Chapter Text
Por incrível que parecesse ser, Luciano não morreu na queda de uns um metro e meio, tampouco quebrou qualquer osso, uma matéria macia e quente havia-lhe amortecido o baque. Luciano baixou o rosto e percebeu que se encontrava sentado sobre o corpo de um possível português. O sujeito tinha os membros esparramados na terra, achava-se inconsciente, a arma posta ao lado. — Não tens sorte mesmo, seu Miranda. — Disse a levantar-se.
Desde o nascimento, Luciano era acostumado a cair de mangueiras, bacurizeiros e cajueiros, até mesmo da janela do quarto. O pobre Miranda muito provavelmente lançara pedras na cruz durante a vida passada, essa seria a única explicação plausível para tamanha má-sorte. No passado, o engenho ficou alvoroçado após encontrá-lo inconsciente aos pés do casarão, a cabeça funda na terra e os membros desengonçados; ao lado do quase cadáver, repousava os bagaços de uma garrafa de aguardente.
Recolheram-no do chão temerosos, encaminharam-no ao quartinho dos fundos para tratá-lo; logo o engenho cercava-se de armas, encolhido pela vegetação a qual se mostrava perigosa — podia disfarçar a chegada dos indígenas, ou quem quer que os tivesse atacando.
Todos do casarão chegavam a imaginar possíveis invasões, fosse quilombola, fosse indígena, fosse de franceses audaciosos; temiam as hipotéticas matanças; dormiam aos sobressaltos, apavorados até com a própria sombra.
Vendo que o ocorrido tomava proporções descontroladas, Felipe — amiguinho de brincadeiras de Luciano — correu ao filhote de português para pedir-lhe que contasse a verdade aos outros; caso Luciano não quisesse, Felipe pediu-lhe permissão para assumir a culpa e frear o pânico do casarão. — Não! — Luciano bateu o pé decidido. — Se os dois fizeram, os dois assumem! Vamos, lá. — Estufou o peito corajosamente e marchou rumo a Miranda.
Quando estava prestes a contar-lhe detalhadamente o ocorrido — alertado pelas lembranças dos castigos anteriores —, a coragem foi murchando, murchando até não se sentir mais. No entanto, tomou fôlego e começou a, pouquinho a pouquinho, desembuchar o fato.
No fatídico dia, o sol claro e morno da manhã arriava sobre a terra a sua deliciosa luz; os estalos e rangidos ferozes da moenda espalhava-se pelo engenho; grupos numerosos de portugueses cruzavam o terreno; gorjeios de pássaros, alegres, eufóricos, preenchiam a mata circundante; o sobrado erguia-se pacífico no centro, a sombrear uma larga extensão de terra. Janelões e mais janelões voltavam-se para o terreiro, escancarados para extinguir o possível mofo dos cômodos à luz do sol.
Longe, via-se apenas os pezinhos morenos atravessarem a janela e voltarem, pezinhos, depois as perninhas, esticadas para o ar; iam e vinham velozes, periodicamente. Ouvia-se o rangido de cordas, risos de garotos e o piado dos frangos na parte interna do terreno. Miranda, com uma garrafa de álcool furtada do patrão sob a camisa, escapulia da vista alheia através de passos sorrateiros para as costas da propriedade.
Chegado ao esconderijo, agachou-se com as costas grudadas na parede e sacou da camisa a garrafa; não disfarçou o risinho sacana a florescer na boca. Dava periódicas espiadas nos cantos, em caso de ouvir a voz de algum companheiro.
Dentro do casarão, no piso superior, Luciano soltava gritos de euforia, indo e vindo agressivamente na rede; atrás de si, Felipe, com os bracinhos sempre preparados, empurrava-o, lançando-o em direção a janela. A rede prendia-se num aro de ferro grudado à parte superior da parede, às vezes amarrava-se as cordas nas vigas do próprio teto. O aro de ferro rangia, Luciano pedia por mais força e velocidade, queria voar.
Mesmo com os braços já cansados, Felipe não falhava com a sua função, empurrava-o cada vez mais alto. Luciano atravessava parcialmente a janela, voltando a segurança pouco tempo depois. No entanto, a rede era um pouco mais próxima da janela do que deveria — não fora projetada para embalos tão selvagens, apenas para um cochilo sob a brisa diurna, e num desses embalos, Felipe assistiu a rede levar Luciano e retornar vazia, murcha, leve. Assustou-se ao recebê-la sozinha, sem o garoto sobre ela.
Sem ter digerido o sumiço de Luciano totalmente, Felipe correu até a janela, debruçou-se sobre o peitoril e encontrou-o sentado sobre o corpo inconsciente de Miranda. Felizmente o português sacrificara-se involuntariamente para amortecer-lhe a queda.
Apesar de um braço lesionado, Luciano não sofreu ferimentos sérios, estava apenas coberto de pó, já Miranda, quase esmagado, entrara em sono profundo. O pequeno levantou-se e correu de volta ao casarão como se nada tivesse acontecido, retomando a brincadeira de embalar-se, dessa vez com Felipe na rede. Concordam em tomar mais cuidado e abafar o evento, temendo a repreensão dos pais.
