Actions

Work Header

Diamantes de café

Chapter 5: YJ - WS

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Yoo Jaeyi

A sessão de amassos precisou ter uma pausa dolorosa.  

Meia hora depois, enquanto preparava a carne principal, Jaeyi ouviu Seulgi se aproximar sem precisar tirar os olhos da tábua de corte. 

- A roupa serviu bem? 

Mesmo com o vento controlado, a noite estava fria. Prevendo esse detalhe, pediu que Seulgi trocasse o vestido por um dos conjuntos de roupas que trouxera. Ela também perguntou se Yoo ia ficar com a roupa do evento, até a advogada puxar sua calça, revelando uma meia-calça grossa e bonita por baixo. 

O rosto da universitária brilhou em um tom quase roxo enquanto corria para o carro. 

Jaeyi lhe deu duas opções: uma roupa social confortável para combinar com a ocasião ou um conjunto de moletom. 

Não foi uma surpresa total quando a encontrou misturando as opções, usufruindo de sua calça de lã preta com uma blusa de botão amarelo pastel. Seulgi sorriu, segurando uma jaqueta esquecida da advogada nos braços enquanto dava de ombros.  

- Você está linda. 

Woo revirou os olhos, ainda mantendo um pouco do que sobrou da sua pose durona enquanto seguia em sua direção, arregaçando as mangas.  

- Cheira bem - comentou ao seu lado, olhando para uma panela em específico - Posso ajudar com a frigideira? 

- Definitivamente, não e é uma bistequeira. 

- Não sei se vou conseguir fornecer uma resposta educada para isso - Seulgi disse se afastando - então, o que você está fritando na frigideira. 

Jaeyi, ciente da provocação, revirou os olhos antes de continuar:

- A linguiça apimentada - deixou a carne crua por um momento, buscando um pedaço do aperitivo com o ganchinho e assoprando antes de oferecer a boca da bartender - Cuidado.

Woo mastigou enquanto tentava puxar um pouco de ar pelo calor, embalando sua cintura - Está muito bom. 

A advogada sorriu, deixando um beijo em sua bochecha e voltando à tábua de carne. A menor entendeu o recadinho e se dirigiu à mesa de jantar. 

- Então, você sabe mais sobre outros tipos de culinárias?

- Tenho mais experiência com a coreana e italiana, na verdade. Por mais que Angélica tenha me feito aprender a francesa, não me aprofundei muito - deu de ombros enquanto reservava a carne principal - O pouco que eu sei da tailandesa e brasileira são meus maiores orgulhos no fim do dia. 

- Achei impressionante. 

- Eu te ensino se você quiser. Não sou uma chef, é mais como um ótimo hobby para não surtar - respondeu lançando um sorrisinho travesso por cima do ombro - Você me ensinou a socar e eu te ensino a cozinhar, parece um bom acordo. 

- Ah, isso me faz parecer uma reputação. 

- É uma reputação muito atraente, caso queira saber. 

- Eu não quero. 

- Grossa - Antes de cortar uma cebola, Jaeyi a encarou - Você pode me contar mais então.

Seulgi riu baixinho, movendo-se para abrir o refrigerante - Contar o que? 

- Sabe, você não pode reclamar de como sua reputação pode parecer se você não me conta sobre você - Jaeyi explicou enquanto tentava cortar a cebola em uma distância segura para não lacrimejar. 

- Hum… você quer dizer do passado? 

- Se você quiser. 

- Não tem muito o que contar. 

Yoo a olhou como quem segurava um sermão na ponta da língua, o que deveria ser ameaçador, se não fosse pelos olhos vermelhos pela cebola, o que fez Seulgi rir. 

Buscou um pano para enxugar o rosto, pensando em como prosseguir - Posso perguntar? Se for muito, não precisa responder. 

A bartender tomou o seu tempo para responder o que, para a sua surpresa, não demorou tanto. 

- Certo, pode sim. Não sou boa nisso, então fica mais fácil. 

A fim de disfarçar a óbvia empolgação, Jae fingiu aquela mesma tranquilidade convencida - Eu sou incrível, eu sei. 

- Eu diria fofoqueira, mas prossiga. 

Assim que reservou a entrada, começou a trabalhar com o prato principal. 

- Porque medicina?

- Eu conheci uma amiga da minha mãe biológica quando era criança, Yang Lin. Ela era incrível. Especializada na pediatria, então sempre que ia para o médico, era com ela. Eu via o esforço dela, a dedicação e paixão.

Seulgi começou a brincar com um talher - Eu achei incrível. Ela me contou histórias da época em que conheceu minha mãe na residência, quantas pessoas ela ajudou. 

Ela fez uma pausa, observando Jaeyi refogar as cebolas com maestria. 

- Eu não pensei muito nisso até o ensino médio. Quando fiz uma redação sobre o que eu queria ser no primeiro ano, meu primeiro pensamento foi uma lembrança da Yang e então foi isso. 

Jaeyi concordou enquanto assistia uma bola de fogo brincar sobre a superfície da panela que segurava. Ela roubou um olhar de Seulgi, que tinha uma expressão surpresa  e lançou uma piscada para ela. 

- Você já teve algum bichinho de estimação? 

- Não, mas estou pensando em adotar aquela gatinha definitivamente. Ela teve que ficar com a minha mãe por causa da alergia de Kyung. 

A advogada riu alto - Era por isso que ela ficou uns dias com a cara vermelha no escritório? 

Seulgi concordou com um movimento humorístico. 

- Que fofura. Pode te falar, é porque ela se parece comigo, não é? 

- Eu já falei, não gosto de amaciar ego de advogados - Ela brincou, fugindo da questão. 

Yoo deu um tempinho antes da próxima pergunta. 

- Por que você odeia o seu pai?

O silêncio competindo pelo crepitar da comida no fogo alertou seus sentidos, denunciando o possível limite ultrapassado. 

Ela olhou por cima do ombro, vendo como a mulher parecia focada em seu copo meio cheio. Jae forçou uma tossidinha - Não precisa responder. Vamos para o próximo tópico. 

- Está tudo bem - Seulgi disse com uma tranquilidade nova - Na verdade, depois que minha mãe morreu, eu morei com ele por mais dois anos, até meus dez anos. E então eu me perdi em um evento e fui parar em um orfanato na minha cidade natal. 

Jaeyi quase deixou a vasilha do vinagrete cair. 

Ela, definitivamente, não sabia disso. 

Percebendo seu choque, Woo prosseguiu - Ninguém, fora a minha madrasta, sabe disso. Ela me encontrou quando eu estava prestes a entrar em Chaehwa - Ela tomou fôlego - Ele ficou bem putinho com isso, fez um escândalo e tudo. 

Jaeyi continuou cortando os legumes enquanto escutava com atenção, tentando ignorar aquela bolha de repulsa crescendo em seu peito por mais um homem morto.

- Acontece que ele tinha desistido depois do primeiro ano e com o seguro do minha mãe, por que se dar ao trabalho? - Ela contou com uma voz controlada, como se fosse apenas um fato comum em sua vida - Então Hee Yoon botou ele para fora e me acolheu. 

Yoo Jaeyi a encarou perplexa - Tá brincando?

Seulgi sorriu afetuosamente - É, ele era um lixo. Ela achava que ele não queria ter filhos por algum trauma, sabe, perder a esposa e a filha alguns anos depois. Mas não, acho que ele achava que tinha se livrado de uma bala. 

Seulgi se espreguiçou - Quando ela viu a reação dele e juntou os pontos, acho que ficou mais puta do que eu. 

Jaeyi quis rir. Definitivamente não era o que esperava da história por trás do repúdio pelo pai ou sobre Yoon. Simplesmente não conseguia imaginar aquela doce senhora sendo tão ameaçadora ao expulsar um lixo de casa. 

Ela se lembrou do velho homofobico da cafetina e como Seulgi agiu, como o despejou como se estivesse limpando teia de aranha velha. Então ela teve a quem puxar. 

Yoo acabou soltando uma risadinha - Meu deus, ela é a definição daquela musica da Rihanna

Woo Seulgi riu alto, suas covinhas explodiram em seu rosto e Jaeyi se arrependeu internamente de não ter uma câmera pronta. 

- Por isso você não quer resolver sobre a herança dele?

A universitária concordou - A única coisa que aceitei dele foi a moto por causa da faculdade - explicou - a cafeteria sempre foi Yoon, mas ele ajudava financeiramente quando podia. Botar ele para fora foi como uma pedra no canto da janela, mesmo que não quebrasse tudo, ainda causou um estrago. 

- Você se culpa.

Seulgi deu de ombros - Não exatamente. Eu não me lembro da minha mãe biológica, nunca tive uma foto ou vídeo. Não sei o rosto dela. Mas quando Hee Yoon me acolheu, me escolheu , foi o calor dela que preencheu esse lugar. 

Jaeyi sentiu seu peito apertar. Era uma compreensão singela. Embora ainda existisse uma culpa muito bem soterrada, o peso do segredo e da indecisão sobre ter feito a escolha certa. 

Desde o começo, quando a ideia finalmente pulou para o papel, a advogada sentiu aquela queimadura em seu ombro. Woo Seulgi lhe pediu sinceridade, disse na sua cara que odiava mentiras e o que Yoo Jaeyi faz? Passou os últimos meses agindo por suas costas. 

É, ela definitivamente apanharia.  

Mesmo com as boas intenções, o incômodo persiste. 

Precisava contar para Seulgi logo, mas, por pura teimosia e medo, não seria nessa noite. 

Ela diminuiu o fogo enquanto seguia até a mesa de jantar, buscando a taça vazia próxima a mulher. 

- Você quer fazer um brinde? 

Woo riu baixinho, lançando aquele olhar meio brincalhão e malicioso.

- Você quer comemorar a morte do meu pai? 

O rosto de Jaeyi caiu, só então processando o que tinha oferecido. 

- Não? Mais ou menos. Desculpe, eu também tive pais disfuncionais de merdas, não sei como consolar esse tipo de perda. 

- Consolo para que?

Silêncio. 

- Eu também não sei. 

Seulgi riu com as covinhas outra vez. 

- Vamos fazer o brinde, Jaeyi-ah.


Com a mesa cheia e uma lista vasta de novos conhecimentos sobre sua linda obsessão humana, Jaeyi esperava ansiosamente para o seu tão esperado feedback. 

Como a universitária já tinha provado a linguiça, já estava tranquila sobre sua aprovação. Até ouvir Seulgi começar a tossir em desespero. 

- O que, o que foi? - Perguntou exasperada enquanto estendia uma garrafinha de água que trouxera. Percebeu seu rosto ficando vermelho - Ta brincando, ficou muito apimentado?!

Jaeyi estava totalmente perdida. Querendo tirar a limpo por conta própria, provou sua porção. Perfeito. 

A pimenta ficou meio fraca, na sua opinião. 

Quando voltou a encarar a bartender, percebeu seu olhar totalmente travesso e como sua tosse cessou de repente. 

- Yah, Woo Seulgi! 

A universitária começou a rir enquanto tentava desviar o tapa mirando em seu braço - Desculpa! Não consegui me conter vendo essa cara de quem estava analisando uma bactéria no microscópio.

- Eu não estava.. Ok, talvez um pouco, mas cacete , você me assustou pra caramba - Mesmo que tentasse soar brava, seu sorriso entregava sua posição. 

Seulgi riu mais um pouco, mandando um beijinho no ar - Está delicioso. 

- Não me diga - Respondeu grosseiramente, sendo ignorada.

Felizmente, quando a mais velha provou o prato principal, o pirão de leite com carne de sol, não tentou outra gracinha. Ela soltou um suspiro de puro prazer, arregalando aqueles olhinhos de mirtilos enquanto sorria timidamente. Talvez não quisesse inflar mais o orgulho da sua inimiga - mulher que ocasionalmente trocava carícias - com a reação mais pura.

Jaeyi, obviamente, aproveitou cada segundo do seu ego sendo amaciado. Sentia-se A chefe - não-chefe - mais satisfeita do mundo. 

- Bom? - Fingiu uma curiosidade inocente, já sabendo a resposta. 

- É maravilhoso, minha nossa. O purê e a carne derretem na boca, aí o geladinho do vinagrete só melhora a sensação - pegou outra garfada - meu deus, eu poderia morrer agora e… - se interrompeu na metade da frase assim que captou o sorriso largo da mulher advogada. 

- Vamos, por favor, ser elogiada é a minha sobremesa favorita. 

Seulgi limpou a garganta, sorrindo enquanto revirava os olhos. Ela não respondeu, preferindo voltar a comer o prato delicioso a sua frente. A cada garfada, Jae podia sentir as vibrações e pequenos sons de aprovação com o sabor. 

- Está tão bom assim?  

E então Seulgi fez a coisa mais fofa e adorável que Jaeyi ja presenciou; 

Segurando bem o garfo, ela concordou com a cabeça repetidamente, apertando bem sua expressão enquanto fechava os olhos com força. Era como se ela estivesse pulando internamente por estar comendo uma comida tão boa.  

Yoo riu, sorrindo mais largamente do que se lembrava de ter feito nos últimos anos. Ela apoiou o queixo sobre um mão na mesa, assistindo cada detalhe e cada micro expressão de sua cliente feliz e satisfeita com a comida. 

Percebeu que Woo realmente gostou do vinagrete, então se levantou rapidamente para buscar a vasilha extra que deixou na mesa de preparo. 

Sério, os olhos de Seulgi brilharam quando voltou.

