Chapter Text
Sentado ao lado de sua cama, Aren olhou com ternura sua filha de oito ciclos de idade, aparentemente perdida para um sono pacifico. A sala estava coberta em luz fraca, o zumbido suave de dispositivos mágicos enchiam o ar com seu brilho etéreo, exibindo dados complexos nas telas cristalinas espalhadas. Quando se tratava de magia medicinal, o Centro de Cuidados de Akasa rivalizava com os melhores hospitais de Saburia.
Com um sorriso gentil porém melancólico, Aren delicadamente removeu uma mecha de cabelo do rosto de sua filha. Então, ele convocou um velho caderno, suas páginas gastas com o tempo, e começou a folhear através de seus conteúdos. —Eu imagino que você gostaria de ouvir seu conto favorito, querida. Aquele sobre como eu conheci a sua irmã.
Cada evento de sua vida estava meticulosamente narrado naquelas páginas, um testamento ao seu medo de esquecer. O som de papel farfalhando preenchia a sala enquanto ele folheava o manuscrito, passando por histórias de seus dias como Sumo-Sacerdote às doces palavras de sua falecida esposa.
—Ah, aqui está… treze ciclos atrás,— Ele murmurou melancolicamente —O dia que eu cruzei caminhos com Aqasha.
A voz de Aren era um murmúrio gentil como se ele estivesse transmitindo um segredo querido destinado apenas para suas orelhas:—Em meio às minhas tristezas,— Ele começou — O destino me colocou em um momento que alterou o curso de tudo. No coração da floresta, deparei-me com uma jovem alicórnio, Aqasha, ferida e trêmula. Sem filhos na época, eu senti o casco do destino me chamando para ser seu Protetor, seu curador.
Seu olhar deslocou-se para a figura em repouso aninhada na cama, seu coração pesado por uma onda de emoção. —Semanas passaram enquanto eu cuidava dela— Ele continuou, —E gradualmente, seus olhos cautelosos se suavizaram, vendo em mim, creio eu, um guardião, uma presença paterna.
Fazendo uma pausa para relembrar a noite que solidificou seu vínculo, ele falou suavemente: —Eu pretendia libertá-la depois que havia se curado,— Ele confessou —Mas uma noite, enquanto ela batalhava um pesadelo particularmente angustiante, sua pequena asa se estendeu, tocando-me enquanto murmurava um comovente “Papai” em seu estado semiconsciente. Naquele momento, eu soube que nunca mais poderia deixá-la.
Na narração da evolução de Aqasha para uma Sacerdotisa das Chamas formidável, a voz de Aren se encheu de orgulho paterno. —Ela se tornou tudo aquilo que eu nunca soube que desejava,— ele murmurou, suas palavras uma confissão silenciosa em meio à tapeçaria de suas memórias. —Um farol na sombra da minha dor. No entanto, devo confessar… ela desenvolveu uma ousadia, uma assertividade que muitas vezes se torna desafiadora.
O silêncio o envolveu, um véu de lembranças velando aqueles dias em que as complexidades de sua vida se entrelaçavam em padrões intrincados. Mais uma vez, ele abriu sua alma à perspectiva do amor, encontrando um alicórnio fascinante em meio ao movimentado mercado. Uma faísca se acendeu, dando origem a um romance que iluminou brevemente a escuridão de sua existência. Mas este novo capítulo trazia seus próprios desafios. Aqasha, sempre vigilante à distância, se envolvia em indiferença, ocultando camadas de trauma e angústia sob sua aparência estoica.
Para Aren, Aqasha era mais do que uma protegida; ela era sua salvação em meio à tempestade de tristeza. Sua presença dava sentido aos seus dias, guiando-o para longe do abismo do desespero. Com uma risada suave, ele despertou de seus devaneios. —Desculpe, Lilas... seu velho pai está cansado—, confessou. —De qualquer forma, alguns ciclos depois, a união com meu novo amor nos abençoou com uma criança. Você, querida.
