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𝓜ORRENDO DE ENVENENAMENTO
A Apple que chorou no chão com Rowan precisava ser enterrada sob camadas de pó de arroz e batom vermelho. Quando girei a maçaneta, meus ombros se ergueram sozinhos e meu sorriso treinado se encaixou no rosto, como uma máscara que eu não podia mais me dar ao luxo de deixar cair. O veneno de Auradon estava esperando, e eu precisava parecer imune a ele.
Aquele dia passou como um borrão. Após nossas falas e nosso momento de aceitação interna, o mundo parecia ter desabado sob meus pés com o peso da realidade: nada havia mudado lá fora. Fora daquelas paredes, o acolhimento de Evie era uma lembrança proibida e a dor de Rowan era um segredo trancado.
Eu ainda tinha que medir o comprimento exato da minha saia e ajustar o decote padrão, garantindo que cada movimento meu servisse apenas para impressionar a corte com uma simpatia milimetricamente calculada.
Eu era a diretora e a protagonista do meu próprio teatro, caminhando pelos corredores de mármore enquanto gritava em silêncio por trás de um "bom dia" perfeitamente entonado.
Minha saia vermelha e rodada, sustentada por um tule denso que lhe conferia um volume quase teatral, balançava conforme meus passos calculados. A blusa de mangas três quartos exibia um decote quadrado, mantido em uma altura rigorosamente aceitável para os padrões da realeza, escondendo qualquer vestígio do calor que ainda restava em minha pele.
No entanto, o recorte profundo nas costas era o meu pequeno segredo de rebeldia, uma abertura que eu sabia estar ali, mesmo que o mundo só visse a minha frente impecável.
Minha meia-calça arrastão branca, rendada com delicadas maçãs que pareciam bordadas por mãos de fada, subia pelas minhas pernas até encontrar a bainha da saia. A tira branca, perfeitamente centralizado no topo da minha cabeça, completava a silhueta da herdeira ideal. Por fim, apliquei o batom vermelho característico, o tom exato que mamãe aprovava.
Ao me olhar no espelho, a garota de pijama de maçãs e rosto inchado havia desaparecido por completo. Em seu lugar, estava a arma mais poderosa de Auradon: a Princesa Apple White, pronta para o combate disfarçado de gentileza.
Os corredores de Auradon pareciam mais sufocantes do que o normal hoje. Cada arco de pedra, cada estátua de herói antigo, parecia observar meu trajeto com um julgamento silencioso. A qualquer momento, eu esperava que alguém — qualquer pessoa, desde um monitor até um simples transeunte — pulasse de algum canto sombrio para me executar com palavras e perguntas afiadas.
Porque Evie saiu do seu quarto? Vocês dormiram juntas? Você sabe porque Rowan estava chorando no corredor? É verdade que você e lesbica?
As perguntas imaginárias martelavam minha têmpora. Parecia que meu segredo estava exposto para todo mundo ver, como se tivessem pregado um panfleto escandaloso bem no centro do mural de avisos da escola. Cada vez que uma estudante passava por mim e sorria, eu me perguntava se era um cumprimento genuíno ou se ela já sabia que a "Princesa Perfeita" estava apodrecendo por dentro.
Minhas mãos, com as unhas feitas e impecáveis, apertavam os livros contra o peito. Eu precisava manter o passo, a coluna ereta e o olhar focado. Mas, por trás do batom vermelho, eu sentia que estava caminhando sobre uma corda bamba, e o abismo abaixo de mim tinha o nome de todos os meus pecados.
De todas as palavras e crenças que minha mãe implantou em mim a força.
Minhas mãos, antes brancas e tensas pelo esforço de esmagar os livros contra o peito, começaram a tremer. Era um tremor involuntário, fino e persistente, que eu não conseguia parar, por mais que cravasse as unhas nas palmas.
Minha respiração tornou-se ofegante, curta, como se o ar de Auradon tivesse ficado pesado demais para os meus pulmões. O coração, que horas antes batia em celebração nos braços de Evie, agora martelava em um ritmo frenético de terror, tentando escapar da minha caixa torácica.
Meus olhos se encheram de lágrimas que eu me recusava a deixar cair — porque as princesas não borram o rímel em público, mesmo quando sentem que estão morrendo.
