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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2023-10-17
Completed:
2024-01-28
Words:
10,493
Chapters:
2/2
Comments:
3
Kudos:
116
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4
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1,095

noite de verão

Chapter 2: ensaio sobre beijos.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Bagi tinha um encontro com uma garota bonita, e precisava urgentemente de ajuda.

Ela estaria mentindo se dissesse que encontros eram o seu forte, que ela sabia se portar quando o assunto era estar no mesmo ambiente que a pessoa que ela gostava, mas a verdade é que ela não fazia ideia de como reagir, não fazia ideia de como agir em um encontro, o que falar ou até mesmo o que vestir. E o pior: ela não fazia ideia de como tinha conseguido dormir à noite ou se, em algum momento, havia conseguido dormir. Os olhares e toques de Tina estavam bem vívidos em sua mente e em seu corpo, e isso a fazia se perguntar: como ela nunca havia reparado naqueles sinais antes? Como ela nunca havia se dado conta dos olhares e risadas? Bem, talvez a explicação mais óbvia para aquilo fosse a de que Tina era uma garota que vivia em um patamar elevado, com pessoas que mais pareciam terem saído de um filme adolescente perfeito. Como não se intimidar com aquela distorção de vida?

E agora, como acreditar naqueles sentimentos? Na verdade, como não acreditar naquele sentimentos que pareciam sangrar através de uma cartinha colorida cheia de Glitter? Bagi estava confusa e com medo do que tudo aquilo poderia causar para Tina. Ela não se preocupava com a sua própria reputação — que de qualquer forma não era uma das melhores, mas tinha medo de como isso poderia afetar Tina e toda a sua popularidade. Se Forever teve uma chuva de críticas só por namorar Cellbit, quem dirá de Tina? Bagi estava apavorada, e ela queria falar com Tina sobre isso, sobre o que poderia acontecer e o mais importante: como elas se sentiam em relação uma a outra, já que Bagi definitivamente sentia algo por Tina que não era somente um sentimento genuíno de amizade. Era algo que a deixava quente, vergonhosamente quente.

O caso é que elas deveriam terem conversado na manhã seguinte. Deveriam terem se encontrado no lago de coração e conversado sobre aqueles sentimentos vergonhosos e decidido o que fariam em relação aos seus corações, mas não rolou, isso porque o mundo odiava Bagi e sabotava tudo o que parecia ser propício para ela. Justo no dia em que ela deveria ter tido um dia bom, Cellbit caiu de uma árvore e quase quebrou o braço — teve que ser levado às pressas para o hospital e então foi mandado para casa. E Bagi foi obrigada a passar seus dias de verão em casa, cuidando de seu irmão burro e tentando descobrir como faria para se encontrar com Tina.

E foi no último dia do acampamento, após às dez da noite de um domingo quente e tedioso, que Bagi tomou um susto quando o telefone tocou e acordou todos na casa. Ela teve que ir na ponta dos pés até à cozinha para atender, e para sua surpresa, a voz que estava a atormentando durante todos esses dias ressoou do outro lado da linha.

— Bagi?

Ela congelou e seu rosto esquentou, em uma contradição quase que irônica. Sua barriga ficou engraçada, embrulhada. Ela sentiu que ia vomitar de emoção, mas quem vomitava de emoção? Sua resposta imediata saiu em um tom tanto de descrença quanto que de ansiedade:

— Tina?

A risada da garota ecoou do outro lado da linha, mesmo que baixa e cheia de estática. A voz dela parecia trêmula, como a voz de uma pessoa que tivesse acabado de ganhar na loteria. E por alguma motivo Bagi conseguiu visualizar aquela cena em sua cabeça, uma cena perfeita que definitivamente deveria fazer parte de uma comédia romântica: Tina com seu cabelo separado em duas tranças, usando pijamas leves com cores fracas e cheirando a algo doce —  porque ela sempre tinha um maldito cheiro doce a perseguindo, e Jesus Cristo, Bagi achou que estava obcecada por aquela menina ao ponto de sentir o cheiro que ela exalava mesmo estando a quilômetros de distância. Será que aquilo era normal?

