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Capítulo 14 - Problema Jurássico - Parte 2
— Bom, vamos continuar a história? — falou Pacifica com uma cara feliz como se estivesse aliviada.
— Finalmente! Vamos continuar logo, tô ansiosão para saber o resto!
— Gosto de ver sua empolgação, pequeno gafanhoto! Tudo bem, vou fazer sua vontade, continuando:
Depois do impacto que atingiu Pacifica, ela começou a recobrar a consciência de forma confusa. Seus olhos pareciam pesar toneladas, e ela teve que lutar um pouco para abri-los. Enquanto sua mente lentamente voltava à realidade, percebeu que estava aprisionada em algum tipo de cela ou masmorra. Era um espaço amplo, com algumas pessoas acorrentadas e outras vagando soltas. Um cheiro insuportável de decomposição impregnava o ambiente, provocando náuseas em Pacifica. Enquanto tentava se recuperar, ela foi acometida por uma forte dor de cabeça na nuca. Instintivamente, levou a mão até o local da dor, sentindo uma agonia lancinante. Quando retirou a mão, deparou-se com uma quantidade significativa de sangue, resultado provável do golpe que havia sofrido anteriormente.
Com dificuldade, Pacifica iniciou o processo de levantar-se, sua fraqueza persistente se misturando com a dor em sua cabeça. Entretanto, ao examinar mais atentamente as pessoas naquela cela, ela foi surpreendida por uma visão aterradora: o estado delas era deplorável. Muitos mal conseguiam permanecer de pé, exibindo manchas negras por todo o corpo, feridas que transbordavam sangue e pus. Aqueles que não estavam prostrados vagavam sem rumo, incapazes de parar de se mover devido à intensidade da dor que enfrentavam.
Pacifica estava horrorizada com aquela cena, conseguindo enxergar o desespero e a melancolia estampados nos rostos de todos ali. Pareciam ter perdido a vontade de continuar vivendo, como se a própria morte estivesse estampada no rosto de todos ali.
Foi então que Pacifica compreendeu a origem do odor insuportável que sentia. A cela estava imunda, com urina e fezes espalhadas por toda parte, como se não fosse limpa há dias. Com até alguns ratos e baratas passando por entre as pessoas.
A garota ficou completamente horrorizada com toda aquela cena. Com toda a certeza, tudo isso só significava uma coisa: todas aquelas pessoas estavam infectadas com a peste bubônica. Pelo nível de manchas e machucados, já estava em um nível muito avançado. Pacifica viu um homem perto dela tossindo muito, como se ele estivesse prestes a morrer pela intensidade. A garota não conseguiu somente ficar parada ali olhando.
— O senhor tá bem? — peguntou a menina chegando perto do homem.
Contudo antes de chegar mais próximo ela foi interrompida por uma voz feminina.
— Saia de perto desse bubão!
Pacifica olhou para ver quem era, e notou que se tratava de um médico da peste.
— O padre solicitou sua presença.
— Vocês estão deixando as pessoas aqui para morrer! Isso é desumano!
— Venha logo, ou te arrastarei daí.
Pacifica, ainda com um pouco de hesitação, se levantou e começou a se dirigir até a médica. Enquanto atravessava os enfermos, sentiu a melancolia que permeava o ambiente. A tristeza da situação a afetou profundamente. Ela não conseguiu evitar de abaixar sua cabeça e evitar o contato visual com as pessoas ali presas. A médica a empurrou com impaciência para que ela se apressasse.
Ao sair da cela, Pacifica percebeu que estava em uma grande igreja. Os quadros nas paredes retratam imagens divinas de Deus e outros santos do catolicismo. A médica a conduziu até uma grande porta de madeira, que se abria à medida que elas se aproximavam. Uma figura as esperava em um tipo de altar: um padre com uma manta branca. Ele sorriu e estendeu os braços em sua direção.
A médica empurrou Pacifica para dentro e trancou a porta, deixando apenas a garota e o padre no local.
— Olá, minha filha. Como está? — cumprimentou o padre.
— Poderia estar melhor, admito — respondeu Pacifica, tirando a poeira do porão de suas roupas.
— Mil desculpas pela forma como você foi tratada. Assumimos que você estava infectada...
— Olha, eu não estava, mas só por ter ficado naquele porão, provavelmente eu já peguei isso...
O padre levantou as sobrancelhas diante das palavras da menina.
— Você fala isso com tanta calma, nem parece que acredita em suas próprias palavras.
— Não tenho tanto medo, é só eu tomar uns antibióticos e pronto.
As palavras de Pacifica fizeram o padre franzir a testa, visivelmente irritado.