E então, veio aquela sensação de bile na garganta. Um gosto amargo e ácido que subia, queimando, enquanto um sufocamento invisível e agoniante apertava meu pescoço.
Era como se as paredes de mármore estivessem se fechando, transformando o corredor em um túmulo luxuoso. Eu estava tendo uma crise em plena luz do dia, cercada por pessoas que não faziam ideia de que, por trás da saia vermelha e do laço impecável, eu estava me afogando em terra firme.
Precisei encostar o ombro na parede fria para não desabar.
Respire, Apple. Sorria, Apple. Não deixe que vejam a aberração que você acha que se tornou.
Está tudo bem gostar de garotas, em segredo.
Ninguém sabe, ainda.
Regulei minha respiração de novo, sequei as lágrimas não derramadas e me recompus da melhor maneira possível. Agradeci a qualquer divindade que tinha me dado a oportunidade ter essa pequena crise no corredor vazio.
Ajeitei a postura, arrumei o cabelo e sorri.
Então eu andei, no meio do corredor com toda aquela auto confiança falsa. Como uma rainha — a do palco de teatro que sempre interpretei.
Cheguei à sala do grêmio em questão de segundos, movida por um instinto de sobrevivência. Eu tinha, de fato, pendências a resolver após a festa de ontem; normalmente, eu as deixaria para o meio da semana, mas hoje o trabalho era a minha única desculpa aceitável para fugir dos olhares do corredor. Eu precisava de ordem, de papéis, de algo que eu pudesse controlar.
No entanto, o ar fugiu dos meus pulmões por um motivo completamente diferente quando abri a porta.
Surpreendi-me ao encontrar Evie ali. Ela não estava apenas me esperando; estava sentada em cima da minha mesa de carvalho, com uma postura que desafiava toda a rigidez daquele escritório. Estava completamente arrumada, divina, com cada fio de cabelo azul caindo como seda sobre os ombros.
Em uma das mãos, ela segurava uma única rosa, girando o caule entre os dedos com uma elegância que me fez esquecer como se respirava.
Ela estava belíssima, uma visão que parecia ter sido pintada para apagar todo o cinza da minha crise de ansiedade. No momento em que nossos olhos se encontraram, a bile na minha garganta desapareceu, substituída por um calor doce que se espalhou pelo meu peito.
A segurança que eu sentira entre os lençóis naquela manhã voltou com força total, provando que, não importava o quanto o mundo lá fora tentasse me sufocar, ali, com ela, o ar era sempre puro.
— Você demorou, maçãzinha — ela disse, e o som da sua voz foi o golpe de misericórdia na minha miserável vida.
— Como sabia que eu ia estar aqui? — perguntei, inclinando a cabeça.
— Ameacei sua secretária para ela me falar onde você estaria, já que não te encontrei no quarto. — Deu de ombros.
— Você ameaçou Rosie? — perguntei incrédula.
— Teoricamente? Eu não fiz nada demais. — tentou se defender. — Só disse que ela poderia não acordar na manhã seguinte se não me contasse, e também disse para evitar maçãs no jantar.
— Evie! — falei com minha melhor voz de repreender.
— Você me deve um encontro maçãzinha! — falou convicta.
— Pensei que era amanha. — Respondi.
— Mudei de ideia, vamos!
Ela pulou da minha mesa de maneira graciosa, um movimento fluido que parecia desafiar a gravidade e toda a tensão que eu trouxera do corredor. Evie não disse nada de imediato; ela apenas se aproximou, diminuindo o espaço entre nós até que o perfume de baunilha e mistério que emanava dela envolvesse meus sentidos.
Com uma delicadeza absoluta, ela estendeu as mãos e tirou os livros que eu apertava contra o peito. Senti meus braços finalmente relaxarem quando ela os depositou sobre a mesa, como se estivesse guardando minhas preocupações em uma gaveta trancada.
Livre do peso físico, senti minhas mãos tremerem menos, mas o coração ainda oscilava. Foi então que ela colocou a rosa vermelha entre meus dedos. O contato da pele dela com a minha foi como um choque elétrico que percorreu meu corpo, aterrando-me de volta à realidade. A flor era vibrante, viva, e contrastava com a palidez dos meus dedos agora relaxados.
Eu olhei para a rosa e depois para ela, sentindo que o nó na minha garganta estava finalmente se desfazendo. O silêncio da sala do grêmio, antes opressor, tornou-se um refúgio sagrado.
