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Quanto mais eu tento te alcançar para ainda mais longe você parece se afastar

Chapter 3: O começo do verão

Summary:

Meses se passam desde que Richie desapareceu e as férias de verão se iniciam para seus amigos. Como será que eles estão lidando com tudo e o que os espera nessa situação?

Notes:

Oi gente, eu sei, essa eu demorei para começar mas meus compromissos acabaram me atrasando peço desculpas e eu também estou tentando construir isso minuciosamente para parecer natural e espero conseguir kk enfim esse é mais longo que os outros, espero que gostem

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

                   Junho - 1989 Derry Maine

   

  O sinal da escola tocava anunciando enfim as férias de verão, todas as crianças se animaram e saíram correndo da sala empurrando uns aos outros numa pressa de começar a aproveitar seus dias sem aulas. Todas menos uma, Eddie Kaspbrak. O garoto olhava apático ao redor e sem qualquer animação se levantou de seu lugar na classe apenas quando todos por ali já haviam saído e revirou os olhos ao ver que Bill o esperava na porta. Ele passou reto por ele, não querendo conversar muito mas o garoto seguia atrás dele mesmo assim, não falava nada mas ainda sim andava com ele como se para lembrá-lo que estava ali apesar de tudo e Eddie não sabia se aquilo era bom ou ruim. Stan que saia de sua sala foi rápido em alcançá-los, também em silêncio vendo o quão sem emoção Eddie parecia e apenas trocou olhares com Bill como se perguntasse o que deveria fazer. No fundo, o garoto Kaspbrak odiava que seus amigos não soubessem mais como agir perto dele, mas ele não sabia como mudar isso, nem ele mesmo sabia mais como agir agora.

 

  Já faziam meses desde que Richie havia desaparecido, nada além da sua bicicleta e seus óculos foram encontrados e felizmente seu corpo também não havia aparecido sem vida, isso aliviava Eddie mas também o deixava ansioso a todo momento se isso poderia acontecer ou não. Mas ele tentava se convencer que não, tentava se convencer que Richie ainda estava vivo em algum lugar e que ainda tinha chance de voltar dessa forma, ele queria que isso acontecesse e não conseguia não ter esperanças. E pensar nisso sem parar deixava Eddie uma pessoa muito mais irritável do que ele era antes, se estressando com tão pouco o que fez com que justamente seus amigos se tornassem mais cautelosos quando falavam com ele e fez ele mesmo querer se afastar um pouco deles, para evitar os deixar aflitos e para evitar a sensação de vazio de estar com eles sem Richie, porém eles seguiram andando juntos ainda sim, mesmo nesse clima estranho. ‘Os Otários ficam juntos’ disse o Bill e Eddie sabia que eles continuariam com ele até o final não importa o quão insuportável ele se tornasse e sabia que não merecia isso depois do que fez ao seu amigo mais próximo, seu melhor amigo. 

   

   “Então, meu bar mitzvah vai ser daqui a algumas semanas” disse Stan parecendo querer animar as coisas de alguma forma mas Eddie não reagiu, fazendo Bill ter que assumir a conversa “Pa-parece m-muito legal Stan, c-como isso fu-funciona?” Stan parece relaxar um pouco ao ver como Bill está colaborando. “Bom é a cerimônia que eu me torno um homem, meu pai está me ensinando a ler o meu Torá e..” Eddie para de andar e encara Stan com um olhar diferente, como se uma certa diversão estivesse brincando ali levemente. “Não tinha alguma coisa sobre você cortar a ponta do seu…”

“Não OUSE terminar essa frase!” Interrompe Stan levemente irritado mas feliz por dentro que Eddie tenha entrado no assunto dessa vez, na maioria das conversas ele apenas ouve tudo sem falar nada. “Um pouco de respeito por mim seria legal” ele complementa e Eddie solta um murmúrio baixo e seu lábios tremem levemente se franzindo, não é um sorriso mas é o mais próximo de um que ele tinha em meses. Desde que Richie tinha desaparecido Eddie não sorria ou ria mais, se o fazia era muito raramente e seus amigos sabiam que era porque o Tozier era o único que o fazia rir. “Respeito…não é assim que nossa relação funciona” brinca Eddie e Stan se atreve a sorrir de uma maneira mais convencida ao ver que seu amigo está minimamente entrando na brincadeira “Você fala como se tivéssemos uma relação” ele diz revirando os olhos com isso, Eddie volta a andar pelo corredor com eles logo atrás e apenas responde “Talvez nós tenhamos” que apesar de ser em tom de piada, sua voz segue vazia. 

 

   Quando os meninos chegam até a escada, uma certa Greta Keene acaba cruzando o caminho deles e trombando por acidente em Eddie. “Olha por onde anda Kaspbrak!” Ela repreende com uma voz um pouco irritada mas também monótona, mastigando um chiclete e sem sequer trocar olhares direito com Eddie. Ela simplesmente vai embora depois disso, o que o faz ranger os dentes e fazer uma menção que iria atrás delas com raiva mas Bill o puxa para a escada. Já fazia um tempo que ele e Stan tinham que manter Eddie longe de confusão, seu mau humor mais exagerado nos últimos meses tem feito ele entrar em muitas brigas com basicamente a cidade inteira ( principalmente com a sua mãe) e eles não querem ver seu amigo apanhando como chegou a acontecer algumas vezes novamente, então tentam ao máximo o manter afastado dessas possibilidades. E Eddie parecia nem se importar muito em apanhar após isso, o que preocupa muito Bill e enquanto eles saem finalmente da escola, ele olha com pesar para os óculos de Richie que Eddie coloca pendurado na gola de sua camiseta todos os dias desde que voltou do hospital com ele, após uma crise quando os policiais deram a notícia sobre Richie. Ele tentou devolver aos pais do garoto, mas Maggie e Went preferiram que ele ficasse com ele e desde então ele se agarra a esse óculos mais do que aos remédios e a bombinha em suas pochetes. 

