Chapter Text
— Vamos ver essas tarefas…
Pondo de lado os óculos de leitura, ele segura o caderno argolado e analisa os escritos com atenção. Um sorriso divertido desponta em seus lábios ao ver os desenhos do Ursinho Pooh decorando as páginas. Isso o faz lembrar que, quando menor, todos os seus cadernos tinham temas do Homem-Aranha . O único diferente, com a capa mais barata de surfista por ser sua matéria mais odiada, era justamente o caderno de biologia.
A vida tem dessas reviravoltas engraçadas, não é?
Há alguns anos — pouco menos de sete, mais precisamente —, Roier odiava biologia. Ele era péssimo ao nível de não saber apontar em um desenho do corpo humano onde ficava o fêmur e, bem, esse é o tipo básico de conhecimento comparado ao famigerado “o céu é azul” — ainda que existam controvérsias, mas o ponto astronômico não é importante aqui. Se não bastasse, o assunto em que era pior era Botânica.
— Você foi bem, Pepito. — Ele pôs o visto de entrega bem ao lado do Pooh , escrito em caneta vermelha com glitter. — Mas não se esqueça que as plantas com flores e frutos são as angiospermas.
Sim, reviravoltas muito, muito engraçadas.
Pepito suspirou com um biquinho miúdo nos lábios. Ele sempre confundia gimnospermas com angiospermas, isso quando não se atrapalhava e engolia as letras das palavras. Eram palavras muito grandes para decorar!
— Odeio essas tais angioespermas.
Roier solta uma risadinha.
— Eu duvido muito… — Ele aponta para um pequeno vaso em sua mesa. — Você não seria capaz de odiar uma coisinha fofa dessas, seria?
Era seu horário de atendimento. Nesses momentos, Roier costumava esperar dentro da Sala dos Professores do primeiro andar da Escola Municipal em que ministra Biologia há dois anos. A sala é um pouco grande, pintada em azul forte com quadros de horários ornamentados por letras e artes em emborrachado colorido. Pepito surgiu cedo para entregar uma atividade atrasada e Roier sabe que deveria ser um pouco mais pulso firme com as entregas, mas como resistir àquela carinha adorável?
Na mesa de Roier, há sempre seu laptop coberto por adesivos de super-heróis, onde planeja as aulas e faz as provas; dois cadernos, ambos com capas do Homem-Aranha porque certas coisas nunca mudam; um copo de plástico estampado do aniversário de 15 anos de Jaiden cheio de canetas coloridas para corrigir trabalhos e, é claro, um vaso de cerâmica com alguma flor que muda religiosamente a cada semana.
— QUE LINDA!
Pepito se inclina contra a flor. Há apenas um par dentro do vaso, suas pétalas brancas encolhidas como um punho bem fechadinho chamando a atenção do adolescente. Seu conhecimento de flores era limitado às margaridas por serem as únicas que ele conseguia desenhar nas aulas de artes. Ele sabe que existem aquelas com pétalas exóticas e coloridas, mas nunca tinha visto uma tão de perto.
— Qual o nome?
— Só entre nós, eu chamo de João Pedro. — o professor ri. — Mas o nome da flor é Lírio da Paz.
— Já ouvi falar de lírios, mas não Da Paz.
— Lírios têm uma família extensa. É tipo juntar vários primos em um churrasco de domingo. — Roier é conhecido por suas explicações nada convencionais. Os alunos adoram. — Aí temos Lírios-Tigre, Lírios Trombeta, Lírios da Paz…
— Qual é a desse Trombeta?
— Ele tem as pétalas bem curvadas e abertas como uma vuvuzela. — Ele tenta imitar o sentido das pétalas, mas não surte muito efeito para a imaginação de Pepito, que encara-o com cenho franzido e sobrancelhas caídas. Roier suspira. — Sabe, uma trombeta de flor.
— Ah… — Pepito parece maravilhado quando entende. — Faz sentido.
Roier sorri antes de pegar o vaso com toda a delicadeza do mundo. Ele já estava meio lascado pelo tempo, e ele — e quem o deu — se amaldiçoaria muito se o quebrasse mais.
