Chapter Text
A garganta estava seca, enquanto suas mãos estavam extremamente molhadas de suor. YoonGi achava que nunca tinha ficado tão tenso quanto a primeira vez que esteve na sala de autópsia para abrir o primeiro corpo. O professor estava logo ao seu lado na ocasião, explicando tudo que ele tinha que fazer. Por mais que ele já tenha entendido toda a teoria, a prática é completamente diferente. Ninguém pode realmente estar preparado para a visão de um peito aberto e sangue coagulado, órgãos que podem estar podres em decomposição ou ainda em bom estado; nada te prepara para o cheiro do morto ou dos produtos de limpeza da sala ou dos que ele usaria; nada pode conter sua mão tremendo ao segurar o bisturi antes do primeiro corte. Mesmo assim, ele finalmente encontrou algo que o fez tremer da mesma forma.
A sala estava silenciosa e ele já estava sentado ali sozinho provavelmente há mais de meia hora., YoonGi tinha certeza que isso deveria ser uma estratégia de interrogatório, porque quanto mais o tempo passava, mais nervoso ele ficava e provavelmente quanto mais nervoso estivesse, mais erros poderia cometer e, definitivamente, ele não queria cometer erros.
“— Peça um advogado imediatamente e não diga nada antes do seu advogado chegar.”
Ele obedeceu a instrução que HoSeok lhe deu, foi a primeira coisa que fez quando entrou na delegacia. Mas ou seu advogado estava preso no trânsito, ou não deixaram ele entrar, ou lhe odiava muito e queria vê-lo sofrer de ansiedade.
“— Explique o caso ao seu advogado e diga que quer ajudar a polícia, fornecendo informações que podem ajudá-los, mas que quer ser uma testemunha e não considerado um suspeito.”
Ele faria isso, embora logo depois de HoSeok passar essas instruções, Kim MinJun disse que não deveria ter muita esperança que a polícia fosse concordar com isso, que eles provavelmente não concordariam, mas que ele precisava fazer para constar nas gravações.
Toda a equipe de HoSeok estava nisso agora e ele se sentia culpado, mas também grato por estarem tentando lhe ajudar.
“— Você não pode usar seu álibi.”
“— Por que não?”
“— Conflitos de interesse.”
“— Mas se depois nos descobrirem, não será pior?”
“— Mas é melhor que nos acusem de tentar te defender indevidamente depois de termos um novo suspeito do que antes, caso contrário, podem sequer aceitar o nosso perfil.”
Ele engoliu em seco, Kwon JiYong acrescentou que HoSeok era não apenas um álibi confiável, como era uma carta na manga que eles poderiam e iriam usar no momento certo, porque como uma figura pública ligada diretamente a toda a assessoria de imprensa da polícia da Coréia, ele tinha uma reputação a preservar, não apenas a própria reputação, mas a de todo o departamento de relações públicas policial.
Isso quase o deixou mais calmo, se ele não estivesse preocupado em estar arruinando a carreira do namorado.
“— Eles vão pegar pesado com você, porque estão nervosos, tente aguentar firme e ser paciente, não diga o que eles querem ouvir, não importa o quanto eles forcem e digam coisas que não são verdadeiras e que ferem você.”
HoSeok deixou um beijo na sua mão depois de dizer essas palavras. Foi um ato carinhoso e encorajador, mas por si só trazia a percepção a YoonGi de que ele ouviria muita coisa que o desestabilizaria, ele realmente precisaria ser forte para ouvir e não revidar, para não se deixar ser atingido tão forte que diria coisas sem pensar. Ele não tinha certeza se podia ou não fazer isso.
Finalmente, depois de uma hora quarando na sala de interrogatório sozinho, a porta foi aberta e seu advogado apareceu. Foi um alívio, nunca em toda sua vida ficou tão feliz em ver um legisperito.
— Você está bem?
