Chapter Text
César caminhava com passos lentos e hesitantes pelas ruas mal iluminadas em direção ao Suvaco Seco. Arthur o convidou esperando ser uma noite descontraída, mas, à medida que se aproximava do bar, a incerteza consumia César. Talvez tivesse cometido um erro ao aceitar – talvez pudesse inventar uma desculpa, dizer que esqueceu algo em seu apartamento e se perder no caminho.
Ele suspirou, esfregando as mãos repetidamente, na tentativa de aquecê-las com o atrito. No entanto, o esforço pouco ajudava; o frio persistia. Ele revirou os olhos, frustrado. Frio. Detestava não apenas a palavra, mas tudo o que ela trazia: o aperto no peito, a confusão na mente, a falta de ar. Eram sentimentos que o perseguia. César os odiava profundamente, mas não conseguia escapar.
Patético.
Era assim que ele se via
Um homem preso em suas próprias fraquezas.
Eventualmente ele chegou ao bar e deixou seus pensamentos se esvaírem. O lugar estava relativamente cheio. Os olhos de César vagaram pelo ambiente, procurando Arthur. Não demorou a encontrá-lo exatamente no palco, tocando com o resto da banda. Um pequeno sorriso brotou em seus lábios, e ele decidiu ir até o balcão, onde sabia que encontraria Ivete.
Ao se aproximar, avistou Ivete ajeitando as bebidas e copos. Atrás dela, estava um homem alto de bigode cheio, que César reconheceu como Balu — o namorado dela.
— E aí, Ivete? — cumprimentou César em tom alto, tentando fazer com que ela o ouvisse em meio ao barulho das conversas e da música no bar.
Ivete se virou em sua direção, abrindo um sorriso caloroso.
— Bah, guri! Quanto tempo que não te vejo! — ela contornou o balcão, indo ao encontro dele e o abraçando calorosamente.
César retribuiu o abraço de forma um pouco desajeitada, mas apreciando o gesto. Ivete sempre tinha essa energia acolhedora que fazia seu peito se aquecer, como uma brisa suave em meio ao caos.
— Quanto tempo, violetinha! — exclamou Balu, sua voz alta demais para o gosto de César, como sempre. O homem lhe deu tapas no ombro que, para ele, deveria ser amigável, mas que causou uma leve dor em César.
— Oi, Balu — respondeu César, com um aceno rápido, já acostumado com a personalidade efusiva do homem.
Como de costume, Ivete logo começou a interrogá-lo, perguntando sobre a rotina, alimentação e cuidados pessoais. César tentou mentir, dizendo que estava tudo bem, mas ela o repreendeu rapidamente, especialmente ao notar suas olheiras profundas e a pele ainda mais pálida do que da última vez que se viram.
— Tu tá te cuidando ou não, guri? Olha essas olheiras! — disse ela, cruzando os braços em um gesto de reprovação.
Ivete era como uma mãe preocupada com seu filho descuidado – e César se sentia envergonhado como um filho descuidado.
A conversa entre eles, no entanto, não durou muito. Ivete precisava voltar ao trabalho. César pediu uma bebida e se acomodou no balcão, tentando relaxar até que Thiago chegasse ou Arthur pudesse se aproximar.
Ele girava o copo nas mãos, jogando qualquer coisa no celular para passar o tempo. O lugar estava cheio, a música alta, as conversas se misturando em um zumbido constante. Ele tomou um gole da bebida, tentando se convencer de que poderia relaxar, mas a ansiedade borbulhava em seu amago.
Por que ele aceitou o convite de Arthur? Ele sabia que bares não eram o seu lugar, e toda essa gente... Ele respirou fundo, tentando afastar os pensamentos intrusivos. Estava no bar de Ivete, escutando Arthur tocar enquanto esperava o Thiago – sua pequena família. Tudo ficaria bem.
