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I wanna be yours - YokAyan

Chapter 3: | Quase - Capítulo 3

Notes:

É como dizem: quem é vivo sempre aparece.
Brincadeiras a parte, peço desculpas pelo sumiço, muita coisas aconteceram comigo nesses 3/4 meses e por isso sumi, mas nessas ultimas semanas não estava me aguentando de tanta ansiedade de voltar a escrever, então fui reler os capítulos e esse capítulo de hoje já estava pronto, mas mudei a minha ideia original para ele, espero que gostem!
Me deixem saber o que acharam depois.
<3

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

O cheiro de óleo e metal sempre foi suficiente para organizar meus pensamentos, ou pelo menos costumava ser.

Empurrei a porta da garagem e o barulho familiar de ferramentas, o rádio baixo tocando alguma música antiga e as vozes misturadas deveriam ter me trazido de volta ao normal, normalmente me trazem, mas a sensação do toque ainda queimava na minha pele.

Eu não queria ter evitado Dan está manhã.

Mas também não queria falar.

Estou com tanta raiva desde ontem que prefiro esperar a cabeça esfriar antes de conversar com ele. Não quero dizer algo que possa me arrepender… e muito menos descontar minhas frustrações nele.

Por isso pedi pra gente conversar à noite. Porque se eu visse ele na minha porta essa manhã… não tenho certeza se conseguiria evitar de dar um soco na cara dele.

Achei que a raiva passaria quando o álcool passasse.

Não passou.

E para ser sincero, acho que a maior parte da minha raiva não é nem de ontem... e sim de tudo.

Acho que estou chegando no meu limite.

— Você demorou — Sean comentou, sem tirar os olhos do carro.

— Ainda são nove.

Digo secamente.

Peguei uma chave na bancada e me enfiei no canto ao lado de uma moto, como se aquilo pudesse me esconder dos outros.

— Tudo bem por aqui?

A voz surgiu atrás de mim.

Não preciso olhar era Aye.

Ou melhor… Ayan.

– Sim. — respondi rápido demais para parecer verdadeiro.

Silêncio.

Eu senti quando ele se mudou, sentando ao meu lado no chão.

— Você tá estranho — ele disse, baixo. — Aconteceu alguma coisa?

— Estou trabalhando.

— Não foi isso que eu perguntei.

Levantei o olhar.

Ele estava me observando daquele jeito que sempre me irritou. Como se conseguisse enxergar o que eu não dizia.

— Ele deve ter brigado com o namorado de novo — Sean comentou, como se eu não estivesse ali. — Só ignore, antes que ele desconte em você.

Mordi o interior da bochecha, segurando a resposta.

— Quer conversar? — Ayan insistiu, virando um pouco mais o corpo pra mim. — Às vezes eu posso ajudar.

Soltei uma risada curta, sem humor.

Meu ex-namorado dando conselhos sobre meu relacionamento atual.

Perfeito.

— Não precisa. Tô bem.

— Você sempre fala isso quando está irritado.

Apertei a chave com força, mais do que preciso.

— Eu não tô irritado.

— Hum.

Ele não insistiu.

E isso foi pior.

Porque ele sabia. Sempre soube. E nunca precisou pressionar pra me fazer sentir exposto.

O barulho da garagem ficou distante por um segundo. Sean estava rindo de alguma coisa, alguém procurando ferramentas… tudo meio abafado.

Ayan pegou um pano e começou a limpar uma peça qualquer.

— Você já conversou com alguém sobre isso? — Disse ele sem tirar os olhos da peça em suas mãos.

— Já.

— E ajudou?

Soltei o ar pelo nariz cansado.

— Quando se trata de mim e do Dan… sempre aparece alguma coisa nova pra resolver.

Não mencionei o resto. Não mencionei o quanto os meninos ficaram mais empolgados em falar de Ayan do que do próprio Dan.

— É só complicado.

— Vocês já conversaram sobre brigas?

Olhai pra ele como se fosse a pergunta mais óbvia do mundo.

— Claro que sim.

— Não me olhe assim — ele deu um leve empurrão no meu ombro. — Você nunca foi muito bom em falar quando algo te incomoda. Sempre guardava tudo até explodir.

Desviei o olhar.

— Talvez eu ainda seja assim.