— Aquela pergunta pareceu profunda demais, embora o doutor Lim quisesse saber especificamente se ele fora tratado devidamente pela corporação, tudo seria mais fácil se ele tivesse levado algum esporro da polícia, mas infelizmente — não completamente — eles tinham lhe tratado com a grande cortesia de só lhe jogarem naquela sala para que esperasse.
— Na medida do possível. Eles nunca disseram nada, eu também não disse, estava esperando por você.
— Fez bem, fez muito bem. — Lim se sentou, colocou a pasta na mesa e abriu, seus óculos estavam um pouco caídos, escorregando pela ponta do nariz, mas ele parecia concentrado nos papéis que reunia. — Ainda não tenho muita informação, ajudaria se você me contasse tudo, em detalhes, porque pelo que seis, as acusações envolvem vários homicídios e são muitos agravantes, devo dizer que assombrosamente remover os órgãos já é bem ruim, mas usar o cargo para ocultar ou eliminar provas é o pior dos agravantes, juridicamente falando.
YoonGi sentiu um arrepio na espinha, só de imaginar que certamente seria um forte eleito para a pena de morte, isso já lhe deixava tremendo dos pés a cabeça novamente. A Coréia tinha a pena capital como punição, mas não executava ela há anos, todos os presos que recebiam a penalidade viviam como se tivessem na verdade recebido prisão perpétua, eles nunca são soltos, mas também nunca são executados. De qualquer forma, ele não queria ter seu nome em um crachá vermelho, pregado em um macacão cinza.
YoonGi passou as próximas meia hora contando tudo que tinha acontecido, detalhadamente, parecido com o que tinha contado a HoSeok, além disso, também teve que contar a parte que seu namorado lhe disse para se esconder no motel, mas por prevenção, não contou o nome, nem citou a equipe da UAC. Depois de explanar tudo diligentemente, já se sentia cansado, sabia que teria que contar mais uma vez quando a polícia chegasse.
— Eu quero oferecer ajuda para encontrar um suspeito — disse, por fim. Lim ajustou o óculos, seu olhar era de reprovação depois dessas palavras.
— Eles não vão nem cogitar isso. Pelo menos não antes de convencermos eles de que você não é o suspeito que eles querem. Vamos começar pelo principal, seu álibi, você tem um. — YoonGi franziu o cenho, confuso. — Enquanto você me contava a história, meu assistente tinha o trabalho de encontrar provas da sua inocência, você estava em Seul, certo? Se eu tenho essa informação, eles também já possuem.
Por um momento, YoonGi sentiu-se idiota. Está há anos trabalhando como legista para a polícia, sua sala era no mesmo prédio, só mudava o departamento, mas mesmo assim, ele sabia tão pouco sobre investigação. Nunca lhe ocorreu entender os trâmites, ele sempre fez e entregou um trabalho com excelência, nunca errando em seus laudos, cumprindo prazos e até fazendo uns favores aqui e ali para alguns policiais, adiantando alguma autópsia que parecia mais urgente do que as que estavam na frente. Ainda assim, estava surpreso com um fato que na verdade ele deveria já ter esperado.
— Estava… — respondeu baixinho, a resposta nem era necessária, ele sabia que era uma pergunta retórica.
— O que estava fazendo lá?
— Preciso mesmo contar? Estar em Seul não é suficiente?
— Talvez, mas eles com certeza vão perguntar e provavelmente farão o possível para descobrir.
— Estava com meu namorado. — Já sentia um amargor na garganta, ele sentia-se exposto. Olhou para a parede de vidro, ele sabia que aquela parede era falsa e só ele não podia ver que qualquer outra pessoa do outro lado estaria lhe ouvindo.
— Não se preocupe, eles não podem nos ouvir e se ouvirem, não podem usar o que ouvirem aqui como prova.
— Não é isso… É apenas desconfortável… — Lim assentiu, mas YoonGi não achava que ele realmente entendia.
— Quem é seu namorado?
— Prefiro não dizer. — O advogado franziu o cenho. — Isso pode prejudicá-lo, eu não quero.