— Sabe por que esse aqui se chama Da Paz?
Pepito coça o queixo antes de tentar responder.
— Por que é branco? Branco é cor da paz, né? — Ele pondera um pouco mais. — Mas existem outras flores brancas e nenhuma delas é da Paz, tipo margaridas.
— É quase isso. Se você notar, as pétalas parecem uma bandeira branca, e você sabe que bandeiras brancas são símbolos de paz.
— É só isso? — Pepito não está muito convencido.
— É! — E Roier acha graça.
Quando começou a se interessar pelo simbolismo das flores, Roier pensava a mesma coisa. Muitas plantas pareciam ser as favoritas com histórias mirabolantes e contos de mitologia. Outras, como aquele pequeno lírio, eram tão simples quanto bandeiras brancas. Isso o chateou por um tempo. Agora, ele se diverte. É provável que seja uma das coisas que mais adora na Botânica, essas pequenas nuances e significados fofinhos.
— Mas tem outra coisa legal, também. — Roier tenta melhorar um pouco de sua visão dos pobres lírios “Bandeira Branca”. — Eles purificam o ar de toxinas e poluentes. É tipo minha planta guardiã.
— Agora isso é bem mais legal.
— É, não é? — Cutuca-o carinhosamente na testa. — Eu planejava trazer ela para a próxima aula da sua turma, mas agora você acabou com a minha surpresa!
— Mas os outros ainda não viram!
— Mas você terá visto! — Roier foi incorruptível. — Não se preocupe, encontrarei outra. Tenho muitas flores em casa… Na verdade, já até imagino qual trazer! Você vai adorar.
— Essa vai ter significado legal?
Roier gargalha.
— Todas têm, Pepito. Mas essa vai ser bem diferente, eu garanto.
— Eu vou cobrar, fêssor.
Ele tem essa espécie de tradição desde que começou a dar aulas. Quando chega a hora de ministrar botânica, cada uma de suas turmas recebe a visita de alguma de suas plantas. Geralmente são flores, mas Roier trouxe uma pequena muda de morangueiro para a turma D no ano passado apenas por estar se sentindo um pouco mais inspirado naquele dia. Os alunos adoram ver a planta de perto e poder tocar ou cheirar as pétalas. Ao fim do dia, ele chama as pessoas para nomear e apontar todas as partes da planta e aquele que acertar tudo ganha alguns pontos extras. Todos terminam felizes!
Hora de João Pedro voltar para casa.
Ao fim do expediente, Roier guarda suas coisas na sua bolsa a tiracolo favorita. Ele a adorava por se achar muito mais sério e respeitável usando-a do que se continuasse com sua antiga mochila do Homem-Aranha. Seu marido garantiu que nenhuma das crianças se importaria com sua infantilidade perpétua, mas Roier preferiu não arriscar até completar seus primeiros cinco anos de carreira. Ele queria causar uma boa impressão.
— Tchau, professor Ro!
— Tenha uma boa tarde, fêssor!
— Professor, sabe aquela atividade que o senhor passou na segunda…
Eles são rápidos em interceptá-lo logo na frente da porta da sala dos professores. Roier tem a teoria que estudantes possuem alguma habilidade mística de saber quando e de onde um professor surgirá. O poder da habilidade é aumentado em até três vezes se o aluno em questão precisa de pontos extras.
— Na segunda do mês passado, você diz?
— Só dessa vezinha, professor?
Roier pensa por dois segundos antes de aceitar a atividade. É, ele é um professor de coração mole.
Com seu novo visto, a garota vai saltitando até a sala A. A última aula de Biologia deles foi ontem, justamente o início do assunto de Botânica. Roier estava na dúvida de qual planta escolher, mas optou pelas violetas.
“Na Idade Média, chamavam as violetas de flor do Alívio do Coração porque a infusão das folhas de violeta pode tratar problemas cardíacos ao estimular o metabolismo do corpo. Ah, as marcas de cosméticos também adoram as violetas por serem ótimas para o cabelo, diz que diminui a queda dos fios.”