 

   Os garotos foram até a lixeira à frente da escola descartando seus materiais ali como uma espécie de comemoração por estarem enfim livres das aulas. Stan e Bill sorriem satisfeitos ao fazer isso, mas Eddie apenas faz de maneira mais monótona, não encontrando real emoção naquilo. “Então…já sa-sabem o que vão fa-fa-fazer nessas férias?” pergunta Bill “Não tenho planos ainda, vocês tem?” Eddie segue calado, então Bill responde “ Eu v-vou com o ge-george passear ne-nesse final de semana…ma-mas podemos fa-fazer alguma coisa um dia de-desses” ele oferece “Nós podemos ir até a pedreira” sugere Stan, entretanto a proposta parece ter algum efeito em Eddie e ele estremece um pouco, ainda que finja que nada aconteceu. ”Acho melhor não “ ele responde simplesmente. Eles caminham para fora dali ainda dando ideias sobre para onde ir nas férias, todos num acordo silencioso de não ir para o fliperama, porém Bill observa que tudo que envolva passar ainda que pouco perto de lugares com água tem algum efeito em Eddie e ele quer perguntar porquê isso parece incomodá-lo tanto, mas subitamente sente que alguém o empurrou com força e cai no chão. Levantando seu olhar ele percebe que são a gangue de Henry Bowers, Ah droga!

Patrick pega o quipá de Stan zombando dele e jogando para longe, enquanto Henry puxa Bill o levantando à força e passa uma mão em que cuspiu em cima do seu rosto. Os outros garotos tentam atormentar Eddie o derrubando e arrotando em seu rosto mas tirando as leves expressões de nojo e irritação, dessa vez ele não parece tão zangado e Bill se sente aliviado em ver que ele não parece querer revidar. Mas isso dura pouco. 

 

  Henry solta Bill novamente no chão e vai até Eddie rindo “o que que foi fadinha? Nenhuma resposta espirituosa hoje?” ele pergunta e Eddie apenas o encarava com raiva contida. “Não pense que eu esqueci da última vez que você zombou do meu cabelo” ele diz baixinho no ouvido de Eddie que estremeceu e se afastou rapidamente. Bill se levantou correndo até ele e o puxou dali “d-deixa ele pra lá eds, v-vem vamos e-embora” ele diz olhando feio para Henry e ajudando Stan a se levantar e empurrando Patrick para longe para sair de cima dele, o idiota seguia mandando beijinhos para eles como uma provocação e Bill quase parte em cima deles ele mesmo mas se lembra que ainda tem que buscar George e não quer ter que fazer isso de olho roxo ( de novo) ou colocar seu irmãozinho na mira de um daqueles babacas. Eles seguiram andando até que Henry infelizmente soltou “Ouvi dizer que o amigo perdido de vocês pegou uma carona no Barrens direto pro inferno “ Eddie parou no lugar bruscamente e Bill e Stan se entreolharam sabendo o que viria a seguir.

 

  “Trágico não é?” Ele zombou fazendo uma voz de tristeza fingida “oh pobrezinho, meu pai disse que os últimos mortos apareceram boiando nos esgotos próximos noite passada, será que o viadinho Tozier estava entre as vítimas? Não teria outro lugar para aquele pirralho ir senão diretamente pro fogo.” Os punhos de Eddie tremiam colados ao corpo e lágrimas caiam livremente de seus olhos. “ Já estava na hora de termos menos mocinhas nesta cidade, seja lá quem for o psicopata do esgoto ele fez um favor dessa vez! Como é bom ter o som do silêncio novamente sem ouvir aquela vozinha suja e irritante “ e isso reverberou tanto que foi definitivamente a gota da água para Eddie e num movimento que ninguém viu de tão rápido, o garoto chutou a virilha de Henry Bowers, acertando exatamente no seu ‘ponto fraco’ como Stan definia. Bill e Stan arregalaram os olhos em completo choque e os capangas de Henry ficaram estáticos, exceto Patrick que observava a cena com um olhar sombrio. “É VOCÊ QUEM DEVIA ESTAR NO INFERNO!” Eddie grita a plenos pulmões, enquanto Henry cai de joelhos com as mãos cobrindo o local que foi acertado. 

 

  “Desgraçado…você está morto!” Ele fala com dificuldade olhando para Eddie com pura fúria mas o garoto não é afetado olhando para ele com o mesmo olhar vazio que carregava a meses, cheios de lágrimas e cansados e lança um olhar de desafio para os amigos de Henry como se esperasse que eles fizessem algo e vendo isso, Bill finalmente agiu correndo até ele e o puxando correndo, com os três fugindo o mais rápido que podiam e Bill pegou George no caminho que correu com eles mesmo sem entender nada. Quando finalmente chegaram na porta da casa de Bill que era a mais próxima eles finalmente se acalmaram um pouco. Bill diz para George entrar ainda que ele fique insistindo para saber o que houve, por fim conseguindo o convencer de entrar e Stan e Bill encaram Eddie que não falou nada durante toda a correria. 