Tina pigarreou e a mente de Bagi se forçou a esquecer aquelas fantasias adocicadas e prestar atenção unicamente no telefone.

— Eu, huh, só estou ligando para perguntar se você vai fazer alguma coisa amanhã, huh, depois da aula...

Bagi enrolou seu dedo no fio do telefone e se encostou na parede gelada de sua cozinha. Ela sabia muito bem o motivo daquela pergunta, sabia muito bem ao que aquilo iria levá-la, mas resolveu se divertir um pouco e poder presenciar Tina implorando ou tendo que explicar o motivo daquele convite tão repentino e tão tardio.

— Como assim? — ela perguntou com um sorrisinho brincalhão. — Eu estou livre após à aula, sim. Mas o que vamos fazer? Você tem algo em mente?

A voz da outra tremeu, e então um gemido de medo vazou. Ela parecia estar pensando, calculando e tentando chegar ao resultado certo, e Bagi gostou daquilo. Ela não tirou o telefone da orelha mas mudou o peso de uma perna para outra. Tina pigarreou novamente, e então, falou com a voz cheia de convicção e também de autoridade:

— Eu tenho algo em mente, sim. Mas acho que seria bom se falássemos sobre isso amanhã. Você pode vir me encontrar no final da aula, no ginásio?

Ginásio. Bagi pensou consigo mesma por um instante. Não era muito cedo para Tina estar começando com os treinamentos de líderes de torcida? Os jogos estavam adiados até o próximo bimestre, e não fazia sentido que as líderes voltassem, na verdade, não fazia sentido elas terem que se encontrar lá. Mas era Tina, e Tina nunca a machucaria.

— Claro — respondeu, mesmo desconfiada — Eu passo pra te ver.

Os gritos finos da menina ecoaram do outro lado da linha, e rapidamente ela se desculpou por aquilo e desligou o telefone. Bagi achou aquela reação engraçada e fofa, ela já havia sido cantada por diversos babacas durante seus dias de aula, mas nenhum deles tinha parecido genuinamente feliz por ter um encontro marcado. Com um sorriso no rosto e o coração vacilante, Bagi colocou o telefone de volta no gancho e tampou o seu rosto com as mãos. Ela estava feliz, tão feliz que nem conseguia parar de sorrir para a escuridão. Ela tinha um encontro com uma garota bonita! Na verdade, ela tinha um encontro com a garota mais bonita de todo aquele colégio, ou melhor de toda aquela cidade. Uma garota esculpida pessoalmente por anjos. Ela sabia que Deus a mandaria pro inferno por gostar de mulher, mas mesmo assim o agradeceu por ter dado a oportunidade de pecar com uma garota absurdamente linda e fofa.

Lá no fundo ela começou a sentir-se ansiosa com aquilo tudo. Todas as coisas que ela tentava fazer davam errado, todas. Qual era a probrabilidade daquilo também dar errado? Bagi mexeu a cabeça como se estivesse tentando afastar aqueles pensamentos de sua mente. Seu pessimismo era igual vírus, tudo o que tocava destruía, e naquele momento ela não precisava daqueles pensamentos ruins a dizendo que tudo daria errado. Tina gostava dela, e isso bastava.

— Credo — uma voz surgiu atrás dela, e com espanto ela se virou para ver quem era. — Agora deu pra ser sonâmbula, queridinha?

Cellbit a olhava com um sorrisinho de deboche, e Bagi não o respondeu, apenas revirou os olhos e deu a língua, assim voltando para o seu quarto o mais rápido que pôde. Por um momento ela sentiu-se grata pela casa estar escura e ser tão tarde da noite, pois só assim ela podia evitar explicações sobre quem era no telefone e sobre o porquê não conseguia parar de sorrir. Cellbit também não veio questioná-la sobre de quem fora aquela ligação, e a sua pior paranoia veio assombrá-la com a ideia de que ele já deveria ter escutado toda a conversa, ou pior, já ter recebido informações de antemão sobre quem iria ligá-los no tardar da noite.