Deixando-a aproveitar a refeição sem um obsessor a encarando o tempo todo, Jae se concentrou na própria comida. É, ela teve que concordar, estava divino. 

Se parabenizou mentalmente, agradecendo Angélica por ensiná-la a cozinhar tão bem sob pressão. 

Na sobremesa, mesmo que Seulgi tentasse mentir sobre estar muito cheia, ainda era possível ver seu interesse quase faminto quando a cozinheira colocou a sobremesa sobre a mesa. 

- Podemos dividir um soufflê se preferir. Não quero que passe mal. 

Jaeyi só conseguiu pegar duas colheradas do doce no final.


No caminho de volta para casa, o silêncio no carro era confortável. Yoo teve que preparar um pouco de café na cozinha do acampamento, com medo de que acabasse ficando muito sonolenta no volante. 

Seulgi já estava apagada no banco de passageiro, com um cobertor em volta do seu colo. Jaeyi sorriu com a visão rápida. Com o estômago cheio e esse silêncio afetuoso, era realmente uma armadilha difícil resistir ao sono.

Quando parou em um semáforo, aproveitou para enviar uma mensagem rápida para a equipe que contratou para o preparo do jantar, dando o sinal para que limpassem tudo e, obviamente, tirar uma foto adorável da dorminhoca ao lado. 

Assim que chegaram no prédio de Seulgi, a motorista tentou acordá-la gentilmente com pequenos petelecos na bochecha. 

Bom, ela achou que era gentil até receber um tapa particularmente forte em sua mão.

- Ai! Como você consegue bater tão forte sonolenta? 

- Estou acordada desde que entrou no bairro, idiota - Seulgi revelou enquanto se espreguiçava no banco. 

- Sério, como você foi daquela coelhinha fofa para esse ser bruto tão rápido. 

Ela não respondeu. Quando a encarou novamente, um sorrisinho gentil brincava em seus lábios, quase tímido. Jae retribuiu. As mesmas emoções bobas , apaixonadas de antes, pulavam entre cada espaço daquele carro. 

Até que uma simples pergunta mudou totalmente o ar do ambiente. 

- Você quer subir?


O apartamento de Seulgi não era o que Jaeyi imaginava. 

Arrumado e polido. Parecia que tinha acabado de entrar em um quarto de hotel do que um lar de verdade.  

Limpo, organizado, uma mistura de cores brancas e cinza que poderiam fazer seus olhos arderem. 

Ao lado da entrada existia uma cozinha pequena, uma pia com armários, um fogão, uma geladeira e uma bancada que dividia o espaço para o próximo cômodo; a sala. Tinha um sofá de três lugares, branco polido, uma mesinha de centro sobre um tapete - branco novamente - e uma tv na parede. 

Jaeyi olhou em volta. Nenhuma foto, nenhum pingentinho, um imã na geladeira, xícara colorida, nada muito… pessoal. 

Ela não via Seulgi naquele lugar. 

Segurando uma comparação engraçada, se lembrou do próprio espaço na época escolar e universitária. Quanto tempo demorou para que ela mesma deixasse que seu interior se desmanchasse em seu próprio lar?

Yoo deu um pulo quando ouviu Seulgi deixar algumas sacolas de sobras sobre o balcão, sendo puxada de sua reflexão. 

Woo pareceu perceber seu pequeno susto. 

- Desculpe. Você está bem? - Perguntou gentilmente enquanto se aproximava. 

- Sim! Eu só.. fiquei pensativa - Deu de ombros, mostrando um sorrisinho singelo e rápido. 

A anfitriã pareceu aceitar a resposta, olhando em volta, parecendo sincronizar com o seu pensamento quase instantaneamente. 

- Ah, ele já veio mobilado e como a gente nunca fica muito tempo em casa, não pensamos em decorar nem nada - Esfregou a nuca. 

Jaeyi hesitou, com medo de ter transmitido a coisa errada. 

- É muito bonito! Eu só fiquei surpresa, não é nada como eu imaginei - brincou enquanto a acompanhava pela cozinha - Tem muito mais a ver com Kyung. 

Woo riu um pouco - Você pensou muito na minha casa? 

- Em você em geral - Disse distraidamente, dando a volta no balcão.

Reparou na sacada, provavelmente onde elas assistiram aquela tempestade por mensagens dias atrás. A lembrança a esquentou. 

Seulgi deu uma risadinha, terminando de guardar a comida antes de acompanhá-la até a sala. 

- Senta aí. 

- Hum? - Perguntou, acatando a ordem sem hesitar, esperando que a outra jovem a seguisse ao lado.

Ela não fez.  

Sem nenhuma explicação, Woo Seulgi se ajoelhou à sua frente, buscando seus pés em uma missão. 

Tinha tirado os saltos fechados na entrada, mas ainda usava uma meia calça sob outro par de meia pelo frio. Jaeyi recuou rapidamente as pernas para a borda do sofá, sentindo o sangue subir em seu pescoço e ignorando a expressão divertida da outra quando levantou o rosto e viu o seu pânico em seu rosto. 

- O que você está fazendo?! - Questionou com um gritinho meio estridente. 

Seulgi, ainda sorrindo daquele jeito meigo, uma covinha brincando em sua bochecha, se ajeitou no chão, apontando o indicador de forma brincalhona para os seus pés. 

- Eu quero te ajudar a relaxar um pouco. Você fez muito por mim hoje, quero retribuir. 

Jae entendeu, realmente entendeu a vontade, mas, Jesus , essa garota poderia avisar antes. Ainda envergonhada, tentou despistá-la;

- Ah, você não precisa… podemos só relaxar aqui, assistir um filme.

- Jaeyi-ah. - O chamado não foi sério ou com repreensão. Foi calmo e gentil, levemente suplicante. 

Existia um calor suave naquele sussurro, confortável, como se os lábios macios de Seulgi tivessem sobrado uma brasa de fogo leve contra a sua pele gelada sob a roupa 

- Eu quero inverter os papéis agora. Eu quero cuidar um pouco de você. 

Yoo não respondeu. Estava perdida demais. Seu coração batia rápido, forte. A visão da outra mulher de joelhos por si só já era muito para a sua mente pecaminosa e carente. Agora, adicionando aquelas malditas palavras, suas intenções, como uma prece, sentia como se o próprio Deus tivesse soprado o ar da vida em seus pulmões pela primeira vez. 

- Por favor?

A maior sentiu um sorrisinho fraco passar por seus lábios, transmitindo um vislumbre da própria felicidade borbulhante em seu peito. Era muito. Seulgi era muito . A mulher, linda e impecável usando suas roupas, de joelhos, com uma doçura viciante em seus olhos, pedindo que Jaeyi permitisse ser cuidada por ela. 

Deuses.  

Lentamente, Yoo deixou que suas pernas voltassem para perto dela, que sorriu, voltando a sua missão.

- Tudo bem se eu fizer uma massagem? - questionou baixinho, esperando enquanto deslizava os dedos em um carinho. 

Mesmo sem saber como ainda conseguia respirar, a advogada concordou levemente. 

Começou pela perna direita, tomando todo o cuidado em tirar sua meia extra assim que conferiu com um controle se o aquecedor estava ligado. 

Seus dedos eram firmes, delicados, começaram com movimentos circulares no centro dolorido da parte de baixo, apertando apenas o suficiente para que os pequenos músculos sentissem alívio. 

Seulgi seguiu assim, calma, paciente e devota.

Ela tocava como se fosse uma flor cheia de detalhes para olhar e decorar, mas tomando o cuidado com a delicadeza presente nas pétalas até o caule. Jaeyi sentiu os olhos arderem um pouco. 

- Como você planeja fazer isso? - Nem sabia de onde tinha tirado voz para questioná-la - Cuidar de mim.  

Seulgi sorriu, ainda focada nos movimentos relaxantes, deslizando as mãos pelas panturrilhas até o calcanhar, para então espalhar a atenção para o resto do pé. A maior soltou um suspiro controlado com alívio, tão acostumada com os maus tratos dos sapatos que nunca tenha lhe ocorrido a necessidade de uma massagem pós uso. 

Jae repousou a cabeça contra as costas do sofá, fechando os olhos, sequer percebendo como a atenção de Seulgi começou a alternar entre suas pernas até a visão de seu pescoço exposto. 

- Depois que eu terminar aqui, vou te preparar um banho - Disse em voz baixa, tranquila.  

- Um banho? 

- Uhum, com velinhas, creme e tudo. 

- Seulgi-ah… - A olhou novamente, sorrindo com o tom avermelhado em suas orelhas e como ela recusava a encará-la - Você está me mimando esta noite?

Ela não voltou a responder pelos próximos minutos, totalmente focada em terminar o trabalho em sua perna esquerda. Yoo se sentia maravilhada. Relaxada. Com a cabeça repousada no encosto do sofá novamente, não percebeu que a outra tinha terminado o trabalho até sentir um corpo se colocar entre suas pernas. 

Ainda ajoelhada, Seulgi mudou seu foco para desfazer a mesma gravata que ajudou a montar mais cedo. 

Jaeyi levantou a cabeça bem na hora, ajudando-a a ter um ângulo melhor do tecido.

Quando desfez o último nó, usando o paninho livre em volta do seu pescoço, Woo a puxou até que seus lábios estivessem juntos mais uma vez. 

A convidada definitivamente tinha ganhado na loteria naquela noite. 

Seulgi a beijou com força. Uma necessidade nova que dilacerou seus sentidos em poucos segundos. Yoo jaeyi não ficou para trás. Suas mãos se enroscaram no cabelo solto e macio, ancorando-se como se tentasse emergir de uma onda para respirar. 

Era loucura. Ela não queria escapar. Não . Queria afogar-se em Seulgi, desde sua risada até seu gosto. 

A bartender a puxou para mais perto. O beijo ficou cada vez mais obsceno, barulhento e molhado. 

Em dado momento, Woo arrastou os lábios por sua bochecha até o pescoço. Jaeyi engasgou, as mãos começaram a ficar mais desesperadas, inquietas, agarrando-se em sua roupa como se tivessem a ofendido.

Seulgi suspirou contra a sua pele, beijando com mais força, embora ainda fosse possível sentir seu sorrisinho irônico -  não se esqueça de respirar, jaeyi.

– Estou respirando - sua voz saiu opaca, desnorteada. 

A bartender soltou um zumbidinho pensativo – você parece um pouco desesperada.

Uma ideia passou por sua mente. Enquanto a mulher estava focada demais em devorar sua pele, Yoo desfez o zíper da sua calça, buscando a mão de Seulgi em seguida. 

Quando seus dedos tocaram um tecido particularmente úmido entre suas pernas, ambas suspiraram alto.

Jaeyi sorriu como o diabo, ainda perdida e desfrutando do pequeno alívio - Só um pouco?

Os olhos de Seulgi atingiram um novo tom escuro quando se encontraram novamente. Como se tentasse revidar, ela pressionou um movimento circular. A advogada inclinou a cabeça em seu ombro, tentando controlar o volume da voz. 

Percebeu como Woo se arrepiou quando gemeu baixinho contra a sua pele.  

- Você nunca joga limpo - a bartender acusou, controlando os movimentos com lentidão. 

Yoo não conseguiu segurar um pequeno espasmo. Suas mãos alcançaram as costas da outra. 

- Seulgi-ah - chamou. Jae não calculou o quão fácil a posição de poder poderia ser invertida quando iniciou aquela provocação. Não poderia reclamar, mas a cada segundo era mais difícil controlar sua inquietude. 

Woo riu baixinho. Seus beijos pararam. Sua respiração era um sopro leve contra a sua orelha. Ela parecia calma demais. 

Jaeyi por outro lado entrava lentamente em um desespero torturante. 

Seus dedos nunca iam rápido demais, mantinham a firmeza necessária para aliviá-la ao mesmo tempo que sempre a deixavam na borda por mais. 

Ela estava provocando-a. 

– Tudo bem ai? 

Jaeyi riu fraco contra seu ombro. Sempre que tentava mover o quadril em busca de mais movimento, Seulgi a segurava. 

– Mais rápido, por favor - implorou pateticamente enquanto rodeava seu pescoço com os braços.

– Ainda não, princesa

Yoo gemeu, uma mistura de descontentamento e um tremor por um arrepio gostoso que subiu sua espinha.

– Seulgi, por favor - a pressão diminuiu, praticamente parando. Yoo se desesperou - não, não, por favor. 

Jaeyi puxou seu rosto, beijando-a profundamente. Woo devidou com a mesma fome, mas manteve a porra da mão parada. Sua língua tinha o gosto de uma memória doce. Ela a beijava como se estivesse na porta no inferno e desejando - implorando - para ser queimada. 

Seulgi estava tão quente. Tão cheirosa. Essa mulher ainda vai me matar. 

A advogada tentou alcançar os dedos sobre si outra vez, apenas para ter a mão envolvida firmemente. A bartender interrompeu o beijo, olhando-a com aquele tom de luxúria e carinho.

Yoo sorriu, encostando-se no sofá enquanto tentava acalmar a respiração. Tentou esconder o tremor das mãos ao segurar a blusa da outra com firmeza. 

– Você é cruel - sussurrou. 

– E você é impaciente.

A maior ponderou possíveis métodos de vingança para virar o jogo, até perceber como Seulgi também respirava profundamente, perdida e instável. Bom. Também tinha causado um efeito familiar nela. Ótimo. Sofra .

Jae sorriu, movendo suas mãos para acariciar seu rosto. Woo derreteu-se, inclinando-se para beijá-la outra vez. Apenas um selar tranquilo, familiarizando-se. Yoo puxou seu lábio de leve, testando a maciez daquela carne e o sabor gostoso. 

