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If I loved you less

Chapter 4

Notes:

I've started this chapter right after Stefanos' loss at Roland Garros (and then Dasha's and Andrey's), but then so much happened since (like the start of grass season bringing its dose of drama already) that I took a bit longer to write and the chapter, well, became longer too. Hope you enjoy!

Chapter Text

- Você veio. 

Lá estavam eles mais uma vez, frente a frente, sob um luar menos iluminado, mas que cumpria seu papel de fazê-los ao menos distinguir os contornos um do outro. 

- Sim. - respondeu Daniil. - Sozinho e desarmado. 

Fez-se silêncio, e Daniil compreendeu que novamente havia sido tolo de vir tão rápido ao encontro de Stefanos sem que suas intenções estivessem claras. Poderia ser uma armadilha tão fácil e tão comprometedora! Ele não havia percebido como confiara tão cegamente num risco, mas era tarde demais para dar meia-volta. Fosse o que fosse, agora estava certo de que encararia aquele homem com a mesma confiança destruidora que demonstrara mais cedo. E, uma vez que se percebeu nessa posição, indagou: 

- Como você teve coragem de aparecer no aniversário de minha amiga? 

- Recebi o convite. Seria extremamente deselegante não aparecer. 

Daniil revirou os olhos, mas sem deixar sua paciência ser testada. Não, não nessa noite: 

- E o que significa isso, agora? A derrota no jogo não foi o suficiente para você? 

Stefanos não respondeu, então Daniil sentiu-se no direito de prosseguir:

- Já tive minha revanche, e Andrei também. Do que mais você precisa?

- A revanche de Andrei não me interessa.

- Pois deveria interessar, já que você não pediu desculpas a ele até agora. - Encaravam-se. Se no baile de Anna os olhares eram sempre sorrateiros, aqui se tornavam ininterruptos e diretos, ambos caçadores prestes a dar o bote. 

- Não é com isso que você se importa. - havia um desprezo e um ar de certeza na voz de Stefanos que fazia seu sangue correr mais rápido. 

- Está enganado, importo-me muito com meus amigos. Afaste-se deles e de mim, Tsitsipas. 

- É isso que você quer? Que eu me afaste? - Stefanos fez um estalo de escárnio com a língua. - Olhando-nos aqui parece-me o contrário, já que você veio correndo ao meu encontro a um mero bilhetinho que te mandei! 

O maior dom de Daniil talvez sempre tenha sido a teimosia; não fosse por ela, ele teria se desmontado nesse instante, abaixado a cabeça e balbuciado "bem... realmente..." como um cachorrinho. Por mais que a constatação pudesse deixá-lo sem jeito, sua língua estava preparada:

- Sim, para esclarecer o necessário uma última vez. 

Tsitsipas deu uma risada sonora, jogando a cabeça para trás:

- Ah, sim, é claro! Ora, Daniil - e aqui ele deu um passo para a frente, em sua direção. Os pelos da nuca de Danya se eriçaram todos apesar da noite sem vento e da teatralidade ridícula do gesto todo.  - Quem veio à minha mesa de carteado hoje foi você, por exemplo.

- Era a única que estava vaga.

- Quem me chamou para um duelo, em primeiro lugar, foi você. 

- Porque é o que cavalheiros fazem quando são ofendidos, e acho que está claro que você nos ofendeu profundamente. 

- Seu amigo não pareceu tão ofendido assim. Não entendo por que você insiste em metê-lo em nossa situação... - Ele chegava cada vez mais perto. - Começo a desconfiar que é só uma desculpa sua para não admitir que...

- Meu amigo sofre em silêncio, mas isso não é do meu feitio. - interrompeu Daniil prontamente. 

- Então por quê eu te ofendo tanto?

Danya até tinha respostas para essa pergunta feita em tom de desafio, mas não julgava sábio compartilhá-las assim, tão facilmente. Era perigoso admitir em voz alta que algo em Stefanos lhe tirava o chão, o desordenava, o arrastava a uma inquietação que o obrigava a se mover para frente. Tsitsipas o fazia sentir-se miserável e impotente perante o próprio coração, e ele jamais aceitaria tamanho desconforto de braços cruzados.

- Você é um incômodo. - disse por fim, seco e se recompondo. Estavam próximos demais, ao ponto que conseguia sentir plenamente sua altura um pouquinho mais elevada; olhava para ele de cima. - Só isso. 

