Chapter Text
Alguns minutos depois, um som seco corta o silêncio. Uma pancada forte na porta, como se alguém tivesse dado um chute com violência. O impacto ecoa pelo ambiente, fazendo o chão vibrar levemente e o ar pesar de uma vez só.
Por um segundo, ninguém se move. O medo vem antes da reação. As mulheres se assustam e ficam em estado de alerta. O corpo tenso, tentando entender o que está acontecendo, ao mesmo tempo em que se preparam para o pior.
“Que diabos…” resmunga Piploy, se levantando devagar, os olhos fixos na porta.
“São eles!” dispara Mim, dando um passo para trás, o desespero tomando conta da voz.
“Calma, gente… pode ser a Love voltando”, tenta dizer View, mas nem ela parece convencida disso.
“Oh meu Deus… pegaram ela…”
“Mim, calma, por favor”, View segura o braço dela, tentando mantê-la firme, mas também claramente abalada.
“Se escondam!” ordena Prim, mudando completamente o tom, em movimento. Ela se afasta rápido em direção a outra sala, onde há janelas com vista para fora “Agora!”
Prim se aproxima da janela com o coração acelerado. O silêncio do lado de fora é estranho demais.
Até que outra pancada atinge a porta. Mais forte. A madeira range, treme, e por um instante parece que vai resistir. A porta cede e se abre com um estrondo que invade todo o pequeno hospital. As mulheres recuam na mesma hora. Mas os rostos que veem, são conhecidos.
Tu e Nanon.
Mesmo assim, por um segundo, ninguém consegue reagir.
Tu fica extasiada, o corpo demorando um tempo para acreditar no que os olhos veem. O choque vem junto com o alívio. O reencontro explode em movimento. Abraços rápidos, apertados, desesperados, vozes se sobrepondo, respirações falhas.
Prim volta da janela e atravessa a sala rapidamente, abraçando Tu com força.
“Ainda bem que você tá bem… ainda bem.”
Tu respira fundo, ainda tentando recuperar o fôlego.
“Onde vocês estavam?” View questiona.
“Nós vimos tudo”, diz Nanon,ainda comovido. “Ouvimos o discurso de um dos homens. Vocês não vão querer ouvir. Vimos quando começaram a jogar bombas e colocar fogo em tudo. Estão destruindo absolutamente tudo!”
As palavras caem pesadas no ambiente.
“Eu voltei pra casa…” diz Tu, a voz mais baixa, carregada. “E vi o que fizeram. Eu vi…” ela engole seco. “Chamei por vocês. Não quis acreditar que vocês estavam lá. Achei que tinham vindo pra cá… ou fugido…”
“Estamos bem. Por enquanto”, diz Prim, olhando ao redor com tensão.
Tu assente, mas logo seu olhar muda, como se algo faltasse.
“Cadê a doutora Vosbein? A gente precisa dela… e a Love?”
O silêncio que segue é imediato e sufocante. Ninguém responde de início. Mim começa a chorar em silêncio, e View deixa uma lágrima cair.
“Prim… cadê a Love?”
Prim fecha os olhos por um segundo, respirando fundo antes de falar.
“A gente achou que a Pansa tinha sido capturada. A Love… se voluntariou para ajudar ela.”
“O quê?” Tu quase grita. “Por quê? Por que você deixou ela ir, Prim? Vocês ficaram malucas?” Se direcionou às outras “Vocês entendem que ela é o alvo principal nessa história?”
“A gente tentou impedir… ela não ouviu. Você conhece a Love.”
“E agora? O que a gente faz? Como vocês deixam isso acontecer? E a Pansa?”
“Ela tava com a gente, mas desapareceu… a gente não percebeu”, interrompe Piploy?”
“E isso é melhor?!”
O silêncio é tão sufocante quanto a fumaça lá fora.
Lá fora, um estalo ecoa, madeira ou algo maior cedendo ao fogo. O perigo ficando mais próximo.