 

  “Eddie…o que foi que você fez? Eles vão nos perseguir pelo resto do verão, não eles vão TE perseguir!” Stan diz em Pânico mas Eddie não se abala nem um pouco, algo incomum demais, ele sempre tinha medo da gangue Bowers antes e agora nada parece afetá-lo quanto a isso. “Não me arrependo de nada” ele diz seriamente “você ouviu o que ele disse? Ele…” Eddie não termina a frase limpando as lágrimas que caíam de seus olhos. “Po-por que…por que pareceu que…que v-você queria que e-eles te machucassem?” Pergunta Bill, Eddie desvia seu olhar “Re-Responde Eddie! Po-por que você fez i-isso? Está te-tentando se destruir?” Eddie seguia sem falar nada e evitando olhar para Stan e Bill “Você tem sido imprudente e impulsivo de uma maneira desenfreada nos últimos meses” diz Stan dessa vez, mas sem o tom exigente de Bill, ele estava apenas avaliando a situação “Parece até alguém que eu conheço” ele diz e nesse momento Eddie realmente parece ser atingido e vai até Stan com raiva nítida no olhar “Não OUSE terminar essa frase!” Ele repete as palavras de Stan porém sem qualquer tom de brincadeira como ele havia feito antes.

 

   “Eu sei o que você está fazendo Eddie, não é o jeito certo de o manter com você!” Diz Stan encarando os óculos de Richie pendurados na gola de Eddie “ Confia em mim, eu sei” ele murmura “Não você não sabe! Nenhum de vocês sabe…” Eddie insiste magoado sua voz vai perdendo a força e se entregando muito mais a tristeza que sente. “Vo-você precisa pa-parar com isso Eddie…não…não era o que o Ri-Richie iria querer…” diz Bill sabendo que o que disse era verdade mas também sabia que seu amigo não iria ouvir ainda sim ele tinha que tentar “ Mas talvez ele devesse querer depois de tudo…” ele sussurra mas seus amigos escutam “e ele não está aqui pra ver de todo modo e é por minha causa…minha culpa…” ele continua parecendo prestes a desabar “Eddie…” começa Bill colocando uma mão no ombro de Eddie mas ele mais que imediatamente afasta a mão e sai andando dali “Podem ir pra Pedreira se quiserem mas não contem comigo!” Grita Eddie para eles enquanto vai embora. “EDDIE!” Grita Bill, porém o garoto não volta atrás e segue o caminho até sua casa. Stan e Bill se olham e ambos suspiram derrotados. ‘Você faz muita falta boca suja’ pensa Bill melancólico. 


 

       Eddie chega em sua casa em segurança sem nenhum dos valentões da gangue Bowers o encontrar, o que o deixa em partes aliviado e em outras sem realmente se importar. Ele não liga mais tanto assim em levar uma grande surra, principalmente se for para calar a boca de um daqueles babacas quando eles falam daquele jeito de Richie. As palavras de Henry continuavam pesando na cabeça de Eddie, ‘Como é bom ter o som do silêncio novamente sem ouvir aquela vozinha suja e irritante’ ele disse e ele consegue lembrar de suas próprias palavras naquilo e ele ODEIA isso, ele odeia como ele tinha razão, ele era tão ruim quanto Henry por tudo que disse! Ele vai até seu quarto e se joga na cama tentando conter os soluços que ameaçavam sair. “Eddie ursinho” chama sua mãe do andar de baixo e mais que imediatamente Eddie pega um dos seus travesseiros colocando no rosto e gritando com toda a sua frustração. “Eddie, você está aí?” Chama sua mãe e ele consegue ouvir que ela está subindo as escadas. Soltando um longo resmungo ele tira o travesseiro de cima dele e grita “Sim mãe já cheguei! Estou no meu quarto agora mas não vem pra cá POR FAVOR! Não é uma boa hora!” Ele diz praticamente cuspindo todas as palavras e ele consegue ouvir o momento que sua mãe paralisa no lugar basicamente, o ranger dos degraus quando ela o faz entrega bastante.

 

   

   “Eddie, já conversamos sobre o seu tom de voz da última vez! Não é assim que você fala com a sua mãe!” Ela diz a ele com o que parece uma voz irritada mas ao mesmo tempo tentando soar como injustiçada e Eddie só revira os olhos. Ele já está cansado disso! Sua vida naquela casa, preso, vivendo com sua mãe exigindo diversos exames de saúde diferentes e remédios a cada minuto, já era como viver numa prisão antes, mas de repente era como se ele estivesse no sofrimento eterno ali agora sem Richie. Normalmente era ele quem quebrava momentos assim em sua vida, sempre aparecendo do nada e o levando para as piores ideias de passar o tempo possíveis só que no fundo não importava o quão ruim eram as ideias de Richie, ele gostava de estar com ele de qualquer jeito, quase como se ele fosse a única luz na constante escuridão que Eddie vivia e ele sentia tanta falta dele! E era culpa dele não era? ‘SERÁ QUE VOCÊ NUNCA PARA DE FALAR? POR QUE VOCÊ NUNCA ME ESCUTA? SEMPRE ACABA DO MESMO JEITO PORQUE VOCÊ NUNCA ESCUTA MAS EU SEMPRE SOU FORÇADO A FICAR OUVINDO AS SUAS BOBAGENS E SUA VOZ IRRITANTE!’ reverberou na sua cabeça novamente e ele consegue sentir uma crise se aproximando.