Passados cinco dias, Miranda escancarou os olhos apavorado, saltou da cama com um movimento ligeiro de pernas, a encarar os cantos apreensivo. Os companheiros entrevistaram-no, ansiosos por saber a causa do nocaute alheio. Miranda não sabia bem dizer, apenas viu uma sombra esguia cobri-lo e de repente paah, algo pesado e duro o atingiu nas costas, bem próximo a cabeça. E agora estava ali, com a testa enfaixada, o braço quebrado e cercado pelos compatriotas e conservos.
Daí surgiu a preparação para a invasão selvagem. O próprio Afonso pessoalmente o visitou para saber detalhes, se havia reconhecido o povo, se havia tido desentendimentos com algum selvagem, se não fora um escravo. Jurou tomar as providências cabíveis.
A nenhuma pergunta Miranda conseguiu responder, havia sido pego desprevenido, mal ouvira o baque, quem diria reconhecer a origem do ataque. Não havia desentendimento com selvagens — só talvez do povo que já eram inimigos naturais —, quanto aos escravos, nenhum tinha razões pessoais para fazê-lo.
Miranda era um dos pouquíssimos portugueses inofensivos do engenho, sequer tinha filhos naquela terra, como a maioria dos companheiros o tinham — incluindo Afonso —, não era responsável por castigos, tronco, tortura, nunca tocara num chicote; era católico desde o nascimento, levava os bons ensinamentos consigo, o máximo que fazia era evangelizar de vez em quando um dos indígenas que por ali viviam e que mal falavam sua língua para entendê-lo; não atirava bem, andava com a arma de enfeite, pois encondia-se sempre que algo acontecia, não tinha coragem nem para gritar, quanto mais entrar em brigas. Chegara ao Brasil por conveniência, para fugir das dívidas em Portugal. Não havia razão pessoal para ser atacado.
Se não era pessoal, cogitaram os portugueses, só podia ser uma questão coletiva, então todos estavam em perigo. No fundo, a dar voltas pelo local do suposto ataque — coincidentemente abaixo da janela de Luciano —, Afonso desconfiava de algo, porém, para não parecer um perseguidor do próprio filho, deixou as suspeitas de lado e concentrou-se em garantir a sobrevivência do engenho, coisa que todos achavam estar ameaçada.
Até o próprio menino assumir a culpa perante Miranda, Felipe não o deixou culpar-se sozinho, entregou-se também. Furioso, e a culpar a mãe do garoto por deixá-lo vadiar o dia todo, o pai de Felipe proibiu-o de brincar dentro do sobrado com Luciano, se quisesse continuar amigo do menino, que fosse apenas do lado de fora, onde todos pudessem vê-los. Já bastava o fato de ambos serem mestiços, e não serem bem-vistos pelos mais conservadores entre os europeus, colocar em jogo a segurança do engenho dessa forma — e de todos que viviam nele e dele — era inaceitável.
Já Luciano, Afonso puniu-o com o contrário, censurou-lhe as diversões fora do casarão, sabia que lhe tirar a liberdade feria-o mais que qualquer cipó de goiabeira. Restringiu as andanças do menino só até a porta da frente, e de lá Luciano ficava melancolicamente assistindo o passeio dos animais, tristonho. Felipe ia à porta, o seu limite também, e fazia-lhe guarda e companhia, até o pai arrastá-lo pelo braço e obrigá-lo a ficar com a mãe, para acostumar-se com a sua realidade de subordinado. Afinal, se não aparecesse uma portuguesa por ali, para dar-lhe um herdeiro digno, o local ficaria, no futuro, às ordens de Luciano.
Não satisfeito com a solidão, porém conformado — coisas que não se confundiam —, Luciano entrou no quarto e pôs-se a embalar-se outra vez, empurrando-se com os próprios pés contra a parede. Do lado de fora, Afonso discutia questões importantes por perto da janela, quando, de repente, uma botinha aterrissou rente aos seus calçados. O grupo de homens ergueu o rosto para admirar metade de Luciano indo e voltando pela janela, um dos pés descalços, e pelos embalos o outro logo ficaria.
Prestes a ter um infarto, Afonso subiu às pressas para o quartinho do menino, tomou-o da rede e desarmou-a com Luciano esperneando e chorando ao seu lado, acusando-o de não o deixar fazer nada. Ralhou consigo e jogou os panos no seu próprio quarto. Luciano assistiu-o, grudado à porta, fingindo inocência.
Mal o português deu as costas, Luciano meteu-se em seu quarto e revirou-o atrás da rede: puxou as cobertas, derrubou os livros, os documentos, a cômoda, tudo. Encontrou-a após bagunçar todo o cômodo, colocou-a sobre a cabeça igual a um formiga e fugiu ligeiro para sua própria alcova. Armou-a com ajuda de uma cadeira e retomou os embalos mortais.
De volta ao casarão, Afonso reencontrou-o a querer decolar pela janela pela terceira vez. Quando subiu ao quarto, o nó mal feito quase se desfazia. Irado pela desobediência do pequeno, e sua insistência em voar pela janela, Afonso sacou sua espada, puxou a rede pelas cordas para pará-la e cortou-lhe os punhos num único golpe. Luciano caiu sentado, o rosto vermelho de raiva direcionado a Afonso.
Como o pai não o deixou morrer, Luciano desengatou um choro estridente, esperneando e rodando pelo chão. — Cala-te! — Afonso repreendeu-o. — Cala-te que ainda não te dei razão para chorar, mas talvez tu queiras!
