Chapter Text
A casa da Jéssica era exatamente como eu imaginava que seria, uma construção vitoriana modernizada que parecia sempre clara demais, como se tentasse compensar o cinza e o clima chuvoso de Forks. As paredes tinham tons pastéis acolhedores, havia fotos da família em todos os lugares e todos eles pareciam incrivelmente felizes.
O quarto da Jéssica, no entanto, parecia um santuário de caos planejado, completamente a cara dela. As paredes eram cobertas por um papel de parede de listras creme e champanhe, quase escondido sob colagens de revistas de moda, pôsteres das bandas prediletas dela e luzes de fada que piscavam em um ritmo hipnótico.
O ar ali era denso, um perfume de baunilha artificial misturado com o cheiro químico de esmalte de unhas que Ângela estava usando no momento.
Havíamos chegado há algumas horas e, depois de um lanche rápido 'tendo que escutar a mãe de Jéssica reclamar de algo no trabalho' e tomarmos um banho, estávamos as três deitadas na enorme cama de Jéssica enquanto fazíamos algo que eu nunca pensei que faria
uma noite das garotas
- Eu juro para vocês, foi a gota d'água - Jéssica exclamou, sentada de pernas cruzadas enquanto gesticulava com uma colher cheia de sorvete na mão. - Eu perguntei para o Mike o que ele pretendia fazer depois da formatura, se íamos tentar a mesma universidade em Seattle ou se ele ia ficar vendendo isca de peixe para sempre na loja do pai, e ele simplesmente me olhou com aquela cara de idiota e disse que "o futuro é um conceito subjetivo", dá para acreditar?
Eu soltei uma risada curta, e Ângela, que parecia concentrada demais enquanto tentava pintar as unhas dos pés, sorriu.
- E vocês terminaram de novo por isso? - Ela perguntou pacientemente, ao mesmo tempo que Jéssica, agora com a boca cheia de sorvete, acenava em concordância. - Na verdade, dessa vez até que é bem compreensível, não é, Bella?
- Não olhem para mim, eu nem sabia que eles tinham voltado a ficar juntos de novo. Achei que depois do baile você havia decidido que ele não era bom para você - eu falei, enquanto olhava para a pilha de livros de romance e ficção que Jéssica havia pegado do quarto da mãe dela para "garantir que eu estivesse entretida o suficiente para não querer ir embora".
- E eu tinha! Mas ele me levou flores e disse que sentia a minha falta, sabe? E eu realmente acreditei - Jéssica suspirou derrotada e enfiou outra colherada de sorvete na boca.
- O Mike é... complicado, Jess - Ângela ponderou com sua voz mansa, soprando as unhas para secar. - Mas talvez ele só esteja assustado, a formatura está logo ali.
- É, pode ser - Jéssica concordou a contragosto, apenas para, um segundo depois, se sentar adequadamente e olhar para nós como se tivesse acabado de lembrar de algo indignador. - Mas ainda tem mais! Vocês acreditam que ele me enviou mensagem dizendo que eu estava sendo dura demais com ele, só porque eu disse que não vou ficar a vida toda presa aqui?
- Sério que ele ficou triste com isso? E não com a parte que você disse que, se ele fosse trabalhar com o pai dele na loja de peixes, você não iria ser a "Senhora Sardinha"? - Eu perguntei seriamente de volta e Ângela gargalhou.
- Imagine ela sendo a garota propaganda da loja! - Ângela estava rindo tanto que seu rosto estava, a cada segundo, mais vermelho ao imaginar a perspectiva.
- Tá vendo? Eu iria virar chacota dessa cidade - Jéssica reclamou novamente, claramente chateada.
- Vamos lá, não é tão ruim assim - eu tentei defender, mas a risada de Ângela era tão contagiante que até mesmo a minha tentativa de seriedade foi por água abaixo.
- Vamos lá, nem você quer um futuro como esse - ela afirmou. - Por que ele não pode simplesmente pensar grande, sabe? Sair da cidade, fazer alguma boa faculdade e não ficar dependendo da loja do pai dele? Tipo, eu não odeio aqui, sabe? É uma cidade tranquila poderíamos fazer uma boa faculdade em Seattle ou Port Angeles e depois voltar.
