Chapter Text
O grupo andou por minutos, a chuva se intensificando a cada curva que davam dentro da floresta. Remo precisou enrolar o bebê em mais panos para que a chuva não o alcançasse e o aquecesse ao mesmo tempo. Ninguém abria a boca, a tensão perneando no ambiente até que finalmente eles puderam observar a única entrada que levaria ao bando.
Remo sentiu que seu coração poderia explodir a qualquer momento, as batidas aceleradas causando uma dor quase que física em seu peito.
Apesar de ser um lobo que fazia parte do bando, não havia a sensação de pertencimento. Quase sete anos e Remo se via sendo tratado como estranho e, com exceção de alguns, ainda o tratavam como uma ameaça em potencial, pois, ser um mestiço era sinônimo de não confiável. Vergonhosamente o acastanhado admitia que os tratava da mesma maneira, ele não conseguia relaxar quando estava cercado por eles, mal mantinha uma conversa produtiva e sempre estava vigiando suas costas, sentindo-se no limite.
Remo ainda era criança, jovem demais para se lembrar com clareza, quando foi mordido. Ele tentou crescer normalmente, mas percebeu rapidamente que não era tão simples assim. O mundo possuía um padrão e se você não fosse esse padrão sofreria de várias formas, então, ele tentou o seu melhor para esconder sua segunda natureza, temendo qualquer aproximação, evitando qualquer dissabor, passou a temer a própria sombra e com o tempo percebeu que não poderia viver assim, pisando em cascas de ovos, sendo vigilante com medo de ser julgado por qualquer erro que cometesse. No fim, não importava o quanto tentasse, sempre seria visto como uma aberração no mundo bruxo, mas veja só a ironia, ele também era como um tipo de aberração da natureza entre aqueles que deveriam entendê-lo.
Mestiços eram muito raros e muitas das vezes não sobreviveriam por muito tempo sozinhos, sendo rejeitados até mesmo por outros lobos, - os verdadeiros - sofriam a humilhação de ter nascido do cruzamento proibido de um humano com um hispo, o que se tornava muito pior se esse humano fosse um bruxo ou mordido por um. A última vez que verificou, Remo viu que o ministério da magia havia declarado pena de morte para o bruxo quanto o lobo que se deitasse e desse a vida a um mestiço ou que criassem um através da mordida, crianças essas que muitas vezes eram abandonadas e mortas se encontradas, o que o fez se questionar por muito tempo se havia algum lugar no mundo onde ele pudesse ser apenas Remo Lupin. Ao longo dos anos, desde que foi salvo e trazido para o interior dessa floresta isolada, ele escutou os sussurros questionadores do porquê Greyback o aceitou, sussurros de uma possível traição, espionagem e suportou acusações infundadas silenciosamente simplesmente porque a solidão e a sensação de não pertencimento era esmagadora o suficiente para ele.
Aqui, ele não precisa se preocupar com a comida, não precisava se esconder, mentir e podia passar seus dias em paz com os poucos pertences que possuía, ele não devia explicações para ninguém e seu passado não tinha importância, obviamente não era perfeito, mas Remo achou menos opressor e por isso nos anos em que esteve com a matilha não causou problemas muito menos se atreveu a pedir nada para alguém, sua independência era algo da qual se orgulhava, porém, essa paz milimetricamente construída estaria em jogo hoje.
Apesar de sentir medo, Remo não se arrependeu.
A caverna se encontrava na parte mais funda da floresta de árvores altas, muitos animais não se atreviam a andar por aquela região e mesmo se alguém procurasse não a encontraria facilmente. Escondida por uma cortina de Hera, a caverna de rochas carbonárias era sinuosa, suas paredes eram altas, composta por sedimentos e piso irregular, no teto formações estalagmites e não chão estalactites que pareciam brilhar junto a algumas pedras preciosas. Ela se estendia por quilômetros com várias entradas que não levavam a lugar nenhum, a única iluminação sendo os pequenos vaga-lumes azuis no teto alto e um pequeno rio.