Seu suspiro deve ter saído perdidamente apaixonado, pois Seulgi se afastou meio rindo com o rosto completamente avermelhado. 

- Qual é a graça? 

- Às vezes eu não sei se você está desesperada para transar comigo ou se está prestes a me pedir em casamento.

Yoo Jaeyi sorriu, sem se importar em esconder o rosto constrangido - Em minha defesa, isso é inteiramente culpa sua por ser… assim. 

Seulgi fez aquela expressão de falsa surpresa provocativa - Assim como? 

Os olhos da advogada brilharam - Esperei meses para esse momento, tenho uma lista muito bem detalhada e estritamente profissional sobre minha enfermidade. 

- Enfermidade?

- Sintomas de paixão. Se chama “Efeitos de Woo Seulgi: calabouço de seus encantamentos” - Jaeyi explicou seriamente - Motivo número um: covinhas. 

Seulgi piscou. 

- Eu não sei se é uma piada ou não - O semblante ainda sério de Yoo Jayi não mudou. Por fim, Woo se derreteu ainda mais em seus braços - Isso é… fofo. 

- Não é fofo. Foi um caso cuidadoso e profissionalmente montado. Motivo número dois: olhos de coruja. Eu assisti um documentário muito bom sobre a coruja Murucututu , ainda tenho o link dele se você…

Seulgi a beijou, puxando seu rosto entre as mãos com delicadeza. Quando teve certeza que a maior não ia voltar a tagarelar sobre listas e corujas, sussurrou contra seus lábios - às vezes esqueço o quão nerd você é.

Jae sentiu seu peito esquentar ainda mais, se era possível. Woo fazia um carinho em sua bochecha enquanto a olhava como se Yoo Jaeyi fosse um tesouro, uma dádiva. 

- Me espera aqui enquanto preparo a banheira? - Perguntou quando se separaram, mal esperando uma resposta antes que começasse a se levantar. 

Jaeyi agarrou seu pulso. 

- Você vem comigo? - O sim veio na forma como o rosto de Woo ficou avermelhado, seguido por um sorriso.


Na banheira, Yoo lutava para não cochilar. 

O ambiente estava agradável, quentinho e com o cheiro de Seulgi por todo lado. A jovem a deixou se acomodar primeiro enquanto buscava algo no quarto. Quando voltou, apenas de roupão, lhe enviou um sorrisinho doce enquanto deixava algumas toalhas na bancada da pia. 

- Chega para lá - pediu enquanto se aproximava. 

Yoo Jaeyi se moveu um pouco, congelando no meio da banheira assim que a viu retirar a cobertura felpuda que cobria seu corpo. 

Seulgi não parecia tímida com a sua nudez, o que de fato não deveria. Ela era linda . A advogada apoiou o queixo sobre a mão na beirada da borda de aço. Observando. Admirando . Quando seus olhos se prenderam no piercing em seu mamilo, sentiu sua boca salivar. 

Assim que deixou a roupa em seu lugar, a universitária percebeu o olhar fixo. Ela sorriu e piscou. Jae estendeu uma mão. 

Quando finalmente se acomodou atrás da advogada, Seulgi fez questão de ensaboá-la completamente. Seu toque era tão gentil e delicado que a maior quase entrou naquele estado de dormência. 

No começo elas não trocaram muitas palavras. Quando o trabalho da mais velha terminou, Jaeyi conseguiu retribuir o mesmo tratamento depois de alguma insistência.

Foi apenas quando um silêncio tranquilo se instalou, com Yoo repousando confortavelmente no abraço de Seulgi, que ela começou a nova rodada de provocação. 

- Então, de acordo com Angélica, você ainda manteve um olho em mim nesses anos? - perguntou com um sussurro perto do seu ouvido, enviando um raio de arrepios por suas costas. 

Jae bufou e tentou escorregar para dentro da água, sendo amparada pelos braços rodeando sua cintura. 

- Eu só fazia isso quando ficava entediada. Era curiosidade - esclareceu, acomodando-se mais no abraço - eu não estava obcecada nem nada do tipo. 

- Jamais pensaria nisso, ainda mais da infame Yoo Jaeyi, que colecionava confissões de amor por onde passava - ela zombou. 

A advogada tentou se afogar novamente. 

- Para falar a verdade, achei que você tinha desativado suas contas no último ano - disse contra a pele do seu ombro.

Seu tom de voz, fingindo um espanto duvidoso por cima da zombaria, foi o primeiro sinal. 

De fato, Jaeyi tinha se ausentado totalmente de qualquer página social quando o escândalo da sua família veio à tona. Ela manteve apenas uma rant secreta com Kyung e Angélica. 

Céus, até a velha tinha mais pessoas interessadas na dm do instagram do que a advogada. 

E de alguma forma, lê-se Yoo Jena , Seulgi parecia ter noção disso tudo. 

Infelizmente o seu silêncio foi justamente uma espécie de confirmação para Woo, que apertou um pouco mais sua cintura enquanto abafava um risinho em suas costas. Yoo se acomodou, escondendo o rosto.  

Era como se sua paixão de adolescente nunca tivesse ido totalmente. Esfriou, de fato. Jaeyi seguiu o percurso de sua vida, teve alguns encontros aqui e ali, mas bastou uma vislumbre do sorriso maduro de Woo Seulgi para que tudo voltasse. 

Pior.

Mais forte e quente.

Ela sorriu. O universo tinha um sentido engraçado.  

A advogada depositou um beijinho no braço que a rodeava. Seulgi prontamente retribuiu o selinho em seu ombro.

Jae relaxou ainda mais. 

O carinho continuou com breves toques dos seus lábios em suas costas nuas. Cócegas aqui e ali. Lentamente começaram a ter mais firmeza, demorando o suficiente para que Jaeyi percebesse o que ela estava fazendo. 

- Quando você percebeu? - a mulher sussurrou contra a pele molhada.

- Percebi o que? - Yoo devolveu, pressionando seu corpo um pouco mais contra ela. 

- Que estava obcecada por mim - assim que ela respondeu, seus lábios voltaram para ela com outras intenções. 

Sua boca estava um pouco mais aberta, desleixada, deixando que o hálito quente acariciasse a pele escorregadia antes de molhá-la ainda mais, lentamente, provando. 

O sono ficou cada vez mais distante. 

O calor da banheira triplicou, começando a correr sua pele, invadir suas veias, descer até o abdome, queimando seus pulmões, apenas porque Seulgi beijava seu corpo como se quisesse desvendá-lo com a própria língua, adorá-lo. 

Dos ombros até o começo do pescoço, sempre demorando um pouco mais nessa área. Jaeyi começou a inclinar a cabeça, dando-lhe mais espaço, Woo soltou uma risadinha contra os seus cabelos, aceitando o espaço com entusiasmo. 

- Responde, Jaeyi-ah - mesmo com a doçura melosa em sua língua, percebeu que não foi um pedido. 

- Eu não estava - sussurrou. 

Uma mão apertou sua barriga, dentes rasparam sua pele de leve. 

- Eu não gosto de mentiras, Yoo Jaeyi - brincou com o lóbulo da sua orelha. 

Yoo estava com dificuldades em pensar, respirar, quem dirá se lembrar de algo de anos atrás. 

Seulgi mordiscou sua pele, fazendo-a levar um choque no exato momento em que a memória veio à sua mente.

Jae meio sorriu e meio suspirou.

- Foi em uma aula de matemática avançada, segundo ano. Lembra daquele professor? 

A boca de Seulgi parou por um momento, segundos , enquanto ela processava. Soltou um bufo divertido - Nossa, eu odiava aquele cara. 

Seus lábios voltaram, Jae tentou se mexer, mas os braços a sua volta a impediram de se mover muito. 

- Foi no perto do final do ano - Tentou se recompor, quase gaguejando quando sentiu o fantasma da língua dela em seu pescoço - Ele te chamou para o quadro. Era uma equação longa. Você foi perfeita. Rápida e precisa. Todo mundo sabia como ele era babaca. Ele não aceitou sua resposta.

Seulgi subiu - Então você sabia que era implicância. 

Jaeyi ignorou - Você não aceitou. Acho que isso deixou ele mais irritado.

Seulgi riu baixinho perto da sua clavícula. Sua boca a pressionou com um pouco mais de força, finalmente sugando a pele sensível entre os dentes. Jaeyi estremeceu, contorcendo-se entre seus braços. 

- Continue. 

A advogada xingou até sua quinta geração. 

- Lembro que vocês passaram o resto da aula em uma discussão passiva agressiva - comentou a memória com humor, feliz por ainda ter um pouco de sentido cognitivo -  Ele era um babaca. Praticamente ninguém tinha paciência ou coragem de ir contra ele. Você era uma das únicas, pelo jeito. 

Seulgi tinha parado seu momento de carícia para ouvir mais atentamente.

- Ah, para. Aquilo tudo foi ridículo - percebeu a sombra de um rancor em sua língua - ele não queria me humilhar pela minha falta de status ou condição financeira. Ele queria atingir meu intelecto, a única coisa que me mantinha naquele inferno.

Woo continuou, puro sarcasmo na voz - E serio , te chamar para desempatar? Até hoje não acredito que te chamaram para fazer a porra do trabalho do professor. 

- Ser presidente do conselho estudantil tem suas vantagens e desvantagens - jae se gabou, dando de ombros - mas você adorou ver a cara dele quando eu provei que você estava certa. 

Seulgi mordeu o seu ombro, forte o suficiente para sentir uma fisgada, fazendo-a suspirar repentinamente e engasgar - Foi uma palhaçada. Você não precisava provar que eu estava certa, era só ele fazer a caralha da conta. 

Jaeyi se arrepiou, se aconchegando mais no abraço, rindo um pouco - Foi nesse dia. 

Seulgi parou, parecendo processar o que dissera. Yoo viu sua raiva transitar para a malícia de antes rapidamente.

-  Você está tão puta. Eu não sabia se era comigo ou com ele. Você sequer olhou na minha cara quando terminei o quadro. Marquei o ponto para você e foi como se eu tivesse ofendido sua família - Jaeyi pendeu a cabeça para trás em seu ombro, o suficiente para encontrar seu olhar -  Os boatos não fizeram jus a sua audácia. 

Uma risadinha escapou de sua narina - Audácia? - Seulgi beijou sua bochecha, demorando os lábios na pele - O que, não vai me dizer que sonhou comigo depois de resolvermos questões de matemática?

Jaeyi riu de leve, se derretendo quando os lábios pressionaram perto demais da sua orelha - Só depois de dois meses. 

Sentiu os beijos subirem, sua respiração travou por um momento. O calor em seu corpo deixará de ser pela água quente e o vapor. Quando aquela boca alcançou o lóbulo da sua orelha outra vez, os dentes raspando com mais força antes de puxá-lo para o calor dos lábios, para a chama de sua língua, Jaeyi não segurou o som da sua própria garganta. 

Um arrepio subiu sua espinha.

Sentiu uma mão aventureira descer por sua barriga. 

- Porra, finalmente. 

Seulgi riu. 

- Se você ficar impaciente de novo, eu paro. 

E então uma pequena lambida em seu pescoço, apenas o suficiente para deixá-la ciente. Jaeyi se contorceu. Era tortura. Uma provocação sem fim, intensa o suficiente fazê-la implorar, arquear, mantê-la maldita borda de mais, recheada do anseio por mais. Seulgi estava cuidando dela, preparando-a. 

A boca ficou mais agressiva. Beijos suaves ficaram para trás. Os lábios trabalharam junto com os dentes, mordendo o suficiente para arrancar sua luxúria crua em forma de sons de prece.

Pelo estremecimento, seu pescoço virou um pouco, reagindo, tentando cobrir aquela área sensível. A mão de Seulgi foi mais rápida, subindo até seu queixo, virando-a para o mesmo lado de antes, expondo seu pescoço ainda mais. Foi firme, mas gentil, afrouxando um pouco no final, dando espaço para Jae interromper. 

Yoo não recuou. 

A mão de antes desceu mais, finalmente tocando-a onde queimava, onde clamava, pressionando no lugar certo e inchado. Jaeyi jogou a cabeça para trás, implorando. 

Seulgi suspirou igualmente afetada, pressionando os dentes perto de sua clavícula outra vez. 

- Você é sempre tão quente, eu amo isso - sussurrou em sua pele. Jae murmurou seu nome, perdida - Sem marcas? - 

Yoo não conseguiu responder, perdida demais na sensação dos dedos finos circulando onde queimava - Jaeyi, amor … palavras, por favor. 

Algo estalou. Suas mãos trêmulas alcançaram as de Seulgi, apenas para senti-las. Seus olhares se encontraram por um momentos, profundos e frágeis. 

- Eu não me importo - resmungou por fim, sentindo o aperto em seu queixo aumentar. - e aqui? 

- O mesmo - Seulgi murmurou, sussurrou, quase tão perdida quanto Jae, que sorriu com a percepção.

- Bom. 


- Você está bem? 

Jaeyi a olhou com olhos arregalados por um momento, cansada demais para xingá-la pela pergunta a essa altura do campeonato. 

De alguma forma, Woo conseguiu levá-la até sua cama. Seu corpo ainda estava relaxado daquele jeito sonolento e meio molenga. Sua mente se encontrava totalmente submersa. 

Yoo deixou as pernas para fora do colchão, com preguiça demais para se ajustar ou para se levantar para colocar o pijama. 

Embora parecesse que esse não era o plano de Seulgi. 

