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Pisar no aeroporto de Tóquio foi uma das sensações mais estranhas que senti. As quase quinze horas de viagem entre os Estados Unidos e o Japão, que achei que seriam torturantes ao pisar no avião, acabaram se passando mais rápido do que esperava. Talvez minha ansiedade tenha ajudado nisso, afinal, fiquei tão aéreo durante essas horas, repassando mil vezes em minha mente cada lembrança e pequeno detalhe dos meus anos de faculdade, em um misto de sorrisos contidos e expressões de preocupação, que quando me dei conta já podia ouvir os avisos de que estávamos prestes a pousar.
Eu já havia estado no Japão em outras oportunidades, na juventude em viagens com meus amigos e família e recentemente a trabalho. Porém, assim que meus olhos se focaram no cenário em torno de mim, parecia que estava enxergando pela primeira vez. Todo o nervosismo em estar finalmente, e depois de tanto tempo, de fato prestes a ver pessoalmente o homem que vinha nutrindo sentimentos há tanto tempo me acertou em cheio.
Meus olhos se perderam em meio as pessoas que iam e vinham em torno de mim de maneira nervosa, um pouco indeciso sobre o que deveria fazer em seguida. Podia ver a noite caindo do lado de fora e a ideia de bater à porta do seu quarto em questão de minutos era algo aterrorizante, ao mesmo tempo que fez com que uma onda de energia me atrasasse, fazendo meu coração se acelerar em expectativa.
Sem saber ao certo qual seria meu próximo passo, acabo dando os passos necessários para a saída do aeroporto, trazendo comigo a pequena mala que havia finalizado no pouco tempo que tive a disposição antes de praticamente correr para o aeroporto após falar com Sanjoy. Ao chegar à calçada, meus olhos caem sobre os diversos táxis que vagueiam pelo local, alguns deixando passageiros, enquanto outros parecem vir buscá-los. Percebendo que não fazia ideia de como chegaria ao hotel do Lim decido que a atitude mais inteligente seria de fato entrar em um deles.
Me aproximo do motorista mais próximo, que acabava de ajudar um senhor a descarregar suas malas, o interceptando antes que voltasse para o carro. Mostro a tela do celular com o endereço já posto em um aplicativo de mapa virtual, tentando ao máximo arranhar algumas palavras em japonês, que espero ser um pedido para que me leve ao lugar mostrado na tela. Mesmo desconfiando que o jovem havia pouco entendido da minha fala, fico aliviado em vê-lo sinalizar para que eu entre no carro, repetindo o que acredito ser o nome do hotel com uma expressão de quem sabia exatamente aonde ir.
Assim que entro no automóvel me permito relaxar por alguns momentos sobre o banco, admirando a paisagem que passava pela janela. As luzes da cidade que parece tudo, menos adormecida, me deixa mais nervoso sobre o que encontrarei quando chegar ao meu destino. Apesar das palavras do mais velho durante a ligação, meus medos de ser rejeitado permanecem mais fortes do que nunca. Mesmo o conhecendo o bastante para ter a certeza de que o Lim jamais iria me ferir propositalmente, posso entender caso ele o faça. Afinal, meu silêncio e covardia vieram o ferindo durante três anos.
Assim que o carro para em frente a uma bela fachada de um hotel tradicional japonês sinto meu coração bater ainda mais forte. A viagem de carro havia sido desesperadamente curta, não me dando tempo para chegar a alguma conclusão sobre o que diria ao chegar ao meu destino. Apesar disso, agradeço em um japonês truncado ao pagar a corrida, descendo do carro quase tropeçando assim que subo na calçada. Ao parar um momento olhando para a porta observo os detalhes do portão de madeira, uma placa ornada com detalhes simples informando que estava no local correto.
Respiro fundo antes de finalmente arrastar meus pés e minha mala ao entrar pelo portão, não demorando muito a ver o que parece ser a recepção do local. Uma jovem sorridente me cumprimenta em japonês, logo franzindo as sobrancelhas de leve ao notar meu sorriso nervoso. Ela estão sorri, parecendo repetir as mesmas palavras, mas dessa vez em um coreano com forte sotaque, o que me faz respirar aliviado.
