Chapter Text
Eduarda girou a aliança no dedo devagar. Tinha demorado vários dias para se acostumar com ela. Era pesada, porque Lorena quisera alianças grandes, e Eduarda, que tivera que abandonar o hábito de usar joias no dia a dia quando entrou na polícia, agora se pegava frequentemente mexendo na banda larga quando estava distraída. Paulinho e o Delegado tinham reparado quase imediatamente, mas, em vez de fazer qualquer piada, os dois tinham apenas... deixado para lá. Eles vinham pisando em ovos com ela ultimamente, tratando-a como se ela fosse feita de porcelana, e Eduarda não conseguia decidir se ficava irritada com aquilo ou se achava graça de quão mal eles disfarçavam.
Resolvera ter paciência com eles – sua família também não vinha disfarçando muito bem. Agora que não podia mais trabalhar no turno noturno nem visitar Lorena no bar, Eduarda geralmente saía da delegacia no final da tarde e ia jantar na casa dos pais antes de ir para casa, e era difícil fingir que não via a forma como sua mãe olhava para as agentes da escolta antes de puxá-la para um abraço apertado ou que não reparava quando seu pai se afastava para manter conversas baixas com a comandante. Era ainda mais difícil fingir que não sabia por que seus tios e avós agora a ligavam todos os dias em vez de toda semana.
E ainda havia Lorena, que realmente conversara com seu pai e com a comandante sobre a escolta, que mantinha a calma todas as manhãs vendo Eduarda sair de casa cercada por quatro mulheres armadas enormes, que reorganizara seus horários na Fundação e no bar para estar com Eduarda em casa o máximo possível, que era inegavelmente o maior alicerce que Eduarda tinha. Mas que era a mesma Lorena que agora olhava para Eduarda como se ela fosse desaparecer, que agora ainda mais do que antes encontrava motivos para encostar em Eduarda a qualquer momento, que a beijava e a abraçava com um desespero tão mal contido que deixava Eduarda um pouco perdida. Não sabia o que fazer com o estresse que sentia em Lorena e nos outros, e muito menos sabia como fazê-los voltar ao normal.
Não queria parecer ingrata ou insensível. O cuidado de Paulinho e do Delegado, a atenção redobrada de sua família e a presença constante de Lorena a desconcertavam e a asseguravam em igual medida, eram ao mesmo tempo lembretes da situação e garantia de que ela tinha com quem contar para não passar por ela sozinha. Eduarda sabia que, dadas as circunstâncias, estava no melhor dos mundos possíveis, amparada por amigos, família e noiva que tinham mudado as próprias vidas para acomodá-la, mas isso não apagava o desgaste que sentia quando via a tensão nos olhos de Paulinho, quando percebia a forma como sua mãe acariciava seu cabelo ou quando acordava de manhã e encontrava Lorena a observando. A escolta era uma fonte aparentemente inesgotável inquietação, e, mesmo depois de 43 dias submetida àquilo, Eduarda ainda não conseguia vislumbrar um fim.
Com um suspiro pesado, Eduarda tirou a aliança e a segurou na altura dos olhos para ver a inscrição no interior. Lorena Esteves Ferette e a data em que se tinham conhecido eram parcialmente legíveis sob a luz fraca do abajur, mas Eduarda já tinha estudado a gravação o suficiente para distinguir a caligrafia elegante em qualquer lugar. Lorena tinha relutado de primeira sobre gravar seu nome completo, dissera que não queria o sobrenome de Santiago Ferette encostando em Eduarda, mas aquiescera diante da insistência de Eduarda. E ela teria insistido mais, se necessário, porque Ferette sempre fora muito mais o sobrenome de Lorena do que de seu pai, porque Lorena sempre fora muito mais do que apenas filha de seu pai, porque Eduarda amava Lorena, não a versão higienizada à qual ela parecia às vezes querer se reduzir.
O anel brilhou sob a luz e Eduarda traçou a inscrição com a unha. O ouro estava perdendo a qualidade polida de uma joia pouco usada. As alianças tinham chegado havia pouco mais de um mês, entregues em uma caixinha de madeira entalhada à mão e acompanhadas de um bilhete pessoal de parabenização do ourives, um senhor gentil que tinha feito também as alianças dos pais de Eduarda, cujo pai fizera as alianças de seus avós e cujo filho provavelmente faria as alianças de seus filhos. Toda família tinha suas tradições, e Lorena, que tanto rejeitava o tradicionalismo do pai, que tanto tentava esconder partes de si mesma, casava-se agora na mais tradicional das cerimônias, planejava o mais tradicional dos futuros, escolhera a mais tradicional das mulheres da mais tradicional das famílias.