Havia apenas um caminho correto e este se abria para um grande espaço com grama, uma cachoeira de quedas íngremes que fluía na formação do rio, a água mudando a temperatura segundo o horário do dia, os vaga-lumes luminosos estavam em maior quantidade ali, além de várias outras pequenas habitações que serviam como quartos, depósitos e áreas de cura. No centro de tudo, uma grande pilha de madeira com outras pequenas espalhadas em locais estratégicos, o que fazia muito sentido uma vez que o bando gostava de dormir empilhados uns sobre os outros a noite, as fogueiras eram necessário para preservar o calor Apesar de tudo, Remo finalmente pode relaxar, os sons e cheiros familiares o deixaram feliz e menos tenso.
Havia cerda de 50 lobos ao todo, mais adultos do que filhotes, entre eles apenas dois bebês nascidos fora da época. Casos raros, mas não impossíveis. Todos estavam espalhados fazendo algo ou simplesmente relaxante, o barulho habitual muito bem-vindo.
Remo jogou seu saco junto aos dos outros, formando uma pilha e ele pode ver Cass marchar furiosamente até Greyback sussurrando algo antes dos olhos afiados do Alfa se cravarem em Remo e o seu precioso pequeno pacote silencioso e úmido. Ele não desviou o olhar como normalmente fazia e apenas balançou levemente o bebê enquanto via seu Alfa franzir as sobrancelhas e acenar com a cabeça. Cass parecia extremamente satisfeito consigo mesmo quando viu Grayback soltar um longo uivo de chamado. Foi automático, todos os lobos se reuniram em volta da grande pedra central onde o Lobo Alfa sentou com os braços cruzados. Cass ficou orgulhosamente ao seu lado direito, como Beta e o segundo em comando, e outros 4 lobos. Todos se acomodaram e se silenciaram, Remo recebeu um único olhar de Grayback e soube o que fazer ao se posicionar na diagonal contrária de onde o Lobo Alfa estava, sentindo os olhos curiosos sobre ele e o pequeno embrulho de pano, certamente todos já haviam percebido o cheiro incomum, mas familiar e não deixaram de disfarçar.
— Hoje, mais cedo, mandei alguns membros do bando investigarem o acampamento estranho em nosso território. — A voz grossa e autoritária de Fenrir retumbou por rodo o lugar. Não havia hesitação em seu discurso, era claro e devidamente pausado, a maneira como ele dizia fazia todos ficarem atentos em cada palavra, completamente maravilhados. O fato era que ele tinha o necessário para realmente ser chamado de Alfa, ele era bom em dar ordens e os outros em obedecer. — Fiquem felizes em saber que todas as ameaças estão eliminadas, não se sabe exatamente como ainda, aparamente algum lobo crinos, nada com que se preocupar por agora. As saídas livres estão autorizadas, mas não se esqueçam do horário de voltar e de não se afastar muito, principalmente os filhotes. Quero que os responsáveis se mantenham atentos e relatem qualquer movimentação estrangeira, afinal, ainda temos um lobo descontrolado a solta.— Um aceno solene de todos foi a única resposta que o Alfa recebeu. Fenrir não precisava mais do que isso, todos o obedeceriam, pois sabiam das consequências. — Chegou a mim também que houve um sobrevivente... — Seus olhos caíram sobre o bebê que se contorceu levemente. Todos começaram a sussurrar e cochichar, Grayback rosnou em aviso e todos se calaram no mesmo segundo. Remo engoliu em seco olhando o bebê mais uma vez, a criança parecia muito mais quente agora que estava enrolada em seu casaco além dos panos em que foi encontrado. — Um filhote, sem mãe. — O alfa continuou.
Remo viu Agnes, uma loba idosa, se levantar no meio da multidão de lobisomens sentados sem nem mesmo Fenrir pedir, ele nem mesmo dirigiu o olhar para a senhora. Ela caminhou lentamente até Remo, totalmente inofensiva, mas ele se viu rosnando para ela quando a mulher tocou o pano em que a criança estava e ele gemeu desconfortavelmente. Agnes o olhou com uma mistura de confusão e repreensão e, mesmo com os rosnados baixinhos de Remo, continuou a desenrolar a criança, o tocando e analisando cada parte de seu minúsculo corpo.