- Jaeyi-ah, você está bem? - a bartender perguntou outra vez ao seu lado, a voz gotejando um humor convencido com preocupação. Seus dedos deslizavam um carinho em sua barriga.

A advogada riu baixinho - Só estou recuperando o fôlego, fica tranquila. 

Woo encarou algumas marcas em seu pescoço - Acha que está muito dolorida? 

Seus olhos se estreitaram - Não, por que? 

Seulgi não respondeu. Seu sorriso, sempre presente na cena do crime, explodiu em seu rosto. Lentamente, ainda sustentando a conexão, ela desceu até seu abdômen, beijando a pele e lambendo alguns desenhos. 

Descendo. 

Jaeyi suspirou, sorrindo com empolgação enquanto suas pernas se abriam em rendição. Já se sentia quente e se folego - Meu deus, você vai me matar. 

- Tentador, mas só quero garantir que você tenha uma boa noite de sono. 

Woo disse de um jeito irritantemente inocente, como se estivesse prestes a lhe oferecer um chá de maracujá em vez de fazer o que estava prestes a fazer. 

- Eu não sabia que dormir ainda estava em nossos planos - a advogada brincou enquanto se apoiava em seus cotovelos. 

Seulgi não respondeu. Seu olhos voltaram-se para ela outra vez antes de puxar sua cintura, arrumando seu corpo para o centro da cama. Yoo riu de leve com a demonstração convencida de força, puxando-a brevemente para um beijo profundo e confuso. 

Seus toques ficaram mais necessitados. Precisava tocá-la também. Suprir sua abstinência do seu calor úmido. Uma mão tentou descer até o centro de Woo, pronta para retribuir sua devoção. 

Os lábios contra os seus tremeram em sufoco. Ela sorriu. A bartender quase se distraiu. 

Quase. 

Uma mão encontrou seu ombro, empurrando seu corpo para baixo enquanto voltava para a mesma posição de antes. 

Seu sorriso lascivo entre suas pernas foi a última paisagem que Yoo Jaeyi viu antes de ver estrelas. 

Seu cansaço se dissipou rapidamente. Seu corpo tremeu. Foi devastado. Sua língua pintava traços molhados desde o nervo dolorido até a entrada necessitada. Seulgi suspirou entre seu gosto, gemendo de satisfação. 

Yoo se remexeu, esfregando-se. Como se já não fosse o suficiente destruí-la, sentiu a ponta de seus dedos agirem. 

Jaeyi caiu contra o colchão, mãos firmes agarraram mechas de um cabelo familiarmente sedoso. 

- Porra, meu Deus.  

Um sopro passou por onde queimava, provocando 

- “apenas Seulgi”


- Percebi que você tem algo com o meu piercing - Woo Seulgi brincou. 

Jaeyi não deu atenção, estava ocupada demais adorando-a. 

Depois do terceiro orgasmo, Yoo percebeu sua pequena desvantagem no placar daquela noite. Por um lado, era sua maior felicidade, por outro lado, era um afrontamento em seu orgulho. 

Agora, sentada sobre uma Seulgi levemente suada e estressadamente excitada, seu foco seria unicamente em satisfazer sua mulher de todas as maneiras que fosse permitida. 

Ela não poderia negar sua pequena obsessão, embora. Cada detalhe do corpo da bartender era divino, esculpido pelos anjos e o motivo da sua condenação. Yoo não tinha algo. Ela era completamente dependente daquele pequeno detalhe metálico. Viciada de modo desolador. 

Woo suspirou quando seus lábios sugaram o mamilo com um pouco mais de força, uma mão encontrou seu cabelo em um carinho firme, disfarçando seu desespero em mantê-la ali. 

Motivada, Jaeyi sugou com mais força, fazendo-a estremecer com um gemido particularmente desesperado. 

Yoo sorriu contra a pele, faminta - Você é perfeita, Woo Seulgi - disse seria, uma luxúria crua deslizando em sua língua - eu vou garantir que você nunca se esqueça disso. 


Na manhã seguinte, enquanto Jae terminava de preparar um café na cozinha, sentiu um par de braços rodearem sua cintura com um pouco mais de força que o necessário. 

- Sai da cama não tem vinte minutos, sentiu tanto minha falta assim?

- Bom dia - A voz de Seulgi saiu abafada contra as suas costas - Achei que tivesse ido embora. 

- Que tipo de cavalheiro eu seria? – Se virou, depositando um beijo em sua testa e nariz - Bom dia, princesa. 

- Está fazendo café? 

- Sim. Espera, você preferia chá? 

- O café está ótimo. Vou na padaria aqui perto, não tenho nada fresco - disse enquanto se afastava. 

- Comprando com o concorrente? - brincou, assistindo Woo pular em uma calça que estava jogada no sofá. Ela a encarou igualmente divertida - Isso é uma péssima jogada de negócios. 

Seulgi riu, buscando suas chaves - Eu sei, não fale para a minha mãe. 

- Por que? Ela desconta do seu salário? 

- Algo do tipo - Beijou seus lábios rapidamente - já voltou.

Antes que conseguisse agarrar a maçaneta, algo em Jaeyi estalou. Como se toda a ansiedade que vinha prendido nos últimos meses finalmente derramasse de sua garganta. 

- Espera, espera! Preciso te contar uma coisa. 

A universitária parou, a porta meio aberta e o cabelo ainda descabelado. Linda . Jaeyi sentiu um leve tremor. 

- Agora? 

- Uhum, agora. 

Seu tom foi o suficiente. Seulgi se aproximou novamente, analisando seu rosto, que fugia da investigação - Você está com uma cara de quem aprontou algo. 

- É… um jeito de descrever isso. 

- O que foi? 

Jaeyi apontou para que ela se sentasse no sofá enquanto se perdia em alguns passos em zigue-zague. Ela estalou os dedos das mãos, ponderando seriamente como começaria. 

Seulgi, parecendo começar a ficar um pouco impaciente, aguardava em silêncio, os olhos fixos entre preocupação e cautela.

- Lembra das vezes que você contou como a frequência da padaria estava ruim esses meses, sua madrasta preocupada e você tendo que fazer turnos extras? - Woo concordou, o rosto ficando tão sério que Jaeyi quase perdeu a voz de vez.

Ok, calma, respira. Se sentou ao seu lado, forçando-se a encará-la fixamente dessa vez. Sem recuar. 

- Eu conversei com Kyung, apresentei um plano muito, muito bom que eu pensei enquanto você me contou pela primeira vez. Bom, na verdade ela disse que era uma merda e que você não olharia mais na minha cara.

Jaeyi soltou uma risada forçada, saltando de um nervosismo ainda maior quando a expressão da universitária não mudou. Ao contrário, parecia pior. 

A advogada se apressou.

- Foi um tapa na cara. Fiquei estagnada. Então fui falar com a Hee Yoon. No começo foi outro tapa, mas nos entendemos bem. Marcamos algumas reuniões com Kyung, bolamos um plano e marcamos outra reunião com Yujin e, nossa , aquela mulher adora enrolar e fazer tudo tão burocrático. Sério, não sei como a Kyung não surtou ainda…

- Yoo Jaeyi, foco! - Seulgi cortou sua divagação repentinamente, assustando-a. 

- Eu comprei a padaria - soltou de uma vez.

Silêncio. 

Os olhos de coruja se arregalaram, a única mudança visível em seu rosto.

Era um silêncio novo. Frio. Surpreso. Terrivelmente intenso, pior do que da vez após a noite do bar. 

Seulgi a encarava. Primeiro sem expressão, dúvida e por último descrença. O cérebro de Jaeyi já formulava sete tipos de explicações e desculpas. 

- Você fez o quê? - Curto e baixo. Banhado de incredulidade. 

Jae apertou as mãos - Bom, tecnicamente, a agência YC fez um acordo e compramos.. 

- Quem te pediu para se intrometer nisso?

Seu rosto estava completamente neutro. O maxilar apertado era o único indício de algum sentimento presente e não era bom. 

Era raiva. 

Uma irritação baixa e controlada. 

Yoo entendia, esperava essa reação. Merda , tinha até preparado algumas abordagens para isso. Mas, agora, ali, com uma Seulgi friamente distante, a advogada se esqueceu totalmente do treinamento. 

- Hum, bem, ninguém, mas olha, eu.. - Ainda sob aquele olhar, Jae sentiu o pescoço gelar em um suor frio enquanto buscava o celular no bolso - Eu tenho os papéis…. 

- Yoo Jaeyi - Congelou, olhando-a firmemente - repita para mim, palavra por palavra, quando e como eu pedi a sua ajuda ou que interferisse. 

- Seulgi, eu sei que você não pediu.

- Então por que caralhos você fez isso?! - Sua voz explodiu em um tom alto enquanto ela se levantava do sofá. Na mesma rapidez da sua reação, ela recuou, fechando os olhos com força, controlando o ponto da voz - Achei que você tivesse entendido o que falei sobre limites. 

- E eu entendi! - a advogada gesticulou - Seulgi-ah, eu juro, o acordo é totalmente benéfico para a padaria. 

Seulgi rodeou a mesinha de centro, colocando mais espaço entre elas. Jaeyi não se moveu. 

- Há quanto tempo isso está acontecendo? - Sua voz voltou ao tom terrivelmente calmo.

A maior ponderou sobre a resposta, cutucando a ponta do joelho em nervosismo.

– Yoo Jaeyi, não vou perguntar outra vez. Não minta de novo.

A advogada fechou os olhos com força.

– Quase três meses – Seulgi riu em descrença. Yoo tentou continuar explicando, mesmo que as palavras fugissem - ainda vai demorar algumas semanas para entrarmos em prática. Seulgi, acredita em mim, é um bom acordo.

Jaeyi moveu as mãos para o sofá, com medo de acabar machucando algum dedo de tanto pressionar.

Woo a olhou - Acreditar em você? - sua voz saiu áspera, descrente - se tudo é tão maravilhoso assim porque você só me contou agora?

- Eu não sabia como.. 

Woo riu, cortando sua frase mais uma vez - Você sabia que eu falaria não, sabia que eu ficaria brava e desconfortável com isso. 

O jeito que a voz de Seul se mantém baixa, distante, totalmente o oposto da noite passada e de minutos antes, era angustiante para Jaeyi. Doloroso. Principalmente pelas verdades sob cada palavra.  

- E você fez mesmo assim. 

- Eu queria ajudar, Seulgi-ah. 

- Querer ajudar não é desculpa para ultrapassar limites! - Disse firme, olhando-a nos olhos. 

Seulgi estava brava, talvez furiosa, mas o jeito que ela mantinha um controle bruto sobre suas emoções, sua voz, nos poucos movimentos com a mão, só aflorava o nervosismo nos nervos da advogada.

Recomponha-se, Jaeyi!

 - Sua boa vontade não lhe dá tamanha liberdade, Yoo Jaeyi, nada dá.. - seu olhar endureceu para algo mais venenoso - muito menos o fato de estarmos transando. 

Ali. 

O jeito quase calmo que ela disse isso, como se fosse apenas isso, um detalhe banal, casual, quebrou algo em Jaeyi. Era doloroso, parecia físico. Algo subiu em sua garganta, mas Yoo se recusou a demonstrar. 

Por um instante, ela quis voltar atrás, se impedir de tomar todas as decisões impulsivas, rasgar aquele contrato se for necessário, qualquer coisa para que Seulgi voltasse a olhá-la com calor em vez… disso .

 O pensamento, a vontade covarde, veio e foi na mesma velocidade. 

Piscando para despistar a ardência em seus olhos, Yoo devolveu o olhar firme da outra mulher, vestindo aquela armadura familiar. 

- Eu não vou voltar atrás - Sua voz saiu firme. Alto. Ela não hesitou. Não gaguejou. 

Por mais que quisesse, por mais que tivesse a possibilidade de Seulgi não sentir tanta raiva dela caso fizesse, Jaeyi não iria voltar. Ela conhecia o valor da decisão, da parceria, principalmente do alívio nítido em Hee Yoon quando apresentaram o contrato final. 

Seulgi estava com raiva dela por mentir, por deixá-la de fora, por ultrapassar uma linha muito sensível e importante para ela sem sua aprovação. 

Sua dor era compreensível. 

Ela estava com raiva de Jaeyi. 

- Se eu pudesse fazer diferente, te contaria no momento que tive a ideia - Ficou satisfeita com a volta do profissionalismo em sua voz, escondendo bem o aperto quebrado em sua garganta - Eu te convenceria em vez de fazer pelas suas costas. 

Seulgi soltou uma risada desacreditada, finalmente mostrando um pouco mais de emoção. Ela ergueu os braços sobre a cabeça, mexendo no cabelo, como se não soubesse se queria organizá-lo ou bagunçar ainda mais. 

- É exatamente disso que estou falando, Yoo Jaeyi! Me convencer? Você não pode presumir que sua ajuda, sua generosidade é a solução para os problemas das pessoas! Saia desse pedestal, nem todo mundo aprecia sua intromissão.

- Eu sei disso muito bem, Seulgi. Mas nesse caso, com esse acordo, eu acredito que foi uma boa decisão. A decisão certa.

A expressão de Seulgi mudou totalmente. Ela rachou. 

Finalmente rachou. 

Estava desacreditada. Deu alguns passos repetidos, ainda evitando circular a mesinha que as separam. 

- Agir pelas minhas costas enquanto subia na minha cama era o certo então? Esses movimentos, a insistência, foi, o que, premeditado? 