De repente, uma voz bem conhecida o tirou dos pensamentos:
— E aí, Césinha, como você tá, meu querido? — a voz carismática e inconfundível de Thiago ecoou ao seu lado.
César se virou, um sorriso involuntário surgindo em seu rosto.
— Opa, Thiagão, tudo certo?
— Rapaz, quanto tempo, hein? — Thiago soltou uma risada descontraída, aproximando-se de César e bagunçando seus fios negros com a mão, em um gesto que o fez revirar os olhos e reclamar.
Thiago puxou um banco e se sentou ao lado dele, completamente à vontade. Antes que tivesse a chance de pedir algo, Ivete reapareceu, colocando uma jarra branca de cerâmica com inscrições japonesas diante dele, acompanhada de um pequeno copo igualmente branco.
Thiago abriu um sorriso ao ver o que era e pegou o copo assim que Ivete serviu.
— Boa noite, Ivete. — ele ergueu o copo em cumprimento e tomou um gole, sem beber o conteúdo de uma vez, como César já ouvira dizer que era a forma correta de apreciar saquê.
— Boa noite, guri. — Ivete apoiou o cotovelo no balcão, repousando o queixo sobre a mão e então sorrindo. — Faz tempo que não te vejo também.
César observava a interação entre os dois, sentindo-se um pouco mais tranquilo na presença de Thiago. Era como se a energia descontraída dele equilibrasse o caos em sua mente. A sensação de familiaridade e pertencimento, embora rara para César, fazia toda a diferença naquele momento.
Ele tentou se manter firme.
Observava Arthur no palco, Thiago bebendo o saquê enquanto conversava com Balu, Ivete sorrindo para eles enquanto servia outras pessoas; usava-os como âncora para não se perder. Contudo, o barulho era alto, as pessoas falavam demais e então algo aconteceu....
Um homem bêbado tropeçou em sua direção, os olhos turvos e o sorriso debochado.
— Ei, cara, que cicatriz feionha cê tem em. Como cê ganhou ela? — zombou o homem, a voz arrastada pelo álcool.
César sentiu seu corpo congelar. Ele tentou ignorar, mas as palavras pareciam pesar ainda mais sobre ele do que os olhares ao redor.
Thiago se levantou no instante em que ouviu o homem falar. Sua expressão endureceu, e os punhos se fecharam com força. César percebeu imediatamente: ele estava furioso. Thiago conhecia bem as inseguranças de César sobre a cicatriz, o peso emocional que ela carregava e todo o esforço que ele fazia para superar aquilo.
— Qual é a tua, irmão? — Thiago disparou, empurrando o homem bêbado para trás.
Ivete também percebeu o que estava acontecendo e se aproximou, tentando acalmar os ânimos, mas a confusão já estava instaurada.
César não esperou para ver como aquilo iria terminar. Ele sentiu o pânico crescendo, cada vez mais sufocante, como um nó apertando sua garganta e saiu correndo do bar, ignorando os chamados de Thiago e Ivete.
Na rua, o ar frio da noite golpeou seu rosto, mas ele mal percebeu. Sua respiração estava descompassada, seus olhos marejados, e suas pernas fraquejando. Ele se apoiou na parede mais próxima. Tentava recuperar o fôlego, mas a crise de pânico o envolveu como uma maré incontrolável.
O peito apertado, a mente um caos.
"Respira. Apenas respira." As palavras ecoavam em sua mente, vazias, sem efeito. Ele fechou os olhos e tentou se concentrar no exercício que sua psicóloga, Laila, lhe ensinara. Sem sucesso.
Foi então que um som baixo, quase inaudível, de soluços interrompeu sua luta interna. Lentamente, ele ergueu a cabeça e viu, a poucos metros de distância, alguém parado.
Era o mesmo jovem que ele havia visto saindo do elevador mais cedo. Mas agora, César enxergava além dos traços asiáticos em seu rosto. Seu nariz estava vermelho e inchado, os olhos brilhavam com lágrimas recentes, e seu cabelo escuro estava desordenado, como se ele tivesse puxado os fios em desespero. Um celular tremia em sua mão.