— Remo o trouxe para nós, mas há uma divergência já que Cass diz que o filhote é novo demais para sobreviver sem o leite da mãe. Pela lei a criança deve ser poupada do sofrimento e morta.—Fenrir declarou, alto e claro, para todos.
Tudo em Remo gelou e ele já havia se dado por satisfeito. Ele empurrou levemente a senhora para longe não querendo machucá-la e cobriu a criança dos olhos curiosos dos outros. Seu coração se encheu de tristeza, sua garganta se fechou e ele lutou contra tudo para controlar suas lágrimas. Ele sabia disso, era a lei, mas não queria dizer que era absoluta, ele tinha esperança de que... de quê? Era obvio o que aconteceria, ele havia visto demais aquela cena para não ter si iludido.
— O filhote nasceu antes do tempo, um prematuro. — Agnes se reportou a Grayback. — Ele é pequeno demais, mas provavelmente tem cerca de dois meses de vida, ainda precisa dos cuidados e leite de uma mãe. — A senhora parecia lamentável enquanto dava a notícia. Ela não gostava da notícia tanto quanto Remo, mas já havia visto fêmeas demais perderem seus filhotes, assim como ela própria já havia sido mãe por mais vezes do que qualquer fêmea daquele local, havia perdido filhotes e ela não gostava de ver um ser levado pelos braços da morte, mas aquela criança morreria certamente de um jeito ou de outro. — Eu sinto muito Remo, mas ele não tem chances de sobreviver, eu não dou nem mesmo uma semana.
O mundo de Remo desmoronou.
— Está decidido então. — Remo viu Fenrir se levantar, dando por encerrado. Cass ao seu lado parecia presunçoso e satisfeito. — Vamos acabar logo com isso.
— Alfa, por favor, não. — Remo se viu implorando, quase sem forças, imediatamente. Ele se atreveu a perseguir um Fenrir decidido.
— É a Lei, ela deve ser cumprida, Lupin. — Cass retrucou, ameaçando pegar o menino dos braços de Remo.
Ninguém se moveu para ajudar, ninguém disse nada. Havia melancólica no ambiente e algumas mães agarraram seus próprios filhotes com mais força, algumas tão devastadas quanto Remo. Ninguém gostava do que viria a seguir, tudo só piorava com o silêncio que se apoderou.
Ainda segurando o bebe, os ouvidos de Remo zumbiram quando Fenrir apenas lhe deu as costas, outro beta se adiantou com um pedado grande de madeira e esperou que Cass vencesse a luta de agarre que Remo iniciou com ele pela criança.
— Alfa... não faça isso. — Remo soluçou, implorando pela segunda vez. O pedido saiu tão natural, mas tão desesperado. Ele não se importava se estava berrando ou se parecesse lamentável, tudo o que importava era que em seus braços, o pequeno bebê chorava tanto quanto ele, seus berros fracos causando agonia a Remo. — Por favor, ele não tem culpa. Ele não tem ninguém, mas eu posso cuidar dele. — O acastanhado se sentia tão inútil e quebrado, não bastasse ser um párea, detentor da classificação mais baixa e agora mal podia defender a vida de um inocente. O quão cruel o mundo poderia ser?
Remo estava quase desistindo, mas uma olhada para baixo e ele encontrou os grandes e lindos olhos do bebê antes de recorrer a sua única opção. Ele correu e se viu de joelhos nas pernas do Lobo Alfa, agarrando-se aos tecidos da calça desgastada com a maior força que podia. Fenrir tentou empurrá-lo, o chutou e chegou a socá-lo no rosto, mas Remo não o soltou, a todo momento implorando e chorando.
— Eu imploro, me dê cinco dias, só cinco dias. Se eu não conseguir...— Ele se engasgou, as palavras lutando para sair, o ferindo profundamente no processo. — Se eu não conseguir, então... eu mesmo farei.