- Não! Céus, Seulgi, nem mesmo você acredita nisso - Jaeyi soltou um suspiro alto, desacreditada de tal acusação - Não pode acreditar. 

Os olhos dela brilharam, tremendo em busca de algo pela casa, evitando a sua feição crua.

- E no que eu posso acreditar? Você deixou mostrou bem sua habilidade de esconder as coisas. 

Yoo Jaeyi se levantou, gesticulando, implorando

- Eu vi como você estava exausta! Você praticamente desmaiava no banco do meu carro quando ia te buscar. 

Respirou fundo, tentando se aproximar - Seulgi-ah, você se esforça. Pula de emprego e emprego para sobreviver. Consegue ser a primeira na faculdade. Você trabalha duro, oferece sangue e suor para a padaria e sua mãe.

- E isso nunca foi algo novo ou um problema para mim, Jaeyi, e não é algo que tenha que sentir pena - seu tom diminuiu novamente, quase de modo ameaçador - não ouse sentir pena de mim, está me ouvindo?

Jaeyi tentou dar um passo na sua direção, na qual Woo recuou dois. 

- Eu nunca senti isso, Seulgi-ah, acredite. Não é porque alguém que se importa com você e estende a mão que significa que seja por um senso de misericórdia. 

- Uma mão que eu sequer pude ver a princípio, né? Quanta generosidade. 

Jaeyi a olhou com uma breve descrença, começando a sentir o pânico realmente esvair seu autocontrole.

- Ano que vem você se forma. Como seria depois disso, hum? Os primeiros anos de residência são um completo inferno. De onde você tiraria tempo para cuidar da sua madrasta? Você pensou em algum plano?

- Eu daria um jeito!

- Você sequer pensou nisso até agora! Você me disse que estava com medo, preocupada com as chances de terem que fechar o lugar e eu ouvi.

- Era para você ter parado aí mesmo. Ouvir! Estar lá e não montar um plano mirabolante pelas minhas costas. 

Seulgi lhe deu as costas pela primeira vez, cruzando os braços grosseiramente em volta do corpo.

Yoo não respondeu. Respirando fundo, o coração batendo forte, ela tentou agarrar a esperança de que era algo passageiro. 

Foi uma bomba. 

Seulgi estava chateada - com razão - mas ela iria... não, ela tinha que entender o lado dela. 

Quando explicasse o contrato, os benefícios, quando falasse o jeito que sua mãe ficou aliviada, ela entenderia. 

Céus, ela também se sentiria mais leve

- Seulgi, eu.. Por favor, me escute, me deixa.. - Jaeyi respirou fundo, odiando sentir que estava quase desmanchando aquela mesma armadura de sempre - Me deixa te mostrar o acordo, me deixa explicar. 

- Não. 

Simples assim. 

Frio e áspero. 

Ela se lembrou do mesmo tom de quando trocaram as primeiras farpas no ensino médio. Quando se viram no beco. Quando se encontraram pós bar.

  Não, não poderiam voltar para a estaca zero. Por favor.

- Não? 

Seulgi concordou sem encará-la.

- Eu não quero ouvir nada de você e não quero conversar agora. 

A advogada quis se aproximar, provar com as próprias mãos que aquela nuvem de granizo entre elas era apenas... passageiro. Mas se conteve. Teve que fazer. 

- Seulgi, por favor, não faça isso. 

Ela não respondeu, apenas andou em direção a cozinha, agindo como se terminar aquele maldito café fosse mais importante do que aquela conversa.

Jaeyi a assistiu em silêncio. Processando tudo de uma vez. 

- Você não acredita que sejamos só isso. Você.. - gaguejou - Que tudo o que lhe dei do meu coração tenha sido por outro interesse ou qualquer outra coisa fora o fato de eu gostar de você, Seulgi.

Woo não respondeu, nem mesmo quando um sua voz quebrou ou quando as costas dela ficaram visivelmente tensas quando um som próximo a um soluço escapou da advogada.

- Eu ultrapassei um limite seu e eu peço desculpas por isso, por não ter te contado, mas não posso me desculpar por ter ajudado a padaria. 

- Inacreditável - Seulgi disse em um tom baixo, ainda de costas, esfregando algo no rosto rapidamente  - Acho melhor você ir para casa. 

Jaeyi se aproximou da bancada, até sua lateral. Não tocou em Seulgi. Mas precisava olhar em seu rosto. Precisava ver seus olhos de coruja enquanto a negava. 

- Conversa com Yoo ou Kyung então, elas tem uma cópia de todos os documentos e sabem dos mínimos detalhes - O pedido saiu baixo, quase um sussurro perdido. 

Uma risadinha fraca, machucada, saiu da outra - Devem saber mesmo. 

- Seulgi-ah.  

- Eu te pedi sinceridade - disse quando a encarou novamente. Só então a maior percebeu como suas mãos tremiam enquanto segurava a vasilha de café. Ela recuou. 

– Apenas vai para casa.


Woo Seulgi

Fazia horas que Yoo Jaeyi tinha ido embora.

Seu cheiro e o eco de sua voz quebrada ainda permaneciam em cada canto daquele apartamento. 

Seulgi permaneceu um longo momento naquela sozinha pequena, sufocante, tentando assimilar tudo. Moveu-se apenas para ir até o sofá.

Quando ela tinha se permitido mostrar tanta vulnerabilidade? Como ela não percebeu? 

Tinha sido tão estupido. 

Fazia sentido, afinal. 

Como Hee Yoon parecia mais feliz no último mês, mais tranquila em relação às contas mesmo com a padaria voltando a fechar mais cedo, como ela e Jaeyi pareciam sempre ter aquele ar leve de respeito e admiração pela outra, algo perto de cumplicidade, às vezes como dívida.

Woo ficou ali, sentada, olhando para a mesma mancha estúpida na parede a sua frente desde manhã, horas atrás. Ela não chorou. Não sabia se deveria. Se tinha mesmo um motivo para isso. 

Jaeyi tinha ajudado sua família. Em troca, Seulgi gritou e a botou para fora. Em tese, não era ela quem deveria chorar. 

Perto do pôr do sol, quando seu rosto já estava seco da ardência irritante e os olhos opacos, a porta da frente se abriu novamente. 

Choi Kyung. 

Ah, é. Ela ainda morava com essa traidora. 

Sua quase ex-inquilina entrou no lugar tranquilamente, cantarolando baixo, possivelmente feliz depois de ter passado um bom tempo com a namorada. 

Seulgi faria questão de arruinar essa alegria com as próprias mãos. 

Ela não pareceu estranhar a escuridão silenciosa da casa, até acender as luzes da sala e dar de cara com uma Woo Seulgi pálida parada no sofá como quem esperava o momento certo para fazer uma entrada dramática, cometer um assassinato ou desmaiar a qualquer instante. 

- Jesus Cristos - Choi pulou contra a porta, a mão no coração enquanto bufava alto - Porra, já falei para não fazer esse tipo de brincadeira!

Seulgi apenas a encarou. Kyung estranhou ainda mais o silêncio, aproximando-se com cuidado, em dúvida sobre se deveria se sentir preocupada ou com medo. 

- Há quanto tempo você sabia? 

A mulher congelou por um momento, parecendo tentar entender a frase, até uma realização brilhar em seus olhos e ela engoliu seco. 

Seulgi sabia a resposta, queria ver até onde sua audácia iria.

- Desde o começo. 

Seulgi concordou de leve, ainda neutra com a confirmação. 

- Está despejada. 

Choi revirou os olhos, indo até a mesa de jantar para deixar suas coisas enquanto dizia com uma confiança irritante - Não estou, não. 

Seulgi a observou de longe, um pouco frustrada pela falta de confiança em sua ameaça.

- O contrato está no meu nome. 

- Sim, mas sem um motivo decente e um aviso prévio, você não vai. Isso se não quiser levar um processo nas costas. 

Seulgi não ficou surpresa. 

- Você me traiu. 

Choi murmurou em concordância, realmente ignorando seu descontentamento, enquanto seguia para a cozinha. 

A universitária começou a sentir sua raiva voltando - Não toque em nada que não seja seu. 

Kyung virou os olhos e gemeu dramaticamente alto, cansada demais para lidar com isso - Ai, que drama, Seulgi-ah.

- Estou falando sério - Tentou elevar a voz enquanto se levantava do sofá, mas uma súbita onda de fraqueza a fez cambalear. Seulgi só não caiu por conta da mesa de centro, na qual se apoiou a tempo. 

Sua companheira a olhou na cozinha, franzindo o cenho antes da compreensão bater - Você comeu algo hoje? 

Ainda irritada, Woo não respondeu, jogando-se novamente contra o sofá. 

Choi olhou em volta, procurando algum vestígio de uma refeição. 

Nada na geladeira, na pia, nenhuma embalagem de entrega na bancada ou na lixeira. 

- Vou pedir algo enquanto faço um chá para você - explicou enquanto se movia pelo espaço. Percebeu uma jarra de café aberta, o líquido intocado e frio não ajudou muito em sua investigação. 

- Prefiro tomar água do esgoto. 

- Posso pegar um pouco da privada se preferir - disse com uma firmeza que Seulgi sabia que era sincera - Jaeyi te contou ou você descobriu? 

- Ela me contou. 

Kyung fez um som de concordância, focada em acender o fogão - Pelo menos isso, aquela idiota não deveria ter demorado tanto. 

- Ela não deveria sequer ter cogitado fazer isso. 

Choi a olhou de longe, terminando de preparar o sachê em sua xícara preferida. 

- E então você prefere que sua madrasta continue passando sufoco com a padaria? Prefere que ela feche o lugar que a sustenta? 

Seulgi não respondeu por um momento. Estava relutante. Já tinha ideia de como a conversa com a choi iria se desenrolar.  

- Eu poderia ter dado um jeito. 

Kyung continuou focada em sua tarefa - Poderia, mas nesse caso, não precisou. Não é o fim do mundo. 

Seulgi ficou em silêncio, assistindo sua amiga traiçoeira se aproximando com a bebida quente e um pacote de biscoitos de morango que gostava. A universitária atacou o lanchinho rapidamente, se criticando mentalmente por não ter comido antes. 

A advogada assistiu em silêncio, alternando seus olhares entre o cardápio em seu celular e verificar se a amiga comia. O silêncio era confortável. Nostálgico. 

Seulgi observou a mulher bebendo o próprio chá confortavelmente, percebendo o quão distante fora a última vez que passaram um tempo assim.

- Eu desabafei com ela sobre algo pessoal e ela agiu pelas minhas costas - Woo retornou com a conversa, finalmente deixando que a tristeza e o toque de traição refletissem em sua boca.

- Então esse é realmente o problema?

Seulgi não respondeu. 

- Posso falar o que vejo da minha perspectiva? Você tinha um problema. Alguém resolveu. E não foi alguém qualquer. Yoo Jaeyi resolveu. Você se sentiu vulnerável. 

Woo Seulgi tentou argumentar, mas Chou só precisou de um sinal para calá-la. - Você é teimosa e orgulhosa, mesmo que não admita. Talvez essa vulnerabilidade, o jeito que você ficou transparente para Jaeyi, te assustou mais do que toda essa raiva que diz ter.  

A universitária ficou bebeu um pouco da bebida, tentando pensar em um contra argumento. Choi sempre foi melhor que ela nas aulas de debate. Era frustrante

- Não sou orgulhosa. 

Kyung riu um pouco, terminando seu chá com um gole antes de continuar arruinando sua dignidade. 

- Quando você precisava de dinheiro para o almoço, em vez de pedir ajuda para Yoon, preferiu ajudar um vizinho com a neve do telhado dele e quase caiu - Choi fez uma pausa dramática - de dois andares. 

- Eu esqueço como vocês são fofoqueiras. 

A advogada bufou ao seu lado, passando a mão livre em seu cabelo, fazendo um carinho de cachorro que ela sabia que Seulgi odiava. 

- E você precisa de terapia - estendeu o telefone na sua cara - Estou pensando em pedir aquela porção grande de topokki que você gosta, pode ser?

Seulgi estreitou os olhos - Está tentando comprar meu perdão? 

- Na verdade estou tentando evitar que você desmaie no meu sofá - Brincou, voltando sua atenção para o pedido. Seus olhos se arregalaram por um momento - Minha nossa, o refrigerante está um absurdamente caro. Vou buscar aqui na esquina. 

- O que eu faço? - Cortou a divagação sobre o jantar da outra. 

Choi a olhou confusa por um momento, recordando-se de sua crise. 

- Eu não sei. Ser sincera com ela? 

- Eu fui sincera.

- Você foi, mas não totalmente.

Seulgi respirou fundo, finalmente sentindo as emoções subirem a garganta novamente - Eu me senti exposta.

Ela pendurou a cabeça entre as mãos, massageando. 

- Você, Yeri e Yoon, vocês me conhecem há anos, sabem quase tudo sobre mim e esses.. problemas e o meu jeito. Jaeyi… Ela é muito. Ela me deixa confusa, ela..

Suas mãos empurraram seu cabelo para longe do rosto. 

- Ela é intensa. Ela testa todos os meus limites, empurra e então recua quando percebe que é necessário. Céus, tem vezes que eu nem preciso falar nada e ela simplesmente sabe - apertou o rosto entre as mãos, frustrada. 

Woo não percebeu o sorrisinho nostálgico em Choi - E então ela é tão pacífica e.. suave? A presença dela é sempre tão marcante, mas consegue se camuflar em algo confortável e silencioso tão bem. 

- Você não percebeu o quanto ela te entendia bem até agora? 