— Você parecia estar carregando o mundo inteiro nesses cadernos, Apple — ela sussurrou, os olhos castanhos vasculhando meu rosto com uma ternura que me desmanchava. — Deixa que eu seguro um pouco para você.
Senti meus joelhos fraquejarem por um segundo, não mais pelo terror do corredor, mas pela entrega absoluta àquela mulher diante de mim. O comentário sobre a ameaça à Rosie deveria ter me deixado genuinamente brava — afinal, eu era a Presidente do Grêmio e havia regras —, mas tudo o que consegui fazer foi soltar um riso soprado, uma nota de alegria genuína que escapou por entre meus lábios pintados de vermelho.
— Você é impossível, Evie — murmurei, olhando para a rosa em minha mão. As pétalas eram tão macias quanto a pele dela.
— Sou persistente — ela corrigiu, deslizando o polegar pelo meu queixo, obrigando-me a olhar em seus olhos. — E eu não aceito um "amanhã" quando posso ter o "agora". Auradon pode esperar, Apple. Os papéis podem esperar. O mundo não vai acabar se a princesa tirar a tarde de folga.
Evie estendeu a mão para mim, a palma aberta como uma ponte entre o meu caos e a sua liberdade. Eu olhei para aqueles dedos longos e depois para a pilha de relatórios sobre a mesa, sentindo o peso da coroa invisível esmagar minhas têmporas.
— Eu... eu não posso, Evie — comecei, minha voz falhando. Dei um passo involuntário para trás, recuando para a segurança da minha escrivaninha. — Tenho o conselho estudantil às quatro, os preparativos para a Coroação do Ben estão em cima da hora e... e a Rosie deve estar vindo com os formulários que pedi. Se eu sumir agora, o que vão pensar? O que minha mãe diria se soubesse que abandonei minhas obrigações por um... um...
— Um encontro? — Evie completou com suavidade, sem baixar a mão.
Ela não parecia ofendida pela minha hesitação; ela parecia entender que eu estava lutando contra fantasmas.
— Por um capricho — corrigi, embora meu coração gritasse que era muito mais que isso. — Eu sou a Apple White, Evie. Eu não "fujo". Se a Coroação não for perfeita, a culpa será minha. Eu não posso decepcionar o reino.
E a minha mãe. Completei mentalmente.
Evie deu um passo à frente, ignorando minha barreira invisível. Com uma lentidão hipnótica, ela envolveu minha mão trêmula com a dela. Não foi um puxão, foi um encaixe. O calor da sua pele contra a minha agiu como um sedativo, silenciando por um segundo a voz crítica da minha mãe na minha cabeça.
Ela aproximou o rosto do meu, o suficiente para que eu pudesse ver as nuances de amarelo em seus olhos de café.
— Maçãzinha, olhe para mim — sussurrou, e eu obedeci, presa em seu magnetismo. — O mundo não vai parar de girar se você respirar por algumas horas. O Ben vai ser rei com ou sem esses formulários. Você passou a vida inteira sendo o que eles queriam. Só por hoje... seja o que você quer.
Ela apertou meus dedos de maneira encorajadora, um gesto que prometia segurança.
— Eu estou aqui. Eu não vou deixar você cair. Confia em mim?
Eu olhei para a porta da sala, a fronteira entre o meu teatro de perfeição e a incerteza do que sentíamos. O conflito rugia dentro de mim, mas o toque de Evie era a única coisa que parecia real naquele prédio de mármore e mentiras.
— Eu confio — respondi, quase sem fôlego, permitindo que ela fechasse os dedos sobre os meus e me guiasse para fora da minha própria prisão.
— Para onde vamos? — perguntei, deixando que ela me guiasse em direção à porta.
Evie abriu um sorriso enigmático, aquele que prometia segredos e liberdades que eu ainda não ousava nomear.
— Para onde as regras não conseguem nos seguir.
🍎
Saímos pelas portas laterais do Grêmio, evitando o pátio principal. Eu esperava que Evie me levasse para os jardins ou, quem sabe, para um café escondido na vila. Mas ela me guiou até os limites do estacionamento dos fundos, onde uma silhueta metálica e robusta descansava sob a sombra de um carvalho antigo.