— Veja bem, ele é a única pessoa que pode confirmar o seu álibi.
— Não é verdade, tenho certeza que a polícia pode conseguir imagens dos aeroportos, não deve ser difícil para eles, desde que eu esteja em Seul, não posso ter matado ninguém em Daegu.
— Está certo, no entanto, seria muito bom se você também tivesse álibi para todos os outros quatro assassinatos. Você tem?
YoonGi pensou um pouco, para ser franco, ele nem lembrava mais ao certo essas datas, quem dirá o que estava fazendo. Particularmente, sempre achou um absurdo em séries e filmes quando as pessoas diziam exatamente o que estavam fazendo na hora e na ocasião em que algum crime aconteceu, não era natural, pelo menos não seu, ele não podia dizer o que fez na segunda-feira passada, muito menos o que fez um mês ou dois meses atrás.
— Não, pelo menos, não que eu me lembre. Digo, posso me recordar dos dias em que os corpos chegaram, são crimes muito singulares, não vemos essas coisas todos os dias, lembro do primeiro corpo, não estive na cena do crime porque estava ocupado, terminando outro trabalho, então estava no prédio, mas não dava pra estipular hora do assassinato com base na temperatura… ele não tinha os orgãos internos… De qualquer forma, o corpo não estava em decomposição, então estipulei até doze horas, tempo suficiente para eles quererem jogar pra cima de mim, se tivesse sido eu, não teria feito isso.
— Não é pra mim que você tem que se defender — Lim falou, olhando com certo ceticismo. — Eu vou chamá-los, estão ansiosos para o interrogatório.
YoonGi sentiu o estômago embrulhar, assentiu em modo automático e esperou pela sabatina que viria. Lim saiu e o tempo parou, porque ele não foi capaz de medir quanto passou, quando a porta foi aberta, o advogado estava acompanhado de dois investigadores. YoonGi os conhecia, tinha trabalhado com eles diversas vezes, mas não era exatamente amigo de nenhum, mesmo assim, estava esperando qualquer cortesia que ele teria caso fosse o contrário.
— Você tem ideia de como isso funciona, senhor Min? — o investigador Dong falou, ele era o mais velho entre os dois investigadores, por isso conhecia YoonGi há mais tempo, ele podia sentir que essa pergunta era a cortesia que ele esperava, mas isso não o deixou mais calmo.
— Não exatamente…
— Vamos apenas fazer algumas perguntas — disse o outro, o investigador Jeong.
— Eu sou um suspeito? — Ele sabia que não deveria ter perguntado, mas foi mais forte do que ele.
— Deveria ser? — Dong ergueu uma sobrancelha, enfatizando a pergunta e Min apenas pôde mover a cabeça com veemência, negando. — Você é alguém de interesse, por isso, deveria responder nossas perguntas, assim, todos nos ajudaremos. — Ele concordou com a mesma veemência. — Então, o que estava fazendo ontem, no horário do crime? Suponho que você tenha alguma ideia sobre o horário do crime, esteve com o corpo horas atrás e iniciou o processo de autópsia.
— Eu fiz, digo, iniciei sim, mas ontem eu estava em Seul, vocês podem confirmar isso com as câmeras dos aeroportos. — Dong meneou com a cabeça.
— E com quem você estava?
— Meu namorado.
— Que se chama?
— Prefiro não dizer. — Jeong franziu o cenho, quase como se sentisse que YoonGi estava desafiando a cortesia dos dois.
— Meu cliente acredita que será melhor proteger a identidade do namorado, portanto, não revelará o nome.
— Acontece, que até onde nos consta, o namorado pode ser um cúmplice, ou o assassino.
— Não! — YoonGi quase gritou, os olhos muito arregalados, mas antes que dissesse mais alguma coisa, Lim tocou seu ombro, contendo-o.
— Bom, são os senhores quem precisam provar. Meu cliente tem um álibi, que vocês podem comprovar por meio de vídeos de segurança.