Nanon é o primeiro a se mover, virando para o grupo com o rosto tenso e a respiração curta.
“Temos que sair daqui…”
Tu fecha os olhos por meio segundo, tentando organizar tudo na própria cabeça. Fragmentos soltos de tudo ao mesmo tempo. De Love, Pansa, o caos lá fora, o tempo passando rápido demais.
“Sim”, ela responde por fim, a voz baixa mas firme. “Temos que ir.”
“E se a Love… e se ela precisar da gente?” Mim ainda está chorando, sem conseguir controlar, a voz sai tremida quando ela fala.
Tu aperta o maxilar, engolindo o seco, porque a resposta pesa mais do que deveria.
“A gente não vai conseguir ajudar ninguém se morrer aqui.” O silêncio que segue não traz alívio.
Todas começam a se mover rápido, pegando o que conseguem sem pensar muito, apenas o necessário, jogando coisas em uma bolsa de qualquer jeito. Nanon vai até a porta quebrada e observa a rua com atenção, o rosto fechado e duro, tentando prever o que vem a seguir.
Elas saem do hospital sabendo que ficaram tempo demais lá dentro. O ar do lado de fora está quente, pesado, difícil de puxar. O calor bate no rosto como uma parede invisível. O céu já não parece noite, é cinza de fumaça.
E então, há gritos por toda parte. São pedidos de ajuda, nomes sendo chamados, vozes quebradas de dor e desespero.
A vila não está morta, eles ainda estão tentando sobreviver.
“Depressa!”, Prim grita, assumindo a frente sem perceber.
Eles começam a se mover, mas o caminhar é difícil.
À esquerda, uma pessoa caída está sendo sacudida por outra, tentando acordar. Mais à frente, alguém com o braço queimado, encostado numa parede. Uma porta aberta revela alguém preso sob algo que desabou.
Os olhos tentam não acompanhar, mas é quem eles são. E por um segundo, o corpo quase para.
“O pátio…” Tu é quem diz, quase sem voz.
“Temos que tentar chegar na Van” Nanon confirma, sem hesitar, mas os olhos acompanham os outros querendo ajudar.
“Espera. Nós não vamos atrás delas?” View questiona preocupada.”E essas pessoas?”
“View, nós temos que nos afastar do fogo e da fumaça. Não vai adiantar nada ficarmos pra morrermos. Não sabemos onde elas estão…” Prim diz, em uma posição de decisão.
Nanon as motiva a seguirem rápido apressando seus próprios passos, mas o cenário só piora a cada segundo.
O fogo cresce e se espalha rapidamente. Uma janela explode em chamas à esquerda e Mim se encolhe no mesmo instante, sendo puxada por View antes de parar de vez. Tu só manda continuar, sem olhar muito, porque sabe que não podem parar.
Quando conseguem chegar ao pátio, ele está irreconhecível. Nanon desacelera e Tu também se lembra, mas desvia o olhar primeiro.
“Vai,” ela corta, mais dura do que pretendia. “Não temos tempo.”
Passar por ali de novo não é igual. O fogo já tomou parte do espaço, fechando caminhos, tornando tudo mais estreito, mais quente, mais sufocante.
O trajeto que fizeram antes não existe mais. Agora é improviso. Nanon muda a direção sem pensar muito e eles entram, o calor batendo mais forte ali como se o pátio inteiro estivesse respirando fogo. O som é alto, madeira estalando, algo cedendo, chamas avançando.
Não há ali muito movimento ou gritos, mas eles logo percebem-se do porquê. Há corpos dilacerados e sem vida debaixo e espalhados pelos escombros.
Eles quase param ali. E quem não chorava, começa a chorar.
“Não olhem, temos que chegar a van…” Prim diz, mesmo ela tendo o próprio peito corroído.