Depois disso, Luciano não pôde usufruir de aventuras em outras redes, o português ordenou que lhe fizessem um cama. Em troca de seu comportamento periódico, Afonso devolveu-lhe o amigo, pedira amigavelmente ao pai de Felipe que o deixasse brincar com Luciano. O português mais rico tinha esperança que a cria não tentasse morrer a cada duas horas se estivesse a correr por aí com o coleguinha. Luciano comportou-se nos dois primeiros meses, depois o espírito ruim retornou para casa.
E agora lá estava o pobre Miranda estirado outra vez no chão. Possivelmente escondia-se de algum ataque, caso contrário não estaria grudado ao casarão. Ou talvez estivesse a guardar a janela do quarto de Luciano. O menino afastou-se do corpo, primeiro verificou-o para certificar-se que estava vivo.
Em seguida, o levado da breca sacudiu o pó das mangas e escondeu o retalho de lençol em uma das esquinas do casarão, limpando a cena do crime. Desenrolou a manga e admirou o trabalho minucioso.
De certo estava muito bem escondido sob umas pedras mancas na beirada da casa colonial. De longe ainda se podia ver o branco do lençol brilhar sob o argênteo da lua. E quem disse que o pequeno fazia caso disso? Moveu-se e fez a vistoria das proximidades como se fosse um dos subordinados de seu pai, animado por participar de uma aventura.
Ao olhar os arredores da propriedade, encontrou apenas um terreiro escuro, vazio de vida. Acolá da palhoça dos animais, algum lampião vagava pendurado em um braço, este possivelmente pertencente a um escravo ou quiçá um caboclo a procura de algo.
Luciano adorava o murmúrio das rãs e dos sapinhos miúdos, até o chiar quase rouco das perninhas dos grilos, e, naquele horário, a orquestra noturna seguia a todo vapor.
Lá em cima, o céu jazia salpicado de pontinhos brilhantes que pulsavam e pulsavam igual a um coração. Feito vários buraquinhos na lona preta da noite. Ou como se o negro do céu fosse crivado de balas. Haja pólvora e chumbo, pensou após a comparação.
— Quantos? — Uma voz soou por aquelas bandas.
Luciano correu para as costas do Casarão, pelo canto conseguiu espiar quem vagava pela penumbra da noite a conversar feito curicaca.
— Muitos. — Respondeu um terceiro.
— Parece que ainda estão aqui e ...
De súbito, o homem, o qual freou tanto a fala quanto os passos, estendeu os braços para impedir o avanço dos companheiros. Carregava uma arma com as duas mãos, semelhante a um caçador à procura de um passarinho.
"... arma de matar passarinho...", Luciano lembrava-se de repente das palavras de seu pai. Não sabia a diferença entre matar uma pessoa e um passarinho. Acreditava que a mesma coisa capaz de matar um pássaro fosse capaz de matar um homem. Não entendia a razão da distinção do nome.
O português apontou para a janela aberta do Casarão, alguns metros acima do corpo de Miranda. A julgar pelo retalho lambido pela brisa, o qual escorria da janela aberta, e o Miranda desmaiado, concluíram que Luciano fugiu. Desde sempre os subordinados sabiam que o Dom Assis Portugal — como era conhecido pela criadagem — tinha um filho estranho.
Do tipo que não tinha qualquer semelhança — em questão de comportamento e caráter — com o pai. Óbvio, filho único. Apesar de desconfiarem da paternidade de mais da metade das crianças do engenho, o único assumido era aquele.
E bem sabido era que, Dom Assis — ou Dom de Portugal, como preferia ser chamado, para o desgosto dos criados —, desgostava do menino tanto quanto detestava aquele ror de mato e aborígenes que era a Terra do Pau-Brasil.
Motivo disso poderia ser que seu filho não fosse europeu; não falava bem e portava-se semelhante a um animal. Quiçá o desgostasse por ser indócil feito um jaguar ou um lobo-guará; ninguém conseguia disciplinar o pequeno, fosse com vara, fogo, pedras.
Dias e dias chegavam-lhe aos ouvidos as traquinagens do gurizinho por boca dos padres jesuítas que ensinavam por aquelas bandas o tão importante B-a-bá, e que Luciano ignorava a preciosidade do saber.
Fosse sujar a manta alheia com tinta, rasurar algum livro ou fugir pela fenestra da capela, não se punha uma única vez o sol sem que queixas assim perturbassem o Dom Assis de Portugal.
Como o diabo do pequeno tinha ideias, até o vinho da da igrejinha ele bebia; os padres viviam a esconder os frascos, mas Luciano tinha um faro excelente para a bebida, na ceia viam apenas uma gotinha solitária deixar o beiço da garrafa já completamente vazia.
Quando a árvore do lado da capelinha resolvia inflamar a sombra e furtava a luz do lugarejo, os padres acendiam fachos para alumiar o interior da capela, Luciano pegava-os e metia-se a brincar com eles, sacudia-os pelos cantos e fingia explorar uma caverna escura; numa dessas brincadeiras, queimou a roupa de três frades amigos enquanto balançava a tocha pelos cantos. Passou a chama para os livros, as cortinas, a barra dos mantos, tudo enquanto. Saiu e viu a capela naufragar no mar ardente de chamas, chispas a cobri-la. O padre ajoelhou-se e chorou copiosamente, defronte para os santos consumidos pela diabrura de Luciano.
Envergonhado pela má-educação do filho, Afonso pediu-lhes mil desculpas, prometendo recuperar os danos e entregar a capela restaurada para eles. Os padres recusaram-se a ensinar Luciano outra vez, não o aceitariam como aluno.