Daniil percebeu que Stefanos respirava pesadamente, e conteve a vontade de sorrir para si mesmo, triunfante. 

- O incômodo é tanto assim? - a pergunta era feita quase aos sussurros, sem tom de ofensa. Parecia até mesmo que Stefanos ansiava por ouvir uma confirmação tão brutal. Daniil inclinou-se em sua direção, apoiando uma das mãos no ombro do rapaz, e respondeu-lhe com os lábios quase colados ao seu ouvido, e da maneira mais fria que encontrou em seu âmago: 

- Você não faz ideia, Stefanos, de como sua presença me irrita, de como você é covarde. 

A respiração de Tsitsipas era apressada e funda, e ele não se atrevia a debater.

- Você nunca tem o que dizer, não? - continuou Danya, e sua mão se fechava mais e mais naquele ombro. - Seu silêncio só prova como estou certo. Você não tem tido coragem de me encarar nos bailes, nas mesas... Você sequer consegue olhar para mim agora.

Stefanos, a bem da verdade, não olhava para lugar algum, mantendo seus olhos fechados com certa obediência. E, como se não lhe coubesse mais nenhuma reação, virou-se, farto de ouvir tantas acusações irritantes, e beijou Danya na boca, ao passo que este não se moveu. Daniil não rejeitava o gesto, mas também não demonstrava o desespero e a vontade como da outra vez, como seu oponente. Ele estava perfeitamente no controle da situação - ou ao menos era o que aparentava, por mais que, por dentro, estivesse uma confusão que desejava atirar-se no mato com o homem envolvido em seus braços. Permitiu-se apenas a abrir um pouco mais os lábios e a escorregar a mão pelo ombro de Tsitsipas. 

Stefanos finalmente abriu os olhos, parecendo um tanto perdido com aquela reação no mínimo indiferente. Franzia o cenho como se indagasse "isso é tudo?" em muda indignação. Foi ao vê-lo dessa maneira que Daniil percebeu que, pelo menos nessa noite, havia vencido. 

Quando retornou à sua casa, Danya teve que perambular pelo próprio quarto por uns longos minutos antes de conseguir deitar-se. O sono não veio de modo algum. 

 

Pode-se dizer que a festa de aniversário de Anna realmente causou efeitos devastadores em grande parte dos envolvidos (ao menos dos que se trata essa história); a começar pela própria aniversariante, que dançara e bebera com a maioria dos convidados, jogara cartas e gastara um dinheiro que definitivamente não deveria ter sido gasto com esse tipo de coisa. Teve seus dedinhos das mãos beijados por uma infinidade de lábios, ouviu confissões de amor sussurradas ao seu ouvido durante um rodopio e outro, piscou para quem não deveria e não se entusiasmou com os pretendentes ideais. Nossa Anya teve sorte de acordar com no máximo uma dor de cabeça no dia seguinte, e uma quantidade expressiva de presentes enviados após a festa, acompanhados de flores e bilhetinhos (dos quais ela reconhecia a caligrafia de alguns, de outros conseguia deduzir a autoria, e a maioria ela não fazia ideia de quem poderia ter mandado). 

A experiência de sua amiga Dasha fora quase transcendental; ela sentira que finalmente havia nascido neste mundo. Avistar a senhorita Zabiiako fora sua completa perdição; Dasha era como um brinquedo velho que finalmente voltava a andar após mãos muito habilidosas terem lhe dado corda. Tudo em Zabiiako era de uma graciosidade que fazia seu rosto esquentar, e as feições da moça ficaram irremediavelmente gravadas em seu cérebro desde o momento em que a vira dançar - era sem dúvidas a melhor dançarina de todo o baile, o que contrastava com sua personalidade mais quieta apesar de sua figura ser chamativa, tão belamente chamativa! Dasha passou a noite toda à sua espreita, sem dançar e sem jogar bem, curiosa e um pouco assustada com aquele sentimento novo e tão expressivo, mas não demorou para se render completamente a ele assim que foi apresentada devidamente à Zabiiako. Deram-se as mãos, conversaram-se, fizeram rir uma a outra, e para Dasha o estrago (ou sua salvação, vai do leitor decidir) estava feito. 