Mas não era incomum garotas marcarem de saírem juntas, era coisa que amigas faziam — embora Bagi não tivesse amigas e muito menos fosse próxima de Tina.

E honestamente, sua noite monótona de sono foi bagunçada por todas as possibilidades do que poderiam acontecer no amanhã. Ela precisou ensaiar o que iria dizer, fazer e até mesmo como faria. E quando se deu por conta, o mundo já estava claro e a vizinhança acordada. Sua cabeça doía e tudo parecia errado, tão fora de lugar quantos os seus próprios sentimentos. Ela saiu da cama a contra gosto e foi escovar os dentes e preparar o café da manhã. O céu estava lindo e o tempo agradável, e ela repassou aquele mesmo pensamento ao seu irmão, que a olhou confuso e disse:

— É, as coisas ficam lindas quando você está apaixonado.

E ela não entendeu aquele comentário de primeira, e isso a fez ficar pensando por durante as três primeiras aulas no que seu irmão havia dito. Bagi conhecia a si mesma muito bem, mas não conhecia Tina há muito tempo, e toda aquela situação estava a deixando maluca. O que ela sentia? Era amor? Era apenas os seus hormônios falando mais alto? Ela não entendia, mas de uma coisa sabia: seu coração palpitando por uma garota não era uma novidade.

Às duas da tarde ela saiu da escola para se encontrar com Tina, da mesma forma que elas haviam combinado por telefone. O seu peito estava estranhamente pesado, e suas mãos suadas. Ela precisou limpar-se algumas vezes para ter certeza de que não pagaria um mico na frente da outra.

Não havia ninguém na entrada do ginásio além do próprio treinador, que já andava em direção ao seu carro. Ele acenou quando viu Bagi e ela retribuiu. Por sorte ele não parou para conversar, e então ela pôde entrar no ginásio sem dar explicações. Alguns garotos do time ainda estavam usando a quadra, treinando para um jogo que não iria acontecer nem tão cedo. Sem dizer nada, ela sentou-se e encostou seus pés na cadeira da frente. Fazia tempo que ela não visitava aquele ginásio, sua última vez fora para ver um jogo estúpido onde eles perderam para os visitantes. Tina ainda não era capitã das líderes, e muito menos fazia parte do time naquela época.

E antes que ela pudesse se perder ainda mais em seus pensamentos passados, uma pessoa abriu o portão do ginásio e fez com que o coração de Bagi errasse uma batida. Tina estava parada na porta, sendo banhada pela luz fraca da tarde. Os olhos de ambas se encontraram, e Bagi não sustentou aquele olhar, não conseguiu sequer pensar em encarar aquela garota, se apenas sua presença já a deixava envergonhada, quem dirá todo o resto. Tina subiu as escadas com um sorriso de orelha a orelha, e o mundo pareceu ficar mais brilhante com aquela presença, as cores ficaram mais vívidas e agradáveis, e mesmo o vestido roxo cafona que Tina usava ficou agradável; maravilhoso.

— Eu pensei que você não viria — ambas falaram ao mesmo tempo, e então riram envergonhadas.

Os garotos que antes estavam treinando começaram a se preparar para saírem do ginásio, e saber que elas ficariam a sós era tão reconfortante. Tina sentou-se na cadeira da frente, e nenhuma das duas se atreveu a falar por longos segundos. Era uma guerra fria de silêncio, ou melhor, uma guerra fria de timidez. Quando Bagi tentou iniciar uma conversa formal, Tina roubou sua vez e também tentou falar, e novamente as duas riram daquela coincidência.