Também havia aquele que teorizava tratar-se de um filho indesejado, não se sabia ao certo o motivo, apenas que Dom Assis desprezava o próprio rebento. Mesmo que o tivesse salvado de sumir-se numa cachoeira gigantesca na qual Luciano mergulhara alegremente ansioso por desaparecer na queda colossal — com o menino a espernear e chamá-lo de ditador por não o deixar fazer nada —, todos sabiam que ele não o amava. Apesar das taquicardias, dos desmaios, das repreensões e de ter bancado a viagem de um professor direto de Portugal até a colônia apenas para ensiná-lo, o engenho concordava que o homem não o amava.
Como sabiam? Diferente de Luciano, o qual sempre dormia antes das nove e acordava entre cinco ou seis, os subordinados de Afonso o acompanhavam desde a manhã até a madrugada, se assim fosse preciso.
Certa vez, numa dessas tardezinhas recém-nubladas, tão úmidas a ponto de gotejar pelos vidros o quais vedavam a janela do quarto luso, Dom Assis recebia a um sujeito deveras incomum em seu gabinete.Tratava-se de um cavalheiro de fora.
Por esses momentos, Luciano inventara de caçar cobras no canavial — vivia de adotar bichos —, voltaria quando caísse as primeiras gotas do possível dilúvio.
Sem o pequeno por perto para lhe atrapalhar a conversa, Dom Assis tomava diálogos longos com o sujeito tanto quanto tomava o vinho. O que começava a encher em ambos os corpos com álcool e políticas num gabinete, transbordava num cômodo isolado nos fundos da propriedade. A janela era voltada para a mata densa, onde sequer o sol poderia espiá-lo.
Já havia muitos corria por o engenho certo boato de que o cavalheiro, na verdade, seria um infame conhecido de Dom Assis, incapaz de debater qualquer assunto que não fosse sobre vadiagem e boemia. Como o homem não se contentava em manter-se apenas no assunto o qual dominava, infiltrava-se nos negócios pessoas do português. E um desses negócios, o pivete.
Indo servir-lhes a janta, uma serva, nesse dia, ouvira vir de trás da porta o som de algumas palavras quebradas. Conversavam em espanhol, mas, muito se sabe, português e espanhol são línguas idênticas, gêmeas, as mesmas. Pouca diferença podia haver entre elas. E a moça não entendia o porquê da distinção da nomenclatura, já que designavam as mesmas coisas, idênticas. Impossível se confundir.
O assunto foi, foi, arrastou-se, arrastou-se e chegou ao filho.
Elencou-se primeiro os defeitos do pequeno; nenhuma das qualidades. Se é que ele as tinha. A mulher indignou-se com o caráter perigoso do diálogo, quase abria a porta e insultava-o disposta a perder a posição e a cabeça.
O insuportável hóspede resmungou um: "E para quem o darás?”, ao que Dom Assis respondeu, com um tom indiferente, que o queria morto, não o amava, preferia jogá-los aos crocodilos e fugir para a pátria. Mataria-o.
A criada escandalizou-se toda. Não fora a primeira vez que ouvira a respeito do desinteresse de Afonso no bem estar de sua prole nauseabunda. Em um português claro já o vira dizer para o amigo que não se importava com Luciano, tampouco se apegara a ele mesmo com os anos de criação.
Ainda inteirou com a fala: "Se eu tiver que um dia voltar para minha terra, tem certeza, não hesitarei em ir e abandoná-lo cá com todos esses selvagens".
— Mesmo sendo ele uma criança? Indefesa e débil, que, óbvio, ficaria à mercê da própria sorte?
— De indefeso e débil essa coisa não tem nada. — Afonso defendia-se.
— Vossa Mercê não o põe em seu devido lugar e ainda o cria tão carinhosamente qual filho de uma dama amada. Se vossa mercê fizesse como eu digo...
Bãfth! — a mesa de mogno rangeu. Dom Assis acabou por golpeá-la com mais intensidade do que gostaria de fazê-lo. Talvez, por não o ver sacudir a mão de dor e encolher-se após o golpe, a criada o imaginasse com uma postura autoritária.
— Temos negócios deveras diferentes. Pelo que eu saiba, a longo prazo, estou melhor que Vossa Mercê. — Falou em baixo tom, entredentes, perigosamente, como se sua voz rastejasse pelo cômodo.
Certo riso masculino propagou-se pelo local.
— Meu domínio vai além do que podes imaginar — Seus acentos estrangeiros enfeitavam o seu português imperfeito, fazendo-o parecer mais tolo do que era. — E a longo prazo, que me importa? Conheço bem meus objetivos.
— Veremos isso quando meio milênio passar por nós tão rápido quanto… já passou antes. — A criada a imaginá-lo austero, quando, na verdade, Afonso encontrava-se sentado massageando a mão ferida pelo golpe.
— O assunto é seu filho! — O homem acusou.
— Será possível? — Exclamou Dom de Portugal — Acaso não me entendeste, senhorito? Terei de repetir a ladainha outra vez? Eu não gosto e não me importo! — Agonizava a farpa que se prendera à palma da mão, a paciência encurtava-se graças à dor.