— Garota tola, ore muito para que a fúria de Deus não caia sobre ti.
— Olha, senhor padre, com todo o respeito, mas Deus é quem menos tem culpa nesse caso — respondeu Pacifica com firmeza.
As palavras da garota deixaram o padre furioso.
— Isso é completamente culpa de vocês.
— Já basta, menina! Você claramente é uma estrangeira, por algum acaso é uma voluntária para cuidar dos bubões? — disse o padre com superioridade e jogando algumas moedas de prata no pé da menina.
— Sim, sou estrangeira. Mas não estou aqui como voluntária... — Pacifica se agachou e pegou as moedas — Moedas?
"Que estranha sensação de Déjà vu..."
— Sim, esse é seu pagamento por vir até aqui ajudar-nos.
— Cara, mas eu já disse que não sou voluntária de nada.
— Então o que faz lá fora? Não sabe que o ar está contaminado com o mau cheiro? Todos devem ficar de quarentena, inclusive os estrangeiros.
— Eu não estudei muito sobre a peste na escola, mas pelo o que eu me lembre não tem nada relacionado a mau odor não, hein.
— Sua descrença tira-me a paz, espero que Deus tenha piedade de sua pobre alma.
O padre estendeu a mão e alguns médicos entraram na sala e agarraram Pacifica.
— Ei! Ei! Me solta, para onde vocês estão me levando?!
— Você voltará para sua cela, nossa conversa não está progredindo em nada.
— Seu lunático! Você não pode prender pessoas em um calabouço como se fossem bichos!
— Eles já estão condenados, a feição da morte está estampada em seus rostos.
— Suas ruas imundas e a falta de higiene nesse lugar estão fazendo todas as pessoas ficarem doentes!
— Já chega de suas baboseiras, podem levá-la.
Pacifica começou a ser arrastada, contudo ela não pareceu resistir. A garota abriu um sorriso e olhou para o padre.
— Eu tentei ser razoável com vocês, mas acho que terei que fazer isso da maneira difícil.
Pacifica puxou uma grande quantidade de ar e soltou um forte grito:
— Clucks! Pode vir!
Quando Pacifica gritou daquela forma inesperada, todos na sala se assustaram, pois não compreenderam o que ela estava dizendo. No entanto, após o grito, nada aconteceu, deixando Pacifica envergonhada e desconcertada. Os médicos simplesmente ignoraram a garota e começaram a arrastá-la de volta para a masmorra.
Ao retornar à cela, eles a lançaram para dentro com força, levando-a cair no chão e sofrer alguns arranhões. Pacifica levantou lentamente, observando os médicos saírem e a deixarem para enfrentar a situação junto aos doentes.
Sentada em um canto, ela permaneceu ali por cerca de meia hora, olhando fixamente para o chão, pois não tinha coragem de encarar o sofrimento das pessoas à sua volta. Enquanto estava imersa em seus pensamentos sombrios, Pacifica percebeu Clucks, sua amiga, surgindo em seu campo de visão. A ave segurava a trena em seu bico. Mesmo diante desse vislumbre de esperança, Pacifica não conseguiu encontrar a alegria, sua mente estava abalada após presenciar tamanha desgraça naquele lugar.
— Oi, Clucks... vamos sair logo daqui, eu já estou cansada disso tudo...
A menina pegou a trena do bico da galinha, e puxou para saltar mais uma vez pelo tempo. Contudo, antes de soltar, ela olhou para todos ali parentes e uma lágrima escorreu de seu rosto:
— Me desculpe por não conseguir ajudar vocês...
Ela soltou a trena e desapareceu diante de todos ali.
Gideon ficou um pouco assustado com o relato da garota, deve ter sido bem traumatizante ter visto todas aquelas coisas que ela presenciou. Contudo, Pacifica continuava com uma cara bem amigável, como se não tivesse se afetado muito com a história.
— Pacifica, você não sente nada ao contar essa parte?
— Hm? Como assim?
— Bom... Todo o sofrimento que você presenciou... Sei lá...
— Claro que eu fiquei afetada com tudo aquilo, mas eu tô tentando evitar pensar muito, sabe?
— Entendi, falando assim faz bastante sentido, na verdade.
— Sim, só de lembrar todas aquelas pessoas sofrendo na minha frente e eu não conseguindo fazer nada... É... assustador... — Pacifica abaixou sua cabeça e lamentou em meio as suas lembranças.
— Pacifica? — Gideon perguntou preocupado com a garota.
— Eu tô bem! Não se preocupe, as próximas partes da história vão ser mais empolgantes e sem tanta melancolia — falou a garota com um sorriso de ponta a ponta.