— Talvez — ele deu um meio sorriso. — Mas nem todo mundo sabe ler sua mente, Yok.

Aquilo ficou no ar.

(Só eu sei.)

Ele não disse.

Mas eu ouvi mesmo assim.

Balancei a cabeça, afastando o pensamento.

— Talvez você deva falar com ele então — Ayan contínuo, mais suave. — Antes que vire outra coisa maior do que precisa ser.

Fiquei em silêncio por um tempo.

O problema é que já era maior.

Muito maior.

— E você? — ele perguntou depois, casual demais pra ser só casual. — Tá preocupado com o quê agora?

— Nada.

A resposta veio rápida e ele não acreditou.

Eu sabia disso.

Ele também sabia que eu sabia.

— Só lembrei que tenho que visitar minha mãe hoje.

Ayan assentiu devagar, aceitando ou fingindo aceitar.

— Como ela tá?

—Bem. Trabalhando numa empresa de reabilitação.

— Parece legal.

— É.

Silêncio novamente, mas dessa vez, era mais pesado.

Eu voltei a mexer na moto, apertando um parafuso com mais força do que precisava.

— Você sempre faz isso — ele comentou.

— Isso o quê?

— Finge que tá tudo bem e começa a descontar nas coisas.

Soltei um riso baixo.

— Melhor do que descontar nas pessoas.

— Nem sempre.

Levantei o olhar de novo.

Ele estava me olhando cuidadosamente.

E isso me irritava mais do que qualquer outra coisa.

Sustentei o olhar dele por um segundo a mais do que deveria e desviei primeiro.

— Você devia ajudar o Sean — murmurei, voltando a atenção pro motor como se aquilo fosse, de repente, a coisa mais importante do mundo.

— Ele não precisa.

— então ajuda o Fadel.

— Ele também não.

Respirei fundo.

— Então faz qualquer outra coisa que não seja ficar aqui me encarando.

— Eu não tô te encarando.

— Tá sim.

— Estou conversando com você.

— Parece um interrogatório.

Ele soltou uma risadinha baixa pelo nariz, inclinando a cabeça.

— Desculpe, senhor estressadinho.

Revirei os olhos.

— Desde quando você foge da conversa, Yok?

Aquilo acertou mais do que deveria, desviei o olhar de novo.

— Eu não tô fugindo.

— Tá sim.

O silêncio que veio depois foi diferente.

Ayan recuou um pouco, apoiando os braços nos joelhos, finalmente me dando espaço de verdade.

Abri a boca pra responder, mas o som de passos e vozes curtas se aproximava, antes que qualquer coisa pudesse ser aqui, eu aproveitei a oportunidade de escapar.

— Gram — chamei, fazendo o grupo inteiro se virar na minha direção. — Você pode me dar uma carona até a casa da minha mãe?

— Agora?

— Pode ser daqui a pouco, você que sabe — respondi, tentando soar indiferentemente.

Ele fez uma careta.

— Eu tenho aula hoje à tarde, Yok. Não vai dar, foi mal.

— Eu posso te levar.

A voz veio do meu lado.

Levantei o olhar rápido demais.

Ayan já estava de pé, pegando a chave da moto em cima da mesa, como se a decisão já tivesse sido tomada.

Meu coração acelerou.

Droga.

— Não precisa! Eu pego um táxi.

– Que nada. Eu te levo — ele respondeu, fácil, abrindo aquele sorriso. — Já faz tempo que não vejo sua mãe.

Esse maldito sorriso.

Ele sabe exatamente o que está fazendo comigo, prendi a respiração por um segundo, tento encontrar qualquer brecha pra recusar.

Droga.

Ele vai me enlouquecer.

— Obrigado.

Para qualquer outra pessoa ali esse obrigado soou normal, mas pelo jeito que Ayan inclinou a cabeça, pelo canto de sorriso que apareceu devagar… ele ouviu o tom da derrota.

Ele sabe que venceu.

E eu sei que essa não foi a decisão mais inteligente, na verdade, isso só complica tudo ainda mais, mas, como sempre… não tem como resistir ao efeito magnético do Aye.

E isso, mais do que qualquer outra coisa, é o que mais me preocupa.