“Como que a gente come violeta, professor? Pelo chá?”
“Pode ser. Eu já tomei, na verdade. Não me lembro do gosto agora, mas do cheiro eu nunca vou esquecer.” Ele ria enquanto acarinhava a ponta das pétalas roxas da flor. “Cheira a pepino.”
Roier sempre ri quando lembra desse detalhe. Naquele dia, ele definitivamente não queria tomar um chá de flor, mas Cellbit insistiu muito que ele sabia bem o que estava fazendo e que os resultados valiam o sacrifício. E quando imaginou um chá de violeta, Roier, em seus últimos dias de ensino médio, realmente cogitou que teria de beber um chá roxo e com gosto forte de perfume floral.
A experiência real foi bem inesperada.
“Amor…” Roier encarava a xícara meio cheia — ou meio vazia, vale a interpretação do leitor — com descrença. “Por que tem cheiro de salada?”
Cellbit usou aquilo como material de chantagem por uma semana inteira, rindo de piadas que apenas ele entendia. Claro, Roier passou a compreendê-las depois que se formou. Ele ainda se lembra, por exemplo, como duvidou da existência de flores verdes e que acreditava piamente que rosas azuis floresciam na natureza tal qual as vermelhas ou as brancas. Agora, seu marido não consegue mais pegá-lo em suas pegadinhas botânicas.
O lado bom é que eles possuem cantadas que apenas o outro consegue entender. E Jaiden também, mas ela tem passe livre para envergonhá-los desde que Roier esqueceu de cuidar de seus gerânios para flertar com o florista bonito da loja ao lado.
Ainda no assunto dos gerânios, ele apresentaria-os para a turma B na próxima quinta-feira. No ano passado, Roier mostrou girassóis. Foi sua primeira aula de Botânica da carreira. Ele estava nervoso e uma verdadeira pilha de nervos enquanto carregava um vaso com uma única flor plantada dentro. Seu medo era ser taxado de bobo pelos alunos, por que quem traz uma flor para a sala de aula?
Claro, tudo deu certo. Como o próprio Cellbit dizia, os medos de Roier existiam apenas dentro de sua própria cabeça.
“ MEU DEUS!”
Ele gostaria de dizer que não existiam grandes motivos para o alarde coletivo da turma, mas existiam. Sim, era apenas um girassol. Contudo, era um girassol de quase um metro e meio de caule.
“Essa é a flor mais grande que eu já vi, professor!”
“Não é?” Serviu para diminuir seu nervosismo. “E ele ainda é pequeno, acreditam?”
“ Mas ele tem quase o tamanho da Ana Júlia!”
Ana Júlia era a aluna mais baixinha da turma, apelidada carinhosamente de mascote. Ela não era tão pequena assim comparada ao girassol, tendo uma margem de diferença confortável de quatro pés de altura — mas deitados, e não em pé.
“Os caules dos girassóis costumam bater a casa dos três metros de altura, mas existem algumas exceções. O maior girassol já registrado tem quase dez metros só de caule.” Isso foi o suficiente para capturar a atenção dos olhos curiosos de todos. “Agora, alguém sabe por que ele se chama Girassol?”
“Vi em algum lugar que eles seguem o movimento do Sol.” Ela mesma, Ana Júlia, levantou a mão. “É como se estivessem dançando para ele!”
“É verdade! E sim, você está certa, mas é só uma grande coincidência. Existe um hormônio do crescimento que estimula o girassol a fazer essa “dança” para atrair polinizadores. Eles começam apontando ao leste durante as manhãs e terminam no oeste pela tarde. Quando é noite, eles giram de novo para o leste e o ciclo reinicia, mas isso para depois que os girassóis estão maduros e aí eles nunca mais giram pelo resto da vida.”
“É tipo a adolescência dos girassóis?”
Essa descrição de um dos alunos lembrou-o da famigerada frase “ então beija-flores são pansexuais” que Roier disse a Cellbit quando ainda estavam se conhecendo. No dia, o florista o falava sobre as cores das pétalas das plantas e como alguns insetos preferiam algumas cores sobre outras. E beija-flores adoram flores independente das cores. Sabe, a comparação apenas fazia muito sentido.