Era uma moto. Mas não uma moto comum de Auradon, pintada em tons pastéis. Era uma máquina de metal escuro, com detalhes em couro gasto e um ronco que eu sabia que acordaria meus instintos mais primitivos.
— De quem é isso? — perguntei, sentindo um frio na barriga que não tinha nada a ver com ansiedade, e sim com adrenalina.
— Minha — Evie respondeu com uma naturalidade desconcertante, tirando dois capacetes do compartimento lateral. — O Jay me ajudou a montar com peças que ele "conseguiu". Ela tem um pouco da alma da Ilha nela.
Olhei para a minha saia rodada, para o meu laço perfeito e para a rosa que ainda segurava. Aquela cena era um crime contra todos os manuais de etiqueta que já li.
— Evie, eu não posso subir nisso. Eu estou de saia! E se alguém ver? E se eu cair?— disparei as perguntas de uma vez.
Ela se aproximou, colocando o capacete em minha cabeça com uma delicadeza que contrastava com a agressividade da moto. Ajustou a fivela sob meu queixo e sorriu, aquele sorriso que me fazia querer pular de penhascos se ela prometesse me segurar.
— Aperte a saia entre as pernas, segure firme na minha cintura e feche os olhos se precisar, maçãzinha. Eu piloto isso desde os doze anos nas ruas de terra da Ilha. Eu te disse, não disse? Eu não vou deixar você cair.
Ela montou com uma agilidade invejável, ligando o motor. O ronco vibrou no chão, subindo pelas solas dos meus sapatos vermelhos e atingindo meu peito. Era um som de liberdade.
Hesitante, montei na garupa, sentindo o couro frio contra minhas coxas. Envolvi a cintura dela com meus braços, colando meu corpo ao seu. Naquele momento, o medo da Coroação, o peso da minha mãe e o sufocamento dos corredores pareciam quilômetros de distância.
— Pronta? — ela gritou por cima do barulho do motor.
— Não! — respondi honestamente.
— Ótimo. É assim que a vida começa.
E então, o mundo acelerou.
O motor rugiu e o asfalto sob nós tornou-se um borrão cinzento. No início, eu estava encolhida, o rosto pressionado contra as costas de Evie, meus dedos cravados no tecido da sua jaqueta como se minha vida dependesse de cada fibra de couro. Mas então, algo mudou.
O vento não era apenas ar se movendo; era como se ele estivesse arrancando, camada por camada, todo o pó de arroz e a rigidez dos meus ombros. Senti uma risada borbulhar no meu peito, uma gargalhada genuína que Auradon nunca tinha ouvido.
Em um impulso de pura loucura, eu soltei a cintura de Evie.
— Apple! — Evie gritou, a voz quase abafada pelo vento, mas carregada de susto. — Segure-se!
Eu não ouvi. Ou melhor, eu não quis ouvir. Levantei os braços para os lados, deixando que o vento batesse nas minhas palmas e inflasse minhas mangas. Eu não era mais a herdeira perfeita; eu era apenas uma garota em uma moto veloz, sentindo a adrenalina queimar o medo como se fosse palha.
— Eu estou voando, Evie! — gritei, rindo como uma criança, enquanto sentia a moto inclinar em uma curva fechada.
— Segura agora, maçãzinha! — Evie brigou, embora eu pudesse sentir o sorriso na voz dela.
Ela deu um leve solavanco de propósito só para me obrigar a agarrá-la novamente, e eu o fiz, rindo contra seu pescoço enquanto o mundo passava voando por nós.
Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade de liberdade, Evie reduziu a velocidade. Entramos em uma trilha de terra batida, cercada por carvalhos tão altos que filtravam a luz do sol em feixes dourados. Era um bosque isolado, um lugar onde o silêncio só era interrompido pelo canto dos pássaros e pelo estalar de galhos secos.
Ela parou a moto perto de um riacho cristalino. O silêncio que se seguiu ao desligar o motor foi quase sagrado.
— Você quase me matou de susto lá atrás — Evie disse, tirando o capacete e bagunçando os cabelos azuis, mas seus olhos brilhavam de admiração. — Onde guardou aquela Apple certinha?
— Ela ficou em algum lugar no quilômetro dez — respondi, descendo da moto com as pernas ainda tremendo pela adrenalina.
Caminhamos por uma trilha estreita onde os raios de sol brincavam de esconder entre as folhas, até que a vegetação se abriu em uma clareira que parecia ter sido arrancada de um sonho.