 

   Foi a última coisa que ele disse ao Richie e agora, ele poderia nunca saber o quanto ele amava realmente ouvir a voz dele e o quanto ela fazia falta para ele agora! “Eddie querido, você está pálido” a voz de sua mãe surge na porta de seu quarto e Eddie quase tem um infarto de susto! Quando foi que ela entrou? Será que ele ficou tão absorto em pensamentos que não a viu se aproximando? “Oh meu filho, você tomou suas pílulas hoje? Sabe como fica sem elas, precisa tomar todos os dias!” Ela diz num tom que exala acusação com um certo carinho velado no meio e pegando sua bombinha Eddie a aspira precisando de algo para se recompor. “Mãe, por favor, sai do meu quarto!” Ele diz, mais rígido e mais grosso do que deveria,talvez, já que isso fez sua mãe que estava caminhando até seu criado mudo ao lado da cama para tirar as pílulas da gaveta, lançar-lhe um olhar frio. “O que foi que você disse, Eddie?” Ele a encarou de volta com a mesma frieza e Sônia nunca confessaria mas algo realmente bateu contra seu peito com a visão, em instantes ela viu a imagem de sua própria destruição no filho, algo que ela tentava evitar e isso a balançou, ela se sentiu momentaneamente não no controle mas sob controle e aquilo com certeza não era algo que ela esperava.

 

   “Eu disse pra você SAIR DO MEU QUARTO!” Eddie disse ainda mais alto e quase gritando a última parte “Eu não preciso de nenhum remédio e me sinto…muito bem” ele titubeou na última parte, agarrando os óculos que estavam pendurados em sua goma da camisa como quem se agarra a uma parede para continuar de pé. Sônia franziu a testa, ela sabia de quem era aquele óculos, o pirralho filho de Maggie e Went Tozier! O que estava desaparecido e também para ela muito provavelmente morto. Ela nunca gostou daquele garoto e da influência que tinha em seu filho e desde que ele desapareceu essa influência só parece ter piorado! Ela quase não reconhecia seu doce filhinho em Eddie, ele estava reativo demais, quase sempre se recusando a tomar seus remédios, não lhe dava mais explicações de onde estava quando voltava para casa e sempre parecia louco para passar mais tempo com os amigos do que com ela no conforto de seu lar, sem contar que ele agora vivia na casa dos Tozier, quase como se não quisesse mais sair dali. Algum grau de controle de fato estava se rompendo e ela odiava isso. 

 

 

   Eddie percebeu que ela olhava para o óculos de Richie que ele estava segurando e isso despertou ansiedade nele, não querendo que a mãe começasse o discurso que ele tanto odiava que ela já havia lhe dado outras vezes, coisas como Richie ter poucas chances de voltar e que pelo menos ele ainda tinha seus outros amigos ( ainda que ela nem gostasse de verdade de Bill e Stan e ele sabe disso!) ou o pior de todos de como ela diz duramente que ele precisa seguir em frente com a sua vida, quando ela mesma parou a vida dela completamente desde que eles perderam seu pai em primeiro lugar! Não! Ele não iria ficar para ouvir tudo aquilo de novo! “Me deixa sozinho, por favor” ele diz num fio de voz, sem expressar medo, quase como se fosse uma calma velada, aquilo era um acordo entre eles, tentar fingir que nada havia acontecido quando as represas se rompiam, porque aí não teriam nada para lidar,‘melhor para os dois ahã?’ pensava Eddie.

 

    Sônia parecia muito hesitante mas ainda sim saiu lentamente ( mais do que deveria) do quarto de seu filho fechando a porta atrás de si e apenas murmurando para ele pelo menos ir jantar quando desse a hora. Assim que ela saiu, Eddie voltou para a cama se sentindo derrotado. Pegando o óculos de sua gola ele passou o dedo por entre as lentes com cuidado para não se cortar no corte que tinha em uma delas. Parte dele ainda tinha medo de pegar tétano fazendo isso, mas outra parte muito maior faria qualquer coisa para pelo menos simular que ele estava tocando Richie novamente. ‘NÃO ENCOSTA EM MIM!” ele conseguia ouvir sua própria voz gritar, de novo e de novo e só percebeu que estava em uma espiral quando viu lágrimas caindo sobre as lentes do óculos. Ele encostou o objeto em sua testa e se deixou chorar um pouco sozinho. Esse definitivamente seria um LONGO verão, sem qualquer coisa que pudesse realmente animá-lo.