- Mas ele realmente está cogitando apenas se formar e ajudar com a loja? - Ângela questionou, dessa vez um pouco mais calma. - Talvez seja algo que ele goste, Jess, e lojas de família geralmente se leva bem a sério; talvez o pai o esteja pressionando para assumir tudo o mais rápido possível.
- Este é outro problema ele não está, ele queria que o Mike fizesse uma faculdade e arrumasse um bom emprego longe daqui - Jéssica respondeu.
- Nem sempre as pessoas têm os mesmos sonhos e perspectivas de futuro como nós, Jess - Ângela falou sinceramente. - Às vezes fazemos planos para o futuro e a pessoa que escolhemos para estar conosco não quer isto, e tudo bem, sabe? Agora, o que não podemos fazer é destruir nossas perspectivas e diminuir nossos sonhos por isso.
- Em outras palavras: siga em frente e viva sua vida - Jéssica murmurou. - Tudo bem, eu posso fazer isso, eu consigo superar, agora que já falamos sobre meu término, é a vez da Bella.
Ela se sentou melhor na cama e se virou para olhar para mim, como se esperasse que eu contasse todos os meus segredos.
- Não tem muito o que dizer, ele se foi - eu disse, tentando parecer tranquila sobre a situação. Um silêncio de poucos segundos se seguiu e eu pude perceber que Jéssica e Ângela trocavam olhares uma com a outra.
- Aquele cara da praia, o que te achou na floresta... Você voltou bem abalada depois que falou com ele - Ângela comentou, terminando de pintar a última unha de sua mão. - Ele disse algo ruim para você?
O silêncio que se seguiu foi um pouco mais estranho desta vez, a lembrança de Sam ainda me incomodava. Na outra vida, ele era alguém distante que mal olhava para mim, e no fundo eu tinha a certeza de que ele pensava que eu era uma idiota completa por destruir minha vida ficando com um vampiro Mas, nesta vida, estranhamente parecida e completamente diferente da minha antiga, Sam olhava para mim de uma forma que ninguém nunca olhou antes.
Eu me sentia tão vista; ele era tão destoante de tudo.
Sam parecia o próprio sol me atraindo para a sua direção, e isso era avassalador.
Isso era assustador...
- Ele não não disse nada que te machucou, não é, Bella? - Ângela inclinou a cabeça, os óculos escorregando levemente pelo nariz ao mesmo tempo que ela assoprava as unhas para secarem mais rápido. - Você voltou daquela conversa com ele na praia como se tivesse visto um fantasma ou sei la como se tivesse acabado de acordar de um transe.
- Ele não foi ruim, Ângela eu juro - respondi, puxando uma das almofadas de cetim contra o peito. - Ele só... acabou citando o Edward e ouvir sobre ele mexeu comigo mais do que eu esperava
Jéssica soltou um suspiro que claramente indicava sua descrença na situação
- "Mexeu com você" é o eufemismo do século, Bella! Você parecia estar em completo choque. E o Sam? Ele ficou lá parado, te assistindo ir embora como se estivesse vendo o mundo acabar. Inclusive, você notou como ele olhou para você? Ele claramente está interessado.
- Não comecem - pedi, sentindo o cansaço pesar. Pensar sobre Sam era tudo o que eu menos precisava no momento. - O Edward se foi há muito pouco tempo, é tudo tão recente, não posso pensar em outra pessoa.
- Recente? - Jéssica se sentou ereta, a acidez começando a borbulhar. - Bella, ele foi embora há meses! O mundo continuou girando, as estações mudaram, e você continua aqui, agindo como se fosse uma viúva de dezoito anos. Você se transformou em uma sombra, e honestamente? Ninguém aguentava mais ver você assim, mas todo mundo tinha medo de falar porque você sempre virava uma leoa para defender aquele cara.
- Eu não o defendia, eu só... - tentei começar, mas a voz de Ângela me cortou, suave e implacável.
- Defendia sim Bella, você era implacável quando o assunto era ele e criou uma bolha de proteção em volta do assunto, de uma forma que, se qualquer um tentasse entrar para te ajudar, você expulsava esta pessoa com unhas e dentes - ela afirmou, e eu me senti péssima ao perceber que, no fundo, tudo aquilo era verdade. - O que a Jess está tentando dizer, do jeito torto dela, é que você precisa voltar a ser a dona das suas escolhas você tem livre-arbítrio, sabia?