Em um momento, desviam de uma estrutura que desaba á frente. Piploy quase cai e Mim hesita ao caminhar, mas View não a deixa parar, segurando-a firme e arrastando-a junto.
“Não dá,” ela diz, mais para si mesma do que pra Mim.
Depois, seguem o caminho mais rapidamente e quase no limite. Até que a van aparece. Parada no meio da destruição, cercada pelo fogo que já começa a alcançar aquele espaço também.
Ainda há pessoas tentando sobreviver e fugir por ali também.
Passos atrás. Vozes. Gritos.
Tu vira o rosto por instinto e vê homens armados avançando entre a fumaça.
“Não parem!”, grita ela, a voz quebrada pelo esforço.
“Rápido!” Nanon grita abrindo a porta de correr da van com pressa.
Nesse instante tudo se acelerou de vez. Elas se jogam pra dentro sem pensar, uma por uma. Mim entra primeiro, desabando no banco, tremendo. View entra logo atrás, Piploy entrou logo pela parte da frente, e Prim empurra Tu antes de entrar.
A porta ainda está aberta e Nanon está prestes a fechá-la… Até que um disparo soa em alto e bom som.
“Nanon!” Tu grita, ao mesmo tempo em que o corpo dele trava no meio do movimento, caindo para dentro da van.
Ele foi antingido.
O choque dentro da van é imediato e desorganiza tudo de vez. Ninguém entende nada.
“Puxa ele!”, grita Prim.
View, Tu e Mim seguram Nanon ás pressas, puxando ele para dentro e fechando a porta com força de uma só vez. Nanon mal consegue reagir.
“Ele está sangrando!”, Mim grita em desespero, segurando o corpo dele junto com View.
View tenta pressionar o ferimento com as mãos, mas ela está tremendo demais.
“Piploy, dirija!”, View grita, sem nem perceber o tom de pânico na própria voz.
Ninguém mais sabe o que está fazendo, porque o caos já não está só lá fora, está dentro também. Nanon ainda consegue estender as chaves para frente enquanto contorce o rosto em dor e saliva sangue.
Piploy pega a chave, mas claramente não sabe o que fazer.
“Eu não sei dirigir isso”, Piploy solta, desesperada.
Prim respira curto quase sem ar, então se arrasta com certa dificuldade pelo pequeno espaço para o banco do motorista. Ela pega as chaves e solta um suspiro, antes de girar a chave na ignição.
“Eu realmente não sou a melhor para isso…que buda me dê sabedoria e clareza…”
“Nos tire logo daqui, Prim!”, Tu dispara, não tinham mais tempo.
Lá fora, o passos se aproximam de novo, mais perto. Prim engole o seco, tentando entender o que faz.
“Ok… ok… vai, vai, vai…” ela repete pra si mesma, até que finalmente pisa e a van dá um movimento brusco, instável.
“Prim!”, Piploy grita, segurando o painel.
No desespero, ela encontra o controle mínimo para seguir em frente. A van começa a andar, até finalmente ganhar velocidade.
Tu olha para trás. Os homens e os gritos ficam na fumaça. Dentro da van, ninguém comemora. Nanon está ferido, sendo segurado como é possível. Mim não para de chorar. View tenta manter Nanon consciente, pressionando o sangue com as mãos.
Todas elas olham para trás por um momento. Não foi apenas o perigo que deixaram para trás, deixaram pessoas também. Deixaram Love, e Pansa.
…
Nada mais foi dito entre elas. O silêncio era quebrado apenas pelo som do remo movendo a água. Pattranite apenas sentou no banco contrário e remou por um longo tempo sem rumo, conduzindo o barco na direção oposta à que haviam vindo e seguindo adiante depois do forte da família Vosbein Li.
Pansa permaneceu sentada em silêncio, encarando o nada à sua frente, carregando dentro de si algo intenso demais para ser dito, quieta de um jeito incomum que Pattranite percebeu, mas nada disse.