Em outra vida, Lorena seria o maior orgulho do pai; nesta, o orgulho era aquele menino insuportável aparentemente incapaz de entender ou aceitar um não como resposta.
– Ei. – Eduarda piscou e desviou o olhar da aliança para encontrar Lorena a encarando de onde estava encostada no batente da porta do banheiro. – Que cara é essa? Não vai me dizer que está se arrependendo, né?
Eduarda franziu o cenho, olhou de volta para a aliança quando Lorena a indicou com a cabeça e soltou uma risada breve.
– Nunca – ela respondeu, devolvendo o anel para seu lugar.
Lorena sorriu e se descolou do batente para cruzar o quarto e tomar seu lugar na cama, sentando-se encostada na cabeceira à direita de Eduarda. Ainda mexendo na aliança em seu dedo, Eduarda sentiu Lorena se aproximando na cama espaçosa até abraçar seus ombros. Eduarda apoiou a cabeça no ombro de Lorena e tentou relaxar. Por um momento, quase funcionou, e então:
– Falei com o Léo hoje – Lorena disse.
Eduarda fez um esforço consciente para não ficar tensa e encarou a aliança com uma atenção completamente necessária.
– É? – ela perguntou, mais para responder qualquer coisa do que por curiosidade genuína, e sentiu Lorena assentir.
– Ele foi lá no Financeiro hoje de manhã, queria ver se tinha algum fundo nas contas da Fundação alocado para ele. – Eduarda respirou muito devagar para conter o pânico que sentiu diante da ideia de Lorena aju... – Não tinha, mas eu fiquei pensando... Você sabe de alguma ONG ou instituição de caridade que atue na Chacrinha? Tirando a Fundação.
O alívio que Eduarda sentiu foi tão grande que ela mal teve foco suficiente para ficar confusa com a pergunta.
– Não – ela respondeu, ainda concentrada em controlar o ritmo da própria respiração. – Por quê?
Lorena respirava calmamente em seu cabelo, Eduarda tentou seguir o mesmo compasso.
– Eu e o Léo temos contas de investimento que meu pai abriu para nós dois quando nós nascemos. A do Léo está congelada, mas eu administro a minha desde que fiz 18 e... Sei lá, tem muito tempo e nem é tanto dinheiro assim, pelo menos não comparado ao que veio depois, mas o Léo veio falar comigo sobre passar dinheiro da Fundação para ele e eu fiquei pensando que eu não sei a origem do dinheiro da minha conta, não sei se é legítimo ou... não. Enfim, eu queria doar, não quero ficar com aquilo, mas acho esquisito doar dinheiro para uma organização que no final das contas também é minha.
O peso do pânico levantou de seu peito tão imediatamente que Eduarda poderia ter ficado um pouco tonta. E então, no segundo seguinte, o peso voltou, dessa vez acompanhado de uma culpa sufocante. Por um momento, por um curto momento, tinha genuinamente temido que Lorena poderia ter ajudado Leonardo a...
– Eu posso perguntar para o Paulinho amanhã – Eduarda disse antes que o pensamento pudesse tomar forma. – Ele conhece a Chacrinha melhor do que eu.
O peso pressionava seus pulmões. Queria poder usar a desculpa das circunstâncias, dizer para si mesma que estava com os nervos à flor da pele com uma investigação que parecia não levar a lugar nenhum, com uma escolta aparentemente interminável, com uma família que parecia querer escondê-la dentro de casa. Queria poder apontar para o estresse de planejar um casamento, de estar sob vigilância constante, de viver cercada de uma tensão que ela não conseguia resolver.
E talvez, até certo ponto, fosse isso. Talvez ela não fosse tão capaz de racionalizar as coisas como queria imaginar que era – às vezes ela não sabia como seu pai fora capaz de aguentar mais de um ano dessa forma, sozinho em uma casa enorme e sabendo que tinha colocado a esposa e a filha em risco também. Mas ela sabia também que havia uma explicação muito mais simples, muito mais ridícula, muito mais covarde: a ligação que recebera naquela tarde a havia desestabilizado e ela ainda não criara coragem de falar com Lorena sobre ela.