 

 

Do lado de fora da garagem hesito um segundo enquanto assisto Ayan pegar seu capacete, respiro fundo, isso traz muitas memórias à tona.

O capacete, a moto, ele...

— Vai ficar parado aí? — ele pergunta, virando levemente o rosto, ainda com o capacete na mão.

Reviro os olhos e me aproximo, esticando a mão para pegá-lo.

Mas Ayan não me entrega.

Ele ergue o capacete um pouco mais alto, fora do meu alcance, e dá um passo à frente. Fico parado por reflexo e solto uma bufada divertida logo em seguida.

— Sério, nanico? — Ayan me encara meio surpreso, mas logo em seguida a surpresa é substituida pelo leve rosado em suas bochechas. Meu sorriso se alarga, amo provocar Aye.

— O que foi? — Me aproximo provocativamente — Não parece mais um tigrinho assim…

O rosado em suas bochechas se intensifica, ele parece irritado com a provocação.

— Sobe na moto, Yok.

— Ah, ficou bravinho?

Mal terminei a frase antes que Ayan erga o capacete mais alto, e acerte ele no meu braço, o que me faz soltar uma gargalhada. Mas me calo assim que sinto o capacete sendo colocado na minha cabeça.

A espuma envolve minhas orelhas e o mundo fica cada vez mais abafado. Ayan segura firme nas laterais, ajustando a posição com uma seriedade que não combina nada com o vermelho que ainda está em suas bochechas.

Eu engulo em seco. Fico parado ali, o olhando enquanto meu coração martela no peito. Bate tão alto que tenho medo que ele possa ouvir.

A viseira ainda está elevada, então podemos observar cada detalhe. A ruga de concentração entre suas sobrancelhas. O jeito como ele morde levemente os lábios inferiores enquanto centraliza o capacete.

Ele evita meu olhar, descendo as mãos suavemente até a tira sob meu queixo, eu me forço a não engolir enquanto seus dedos esbarram de leve na pele do meu pescoço. Ele demora um pouco mais do que o necessário para abotoar o capacete.

Talvez porque ele esteja tão nervoso quanto eu, ou apenas se atrapalhou.

Eu torço pelo segundo.

— Para de me olhar assim — ele murmura, quase baixo demais para eu ouvir.

— Assim como?

Ele não responde.

O clique da fivela do capacete soa alto entre nós.

Seus olhos se levantaram para encarar os meus, e quando se encontram, é como se o tempo parasse.

Tudo se torna muito mais sensível. Os dedos de Aye que estão encostados em meu pescoço chegam a queimar, meu coração ensurdece os meus ouvidos batendo tão alto que tenho medo que ele possa ouvir e Ayan está me olhando como se se… como se ele fosse…

Como se fosse um segundo de passar do limite.

A mão dele não se move, mas pressiona levemente minha pele, firme demais para ser só ajuste. Quente demais, estamos perto demais.

Ele inclina o rosto.

Eu paro de respirar.

Ele—

— YOK!

O grito ecoa alto demais da porta da garagem.

Eu quase pulo para trás.

Ayan se afasta como se tivesse levado um choque, a mão saindo do meu pescoço rápido demais.

Viro a cabeça irritado.

White está parado na entrada da garagem, ofegante, como se tivesse vindo correndo. Ele nos encara, primeiro para mim e depois para Ayan. Depois para a distância ridiculamente pequena que existia entre nós antes.

O rosto dele fica vermelho.

— Eu… — ele pisca rápido. — Eu não sabia que vocês estavam... eles falaram que vocês tinham acabado de sair... ai eu só... mas você e Dan—

Ele para no meio da frase abruptamente.

Sean aparece logo atrás, mais calmo, mãos nos bolsos, avaliando a cena.

Cinco segundo muito longos.

— A gente pode voltar depois — Sean diz, finalmente, em tom neutro demais para ser inocente. — Ou pegar a pipoca.

White dá uma cotovelada fraca nele.

— Sean!

Meu capacete ainda está aberto. Minha respiração ainda está errada.

Ayan fecha a minha viseira com um estelo seco e monta na moto rápido demais pegando o seu próprio capacete.

— Não é nada — ele diz, curto.

Claro, não é nada.

Eu engulo o resto do momento que quase aconteceu, subo atrás dele e, antes que o motor ligue, lanço um olhar para White.