— Eu mal consegui dormir ontem à noite — Tina disse enquanto se inclinava para frente —, pois fiquei pensando no nosso encontro e isso me deixou ansiosa. Eu vomitei a noite inteira. Espero que isso não seja um problema.

Bagi lhe sorriu, pois aquela confissão foi estranhamente fofa, esquisita mas fofa. Ela coçou sua nuca enquanto mantinha seu sorriso. Aquele encontro não era um problema, mas havia surgido em uma situação complicada, em um mês complicado. Bagi não tinha um tostão no bolso, então não poderia dar a Tina uma experiência boa, principalmente gastronômica. Tudo o que ela podia oferecer no momento era uma caminhada no parque e um cachorro quente feito em uma barraca duvidosa.

— Não é um problema, mas você tem certeza que precisa ser hoje? Podemos marcar para um outro dia — ela tentou dizer, mas a expressão que surgira no rosto da outra não fora uma das melhores. O que Bagi podia fazer? Ela não tinha dinheiro para arcar com uma namorada cara como Tina, não podia fazer nada a não ser extorquir o seu próprio pai e rezar para que ele não se desse conta do que estava acontecendo.

— Bagi... Eu não posso, eu abri espaço na minha agenda para sairmos hoje — ela falou as últimas palavras em um tom mais baixo que o normal, e foi compreensível o seu cuidado ao dizer aquilo. — Eu disse pra todos que ia ir ao cinema com uma amiga que terminou com o namorado e estava devastada, eles só não sabem que é você. Quero dizer, n-não que eu tenha vergonha de você, mas...

— Eu entendi — respondeu. — Onde vamos nos encontrar?

Tina passou seu dedo fino e delicado por dentro de sua franja e pôs-se em uma cara certamente pensativa. Seus olhos brilharam e então ela disse:

— O parque de diversões seria ótimo, não acha?

Ela não achava, mas se Tina queria, então ela faria.

— Claro, podemos nos encontrar lá às cinco ou seis.

— Eu preciso estar de volta às onze — Tina falou timidamente. — Meus pais vão me matar se eu não voltar cedo.

Aquela confissão soou estranhamente agradável para Bagi, e ao mesmo tempo triste. Bagi havia crescido sem aquela política de horários em sua casa, ela não precisava se preocupar em voltar cedo ou tarde porque conhecia muito bem as manhas de entrar em sua casa. Graças ao seu irmão ela sabia como quebrar regras. E falando em regras, ela tinha uma simples e única regra: voltar. Não importasse para onde fosse ou que horas saísse, ela precisava estar de volta pela manhã, tinha que estar.

As duas concordaram que retornariam às oito da noite, afinal, não havia nada para fazer naquela cidade além de visitar a praia. E assim se deu o combinado. Elas se encontrariam, viveriam o seu romance proibido e às oito voltariam para casa. E foi assim que um novo sentimento surgiu no peito de Bagi: a ansiedade pré-encontro. Ela foi para sua casa com todo o seu corpo trêmulo de pura ansiedade, e passou o seu dia deitada, quase como uma enferma. Ela estava sentindo tudo e ao mesmo tempo nada, estava pensando em tudo e ao mesmo tempo nada. Pensamentos estúpidos que ela julgava serem de garotas superficiais começaram a rondar sua mente: o que ela deveria vestir? Deveria passar maquiagem? Deveria mudar o seu estilo apenas para aquele encontro? Céus, ela estava ficando louca. Louca. O que ela faria caso alguém as visse juntas? E se espalhassem boatos sobre elas para toda a escola?

Eram tantas possibilidades, tantas coisas para se lidar, tantas coisas que poderiam dar errado. Seria certo se ela apenas ligasse cancelando aquele encontro? Não, ela não podia fazer isso, já estava quase no horário combinado.

Bagi saiu de sua cama contra a sua vontade e vestiu roupas confortáveis, que também a deixassem bonita mas não indicassem que ela estava indo para um encontro. Ela vestiu um jeans claro rasgado, uma regata branca, casaco xadrez marrom e coturnos, ela também colocou várias bijuterias e arrumou o seu cabelo da melhor forma que conseguiu.

