana. Simboraaa!

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