Sorrio cordialmente ao pedir um quarto para a jovem, entregando os documentos necessários e meu cartão para que faça meu registro, enquanto fico a olhar as placas em japonês, inglês e coreano que estão atrás dela e do balcão de maneira distraída. Depois que todos os processos são feitos, e uma chave me é entregue, começo novamente a ter dúvidas sobre tudo que vim fazendo nas últimas horas.
Sou guiado até meu quarto por um jovem rapaz dessa vez, que age de maneira educada ao me deixar dentro de um quarto tradicional japonês simples, e então se retira fechando a porta. Não sei por quanto tempo fico apenas olhando fixamente para a madeira da porta, agora fechada ao que ele saiu, mas em algum momento minha mente simplesmente se acelera.
Jogo a bolsa lateral que carregava sobre o futon, já tendo soltado minha mala e então começo a andar de um lado para o outro dentro do quarto. Sinto meu sangue parecer passar mais rápido por minhas veias, olhando desesperado para o relógio na tela do celular e vendo que ainda são apenas 20 horas.
Questiono dezenas de vezes se deveria ir ou não. Se estaria tarde demais e se ele poderia já estar dormindo. Se havia feito o certo em vir até o Japão, se foi a melhor escolha ligar depois de tanto tempo. Minha mente borbulha em perguntas as quais ignora completamente todas as possibilidades de resposta, até que me jogo sobre o futon.
O teto de maneira escura não me traz nenhuma resposta acolhedora ao meu coração, mas observá-la por algum tempo me ajuda a respirar com mais calma, assim facilitando para clarear minha mente. Volto a pegar o celular, dessa vez abrindo o chat de mensagens que a anos não era usado, mas agora com uma nova mensagem. A mensagem que Jaebeom havia me enviado minutos após finalizarmos nossa ligação.
Um endereço, um número de quarto. Com um suspiro, finalmente me encho novamente de coragem. Levanto do futon apressado, decidido a agir antes que o medo pudesse novamente tomar conta do meu corpo, levando comigo apenas meu aparelho celular e a chave do quarto antes de sair corredor afora.
Percebo com um pouco de pesar que o quarto do outro é no mesmo corredor que o meu, o que me dá menos tempo para pensar no que exatamente direi ao bater na porta. Quatro portas adiante e então estou de frente ao único objeto que me separa de quem tanto desejo ver, de quem tanto desejei fugir.
Meu coração parece bater alto o bastante para ser ouvido a quilômetros de distância, meu sangue fervendo dentro de minhas veias e minha mente nublada pelo nervosismo. Ainda assim, minha mão vai até a madeira de maneira instintiva, batendo três vezes antes de voltar a se abaixar.
Nada iria me preparar para a imagem que tenho ao que a porta se abre. Vê-lo novamente me arrancou completamente o ar, as palavras a muito já tendo me abandonado. Os anos passaram, mas com eles apenas intensificaram a beleza que já existia ali. E seu olhar… seu olhar sobre mim, em um misto de surpresa, desafio e desconfiança, quase fizeram minhas pernas já fracas me traírem.
Percebo após segundos se passarem que ele espera algum tipo de fala da minha parte, que ele apenas espera que eu diga algo. Isso me faz levar uma das mãos até a nuca de maneira nervosa, amedrontado demais para me lembrar de qualquer uma das opções de discurso que havia pensando nas horas que separaram a ligação das três batidas na porta do seu quarto.
— Você não mudou nada, Jae. Ainda tem as mesmas manias quando fica nervoso. – Sua voz rouca me faz travar todo e qualquer movimento de meu corpo de maneira assustada, meus olhos subitamente se tornando marejados ao perceber que ele ainda se lembra de coisas tão pequenas. Detalhes tão bobos dos dias que passamos juntos.