A noite fora especialmente perturbadora para Andrei, que também sentira algo despertar dentro de si, mas nem de longe era como o sentimento terrivelmente gostoso que Dasha sentia. Esse algo que se acendera nele era confuso e desconfortável. Racionalmente era óbvio: chateava-se por desconfiar de Danya. Não lhe parecia certo, mas ao mesmo tempo ele se incomodava com a sensação de que o amigo escondia alguma informação que o transformara completamente. Será que isso era só ressentimento por não ter comparecido ao duelo? Ora, mas Andrei havia deixado bem claro que não iria e que achava inclusive uma péssima ideia! Fora muito categórico em sua desaprovação; Daniil era um homem adulto e plenamente capaz de fazer escolhas, se havia sido teimoso e impulsivo, ele não tinha nada a ver com isso. Mas e se Danya tivesse se machucado ou até mesmo morrido? Então ele não teria estado lá para ajudar seu amigo, impedi-lo, ou até mesmo dado um último adeus...

Quanto mais Andrei pensava, mais se arrependia de sua própria conduta. Não sabia se Daniil o havia perdoado de fato ou se ele era teimoso demais para admitir que sim, sentira-se abandonado pelo melhor amigo, e que estava magoado a tal ponto que a amizade entre os dois se encontrava numa situação irreversível. Andrei sentia pontadas doloridas de culpa, que pareciam piorar quando lembrava dos olhares estranhos que Daniil trocara com seu insuportável rival ao longo da noite e das informações embaralhadas que havia lhe passado. O que significava tudo aquilo? Será que Tsitsipas havia ameaçado Danya com alguma coisa assustadora que ele sequer conseguia imaginar? Será que ele o havia persuadido a fazer algo ruim em troca de sua vida? Tantas incertezas começaram a provocar uma angústia grande demais no rapaz, sem saber o que fazer com todas elas. 

Quanto ao próprio Daniil, bem, é até difícil de descrever. Ele saíra do segundo duelo triunfante, pensativo, lambendo os beiços. Como já dito, chegara em casa novamente desnorteado e insone, porém, com o passar das horas, acostumou-se à ideia de ver Stefanos tão de cima, e até mesmo admitiu para si mesmo (com uma risadinha ao espreguiçar-se) que havia adorado vê-lo tão desconcertado daquela maneira. Não entendia o motivo de Stefanos agir da maneira bizarra que agia, porque ele o provocava e o tratava com desdém apenas para puxá-lo para perto, mas no fundo sabia que isso pouco lhe importava. Logo tratou de desistir de entender o comportamento do outro homem, ainda que jurou continuar atento aos seus movimentos para saber como agir em seguida. O importante era que ele, Daniil, quem se sobressaíra dessa vez, era ele quem estava com as rédeas nas mãos; se pegava nos ombros de Stefanos com mais imposição e firmeza, se via que eram os outros olhos que lhe imploravam com impaciência, então sabia que havia tido sucesso. E nada deixava Daniil mais animado do que a sensação de estar à frente num jogo que lhe parecia perdido. 


Dasha encontrou Anna sentada no sofá de uma das salas ricamente adornadas dos Kalinsky, em meio a uma pilha de bilhetes e cartas, buquês e caixas de presentes. 

- Você demorou, Dasha! Pensei que tinha desistido de vir me ajudar... - apesar da reprimenda, Anya estava bem humorada. 

- Mirra estava falante hoje - respondeu Dasha, afastando uma caixa de bombons para sentar-se ao lado da amiga. Se Mirra estivera tagarela como de praxe, o mesmo não se podia dizer da própria Dasha, que mantivera-se calada a maior parte do tempo, sem prestar-lhe muita atenção. Em certo ponto, Mirra até havia lhe dado uma bronca: "o que aconteceu com você, quieta e sorrindo aí como uma boba distraída?".

- Foi uma pena que não a deixaram vir ao meu aniversário por conta da idade... - enquanto falava, Anna passou uma pilha de cartas e flores para o colo de Dasha, que pareceu sequer notar o novo volume sobre seu corpo. 

- Ela ficou arrasada, não tenha dúvidas! Hoje me pediu insistentemente para contar sobre todos os detalhes e fofocas da noite.

- Ah é? E o que contou a ela?

- Não tive muito o que contar, na verdade. Falei que Danya apareceu e comentou sobre a confusão toda com o tal do grego, e de resto...

- De resto você ficou atrás de Zabiiako a noite inteira! 

Dasha enrubesceu e sorriu-lhe:

- Como você teve tempo de notar isso?

- Ah, minha querida, meus olhos estão bem espalhados por aí! - Anya lançou-lhe uma piscadela, aproveitando-se para mudar de assunto. - Está vendo tudo isso que ganhei? Sua função é me ajudar a desvendar quem são meus admiradores, não consigo reconhecer todos. 