Os olhares se encontraram, e por um instante, o tempo pareceu parar. Eles compartilhavam a mesma expressão — um reflexo de dor, angústia e vulnerabilidade.
[...]
O silêncio pairava no pequeno apartamento de Joui como uma sombra densa e sufocante. Ele estava sentado na beira da cama, a medalha reluzente entre os dedos, girando-a distraidamente. A vitória, que deveria ser um momento de celebração, parecia uma pedra presa ao seu peito, puxando-o para baixo. Ele fechou os olhos, tentando ignorar a dor no peito – sem sucesso, como sempre.
Em um impulso, pegou o telefone ao lado e buscou o nome da irmã na lista de contatos. Eles sempre tiveram uma boa relação – pelo menos era isso que ele pensava. Talvez ela pudesse dizer algo que desfizesse a sensação de estar tão... só. De ser insuficiente.
Ligou. O som do toque ecoou em seus ouvidos. Uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu.
O coração de Joui afundou ainda mais. Ele deixou o celular escorregar das mãos, caindo no colchão. Um suspiro pesado escapou de seus lábios enquanto ele se jogava de costas, olhando para o teto. A medalha ainda estava em sua mão, fria e pesada. Será que vale a pena continuar? Será que todo o esforço, toda a pressão, faziam sentido? Será que não seria melhor ele...
Antes que pudesse afundar mais nos próprios pensamentos, seu celular vibrou. Joui piscou algumas vezes antes de ver o nome no visor: Erin. Ele respirou fundo e atendeu.
— Ei, campeão! — a voz animada dela encheu o ambiente. — Parabéns pela vitória, Joui! Eu sabia que você ia conseguir!
— Obrigado, Erin — respondeu, sua voz baixa, quase apática.
— Então, o que acha de sairmos para comemorar? Você merece! — sugeriu ela com entusiasmo.
— Não precisa, de verdade. Estou bem. — ele tentou soar convincente, mas sabia que não era o bastante para enganar Erin.
Do outro lado da linha, houve um silêncio pesado. Depois, a voz dela voltou, mais séria:
— Seus pais fizeram algo?
Joui ficou mudo. Não era preciso dizer nada; o silêncio era a resposta que Erin já esperava.
— Entendi... Bom, então nós vamos sair sim. E sabe por quê? Porque você não precisa pensar nesses seus pais de merda hoje.
— Erin, sério, eu não...
— Sem desculpas, Joui. Se arruma. Vamos para o Suvaco Seco. — ela anunciou como se não houvesse espaço para discussão.
— O quê? Suvaco Seco?
— É o nome do bar. Não questione. É um lugar ótimo. O Fernando vai tocar hoje com a banda de lá. Vai ser divertido, confia em mim.
— Erin...
— Não quero ouvir essa história de "meu corpo é um templo" agora. É uma noite para você esquecer tudo. Vai, se arruma. Passo aí em 20 minutos.
Joui suspirou, derrotado. Sabia que não havia como recusar Erin quando ela colocava algo na cabeça. Com relutância, levantou-se e foi em direção ao banheiro para se preparar para uma noite animada com a Equipe Brasa – apelido do grupo de Erin.
O bar, como o nome sugeria, era peculiar. O letreiro iluminado exibia um nome que Joui não sabia o que pensar a respeito. Erin estacionou o carro e desceu animada, puxando Joui pelo braço.
Lá dentro, o ambiente era barulhento e cheio de energia. O cheiro de cerveja e comida de bar pairava no ar, enquanto a banda no palco aquecia o público com um rock animado. Joui reconheceu Fernando no teclado. Era estranho vê-lo ali, no meio de uma banda de rock, com uma camisa preta decorada com pequenos detalhes cor-de-rosa. Joui não conseguiu evitar um pequeno sorriso.