 

    Então como se fosse só mais um péssimo timing do universo com ele mais uma vez depois de sua mãe, ele ouviu uma batida na sua janela e seu coração acelerou. Antes, a única pessoa que batia naquela janela era o Richie, ele escalava a enorme árvore no quintal de Eddie que ficava bem em frente a essa janela e dava umas batidinhas para que Eddie descesse com ele ou para que ele entrasse escondido em seu quarto, era um costume do qual Eddie nunca concordou mas também nunca tentou parar. Ele olhou para a janela transtornado e por um milésimo de segundo pôde jurar que viu o rosto sorridente de Richie para ele sob a luz do sol refletida no vidro e seus olhos brilhando ao vê-lo, “Ei eds!” Ele sempre dizia e Eddie sorriu com olhos marejados para a lembrança. Porém mais uma batida no vidro de leve o acordou e balançando a cabeça para se livrar desses pensamentos intrusivos, ele viu quem realmente era na janela. George Denbrough! Que maravilha! 

 

    O garotinho acenou inocentemente para ele sentado no galho da árvore e Eddie apenas bateu a mão na testa em completa indignação, parece que estavam mesmo o forçando a ter companhia naquele momento! Ele abriu a janela o mais silenciosamente que pôde ( ele não ia confessar que já tinha prática nisso). “Posso entrar?” Pergunta o garotinho sorrindo e lhe mandando olhinhos de cachorrinho como se para tentar convencê-lo, técnica essa que Kaspbrak tinha certeza que ele aprendera com o irmão mais velho e ele oficialmente odiava Bill! “O que você está fazendo aqui?” Perguntou Eddie já se sentindo sem energia e o sorriso de George se alargou: “Vim te visitar! Billy disse que eu não podia fazer nada para te ajudar no seu ‘mau humor’ segundo ele, mas eu tinha que saber por mim mesmo.” Ele respondeu agora abrindo espaço para entrar no quarto pela janela, ainda que Eddie não tivesse realmente autorizado ele a fazer isso. “Por que você não entrou pela porta da frente?” Ele pergunta a George, que de repente faz uma cara de culpado. “Sua mãe não gosta muito de mim desde que eu disse que as pantufas dela pareciam estar pedindo socorro debaixo dos pés…” ele responde baixinho. Eddie bufa levemente, quase cantarolando e George franze a testa ao ver que seu irmão tinha mesmo razão, nem mesmo o fantasma de um sorriso surge no rosto dele, mesmo quando ele realmente acha graça em algo.

 

     “Certo e onde você aprendeu a subir em árvores? Bill te ensinou isso no último verão?” Pergunta Eddie confuso já que não lembra do garotinho saber escalar quando eles estavam todos reunidos na casa de Bill da última vez, muitos meses atrás. “Não” responde George e com um olhar triste e ressentido que ele decide não trocar com Eddie complementa “Foi o Richie”. A menção do nome faz Eddie estremecer e ele rapidamente tenta se concentrar em outra coisa, algo que George percebe. “Claro que foi…” ele sussurrou mais para si mesmo. “Ele costumava dizer que isso ia me salvar de muitas coisas, até do Billy” George continuou e Eddie sibilou baixinho antes de erguer o olhar para o garotinho mais uma vez e era vazio, mas não era novidade alguma, era como ele estava a meses. “De qualquer jeito, acho que agora você já viu que seu irmão tinha razão sobre seja lá o que for do meu ‘mau humor’ pode ir agora” ele disse num tom seco mas sem expressar real grosseria. E George sorriu percebendo sua vantagem, Eddie seguia não conseguindo ter raiva dele, assim como Stan e até Richie antes de desaparecer, Todos eles acabavam cedendo um pouco para ele e Bill era o único que odiava isso. 

 

     

“Não, eu quero ficar aqui com você” disse George com cuidado “acho que você precisa de um amigo do seu lado” ele disse e Eddie franziu a testa ao reconhecer traços de Bill nele. “Não ando sendo realmente gentil com meus amigos” murmura Eddie. “Tudo bem, não precisávamos conversar” diz George pegando algo de seu bolso e ao mostrar para Eddie ele vê que é um barquinho de papel e uma folha grande “Bill acabou não terminando de me ensinar a fazer uma fragata inteira” diz ele sorrindo. Parte de Eddie realmente quer mandar o irmãozinho de um de seus melhores amigos embora, ele não quer ficar com ninguém, ainda mais depois de estar na mira Henry Bowers ainda a pouco. Mas os olhinhos brilhantes do menino mais novo sempre foram a fraqueza de Eddie e de todos os outros de todo jeito e ele sente que não consegue dizer não mesmo que queira. ‘Parece com aquelas cobras que te mantém paralisado para poderem te devorar’  Richie disse certa vez se referindo justamente a como George o manipulava para pedir coisas no passado. ‘Quando eu menos esperar serei um homem morto por sempre cair nessa armadilha, exatamente como as vítimas dessas cobras’ e Eddie quase sorriu ao se ver na mesma situação atual. Quase. E percebeu que George havia notado quando ele lhe mandou um característico sorriso presunçoso bem presente na sua família, pelo visto .

 

    Revirando os olhos ele pega o barquinho e a folha na mão do garotinho “Tá bom, você venceu mas vai ficar caladinho” George fez um sinal de zíper na boca “Você não quer que minha mãe saiba que você subiu aqui e eu não quero ter que lidar com várias das suas perguntas curiosas hoje” Eddie tinha que esclarecer isso porque da última vez Bill lhe disse que ele ficou bem chateado quando voltavam para casa os três juntos e Eddie lançou um olhar mortal toda vez que George questionava o funcionamento de qualquer coisa que viam na rua e gritou com ele para que ele ficasse quieto por pelo menos um minuto quando estavam na metade do caminho. Ele sabia que tinha extrapolado sua raiva mais uma vez e não queria repetir isso. Mas George apenas deu uma risadinha. “Até que foi engraçado ver você chutando pedrinhas na rua até nossa casa depois que surtou comigo” ele diz sorrindo e Eddie cruza os braços numa carranca que no passado Richie diria ser ‘fofa’ e coloca a folha em sua escrivaninha junto com o barquinho de papel. “Eu não surtei! Apenas me descontrolei um pouquinho, não era um bom dia para me perguntar como os canos das casas funcionavam” diz Eddie num tom um pouco ríspido “Nunca parece ser um bom dia com você” responde George dando de ombros e Eddie range os dentes.