Ele fez uma pausa, lançando um olhar terno sobre a figura serena de sua filha, sua respiração era lenta e constante no abraço do sono. Não tinha certeza se ela o ouvira, mas lhe faltava a coragem para narrar o próximo capítulo de sua história. Embora a chegada de Lilas anunciasse alegria, ela estava tingida pelo gosto amargo da tristeza, pois sua saúde frágil lançava uma sombra sobre a felicidade deles. E então, como se o destino se deleitasse com sua cruel ironia, sua esposa desapareceu sem deixar rastro, deixando Aren para navegar pelas águas traiçoeiras da paternidade solo.
—Aqasha frequentemente cuidava de você enquanto eu estava cumprindo meus deveres como Sumo sacerdote,— Ele continuou, sua voz um sussurro —Apesar de seus humores, ela nutria um afeto tão profundo quanto o seu próprio.
Aren selou seu caderno com uma risca de magia, guardando-o em uma bolsa gasta que carregava no ombro. —Hora de partir, minha querida,— murmurou ele, com a voz carregada de pesar. —Voltarei com uma nova história na minha próxima visita. O papel de Aqasha no Festival da Irmandade exige minha presença, e preciso garantir que ela não cause problemas quando conhecer a rainha,— confessou, um riso nervoso denunciando sua apreensão.
Aproximando-se da filha adormecida, Aren depositou um beijo suave em sua testa, o olhar repleto de uma saudade pungente. —Que você acorde logo, minha doce criança— sussurrou com um sorriso melancólico nos lábios.
Com passos silenciosos, Aren saiu da câmara e percorreu os corredores sagrados do centro de cuidados. No caminho para a saída, encontrou uma enfermeira absorta em suas tarefas, debruçada sobre documentos. Seus olhos se ergueram em reconhecimento, oferecendo-lhe uma reverência respeitosa.
—Sumo Sacerdote, é um prazer vê-lo,— cumprimentou-o calorosamente. —Imagino que tenha acabado de ler algumas histórias para Lilas?
—De fato,— respondeu Aren, cansado, embora um sorriso iluminasse seu semblante fatigado. —Alguma notícia sobre o estado dela, por acaso?
A enfermeira não pôde deixar de notar o peso que oprimia Aren, uma sensação de peso que não se dissipava facilmente. Aquilo o acompanhava como uma sombra, envelhecendo-o além de seus trinta e sete ciclos. Com um sorriso compreensivo, ela repetiu o refrão familiar.
—Receio que não, Sumo Sacerdote,— murmurou ela suavemente. —O coma persiste, embora seu estado permaneça estável por enquanto.
—Entendo,— respondeu ele, com um sorriso que disfarçava a tristeza estampada em seus olhos. —Obrigado por sua dedicação. Serei eternamente grato por cuidar da minha filha.
A resposta da enfermeira foi rápida e sincera. —Não, Sumo Sacerdote, é nosso dever como médicos. E somos gratos por tudo o que o senhor faz por Ardenia e por nossa rainha.
Aren deu uma risadinha, estendendo uma asa em despedida, expressando sua gratidão mais uma vez antes de seguir em direção à saída do prédio.
Deixando o centro de cuidados para trás, Aren se viu em meio às ruas movimentadas da capital. Sua jornada o levou a uma humilde barraca de comida, cujo acolhimento caloroso esboçou um raro sorriso em seu rosto cansado. —Bem-vindo, Sumo Sacerdote. O que gostaria de comer, ó venerado?"— cumprimentou o vendedor, com reverência e carinho em suas palavras.
—Olá, abençoado seja. Que Ardenu faça resplandecer seu rosto sobre você. Gostaria da sugestão do chef, por favor,— respondeu Aren, sua voz um mero sussurro em meio à cacofonia da cidade. Enquanto se acomodava para comer, seu espírito atormentado não passou despercebido pelos donos da barraca. À sua maneira, eles buscaram distraí-lo, oferecer consolo a uma alma que havia atravessado as profundezas do sofrimento de um alicórnio.