— Vamos nos sentar! — Erin disse, puxando Joui até uma mesa onde Luciano já estava.
Luciano já segurava uma cerveja observando com afinco o marido no palco, enquanto Tristan jogava sinuca com outras pessoas do bar. Erin pediu uma rodada de drinks, mas Joui recusou educadamente, mantendo-se com água.
Conforme a noite avançava, Joui conversava superficialmente com os amigos, mas seus pensamentos estavam em outro lugar. Até que seu celular vibrou no bolso, interrompendo o turbilhão que tomava conta de sua mente. Ele olhou para os amigos, que estavam completamente imersos em sua própria diversão, e, ao ver que ninguém o notava, decidiu sair do bar.
Ele olhou o celular, vendo o nome de seu pai na tela. Hesitou por um momento, já sentindo o peso daquilo que estava prestes a acontecer. Com uma respiração pesada, ele atendeu.
— Alô? — sua voz estava mais baixa do que queria, quase inaudível.
— Joui. — a voz do pai dele foi como uma lâmina afiada, sem emoção, direta.
O coração de Joui se apertou. Ele sabia o que viria. Sabia como a conversa seria. Já estava acostumado com isso.
— Eu... — ele engoliu seco, tentando se manter firme. — A mãe te contou?
— Contou. Também vi nas notícias. — a resposta foi seca, sem espaço para sentimentos.
Joui apertou o celular, tentando controlar a ansiedade que começava a crescer em seu peito.
— E o que o senhor achou...? — a pergunta escapou, carregada de uma mistura de curiosidade e desespero, como se ainda esperasse algum tipo de aprovação. Mas ele sabia que isso era em vão.
— O que eu achei? — a voz do pai foi agora mais impessoal, quase desdenhosa. — Isso não importa. O que importa é o que você vai fazer agora. É sua primeira medalha nacional, Joui. Você ainda tem muito o que fazer. Não deve se dar por satisfeito.
As palavras caíram pesadas sobre ele. Ele não conseguiu evitar o vazio que invadiu seu peito, como se todo o esforço, toda a luta, fossem desconsiderados pela frieza do pai.
— Eu sei, pai... — ele murmurou, mais para si mesmo do que para o pai.
Do outro lado da linha, o pai permaneceu em silêncio por um tempo, antes dele voltar a falar, em um tom que beirava a frieza:
— Então não tenho mais nada a dizer. Você quis ir para o Brasil fazer ginástica e nós aceitamos. Agora se esforce e seja melhor, não faça corpo mole apenas por ter ganhado uma medalha.
O celular foi desligado antes que Joui pudesse responder, e o silêncio o envolveu com ainda mais força. Ele olhou para a tela do celular, como se esperasse algo que nunca viria. Sentiu o peso de tudo caindo sobre seus ombros, nada havia mudado.
Ele foi, mais uma vez, insuficiente.
Então, sem conseguir mais se controlar, ele deixou as lágrimas caírem. A raiva subiu rapidamente, mas logo se transformou em uma sensação de vazio e ele se encontrou soluçando sozinho na rua, a cabeça enterrada nas mãos. Ele não sabia mais o que fazer para ser reconhecido.
Ele sentiu falta da irmã, da pessoa que costumava ser sua base, quem costumava o apoiar e incentivar, mas ela não estava por perto. A noite estava fria, e Joui estava sozinho.
Mas, antes que Joui pudesse afundar ainda mais na sensação de impotência, um som quebrou o silêncio. Uma respiração ofegante, descompassada, como se alguém estivesse lutando para respirar. Joui olhou instintivamente para o lado, os olhos ainda embaçados pelas lágrimas.
Lá, encostado em uma parede, estava o mesmo homem que ele havia visto mais cedo, no elevador. Ele parecia estar em pânico, com os olhos lacrimejando e os lábios entreabertos, como se tentasse desesperadamente puxar ar para os pulmões.
Os olhares se encontraram, e por um instante, o tempo pareceu parar...