— Pois bem — disse Dong e YoonGi engoliu em seco, sentindo que a cortesia estava chegando ao fim. — Tivemos acesso aos materiais biológicos encontrados nas vítimas, senhor Min, materiais que você colocou como não identificados.
— Sim, porque o laboratório não os entregou a tempo e eu precisava fazer os meus relatórios, se não tenho precisão de que tipo de substância é, o protocolo manda que a gente escreva que a substância não foi identificada, depois podemos atualizar com a data que a amostra retornou com o resultado.
— Sabemos como funciona — Jeong o respondeu, cortante. — Mas é surpreendente que você tenha deixado inconclusivo uma substância incomum que você tem alguma ligação.
— Meu cliente não tem qualquer ligação com essa substância. Ele estudou muitas substâncias ao longo de sua carreira acadêmica, não significa que ele deva identificar todas apenas ao vê-las. Ele seguiu o protocolo, mandando a substância para análise.
Eram respostas como essa que faziam a polícia odiar advogados criminais, mas YoonGi estava grato por Lim ser tão afiado e por estar ali lhe defendendo. Por outro lado, os policiais não estavam satisfeitos.
— Olha, eu quero ajudar, eu posso ajudar, acho que sei quem cometeu os assassinatos. — O advogado olhou-o com pura reprovação e indignação.
— E com o que pode nos ajudar, senhor Min? Você tem um nome que possa ser do nosso interesse?
— Depois que eu vi o resultado da análise da substância, eu soube o que era e sabia que podiam me associar a ela por causa de uma conferência, mas eu não era o único na conferência, vocês podem acessar a lista de todos que estavam lá.
— E você é o único de Daegu, caso não saiba. — Jeong cruzou os braços, quase como se fosse um desafio.
— Mas isso não impede ninguém de viajar e matar aqui, ou ter se mudado posteriormente à conferência. — YoonGi não tinha todas as respostas, esse não era o seu trabalho e lhe aborrecia que a polícia ao invés de estar investigando o que ele sugeria, não parecesse sequer dar valor à informação.
— Seria muito conveniente — respondeu Jeong.
Uma batida na porta foi ouvida antes que YoonGi retrucasse, um policial enfiou a cabeça e chamou Dong e Jeong. Eles o olharam uma última vez antes de sair.
— Você deveria ter ficado quieto — Lim o repreendeu.
— Mas eu não posso deixar eles me acusarem.
— Entendo, mas é melhor você ficar quieto a partir de agora.
Não demorou para que apenas Dong voltasse para a sala de interrogatório e sentasse na frente de YoonGi.
— O que estava me dizendo sobre a lista? — YoonGi olhou para Lim, pedindo autorização, o advogado assentiu.
— A maioria eram acadêmicos como eu era na época, mas alguns poucos estavam exercendo, dá pra começar por aí — sugeriu. — Mas… por que mudou de ideia? — Dong crispou os lábios.
— Há mais um corpo — respondeu. YoonGi arregalou os olhos, isso não fazia sentido.
— Co-como? Mas…
— E pela temperatura do corpo você estava na sala de autópsia com o quarto corpo, então não pode ter cometido esses dois últimos assassinatos.
— Não cometi nenhum! — defendeu-se, um pouco mais chateado e também mais confiante.
— Sim, sim, é o que parece. Bom, agora temos menos com o que trabalhar e um assassino matando mais rápido, sua lista ajudaria muito.
— Investigador Dong, você lembra do ano passado? Aquele caso do assassino que cortava a língua das vítimas? — Dong moveu a cabeça, sinalizando que ele deveria continuar. — Na ocasião, vocês chamaram a UAC… Talvez devesse fazer o mesmo agora.
A expressão de Dong clareou, como se YoonGi tivesse colocado uma lâmpada na sua frente, ele quase podia perguntar a si mesmo como não pensou nisso.
— O departamento odeia isso — riu. — Mas é uma ótima opção.