— Pai, estou saindo com a sua moto — ela disse enquanto andava pela sala para pegar a chave. — Eu volto umas oito.

— Vai sair com quem? Sozinha? — Cellbit a questionou enquanto esboçava um sorrisinho irônico. Às vezes ele parecia pedir por levar um soco em sua cara para deixar de palhaçada, mas era óbvio que Bagi não faria aquilo, bem, não na frente do pai deles.

Bagi olhou ao redor de si mesma e sorriu confusa, assim retrucando:

— Você tá vendo outra pessoa comigo, por acaso?

O pai deles apenas revirou os olhos e com um sinal a dispensou. Bagi pegou as chaves e finalmente saiu de casa. Ela tirou a moto da garagem e se preparou mentalmente antes de ir. Vários pensamentos a perturbavam, e o mais intenso deles era o preconceito que elas teriam que ouvir caso alguém notasse que elas não eram apenas boas amigas — ou que Bagi se vestia de uma forma masculina demais para uma dama. Como Tina se sentiria se presenciasse uma das coisas com a qual Bagi já havia se acostumado? Ela repensaria sobre aquele encontro e sobre o seu gosto em mulheres?

Ela não sabia, e também não esperou para que suas paranoias lhe desse uma resposta.

O caminho até o parque foi tranquilo, e chegando na entrada ela teve uma visão de Tina, que contrastava com todo aquele cenário colorido e bagunçado. Por algum motivo ela não parecia fazer parte, parecia alheia a todas aquelas cores vibrantes, e talvez isso parcialmente se desse pelo fato dela usar roupas com cores mais claras que o usual e até mesmo mais arrumadas. Perto de Tina, Bagi sentia-se tão pobre e sem estilo. Enquanto Tina usava uma blusa clara, casaco leve roxo e saia da mesma cor, Bagi parecia pronta para uma luta, ou para frenquentar um bar.

Timidamente ela tirou o seu capacete, o deixou na moto e foi em direção a garota, que lhe sorria de orelha a orelha enquanto balançava as suas mãos repetidamente. Ela pensou em como cumprimentar, mas nada veio a sua mente. Abraço? Muito invasivo. Aperto de mão? Muito estranho. O que ela deveria fazer então?

— Eu demorei muito? — perguntou com a esperança de que não fosse algo estranho a se dizer. Tina negou com a cabeça várias vezes e então se pôs a responder:

— Eu cheguei muito cedo — respondeu. — Eu comprei os VIPs, vamos? Não tem muita gente aqui...

Bagi achou aquilo ótimo. Sem uma multidão ela podia ficar mais próxima da menina sem levantar suspeitas, podia até mesmo beijá-la. E por algum motivo aquela ideia de beijá-la a deixou envergonhada. Com um aceno de cabeça ela guiou a outra para dentro do parque de diversões e se segurou contra a vontade de passar o seu braço por cima dos ombros dela, como os garotos geralmente faziam com suas namoradas.

Elas discutiram muitas vezes na escolha dos brinquedos, e se surpreenderam quando notaram que a roda gigante estava desativada, o que significava que o ápice do romance Hollywoodiano havia as deixado na mão justo no primeiro encontro, e por entrar no tópico de mãos, graças a um brinquedo que as obrigava a andarem juntas, Bagi teve a oportunidade — ou a sagacidade — de entrelaçar os seus dedos com os de Tina usando a desculpa esfarrapada de que era para que elas não se perdessem naquele maldito brinquedo escuro. E Tina pareceu ter compreendido bem aquela jogada e não se incomodado nem um pouco.