Assim como essa.
“Sim, é a adolescência dos girassóis! E essa é mais uma indireta adulta para vocês aproveitarem o tempo de escola.” O coro de suspiros juvenis o fez rir. “Dessa vocês não puderam escapar. Foi mal, miúdos!”
Há um cado de lembranças felizes em todo cômodo daquela escola. É a mesma em que ele, Jaiden e Cellbit estudaram no fundamental. Às vezes, Roier se pega entrando na sala B e se lembrando da cadeira onde sentava. Era bem no fundo, uma posição atrás de Jaiden. Eles brincavam, riam e passavam cola durante todas as aulas. Os tempos pareciam mais fáceis, com menos responsabilidades e quase nenhuma conta a pagar.
Mas quando entra na sala de aula, sua mente associa as crianças à flores. Ana Júlia é um vaso de begônias, especificamente as laranjas. Pepito tinha que ser uma margarida bem florida e jovem. Há também aquele seu aluno insuportável que combina com cactos, espinhento, mas com talento imprescindível por dentro. Toda flor tem suas peculiaridades, tamanhos, cores, jeitos, manias e histórias, tal qual pessoas.
E um professor é como um florista, se você seguir com a lógica. Roier está cuidando de sementes de angiospermas — e ele finalmente aprendeu a como escrevê-las pelo nome certo.
Ele cumprimenta o zelador ao sair da escola. Ainda é o mesmo funcionário, embora com mais fios brancos para contar história. Metade das tias da limpeza saíram, e agora a merendeira é a filha da antiga senhora que fazia o melhor mingau de arroz da cidade inteira — e Roier nem gosta de mingau. Muitas coisas mudaram quando ele envelheceu.
E outras nunca mudarão.
A floricultura manteve o mesmo ponto comercial com o passar dos anos, sendo fortemente patrocinada pelos seus pais. A TrevoFlor passou por algumas reformas, com uma fachada mais moderna em madeira escura envernizada, vidraçarias sempre limpas e, é claro, flores coloridas por toda parte.
Mas o melhor da floricultura é quem o espera do lado de dentro. E sim, Roier pode flertar com o florista. Quem pode impedi-lo de trocar amores com seu marido?
O carpete verde de “ Tem terra nas plantas, mas não nos nossos sapatos” o cumprimenta na entrada. Ele limpa o solado dos tênis para a enorme felicidade de seu marido asseado antes de entrar. Ao passar pela porta, o tilintar do sino dos ventos entrega sua presença e estraga qualquer surpresa que Roier pudesse pensar em fazer. Ele odeia essa coisa estraga-prazeres.
— ¡ Buenas tardes, mis bebés! — Roier dá um cheiro na primeira flor que vê. Gardênias, docinhas, muito docinhas. — Cadê o meu marido, ein?
— INDO!
É engraçado como podem passar anos que eles estão juntos — e quase dois desde que finalmente se casaram nos papéis — e Roier ainda sorrirá ao ouvir a voz de Cellbit como se a escutasse pela primeira vez.
Seu marido aparece pela porta que liga a casa deles com a floricultura. Ele ainda usa o mesmo avental verde do ensino médio, agora mais apertado nos ombros e na cintura. Em algum momento, Cellbit descoloriu uma das mechas da franja. Seu cabelo ainda é grande, macio e fofo. E seus olhos azuis ainda possuem o mesmo tom bicolor gentil e inesquecível de miosótis.
É o mesmo homem a quem Roier se apaixonou quando adolescente, apenas com o bônus do anel enorme e brilhante no anelar.
— Pedrinho , você voltou! — Cellbit praticamente abraçou o vaso de lírio. — Finalmente saiu daquele cativeiro de emborrachados e provas em papel.
— Ah, sim, claro, porque você ama mais a planta do que eu. — Roier funga teatralmente. — ¡ Soy taaaan triste y mal cuidado!