White cobre o rosto com as mãos por um segundo.

— Foi sem querer!

Sean inclina levemente a cabeça.

— Timing impecável, inclusive, não aconteceu nada.

O motor ruge alto, encerrando o assunto.

Eu odeio o fato de que eu deixaria aquilo acontecer, que eu queria que aquilo acontecesse.

O vento bate contra meu corpo quando Ayan acelera, mas não é suficiente para esfriar a cabeça. Eu seguro na parte de trás da moto firme demais, tentando manter o máximo de distância possível entre nós, como se estivesse me impedindo de fazer algo errado.

Errado.

Dan.

O nome vem como um peso no estômago.

Eu fecho os olhos por um segundo atrás da viseira.

Ele não merece isso, eu não deveria estar fazendo isso com ele.

.A lembrança dos dedos de Ayan no meu pescoço volta com uma clareza absurda. A dúvida é levemente. Uma proximidade. O jeito como ele me olhou.Como se estivesse pedindo permissão.

E eu sei que teria dado.

E esse é o maior problema, porque eu estou namorando! E por mais que Dan cometa erros ele não merece isso, ele não merece ser traído dessa forma.

A moto diminui a velocidade em um sinal, Ayan se mexe rapidamente pegando em meus pulsos e levando as mãos para o seu colo, o que faz com que meu corpo se incline para o dele, sentindo todo o calor que ele emana.

— Você está pensando demais, pare de pensar. — Ele acaricia os dedos das minhas mãos onde estão pressionados em sua barriga, suspiro de ruptura. — Vai queimar todos os seus neurônios.

Pressiono meu corpo para frente como um empurrão que não tem efeito nenhum a não ser uma gargalhada.

O sinal abre de novo, Aye volta a dirigir, o vento entra por baixo da jaqueta e arrepia toda a minha pele. Eu apoio a testa entre as omoplatas dele por um segundo — rápido demais para ser percebido, eu espero.

Ayan sempre foi assim, cuidadoso e perceptivo, o que me faz sentir cuidado e acolhido, até mesmo nas piores situações.

O que Dan nunca me fez sentir.

O que é horrível de admitir, mas essa é a verdade, no fundo eu sempre pensei que, desde o momento em que entrei naquela garagem e vi Aye ali, a minha história com Dan estava fadada ao final, ou estava antes mesmo dele aparecer.

Talvez sempre estivesse.

Mas o fato é que tudo o que fingi não estar acontecendo nesses últimos dias, tudo o que Ayan trouxe de volta que eu ignorei, todos os sentimentos que eu tinha por ele e tudo aquilo que eu e Dan viemos acontecendo, caiu por terra hoje.

Não posso fingir que não queria que Aye me beijasse. Não posso fingir que não estou num relacionamento. Não posso estar com os dois ao mesmo tempo. E não quero fazer nada que vá machucá-los. Mesmo sabendo que minhas atitudes de hoje feriram Dan.

E não quero fazer nada que vá machucá-los, mesmo sabendo que minhas atitudes de hoje feriram Dan.

A moto diminui a velocidade em um sinal, e eu percebo que estou segurando Ayan mais perto do que o necessário.

Ele não comenta.

E pela primeira vez, eu me perguntei “se algum dia eu deixei de amá-lo?”.

A resposta é clara: não.

 

 

 

A casa da minha mãe já está com o portão aberto quando chegarmos.

Ela está do lado de fora.

Regando as plantas. O balde azul ao lado dos pés. O sol quente da hora do almoço bate em suas costas. O cheiro da comida pronta vem de dentro de casa.

Ela nos vê antes mesmo de pararmos, primeiro olha para mim, depois para Aye. E par. O regador escapa levemente de suas mãos enquanto Aye estaciona a moto e tira o capacete. Enquanto tiro o meu, ele já está indo na direção dela, a expressão dela muda devagar, passa de surpresa para algo mais suave.

Enquanto tiro o meu, ele já está indo na direção dela, a expressão dela muda devagar, passa de surpresa para algo mais suave.