De fio a pavio, o casarão, a capela, as senzalas, a moenda, os canaviais — tudo! —, todo o engenho sabia que Luciano não era bem querido por seu pai, e a notícia fora transmitida especialmente pela mulher, primeira testemunha do desprezo do sujeito para com a prole. Os outros, ainda mais os com filhos, criaram-lhe certa antipatia, indignados com a postura do homem.
Muita gente arrependia-se de pôr certos negócios no mundo, mas dar o menino era demais. Pior ainda depois de passar tanto tempo com ele, pensou a criada, Afonso seria tão desalmado a ponto de não se importar com o apego da criança?
Por esses períodos, sempre que brotava no terreiro da casa uma visita, a serva metia a cabeça para fora da sala e espiava o sucedido. Passava horas observando quem entrava e saía, vigiando o menino como um cão de guarda.
Tinha planos de levar o garoto consigo caso Dom Assis quisesse de fato abandoná-lo. O dia nunca chegou, apesar das presepadas de Luciano. E percebendo que a mulher rondava o garoto o tempo inteiro, como estivesse a esperar uma oportunidade perfeita para raptá-lo, Afonso afastou-a das tarefas domésticas, designando-lhe algo que a mantivesse longe do menino. O português não sabia qual seria seu objetivo roubando Luciano, mas não estava disposto a arriscar nem a posição, nem o guri.
De volta ao que importava: Dom Assis estava do outro lado da propriedade, para além das senzalas e do casarão, e a janela do quarto estava escancarada. O pivete só podia ter ido atrás do progenitor, ou da morte.
No entanto, quando quiseram pôr o primeiro pé adiante, a fim de observar o sucedido, saltou das costas de uma carroça a silhueta desalumiada de um guerreiro. A lança rompeu com o ar veloz, cortando inclusive a luz das tochas. Luciano arregalou os olhos.
Na mão esquerda, uma lança de madeira tão escura quanto o breu das noites em selva fechada; nas costas, uma aljava de pindobas guardava um conjunto de flechas. Luciano admirava-lhe as penas rubras. O cabelo era liso como o seu, desmaiava-lhe pelos ombros, não como o de Afonso — marcados pelo laço que o prendia sempre —, era de um liso fluido e espesso, preto, tão preto quanto a pena do anum.
Mal aqueles homens conseguiram apontar a boca de suas armas para o sujeito a lança — com o lado oposto ao da lâmina — já rasgava o ar em direção aos seus rostos. Foram nocauteados em pouco tempo. Luciano encontrava-se atônito, tão assombrado que foi fácil esquecer o esconderijo por cinco segundos. Primeiro Adamastor, agora o povo das selvas. Cogitou que Jaci visitou-o no quarto porque os acompanhava, vigiando-lhe os passos pela floresta escura e alumiando-lhe o caminho até a Casa-Grande.
O que diabos era aquilo visto nesse exato momento por seus olhos?! — Não era possível ser uma invasão indígena tão no íntimo de sua casa, imaginou. Luciano piscou na esperança do sujeito evaporar-se como o gigante. Geralmente os indígenas não atacavam a toa, defendiam-se e vingavam-se mais do que meramente atacavam. Eram prudentes demais para atacarem os portugueses sem motivos.
Talvez a luz da lua, a qual ressurgia entre clarões prateado na lateral do céu, estivesse enganado-o, e tudo não passasse de uma ilusão. Apesar de consciente dos perigos, Luciano nunca tinha imaginado que a casa onde vivia, de fato, poderia ser algum dia atacada. Mesmo que o fogo, a consumir esfomeado os fachos restantes nas paredes, trouxesse a lume um guerreiro da selva. Cada centímetro de seu corpo o denunciava como possivelmente o mais forte dentre os seus.
O guerreiro virou-se. Ao caírem sobre a figura desprotegida de Luciano, seus olhos negros lampejaram. Sob a pouca luz da lua, a qual começava a buscar abrigo nas nuvens, um grupo aproximou-se do guerreiro, o sujeito tocou-lhes o ombro e apontou para Luciano. Começaram a resmungar entre si, as vozes oscilando entre incomodadas e histéricas.
Então o guerreiro virou-se outra vez para si e falava-lhe enquanto apontava o dedo e gesticulava em sua direção. Ele claramente falava com Luciano. Só que o último não o entendia. Luciano começou a adquirir o português fazia pouco tempo, ainda não o entendia por completo, imaginar-se capaz de entender o que o homem falava era impossível. Talvez não falasse a Luciano, já que outros como ele eram avistados longe.
No entanto, a insistência com que o homem resmungava consigo fazia-o ter certeza que ele queria alguma resposta sua. Luciano tinha por língua materna uma língua indígena — razão de seu português tão disforme — a qual levou como principal canal de comunicação até os cinco anos, quando, avisado por possíveis colegas, seu pai mudou bruscamente para o português. Única e exclusivamente o português.
Embora ainda lembrasse da língua materna, Luciano não reconhecia uma única palavra. Muito provavelmente não era um povo que falava sua antiga língua. Luciano olhou-o confuso, a balançar a cabeça em negação, sua única resposta. Os outros sujeitos bufaram, apontavam os queixos para Luciano e soltavam comentários inteligíveis em tom ríspido e desdenhoso.
Não os entender verbalmente não o impedia de entendê-lo através da postura, referiam-se a ele como se dissessem que “estava corrompido” ou “não era um deles”. De fato, Luciano não era um deles, assim como não era um português. No entanto, também pareciam debochar por ser mestiço. Desprezando-o pelo sangue português o qual manchava sua honra genética e privava-o de pertencer a um povo. Luciano bateu o pé e insultou-os em sua língua materna, aos menos com o que lembravam.