Dasha não reclamou, mas não demonstrou muito amor pela tarefa. Se nem Anna, que era a aniversariante, conseguia identificá-los, parecia-lhe muito improvável que ela conseguisse! Porém não era ruim manter as mãos e os olhos ocupados enquanto conversavam; sentia-se envergonhada como uma adolescente, e também era melhor desviar suas atenções para outra coisa que não Zabiiako antes que se tornasse uma completa inútil. Dasha, então, tentou se concentrar nas cartinhas de Anna, que sequer parecia estar tão curiosa assim. Foi lendo uns versinhos com rimas sofríveis enviados por algum pretendente metido a poeta (a quem desejamos que siga outra vocação, para seu próprio bem) que Dasha comentou casualmente:

- Não deixe Andrei saber desses seus olhos espalhados... Ele com certeza vai querer se aproveitar deles. 

- O que quer dizer? - Anya desistira de ler as declarações e estava concentrada em passar um delicado buquezinho de peônias rosadas de uma mão para outra. 

- Ah, ele está esquisito... Desde o evento todo do duelo, ele insiste que Danya não está normal, não sabe dizer o motivo e isso o incomoda profundamente. 

- Não acho surpreendente um pouco de anormalidade depois de uma experiência dessas.

- Foi exatamente o que eu disse a ele, mas Andriusha não está convencido. Passou a noite observando Danya. 

Só então Anya voltou o olhar das peônias para a amiga, e Dasha podia jurar que viu Anna salivar. 

- Oh! Será que Andriusha... Será que ele está apaixonado? - Anya deu uma risada animada, quase aos gritinhos, com uma possibilidade tão inacreditável e tão irresistível. Dois amigos de infância, tão próximos, uma paixão secreta e reprimida num pobre coração tão sensível, ah, que delícia! Dasha, por sua vez, deu de ombros, pouco impressionada:

- Quem sabe? De qualquer modo, estou achando um pouco obsessivo demais. Não gosto disso, não acho que seja bom para nenhum dos dois, especialmente para Andrei. 

- Ele não deve estar muito diferente de você em relação a Zabiiako... 

Dasha respondeu a provocação com um suspiro:

- Se eu estivesse obcecada como você acha, com certeza saberia pelo menos um pouco mais a respeito dela agora e conseguiria ter uma ou outra noite de sono tranquilo. Nem sei se algum dia a verei novamente...

Sem ter mais o que acrescentar, voltaram às suas respectivas tarefas: Dasha revirando desatenta os bilhetes anônimos e pegando para si um bombom da caixa que pusera de lado, e Anya admirando com muito gosto as flores que recebera, sem se importar com a identidade de quem as tinha enviado. Perfume e beleza eram elementos que geralmente estimulavam o cérebro de Anna a pensar com mais afinco, especialmente quando uma situação como essas lhe cruzava a existência. Os suspiros melancolicamente apaixonados de Dasha também eram um catalizador; jamais havia visto sua amiga assim, e portanto era digna de toda a sua atenção e esforço que pudesse lhe oferecer! 

- Tive uma ideia! - disse Anya subitamente com o maravilhamento de quem descobre o fogo. - Convidarei sua Natalia para passar uma tarde agradável conosco. Assim você terá como conversar com ela com a devida atenção e sem a interferência de músicos e outros convidados. 

O rosto de Dasha iluminou-se todo:

- Faria isso por mim, Anya? Mas será que ela não vai estranhar um convite assim, de repente?...

- Tenho certeza que não! Tive a oportunidade de interagir o suficiente com ela durante a festa para considerá-la gentil e amigável, apesar de bastante tímida.

- Ela é mesmo tímida como uma florzinha... - era mesmo surpreendente ver Dasha toda corada e lançando ao ar esse tipo de asneira sem qualquer constrangimento, o que só deixava Anna mais animada:

- Direi que reunirei uns amigos para jogar cartas e tomar chá, uma coisinha nada demais, mas deve bastar. Chamarei Danya e Andriusha...

- Ah, eu sabia! - Dasha arremessou o embrulho do bombom na amiga, que desviou-se com a mesma destreza com que havia pensado em tudo. - Você não quer me ajudar, quer só saber dessa paixão que você acabou de meter na cabeça que existe! 