— Claro... — respondeu Gideon um pouco incomodado olhando para a menina.
— Ué, Gideon! Por que está com essa cara?!
— Essa é a primeira vez na vida que eu vi você forçar um sorriso...
Quando Gideon falou aquilo, Pacifica ficou chocada. O sorriso de antes caiu lentamente do seu rosto, e ela olhou meio triste para o menino.
— Você não precisa se forçar a estar feliz, Pacifica. Eu nunca vou cobrar isso de você...
— Me desculpa, Gideon. Não sei o que deu em mim, eu nunca fiz isso antes.
— Por que você está se desculpando? Só estou dizendo que você não precisa colocar uma máscara quando estiver perto de mim!
Quando a menina ouviu aquilo, ela deu mais um sorriso de ponta a ponta, porém esse era bem diferente. Gideon conseguiu ver a sinceridade daquele sorriso e a felicidade dela transparecendo.
— É disso que eu tava falando — disse Gideon retribuindo o ato com outro sorriso.
— Obrigado por me reconfortar, Gideon. Não sei o que eu faria sem você...
— Bom, vo-
Pacifica ficou um pouco vermelha por ter falado aquilo para o Gideon, e o interrompe enquanto falava:
— Vamos continuar a história! Antes que as coisas comecem a ficar estranhas aqui:
Pacifica emergiu dessa vez em um local familiar: Floresta de Reverse Falls. Finalmente retornando ao local com Clucks. Ela começou a caminhar pela floresta em direção à casa de Gideon, mas, no caminho, um choro de criança rompeu o silêncio da mata. Seus instintos a levaram a correr em direção ao som para verificar o que estava acontecendo.
Para sua surpresa, deparou-se com um garoto de cabelos brancos caído no chão e uma menina loira, com os braços cruzados e uma expressão raivosa em seu rosto. Não demorou muito para Pacifica perceber que aquelas crianças eram ela mesma e Gideon quando eram mais jovens. Gideon chorava desconsoladamente enquanto a garotinha, a versão mais jovem de Pacifica, o repreendia com firmeza.
— Você parece uma menininha! — A Pacifica mais nova disse. — Se você não se levantar logo, eu vou te bater de novo!
— Mas eu não quero brincar disso, Pacifica! Você está sendo má.
— Como ousa chamar sua rainha de má?! Vou te ensinar uma lição, plebeu!
A menina partiu para cima do garoto, iniciando uma briga desigual, já que o garoto mal conseguia revidar, e a menininha era extremamente feroz. A Pacifica do presente ficou assustada ao ver sua versão mais nova agindo com tanta raiva, algo que não se lembrava de ser.
Furiosa com sua versão mais jovem por maltratar Gideon daquele jeito, Pacifica pegou uma pequena pedra e a arremessou na direção da menininha. A pedra acertou a criança, que olhou na direção de quem a atingira com lágrimas nos olhos. Em seguida, Pacifica surgiu diante deles com uma expressão de raiva.
— Ei, não é para você bater nele, ouviu?! — exclamou Pacifica, assustando a menininha que estava açoitando Gideon.
A menina assustada com a aparição repentina da jovem começou a chorar. Além da dor causada pela pedra, o tom de voz da garota aterrorizou a criança. Gideon, mesmo um pouco machucado, se levantou e começou a consolar a pequena Pacifica que chorava. Ele enxugou suas lágrimas e se colocou à sua frente, olhando furiosamente para a jovem loira que havia feito sua amiga chorar.
— V-você fez a Pacifica c-chorar! S-sai daqui, ou eu vou contar para o meu pai! — Gideon advertiu, posicionando-se para proteger a pequena que ainda estava soluçando atrás dele.
A Pacifica do presente ficou extremamente surpresa, pois, apesar de o garoto ter sofrido nas mãos de sua versão mais jovem, ele ainda estava determinado a protegê-la a todo custo. Essa atitude lembrou muito o Gideon que ela conhecia no presente. Ela ofereceu um pequeno sorriso ao garoto e começou a caminhar lentamente em sua direção. O garoto estava um pouco nervoso, pois a garota loira se aproximava. No entanto, mesmo com medo, Gideon permaneceu firmemente em defesa da pequena Pacifica.
Quando a Pacifica do presente chegou até ele, ela colocou a mão sobre sua cabeça e acariciou gentilmente seus cabelos.
— Obrigado por sempre proteger sua amiga... Continue assim, e eu garanto que um dia ela também vai protegê-lo — disse Pacifica, sorrindo com gentileza para o menino.