O ar ao redor deles vibrava com a energia das celebrações iminentes. O Festival da Irmandade, um evento consagrado pelo tempo que marcava a aliança entre Ardenia e Luxia, ocorrendo entre a noite do último dia do terceiro mês das chamas e a manhã do primeiro dia do primeiro mês da luz, se aproximava rapidamente. As ruas fervilhavam com os preparativos, o ar eletrizante de entusiasmo. Neste ciclo, a honra de sediar o festival cabia a Ardenia, e a capital, Akasa, era um turbilhão de atividades e expectativa.
Enquanto Aren jantava, conversas fervilhavam ao seu redor. —Sumo Sacerdote, Aqasha abrilhantará o festival com sua presença?—, perguntou uma voz ansiosa. Aren, com a mente um labirinto de memórias nebulosas, não conseguia se lembrar da última vez que conversara sobre o assunto. —Considerando o papel dela, espero que sim—, respondeu com um lampejo de incerteza na voz. —Nunca se sabe com essas crianças.
—Pensei que Aqasha tivesse vinte e três ciclos?
—Para mim, ela permanecerá para sempre uma criança. Minha criança— acrescentou com uma risada nervosa, a perspectiva eterna de um pai.
A compaixão nos olhos daqueles ao seu redor era palpável, seus sorrisos tingidos de piedade. Ali estava o Sumo Sacerdote, um alicórnio de imensa estatura espiritual, porém atormentado por turbulências pessoais.
Após terminar sua refeição, Aren pagou e partiu com um aceno respeitoso. Sem que ele soubesse, Aqasha, hábil em disfarçar sua empolgação, aguardava ansiosamente o festival. Ela estrelaria a peça cerimonial como Ardenu, um papel de grande significado, cuja história girava em torno da paz mítica forjada entre Ardenia e Luxia.
Ao sair da barraca de comida, Aren seguiu seu caminho até o Castelo Sagrado de Akasa, o centro de seus deveres espirituais. Seus pensamentos, um mar turbulento de preocupação e oração, estavam voltados para sua filha, ainda perdida nas profundezas de seu coma. Ao se aproximar do castelo, absorto em seus pensamentos, um encontro inesperado o aguardava, um rosto familiar que prometia mudar o rumo de seu dia.
À sombra do Castelo Sagrado de Akasa, erguia-se Ayzat, o Segundo Paladino de Equestria. Apesar da ausência de asas — uma peculiaridade que o diferenciava em um reino onde tais apêndices eram tão comuns quanto as pedras que pavimentavam as ruas — Ayzat inspirava respeito e admiração por todos os sete reinos. Seus vinte e cinco ciclos de vida, por mais breves que parecessem, foram repletos de feitos e bravura que rivalizavam com as sagas dos mais antigos Protetores. Sua rápida ascensão na hierarquia era lendária, um testemunho de sua habilidade incomparável e espírito indomável.
Naquela tarde em particular, enquanto o crepúsculo projetava longas sombras e o ar se enchia com o aroma da chuva iminente, Ayzat conversava seriamente com uma jovem alicórnio Luxiana do lado de fora dos imponentes portões do castelo. A alicórnio, uma criatura delicada com olhos como poços iluminados pela lua e asas que cintilavam com um brilho etéreo, havia sido escolhida para representar Luxoah no iminente Festival da Irmandade. Buscando orientação de Ayzat, ela pairou perto dele, suas asas tremulando com uma excitação mal disfarçada enquanto absorvia seus conselhos. Ayzat, por sua vez, a tranquilizou com um tom gentil e afirmativo, infundindo nela a confiança que era própria de Luxoah.