Após risadas, gritos e discussões bobas, as duas decidiram sair para comer um cachorro quente enquanto ainda comentavam sobre os brinquedos ou sobre coisas que elas notaram outras pessoas fazendo. Tina não conseguia parar de sorrir, até mesmo parecia que os seus músculos faciais estavam congelados, e Bagi ficou grata de que ela estava se divertindo. Honestamente, ela estava gostando de presenciar aquela visão de Tina, uma versão mais solta e bem mais vívida. A ideia de realmente ser a namorada de Tina a acertou, e de uma hora para outra ela gostou de como ela oração soava, gostou de como as palavras "namorada da Tina" tinham um peso especial. Embora elas parecessem estarem em polos opostos da vida, ainda conseguiam se dar bem.

Talvez Bagi já estivesse apaixonada e imaginando um futuro perfeito para as duas mesmo que elas nem tivessem se beijado ainda.

Ela gostava daquilo, gostava da energia que ambas tinham quando estavam juntas.

— Eu preciso chamar um táxi para ir embora — Tina comentou enquanto limpava sua boca. Elas estavam encostadas em uma grande, terminando o cachorro quente em silêncio. Aquele comentário pareceu mais uma expressão de seus pensamentos, e Bagi havia notado que aquilo acontecia com frequência: Tina começava a divagar e às vezes deixava com que seus pensamentos escapassem.

— Se você quiser eu posso te levar para casa — Bagi sorriu enquanto se despojava, ela cruzou suas pernas e observou o rosto da outra ganhar uma coloração avermelhada. — Eu vim de moto, e não é um problema para mim te levar.

Tina pensou um pouco. Ela tamborilou seus dedos em sua coxa e então se inclinou para frente enquanto também olhava para o lado, como se estivesse prestes a contar um segredo para Bagi, que ficou um pouco atordoada com aquilo, mas não se intimidou. Embora fosse difícil não se intimidar quando garotas bonitas te encaravam por muito tempo.

— Eu quero te mostrar um lugar, então — Tina disse baixinho. — Eu não sabia se podia te levar até lá hoje, então deixei para o nosso segundo encontro.

Ela não sabe dizer o que a impressionou mais, o pedido ou a confirmação de que elas teriam um segundo encontro. Bagi ficou vermelha, e então sorriu como um idiota sorri para o vento. Embora ela não estivesse usando um relógio, conseguiu adivinhar que horas eram pela estação da rádio que o homem do cachorro quente ouvia. Se estavam começando a tocar músicas românticas, então já estava perto das oito horas, e aquilo era preocupante, ela não podia fazer com que Tina se atrasasse justo no primeiro encontro.

— Para onde você quer ir?

Tina se inclinou para trás e olhou para o céu escuro, enquanto também fazia um barulhinho que sinalizava que ela estava pensando.

— Tem um lugar especial que eu visitei uma vez, e que eu queria te levar lá — falou baixinho — Eu visitei algumas vezes quando criança e até vi uma estrela cadente! Quando eu posso dirigir, eu sempre vou lá, então, huh, pensei que seria legal te mostrar esse lugar.

Bagi franzia a testa enquanto a ouvia falar, mas nem sequer a julgou. Todos tinham um lugar especial e muitas das vezes, secreto. Bagi e Cellbit costumavam a se encontrar no parquinho da cidade quando discutiam um com o outro, eles corriam para lá porque fora lá que os dois tiveram memórias felizes com sua mãe. E ela nunca diria aquilo em voz alta para ninguém, e apostava que o seu irmão também não. O simples fato de Tina falar abertamente sobre seu lugar especial a deu uma característica de durona. Queria Bagi não ter vergonha de falar sobre o que gostava tão fácil assim. Com um sorriso fácil e olhos brilhantes, ela levantou e caminhou até sua moto, e a outra a seguiu silenciosamente.

As duas subiram na moto, se aproximando o mais que conseguiam para afastar o frio. E caralho, Bagi estava começando a pensar que Deus realmente existia e havia mandado Tina como sua punição por gostar de mulheres — o cheiro do perfume daquela garota entrou em suas narinas e o seu toque a arrepiou por inteiro.