Cellbit solta melodia na forma de uma gargalhada alta e sincera antes de puxá-lo para um beijo rápido. Ele sorri entre seus lábios, cara idiota; lindo e idiota; lindo, inteligente e idiota. E seu marido. Merda, Roier o ama tanto.
— Boa tarde, mi guapito . — sussurra entre selares intercalados a cada palavra, mantendo seus miosótis fixos em suas orbes de café. — Melhor?
— Muito.
— Agora, diga-me, meu cliente favorito, o único que pode invadir minha loja no meu horário de almoço. — Cellbit aponta sorridente para a placa Fechado do lado de fora. — Como foi o dia no trabalho?
Enquanto Cellbit procurava um espacinho vazio para o pequeno João Pedro, Roier puxava um banquinho de madeira para se sentar, deixando a bolsa cair no chão aos seus pés.
— Um tédio. Não tive nenhuma aula, só fiquei adiantando umas coisas… Montei cinco questões da prova de recuperação e já cansei! Espero que poucos precisem fazer dessa vez. — Estalou as costas, suspirando com a dor de ficar tanto tempo sentado. — Estou pensando em algum trabalho legal para eles no próximo bimestre.
— Botânica? — Cellbit o encara com olhos brilhantes.
Roier ri.
— Óbvio que sim.
Ele é um professor de trabalhos acima de provas, apenas aplicando-as quando é extremamente necessário ou exigido pela coordenação. Suas tarefas costumam ser mais práticas, com desenhos, mini maquetes e raramente seminários. Dá mais trabalho de planejar, administrar e lançar notas, mas estimula a criatividade e aprendizado dos alunos e, convenhamos, é bem mais divertido.
— Ah, e Pepito estragou minha surpresa dos lírios, então vou precisar de outra flor.
— Tenho várias opções para você, minha flor de jasmin. — Piscou. — Só escolher.
Ele ponderou. Roier poderia optar pelos populares, como rosas ou tulipas, pelos clássicos tal qual hortênsias ou até às menos conhecidas, como as camélias. Mas ele queria algo que chamasse a atenção, algo… Pepito. Encantador, legal, diferente e divertido.
— Eu tinha pensado naquelas de nome engraçado. — Ele força a mente para lembrar. — Dez Horas?
— Onze-Horas! — o outro corrige.
Cellbit traz o vaso cheio de flores coloridas em tons de rosa, amarelo e vermelho. São primas distantes das rosas na aparência, embora sejam classificadas como suculentas com suas pétalas um pouco transparentes. Estas estão com os botões recém-abertos, praticamente pedindo por um abraço.
— As folhas são muito sensíveis ao sol. — Cellbit sorri. Ele ainda mantém o velho hábito de explicar sobre as manias de cada planta que cultiva. Roier nunca o interrompe mesmo já sabendo de algumas coisas. Ele adora escutá-lo falar. — Quando o sol está no auge, elas se abrem. Geralmente, é por volta das onze horas da manhã, por isso o nome! E essas aqui são tipicamente brasileiras. As abelhas adoram.
— Mais que as Sapateiras?
Não, não são sapateiras de sapatos. São flores. Na verdade, é mais provável que sejam conhecidas por Hibiscos do que Sapateiras, mas esses apelidos não convencionais os divertem.
— Não mais que elas, é óbvio. — Revira os olhos carinhosamente. — Mas, ei, uma muda nova chegou hoje. Quer ver?
Roier se levantou imediatamente com a menção de uma nova flor. Rindo, Cellbit foi buscar o vaso ainda meio embrulhado no fundo da loja. Há apenas quatro flores abertas e algumas das folhas estão meio quebradas, mas nada que o florista não possa cuidar e amar até que a planta floresça saudável de novo.
— Que linda…
Essas pétalas eram azuis de um tom extremamente claro, quase pastel, tão miúdas que várias encheriam a palma da mão. São seis pétalas por flor, às vezes cinco. Para as que ainda não desabrocharam, seus botões ficam agrupados no que parece ser uma carruagem de princesa real. Era uma flor extremamente singular. Talvez, pareça com um lírio, mas é bem mais pequeno do que um convencional.