O garoto ficou extremamente confuso, pois ela não parecia ser a mesma pessoa má que ele viu ser demonstrado. A jovem retirou a mão de sua cabeça e se afastou, caminhando e adentrando a floresta. Antes de partir, ela piscou para Gideon, fazendo-o corar levemente (um detalhe que a Pacifica do presente optou por não contar a Gideon no momento). Pacifica acariciou Clucks em cima de sua cabeça e puxou a trena, iniciando mais uma viagem no tempo.
Pacifica, mais uma vez na floresta, percebeu que não havia se movido do local. Desta vez, em vez de ouvir choro, ela ouviu o som de árvores se quebrando e alguém gritando. Uma voz familiar a deixou intrigada:
— COMO VOCÊ CONSEGUE ESTAR TÃO CALMA NESTA SITUAÇÃO?! — Gritou alguém.
Pacifica saiu correndo para investigar o que estava acontecendo, e ficou surpresa ao encontrar a si mesma e Gideon em um carrinho de golfe, fugindo de um monstro coberto de galhos. Enquanto aceleravam em direção a um desfiladeiro, o monstro implacavelmente os perseguia. Diante dessa situação perigosa, Pacifica decidiu agir.
Ela correu até o campo de visão da criatura e começou a chamar sua atenção. O carrinho de golfe não diminuía a velocidade e continuava a acelerar em direção ao abismo. No entanto, o monstro, ao ver Pacifica chamando sua atenção, interrompeu abruptamente a perseguição aos dois jovens. Ele percebeu que não conseguiria mais alcançá-los e mudou sua direção, correndo na direção da menina que o havia interrompido.
Pacifica, sem fazer alarde, pegou sua trena e puxou-a rapidamente, desaparecendo a tempo de evitar ser pega pela criatura.
Dessa vez Pacifica estava dentro do hospital de Reverse Falls, ela olhou para os lados e viu seu quarto que ela tinha ficado após desmaiar na tenda dos Gleefuls. A garota andou até o seu quarto e abriu a porta, se deparando com ela ainda desacordada e seu pai sentado segurando sua mão. O homem olhou para ver quem havia aberto a porta e tomou um enorme susto ao ver sua filha bem ali em pé. Ele se levantou e ficou com uma cara de choque olhando para a garota.
— F-filha?!
— Oi, pai! — cumprimentou a menina de uma forma despretensiosa.
— Como isso é possível?!
O homem se levantou alarmado e incrédulo com aquilo.
— Calma lá! Seu coração vai sair pela boca desse jeito.
— Que droga é essa? Você é realmente a Pacifica?
— É difícil de explicar, pai. Mas pode-se dizer que eu sou tipo uma versão muito mais braba da sua filha!
— O quê?
— ...Eu sou sua filha, porém, estou viajando no tempo graças a esta trena aqui — Pacifica mostrou a trena para o homem.
Embora estivesse chocado, ele engoliu seco, e tentou colocar sua cabeça no lugar. Respirando fundo, olhou receosamente para Pacifica.
— Eu juro que estou tentando entender... Mas isso é muito confuso.
— Não se preocupa, já tô de saída, na realidade não era nem para você ter me visto aqui. Isso pode causar aqueles negócios de loops temporais e tudo mais.
O homem só observou em silêncio.
— Até mais tarde, pai! — ela se preparou para sair, mas ela parou subitamente. — Quase eu ia esquecendo!
Ela colocou a mão no bolso e tirou algumas moedas de prata que o padre lhe havia dado anteriormente.
— Acho que eu vou precisar disso mais tarde.
Ela entregou as moedas para o homem.
— O que é isso?
— Moedas, dãn.
— Eu sei que são moedas, filha. Por que está me entregando?
— Ata! Quando eu acordar, tenta dar isso para ela, acredite, isso vai salvar minha vida.
— Mas o que eu deveria falar? "Oi, filha. Sua eu do futuro me pediu para eu entregar isso".
— Não, seu bobo. Tenta inventar alguma desculpa sei lá, fala que é alguma espécie de amuleto de proteção ou algo do tipo, eu com certeza vou acreditar em qualquer coisa que você me falar.
—Ma-
— Tchau, pai! — interrompeu a fala dele, e bateu a porta com força na cara do homem. E ele nem teve tempo de ficar bravo, pois antes mesmo dele pensar em algo, a garota na cama começou a recobrar sua consciência.
Quando Pacifica fechou a porta, ela começou a puxar a trena, mas antes de concluir o ato, ela ouviu o barulho de alguns passos a seu lado. Quando olhou ela reparou que se tratava de Dipper Gleeful. Ela o encarou, perplexa.