Com o tempo, o lago começou a mudar e a água deixou de ser completamente parada, passando a ganhar um fluxo leve que guiava o barco para dentro de um caminho estreito, como um rio que elas com certeza não conheciam e não tinham ideia de onde terminaria. Nenhuma delas comentou sobre isso, apenas seguiram.
O esforço começou a pesar com o passar do tempo. O frio veio primeiro, infiltrando-se pelas roupas úmidas e pelo vento que agora parecia mais constante, seguido pelo cansaço nos braços de Pattranite, que já não respondiam como antes.
A fome e a sede já existiam, mas agora se tornavam mais evidentes, junto com o sono e o esgotamento de tudo o que tinham vivido. Ainda assim, ela continuou remando.
“Pattranite…” Pansa chamou baixo, sem resposta imediata, apenas o som da água continuando.
Pattranite estava concentrada na água, não prestou atenção. Lutava para manter os olhos abertos.
“Pattranite.” Dessa vez, Pansa foi mais firme, como a médica rígida que costumava ser.
O remo falhou por um instante na água.
“Você precisa parar.” Pansa disse baixo. Pattranite hesitou.
“Só mais um pouco…” Nem sequer sua voz tinha força.
Mais uma remada, depois outra, cada vez mais pesada, até que Pansa se inclinou e segurou o remo, interrompendo o movimento.
“Chega.” Mas sua voz foi suave, quase carinhosa.
O contato foi o suficiente. Pattranite soltou e o corpo cedeu de vez, os braços caindo pesados ao lado. Já não aguentava mais.
O barco seguiu sozinho, levado pela corrente suave da água.
O frio ficou mais evidente agora que não havia mais movimento constante. Pattranite tentou se manter sentada, mas o corpo não sustentou por muito tempo. Ela deslizou do banco para o casco, para ter onde encostar-se e também para fugir parcialmente do vento frio.
Pansa também estava exausta, não era somente o braço que doía, mas todo o corpo, além da sua mente. A garganta estava seca de sede e o frio a fazia tremer de maneira involuntária. Ela também desceu do banco para o casco e sentou ao lado de Pattranite.
Pattranite tentou manter os olhos abertos por mais alguns segundos, mas não conseguiu. Pansa resistiu um pouco mais, olhando o caminho a frente, até finalmente ceder.
Elas deslizaram sonolentas, quase caindo ao chão do casco, uma ao lado da outra. Os corpos se aproximaram por instinto, buscando lugar para se aquecer, buscando abrigo. Os olhos fecham sem resistência. Não estavam nas melhores posições, mas a fadiga ainda era superior a tudo, e desmaiam por exaustão. Era como se tivessem desistido, e se tudo acabasse ali, que acabasse.
O barco seguiu, levando as duas adormecidas pelo rio desconhecido, com o sol começando a nascer no horizonte.
…
Pattranite acordou primeiro. Suas costas ardiam como o inferno. A luz clara e quente incomodava seus olhos e corpo. Ela ouvia os pássaros. Piscou algumas vezes, demorando a entender onde estava, até notar o ambiente. O movimento parado e a margem próxima. O barco havia encalhado em uma encosta de árvores e areia. O que era previsível de um barco sem alguém para guiá-lo.
Sua mente fez questão de lembrá-la de tudo que aconteceu no primeiro minuto de consciência. Tudo parecia ter sido um pesadelo terrível. Mas não havia sido.
Um ruído incomodado soou perto de si, como um pequeno gemido de dor e desconforto. Só então ela despertou pela segunda vez, saindo do transe das memórias recentes, e notou o corpo grudado ao seu. Pansa despertava lentamente por conta do desconforto que sentia. Não pelo sol batendo no rosto, não pelo barulho dos pássaros, mas pela dor que percorria o corpo inteiro e, principalmente, o braço direito.