O silêncio completo tomou-os. Os semblantes pintados de desdém foram gradativamente substituídos por uma expressão surpresa, boquiaberta. Luciano arrependeu-se, não conseguiria sustentar um confronto contra um grupo indígena. Os guerreiros entreolharam-se, piscaram um para o outro e voltaram a encarar Luciano lentamente. Luciano dava os primeiros passos para trás devagar, milímetro a milímetro.
A nova expressão a brotar nos rostos tingidos foi de nojo e indignação. Pela primeira vez, Luciano os entendeu quando um dos guerreiros apontou para ele e gritou: “Tupi!”. Ou algo assim, não foi apenas “Tupi” que ele disse, havia meio metro de frase que Luciano não entendia. Aí Luciano teve certeza que Jaci não os acompanhava, talvez estivesse ali apenas para protegê-lo naquele momento. A sentir falta dos cabelos escuros e compridos da deusa, Luciano desesperou-se e tentou remediar o ocorrido.
— Não, não, não! Não sou tupi, não! Não sou nada, na verdade. — Os guerreiros não o ouviam, apenas entendiam o “tupi” que ele dizia. — Se fosse tupi, não estava aqui, não. Pelo amor de Deus.
Luciano sabia que o povo tupi — se é que ainda existiam como povo — tinham muitíssimos inimigos dentro do próprio continente. Muitos deles o odiavam até a morte, e se Luciano estivesse de frente para um desses inimigos, o fato de ser uma criança não o salvaria.
Uma voz em português exclamou longe.
— Lá estão eles! — Um grupo de homens do engenho se aproximava. Pedia pressa.
Os guerreiros ficaram parados, como se estivessem esperando os brancos chegarem. O guerreiro com a lança negra ainda espiava Luciano de vez em quando. Os portugueses chegaram ligeiro, encontraram o pequeno grupo parado, em posição de combate.
O guerreiro falou mais algumas sílabas antes dos outros homens chegarem mais perto. Luciano, reconhecendo a silhueta de Afonso entre os que ainda chegavam até a confusão, quis correr até ele, mas foi impedido pela parede emplumada. Todos estavam prontos para atirar quando Dom de Assis gritou: "Não atireis!"
Vendo que não baixariam as armas, meteu-se na frente e baixou cano por cano manualmente. — Não é prudente iniciar uma matança quando podemos estar em menor número. — Sussurrou para eles. — Estão aqui por alguma razão, precisamos saber qual.
Nesse mesmo instante, o guerreiro, o qual chamaremos de Guerreiro da Lança, bateu os pés no chão e partiu em direção ao casarão, onde estava o garoto. O grupo pareceu chamá-lo, mas ele não ouviu.
Um reconhece os seus mesmo entre milhares. Assim como Dom Assis sabia instintivamente quem era Guerreiro da Lança, o Guerreiro sabia quem e o que era Luciano.
— Luciano, corra, pequeno! — Dom Assis gritou com a visão do filho totalmente parado como uma estátua de sal apenas a esperar o ataque da lança escura.
Confuso, Luciano piscou por alguns segundos, lá estava seu pai, com uma arma na mão e rodeado de vassalos armados até os dentes, e bem na sua frente o Guerreiro da Lança. Luciano tentou sair de sua mira, em vão.
— Pai! — Luciano piscou confuso por muito mais tempo dessa vez. O Guerreiro da Lança parou, o grupo atrás de si o advertia, ele virou como se avaliasse a decisão a ser tomada, mas não parava de lhe dizer coisas. Resolveu aproximar-se lentamente, como caçasse uma presa. Luciano a calcular a fuga.
Quando enfim o guerreiro mudou a língua em que tentava se comunicar insistentemente, Luciano gritou: — Não venhas!
Talvez porque temesse que, se seu pai reagisse — a ter em vista o fácil ataque de mais cedo —, o Guerreiro pudesse matá-lo.
Assim que o Guerreiro estivesse a uns dois metros dele, Luciano desataria uma corredeira sem fim para dar a volta no casarão. Esse era o seu brilhante plano.
Ao vê-lo prestes a ser possivelmente raptado, perdeu todos os seus últimos sentidos de racionalidade na bagunça momentânea de sua mente. — Luciano! — Gritou. — Dá a volta! Vem acá!
De acordo com o plano de ambos, a lógica seria o menino dar a volta no casarão e chegar aos braços do pai. E era isso que Afonso esperava. No entanto, após Luciano dar no pé, nem sinal da criança.
No meio do pânico, Luciano concebeu em sua cachola a brilhante ideia de jogar-se nas brenhas para despistar o guerreiro. E fê-lo sem pensar. E sem pensar caiu num rio o qual serpenteava logo atrás de sua casa, a uns vinte metros do casarão colonial.
Havia de ser pelo menos dez da noite. No momento em que chegou próximo a água, o Guerreiro da Lança parou, como se temesse algo no corpo d'água o qual engrossava feito um rio caudaloso daqueles vomitados pelas cachoeiras após as chuvas.