— Olá, não sabia que já tinha acordado... — Dipper pareceu surpreso, e não parou de olhar para Clucks, estranhando a ave na cabeça da menina.
— Gleeful? O que você tá fazendo aqui? Eu achei que você só tinha chegado aqui pela madrugada.
"Pó, pó" cacarejou Clucks, aparentando não gostar da aura que Dipper estava emanando.
— Madrugada? — Dipper olhou para a mão da menina e viu a trena que ela estava segurando. — Espera, você está viajando no tempo?
— Como você sabe isso?! Droga, eu acho que já me expus demais.
A garota soltou a fita e iniciou sua viagem junto a Clucks. Dipper ficou parado ali. Muito sério. Sem mover um músculo, milhares de pensamentos pareciam estar passando por sua mente.
Pacifica finalmente reapareceu, contudo, se deparou com dois homens muito grandes na sua frente, eles pareciam ter quase dois metros de altura. Entre os dois, tinha uma figura conhecida: era o homem careca e gordinho de antes.
— Hehe... E aí, galera.
— É ela! A anomalia! — berrou Blendin.
Em seguida, um dos homens altos agarrou Pacifica pelo braço e arrancaram a trena de sua mão.
— Aí! Não precisa usar força, eu não tô resistindo!
— Você está presa por inúmeras infrações contra a linha temporal. Será julgada no ano de 207̃012!
— Espera, esse ano realmente existe? Eu jurava que era só uma invenção da cabeça do Blanfin.
— É Blendin!
— Nossa você é tão egoísta, Blanxin. Tudo é sobre você, não é mesmo?
Antes mesmo que Blendin pudesse falar algo, todos ali presentes são teletransportados. Pacifica mal piscou, e quando se deu conta estava em uma sala totalmente escura, somente com uma cadeira à sua frente.
— Agora espere aqui, prisioneira. Em algum momento do tempo estaremos de volta para levá-la ao tribunal.
Os três desapareceram, deixando Pacifica sozinha naquele lugar estranho.
— "Em algum momento do tempo estaremos de volta para levá-la ao tribunal" — a garota imitou o homem, o ironizando. — Droga, quanto tempo deveria ser algum momento no tempo?!
A garota se sentou na cadeira e Clucks que estava na sua cabeça saltou para o colo da menina.
— Clucks, você é a única pessoa sã aqui...
"Pó?"
— Eu sei que você não é uma pessoa... Mas ninguém liga, né?
"Pó, pó"
— Não! Eu não quis insinuar que você é ninguém, desculpa!
Clucks somente se deitou para tirar uma soneca no colo da menina.
Pacifica permaneceu sentada na sala escura por quase uma hora, mas ninguém apareceu. No entanto, ela começou a sentir uma sensação estranha, como se algo a observasse. Ao se virar, deparou-se com um grande olho azul a encarando. Embora a situação fosse assustadora, ela não conseguia sentir qualquer ameaça vinda daquele olho. Em vez de demonstrar medo, Pacifica decidiu agir de forma diferente. Ela abriu um sorriso e começou a acenar para o olho. Após esse gesto, o grande olho simplesmente sumiu em um piscar de olhos. Pacifica ficou confusa, sem entender o que havia sido aquilo.
No entanto, antes que pudesse refletir mais sobre a situação, ela ouviu passos se aproximando. Sem hesitar, olhou na direção dos barulhos para ver quem se aproximava. Foi um grande erro. Quem estava vindo em sua direção era nada menos que Dipper Gleeful. A garota arregalou os olhos e ficou boquiaberta. Ela não conseguia entender como Dipper havia conseguido entrar naquele lugar.
O garoto parou em frente a Pacifica e colocou as mãos nos bolsos, observando-a em silêncio. Pacifica também ficou em silêncio, sentindo-se tensa. Embora não dissessem uma palavra, parecia que havia uma comunicação silenciosa entre eles. Pacifica não gostava do jeito de Dipper, achava-o arrogante e presunçoso, como se estivesse acima de todos. O olhar do garoto transparecia ódio e sentimentos sombrios. Ele era tão diferente de Gideon, em quase todos os aspectos, e talvez fosse por isso que Pacifica não gostava do comportamento de Dipper.
— Olá, Southeast — Dipper decidiu quebrar o silêncio.
— O que faz aqui, Gleeful? Veio me matar ou algo assim?
— Matar? — respondeu Dipper em tom de zombaria. — O que eu ganharia te matando?
— Então o que faz aqui?
— Eu faço parte do conselho do tempo, e aparentemente você andou causando muita dor de cabeça por aqui, não?
— Parte do conselho? Droga, só me faltava essa...
— Estou aqui para lhe ajudar, se não quiser-me aqui é só falar.