Não estava nos planos que YoonGi sugerisse a UAC, mas estava claro que a maioria das coisas dificilmente saíam conforme o planejado, a oportunidade apareceu e ele queria sentir-se seguro com a equipe ali. Talvez ele nem precisasse passar pelo interrogatório da UAC, afinal ele não deveria ser mais um suspeito.
[...]
Quando HoSeok apareceu em seu campo de visão, precisou de muito autocontrole para não pular no pescoço dele e ficar pendurado como um coala. Jung lhe deu um olhar conhecedor, que dizia que as coisas estavam indo bem. Agora, ele estava com toda a equipe, Kim MinJun, Kim TaeYeon, Kwon JiYong, Kwon Yuri e Lee MinHo, os dois últimos YoonGi não conhecia, na época em que a equipe estivera ali, as outras duas pessoas eram Kim TaeHyung e Lee ChaeRin. Ele não tinha certeza do que aconteceu com a mulher porque HoSeok preferia evitar o assunto, quanto a TaeHyung, sabia vagamente que o rapaz tinha ido para os Estados Unidos, o que era uma pena — pensou consigo mesmo —, porque TaeHyung era uma peça rara, um rapaz de mente genial.
A equipe não foi diretamente falar com ele, todos foram encaminhados para outra sala onde YoonGi imaginou que estariam falando com o investigador Dong, então ele apenas pôde esperar, sem palpitar, mas também sem poder sair e voltar ou ir ao trabalho ou para casa. Foi uma espera tão estressante quanto qualquer outra que ele precisou fazer durante o dia, as últimas horas pareciam fazer o dia ser eterno, se ele parasse para pensar, nesse mesmo dia, ele acordou em Seul, pegou um avião, foi trabalhar, depois fugiu, esperou por HoSeok em um motel horrível, depois se entregou para a policia e esperou mais até seu advogado chegar, como se não bastasse, ainda tinha que esperar o restante da equipe de HoSeok chegar. O dia já deveria ter acabado, mas mal havia escurecido.
— YoonGi. — Levantou a cabeça, procurando por quem lhe chamava tão informalmente, até seus olhos encontrarem os olhos de seu namorado. — Você está bem? — Confirmou com um aceno. — Eu vou dar uma coletiva de imprensa.
— Vocês já têm um perfil? — perguntou, insegurança despontando em sua voz.
— Temos algo. A equipe veio trabalhando com o pouco que tinha. — Novamente apenas um aceno, o que fez com que HoSeok sentasse ao seu lado. — Vai ficar tudo bem, o pior já passou. — Segurou sua mão. YoonGi olhou diretamente para a mão do namorado.
— Só acaba quando alguém for preso e não for eu. — HoSeok sorriu.
— Quando a pessoa certa for presa, e definitivamente não é você. — YoonGi lhe olhou, queria agradecer por HoSeok ter confiado em si desde o princípio, mas as palavras não escaparam, de qualquer forma, seu namorado parecia entender.
Quando HoSeok se foi, YoonGi ficou olhando para a televisão, esperando pela coletiva de imprensa que passaria ao vivo e não demorou mais que dez minutos. Jung apareceu no canal de notícias, diversos flashes na sua frente, mas ele sequer piscava, uma postura muito profissional que fez com que YoonGi o admirasse.
“— A polícia de Daegu está empenhada em descobrir sobre os assassinatos que vem ocorrendo…”
“— Ficamos sabendo que alguém foi preso.” A voz de uma jornalista se sobressaiu, atropelando as palavras de HoSeok que olhou com seriedade na direção dela.
“— Essa é uma informação equivocada. Na tarde de hoje a polícia recebeu uma pessoa que pode fornecer informações preciosas.”
“— Que tipo de informações?” Outro jornalista o interrompeu, YoonGi sempre achou que jornalistas tinham talento para serem mal educados.
“— Não estou autorizado a passar esse tipo de informação ao público.”