Ela ligou a moto e então dirigiu para fora do parque, seguindo assim as instruções ditas pela outra. Ambas pegaram atalhos suspeitos, que de uma hora pra outra começaram a guiá-las para estradas vazias e de barro, estradas suspeitas que fizeram a mente inútil de Bagi pensar no pior: e se Tina estivesse a guiando para uma coisa ruim? Cellbit sempre a dizia para ter cuidado com as pessoas porque elas mentiam por pura diversão, e se aquele fosse um dos casos? Que droga, por que as pessoas só não podiam aceitar a ideia de verem duas mulheres juntas?

Tina sinalizou para ela entrar em uma estrada estreita, e assim ela fez. A estrada em questão a levava para um pequeno relevo que dava vista pra cidade brilhante e para um pedaço do mar. Vagalumes pareciam dançar ao redor das árvores enquanto acrescentavam um toque mágico a aquele encontro. Bagi novamente sentiu-se no acampamento, quando sutilmente fugia de seu quarto para passear pelos bosques e admirar a visão sem medo de ser repreendida por um idiota usando shorts apertados.

— Minha tia uma vez me trouxe para cá, ela costumava a vir desenhar quadros aqui depois da aula ou apenas ficar aqui, escondida. Só ela e minha mãe sabiam desse lugar — Tina disse assim que a moto parou e ela finalmente pôde descer. Suas palavras pareciam distantes, mas não de um jeito ruim, apenas de uma forma sonhadora. — Eu venho aqui após as aulas, quando preciso estudar ou só ficar sozinha. Ninguém mais sabe desse lugar, então não vão nos encontrar.

— É uma vista linda — comentou. — Me lembra um pouco do acampamento.

Tina riu sem graça e então disse: "bem, aqui não há espantalhos ou fantasmas para nos assustar." E Bagi achou aquilo engraçado. Se ela soubesse que Tina estava apaixonada por ela, teria a levado a qualquer outro lugar que não fosse um campo assombrado por um espantalho. Mas o que ela podia fazer? Ela ainda não conseguia ler mentes ou muito menos tinha uma bola de cristal para conseguir adivinhar o que os outros pensavam dela. Pelo menos um espantalho maldito havia as ajudado a ficarem juntas, e isso por si só era ótimo.

— Eu nem acredito que eu realmente vim em um encontro com você — Tina disse sorridente e mexeu os seus braços. — Tipo, uau, isso foi tão incrível! A maioria das pessoas com quem eu saio nunca me fizeram rir tanto como você fez! Eu estou tão feliz.

Bagi se encostou suavemente no banco da moto e observou Tina se apoximar para ficar no meio de suas pernas. Seus olhos brilhavam tanto quanto os vagalumes daquele jardim ou até mais quanto as casas que se estendiam a frente delas. Ela sentiu vontade de beijá-la, mas não fez. Não julgava ser a hora certa, mas também estava com medo de não ter hora certa.

Tina colocou uma mecha de franja atrás da orelha de Bagi, e lentamente mordeu seu lábio inferior. Um arrepio na nuca a deixou desnorteada, tudo sobre Tina a deixava desnorteada.

— Você é tão linda — ela disse baixinho, descendo o seu toque até a bochecha de Bagi, que prendeu a respiração ao notar que a outra se aproximava gradativamente. Seu aroma adocicado a estava deixando tonta, e ela temia desmaiar caso os lábios se tocassem, mas tentou se manter firme. — Acho que eu nunca vi uma garota tão linda como você, Bagi.

— Eu acho que nunca vi uma garota tão gata como você em toda minha vida — Bagi sussurrou de volta, totalmente inerte nos olhos de Tina. As respirações aos poucos pareceram se entrelaçarem e tornarem-se uma só.

As palavras se perderam, e as pernas de Bagi tremeram. Tina se inclinou e finalmente a beijou, puxando-a para mais perto e também se permitindo se aproximar.