 

    “Você quer fazer esses barcos ou não?” George balança a cabeça afirmativamente com os olhinhos brilhando animados de novo. “Sim, sim, vou ficar quieto prometo!” Ele disse quase mais alto do que poderia e Eddie teve que ficar hiper alerta para ver se sua mãe não havia escutado. Mas aparentemente não. Então ele ficou lá com George o ajudando a fazer esses barquinhos de papel estúpidos que ele tinha certeza que irritaria Bill por ele estar fazendo com ele mas ele também sabia que esse era o jeito de George de tentar animá-lo, ele era esse pestinha fofo e preocupado com todos ao seu redor de maneira irritante, mais uma vez, provavelmente algo de família. E assim eles passaram a tarde ali, algo que Eddie nem viu passar e pegou mais algumas folhas para dar a George também para que eles fizessem mais alguns. Ter alguém brincando e sorrindo ao seu lado não era afinal tão ruim e Eddie ficou pasmo de ter que admitir que a ideia daquela criancinha estava dando certo. Ele estava em algum grau o acalmando. 

 

    Ele nem fazia ideia que isso iria ajudar, não se sentia mais relaxado desde que não podia mais ler quadrinhos no quarto de Richie com ele e lamentava que sempre que passava naquele quarto agora quando visitava Marge e Went, uma vontade absurda de se agarrar a tudo aquilo tomava conta dele ou em seus piores dias uma vontade de queimar tudo aquilo, como se fosse fazer a dor parar. Ele sabia que não ia. Quando notou que já estavam a tempo demais naquilo, Eddie disse que era melhor George voltar para casa antes que Bill começasse a ter um AVC por não saber onde seu irmão tinha ido parar. “Bem é, ele não anda mais me deixando sair sozinho, nem meus pais.” Explica George indo até a janela e Eddie solta um suspiro “eles tem razão, andam aparecendo cada vez mais vítimas daquele sequestrador homicida…” diz Eddie com uma voz e um olhar distante “não é seguro para você lá fora, sozinho” George resmungou baixinho enquanto enfiava seus novos barquinhos no bolso do casaco tentando não amassar tudo. “Eu sei me virar muito bem” ele disse tentando soar orgulhoso e Eddie bufou ao ver isso “Bill disse que você não vai nem ao banheiro sozinho, como ia se virar contra um sequestrador assim?” Ele pergunta e corando um pouco com a constatação George responde “Bem, eu consigo escalar árvores agora” ele diz tentando criar um ponto. Eddie apenas lhe dá um tapinha leve na cabeça que o faz rir. Ele abre a janela e sobe no galho da árvore. “Obrigado por…hoje George até que foi…” 

“...divertido?” Pergunta o garoto empolgado e os lábios de Eddie tremem levemente, como se para formar algo além de uma linha fina e séria. “Hum, seu pirralho” ele diz mostrando a língua para ele que retribui parecendo muito feliz e ao descer e chegar no quintal ele acena para Eddie. “Boa noite, Eds” ele anuncia mas não alto o suficiente para que Sônia o ouvisse no gramado. Eddie acena de volta e lhe deseja um boa noite também, porém mais resignado. Uma ‘boa noite’ era algo que ele não tinha há semanas. Como se fosse marcado pelo destino, segundos após a saída de George sua mãe lhe chamou para que o ajudasse a preparar o jantar. Já se sentindo incrivelmente mais tolerante após a tarde com George Denbrough, ele desceu até a cozinha e ajudou sua mãe e depois os dois sentaram à mesa para comer, porém tudo num silêncio absoluto. O acordo que tinham entre eles se manteve, se nada for comentado, então nada mudou. E Eddie não sabia como se sentir sobre isso. Após tudo isso ele se sentiu cansado e basicamente se jogou na cama depois de escovar seus dentes. O sono o envolvia mesmo que parte dele sabia que não era seguro dormir, ele não conseguia evitar fechar os olhos e se deixar levar depois desse dia. Então mesmo hesitante ele adormeceu. 