“— Mas vocês têm uma pista do Açougueiro de Daegu?”
“— Como?” Foi a primeira vez que YoonGi viu um vislumbre de irritação no rosto de HoSeok, mas ele rapidamente se recompôs. “— Este departamento não reconhece nenhum codinome como esse, ficaremos agradecidos se deixarem esses termos de lado.”
— Abutres. — Ouviu a voz de Yuri, bem ao seu lado, ele olhou para a mulher, ela era maior que a líder de equipe, mais forte também, mas menos amedrontadora. — Eles sempre inventam essas coisas e na maioria das vezes mais atrapalham do que ajudam. — YoonGi concordou, você podia contar nos dedos uma vez que a mídia realmente ajudou, no geral, tudo valia por uma matéria, inclusive atrapalhar as investigações e YoonGi não podia deixar de pensar que por muito pouco sua cara não estava estampada no jornal como o suspeito.
— HoSeok vai dizer o nome do médico? — perguntou.
— Não, por enquanto não é bom, esse tipo de Descon é muito vaidoso — JiYong quem respondeu. — É por isso que HoSeok não pode deixar que eles o apelidem, se não, ele vai se sentir grande demais. — O celular de JiYong tocou e ele atendeu. — Está no viva-voz.
— Oi, todos. Então, eu estive à procura do nosso ex-legista misterioso, é assombroso como algumas pessoas conseguem simplesmente sumir do mapa, nenhuma multa de trânsito, nenhum uso de cartão de crédito, nem carteira assinada, então nosso Descon ou está vivendo como indigente, ou está trabalhando ilegalmente.
— Eu aposto na segunda — JiYong murmurou.
— É, você está certo, querido — Hyo-Rin voltou a falar. — Como eu não estava encontrando ele especificamente, comecei a procurar por suas propriedades ou de familiares.
— O que você tem pra nós? — TaeYeon perguntou.
— Bom, ele vendeu a casa dele em Ulsan, era onde ele morava quando participou da conferência e também se demitiu. Mas o pulo do gato é que ele tinha uma propriedade de família em Gyeongsan, que fica a duas horas de Daegu.
Todos se entreolharam, o que finalmente parecia ser uma pista mais concreta até agora.
— Qual o endereço? — Taeyeon pediu.
— Já estou mandando para o celular de todos vocês! — Hyu-Rin parecia muito animada e satisfeita por fazer seu trabalho.
— Vamos reunir todo o pessoal e passar o perfil para eles — TaeYeon avisou, afastando-se, MinJun seguiu e JiYong também, ficando apenas MinHo e Yuri por perto.
— E qual é o perfil? — YoonGi fez a pergunta que não queria calar. — Nós já sabemos a identidade, não é apenas chegar e prendê-lo? — MinHo riu.
— As coisas não ficam mais simples quando conhecemos a identidade do Descon — falou o rapaz. — Veja bem, Andrei Chikatilo, conhecido como O Açougueiro de Rostov ou O Estripador Vermelho, quando ele atacava suas vítimas, ele arrancava seus olhos com os dentes e as mutilava, ele procurava o prazer sexual que só conseguia atingir quando praticava esses atos. Mas os olhos, isso geralmente é algo muito simbólico, estupradores gostam de ver o medo nos olhos da vítima, mas quando não o fazem, é porque encontram algum tipo de complexo.
— Mas não são os olhos… — YoonGi ainda não estava entendendo o ponto.
— Tudo bem, não são os olhos, Jeffrey Dahmer, conhecido como O Canibal de Milwaukee, ele abusava e matava suas vítimas estranguladas, mas depois ele desmembrava e preservava as partes em casa para se alimentar. Que tipo de substância você disse que encontrou nos corpos?
YoonGi parecia chocado demais para falar, Yuri riu baixinho, MinHo parecia ter dificuldade em explanar seus pensamentos, ao mesmo tempo que tinha grande facilidade em chocar YoonGi.