Eu travei. O piquenique já estava lá, montado sob a sombra de um salgueiro cujos ramos tocavam o chão como cortinas naturais. Não era apenas uma toalha estendida; havia almofadas de veludo azul e carmesim espalhadas sobre um tapete felpudo, lanternas de vidro penduradas nos galhos baixos — que eu sabia que brilhariam como fadas ao entardecer — e um arranjo de flores silvestres que parecia ter sido colhido minutos atrás.
— Evie... você preparou tudo isso? — sussurrei, maravilhada.
— Eu tive uma ajudinha técnica para a montagem — ela deu de ombros, aproximando-se da toalha com aquele andar de quem sabe exatamente o que está fazendo. — Mas os detalhes... os detalhes são todos meus.
No centro de tudo, repousando sobre um suporte de prata que parecia ter saído da cozinha real de Auradon, estava ela.
Uma torta de maçã.
A crosta estava perfeitamente trançada, polvilhada com açúcar que brilhava como diamantes sob a luz filtrada do bosque. Eu não pude evitar a risada que escapou, uma mistura de ironia e puro deleite.
— Uma torta de maçã, Evie? Sério? — brinquei, acomodando-me entre as almofadas e sentindo o tule da minha saia se espalhar como uma nuvem vermelha ao meu redor. — Você sabe que isso é quase um crime de família para mim, não sabe?
Evie se ajoelhou à minha frente, pegando uma pequena faca de prata. Ela cortou uma fatia, o aroma de canela e frutas quentes invadindo o ar, e me olhou com uma intensidade que fez o resto da adrenalina da moto se transformar em um calor suave.
— Eu sei. Por isso escolhi ela — ela disse, estendendo-me um prato. — Em Auradon, as maçãs são símbolos de destino, de medo e de um sono que você nunca pediu. Mas aqui, nesta clareira... ela é só uma torta. Doce, quente e nossa. Sem veneno, Apple. Só açúcar e a minha vontade de te ver sorrir de verdade.
Pela primeira vez em dezoito anos, olhei para uma maçã e não vi o rosto da minha mãe ou o peso de uma maldição. Vi apenas o cuidado de Evie.
— É a primeira vez que alguém me dá uma maçã sem querer algo em troca — confessei, minha voz sumindo enquanto eu provava o primeiro pedaço.
Estava divina. E o melhor de tudo? Não havia ninguém ali para me dizer como eu deveria me sentar, como eu deveria mastigar ou qual seria o meu "felizes para sempre". Ali, entre a torta e as lanternas penduradas, o único destino que importava era o brilho nos olhos de Evie.
Eu olhei para a fatia de torta em minhas mãos e, depois, para o rosto expectante de Evie. O cheiro da canela parecia se misturar ao perfume de baunilha dela, criando uma atmosfera onde o medo não conseguia mais respirar. Senti meu coração, que passou o dia inteiro apertado por correntes de ansiedade, finalmente se soltar.
— Sabe de uma coisa? — Minha voz saiu baixa, mas carregada de uma honestidade que me assustou. — Mesmo que você quisesse me envenenar, Evie... e mesmo que eu soubesse que essa torta estava envenenada, eu a comeria do mesmo jeito.
Evie parou o movimento de levar o próprio garfo à boca. Seus olhos castanhos se arregalaram levemente, buscando os meus em meio à luz dourada da clareira. O silêncio do bosque pareceu prender o fôlego junto conosco.
— Apple... — ela começou, mas eu a interrompi.
— Eu comeria — repeti, sentindo um calor subir pelo meu pescoço, mas desta vez não era a vergonha do corredor, era a coragem de ser real. — Porque eu... eu acho que gosto de você. De um jeito que faz todas as regras e todos os perigos parecerem pequenos demais.
Aquelas palavras, uma vez ditas, não podiam mais ser enterradas sob camadas de pó de arroz. Elas flutuavam entre nós, selando o pacto que havíamos começado naquela manhã. Eu não estava apenas aceitando uma torta; eu estava aceitando que, por Evie, eu estava disposta a enfrentar o meu maior medo.
Evie soltou o prato sobre o tapete e se inclinou em minha direção. O sorriso dela não era mais brincalhão ou enigmático; era doce, grato e profundamente apaixonado.