 

      O sol estava se pondo numa linda tarde de verão e os otários estavam passando pela rua quase deserta com suas bicicletas e era possível de se ouvir até a quilômetros de distância o grito de Bill “Hayo silver alway!” enquanto pedalava em alta velocidade e Stan, Richie e Eddie riam seguindo logo atrás. Richie estava muito alegre em sua bicicleta como se fosse o próprio rei do mundo e olhando para Eddie lhe lançou um olhar provocante que o outro garoto jamais admitiria que adorava e que fazia seu coração acelerar só um pouquinho quando o via ser direcionado para ele. “Ei Eddie spaghetti aposto que você não chega na casa do Stanley antes de mim” ele diz com uma voz brincalhona e Eddie sorri com a mesma provocação brincando em seu olhar “isso é um desafio?” Ele pergunta e o sol parece brilhar ainda mais no sorriso torto que Richie faz e Eddie engole em seco discretamente com a visão. “Não…é um fato!” Ele grita e sai pedalando a frente de Eddie que ao perceber isso ele resmunga e sai em disparada atrás de Richie, deixando Stan e Bill para trás. “Ei volta aqui seu idiota!” Ele grita para Richie que ri sem parar a sua frente “vem me pegar Eds!” Ele grita e Eddie ri também o seguindo e ficando atrás dele por pouco. Quando de repente, Richie parece ir ainda mais depressa se afastando dele, numa velocidade muito incomum para um garoto de 12 anos alcançar.

 

        “Espera” diz Eddie tentando pedalar mais rápido atrás dele mas parece inútil, Richie segue indo muito a sua frente, até demais. “Richie espera!” ele tenta gritar mas o garoto só se afasta cada vez mais! “Richie!” Ele grita mais uma vez, mas de repente sente que algo travou sua bicicleta e ele cai no chão num baque. Ao tentar se levantar se sente preso ao chão e então escuta trovões terríveis e o céu daquela tarde de verão se torna uma tempestade terrível com raios que parecem até mãos tentando atingir Eddie e ele não consegue se mexer e nem procurar por Richie que simplesmente sumiu! Quando subitamente Eddie percebe que as nuvens de tempestade se transformam em uma onda gigante que o leva embora com violência e ele tenta lutar por ar tentando se manter na superfície. Mas consegue sentir a água o puxar cada vez mais, ele não sabe nadar, ele se desespera em se afogar, até que consegue ouvir um grito que o deixa desesperado por um motivo completamente diferente! “Socorro!” É a voz de Richie! Ele também está boiando, porém longe de Eddie, assim como quando estavam nas bicicletas “socorro! Alguém por favor!” Ele grita tentando nadar assim como Eddie mas vendo que é inútil e quase sendo totalmente levado pela água. Eddie entra em estado de pânico e tenta em vão nadar até ele: “Richie! Eu estou aqui! RICHIE!” Ele grita mas não importa o quanto tente ele não consegue chegar até Richie, ele continua travado ali, enquanto Richie grita diretamente para ele agora.

 

     “Eddie! Eddie socorro! Por favor, me ajuda!” Ele parece tão assustado, de um jeito que Eddie nunca o viu e ele continua tentando e tentando o alcançar mas não consegue. “Richie! Eu estou tentando! Richie…” então a correnteza parece ser ativada de alguma forma e leva Richie para ainda mais longe na margem de algum lugar e uma silhueta assustadora aparece, com olhos dourados e um sorriso de dentes pontiagudos e amarelados. Ele estende um dos braços bem largos para onde Richie está “Eu ajudo você” ele diz numa voz rouca e sinistra e Eddie tem certeza que aquilo não é seguro, gritando para Richie não ir com ele no entanto, seu amigo parece já estar inconsciente sendo arrastado pelas ondas até onde aquela silhueta aterrorizante estava. Ele o pega pelo braço o colocando no colo e ao olhar para Eddie seus olhos dourados brilhavam como estrelas e ele se aproxima se revelando ser algo próximo de um morador de rua, como uma infecção ambulante, sujo e coberto de hematomas nada superficiais! Um leproso, exatamente como sua mãe costumava descrever um. Gritando, Eddie tenta chegar até lá para afastá-lo de Richie mas segue parado no lugar. O leproso assustador abre sua boca e liberta uma língua nojenta e muito mais longa do que a de um ser humano normal e olhando diretamente para Eddie ele lambe o rosto de Richie, fazendo algo se destruir dentro do garoto ao ver aquilo e por último ele simplesmente diz na mesma voz rouca de dar medo “beijinho, beijinho” e então sua boca abre de forma monstruosa e mostrando os dentes afiados de antes ele morde Richie no peito como se para arrancar seu coração e Eddie grita, assim como também escuta os gritos de agonia do próprio Richie! 


 

      Eddie acorda em seu quarto, gritando por Richie em desespero, seu rosto completamente suado e sua garganta seca. Um engasgo emerge dele e ele se sente com falta de ar, abrindo a gaveta em seu criado mudo com pressa procurando freneticamente por sua bombinha, porém assim que a pega ele se lembra de um dia em que passou por algo parecido. Ele estava dormindo na casa de Richie, sendo a primeira vez que dormia na casa de um amigo ( após Marge praticamente implorar com todas as suas forças para Sônia o deixar dormir lá e garantir que ele não iria se machucar ou se infectar com nada por ali e assumir a responsabilidade por tudo) e ele não era acostumado a isso, então teve um pesadelo em que estava sendo perseguido pelo lobisomem que haviam visto no filme nos cinemas a pouco tempo, ele acordou ofegante e pegando sua bombinha também mas Richie o impediu, reconhecendo que ele não estava com falta de ar, apenas nervoso e segurou suas mãos com cuidado pedindo para ele respirar, Eddie de início achou um absurdo e tentou inalar sua bombinha ainda sim mas Richie a tomou dele a descartando de lado e o fez olhar para ele, Richie respirava devagar e em movimentos curtos o que fez Eddie poder acompanhar aos poucos e conforme o fazia sua respiração voltou ao normal. E ele entendeu que seu amigo tinha razão, ele não estava realmente com falta de ar, só com muito medo.