— Era… uma substância para… conservação… ma-mas o estudo era para que pudéssemos trabalhar com os corpos e conservá-los por mais tempo antes da decomposição ou desacelerar…
— Bem, esse era o uso de vocês para o trabalho, mas isso não significa que seja para isso que ele queira.
— Mas cani… — YoonGi cobriu a boca como se falar fosse demais. — Isso é horrível!
— Eu pensei nisso no avião, primeiro eu pensei que poderia ser para vendas de órgãos, mas não podia ser, ninguém compra órgãos que não podem ser utilizados e pela autópsia que você fez, as vítimas já estavam mortas quando os órgãos foram retirados — MinHo falava de forma que parecia que ele estava mais divagando do que explicando algo para YoonGi. — Mas também, existia um cuidado obsessivo para preservar os órgãos, vítimas que estavam muito saudáveis. E, pelo que consta, não houve abuso sexual, houve? — Olhou para YoonGi, pedindo a resposta.
— Não, não houve.
— Pelo menos, sem necrofilia, mas não significa que isso não o excite — Yuri complementou.
— Já chega, eu já estou horrorizado o suficiente!
YoonGi via corpos todos os dias, a maioria deles sofreram crimes, nem todos, mas pouquíssimas vezes esteve diante de tanta crueldade e horror. Mesmo sendo um médico legista, ele não era o tipo de pessoa que pesquisava ou passava algum tempo se informando sobre assassinatos em série, como já estava habituado a cadáveres, preferia passar seu tempo livre longe de qualquer coisa desse tipo. Agora ele se sentia como se tivesse vivido em uma bolha, flutuando pelo meio disso tudo por muito tempo, mas sem realmente saber o que estava submerso.
— Vocês estão assustando ele? Taeyeon está esperando vocês. — HoSeok se aproximou e YoonGi suspirou aliviado. Yuri e MinHo se levantaram e saíram. — Você está bem?
— Não tenho certeza. — HoSeok sentou ao seu lado. — Eles estavam falando sobre assassinos estripadores e canibais.
— Ah, eles só estavam querendo te deixar chocado ou assustado.
— Bom, eles fizeram um bom trabalho, qualquer que seja a opção. — HoSeok sorriu. — Esse é um perfil terrível.
— Isso não é um perfil.
— Quê? Como assim?
— Esses são elementos que nos ajudam a montar o perfil, estudamos muitos e muitos casos antigos e encontramos semelhanças ou diferenças, no geral podemos basear a situação com os perfis antigos e então chegamos em uma conclusão.
— Então, qual é o perfil?
— Provavelmente estamos lidando com um narcisista e é possível que ele esteja em estresse, é o que indica a morte mais recente, ele matou rápido demais, mas os cortes são tão perfeitos e precisos, ele tomou esses cuidados, mesmo com o tempo estreito, ele é perfeccionista obsessivo. — YoonGi por um segundo parou de prestar atenção no que HoSeok estava dizendo, porque ficou hipnotizado no namorado, tirando algumas conferências de imprensa, ele nunca tinha visto o namorado falando de casos, mostrando que não era apenas um rostinho bonito e social que passava informações.
— É um momento horrível, eu sei, mas você fica tão lindo sendo inteligente e me fazendo sentir alguém meio estúpido.
HoSeok riu, ele ainda estava falando alguma coisa sobre o perfil quando YoonGi o interrompeu com essas palavras.
— Pelo visto, acho que você já está bem sim.
— Não, "bem" é uma palavra muito forte.
— De qualquer forma, vou te levar para casa, você já está liberado. — HoSeok se levantou, tirando o casaco e pôs nos ombros do Min.
— Mas… e o caso? — Ele hesitou.
— Você não é mais um suspeito, não tem mais nada que possa fazer.