— Cara, eu não sei porque estou aqui, eu não queria fazer nada de mal, só estava tentando voltar para casa.
Enquanto Pacifica explicava, Dipper olhou para Clucks deitada em seu colo.
— Aquele dia no hospital... Por isso você estava com essa galinha e a trena.
— Eu só quero sair daqui! Vocês não podem me manter aqui presa para sempre!
— Na verdade, nós podemos sim — Dipper tira a mão do bolso para gesticular. — Se caso você for sentenciada, nós podemos te prender aqui por toda a existência.
— Sentenciada? Como assim?!
— Você será julgada no tribunal do tempo. Não foi passado isso a ti?
— Um dos caras grandões falou alguma coisa sobre isso, mas eu não prestei muita atenção.
— Pois bem, eu vim aqui justamente para isso. Você provavelmente será condenada e será presa, é quase impossível reverter isso.
— O quê?! Isso é injusto! — exclamou Pacifica se levantando.
— Calma. Eu ainda não terminei.
Dipper ofereceu a cadeira para Pacifica se sentar novamente. E ela se sentou, embora não quisesse muito.
— Pois bem, estou aqui para lhe fazer uma proposta.
Pacífica fechou a cara sabendo que uma proposta vinda do Dipper, poderia vir qualquer coisa.
— Fala logo — expressou Pacifica já impaciente.
— Minha proposta é o seguinte: eu te ajudarei na defesa do tribunal do tempo, e eu vou tentar fazer você ser absolvida.
— Em troca?
— Bom, quando você estiver livre, eu precisarei que você me responda uma simples pergunta. Mas tem que ser da forma mais sincera possível.
— Responder uma pergunta? Só isso?
— Só isso.
— Onde tá a pegadinha ai?
— Não tem pegadinha, você simplesmente terá que me responder uma questão de forma sincera.
— . . . — Pacifica pensou um pouco. — Droga, eu não gosto muito disso. Mas eu faço qualquer coisa para sair logo daqui. Ok, Gleeful, você venceu.
Quando Pacifica tentou se levantar, percebeu que algo a estava prendendo à cadeira. Ela olhou para baixo, mas não viu nada que pudesse estar segurando-a. Dipper notou a dificuldade dela e estendeu a mão para ajudá-la. Pacifica, apesar de estar um pouco receosa, aceitou a ajuda de Dipper e pegou em sua mão. No entanto, quando agarrou a mão dele, algo inesperado aconteceu: ela conseguiu se levantar da cadeira sem esforço.
A garota achou aquilo muito estranho, mas antes que pudesse concluir seus pensamentos, sentiu sua mão queimar. Quando olhou para ver o que estava acontecendo, percebeu que Dipper não havia soltado sua mão e que uma chama azul a envolvia. Assustada, Pacifica olhou para o rosto do garoto e viu um sorriso extremamente sádico em seus lábios, seus olhos estavam cobertos por chamas azuis.
— Agora nós acabamos de selar um pacto. Se caso você mentir na sua resposta, ou me enganar de alguma forma, você se tornará minha serva e servirá a mim de corpo e alma.
— V-você me enganou! — Pacifica disse, sentindo sua mão queimar e arder devido à chama.
Dipper soltou a mão da menina e desapareceu com a chama que envolvia seu corpo. Enquanto Pacifica tentava entender o que havia acontecido, Dipper a observava com um ar de superioridade.
— Como você pode? E-eu não vou te enganar! Isso não era necessário.
— Desculpe, Pacifica. Eu precisava de uma garantia, já fui muito longe no meu plano. Não posso deixar que tudo vá por água abaixo por causa de uma garotinha mimada como você.
Quando Pacifica estava prestes a responder, um guarda entrou na sala escura.
— O salão está pronto, por favor, traga a ré para responder por seus crimes — disse o homem.
Dipper não disse uma palavra, agarrou Pacifica bruscamente pelo braço e a conduziu para fora da sala, derrubando Clucks de seu colo. A galinha começou a seguir Pacifica, porém o guarda entrou na frente da ave e a encarou profundamente.
— Sem animais. — Falou o homem.
— Tá tudo bem, Clucks. A mamãe já já volta para te buscar.
Quando Pacifica deixou a sala, uma visão surpreendente a aguardava, algo que jamais imaginara testemunhar em toda a sua vida. Diante dela se estendia uma cidade completamente tecnológica, com carros voadores e robôs percorrendo cada canto. Lamentavelmente, essa visão fugaz foi interrompida quando Dipper, acompanhado por um guarda, a conduziu até um salão de julgamento.