 

    E depois de o acalmar Richie o segurou com ele na cama, o abraçando e afirmando que estava tudo bem, que era só um pesadelo de todo modo. Ele disse que sua mãe sempre fazia isso quando ele tinha um pesadelo, algo que ele não sabia como era já que Sônia não fazia isso como Marge. Mas aceitou isso de bom grado do amigo, se aconchegando em seu abraço, deitando a cabeça contra o peito de Richie e deixando os batimentos de seu coração o guiarem até seu sono. Ele nem percebeu quando Richie colocou a bombinha de volta no bolso do seu short naquela noite. Ele se lembra daquele momento de segurança e de como Richie prometeu que estaria com ele quando ele estivesse com medo de novo, mas afirmando que ele era mais corajoso do que pensava que era e no fundo não precisava dele. Ele estava errado. Ele precisava dele e muito! Ele precisava dele, ali com ele naquele instante, mas não fazia ideia de onde ele estava e era tudo culpa dele! Sua mente volta aquela espiral, tudo que ele disse para Richie, a maneira que ele o olhou como se Eddie tivesse o traído, as palavras de sua mãe sobre o desaparecimento dele, as palavras de Henry Bowers…ele sentiu uma pontada tão forte em seu peito que teve certeza que um represa tinha se rompido com violência dentro dele e com as mãos tremendo em pura fúria ele jogou sua bombinha contra a parede a quebrando em vários pedaços. Uau. Aquilo foi…libertador.

 

    Rindo e chorando como um maníaco, Eddie abriu a gaveta de seu criado mudo ainda mais, arrancando um por um de seus remédios e os jogando contra a parede também. Cada um com mais raiva do que o anterior. Ele precisava disso, precisava de alguma coisa para fazê-lo se anestesiar de tudo aquilo. Já fazia semanas desde que aqueles pesadelos começaram, nenhum como esse último, mas na maioria das vezes, Richie aparecendo morto no Barrens, ou ele gritando com Eddie que era tudo culpa dele, ele mal dormia direito e tinha tanto medo de realmente ver Richie boiando sem vida em algum lago que se recusava veemente a chegar perto de algum até ali. Mas não confessou isso a seus amigos, ele não queria descontar até isso neles. Mas podia em seus remédios idiotas. Até que de repente ele sentiu uma mão forte segurar seu braço o impedindo de jogar mais uma caixinha de comprimidos na parede. Era sua mãe. E ela não parecia nem um pouco feliz. Mas ela também nunca parecia. “Eddie você enlouqueceu completamente? O que você está fazendo? São seus remédios! Você precisa deles!” Ela gritou, talvez mais brava do que estava há muito tempo. Só que Eddie não tinha mais energia alguma para isso. “Não! Eu não preciso deles! Você quer que eu precise!” Ele grita, puxando o braço da mão dela. “Você quer que eu tome esses remédios para eu não ficar como ele.” Eddie desafia e sua mãe range os dentes com raiva contida “Eddie…” 

“Não! Você sabe que é verdade! Todos esses remédios que você me dá, são pra que eu não adoeça assim também, você faz isso desde aquele dia quando não deixou eu ficar ao lado dele no hospital” lembra Eddie tremendo “eu estou te protegendo!” Grita Sônia e Eddie ri sem humor “Não…você está me mantendo no controle, você não quer que eu adoeça porque você quer me proteger e sim porque quer controlar se eu vou ficar doente ou não, o que você não conseguiu com o papai!” Sônia estremeceu de raiva com a afirmação, se sentindo encurralada e pronta pro ataque. “Eu sou sua mãe e você não vai falar assim comigo! Eu sei o que é melhor para você! Eu sei do que você precisa!” Ele grita de volta, no entanto, Eddie segue inabalável. “Tudo que eu preciso eu não posso ter agora…” Eddie diz meio murmurando pegando o óculos de Richie no criado mudo logo ao lado de seu abajur. E o segura contra o peito como faz quando quer simular o que poderia ser um abraço deles, desde que Richie desapareceu. Sônia observa em silêncio dessa vez, ainda alterada, mas ver a mesma dor que sempre sentiu com o marido refletida em seu filho parece ser a única coisa que a deixa sem ação. Eddie se encolhe entre os joelhos e afunda seu rosto neles. 

 

    “Por favor…vai embora!” Ele choraminga fracamente. Sônia olha ao redor de maneira nada simpática. “Limpa essa bagunça, você vai se sentir melhor pela manhã quando eu te fizer um chá “ ela disse simplesmente, como se não fosse nada demais. Eddie não respondeu e assim que ela fechou a porta de seu quarto ele apenas socou a parede com força caindo no choro. Deus, quanto mais ele teria que aguentar tudo aquilo? Eddie não viu,em seu estado de tristeza que um dos barquinhos que George deixou para ele em sua escrivaninha foi levado pelo vento caindo no gramado de seu quintal, então sendo arrastado flutuando até uma das aberturas de esgoto da rua e uma mão larga e com garras agarra o objeto de papel suspirando satisfeito com o medo que permeia o ar. 

Notes:

Intenso não é? Me digam o que acharam, amo ler seus comentários ❤️

Notes:

Então espero que para um início isso seja interessante