E ela precisava falar com Lorena, sabia que não podia deixar para depois, sabia que não podia deixar aquilo criar corpo em sua mente. Mas o medo a paralisava um pouco, a mera possibilidade de que Lorena tivesse cedido e aceitado aquela ideia infeliz, descabida, insultante, preguiçosa... Eduarda fechou os olhos com força. Lorena não faria isso sem falar com ela, ela sabia disso, mas elas tinham tido conversas recorrentes ao longo do último mês sobre como recusar aquele casamento duplo e, uma vez – uma única vez –, Lorena ensaiara ceder, considerara aceitar apenas para não ter que dizer não a Leonardo. O que quer que ela tenha visto no rosto de Eduarda tinha sido suficiente para fazê-la recuar e pedir desculpas, mas o estrago já tinha sido feito. E agora, a ligação.
O braço de Lorena em seus ombros a puxou para mais perto e Eduarda sentiu quando Lorena respirou fundo em seu cabelo.
– Acho que eu vou voltar para a faculdade depois do casamento – Lorena murmurou. – Vou sair do bar e ficar só na Fundação, aí não sobrecarrega. – Eduarda assentiu e, depois de alguns breves segundos, Lorena continuou. – Mas só vai dar para planejar direito depois que a gente decidir a data. E eu estava pensando hoje mais cedo sobre a lista de convidados.
Eduarda imaginou um convite com quatro nomes em vez de dois, sentiu o peso em seu peito aumentar, encarou e mexeu na aliança como se ela tivesse qualquer solução para sua covardia. O ouro brilhou e Eduarda respirou fundo. Não estava sendo racional, e muito menos estava sendo justa com Lorena, e odiava que a mera menção a Leonardo pudesse deixá-la tão... perdida. Imaginava que aquela tensão, aquela incerteza, aquela insegurança vinham do mesmo impulso que a fizera mentir sobre o vestido e que a fazia ainda se esquivar da ideia de escolher uma data para o casamento apesar dos comentários cada vez mais frequentes de Lorena sobre o assunto, mas ela normalmente conseguia manter um controle muito maior sobre seus próprios pensamentos. Agora, no entanto, sentada na cama delas ao lado de Lorena tarde da noite em um apartamento que era só delas e onde ela sabia que estava segura, Eduarda não conseguia se permitir relaxar.
– ...e eu acho que a gente pode chamar a Lucélia também.
Eduarda piscou e se afastou de Lorena o suficiente para olhar diretamente para o sorriso dela.
– Quê?
O sorriso de Lorena cresceu.
– Eu sabia que você não estava prestando atenção. – Eduarda a encarou, um pouco incrédula que tinha caído em uma piadinha tão besta. Lorena estendeu a mão e afastou uma mecha que tinha caído sobre o rosto de Eduarda. – O quê que foi, hein? Você está calada desde que eu cheguei.
Por alguns longos segundos, Eduarda apenas olhou para Lorena, registrou o olhar paciente e o sorriso gentil, sentiu o carinho em sua bochecha. E então, finalmente, o peso em seu peito pareceu diminuir. Lorena tinha prometido que seria sua parceira, que a apoiaria, que não a deixaria sozinha, e ela estava ali, perguntando o que tinha acontecido porque ela não sabia, e Eduarda confiava nela. Completamente, conscientemente, impreterivelmente.
Respirando fundo, Eduarda estendeu a mão direita sobre o colchão e Lorena a cobriu com a dela. Eduarda observou as duas alianças juntas, ouviu o barulho de metal contra metal quando Lorena segurou sua mão, viu o brilho sob a luz fraca e disse:
– Viviane me ligou hoje à tarde. – Lorena fez um barulho curioso, Eduarda manteve o olhar nos anéis. – Ela queria contribuir com as despesas do casamento, dentro do que ela conseguisse, porque, segundo ela, você tinha confirmado o casamento duplo com seu irmão. – Quando Eduarda olhou para Lorena novamente, foi para encontrá-la de olhos arregalados. – Hoje de manhã durante a visita dele ao Financeiro, aparentemente.
– Eu não fiz nada disso – Lorena soltou de uma vez, as palavras saindo um pouco emboladas. Seus ombros se tensionaram e a respiração perdeu o ritmo tranquilo. Ela tentou soltar a mão de Eduarda, que segurou mais forte para mantê-la ali. – É sério, Duda, eu não confirmei nada. Ele falou desse negócio de novo mas eu só disse que a gente ainda tinha que decidir muita coisa e, sei lá, eu enrolei. Eu... eu nunca faria isso sem falar com você antes, acredita em mim.