Dentro do salão, Pacifica se deparou com um cenário surreal. O local era banhado por uma luz enigmática que parecia emanar de todas as direções, embora nenhuma fonte de luz fosse visível. As paredes exibiam símbolos misteriosos, e as cadeiras permaneciam vazias, exceto por uma figura imponente sentada em um trono flutuante – um bebê gigante, com uma ampulheta desenhada na testa.
Dipper a levou até o centro da sala, onde um grande livro estava aberto em um púlpito. O bebê dirigiu um olhar furioso a Pacifica, fazendo-a tremer levemente. Após alguns momentos, Blendin e outras pessoas mascaradas surgiram e ocuparam as cadeiras vazias. Pacifica se encontrava incapaz de demonstrar qualquer reação, sentindo o olhar penetrante de todos os presentes.
— Pacifica Southeast, a humana do século vinte um, você está aqui para responder por suas infrações contra a linha do tempo — declarou o bebê com uma voz grave e imponente. — Suas ações causaram distorções significativas e desequilibraram a ordem temporal. Antes de explicar o que você fez, gostaria de dizer algo?
— Hmm, eu... sou... inocente? — respondeu a menina, sentindo-se nervosa e confusa.
Quando Dipper ouviu a resposta de Pacifica, cobriu o rosto envergonhado. Pacifica engoliu em seco, ciente da pressão que pairava sobre ela. Ela sabia que qualquer deslize poderia significar sua condenação.
— Certo. Já que não tem nada a dizer, narrarei os fatos: Você viajou com uma trena roubada, para a era Paleozóica, Carbonífera, Mesozóica e século quatorze — o bebê estendeu a mão e um holograma apareceu, mostrando vários dados do corpo de Pacifica — Além de claro, contrair diversas doenças nesse processo de viagem no tempo. Como por exemplo, Doentis agus, a doença que você contraiu ao nadar nas águas do oceano pantalássicona da era paleozóica. Ou até mesmo a própria peste bubônica, contraída após o contato com fezes infectadas.
Pacifica ficou em choque ao saber que tinha sido infectada por várias daquelas doenças enquanto viajava no tempo.
— Não se preocupe, todas as suas enfermidades foram tratadas graças ao seu tempo na sala escura.
— Espera, então eu fiquei sentada naquele lugar assustador, justamente para tratar minhas doenças?!
— Sim.
Pacifica pareceu muito mais aliviada e surpresa com aquela informação.
— Certo, acredito que você não tenha nada a favor de sua defesa, correto?
— Esper-
O bebê pegou um malhete e se preparou para proferir a sentença de Pacifica:
— Eu vos declaro culpad-
Antes que o bebê pudesse proferir o veredicto de Pacifica, Dipper se levantou abruptamente de sua cadeira. Ele irradiava confiança, como se tivesse acabado de resolver um intrincado enigma.
— Por favor, senhor Bebê do Tempo, eu lhe peço uma última defesa em favor de Pacifica.
O Bebê do Tempo ficou intrigado com alguém disposto a defender Pacifica e concedeu a oportunidade a Dipper.
— Defesa concedida. Você tem um minuto.
Dipper se levantou, ajustou seu terno e caminhou calmamente em direção a Blendin, emitindo uma aura ameaçadora que deixou todos perplexos.
— Você tem trinta segundos, senhor Gleeful — advertiu o Bebê do Tempo.
Pacifica estava ansiosa, tentando entender como Dipper pretendia tirá-la dessa situação.
— Senhor Blendin, eu lhe farei uma simples pergunta, sob juramento deste tribunal — declarou Dipper.
— Espera! Ele pode fazer isso? — questionou Blendin, olhando para o Bebê.
— Eu lhe concedo uma única pergunta, então use-a sabiamente — respondeu o Bebê, ainda mais intrigado que Pacifica.
— Certo, senhor Blendin Blandin. A ré Pacifica Southeast o roubou? — indagou Dipper.
— O-o q-quê? Claro que ela me roubou, ela estava com a minha t-trena, não é?! — gaguejando muito, repondeu Blendin aterrorizado com a astúcia de Dipper.
Dipper permaneceu em silêncio, encarando Blendin de maneira intimidadora. O nervosismo do homem era palpável, com sua respiração ofegante e transpiração. O Bebê do Tempo notou a ansiedade de Blendin e decidiu verificar se suas palavras eram verdadeiras. Um raio verde emitido da ampulheta desenhada na testa do Bebê, atingiu a cabeça de Blendin. Os dois pareciam ter estabelecido uma ligação telepática por meio desse raio. Após alguns segundos, o raio desapareceu completamente, e o Bebê do Tempo não parecia nada satisfeito com o resultado.