Tinha o rosto contorcido em uma careta aflita. Moveu o braço machucado como pôde para, de alguma forma, tentar aliviar com uma espécie de exercício, mas não aconteceu. Os olhos se abriram lentamente. Pansa suspirou antes de encontrar os olhos de Pattranite já sobre os seus. Então pareceu esquecer-se de tudo.
Elas estavam muito perto. Grudadas pelo pouco espaço. Uma de frente para a outra agora.
Os olhos de ambas estavam semicerrados, mas atentos, cheios de confusão e dor. Mas também havia ali o mesmo olhar daquele momento antes de tudo se tornar tão ruim, admiração, atração e um reconhecimento silencioso. Não disseram nada, se encararam em silêncio, com atenção, perdidas entre o que tinham vivido e o que era aquele momento agora.
Pattranite se mexeu devagar, sentindo o corpo ainda travado. Aproximou a mão com cuidado, movida pelo inconsciente, tocando de leve o braço, ajeitando a tipoia com cuidado, depois o ombro, como se conferisse se Pansa estava bem. Massageando e acariciando com lentidão.
Pansa assistiu cada movimento daquelas pequenas mãos com atenção.
Quando Pattranite parou, encarando-a nos olhos, Pansa recomeçou. Respondeu no mesmo nível, erguendo com dificuldade o braço enfaixado e tocando-a de volta da forma simples que conseguia, sem pressa, repetindo a mesma delicadeza. Parecia um momento apenas de consequência, nada racional.
Pattranite também assistiu cada movimento com interesse e atenção.
Era a primeira vez que se tocavam assim, e seus corpos reagiram com uma eletricidade silenciosa sob a pele, despertada pelas carícias simples, lentas e quase sincronizadas. O olhar entre elas ficou mais longo.
Foi Pansa que se aproximou mais um pouco e encostou as costas da mão ferida no rosto de Pattranite, de maneira leve, quase hesitante. Acariciou devagar as bochechas sujas, mas ainda macias e cheias de vida, com as costas dos dedos, sem nenhuma pressa. Pattranite não recuou. Só fechou os olhos por um instante curto.
Quando tornou a abri-los, encontrou Pansa ainda perto, observando-a em silêncio, sem entender exatamente o que estava fazendo. A mão continuava ali. O polegar já não se movia, mas não se afastava. A respiração das duas parecia curta naquele espaço mínimo entre seus rostos.
Pansa hesitou. O corpo inteiro parecia lembrá-la da dor, do cansaço, do absurdo daquele momento, mas nada disso foi suficiente para fazê-la se afastar. Aproximou-se um pouco mais. Tão pouco que primeiro só as pontas de seus narizes roçaram um no outro, em um toque tímido, quase acidental. A respiração falhou nas duas. Pattranite puxou o ar pelo nariz, sentindo o peito apertar por um motivo que não era a dor.
O beijo foi pequeno. Um encostar cuidadoso de lábios rachados, trêmulos, cansados demais para qualquer urgência. Mesmo assim, havia alguma coisa a mais, quase desesperada, como se precisassem daquilo para existir e viver. Foi breve. Só alguns segundos suspensos em calor e respiração presa.
Quando se afastaram, nenhuma das duas foi para longe. Continuaram perto. Os olhos em confusão e combustão, mas sem se soltarem.
O momento foi interrompido pelo som de risadas e pés correndo pela areia se aproximando. As duas se afastaram, sentando rápido demais.
Algumas crianças corriam em direção a água, gritando e se empurrando em brincadeira, como se fosse um dia comum. Para eles, era. O contraste daquilo caiu sobre elas de forma fria. Nada daquilo combinava com a dor latejando em seus corpos, com a sujeira grudada na pele, com o cansaço, com tudo o que tinham vivido horas antes. Não combinava com a situação em que estavam. Ficou confuso de repente. Quase errado. Elas não se olharam depois disso.
Pattranite soltou um ar curto pelo nariz, endurecendo a expressão enquanto tentava se agarrar a uma coisa concreta.