Luciano sentiu essa súbita potência de água arrastá-lo para longe, como se tivesse braços e pernas, como se convertesse em cobra e posteriormente numa enorme centopeia d'água a correr veloz com suas cem perninhas líquidas. Sabia nadar, porém a correnteza era monstruosa, impiedosa. O empurrava de todas as formas possíveis. O guerreiro ficou para trás, Luciano não soube quando ele sumiu, porém num piscar de olhos ele não estava mais lá.
Em suas tentivas de emergir, virou para trás e viu-se brutos metros longe de tudo o que conhecia. Do Engenho, de sua casa, dos servos que lhe cuidavam, do seu pai e suas histórias. Longe da proteção e do odor caseiro e reconfortante dos átrios domésticos. Longe das muriçocas que talvez rissem maquiavélicas de sua sorte.
Mal conseguia manter-se na superfície, aquele rio engrossava furiosamente, porém, não o afogava. Luciano conseguia tempo suficiente para respirar antes de ver-se submerso outro turno. Frente a tal drama de ver toda sua segurança — o mundinho perfeito e despreocupado das crianças — ser arrancada de si, Luciano só conseguia espernear na água e chorar.
Só que diferente de antes, toda sua birra e desespero não pareciam gerar qualquer coisa a não ser o engrossar da correnteza. Lá estava ele, bem acordado, molhado, sozinho, além de não usufruir de qualquer proteção.
Enquanto isso, o Dom Assis queria ir até a criança que não voltava, mas também precisava negociar com os guerreiros que ali estavam. Precisava saber o que os trazia a sua presença. Nervoso e apressado, começou a falar-lhes — como um bom colono filho da mãe, conhecia um par de línguas nativas para ludibriar os povos —, eles fecharam-se.
Afonso virou-se e ordenou a três de seus homens que fossem atrás de Luciano. Por fim descobriu a razão da ameaça, chegou até a suspirar aliviado. Não estavam ali para brigar, sim para negociar. Sabiam que aquele engenho não era aliado a qualquer povo nativo, não queriam uma aliança permanente, queriam se livrar de um inimigo instalado em suas terras. Entendiam que outros brancos não eram, apenas por serem brancos também, necessariamente aliados dos portugueses. Ansiavam por eliminá-los e vingar a morte dos companheiros.
Era completamente idiota, na condição que se encontrava — mais de colônia que de colonizador —, meter-se em conflito de povos, mesmo que fossem invasores, mas entre ser o aliado e o alvo, melhor ser o aliado. Mesmo que não fosse cumprir totalmente o acordo, Afonso concordou, garantindo-lhes que chegariam aos culpados. Tudo para evitar um confronto direto com os nativos. Era preferível matar holandeses, espanhóis e franceses que guerrear contra os nativos.
Não falava como uma poderosa nação, falava como um homem administrando um pequeno engenho infiltrado numa terra perigosa com numerosos povos inimigos e aliados.
Despachados os novos colaboradores, foram a tratar os três feridos; não entendiam como Miranda poderia estar entre eles. Afonso apressou-se para as costas do casarão, sem compreender a demora do menino.
Já estava desesperado imaginando que havia sido finalmente arrebatado por alguém. Tudo que encontrou foi o trio à beira do rio. — Ou o menino foi levado, ou caiu aí.
Talvez se tivesse dito ao seu filho: — Tu amanhã podes nem ser mais meu —, ele não ousaria sair de casa e tudo ficaria bem.
Afonso cogitava comunicar-se com os nativos para saber o paradeiro do pequeno quando um berreiro particular o atraiu. O português pediu silêncio aos companheiros que lamentavam o desaparecimento da criança. Aguçou os ouvidos; — Conseguis escutar?
— O que, senhor?
— Luciano…, certeza que é ele. Chiu. — Moveu-se lentamente um pouco mais para a frente. O rio ia dar na moenda, era com ele que ela funcionava. Talvez Luciano tivesse passado pela roda d'água.
Tristes e assustados, os outros entreolharam-se. — Mas senhor, não ouvimos nada.
Afonso espiou-os pelos ombros sem abandonar a caminhada. Dava passadas apressadas e parava de vez em quando para ouvir o suposto som do filho. — Como não? Está mais que claro. Ele ainda está em alguma parte do engenho. Onde e como eu não sei. Só sei que está.
Pensando que o senhor havia enlouquecido de vez, seguiram-o para garantir que não se jogaria no rio para matar-se.
De volta a Luciano. Depois de não conseguir mais ver a costa da Casa-Grande, percebeu que ela voltava. Luciano admirou confuso o telhado alaranjado passar por si outra vez. Podia ver as beiradas do casarão sobrepondo-se às árvores, a capela emergia a pontinha do telhado e ia-se embora enquanto o rio carregava o garoto longe. Avistou, entre as copas verdejantes e escuras, o conjunto de casinhas mal iluminadas afastando-se, lá moravam os servos livres do Dom Assis.
Lá longe, atrás do que era belo e familiar, reconheceu a escura e triste senzala, longa e enfezada no canto do engenho, coberta pelas sombras e a exalar toda a melancolia de um povo cativo. Então, enquanto Luciano tristemente estava a contemplar o seu mundo diminuindo pela distância, algo agarrou o seu ombro.
Tudo o que ele sentiu foi uma volta a ser dada pelo próprio corpo, a água a tentar levá-lo e algo rígido a prendê-lo. Luciano piscou, arregalou os olhos e berrou desesperado. Apenas alguns poucos metros o separavam da enorme roda d'água. Não conseguia alcançar a vara que o segurava nas costas, mas sabia que era fina. Luciano berrou.