— Senhor Blendin, você mentiu sob juramento deste tribunal! — exclamou o Bebê, seus olhos emitindo uma luz vermelha. — A ré Pacifica Southeast não lhe roubou; ela acabou pegando a trena devido a um descuido seu e, sem compreender plenamente o que fazia, viajou no tempo.
— O-o-o quê? E-eu juro que ela me roubou! Ela é uma anomalia! — Blendin protestou.
— Guardas, prendam-no! — ordenou o Bebê.
Dois guardas apareceram e arrastaram Blendin para fora da sala enquanto ele se debatia e proferia ameaças amedrontadoras a Pacifica.
— Eu vou me vingar de você! Farei seus pais nunca se conhecerem, ou até pior! Farei você nunca esquecer o meu nome, estrela cadente!
Com a ameaça de Blendin pairando no ar, todos na sala ficaram chocados com o desfecho do julgamento. O Bebê do Tempo olhou para Pacifica, demonstrando um certo arrependimento.
— Bom, eu lhe devo desculpas por quase te sentenciar. Posso fazer algo para me redimir?
— Hmm, posso pedir qualquer coisa? — indagou Pacifica.
— Sim, QUALQUER coisa.
— Hehe — Pacifica riu para si mesma.
Depois de um tempo, Pacifica e Dipper saíram juntos do salão. A garota segurava um grande osso de dinossauro nas mãos e parecia muito feliz com isso.
— Você sabe que poderia ter pedido qualquer outra coisa, né? Fama, riqueza ou até mesmo poder... — observou Dipper.
— Nah, para que eu iria querer isso.
— Tanto faz... acho que é hora de honrarmos nosso acordo, não é?
Pacifica parou seus passos, já se preparando mentalmente para o que poderia vir. Dipper também cessou seus passos, e fica em frente a Pacifica.
— Minha pergunta vai ser simples e rápida: O diário número três está em posse do Gideon?
— Diário três? Nunca ouvi falar sobre isso... — Pacifica falou colocando a mão no queixo tentando lembrar de algo. — Ah! Você diz aquele livro estranho que tem várias coisas sobre monstros?
— Exato, então está com ele... Ótimo, eu só precisava saber isso.
Dipper estendeu uma de suas mãos na direção de Pacifica.
— Hora de voltar para seu tempo.
— Espera, sua pergunta era só isso?! Você fez todo aquele show só por causa disso?
— Eu não espero que uma garota infradotada como você, entenda meus planos.
— Sua sorte é que eu não sei o que significa essa palavra!
Dipper esboçou um pequeno sorriso e começou a fazer Pacifica desaparecer.
— Antes de te mandar... Desculpe por ter queimado sua mão naquela hora, não era para acontecer isso.
Antes mesmo que Pacifica pudesse falar algo, Dipper a fez desaparecer de sua frente.
— Então essa foi a história de como eu consegui este belo osso! — disse Pacifica mostrando o seu gigante osso de dinossauro.
— Espera, você não me falou o que aconteceu com a Clucks.
— Ata, além de pedir esse osso de dinossauro, eu também pedi que o Bebê do Tempo desse um dia de spa para ela! — Pacifica olhou para os lados. — Logo, logo ela chega aqui.
Gideon pareceu aliviado por Clucks estar bem, mas ele olhou para Pacifica ainda meio preocupado.
— Droga, agora o Dipper sabe que eu estou com o diário.
— Mas quem se importa com isso? É só um livro bobo.
— Você não está entendo Pacifica, existem três desses livros. Se caso os Gleeful conseguirem os três, eles terão poder quase que ilimitado!
— Como você sabe disso, Gideon?
— Está na hora de te contar o que aconteceu comigo na mansão da Mabel...
Gideon respirou fundo e começou a contar tudo que aconteceu com ele na mansão.
Pacífica aproveitou para comer e beber algo enquanto ouvia o garoto, permanecendo assim em silêncio até ele terminar de explicar.
— Meu Deus, Gideon. Isso é horrível! Eu não sabia que você tinha passado por tudo isso hoje.
— Não precisa se preocupar comigo, eu estou bem — Gideon sorriu gentilmente. — Você precisa descansar, passou por muita coisa.
— Mas...
— Sem "mas"! Vá para sua casa descansar, amanhã eu passo lá, e pensamos no que podemos fazer.
— Ok... Até mais, Gideon.
— Até amanhã.
Quando Pacifica saiu do quarto do menino, ele rapidamente foi até seu armário e pega o diário número três.
— Vou ter que pensar no que eu vou fazer contigo... — Gideon falou olhando para o diário.
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