— Pois eu tenho uma notícia para você, maçãzinha — ela sussurrou, a centímetros do meu rosto. — O único veneno que eu tenho aqui é o meu beijo. E eu duvido que você queira se livrar dele.
Evie se aproximou, o olhar brilhando com uma esperança que me cortou a alma. Eu desviei o rosto, sentindo as lágrimas — as reais, não as do teatro — queimarem meus olhos.
— Eu não posso fazer isso com você, Evie — comecei, minha voz saindo quebrada, lutando contra o nó que voltava a fechar minha garganta. — Eu não posso.
— Apple, do que você está falando? — Ela tentou tocar minha mão, mas eu recuei, levantando-me bruscamente.
O tule da minha saia se enroscou no musgo, mas eu não me importei.
— Eu não posso te deixar nas sombras! — gritei, e o som ricocheteou nas árvores. — Eu não conseguiria te assumir agora. Minha mãe... Auradon... as pessoas... eles destruiriam você para me atingir. Ou pior, nos transformariam em um escândalo a ser apagado. Eu não posso te condenar a ser um segredo, a ser a garota que eu encontro em clareiras escondidas porque tenho medo de segurar sua mão no corredor.
Virei-me para ela, as lágrimas agora escorrendo livremente, manchando o pó de arroz que eu tanto lutei para manter impecável.
— Você é divina, Evie. Você merece ser vista. Merece ter alguém que esteja disposta a te colocar em um monumento, a gritar para o mundo inteiro o quanto você é incrível. E eu... — Solucei, sentindo a bile da ansiedade voltar com força. — Eu sou apenas uma covarde em um vestido vermelho que não consegue nem olhar nos olhos da própria mãe sem tremer. Eu não posso te oferecer as sombras, porque você nasceu para brilhar.
Eu a olhei, esperando que ela ficasse brava, que montasse na moto e fosse embora. Mas Evie apenas permaneceu ali, sentada entre as almofadas, observando minha ruína com uma calma que eu não merecia.
Mas Evie não se levantou com raiva. Ela não montou na moto para me deixar sozinha com meus fantasmas. Em vez disso, ela se aproximou com a calma de quem já enfrentou tempestades muito piores que a desaprovação de Auradon. Suas mãos envolveram meu rosto com uma firmeza que me obrigou a parar de tremer.
— Está tudo bem, maçãzinha — ela sussurrou, a voz tão suave quanto a brisa que balançava as lanternas. — Eu te espero. Eu passei a vida inteira escondida sob a sombra de uma muralha na Ilha; você acha mesmo que eu me importo de ficar nas sombras se for para estar com você?
Senti o peso no meu peito diminuir um milímetro.
— Quando você estiver pronta para brilhar comigo, eu estarei aqui — ela continuou, colando sua testa na minha. — Eu sempre vou estar aqui.
Naquele momento, o bosque pareceu desaparecer. Não havia mais Auradon, nem mamãe, nem julgamentos em jogo. Havia apenas o calor da respiração dela e a promessa de um porto seguro.
Evie encurtou a distância final e me beijou.
Foi um beijo incrível, arrebatador. Começou com a doçura da torta de maçã e terminou com o gosto metálico da liberdade. Não foi um beijo de conto de fadas, coreografado e frio; foi visceral, urgente, como se estivéssemos trocando o fôlego que o mundo lá fora tentava nos tirar.
Eu me agarrei à jaqueta dela, sentindo a textura do couro sob meus dedos, enquanto o mundo girava e se perdia em nuances de azul e vermelho. Pela primeira vez, eu não era a protagonista de uma peça; eu era a dona do meu próprio corpo.
Quando nos separamos, ofegantes, a luz das lanternas refletia nos olhos de Evie, que brilhavam com uma determinação inabalável. Ela limpou o rastro de uma lágrima no meu rosto com o polegar e sorriu de canto.
— Vamos fazer isso, Apple. Escondidas. Só nós duas, até que os muros caiam.
Eu a encarei por um longo tempo, sentindo o batom vermelho borrado e o coração batendo finalmente em paz. Eu sabia que o medo voltaria assim que cruzássemos os portões de volta, mas ali, naquele santuário, eu tomei minha decisão.
Acenei com a cabeça, um gesto firme e silencioso. O nosso pacto estava selado. O veneno de Auradon continuava lá fora, mas agora, nós éramos o antídoto uma da outra.