- Uma coisa não exclui a outra, querida. Se você está preocupada com Andrei, é melhor observarmos ele de perto, não acha? E assim também não fico sozinha e entediada entre vocês pombinhas... 

Dasha revirou os olhos sem se atrever a discordar e botar em risco sua oportunidade de ver Zabiiako novamente. 

Fez-se uns segundos de silêncio até que Anna resolveu interrompê-los, a mente a vapor:

- Acha que seria crueldade convidar Tchernishkova?

- Quem?

- Tchernishkova, a moça com quem Danya dançou uma ou duas vezes. 

- Danya dançou duas vezes com a mesma pessoa?! Não acredito que não vi isso acontecer! 

- Sim, foi um tanto chocante! Pareceu-me que se deram bem e sinto-me de algum modo responsável por aproximá-los ainda mais se for o caso, mas justamente por isso tenho medo de ferir o coração de Andriusha...

- Bem, - começou Dasha, pensativa e mais investida em todo o plano do que gostaria de admitir. Anya estava certa, por acaso era possível resistir a um enrosco dessa magnitude? - Esse encontro pode nos servir de teste. Veremos como Andrei reage para tirarmos conclusões, e a partir daí, pensamos em como agir. 

Anya assentiu com a cabeça, satisfeitíssima por matar três coelhos numa única cajadada. 

- Quando foi que você virou casamenteira desse jeito, Anya? - indagou Dasha, incrédula. 

- Acho que quando terminei de ler todos os livros dessa casa, minha querida. Enquanto não tenho mais o que fazer, pelo jeito é o que me resta de diversão...

 

Os convitinhos para a tarde agradável na propriedade dos Kalinsky foram devidamente enviados e aceitos, e na data marcada todos os citados na conversa acima apareceram (com exceção da pobre senhorita Andreeva, que se ofendeu bastante quando soube que havia sido excluída da ocasião, mas Anya julgou-a jovem demais para participar daquela rede complexa de relações e, para se redimir, enviou-lhe uma cesta de bolinhos com um cartão escrito Desculpe! em sua letra vermelha). 

As horas se passaram com muita tranquilidade, ao menos se desconsiderarmos o que se passava dentro de cada um. Quem entrasse na sala e visse aqueles jovens reunidos tomando chá, conversando às risadinhas polidas e jogando jogos com parcimônia, julgaria a cena como uma pintura de bom gosto, sem sequer imaginar que Dasha, por exemplo, estava completamente incapaz de formular uma frase coerente perto de Zabiiako que, por sua vez, olhava para ela de olhos arregalados e sem muitas respostas, apesar de sorrir-lhe o tempo todo, achando graça de suas bochechas coradas e de suas tentativas falhas de comunicação. Andrei era outro que permanecia de olhos arregalados, porém sem tantos sorrisos, mais calado do que o normal. Anya grudou-se a ele assim que o rapaz pusera os pés em sua sala de estar, tanto para observá-lo minuciosamente quanto para não se meter no caminho dos promissores casais. Para sua frustração, porém, foi impossível concluir qualquer coisa a respeito do amigo, uma vez que Andrei parecia apenas tenso em estar ali e respondia a todas as suas tentativas de conversa, até as mais despretensiosas, com "sim", "não", "não sei" e "passe-me o chá, por favor?", sem desviar-se das cartas na mão nem por um segundo. 

Daniil e Tchernishkova foram o caso de maior sucesso do dia, pode-se dizer. Assim que se depararam no corredor de entrada, pareciam que estavam ambos diante de uma grata surpresa. Trocaram saudações amistosas, conversaram com naturalidade. Em dado momento sentaram-se diante de um tabuleiro de xadrez, e ali permaneceram por um tempo, à parte do resto do grupo e sem se importarem com sua voluntária exclusão, entretidos que estavam com seu jogo particular. Cada peça movida no tabuleiro parecia mover algo também dentro de Danya, que às vezes pegava-se mais atento ao rosto da dama de carne e osso à sua frente do que à de madeira logo abaixo, condenada entre um cavalo e um bispo. Acabaram jogando duas partidas longas, com uma vitória para cada lado. Até hoje, quando pensa nessa tarde, Daniil se pergunta se as partidas foram longas por serem ambos enxadristas habilidosos, ou se por temerem o derradeiro xeque-mate do momento entre os dois. Na dúvida, ele gosta de acreditar que é as duas coisas. 

Notes:

I had fun writing this, and hope you have fun reading it too :) Muito obrigada!

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