A pergunta veio calmamente, gentil. Seulgi concordou de leve. Sentindo os olhos começarem a arder. 

- Quando você me oferece ajuda, quando mostra que se importa, eu já sinto aquele conforto familiar. Você é como uma irmã. Minha mente já se acostumou com a ideia, com o fato de que eu faria a mesma coisa por você se necessário. 

A advogada concordou - E você sente a mesma coisa com Yoon e Yeri.

- Quando Jaeyi disse que percebeu o quão exausta eu estava, quando se prontificou para ajudar minha família com todos os recursos necessários… eu gelei. Fiquei com medo.

- Você se deu conta que faria o mesmo por ela? 

A questão caiu com o peso perfeito. Se infiltrou nas veias de Seulgi. Envolveu seu coração como se o obrigasse a bater mais rápido. 

Ela encarou Kyung. 

- Acho que eu faria pior. 

A mulher sorriu de leve - De novo, qual é o problema então? 

- Eu não gosto de me sentir exposta.

 Ambas permaneceram ali pelos próximos minutos, bebendo chá e deixando que o ambiente voltasse ao conforto lento e crepitante. 

Em dado momento, Choi deu dois tapinhas em seu joelho, pediu para que fosse tomar um banho enquanto saia para buscar o refrigerante e a comida. 

Quando Seulgi voltou para a sala, o jantar estava posto, a bebida na mesa e uma Kyung relaxada no sofá a recebeu com um olhar tranquilo. 

- Quer assistir alguma coisa?  

Woo negou de leve, se jogando ao seu lado enquanto terminava de secar o cabelo com uma toalha. 

 - Me conta sobre o contrato.

A advogada franziu o cenho - Ela não te explicou? 

- Eu.. não deixei - Kyung riu enquanto separava um pouco de comida para si. Teria que conferir se o seu incômodo do trabalho estava vivo mais tarde. 

  “Ela deve estar surtando agora” pensou divertida. 

- Primeiro, a idiota queria contratar sua tia e a equipe da padaria para um buffet de um evento da agência

- Por quanto? 

- Cinco milhões de wons. 

Os olhos de Seulgi se arregalaram em descrença. 

Choi riu da sua expressão - Ela não queria sobrecarregar vocês, mas na prática, só três pessoas seria um desastre. 

- E qual foi o acordo final? 

- Nós planejamos juntos com Hee Yoon. A agência comprou cerca de trinta por cento da padaria, o suficiente para poder investir livremente no que Jaeyi e Yoon achassem necessário. Especificamente na publicidade e novos funcionários. 

A universitária soltou uma risadinha enquanto começava a preparar sua porção - Novos funcionários? Quase não temos clientes. 

- Não é para a primeira unidade. 

Seulgi sentiu o sangue sumir do seu rosto. Sua mão congelou com os hashis segurando metade de um ovo cozido no ar. Choi ajeitou os óculos daquele jeito irritantemente convencido.

- Talvez você não tenha percebido por estar se esgueirando pela agência como uma foragida, mas uma área do prédio está em reforma para abrirmos uma ala de refeição. Sua padaria será responsável pelo café da manhã e da tarde de toda equipe. Essa seria a segunda unidade. 

Foi a vez da universitária rir, embora fosse mais de nervosismo do que humor. 

Se antes a culpa por ter espantado Yoo Jaeyi já fosse insuportável, agora parecia quase sufocante. 

- O que, como.. 

- Sua madrasta será a responsável por tudo; contatar fornecedores, cardápio, rotina, preparo dos funcionários e Jaeyi, bom, ela é a principal patrocinadora. 

Seulgi não percebeu que segurava o ar até que sentiu uma leve queimação nos pulmões. Ela suspirou alto, apertando ambos os joelhos com as mãos. 

- Isso não seria.. suspeito? 

Kyung deu de ombros - Ela pensou em cada detalhe e o dinheiro também agilizou as coisas. Está tudo limpo. Organizado. Jaeyi reclamou tanto da burocracia da minha mãe que se tornou uma versão pior dela. Estava à flor da pele.. 

Woo mastigou o ovo cozido em silêncio, em culpa, ainda tentando assimilar o peso de tudo. 

Esse contrato. Essa “simples ajuda” iria mudar a vida de sua madrasta. Uma súbita vontade de chorar invadiu seu peito. 

- Foi bonitinho ver a empolgação dela. Até convenceu sua mãe a trazer algumas amostras nas reuniões com os fornecedores. 

Seulgi levantou-se subitamente, correndo até o quarto em passos quase raivosos. Choi a olhou em dúvida, terminando de mastigar seu macarrão rapidamente. 

A universitária voltou de jeans e um casaco grosso. A advogada entendeu na hora. 

- Eu perdi algo?

- Vou ver Jaeyi - Respondeu enquanto ia até a porta, tentando calçar seus sapatos com pressa.

- Não sei se é a melhor ideia. Não está tudo muito recente? Você já superou a raiva dela?

- Não, mas agora tem uma bola de culpa incomodando… - Seulgi tropeçou entre os pulos para encaixar a porcaria do sapato. Quase caiu de cara, mas se recuperou - incomodando minha sanidade. 

- Você ainda está muito emotiva, Seulgi. E não comeu nada o dia todo. Fica. Come. Eu mando mensagem para Yoo Jaeyi se você preferir. 

- Não! Eu não quero mandar recado para ela ou mandar mensagem. Eu quero vê-la. Pessoalmente. Eu preciso… - Uma lágrima desceu do seu rosto. Seulgi xingou baixinho enquanto olhava para baixo. 

Ouviu Kyung se aproximar de onde estava. Passos calmos, quase hesitantes. 

- K-kyung, eu não queria. Eu não queria ter ficado tão emotiva. Eu odeio ficar assim. Odeio. 

Sentiu sua irmã abraçá-la de leve, fraca o suficiente para que Seulgi conseguisse se distanciar se quisesse. 

- Eu fui tão babaca - sussurrou contra ela. 

- Olha, em sua defesa, Jaeyi desperta o pior nas pessoas as vezes. 

- Estou falando sério, Kyung.

- Eu também. Escute, coma primeiro - disse enquanto a puxava para o sofá novamente, entregando sua refeição - se você quiser ir atrás dela depois de comer, eu te levo. 

Seulgi, ainda meio chorosa, fungou alto, segurando seu prato como uma criança repreendida - sério? 

Choi fez uma careta. 

- Meu deus, me sinto uma mãe. Sou muito nova para isso e Yeri ainda precisa amadurecer muito. 

- Você fala como se fosse anos mais velha. 

- Perto de vocês duas me sinto um ancião, como se estivessem sugando minha vitalidade. 

Seulgi fungou de novo, mastigando a massa de arroz com queijo lentamente. 

Estava tão bom. 

Sentiu vontade de chorar de novo. 

Deixou que Kyung divagasse ao seu lado, focada em entreter a amiga chorosa. Era um jeito meio atrapalhado de cuidar de alguém, mas Woo já estava acostumada. 

Ela acabou não indo atrás de Yoo Jaeyi. 

Depois de se empanturrar, o sono bateu com força e, como se o universo estivesse mandando uma precaução para mantê-la em casa, começou a chover.

Forte. Raios. Trovões. Tudo do mais intenso da mãe natureza. 

Mais tarde, deitada em sua cama, Seulgi olhava para a janela, assistindo à chuva depois de tirar um cochilo. Um relâmpago a acordou perto das duas da manhã. Mesmo com todas as nuvens no céu, uma fresta deixou que a luz da lua brilhasse em sua janela. 

As gotas desciam com um brilho bonito. Normalmente, Woo voltaria a dormir rapidamente com essa visão. Mas, obviamente, aquela noite era diferente. 

Sonhara com Yoo Jaeyi. 

No primeiro dia que treinaram juntas. Em sua risada. Seu jeito desengonçado e animado. 

Seu rosto não saia da sua mente.  

O sonho foi bom. Tranquilo. Quase relaxante. Uma facada cruel em comparação com a realidade. 

Naquela noite, depois de ter seu sonho roubado, Seulgi fez yoga até o amanhecer.


Dois dias se passaram desde a briga do apartamento. 

Sim, Woo Seulgi se acovardou. 

No dia seguinte, mesmo sem ter dormido nada, a bartender foi até sua madrasta. Chorou como um bebe em seu colo, levou outro sermão por ter agido tão impulsivamente e teve outro momento de choro compulsivo e conforto enquanto sua mãe preparava sua sopa favorita. 

Apenas quando a observava cozinhar que finalmente teve um tempo para reparar. Sua mãe cantava tranquilamente, existia uma nova suavidade em seus ombros. Seulgi também percebeu como sua caderneta de despesas estava um pouco mais fina. 

Seu peito se apertou. 

Alívio. Puro e tranquilo alívio gélido. Ela sorriu um pouco, voltando sua atenção ao desenho animado que Yoon colocou para ela. 

No fim do dia, conseguiu uma semana de férias da padaria. Fora todo o caos em sua vida amorosa, suas férias da faculdade estavam próximas junto com os últimos exames daquele ano. 

Seulgi prometeu a si mesma que se desculpará com Yoo jaeyi essa semana. 

Ela finalmente tinha tempo livre. Quando não estivesse tentando vender sua alma para os livros, queria usufruir seu tempo com a advogada.

O mundo, mais uma vez, a lembrou que sua sorte era uma grande merda. 

Sua geladeira estava vazia há semanas. Se Hee Yoon viesse em outra visita surpresa no apartamento, não queria nem imaginar como o puxão de orelha doeria. 

E então Woo Seulgi foi fazer compras. 

Levou cerca de quarenta minutos entretida entre as fileiras do supermercado para se arrepender amargamente da decisão. 

- Woo Seulgi! - ela congelou na sessão de limpeza. 

Yoo Jena veio quase pulando em sua direção. Seu coração disparou. Ainda tentava processar que essa mulher, um pouco mais baixa que ela e muito alegre, era a CEO do maior hospital da cidade e irmã de Jaeyi. 

Que, aliás, estava poucos passos atrás dela. 

Todo o sistema da bartender entrou em pane. 

Yoo Jaeyi estava linda. Toda de moletom. Um boné sobre o cabelo solto. Sem maquiagem. Suave, mas cansada. Parecia focada no vidro de amaciante em suas mãos. Seulgi queria correr até ela e se jogar em seus braços. 

- Como você está?  - Jena chamou sua atenção depois de alguns segundos. Seu sorrisinho deletava sua empolgação com a interação. 

Fingindo estar alheia, Woo retribuiu a expressão de gentileza com a médica ao seu lado - Estou bem, Sra. Yoo. E você? 

A mais velha concordou com um assobio engraçado, fazendo uma careta - Apenas Jena ou unnie, se preferir. Não me faça sentir tão velha.

Seulgi concordou, sentindo seu rosto esquentar.

Jena se empolgou em seu carrinho, olhando o conteúdo com uma curiosidade genuína. Ao contrário da festa de alguns dias atrás, a mulher à sua frente não se parecia nada com a CEO intimidadora que conhecera. 

Tudo em sua atitude tinha uma leveza diferente. Brincalhona. Familiar.

- Compras do mês? 

A conversa seguiu com alguns tópicos triviais sobre a mercadoria e o clima. Seulgi tentou roubar outro vislumbre de Jaeyi, mas a mulher já havia sumido de vista. 

Se sentiu murchar por dentro. Até outro detalhe pular em sua mente. 

Seu sangue gelou. Jaeyi não estava ali. Ou seja, ela estava sozinha com Yoo Jena pela primeira vez. 

Como se percebesse seu repentino nervosismo, a mais velha riu um pouco. 

- Posso te contar um segredo, Woo Seulgi? 

Meio tremendo, a universitária concordou. 

- Jaeyi adora chocolate meio amargo com castanhas de caju. 

Seulgi ficou visivelmente confusa. A médica, por outro lado, ainda parecia completamente confortável ao seu lado. 

- Sabe, ela está chateada, então estou te dando uma dica. Caso não tenha notado, mesmo com toda aquela pose durona, ela adora doce - Jena refletiu um pouco, dando a volta no carrinho para se aproximar - Primeiro conversa com ela. Seja sincera. Se oferecer o chocolate de primeira, ela fica ainda mais irritada. 

A bartender sentiu seu pescoço pinicar. Era óbvio que  a Yoo mais velha sabia, embora estivesse surpresa que a mulher estivesse tentando ajudá-la em vez de crucificá-la por ter machucado seu sangue.

- E não se engane, estou irritada por ter expulsado minha irmã daquele jeito. 

Ah, claro. 

- Mas eu entendo como se sentiu. De verdade. - Woo desviou o olhar. De novo aquele incômodo de ter sua vulnerabilidade sendo tão exposta na mesa. - Vocês duas se parecem um pouco. 

Seulgi a olhou com ceticismo. Jena entendeu o porquê. 

- Irritantemente teimosas?

- Algo do tipo. 

A universitária deu uma risadinha sincera. Elas trocaram mais algumas palavras até o próximo corredor. Queria questionar por que ela está sendo tão legal, ou porque ainda estava caminhando com ela. 

Mas não era o que Seulgi queria saber de verdade. Com o último item da lista no carrinho, a universitária recolheu um pouco de coragem. 

- Ela está bem? 

Jena ponderou - Ela tem trabalhado mais. Sinal de quando prefere ocupar a cabeça do que resolver um problema delicado. 

- Me desculpe - o pedido saiu antes que percebesse. 