Parecia frustrante que esse fosse o fim, parecia incompleto, mas também parecia bater como a realidade que na verdade esse foi um dia extremamente frenético, de manhã ele estava sorrindo apaixonado, de tarde ele era um fugitivo pensando em pintar o cabelo de ruivo para se camuflar e de noite estava voltando para casa com um caso inconclusivo, mas sentindo certo alívio de não ser mais um suspeito.
[...]
Sentados no sofá do apartamento de YoonGi, cada um com uma tigela de sopa de carne de boi em mãos, assistiam ao jornal que noticiava em primeira mão a prisão. A chamada da matéria era: "ex- médico legista que foi preso comportava na geladeira vários órgãos humanos". As sopas estavam intocadas, esfriando.
— Acho que foi uma péssima escolha de jantar. — YoonGi deixou a tigela na mesa de centro, HoSeok concordou, pondo a sua ao lado. — Você teve notícias? — Olhou para o namorado, o jornalista estava passando algumas informações, mas nada como ter as informações vindas diretamente da fonte.
— MinJun me atualizou, eles encontraram o suspeito, felizmente não havia mais nenhuma vítima no local, a sala onde ele fazia as operações estava muito limpa, a perícia ainda não terminou o serviço e vão ter muito trabalho porque ele limpou muito bem. Mas, de qualquer forma, a maioria dos órgãos estavam em potes dentro de um freezer, todos submersos em um líquido incolor, provavelmente o que você identificou.
YoonGi assentiu, mas fez uma careta parecendo estar com indigestão.
— Isso é tão horrível, não consigo nem imaginar… Agora eu quero férias.
— Você bem que precisa. — HoSeok se aproximou, passando o braço pelos ombros dele e lhe deixou um beijo na bochecha. — O hyung podia ficar em Seul…
— Você está me dizendo pra ficar na sua casa, HoSeok?
— É uma opção…
— Você trabalha viajando por toda a Coreia, amor. — HoSeok assentiu, um pouco desgostoso, mas era verdade.
— Sim, mas eu sempre volto, dificilmente passamos mais do que dois dias viajando. Você pode ficar em casa, cuidar do Mickey enquanto eu estiver fora.
— Uh, isso me parece bem doméstico… — YoonGi respondeu em um tom humorado, mas HoSeok fez bico, nem parecia o adulto que era.
— Yah, está dizendo que não quer ser doméstico comigo?
— Eu não disse isso.
— Vamos, só alguns dias de férias, hyung, para ficar longe de tudo aqui.
— Tudo bem, uns dias de férias atrasadas que eu tenho.
— Isso! Além do mais, meio que seria legal te apresentar para a equipe, digo, como meu namorado.
— Acho que eles já sabem sobre isso, Seok.
— É claro que sabem, eles vêm fingindo praticamente desde que começamos a sair, eles são tão ruins quanto nós dois somos em esconder. — YoonGi riu e sentiu o coração aquecer, estar com HoSeok fez todos os seus medos e preocupações desaparecerem.
— HoSeok…
— Hm?
— Eu te amo.
Jung sorriu, uma de suas covinhas aparecendo em sua bochecha. YoonGi tinha passado o pior dia da sua vida, mas quando ele viu HoSeok naquele quarto de motel, a sensação de proteção e segurança em seu peito foi inexplicável e agora, sentado com ele ao seu lado, falando sobre férias, passar o tempo juntos e se assumirem para os amigos, ele sentia que era realmente amor e que eles podiam ser mais que felizes juntos.
— Eu também te amo.
HoSeok beijou sua testa, YoonGi sorriu e deitou a cabeça em seu ombro. Eles voltaram a olhar para a televisão, o jornalista ainda estava falando sobre o assassino que apelidaram realmente de Açougueiro de Daegu, mas YoonGi já não estava prestando atenção, ele só conseguia pensar em como HoSeok ao seu lado lhe fazia se sentir bem. Ele não queria nunca mais estar em uma situação como essa, o medo que sentiu foi inexplicável, mas finalmente ele pôde aproveitar da tranquilidade de sua casa e do calor do seu namorado. Estava vivo e a salvo.