— Não te movas tanto! — Era a voz de Felipe.
Luciano sentiu a vida disputando-o com a morte, a fina vara segurada por Felipe era a vida e a destrutiva e pesada roda d'água da moenda era a morte. — Felipe, bom amigo, sabia que não te esquecerias de mim!
— Cala-te, Luciano, a correnteza está quase te levando. — A vara média o prendia na roupa, impedindo que despencasse de uma vez. Porém Felipe era criança, não conseguiria segurá-lo por muito tempo.
Vendo-se a um passo de deslizar roda abaixo, Luciano começou a chamar por Afonso. — Quando não é para vires, vens, e quando deves vir não vens!
A vara cedeu um pouco. — Tenta não mexer, Luciano!! — Felipe berrou.
— Estou tentando!!! — Luciano agarrou em sua última esperança. — Ô, paiê! Não achas que deverias aparecer agora?! Paiêê!! Não te desobedeço mais!! Paêê! Padre José!! Padre João!! Algum homem de Deus?!
De fato o padre o ouvia, já que a capela não era tão longe do rio, mas, benzendo-se, resolveu não ir, temendo ser uma assombração.
— Luciano, vais escorreg… — Felipe quis alertar, mas a vara foi imediatamente tomada de sua mão.
Agora que o mundo não passava de um ponto minúsculo beirando o esquecimento e a distância, Luciano conseguia valorizá-lo. Rezou o quando pôde. — Deve ser castigo por eu ter queimado a capela. Santo Pedro, santos aí de cima, não lembro os vossos nomes, perdoai, é perdoai?, perdoem-me.
De todas as suas brilhantes ideias, a de sair do casarão na boca da noite foi a pior e com as mais graves consequências. Só Deus sabia o que aconteceria quando ele cruzasse aquela roda.
Quando a margem ficou quieta, tão de repente como se as águas caíssem em sono profundo, Luciano pôde ser puxado para a lateral. Observou a roda d'água afastar-se, ou ele que se afastava.
O céu estava fosco, rubro, prenúncio dum toró — assim os sertanejos chamavam uma tempestade.
E para piorar, Luciano estava ensopado. Pelo menos já estava asseado, menos mal, não precisaria de um banho. Foi agarrado por alguém e deixado na margem. As gotas ainda pingavam de seus fios lisos a salpicar o chão quando ele chegou em terra firme, trêmulo como um gato banhado. Afonso virou-o. — Prometeste. — Disse.
— Eu não disse nada! — Luciano defendeu-se. Passado o perigo, suspirou e pensou em chorar sob as copas das árvores, mas não era de seu feitio. Luciano abraçou-o, molhando-o também.
— Ei!! — Afonso tentou desgrudá-lo, mas não conseguiu, o garoto pregou-se em seu corpo como um tamanduá. Deixou-se ser encharcado. — Pulaste no rio para se salvar?
Luciano balançou a cabeça em confirmação. — Na verdade, eu caí.
— E ele não entrou, não é?
Balançou a cabeça de novo. — O que era, papai? O que era? — Perguntou.
— Bom…
— O que era? — Escalou pelo corpo do mais velho e subiu até seu rosto. — O que era ele?
— Espera aí, Luciano! — Tirou-o do rosto e o baixou ao chão. — Nada demais. Quando fores mais velho, vais entender.
Agradeceu Felipe e pediu que voltasse para casa. Luciano não desgrudou de si, mesmo a força. Então carregou-o no braço de volta para a Casa-Grande, no caminho, não aguentou e colocou-o no chão. — Vai com tua pernas, és pesado demais.
— O que os índios queriam? — Perguntou tomando a dianteira.
— Apenas se livrar de uns invasores.
— Vais ajudá-los?
— Bom… — Estava prestes a responder, mas ponderou. — Luciano, lá tens idade para entender isso? Vai trocar de roupa e deitar.
— Entendo sim!
— Não, não entendes.
Dentro do casarão, Luciano apressou-se em mudar as roupas, ainda com os recentes acontecimentos na cabeça. Jogou as vestes encharcadas no canto e enrolou-se nuns panos para secar-se. Puxou outras roupas e meteu-se dentro. Foi à janela, recolheu os retalhos do lençol, fechou-a e dirigiu-se ao quarto de Afonso.
Encontrou-o arriado no encosto de uma cadeira, o rosto omitido pela mão e o corpo baixo. Rodeava-o um ar cansado de dúvidas. Luciano aproximou-se e tocou-lhe as mangas da camisa, dando leves puxões. O português, atraído pelo contato, encarou-o questionador. — Minha história. — Pediu. — Não me contaste ainda. — Afonso ficou boquiaberto, mas não se recusou.
Pôs-se de pé, tomou as mãos e guiou-o até o quarto, antes tomou novos lençóis. Deitou-o na cama e sentou-se na beira. O hábito nascido como uma forma de ensinar-lhe história, literatura, geografia e outros saberes possíveis de serem narrados, fora tão bem abraçado por Luciano que ele não conseguia dormir sem antes ouvir uma boa narrativa.
Afonso adentrou na biblioteca de sua mente e revirou-a atrás de uma história inédita para o garoto. Dentre tantas opções, escolheu a mais justa e simplória. — Sabes como era este lugar antes de eu chegar? Não conheci muitas histórias, mas ouvi algumas e presenciei outras. Comecemos por um prisioneiro.