Yoo fez um gelo singelo, despreocupado - Ela vai sobreviver, fica tranquila - deu uma pausa, pensando - Talvez não tão tranquila ainda, precisa falar isso para ela primeiro. 

Na noite seguinte, quando Yeri e Kyung chegaram no apartamento, se surpreenderam com o cheiro de comida caseira espalhado pela casa, junto com um aroma de chocolate derretido. 

Yeri foi a primeira a agir, quase pulando nas costas de uma Seulgi focada demais no fogão para reparar em sua chegada. 

- Que cheiro bom é esse? 

- Bulgogi e Gyoza. Me passa aquela travessa no balcão, por favor? - Yeri atendeu o pedido depois de roubar uma massa recheada do seu prato. 

Kyung se aproximou depois de ir até o quarto. Seulgi percebeu suas meias de cores diferentes e riu. 

- Cala a boca. Sai atrasada hoje - A advogada respondeu, roubando outra massa. 

- Como foi o julgamento? 

- Ganhamos. Nada de novo. Jaeyi massacrou o réu. Estamos confiantes com a sentença. - Choi seguiu até o sofá, se jogando sobre a namorada, que soltou um gritinho como se fosse uma rã sendo jogada no alto - Estou exausta, Seulgi-ah. Por favor, nos alimente. 

- Está quase pronto. De sobremesa, vocês vão provar um doce de fondue que eu fiz. 

Joo se animou, elevando a voz sob o peso de Kyung - O que é isso tudo, afinal? 

- Eu.. hum, encontrei Jaeyi e Jena no supermercado ontem. 

Kyung foi a primeira a se levantar, quase caindo do sofá - E você só me conta sobre isso agora? Não é atoa que aquele demônio estava estranho hoje. 

- Estranho? 

- É, mais aérea. Desde a rinha de vocês ela ficou fechada, com aquela cara de cu para todo lado - yeri riu do comentário, pulando até a panela de chocolate como uma criança - Mas hoje ela parecia mais… leve. Menos tensa. Não sei. 

- O que você fez, Woo Seulgi? - Joo acusou ao seu lado com aquele seu sorriso malicioso. 

- Nada? Ela fugiu do meu campo de visão como se eu fosse uma praga - comentou, com uma decepção teimosa em sua voz - Mas conversei com Jena. Ela me disse que Jaeyi adora esse chocolate com castanha, então pensei..

Um coro de provocação vibrou de suas amigas. Seulgi se arrependeu de tudo. De ter aberto a boca, oferecido o doce e, principalmente, não ter envenenado a comida. 

Kyung subiu no encosto do sofá - Amanhã vamos ter uma reunião com os fornecedores da padaria. Coisa rápida. Minha mãe e Hee Yoon vão cuidar de tudo. 

Seulgi a olhou por um instante, tentando assimilar a informação. Choi quase bufou. 

- Significa que Jaeyi vai estar, teoricamente, menos ocupada. Sabe, caso queira sair da sua toca - A mulher zombou. 

A universitária assimilou um pouco. Amanhã, sexta-feira. Yoo gostava de trabalhar em casa nos finais de semana, então só poderia encontrá-la novamente na segunda. Não queria ir até sua casa. Tinha medo de a encurralar em sua zona de conforto. 

Amanhã seria a melhor opção.

Observou Yeri levar uma colher recheada de brigadeiro para a namorada, entregando o doce em sua boca com um som de aviãozinho quase patético. Seulgi quis jogar água nelas, mostrando seu desgosto pela imagem e sua fração de inveja. 

- Nossa, está realmente bom - Choi disse. 

Yeri sorriu, se aproximando dela - É? deixa eu provar um pouco. 

Ela deu alguns beijinhos na mulher, que riu com o rosto vermelho. 

Woo Seulgi ia vomitar. 

- Vou envenenar a comida de vocês. 

Naquela noite, pela terceira vez consecutiva, ela acordou de madrugada com outro relâmpago. 

Seulgi suspirou contra o travesseiro. Observando a tempestade pela janela. Puxou seu celular da mesinha do abajur ao lado, olhando o horário: meia noite e vinte e três. 

Ela ficou tentada a mandar mensagem para Jaeyi. Queria saber se ela conseguiu dormir nesses dias ou se também tinha escutado o mesmo raio que rasgou o céu. Inferno, sentia falta até das suas cantadas horríveis.

Woo percebeu algumas mensagens esquecidas de Jung, um bom entretenimento para distanciá-la da tentação. 

Jung (padaria): EI, Woo Seulgi, você resolve tirar férias quando o trabalho triplica?! 

Nossa, aquele lugar é gigante! Me perdi três vezes para encontrar o banheiro. 

E aquela cozinha é de outro mundo, você vai surtar! 

Yoon disse que talvez nosso uniforme mude, algo mais social e elegante. 

Ela perguntou se eu gostaria de ser gerente da padaria quando tudo estiver pronto. O que isso significa? Você vai nos abandonar, sua maldita? 

Sua namoradinha é tão diferente aqui. Ela me dá arrepios.

Seulgi sentou-se com a menção de Jaeyi, digitando rapidamente. 

Jaeyi tem acompanhado tudo de perto?

Jung (padaria):Ficou surpresa quando a resposta veio rápido. Quase se esqueceu que Jung tinha o hábito de jogar até tarde. 

Ata, sobre ela você responde.

Desculpe. Exames finais. 

Jung (padaria): Aham.

Heen disse que ela aparece com frequência. 

Especificamente nos dias que transferimos algumas coisas da primeira unidade. 

Hum. 

AJung (padaria): liás, olha isso. 

Recebeu uma foto de um fogão visivelmente profissional, muito maior e mais caro do que aqueles da padaria.

Deve caber uma pessoa inteira nesse forno!

Jung (padaria): Woo Seulgi, quando inaugurarmos você tem que vir.

Ela respondeu com uma joinha, se jogando contra a cama com força e apertando os olhos. 

Estava morrendo de saudades de Jaeyi. Não era uma novidade. Sequer lutava contra isso. E só se passaram seis dias. 

Que gracinha. 

No fim, Yoo Jaeyi realmente ganhou essa disputa. Essa mulher se enroscou em sua traqueia de uma forma surreal. Era viciante. Era doce. Era avassalador. 

Era patético.

Ela era patética. Seulgi sentia mesmo a falta de Jaeyi. Ela sabia disso. Todo mundo sabia disso. Mas ela se mantinha ali, parada. Sabia que quando finalmente se encontrasse com a advogada, teria que colocar sua vulnerabilidade na mesa. Totalmente.

Teria que retribuir aquela moeda de sinceridade. 

Seulgi esfregou o rosto com força, gemendo baixinho com o conflito em seu coração.

Seu celular vibrou. Jung. Uma foto em anexo a fez se levantar rapidamente outra vez. 

Jaeyi conversando com sua mãe, sorrindo largamente ao ponto de poder ver suas covinhas. Ela estava linda. Elegante. Embora seu visual estivesse totalmente o contrário de quando a viu no supermercado, o efeito sobre si foi o mesmo. 

Seulgi segurou o impulso de engolir o celular. Sentia que podia derreter com a simples visão da mulher em uma única foto de qualidade duvidosa e meio tremida. 

Ela suspirou alto, apaixonado e sofrido. 

Foda-se. 

Você tem mais?


A tão gloriosa sexta-feira

O dia amanheceu chuvoso e com neblina. 

Graças a sua roupa de motoqueiro, um presente de sua mãe - muito relutante em sequer deixá-la ter sua moto - Seulgi chegou na agência quase intacta da chuva. 

Claro, a parte de cima da roupa em seu braço estava encharcada. Yoon disse que ela parecia um ursinho sempre que vestia a roupa, visto que era um pouco maior que o seu tamanho certo. 

A universitária não costumava usá-la com frequência, mas pela ocasião e clima, agradeceu por tê-la em casa. Não queria molhar sua roupa escolhida cuidadosamente.

Assim que adentrou o prédio, o capacete pendurado em um braço e o casaco pingando no outro, percebeu Kyung e Yeri encarando-a perto do elevador. Elas acenaram, sorrindo confortavelmente enquanto se aproximava. 

Assim que as alcançou, depositou o capacete no colo de Yeri, buscando a bolsinha de proteção da roupa na mochila. 

- Que inferno de clima. 

- Você atravessou a cidade nesse temporal de moto? - Yeri perguntou com um humor misturado a preocupação. 

Quando entraram na caixa metálica, Seulgi mal esperou a porta se fechar antes de tirar a calça da proteção molhada. Kyung quase gritou, cobrindo-a com o corpo para a câmera de segurança. 

- Você sabe que estou com outra calça por baixo, ne? - Perguntou rindo, sendo acompanhada por Joo. 

- Eu sei, mas temos políticas nessa empresa, Seulgi. E você parece meio revoltada - A universitária revirou os olhos, embrulhando a calça com o casaco - Me dá, eu guardo na minha sala. 

- O que houve, afinal? Você chegou cedo - Yeri perguntou depois de cinco andares. 

- Aquele infeliz do Jung me mandou uma foto de Jaeyi. Era isso ou eu teria um surto psicótico antes do meio-dia - Respondeu enquanto ajeitava sua roupa. 

Escolheu uma calça jeans confortável, botas e sua camisa de beisebol da sorte. 

- Achei que você já estava no meio de um - Choi brincou, lhe entregando o capacete de novo.

- Passou maquiagem? - Yeri perguntou, segurando seu queixo para avaliar seu estado - Do jeitinho que eu ensinei, isso aí. 

Seulgi revirou os olhos, se afastando para arrumar o cabelo no espelho do elevador. O casal deve ter percebido sua agitação quase exagerada. 

É, três xícaras de café antes das sete da manhã tinha seus efeitos. 

Yeri pigarreou - Então… você vai resolver as coisas hoje? 

- Sinceramente, não sei. Talvez eu fuja assim que vê-la - soltou uma risada nervosa - O mundo é uma caixa de surpresas. 

- No seu caso, é aquela caixa com um palhaço feio - Kyung resmungou quando recebeu um soco leve - para Seulgi - no ombro - não gosto de você. 

- É recíproco. 

Yeri riu, se colocando entre elas por um momento. 

- Caso você não tenha certeza, aproveite que ela tem uma reunião com a minha sogra agora cedo para pensar bem.

Seulgi concordou, meio aliviada - Certo, vou dar uma olhada na ala de alimentação enquanto isso. 

Choi, por outro lado, tinha outros planos, rindo maleficamente enquanto puxava o celular do bolso - Não, não vai. Vou avisar minha mãe para ela adiar para depois. 

- Sério, porque você me odeia? 

A mulher apenas lhe mandou um beijo no ar. 

- Vou aproveitar que Ara estava lá também para se certificar que Jaeyi não sumiu. 

Seulgi revirou os olhos - Porque caralhos a sua secretária sempre está na sombra de Yoo Jaeyi? 

Um silêncio se entendeu. Woo percebeu que estava sendo vigiada assim que terminou de arrumar sua bolsa. Encontrou as outras duas de boca aberta, olhando para ela em choque.

- O que? 

Yeri soltou uma risada descrente - Você está com ciúmes?

Seulgi riu, olhando desafiadoramente para sua parceira de apartamento, que desviou o olhar segurando o riso.

- Oh, não sabia que você era tão tranquila com a cozinheira bajuladora que trabalha para a sua namorada. Você gostou da torta de limão que Choi levou semana passada? 

Outro silêncio. Choi Kyung, visivelmente pálida, fechou os olhos enquanto Yeri alternou lentamente seu olhar para ela com uma tranquilidade assustadora, embora o brilho em seus olhos revelasse outra coisa. 

- Como é, amor? 

A porta do elevador abriu. Só Seulgi saiu para o corredor. 

Sua adrenalina murchou no instante em que se pôs em frente à porta do escritório de Jaeyi.

Seulgi se dividiu em uma vontade de querer chorar e rir. 

 Conseguia ouvir algumas vozes abafadas atrás da porta. Seus passos vacilaram de um lado para o outro. Indecisa. Ela estava em reunião. Poderia se acovardar mais uma vez. Ir embora. Reunir o que sobrou de sua dignidade e tentar outro dia.

É, seria a outra melhor opção. 

Talvez. 

Ela estava dando uma desculpa? 

Foco, Seulgi!

E então a porta se abriu subitamente. Ela segurou um grito com a mão. A mãe de Kyung a olhou com surpresa antes de sorrir largamente. 

Merda. 

- Woo Seulgi! Que surpresa você por aqui - Cumprimentou se aproximando. Por um breve vislumbre enquanto ela fechava a porta, a universitária viu Jaeyi em sua mesa. 

Pior. 

Seus olhos se encontraram pouco antes da porta se fechar. 

- Tia! É bom te ver. Como tem estado? - Foi educada, recuando com a súbita nova descarga de adrenalina. 

- Muito bem e você? Sabe, você literalmente mora com a minha filha, mas tenho a forte sensação de que tem me evitado nos últimos meses. 

A mais nova forçou uma risadinha nervosa. 

- O que? Claro que não! Eu tenho estado ocupada com a faculdade e trabalho. Eu não faria esse tipo de coisa com você, Tia. 

A mulher a olhou por cima do óculos, exatamente como fazia quando pegava ela e kyung aprontando quando crianças. Ela sorriu, começando a passar por ela. 

- Quando terminar o assunto com Jaeyi, por favor, venha até minha sala. 

Seulgi engoliu em seco, concordando silenciosamente. Merda. Mais um sermão para a lista, incrível. 

