Chapter Text
A dor em seu peito aflorou em uma sensação de culpa.
Não importa o quanto ele tentasse se adaptar à um mundo sem Kaveh. A cada dia essa luta parecia mais impossível. Tudo em sua casa o lembrava do toque impecável do arquiteto, cada canto decorado com as memórias que construíram juntos.
E o único cômodo onde Kaveh nunca ousou tocar, cômodo no qual Alhaitham usava como rota de fuga de seus problemas, agora estava infestado pela magia transmitida por este segredo desenterrado.
A dor não iria passar. O passado não iria mudar. O que lhe restava agora era uma caneta e um papel, e a chance de dar ao outro uma resposta sincera ao seu chamado.
…
Kaveh,
Estou ciente de que as palavras escritas a seguir jamais irão te alcançar. E honestamente? Não sei o que eu faria com o meu orgulho caso um dia elas te encontrassem.
Assim como percebeste em meu diário anteriormente, é inegável que cultivo profunda admiração por quem você se tornou em minha vida. Me ensinaste a enxergar a beleza além da praticidade que sempre almejei no cotidiano, assim como me ensinaste a desfrutar da cabeça turbulenta de um artista que se alojava no quarto ao lado.
Creio que a complexidade construída em torno de nossa relação seja resultado das palavras que jamais trocamos. Aliás, palavras que, por medo (do julgamento alheio? da fragilidade? da verdade?), substituímos por ofensas. Ressentimentos que, uma vez cultivados, se tornaram espinhos afiados que não tínhamos medo de atiçar, apenas para sairmos cobertos de machucados a cada discussão encerrada.
Ambos somos orgulhosos, e justamente por isso estou engajando em uma conversa silenciosa que dificilmente terá continuidade. Não somos capazes de nos olhar cara a cara para admitir nossos sentimentos e, por vez, sermos sinceros. Ainda assim, Kaveh, esse medo foi o que nos levou à cortarmos laços da maneira que cortamos.
Acredito não ser tão complexo quanto tu me enxergas — ou pelo menos me descreves. Minhas ações são simples: gestos nitidamente carinhosos que demonstram o quanto me importo com seu bem estar. Admito me indulgir em suas respostas raivosas às minhas provocações, mas nada do que lhe faço tinha intenções além de uma mera tolice. No entanto, há muito tempo me acostumei com sua visão distorcida de si mesmo que te leva a acreditar que estou apenas tentando me mostrar melhor, te humilhar. Jamais tentei me superestimar acima de sua imagem, ou fazê-lo se sentir tão pequeno quanto uma andorinha. Se apenas você fosse capaz de se enxergar como alguém merecedor de amor, então poderia enxergar a capacidade de alguém de te amar.
Para mim, esse é o seu maior defeito. Mesmo após ler tudo o que escrevi sobre meu afeto profundo por ti, mesmo após tudo o que já fiz para reafirmar minha adoração, tu ainda tens a coragem de perguntar o que eu vi em ti? Como é possível que tais razões tão óbvias sejam desviadas diante de teu olhar? Jamais entenderei como não é capaz de enxergar a si mesmo da mesma forma que eu vejo. No entanto, já que essa dúvida ainda não foi saciada, irei mais uma vez respondê-la:
Tu é um artista nato, um espírito selvagem que anseia por um conceito tão vago de ambição que apenas um louco seria capaz de entender. Tu tem a coragem de se aventurar entre a riqueza e a miséria, o preto e o branco, a agitação da vida boêmia e o mundano da minha presença, tudo enquanto mantém sua alma aspirante intacta.
E ainda alguém como você, que foi feito para ser entregue ao mundo; portador do brilho natural de uma estrela, tem olhos para alguém como eu, tão desinteressante comparado às aventuras que vives a cada dia. Alguém que, mesmo tendo passado a vida inteira construindo as barreiras que você conhece tão bem, não foi o bastante para te desencorajar. Pelo contrário: você as derrubou com o calor de um abraço, mostrando à mim que também mereço uma chance de tentar algo novo.
Posso detestar a maneira na qual tua empatia excessiva se torna auto sabotagem; seu sentimentalismo tolo e a maneira infantil na qual encara cada moeda gasta que não lhe pertence. Mas ainda assim, eu jamais desejaria que te tornasse alguém diferente de quem tu és hoje em dia. E considero uma pena que penses que gosto menos da tua companhia por causa desses traços.
Com isso, também aproveito para pedir as minhas mais sinceras desculpas. Eu nunca deveria ter dito aquelas palavras. Nunca deveria ter te deixado abrir a porta e ir embora, sem um lugar para ficar e alguém para lhe amparar. Eu deveria ter te lido melhor, entendido o que estava acontecendo antes de me envolver no que não cabia a mim. Eu cometi um erro que até hoje me arrependo arduamente.
Quanto à sua pergunta, eu não sou capaz de respondê-la. Já fomos amigos, já fomos inimigos, e já fomos até mesmo amantes em um passado não tão distante. Creio que somos uma mistura disso — uma mistura de aromas e sabores tão complexa que pode apenas ser resumida por um simples “é complicado”. E não acredito que isso seja errado. Mas se lhe incomoda, talvez seja a hora de dar um nome ao que tivemos. Um nome que não chegue perto do que estamos prestes a nos tornar — estranhos.
Eu me permitiria ser devorado por você, assim como devorei pequenos momentos de vulnerabilidade seu durante seus dias ao meu lado. A sua raiva, sua fragilidade, e até mesmo os poucos momentos em que seus olhos refletiam chamar de amor — todos direcionados apenas à mim. Sinto o gosto de cada um desses momentos na minha língua — gosto este tão viciante quanto os goles de vinho que provavelmente escorrem por sua garganta neste mesmo momento em que escrevo esta carta.
No fundo, fomos, somos e seremos apenas nós. Dois lados de um mesmo espelho, dois opostos destinados à encontros e desencontros.
E mais no fundo ainda, eu desejo que tu retorne para casa. Para mim.
De (todo) seu,
Alhaitham.
…
Enquanto depositava suas palavras no papel, o coração de Alhaitham aos poucos se acalmou da tempestade na qual estava até então submerso. Com o ponto final, o escrivão procurou pelo isqueiro que escondia na gaveta de sua escrivaninha, pronto para queimar seus sentimentos e dispersá-los em cinzas. No entanto, no momento em que aproximou a chama da ponta do papel, ele teve outra ideia.
Talvez não fosse tarde demais para recomeçar. Talvez, se ele entregasse à Kaveh sua verdade, ambos pudessem recomeçar mais uma vez. Quem sabe até mesmo ter a conversa que claramente careciam em todos esses anos. Talvez o arquiteto não desejasse olhar para ele nunca mais, mas talvez, apenas talvez…
Com a chama de esperança se acendendo em seu peito, Alhaitham deslizou o papel em um envelope vermelho escarlate, selou sua carta e saiu de seu escritório com ela em mãos.