Isso me faz lembrar do porquê viajei tão longe para o ver, do porquê meu coração bate tão forte e tão assustado ao finalmente estar de frente para ele. Afasto qualquer chance de acabar chorando em um momento como esse, levantando meu rosto e o olhando determinado dessa vez.
— Eu sou apaixonado por você, Lim Jaebeom. Desde que nos tornamos amigos ainda na faculdade eu me tornei completamente encantado por você e tudo que o compõe. No entanto, a ideia de me declarar e te perder era assustadora demais. Eu nunca fui corajoso como o Mark e Jinyoung hyung. Não dessa forma. – Sinto minha voz travar ao me lembrar do quanto eu desejava ser capaz de ser sincero com aquele que amo, como desejava ser capaz de segurar sua mão em frente as pessoas como meus amigos sempre fizeram. – Eu… tive medo. Medo de admitir meus sentimentos, medo de te perder e, acima de tudo, medo de encarar o mundo em que vivemos.
“Achei que seria mais fácil fugir e fingir que esse sentimento não existia, mas a cada dia longe de você meu amor só cresceu e fincou raízes. Ao ponto de você começar a tomar conta dos meus pensamentos e a ideia de ter te perdido pra sempre me sufocar. Eu sei que três anos é tempo demais, que muita coisa mudou e nós dois também mudamos. Mas eu te peço uma chance. Apenas uma e eu prometo que irei ser corajoso dessa vez. – Fecho minhas mãos com força, sem nunca desviar meu olhar determinado do seu que parece ser frio, mas sei que está concentrado em ouvir cada palavra minha. Abaixo minha cabeça em uma reverência formal, abrindo minhas mãos e deixando minhas palmas abertas rentes as laterais do meu corpo – Me permita te conhecer novamente e deixar que você me conheça, por favor.”
Mantenho meu olhar no chão enquanto fico na posição de reverência, apenas esperando sua resposta. Da posição onde estou consigo ver claramente quando, após vários segundos, seus pés se movem dando um passo a frente. Sinto sua mão tocar meu queixo, erguendo meu rosto de forma que meu olhar volte ao seu. Meu coração perde uma batida ao que vejo seus olhos agora brilhantes, um pequeno sorriso em seus lábios, enquanto nossos rostos permanecem separados por meros vinte centímetros.
— Você não sabe o quanto eu esperei por isso, Choi. E estou ansioso pra te conhecer de novo Sunshine. – Seu tom divertido e o uso do velho apelido que havia me dado nos tempos de faculdade me faz corar, mordendo meu lábio para impedir que um sorriso brote em meus lábios. Tentativa que se mostra inútil ao ouvir sua risada que soa feliz e aliviada ao mesmo tempo. – Você não sabe o quanto eu esperei pela sua ligação. Eu nunca consegui desistir de você, Jae. Não de verdade.
Sinto sua mão que estava em meu queixo trilhar um caminho suave até minha bochecha, sua palma se enchendo com meu rosto enquanto sinto minha pele esquentar, provavelmente sendo tingida de um tom avermelhado. Rio ainda trêmulo, ainda nervoso demais para pensar claramente. Minhas mãos acabam indo para a sua camiseta, se fechando sobre o tecido na altura do seu peitoral, enquanto meu rosto se inclina em direção a sua mão me fazendo suspirar aliviado.
— Não faça uma expressão tão fofa assim. Isso só me faz querer te beijar ainda mais droga... – Pisquei algumas vezes completamente confuso pela sua frase, sua expressão se tornando um misto de vergonha e uma falsa irritação que me faz rir novamente, dessa vez alto e alegre. Subo minhas mãos até seus ombros, abraçando seu pescoço e sentindo que ele faz o mesmo com a minha cintura, enquanto seu rosto se torna vermelho pela minha reação.