Enquanto assistia sua advogada se afastar calmamente, voltou sua atenção para o problema atual. Sem perder tempo, aproveitando a recarga da sua agitação, deu três batidinhas na porta antes que pensasse demais para se arrepender.

- Entre.

Seulgi engoliu o que achava ser seu coração tentando fugir e girou a maçaneta. 

Jaeyi estava sentada em sua mesa, lendo um pequeno grupo de documentos, apoiada de modo confortável em sua cadeira enquanto cutucava o lábio em uma mania de concentração.

Ara estava sentada em um pequeno sofá ao lado, sua pose parecendo murchar um pouco quando Seulgi entrou. 

Antes que deixasse que seu silêncio a fizesse hesitar ainda mais, limpou brevemente a garganta. 

- Tenho algumas pendências sobre a padaria, Sra. Yoo - Disse alto, firme, sem hesitar. 

Por dentro, Seulgi era pura gelatina. 

Os olhos de Jaeyi saíram dos documentos em uma velocidade quase engraçada. Sua expressão e toda atitude corporal piscou para algo familiar. Animado. E então voltou para o gélido profissionalismo de antes, seja por se lembrar que não estavam sozinhas na sala ou por ainda estar brava com a bartender. 

Antes que a advogada conseguisse sequer formular uma palavra, Ara a interrompeu. 

- Na verdade, Sra, Yoo, ainda precisamos revisar o caso da empresa Industrial Drop até o fim desta tarde, então..

- Poderia, por favor, nos dar licença, Jo Ara - Embora parecesse um pedido, um único olhar com o tom cortante de sua voz foi o suficiente para deixar óbvio que fora um ordem. 

Assim que a porta se fechou atrás de Woo, sinalizando que estavam finalmente sozinhas, toda a tensão do lugar pareceu triplicar. 

- Ela é uma graça - Seulgi disse meio sem graça. Não poderia dizer que não se sentiu satisfeita, mas também não se sentia no direito de se gratificar.

- Ela vai superar - deu de ombros, sem desviar aquele olhar - Sobre a padaria, aconteceu algo? Por que Hee Yoon não veio me informar?

A universitária balançou as mãos, inquietas. Yoo acompanhou o movimento. 

- Bom, sendo sincera, era uma meia verdade. 

Silêncio. Calmamente, Jaeyi se inclinou em sua cadeira, olhando em volta enquanto refletia, deixando um pequeno sorriso divertido escapar entre seus lábios. 

Seulgi não acompanhou. Não era aquele mesmo sorriso caloroso. Embora fosse extremamente igual, seus olhos ainda tinham aquele ar nebuloso, tornando-o frio. Desafiador de um jeito nostálgico. 

- Mentir para uma advogada não é uma boa decisão, Woo Seulgi - ela acusou. 

- Estou sabendo. 

Silêncio. 

- E então? 

Seulgi respirou fundo. Não tinha mais como correr ou esperar a “melhor opção”. Não. Ela só precisava de uma coisa. 

Sinceridade. 

- Eu queria me desculpar. 

Jaeyi não reagiu. A universitária não esperou que fizesse. 

- No começo, eu fiquei irritada por ter sido mantido de fora. Por você ter escondido algo que iria interferir na minha vida de mim, mesmo quando eu disse que odiava isso. Mas a padaria não era o grande problema - Suspirou, querendo andar pela sala. Inquieta. Buscando uma reação. Querendo fornecer alguma - Você me fez me sentir exposta, Ypp Jaeyi. Crua. Alguém a ser cuidado. Isso me assustou. Nunca soube lidar bem com isso, então ataquei. 

- Você com certeza não é a melhor. 

Seulgi riu baixo, saboreando as palavras venenosas e merecidas. Ela deixou que o silêncio se prolongasse um pouco, aproveitando para buscar mais palavras, tentando balancear o controle de suas emoções. 

- Mas estou ouvindo - A voz de jaeyi saiu um pouco mais baixa, mais leve, quase como se ela colocasse a mão em sua bochecha em um carinho, mesmo estando a metros de distância. 

A universitária respirou, controlando a ardência em seus olhos. 

- São muitas coisas que eu não deveria ter feito e falado, mas fiz e não posso voltar atrás… Não estou esperando algum perdão, ou tranquilizar minha alma, ou esperar que voltemos a ser como antes - Disse de uma vez, confusa se deveria evitar seus olhos ou não.

A advogada ponderou, cruzando os braços - Você quer voltar a ser como antes? 

- Não. Digo, não exatamente - a universitária respirou fundo, alto, mordendo o lábio. Sentia que sua extravasão sairia do controle novamente - você quer? 

Yoo a observava atentamente. Ela girava um pouco a cadeira, mostrando um pouco da sua própria inquietude - Depende. O que “antes” significa para você? 

Esperança vibrou em sua garganta. Seulgi a agarrou como quem precisava para sobreviver. Ela sentiu uma fraqueza em seus joelhos. Uma vontade avassaladora de ceder. 

Jaeyi  estava bem ali. Tão próxima

- Eu não quero o antes. 

- Não? 

- Eu quero me render - A advogada parou, olhando-a fixamente, quase tão estática quanto Seulgi. 

Essa vulnerabilidade em sua voz era totalmente nova. Perigosa. A bartender sentia como se fosse cair, derramar-se. 

- Eu menti. Eu quero o seu perdão. Eu quero minha alma tranquila e rendida ao lado da sua - Seu pé vacilou, dando um passo para frente. Woo respirou outra vez, desviando o olhar - eu não te tratei bem, Jaeyi-ah. 

- Você acha que me tratou mal, Seulgi?

Seulgi respirou fundo - Eu não sou boa em permitir que as pessoas entrem. Normalmente, elas nunca chegam perto o suficiente para se importar ou notar minhas falhas - uma risadinha trêmula escapou de seus lábios -  e por muito tempo ninguém teve um grande interesse em fazer isso de qualquer forma.

A advogada processou a informação e sorriu - eu não acho que eu tenha sido a primeira a se preocupar com você.

O rosto de Seulgi esquentou um pouco.

- A primeira… nesse sentido. 

Silêncio. 

- Ah, entendi - Woo percebeu como ela segurava um maldito sorriso. 

Subitamente, Seulgi balançou as mãos até se tocarem, aquela mesma vibração de desconforto - Enfim, foi um mecanismo de defesa muito ruim. 

- Foi como você aprendeu a se manter segura - Jaeyi corrigiu, parecendo igualmente pensamento - É familiar.. para mim. 

- Estou tentando melhorar nisso. 

- Que bom. 

Silêncio. A universitária ainda queria chorar. Ainda queria correr para longe. Também queria se jogar nos braços da outra. Era tudo muito intenso. Muito confuso. Sentimentos. Que coisa maldita. 

- Me desculpa, Yoo Jaeyi. De verdade. Eu não digo isso por culpa ou esperando um perdão imediato - Sorriu fracamente, sentindo os olhos arderem um pouco - Eu só.. sinto. 

A advogada concordou de leve, desviando o olhar por um momento. - Eu também deveria me desculpar. Boa vontade e dinheiro realmente não resolvem tudo. 

- Bom, na grande maioria das coisas…

- Você entendeu o que eu quis dizer. Eu não deveria ter agido da forma que agi. - Jaeyi se levantou, rodeando a mesa e apoiando-se nela. 

Ela ainda tinha uma feição neutra, braços cruzados, mas apenas essa pequena proximidade fez seu coração gritar. 

- Podemos começar de novo? Voltar a ser amigas?

A respiração de Seulgi vacilou enquanto ela ria um pouco, meio perplexa com a pergunta - Na verdade, não. 

Algo brincou na expressão de Jaeyi. Desapontamento - Oh, entendo. 

Oh, merda. A universitária gesticulou com as mãos rapidamente, se retratando.

- Digo, eu queria saber se você gostaria de.. quando você terminar o expediente, ou quando tiver tempo… se você gostaria de sair.. comigo? - O olhar de Jaeyi se animou um pouco - Eu quero sim ser sua amiga, mas também quero.. mais. 

Outro silêncio. Dependendo do desfecho dessa conversa, a vergonha seria o suficiente para pelo menos sete sessões de terapia. 

- Acho que também sou gulosa quando se trata de você - disse baixinho, tímida. 

Jaeyi finalmente sorriu. De verdade. Com os olhos e covinhas - você está realmente se esforçando tanto para me chamar para sair depois de tudo? 

A universitária enterrou o rosto nas mãos - Você pode ter um pouco mais de paciência comigo, por favor?

Ouviu alguns passos se aproximando. Seu corpo inteiro gelou.  

- Você é tão fofa. 

- Não me faça me arrepender - brincou quando revelou o rosto novamente. Jaeyi estava a menos de três passos dela. 

- Você não conseguiria, mesmo se tentasse - a advogada zombou. 

- Realmente não - Isso pareceu ter um efeito interessante na outra, que desviou o olhar. Seu pescoço ficou subitamente avermelhado  - Nossa, eu era tão ruim assim? 

- Não! Não é isso. É só.. Bom ouvir você concordar - Ela deu passo à frente, puxando de leve a borda da sua camisa - Seulgi-ah. 

- Hum? 

- Você gosta de mim? 

- Sim.

- Romanticamente?

Woo riu, encostando-se na porta de modo relaxado - Eu, literalmente, já te beijei até não conseguir respirar mais. 

- Gosto de palavras de afirmação - Sua voz saiu baixa. Ela se aproximou. 

- Eu não sou muito boa nisso. Com palavras - Sentiu o par de mãos em sua cintura, seguida pelo rosto de Jaeyi se escondendo em seu pescoço, encostando a testa ali.

A bartender a abraçou de volta. 

- Seulgi-ah - Sussurrou. Era possível sentir o sorriso contra a sua pele. Ela estava adorando isso - Por favor.  

Seulgi se derreteu com o apelo, puxando-a para mais perto. Jae suspirou ali, gemendo manhosamente em sua pele. Seu coração derreteu. 

Então ela se virou para o ouvido próximo, depositando um beijinho um pouco embaixo dele antes de sussurrar:

- Eu gosto de você. Eu quero você. Quero tudo o que você puder me dar - sussurrou firme contra a pele arrepiada - quero te arruinar como você fez comigo. Poder queimar sua pele como a brasa de uma fogueira ao entardecer e como um incêndio consumindo uma floresta. 

Jaeyi suspirou, estremecendo em seus braços. 

- Achei que não fosse boa com palavras. 

- Apenas sinto que sou melhor com você - Yoo riu baixinho antes de erguer o rosto. Seus olhos brilhavam 

- Agora você está me bajulando. 

Seulgi sorriu até que sua própria covinha apareceu, fazendo com que os olhos da advogada se prendessem ali - Planejo fazê-lo até aceitar meu convite. 

- E em qual momento fiz parecer ter outra resposta possível para isso? 

A mais velha deu de ombros - Sou precavida.

- Uhum, sei - Fingiu uma seriedade enquanto avançava sem rosto, beijando-a com saudades derretendo em seus lábios. 

Seulgi suspirou de choque, mas retribuiu com a mesma fome e devoção que a maior. Quando Jae embalou seu rosto com mãos gentis, a menor puxou sua cintura com a mesma delicadeza de uma jardineira cuidando de suas flores preferidas. 

Quando a advogada sorriu entre os beijos, Woo não conteve o choro manhoso que escapou, fazendo-a rir um pouco. A bartender se acomodou ainda mais em seu abraço, suspirando. 

- Eu estou apaixonada por você, Seulgi-ah - Disse contra os seus lábios, respirando pesadamente enquanto virava seus corpos e guiava a menor em direção a sua mesa - e isso pulsa em mim há tanto, tanto tempo.. 

Seulgi meio sorriu e meio suspirou alto, apenas para ter seu ar roubado novamente com outro beijo. E mais um. Outro. Outro. Mais longos. Molhados. Desleixados. 

Ela sentiu a madeira polida e cara contra a sua cintura. Jae ainda pairava sobre ela, segurando seu rosto e pescoço como seu ela fosse sua maior fortuna naquela lugar 

- De verdade. É algo firme. Quente. Tão real quanto o azul profundo do oceano que me rodeou a vida toda - Sua voz, doce e gentil, fazia declarações contra os seus lábios. 

Seulgi não se sentia flutuando. Não. Estava sólido e real, ambos os pés presos no chão. Ela se sentia viva. Cada vez que buscava ar, sentia-o descer lentamente por seu peito, preenchendo seus pulmões, ajudando seu coração a bater. O simples ato de respirar com Yoo Jaeyi pareceu tão revigorante. 

Deuses, nem em suas piores lutas ela sentiu tanta adrenalina, tanta vontade de viver e viver. 

Vida e luz. Apenas o desejo de continuar respirando. Seulgi se sentia segura. 

Jaeyi a beijou de novo. 

E ela retribuiu. 

Se derreteu. Entregou sua existência, seu ar, sua vitalidade, tudo. 

Quando suas mãos ficaram mais confusas, necessitadas. Quando suas bocas adquiriram aqueles movimentos desleixados e confusos, apenas buscando, Woo Seulgi sorriu, afastando-se um pouco para respirar. 

- Não vamos transar no seu escritório. 

Jaeyi a olhou com aqueles olhos em tom de diamantes grafite. 

- Não vamos transar no meu escritório. 

Seulgi sorriu ainda mais, aproximando dos lábios rosados apenas o suficiente para provocá-la, criando mais distância sempre que a maior tentava puxá-la outra vez. 

- Mas você queria. 

 

Notes:

Fim! Comentarios?

Notes:

O que acharam? Muito obrigada por ler!