E então ambos se envolvem em um abraço carinhoso e forte. Minha mãe sempre gostou muito de Ayan, na época em que namorávamos ela sempre me perguntava quando o levaria de novo para casa e porque ele não aparecia nos fins de semana, fazia almoço para ele e Fadel e sempre os fazia vir nas festas de fim de ano. Ayan por sua vez, adorava minha mãe, passando tardes e tardes com ela enquanto eu estava na faculdade ou no trabalho, sempre trazia o bolo favorito dela nos fins de semana e ajudava ela no jardim e a restaurar coisas.

Quando minha mãe sofreu o acidente que a fez ficar surda, tanto Ayan quanto Fadel me ajudaram a cuidar dela, ambos revezavam comigo as noites no hospital e depois da alta em casa. 

Eles se afastaram um pouco e minha mãe começa a sinalizar rápido demais. Eu automaticamente abro a boca para traduzir.

— Ela está se-

Mas paro.

Porque Ayan está respondendo, ele entendeu tudo o que havia aqui.

Em momento nenhum ele olhou para mim com dúvidas ou chegou a minhas mãos para saber como fazer algum sinal, ele não hesitou em momento nenhum.

Era como se ele fizesse isso todo dia, toda hora.

Eles trocaram comprimentos, perguntaram se estavam bem e então minha mãe disse se ele tinha comido, quando ele falou não, ela pareceu notar que eu estava ali, porque então se virou para mim me dando um beijo no rosto e falando para que nós entremos para comer.

Eu entro atrás deles ainda meio atordoado.

A casa parece menor quando Ayan está dentro dela de novo, ou talvez eu só esteja relembrando muitas memórias.

Minha mãe já está organizando a mesa como se estivesse esperando uma visita importante. Ela aponta para as cadeiras, manda a gente sentar com aquele gesto firme que sempre você usou comigo.

Ayan obedece na mesma hora.

Claro que obedece.

Ela começa a sinalizar de novo enquanto coloca comida no prato dele.

“Você sumiu.” “Está mais magro.” “Está trabalhando demais?” “Está dormindo direito?”

Ele responde entre um sorriso e outro, as mãos se movem com segurança de forma sempre educada.

Eu fico observando admirado, ele melhorou e muito e isso gera uma mistura de emoções em mim, orgulho, gratidão e algo mais perigoso.

Em algum momento minha mãe para, olhe para ele com expressão mais séria e sinalizando devagar.

“Eu senti sua falta.”

Ayan não desvia o olhar.

“Eu também.”

Foi simples e honesto.

Eu abaixo dos olhos para o meu prato antes que alguém perceba qualquer coisa no meu rosto.

 

 

 

Mais tarde, não estamos no quintal. Minha mãe está lá dentro lendo um livro.

Ayan está sentado no banco antigo de madeira, confundindo seriamente em uma folha seca.

Me sento ao seu lado, assim como fazíamos antes.

— Eu não sabia que você tinha melhorado tanto na língua de sinais.

Ele dá de ombros.

— Eu pratiquei.

— Quando?

— Depois do hospital. Eu não queria depender de você para falar com ela.

Aquilo me desmonta mais do que deveria.

— Eu já estava habituado a ser intérprete — digo, tentando parecer casual. — As pessoas não costumam aprender. Mesmo que próximo.

Ele me olha de lado.

— Kan e Wat sabem alguma coisa, né?

— Claro, o básico, eles sabem comprimentos, pergunte se ela está bem, se precisa de algo e coisas do tipo.

Ele espera, como se já estivesse subentendido quem ele queria saber se sabia algo.

Eu respiro.

— Dan não sabe.

Não olho para ele quando digo.

Silêncio.

— Ele nunca quis aprender? — Ayan pergunta, fingindo calma.

— Ele tentou, mas ele anda ocupado, tem muita coisa para resolver.

— Se eu fosse namorado de alguém cuja mãe é surda… — ele começa devagar — eu iria querer falar com ela sem precisar que alguém ficasse no meio.

Eu solto uma risada fraca.

— Que lindo isso. Ensaiou pra quem? — Brinquei.

Ele não sorriu, mas me olhou vulnerável.

— Pra você! Eu aprendi por você.

Simples assim.

Meus primeiros anos.

— Obrigada. — sinto meus olhos umedecerem. — Não só por isso, mas por tudo, naquela época, eu não teria conseguido sem você e seu irmão. — A mão de Ayan sobe alcançando meu ombro em um gesto de conforto.