Enquanto Ayzat compartilhava seu conhecimento, a alicórnio Luxiana absorvia cada palavra, o olhar repleto de inconfundível admiração e reverência. Suas palavras, fluindo como um rio de mel, a cativavam completamente, e seus sorrisos eram espontâneos e involuntários. Para ela, Ayzat era mais do que um Protetor; era um paradigma, um ideal encarnado.
A conversa, contudo, foi abruptamente interrompida pela chegada de Aren, antigo camarada de Ayzat. O semblante da alicórnio mudou visivelmente, a tranquilidade anterior dando lugar a um desconforto evidente. Sentindo a santidade de seu tempo com Ayzat ameaçada, ela se desculpou apressadamente, fingindo estar doente e aceitando a oferta de Ayzat para descansar em seus aposentos.
Aren, com olhos que carregavam o peso de histórias não contadas, cumprimentou Ayzat calorosamente: —Olá, velho amigo. Que bom te ver.— Ayzat, percebendo as camadas de lutas não expressas na saudação de Aren, respondeu da mesma forma: —Que bom te ver também, Aren. Como estão as meninas?
A resposta de Aren veio acompanhada de um suspiro pesado, carregado de preocupação. —Você está indo em direção ao Castelo?—, perguntou ele, com uma urgência velada na voz.
—Sim, meu amigo. Vamos juntos—, respondeu Ayzat, com a voz misturando camaradagem e solenidade.
Eles prosseguiram rapidamente, os passos de Aren denunciando sua pressa. —Preciso chegar lá logo, então temos que andar depressa. Aqasha precisa ver a Rainha das Chamas—, explicou ele, com uma ansiedade latente nas palavras.
Ayzat, acompanhando o passo de Aren, perguntou: —É por isso que você está tão aflito?
Outro suspiro pesado escapou de Aren, como se cada respiração carregasse o peso de seus problemas. —Aqasha está me preocupando muito, Ayzat. O comportamento dela parece piorar e ficar cada vez mais imprevisível, e agora ela tem que ver a rainha. Não quero que ela vá a essa reunião sem mim—, confessou ele, com a voz misturando preocupação paterna e medo.
O vento aumentou, rodopiando ao redor deles, fazendo a capa de Ayzat dançar como chamas selvagens atrás dele, adicionando uma aura dramática, quase sobrenatural, à sua figura. Ele respondeu às preocupações de Aren com uma sabedoria que parecia transcender seus ciclos: —Você precisa deixá-la extravasar o que quer que esteja sentindo agora. É uma espécie de compensação exagerada, porque ela teve uma infância particularmente difícil.
Aren, com o rosto repleto de emoções mistas, admitiu: —Tentei facilitar a vida dela, mas ela nunca pareceu se abrir para mim.
—Mas é mais complicado do que isso—, continuou ele, com a voz carregada de compreensão e empatia. —Eu sei que ela passou por momentos difíceis antes de eu a encontrar naquele dia, mas presumi que ela se relacionaria melhor comigo agora.
—É uma combinação da personalidade dela e das experiências que viveu. Acho que você só deve se preocupar se ela mudar completamente em pouco tempo—, aconselhou Ayzat, sua perspicácia desvendando as complexidades da natureza alicórnica e seus traumas.
—E além disso, a irmã dela também está em coma há um tempo. É demais para mim—, confidenciou Aren, com a voz embargada pela tensão.
Ayzat interrompeu Aren por um instante, encarando-o com uma firmeza que desmentia sua juventude. —Você precisa dar a ela tempo e espaço, meu amigo.
Enquanto retomavam a caminhada em direção ao castelo, Aren, comovido pela profundidade da compreensão de Ayzat, murmurou uma oração de gratidão por um amigo como aquele. Nas palavras de Ayzat, havia uma sabedoria que parecia incongruente com sua idade, um testemunho da natureza extraordinária do jovem Paladino que se destacava muito acima dos demais de sua época.
