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Capítulo 2:
O relógio na parede marcava três e meia da manhã quando Dunk despertou levemente do transe causado pelo cansaço. O som da chuva artificial do projetor ainda preenchia a sala, mas o conforto do sofá-cama parecia insuficiente para o tamanho da exaustão que ainda sentia. Ele se mexeu devagar, sentindo o peito firme de Dew sob sua bochecha. O aroma de lavanda do difusor agora se misturava ao perfume amadeirado e caro de Dew, criando uma bolha que Dunk nunca quis estourar.
— Você acordou — a voz de Dew soou baixa, uma vibração profunda que Dunk sentiu direto na coluna.
— O sofá é pequeno para você, Dew... você é muito alto — Dunk murmurou, a voz rouca de sono, os olhos ainda semicerrados. — Vamos para o quarto. Minha cama é de verdade.
Dew deu um sorriso contido, aquele tipo de sorriso que Dunk não conseguia decifrar se era de carinho ou de quem acabara de ganhar uma aposta interna.
— Tem certeza, Natachai? Se eu entrar naquele quarto, não vou sair tão cedo.
— Por favor... vamos — Dunk respondeu, quase num sussurro, estendendo a mão para segurar a barra do moletom de Dew, como uma criança que teme que o guardião desapareça na escuridão.
Eles se levantaram. No corredor curto até o quarto principal, Dunk caminhava de forma instável, ainda grogue. Dew mantinha uma mão firme na cintura dele, guiando-o. Ao entrarem, a penumbra era quebrada apenas pelas luzes da cidade que filtravam pelas cortinas de linho.
— Vá fazer seu skincare — Dew instruiu, sentando-se na beirada da cama king-size. — Eu sei que você não consegue dormir se não seguir sua rotina. Eu espero por você.
Dunk assentiu e desapareceu no banheiro. O som da água correndo e o ritual de autocuidado de Dunk serviam como uma trilha sonora de normalidade.
O Segundo Tiro: O Silêncio de Archen
Enquanto Dunk estava no banheiro, o celular de Dew no bolso do moletom não parava de vibrar. Era como um animal enjaulado tentando escapar. Dew o tirou do bolso com calma deliberada.
Havia dezessete chamadas perdidas de Joong Archen e uma sequência frenética de mensagens.
> Joong: O que você pensa que está fazendo na casa dele?
> Joong: Apaga essa foto. Agora!
> Joong: Dew, me atende! Você não tem o direito de interferir no meu ship. Você é um manipulador de merda
> Joong: Ele está dormindo? Ele bebeu? O que você fez com ele?
>
Dew leu cada uma delas com um prazer quase clínico. Ele se deitou na cama de Dunk, espalhando-se sobre os travesseiros que ainda tinham o cheiro do shampoo de Natachai. Ele tirou o boné, bagunçou os próprios cabelos e posicionou a câmera do celular.
Desta vez, a foto foi mais direta. Dew aparecia deitado, ocupando o lado esquerdo da cama, com o braço estendido sobre o travesseiro vazio de Dunk, esperando por ele. O fundo da foto mostrava claramente os quadros pessoais de Dunk na parede e a porta do banheiro entreaberta, com a silhueta borrada de Dunk visível através do vidro jateado.
Ele enviou novamente como Visualização Única.
> Legenda: O "seu" ship está no banheiro lavando o rosto para vir se deitar comigo, Archen. Enquanto você gritava com ele em lives, eu estava ouvindo os segredos dele. Enquanto você era o motivo do burnout dele, eu me tornei a cura. Aceite a derrota com dignidade. É mais bonito.
>
Joong tentou ligar no segundo seguinte. Dew apenas colocou o celular no modo "Não Perturbe" e o jogou sobre o criado-mudo. O silêncio voltou a reinar.
Dunk saiu do banheiro, a pele limpa e brilhando levemente pelos cremes, vestindo um pijama de seda azul-marinho. Ele parou na porta, vendo Dew já instalado em sua cama. O coração de Dunk deu um solavanco. Ver Dew Jirawat, o homem que ele admirava de longe, ocupando seu espaço mais íntimo, era surreal.