— Você teria. A gente só não queria deixar você fazer tudo sozinho.

O silêncio que se segue é carregado de nostalgia, como se estivéssemos observados às nossas próprias memórias passarem diante de nós.

— Eu não aprendi a língua de sinais porque era “o certo”. — Ayan continua, a voz mais baixa agora. — Eu aprendi porque queria fazer parte. Não só da sua vida. Da sua família. Do mesmo jeito que você se esforçou para fazer parte da minha.

Engulo em seco.

— Pare. Você sabe que eu não fiz quase nada comparado a você.

Ele vira o rosto na minha direção, incrédulo.

— Quase nada?

— Se você estiver prestes a falar de suppalo, eu já aviso. – Suspiro. — Fui eu quem começou tudo. O que fiz no final foi apenas assumir a responsabilidade pelas consequências.

Ayan fica em silêncio por um segundo, analisando cada palavra minha.

— Achei que a gente já tinha superado esse complexo de culpa. — Ele apoia os cotovelos nos joelhos. — O que você fez em Suppalo é, sim, sua responsabilidade. Mas também é res—

— Resposta de um sistema opressor e manipulador que não dá escolha aos alunos além de se encaixar num padrão sufocante. — Completo, repetindo um discurso que já ouvi dele tantas vezes.

Ele me encara.

E então desculpe.

Eu sorrio de volta.

— De qualquer forma, eu não falaria sobre Suppalo.

— Não? — Ergo a sobrancelha.

— Não. — Ele me encara com um sorriso íntimo, daqueles que quase doem. — Eu ia falar de como você sempre ajudava minha mãe na cozinha. De como era você quem sabia onde estavam nossos documentos, quem agendava médicos, resolvia os problemas da internet… Você levava comida pro meu irmão no trabalho. Ia visitar o túmulo do meu tio com a gente. — A voz dele suave. — Você sabe que fez muito por nós. Principalmente por mim.

Ficamos nos encarando por mais tempo do que deveríamos.

O ar parece mais denso.

— Como estão os pesadelos? — pergunto, quase num sussurro.

Ele desvia o olhar por um instante.

— Do mesmo jeito. Pioram em tempos ruins, melhoram em tempos bons… mas nunca param de verdade.

Silêncio.

Ele engole em seco.

— Você… — hesita — jogou fora o colar?

Olho para ele, incrédulo.

O peso no meu bolso parece triplicar, como se o objeto tivesse acabado de recuperar todo o significado que eu fingi que não tinha.

— Não. Claro que não.

O alívio dele é imediato, visível, quase infantil.

— Eu perguntei naquela época se você queria de volta. Você disse que não. E que era para eu guardar.

Ele assente devagar.

— Obrigado. De verdade.

Nós dois sabemos o que aquilo significa para ele. Não precisa ser dito.

— Você quer ele? — Pergunto.

Ele hesita.

— Ele está aqui?

Tiro a carteira do bolso, por um segundo, penso em não entregar, mas entrego. Ele segura a carteira junto comigo e nossos dedos tocam se rápido demais.

Ele puxa a carteira com cuidado, como se estivesse pegando algo frágil demais para o mundo e abre devagar.

O colar está ali.

Guardado.

Os olhos dele percorrem o metal como se estivessem confirmando que aquilo ainda é real.

— Você cuidou bem… — ele murmura.

— Eu disse que cuidaria.

Ele tirou o colar por um instante, o segurando na palma da mão.

Então, inesperadamente, ele colocou o colar de volta dentro da carteira.

E devolveu para mim.

Nossos dedos se tocam de novo, mais devagar dessa vez.

— Guarde pra mim por mais um tempo. — A voz dele não treme, mas é baixa. — Até eu... estar pronto.

— Pronto pra quê?

— Não me devolva por saudades, nem por culpa. — Ele sustenta meu olhar. — Quero que me devolva quando for escolher. Independentemente da escolha.

Eu fecho a carteira devagar e guardo. Agora, estou bem mais consciente do seu peso e do seu novo significado.

Notes:

Se tem alguma dica, critica construtiva ou algum comentário a fazer fique a vontade!!
Gostaria muito de saber o que acharam.

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