“O barco encalhou,” comentou, e Pansa assentiu simplesmente.
…
Havia um vilarejo próximo dali, com pessoas vivendo normalmente. Pessoas trabalhando, crianças brincando, feirantes nas ruas, tudo como se nada tivesse acontecido. Uma normalidade que, com certeza, não refletia em nada do que havia acontecido e o que ainda acontecia internamente com elas.
Era um lugar simples, de gente trabalhadora. Os feirantes organizavam suas barracas com calma, caixas eram abertas, frutas eram arrumadas com cuidado, e as conversas eram banais, sem nenhuma urgência. O dia começava com naturalidade e normalidade.
No meio disso, elas destoavam. Duas figuras sujas, com roupas, antes brancas, amassadas. Os cabelos desalinhados e amarrotados, além das marcas de arranhões e machucados na pele. Pansa mantinha o braço junto ao corpo, protegendo como podia. Definitivamente dormir no casco de um barco não ajudou em nada em suas dores. Caminhava ao lado de Pattranite, ainda quieta, observando em volta. Ninguém lhes dava importância. Alguns olhares vinham, rápidos, curiosos, mas logo voltavam ao próprio caminho.
A vida ali continuava a mesma.
“Não tem hospital aqui…”Pattranite murmurou, constatando.
Apesar de parecer maior do que o lugar em que antes viviam, o vilarejo era muito mais simples.
“Definitivamente, não.” Pansa respondeu, sem muita vontade.
Elas seguiram andando. Tentavam ignorar o que sentiam, atentas ao novo ambiente. Não tinham mais a urgência e a adrenalina de antes, mas o corpo cobrava o que tinha sido ignorado por tempo demais.
Um mercadinho simples apareceu logo à frente. Era pequeno, com fachada gasta e com os produtos expostos sem muito cuidado. O interior era simples, cheio de mantimentos, prateleiras básicas, mas nada além do necessário. Um homem mais velho estava atrás do balcão. Era só mais um dia comum para ele.
Antes de entrarem, elas pararam por um instante na entrada, hesitantes. Então Pattranite foi até o balcão, assumindo a frente.
“Desculpe, Senhor…“ começou, assumindo uma postura séria, mas ainda gentil e educada “Nós não temos nenhum dinheiro conosco agora.”
O homem levantou o olhar devagar e observou-as. De cima a baixo. Os olhos varreram a garota alta parada na porta com o braço enfaixado.
“Só queremos pedir água… Temos muita sede, não bebemos água há mais de seis horas.” continuou “E se possivel, um telefone, se o senhor tiver”
Pansa observou com atenção, pensando no que ela faria. O homem olhou para elas mais uma vez. Depois suspirou.
“Sentem ali” disse, apontando para um canto “vou pegar água.”
Virou-se, sem transformar aquilo em algo maior do que era. A enfermeira e a médica suspiraram com a primeira chance de descanso em um ambiente neutro e provavelmente seguro.
“Como está o braço?” Pattranite perguntou baixo.
“Pior.”
“Consegue aguentar mais um pouco? Vou tentar conseguir comida também…” seu tom era de preocupação genuína.
“Já estivemos na pior.” Pansa devolveu.
O homem voltou em seguida com dois copos de água e disse que no fim da rua tinha uma casa com porta azul onde o senhor Liang tinha um telefone. Pattranite agradeceu, meio sem jeito, e elas saíram do mercadinho quase no mesmo ritmo lento de antes.
A casa de porta azul foi fácil de encontrar. Pattranite bateu uma vez, esperou, bateu de novo, até que um senhor magro abriu a porta com desconfiança.
“Senhor Liang, tudo bem?” Pattranite disse, tentando ser gentil, ela não perdia o seu jeito “A gente precisa fazer uma ligação, é urgente.” Ela falou direto.
O senhor estranhou ao ver os rostos e suas características. Nunca havia visto aquelas pessoas.