Bagi sentiu como se fosse explodir naquele exato momento, como se toda a sua raiva houvesse se dissipado naquele momento e como se o seu propósito de vida havia finalmente sido revelado. Suas mãos agarraram a cintura fina da outra com rispidez, a puxando para mais perto pra sentir o seu calor. Se Deus realmente existia, então Tina era o demônio disfarçado.

Seus beijos doces e macios eram torturosos, Bagi queria mais, a queria muito mais que esperava. Mas Tina puxou sua cabeça para conseguir recuperar o fôlego, enquanto a outra a olhava com admiração. Que garota. Que garota.

— Hm, e-eu acho que precisamos ir pra casa — ela disse envergonhada enquanto sutilmente tocava em seus próprios lábios. — Meus pais vão me matar se eu demorar mais um pouco.

— C-claro — Bagi piscou seus olhos em confusão e soltou a cintura de Tina, que a beijou mais uma vez antes de se afastar. — Eu, hm, preciso de uns segundos para voltar ao normal. Você me pegou de surpresa.

A risada fina e envergonhada da morena ecoou no campo vazio, e Bagi também riu. Seu cérebro estava disperso, em outra órbita, vagando como um asteroide perdido. Quando seus pensamentos voltaram ao normal e a sua agitação passou, ela subiu na moto e novamente seguiu as direções dadas por Tina. A sua surpresa foi ver as casas feias ganhando cores bonitas, árvores com ornamentos e até mesmo com um aspecto tão europeu quanto as outras de outros bairros. Bagi ficou surpresa com a riqueza desnecessária que estava sendo esbanjada naquele bairro, mas decidiu guardar aqueles pensamentos apenas para si mesma, pois tinha medo de irritar Tina com as suas bobeiras comunistas, como seu próprio pai dizia.

Elas pararam em uma casa bonita e grande, com um jardim tão bem cuidado quanto o de um filme de Hollywood. Tina desceu da moto, olhou para  a sua casa e suspirou pesado. Ela parecia contra a ideia de voltar, mas sabia que tinha que fazer, ambas sabiam.

— O que você acha de sairmos amanhã com a desculpa de que vamos fazer um trabalho na biblioteca? — Tina a perguntou com um sorrisinho maroto.

— Eu vou pensar no seu caso — Bagi lhe respondeu, mesmo que já soubesse perfeitamente qual seria a sua resposta.

Tina umedeceu seus lábios, e rapidamente se inclinou para juntar os lábios em um selinho. Um selinho que custaria a segurança delas, mas como diziam os mais velhos: "o proibido era muito mais gostoso."

— Vejo você amanhã, gatinha — ela sussurrou e se despediu, assim indo em direção a sua casa.

Bagi a observou arrumar suas roupas chiques, cabelo e abanar seu rosto para aliviar a vermelhidão causada pela vergonha. Quando a porta se abriu, ela vazou dali antes que a vissem. Naquele momento ela sentia-se como uma gata vagabunda indo atrás de uma gata rica — e ela esperava que aquela analogia fizesse sentido, pois em sua cabeça fazia.

Quando ela chegou em casa, seu pai já havia dormido e quem a esperava acordado era o seu irmão, que embora não disse nada, lhe exibia um sorriso convencido e tosco. Bagi gesticulou que iria dormir e se trancou em seu quarto.

Ela jogou-se na cama, se espreguiçou e ficou olhando o teto. A visão dos beijos quentes que as duas tiveram estava tão vívida em sua mente que ela podia jurar ainda sentir o cheiro do perfume adocicado e o gosto de sua boca. Os corpos se roçando, a necessidade de tê-la perto. Bagi tocou em seus próprios lábios enquanto sorria envergonhada.

Se Deus realmente existia, então ela estava legal com a ideia de ir pro inferno por conta de uma garota bonita.

Notes:

a história termina aqui pq não tenho mais ideias pra continuarkkkk

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Notes:

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