— Como pretende alimentá-lo, Remo? — Fenrir perguntou o olhando intensamente. — Esse filhote precisa de leite, fêmea nenhuma aqui vai alimentá-lo e ficamos a dias de distância de uma aldeia de humanos. Você o estará torturando por seu próprio egoísmo. — Rosnou.
— Eu não sei ainda, mas eu vou dar um jeito. Juro! Só me dê os cinco dias e depois disso... eu mesmo matarei o menino. — Seus olhos se encontraram com os intensos de Fenrir. O Lobo o olhando longamente, uma conversa silenciosa, procurando por algo.
— Ele está mentindo. Ganhando tempo... — Cass sussurrou para Fenrir.
— Por favor...
Uma hora!
Há uma hora Fenrir havia reunido alguns anciões e seus lobos betas de maior confiança. Eles entraram na toca do lobo alfa e pouco pode ser ouvido depois disso. Remo ainda estava de joelhos no mesmo lugar onde Fenrir o havia deixado, o menininho ainda enroladas nos panos úmidos, mas estranhamente quieto. Remo tirou alguns para aliviar a criança e percebeu que sua pele estava um pouco mais quente, os lábios haviam ganhado cor, mas mesmo assim Lupin achava que não poderia esperar mais, a criança precisava claramente de um banho quente e roupas novas.
Ele não se atreveu a se mover, até porque havia mais dois lobos o vigiando a mando de Fenrir para garantir que ele não fugisse, alguns dos outros haviam se dispensado para continuar a fazer suas tarefas enquanto outros aguardavam silenciosamente tentando vez ou outra se aproximar para olhar a criança de perto. Remo sempre rosnava e chegou a morder um dos adolescentes que chegou perto demais.
Então, quando ele pensou que não poderia mais aguentar a tensão da espera, Fenrir saiu com os demais logo atrás deles. Seus pés grandes afundaram na grama enquanto ele caminhava até Remo, seu rosto não revelando nada até que ele se abaixou a altura de um lamentável Remo. Dando-lhe um olhar profundo e um longo suspiro depois, Fenrir finalmente tirou Remo de sua miséria.
— Você tem cinco dias. Se não me chegar com uma solução, eu mesmo vou garantir que você faça o que Jurou fazer. — Ele deu um último olhar para o bebê e se levantou, partindo.
Remo Lupin mal pode acreditar.
— Obrigada. — Soluçou, um peso enorme parecendo sair de seus ombros.
— Fenrir... Alfa... — Cass chamou, perseguindo o outro completamente raivoso
— Cala a merda da sua boca, Cass! — Fenrir rosnou furiosamente.— Está decidido, não se deve mais falar disso. Vá fazer seu trabalho e garanta que não tem nada de errado com as nossas fronteiras. — Ordenou.
.— Foi um erro! — Cass se voltou para Remo, seus olhos furiosos gritavam por sangue. Remo se levantou lentamente do chão, suas pernas, ainda tremulas. Ele ajeitou o bebê mais uma vez e não pode conter o sorriso de felicidade quando viu um pequeno bocejo. — Você cometeu um erro enorme e vai perceber isso tarde demais.
Remo ergueu o queixo, tomando um longo fôlego.
— Não foi e você vai ver. — Desafiou. Ele deu as costas para um Cass furioso sendo segurado pela companheira e seguiu rapidamente para o espaço de pequenas cavernas designada para ele, desejando nada mais do que cuidar do filhote e tirá-lo dos olhares nada amigáveis que eram dirigidos a eles.
Naquela noite, Remo voltou ao acampamento. Com o bebê amarrado em uma tipoia de pano, ele cavou quatro buracos fundos, um a um ele enterrou os corpos dos três homens e da mulher. Orou por eles, mesmo que não acreditasse em um Deus e agradeceu a ruiva por ter lhe dado o filhote, a quem ele descobriu que se chamava Harry. Em suas orações, ele pediu para ela que o ajudasse a cuidar de Harry e a mantê-lo vivo.