“Vocês tem dinheiro?Tem que pagar.” Ele respondeu seco e mal humorado.
“Tudo bem, eu vou pagar depois.”
O homem não discutiu, abriu passagem e apontou para dentro. O telefone ficava numa mesinha simples no canto da sala. Pattranite parou diante dele e ficou um segundo sem tocar, como se aquilo pesasse mais do que deveria. Pansa ficou ao lado, observando em silêncio.
Quando ela finalmente pegou o aparelho, discou o número de memória, sem hesitar. Chamou uma vez, duas. Até a linha atender.
“Alô?” A voz do pai soou firme, atenta e formal do outro lado.
Pattranite travou. O ar pareceu prender no peito por um instante. Foi só ouvir aquela voz e toda a força que ela vinha sustentando desde a fuga começava a rachar.
“Pai…” ela soltou baixo.
Houve um silêncio curto do outro lado.
“Love?” o tom de voz dele mudou na hora. “O que aconteceu?”
Ele reconhecia sempre quando havia algo errado. Mesmo quando ela tentava esconder. Pattranite respirou fundo para responder, mas quando voltou a falar as lágrimas vieram junto. Já tinha resistido muito.
“Pai… a vila…” ela mão apertou mais forte o telefone. “Houve um atentado. Um incêndio. Tudo pegou fogo… eu não sei… eu não consigo entender até agora. Foi tudo muito rápido…” A voz falhou no final.
As imagens vinham desordenadas na cabeça: fumaça, fogo, gritos, destroços, correria. A casa explodindo, o fogo chegando perto delas no templo… Pensou nos amigos.
“Você está segura, Love? Onde está?” perguntou direto.
Pattranite respirou, tentando se controlar.
“Agora, eu acho que sim. Mais ou menos. Estou com alguém.” Ela olhou de lado para Pansa, que a observava sem entender muita coisa. Pansa estava pálida e toda suja de fuligem. “Ela está machucada, precisa de cuidados médicos. Nós conseguimos fugir, mas não sei nada sobre o resto. Sobre nenhum deles. Pai… muitas pessoas devem ter morrido. Eu ainda consegui salvar alguns deles mas…”
Do outro lado da linha, o pai já tomava providências. Ela conseguia ouvir a voz dele mais distante por um momento, dando ordens a outras pessoas, passos apressados, alguma movimentação. Mas logo ele voltou. Se preocupando verdadeiramente com quem ele realmente se importava.
“E você, Love? Está ferida?”
“Estou um pouco desidratada e com alguns arranhões. Mas estou bem. Vosbein precisa de mais ajuda que eu.”
Distante, Pansa conseguiu perceber um pouco do que acontecia. Com certeza, Pattranite tinha alguém que se importava com ela. Era o acolhimento que esperava ter recebido.
“Me dá uma referência do lugar que estão. O nome. Qualquer coisa.”
Pattranite olhou ao redor, perguntou ao senhor da casa e repetiu o nome no telefone.
“Entendi” disse o pai “Fique aí, querida. Não saia andando e não chame atenção. Eu vou mandar alguém para buscá-las” Prosseguiu com a mesma firmeza de antes, como o grande líder que era.
“Alguém?”
“Sim. E dinheiro também.” Depois a voz dele mudou um pouco, mais baixa. “E escuta bem, Love… não confia em ninguém além de quem eu mandar. Fui claro?” Ordenou.
“Sim, pai. Eu já não confio em ninguém mais…”
“Confia sim” ele respondeu simples, “Fique a salvo” E desligou.
O silêncio tomou a sala. Pattranite segurou o telefone por mais um segundo antes de colocá-lo de volta no lugar e permaneceu parada, como se ainda pudesse ouvir a voz dele, como se desligar significasse aceitar outra vez tudo o que tinha acontecido. Os dedos tremiam levemente quando soltou o aparelho. Ela respirou fundo, mas o ar não pareceu suficiente.