— Te lembra alguma flor?
Roier se mantém com seu chute.
— Um lírio bem pequeno, eu acho.
Cellbit sorri.
— Lírio-Africano. — Dá um tapinha carinhoso nas folhinhas verdades. — Agapantos .
— Agapanto…
O nome o lembra amaranto, a flor favorita de Cellbit. Aquelas plantinhas lhe dão memórias bonitas de notas azuis e primeiros beijos.
— Não tem cheiro forte — Roier comenta.
— Não, não tem. São flores bem simples, na verdade. Elas não exigem cuidados específicos e crescem em qualquer tipo de solo. Existem preferências, é claro, mas ela pode suportar quase qualquer tipo de clima, temperatura ou solo infértil. — Cellbit o encara tão intensa e docemente que Roier estremece como um adolescente. Ah, lá vem algo que vai me deixar nervoso e sensível. — É a Flor do Amor .
Flor do Amor…
Ágape.
É claro que a flor derivada do Ágape — uma das palavras que representam o amor em sua forma nua, crua e devota — simbolizaria o amor. Há lealdade, também. É uma das primeiras flores usadas para montar buquês de casamento, na antiguidade. Existe uma simbologia profunda ligada a sua forma de cultivo e a como o amor pode nascer e prosperar em qualquer circunstância ou adversidade.
Vendo assim, agapanto se parece com amaranto.
Se o amaranto é o amor eterno e que nunca murcha, então o agapanto é o amor cultivado e florescido. Eles não só podem coexistir, como são consequência um do outro. Roier não deixa de imaginar qual combinação poderia surgir de um buquê de agapantos e amarantos, e se sente até meio triste por ter conhecido a plantinha tão tarde. Talvez, surja outra oportunidade quando eles renovarem os votos de casamento daqui uns dez ou quinze anos.
— O que você está pensando, ein?
Ele não irá revelar seus planos ainda tão cedo. Mas há outro pensamento em sua mente.
— A cor dela…
O olhar de Cellbit acalenta quase instantaneamente.
— É azul.
— É o tom… — Roier sorri pequeno. — Esse agapanto é azul cor de miosótis.
Miosótis.
A plantinha, Teresa Neta — porque, infelizmente, miosótis possuem ciclos de vida de um ano —, ainda está no mesmo vaso acima do balcão. Roier a pega com carinho, as pétalas cumprimentando-o já sabendo que são suas favoritas. Ele ama todas as flores, amarantos, lírios, cravos, rosas, jacintos — os brancos, principalmente — e todas as outras que existem pela floricultura, mas as miosótis são especiais.
Porque é só encarar seus botões que Roier se lembrará dos exatos olhos azuis daquele que tanto ama.
— É quase o mesmo tom. — Ele compara o azul das miosótis com dos agapantos. Idêntico, se não fosse pelo degradê amarelo das não-me-esqueças que Roier tanto admira. — E você sabe, parece com seus olhos.
Claro que Cellbit sabe. Ele ouviu isso uma, duas, um milhão de vezes, e nunca se cansa. Seu coração sempre vai explodir no peito e ele irá sorrir tão, tão grande e brilhante que sua mandíbula doerá pelo esforço de manter suas covinhas aparentes no rosto. Mas vai valer a pena porque Roier merece seus sorrisos mais bonitos, genuínos e especiais.
É ele quem o faz florescer, todos os dias.
— Realmente.
Ele puxa Roier pelo queixo e o beija de novo porque, porra, ele pode. É seu marido ali, seu antigo aprendiz de flores que se tornou o melhor professor de biologia e futuro mestrando de Botânica da cidade inteira, seu parceiro, seu salvador e, ironicamente, o jardineiro das pétalas de miosótis que Cellbit carrega nos olhos. Aquele a quem ele comparou com flores de amaranto no passado, suas flores favoritas, por lhe dar a chance de experimentar na pele — e no coração — o sentimento do amor puro que não murcha e não morre.
Aquele mesmo amor que hoje evoluiu e se consagrou como um agapanto, vivo e firme independente da circunstância. Leal. Devoto. E deles.