Enquanto a voz de Ângela continuava, explicando que eu precisava de novas perspectivas e que o mundo não terminava nos limites de Forks, a realidade ao meu redor começou a se dissolver como se a voz delas estivesse desaparecendo a cada segundo, me puxando para o terror das minhas memórias e de repente, eu não estava mais no quarto de Jéssica escutando uma palestra sobre como seguir em frente.
Eu estava sentindo o peso do meu vestido de noiva, o toque da seda contra a minha pele e o olhar de puro orgulho de Charlie e Renée enquanto eu caminhava para o altar; e como eu sentia em cada fibra do meu corpo que aquele era o dia mais especial da minha existência.
Eu me lembrei da música, das flores brancas, e de como por um segundo parecia que ninguém mais no mundo estava lá, apenas eu e Edward. A forma como eu tinha certeza que, depois daquela noite, eu passaria cada segundo da minha existência ao lado dele. A festa do casamento, os discursos da minha família, a visão de Jacob aparecendo apenas para me desejar felicidade... ele estava tão quente, tão real, e eu estava tão cega.
As imagens passavam como um filme em alta velocidade que eu já havia assistido inúmeras vezes: a lua de mel na Ilha Esme, a primeira vez que me senti verdadeiramente completa, o milagre assustador de sentir Renesmee crescendo dentro de mim, a forma como foi Rosalie que me defendeu mesmo com todos os problemas que a gravidez traria para a minha vida humana
A certeza que eu sentia de que nada aconteceria, pois seria transformada se estivesse próxima à morte e, acima de tudo, eu me lembrei dela; de seus lindos olhos, da forma como ela olhou para mim e pareceu me reconhecer ao mesmo tempo que um sentimento avassalador preenchia o meu coração. Eu a amava. Eu daria a minha alma por ela de novo, mesmo sabendo que agora ela era apenas um eco em uma linha do tempo que eu destruí ao voltar.
A dor de saber que eu tive tudo - um marido, uma filha, uma família - e que agora eu era apenas uma adolescente deprimida ouvindo conselhos amorosos de garotas que não imaginavam um terço da dor que eu sentia, era insuportável.
- ...você vai continuar perdendo a sua vida, Bella? - A voz de Jéssica me trouxe de volta da névoa de memórias que parecia sempre me prender. - Vai jogar tudo fora por um cara que você amou no colégio? Eu entendo, o amor é intenso na nossa idade, dói como o inferno, mas você está se enterrando viva.
Aquelas palavras bateram em mim com uma força brutal. Enterrada viva.
Eu percebi, com um horror súbito, que estava trilhando exatamente o mesmo caminho da minha vida anterior.
A mesma melancolia que eu havia sentido quando Edward me abandonou daquela vez, no entanto, o luto da perda da minha filha parecia ter triplicado tudo; eu estava afundando novamente e, com isso, levando o futuro - a segunda chance que eu havia desejado com tanto fervor - junto comigo.
E eu simplesmente não sabia o que fazer para mudar tudo isso.
- Eu não sei o que fazer - confessei, e minha voz saiu como um sussurro quebrado. - Eu ainda sinto... eu ainda tenho sentimentos por ele, mas minha cabeça está diferente agora, não é mais como antes.
Abri o coração, deixando a dor transbordar.
- Quando eu estava com ele, parecia que tudo era mágico o mundo era simples perto deles, entendem? Eu faria coisas que nunca pensei que faria... eu sentia que tinha nascido apenas para estar ao lado dele, como se eu não fosse uma pessoa completa sozinha, mas apenas uma peça de um quebra-cabeça. Parecia a melhor coisa do mundo eu não tinha planos para o futuro e sentia que não precisava de um porque eu estaria onde ele estivesse, sabe? Eu sei que era obsessivo.
- Não, Bella - Ângela disse, segurando minha mão com firmeza. Sua expressão parecia o mais gentil possível, o que destoava completamente da expressão no rosto de Jéssica, que era de total aturdimento e indignação com o que eu havia dito. - Isso que você descreveu para mim não era obsessão, você se anulou para viver em volta dele e esperar as escolhas dele deixou de planejar os seus sonhos, de viver a sua vida para viver o que ele queria, isso é a definição de dependência emocional, eu não sabia que a sua relação com ele estava desta forma e entendo que deva ser doloroso e difícil, mas você precisa entender que ele se foi e que você precisa seguir em frente você precisa viver, Bella apenas por você e mais ninguém.