Até aquele momento tinha seguido em frente porque precisava correr, precisava ajudar, precisava continuar, mas ouvir a voz de casa fazia tudo pesar muito mais.
Pansa não disse nada quando a ligação terminou. Ficou encostada perto da parede observando em silêncio enquanto o senhor Liang resmungava qualquer coisa sobre não demorarem e desaparecia para dentro da casa, deixando as duas praticamente sozinhas na sala abafada.
Pattranite ainda manteve a mão sobre o telefone por mais tempo antes de ajeitá-lo com cuidado excessivo. Passou a mão pelo rosto, secou as lágrimas às pressas, endireitou a postura e tentou parecer composta, mas a respiração continuava curta e as mãos ainda tremiam. Pansa percebeu, mas continuou sem dizer nada. Mudou o peso do corpo para a outra perna e imediatamente fez uma careta quando a dor no braço subiu até o ombro em uma fisgada aguda. Puxou o ar pelo nariz, tentando disfarçar, mas Pattranite ouviu o som e se aproximou rapidamente.
“Seu braço…?”
“Ainda está aqui” A tentativa de humor saiu seca, sem força, mas mesmo assim Pattranite soltou pelo nariz algo que quase pareceu uma risada. Quase.
O silêncio voltou logo depois, pesado, enquanto as duas evitavam se encarar por tempo demais, não queriam admitir o próprio estado que estavam. Pattranite passou a língua pelos lábios ressecados.
“Era o meu pai. Ele vai mandar ajuda.” Pansa assentiu.
“Ótimo.’
Pattranite apoiou a mão na pequena mesa ao lado e abaixou levemente a cabeça. Agora que tinha parado, o corpo inteiro parecia estranho. Durante toda a fuga existira apenas a necessidade de continuar andando, mas o silêncio trazia a exaustão de volta de uma vez só. O calor grudado na pele, a fumaça presa nas narinas, os joelhos doloridos, os arranhões ardendo e, acima de tudo, as imagens.
Ela fechou os olhos por um instante e se arrependeu imediatamente.
“Você também vê?” perguntou antes mesmo de pensar se devia.
Pansa demorou um segundo para encará-la.
“O quê?”
Pattranite ajeitou a respiração antes de responder em voz baixa.
“Tudo. Quando fecha os olhos.”
Houve um breve silêncio. Então Pansa entendeu e assentiu devagar.
“Sim”
Sim. E, de repente, Pattranite soube que compartilhariam aquela dor por muito tempo.
Pansa desviou o olhar para o chão. A mão boa apertou com força a própria saia quando outra fisgada atravessou o braço imobilizado e, dessa vez, ela não conseguiu esconder a expressão de dor.
“Senta” disse Pattranite.
“Estou bem.”
“Não, não está.”
Pansa soltou um suspiro irritado, mais consigo mesma do que com a ordem, e acabou cedendo. Sentou-se devagar na cadeira mais próxima, o maxilar travado quando o braço se moveu um pouco. Pattranite puxou outra cadeira e sentou também.
Por alguns segundos nenhuma das duas falou. Havia apenas o relógio distante da casa, o som de alguma panela batendo em outro cômodo, ruídos normais demais para combinarem com o estado delas. Pattranite encarava as próprias mãos, sujas e marcadas de fuligem acumulada nas linhas da pele. Havia um pequeno tremor nelas. Ela fechou os dedos devagar.
“Eu pensei que a gente não ia conseguir sair...”
Pansa soltou uma respiração curta.
“Eu também” A sinceridade era seca, sem dramatização. Era real.
Devagar, ainda sem saber se devia, Pattranite estendeu a mão e tocou de leve os dedos de Pansa. Pansa não olhou, mas também não se afastou.
As duas permaneceram assim por alguns segundos, feridas, sujas e exaustas, sentadas em uma casa estranha, dividindo um fracasso que nenhuma das duas saberia nomear sem se despedaçar.