— Pronto? — Dew perguntou, levantando o edredom para que Dunk entrasse.
Dunk deslizou para o lado de Dew. A cama era grande, mas eles se buscaram no centro. Dunk deitou-se de lado, e Dew o abraçou por trás, uma "conchinha" protetora que fazia Dunk se sentir minúsculo, mas invencível.
— Dew... — Dunk começou, a voz sumindo.
— Shhh. Durma, Natachai. Amanhã o mundo vai estar lá fora, mas aqui dentro, nada te toca.
Dunk fechou os olhos, sentindo os lábios de Dew pressionarem suavemente a sua nuca. Ele não sabia das mensagens provocativas, não sabia da guerra que Dew estava travando em seu nome. Ele apenas sabia que, pela primeira vez em meses, o peso do burnout tinha sido substituído por um calor que ele nunca quis que esfriasse.
A Manhã e o Gatilho
O sol de Bangkok começou a infiltrar-se pelas frestas da cortina por volta das nove da manhã. Dunk acordou com o som suave de talheres. Ele se espreguiçou, sentindo-se estranhamente leve. Ao abrir os olhos, viu uma bandeja de café da manhã sobre a mesa de cabeceira: torradas, frutas cortadas com perfeição e um café que exalava o aroma exato que ele gostava.
Dew estava de pé junto à janela, já sem o moletom, vestindo apenas uma camiseta branca básica que marcava seus ombros. Ele segurava o celular, observando algo com um sorriso de lado.
— Bom dia, dorminhoco — Dew disse, virando-se. — Você dormiu seis horas seguidas. É um recorde para alguém que está passando por tanto.
Dunk sorriu, sentindo as bochechas esquentarem. — Eu me sinto... bem. Obrigado, Dew. De verdade.
— Não me agradeça ainda. O café está pronto, e eu tomei a liberdade de pedir para o Gun trazer algumas coisas que você gosta — Dew caminhou até a cama e sentou-se ao lado de Dunk, entregando-lhe o café.
O que Dunk não sabia é que, naquele exato momento, Joong Archen estava estacionando o carro de forma violenta na frente do prédio. Ele passou a noite em claro, consumido pela fúria e pela humilhação das mensagens de Dew. Ele tinha ouvido, em um áudio antigo que Dunk enviara por engano para um grupo de amigos e que Joong recuperara, Dunk comentando sobre como Dew era o seu "pecado favorito".
Joong estava fora de si. Ele não se importava com as câmeras de segurança, com os vizinhos ou com a carreira. Ele só conseguia ver a imagem de Dew nos lençóis de Dunk.
Lá dentro, Dunk deu o primeiro gole no café, olhando para Dew com adoração pura.
— Dew, eu estava pensando... sobre o que eu disse na mensagem. Sobre você ser um pecado.
Dew inclinou o corpo para frente, diminuindo a distância entre seus rostos até que suas respirações se misturassem.
— E o que você decidiu, Natachai? Eu ainda sou um pecado para você?
Dunk umedeceu os lábios, a coragem voltando aos poucos. — Eu acho que alguns pecados valem a pena a condenação.
Dew sorriu, e estava prestes a selar aquele momento com um beijo quando o som violento de alguém batendo na porta da frente ecoou pelo apartamento, seguido pelos gritos abafados de Joong.
— NATACHAI! ABRE ESSA PORTA! EU SEI QUE ELE ESTÁ AÍ DENTRO!
A cor fugiu do rosto de Dunk instantaneamente. O trauma do ódio online e das pressões de Joong voltou como uma onda gelada. Mas Dew não se moveu. Ele apenas acariciou a bochecha de Dunk e disse, com uma calma assustadora:
— Deixe que ele grite. É o som de alguém que já perdeu tudo e ainda não percebeu. Fique aqui. Eu vou terminar o que ele começou.