— Ora essa, e você está esperando o que pra fazer isso, Lim? Eu não vim dos Estados Unidos até aqui só pra comer sushi! – Minha resposta divertida e direta parece o pegar de surpresa, já que seu rosto se torna ainda mais quente e sua expressão tímida. Isso me faz rir ainda mais alto dessa vez, sentindo meu coração e corpo completamente leves pelo clima que se cria entre nós.
Não espero uma resposta sua antes de aproximar meus lábios dos seus, o beijando de maneira quase casta pelos resquícios de medo e vergonha que ainda permanecem, mas sentindo meus ombros relaxarem ao que sou correspondido. Sinto suas mãos apertarem minha cintura enquanto seu corpo parece transmitir nervosismo e ansiedade, me fazendo sorrir minimamente antes de aprofundar o beijo.
O toque da sua língua na minha me faz tremer, a sensação de tê-lo me beijando depois de anos apenas admirando de longe sua boca e seu corpo me faz dar um passo a frente colocando completamente nossos corpos. Minhas mãos se fecham em seus fios muito mais longos do que me lembrava da nossa época de universitários, sentindo o piercing que ele tem embaixo de um dos olhos tocar o alto da minha bochecha em alguns momentos.
Não dou atenção aos sinais que meu corpo passa a dar de que meus pulmões precisam de mais ar do que estão recebendo, tão envolvido na sensação de ter as mãos do mais velho tocando meu corpo, enquanto exploro sua boca de maneira ávida, que desejo apenas continuar a senti-lo. Entretanto, sou incapaz de ignorar por muito tempo, assim como ele também parece não conseguir fazer.
Me separo devagar dos seus lábios, deixando diversos selinhos antes de dar um passo para trás. Sorrio largamente ao notar que o moreno estava encostado a porta, provavelmente depois que nos movemos alguns passos sem notarmos, seu cabelo bagunçado graças aos meus dedos e seus lábios inchados e vermelhos pelas mordidas que lhe dei durante o beijo. Uma imagem tão bela que desejei desesperadamente ter minha câmera em minhas mãos para poder guardá-la eternamente em minhas memórias.
Acabo rindo totalmente bobo pelo que acabou de acontecer, não demorando a receber um tapa tão fraco em meu peito que mal o sinto. Sua expressão emburrada me faz ainda mais feliz, principalmente ao tornar a se transformar em tímida quando seguro sua mão e a trago aos meus lábios, beijando seus dedos de forma carinhosa.
— Admito que não achei que iriamos “nos conhecer” dessa forma tão rápido. Mas não estou reclamando Beommie. – Minha fala atrevida faz companhia ao meu sorriso quase infantil de tão alegre, assim como meu tom de voz que não esconde o quanto estou transbordando felicidade. Meu desejo de o abraçar forte e aproveitar mais e mais da sua companhia e da sensação da sua pele contra a minha é contida ao sentir sua mão tornar a tocar meu peitoral, dessa vez claramente mantendo algum espaço entre nós.
— E não vamos idiota. Você tem muitas coisas a me contar antes de querer dar uma de pervertido. – Percebo que apesar do espaço que ele cria fisicamente entre nós, e a sinalização de que não iríamos avançar mais nenhum sinal por algum tempo, sua voz é doce, quase temerosa de que eu pudesse o entender de forma errônea.
Sorrio de forma mais suave dessa vez, balançando a cabeça em sinal de que havia entendido seu ponto e dando mais um passo para trás. Apesar de me sentir mais tranquilo quanto a situação entre nós, não consigo evitar me sentir mais nervoso agora que consigo respirar calmamente, voltando a passar uma das mãos em minha nuca, um tanto incerto sobre o que fazer em seguida.
Me alivia o ouvir rir ao me observar, arrumando sua camiseta amassada sobre seu corpo, que combina perfeitamente com a calça de moletom escura que usa e me faz notar que provavelmente ele já estava pronto para dormir quando cheguei. Ergo uma sobrancelha ao ver que ele ergue uma das mãos em minha direção, em uma postura galante e divertida ao sorrir como se me convidasse para uma dança.
— O que acha de se perder pelo Japão comigo essa noite?