O silêncio que se seguiu à frase da Ângela foi denso, quase palpável eu desviei o olhar, encarando as luzes de fada que piscavam na parede da Jéssica, sentindo o peso daquelas palavras
Dependência emocional
No fundo, eu sabia que ela estava certa, é claro nenhuma delas sabia que o problema era muito maior elas não sabiam dos vampiros, do casamento, da gravidez ou do sacrifício, mas por algum motivo parecia que elas estavam enxergando a verdade da minha alma agora
Eu estava vivendo um luto constante, enterrada em uma vida que já tinha acabado, enquanto o tempo passava por mim como um rio, estava pior do que a ultima vez quando eu usava diferentes formas de colocar a minha vida em risco apenas para ver Edward para ouvir a sua voz em minha cabeça, mas agora tudo parecia muito mais melancólico e cruel eu não sentia mais a necessidade avassaladora de tê-lo de volta eu sentia a dor de ter tido tudo e perdido tudo em uma única noite
E havia uma parte de mim que desejava viver tudo de novo seguir o mesmo caminho de antes pois parecia muito mais facil do que recomeçar do zero
Jéssica limpou a garganta, decidida a quebrar o clima melancólico que parecia ter se instalado no quarto ela deu um tapinha animado no colchão e se inclinou para a frente, mudando a expressão para algo mais prático e vibrante, claramente tentando me tirar daquele transe.
- Certo! Chega de tragédia grega por hoje - ela exclamou, forçando um sorriso que iluminou o rosto. - Já diagnosticamos o problema, agora vamos para a solução, se você quer ser a dona da sua vida, Bella, precisa de um plano. O que você pretende fazer? Você já pensou em uma faculdade? Uma profissão?
Ela pegou um caderno como se estivesse pronta para anotar as minhas ideias
- Seattle tem ótimas opções, mas você mencionou a Flórida antes... Ou quem sabe algo mais longe? Você sempre gostou de ler então estou presumindo que vai tentar algo do tipo? Vamos lá, me diga uma coisa que a Isabella Swan quer fazer no futuro que não envolva ninguém além dela mesma.
Eu pisquei, surpresa com a mudança brusca na situação, o futuro era um conceito que eu estava tentando fugir desde o momento em que voltei afinal era muito mais facil viver trancada na tristeza do meu passado
Mas ali, olhando para a expectativa nos olhos da Jéssica e o apoio silencioso da Ângela, percebi que se eu havia desejado tanto esta segunda chance que estava na hora de viver como eu tinha desejado antes
- Eu... eu sempre gostei de Literatura Clássica - murmurei, sentindo as engrenagens da minha mente voltarem a girar, devagar e com esforço. - Talvez tentar algo em Seattle, ficar perto do Charlie, mas ter o meu próprio espaço.
- Seattle é um começo incrível, lá tem ótimas faculdades - Angela mencionou sorrindo para mim como se me incentivasse a continuar pensando, Jessica por sua vez parecia rabiscar algo no caderno ao mesmo tempo que pesquisava algo no celular
- Podemos olhar os cursos amanhã você tem notas ótimas, Bella poderia entrar em qualquer faculdade, basta querer - Ela sorriu genuinamente e por incrivel que pareça eu realmente senti como se o peso no meu peito estivesse um milímetro mais leve.
Eu ainda sentia a dor da perda da minha filha, ainda sentia a sombra de Edward e do romance que havia nos levado ao fim, mas agora o sorriso de Jessica o olhar gentil de Angela e até mesmo o calor que eu tinha sentido emanando de Sam na praia parecia um convite para uma vida nova.
E eu alguem ja havia sentido o gosto amargo e desesperador da morte sentia que não tinha nada a perder apenas por tentar.
Naquela noite, eu não sonhei com o frio emanando da pele dele ou com o olhar dela para mim uma última vez antes do brilho deixar seus olhos, nem mesmo as florestas escuras me perturbaram, muito pelo contrario naquela noite pela primeira vez em muito tempo eu sonhei com braços quentes em minha volta uma felicidade genuina preenchia meu corpo ao mesmo tempo que eu sentia que tudo ficaria bem.