– Eu sei – Eduarda disse, a voz pouco mais que um sussurro. – Eu sei.
Os ombros de Lorena relaxaram quase imediatamente. Pelo que pareceu uma eternidade, elas permaneceram daquela forma, apenas olhando uma para a outra por tempo suficiente para Eduarda quase fingir que o problema estava resolvido – não estava, porque ela tinha aberto a boca e... –, e então Lorena franziu o cenho e disse:
– Eu devo ter dito alguma coisa que ele interpretou errado.
Eduarda lutou para suprimir um suspiro cansado. Ela se perguntava, com uma frequência absolutamente frustrante, como a mesma pessoa que tinha sido tão correta em duvidar do pai estava também sempre tão pronta para dar o benefício da dúvida ao irmão, como a mesma Lorena que passara anos desconfiando de Ferette sem qualquer prova agora buscava qualquer desculpa para absolver Leonardo. O contraste era tão absoluto que Eduarda às vezes se questionava.
Vez ou outra, quando Lorena mais uma vez demonstrava sua lealdade cega ao irmão, Eduarda se perguntava se estava sendo injusta com Leonardo. Ela era filha única, não tinha primos por parte de mãe e seu único primo por parte de pai era muito mais velho do que ela e morava em Alagoas com a família, então Eduarda não conhecia e nunca conheceria o tipo de vínculo que surgia quando se crescia com outra pessoa, e talvez fosse por isso que ela não entendia a boa vontade de Lorena para com Leonardo. Mas Eduarda se lembrava do medo que sentira quando Paulinho propusera “jogar o jogo de Ferette” porque soubera, ainda ali, esperando o elevador na Fundação, tentando evitar que Paulinho voltasse para a sala da presidência e terminasse de colocar a carreira dele em risco, que teria que ficar contra ele se ele tentasse. E talvez a comparação fosse descabida, mas Leonardo era uma pessoa pior do que Paulinho, e Eduarda não conseguia entender como Lorena não via isso.
Mas ela também não tinha coragem de dar voz ao que pensava sobre Leonardo, não queria colocar Lorena entre ela e o irmão, não achava justo tentar fazê-la escolher um lado, então apenas deu de ombros e disse:
– Acontece. – Lorena pareceu hesitar. Por alguns breves segundos, ela encarou Eduarda de cenho franzido, o olhar buscando alguma coisa em seu rosto que Eduarda não tinha certeza se queria revelar, e então Lorena pareceu chegar a algum tipo de conclusão e Eduarda desviou o olhar e virou na cama para apagar a luz do abajur. – Boa noite, amor.
– O quê que você respondeu para a Vivi? – Eduarda olhou novamente para Lorena quando ouviu a pergunta, mas, antes que pudesse pensar em uma resposta, o celular de Lorena vibrou na cômoda. Lorena pegou o celular e mostrou o nome de Leonardo na tela. Eduarda assentiu e Lorena atendeu e colocou no viva-voz. – Oi, Léo.
– O quê que a tua amiguinha falou para a minha mulher?
Lorena tirou a ligação do viva-voz e se levantou da cama, levando o celular à orelha. Eduarda sentiu o pânico voltar. Tinha feito besteira, ela sabia que tinha feito besteira, mas não conseguia fazer mais do que observar da cama enquanto Lorena andava de um lado para o outro do quarto e parecia manter uma conversa... agitada? Tensa? Ríspida? Devia ter mantido o controle durante a breve conversa com Viviane, não devia ter dito nada além de amenidades, não devia ter deixado a emoção do momento tomar conta de sua cabeça. Até Paulinho, esquentadinho do jeito que era, a tinha olhado incrédulo quando ouviu as palavras saindo de sua boca, até Paulinho tinha...
Lorena parou no meio do quarto, olhou para Eduarda e disse:
– Fica aqui. – E então ela virou e praticamente correu para fora do quarto.
Eduarda levantou-se da cama quando ouviu a porta do apartamento abrindo e fechando. Ela não podia sair do apartamento sozinha. A ordem fora incutida em sua mente todos os dias pelos últimos 43 dias, o Delegado e a comandante repetiam de novo e de novo que ela não podia sair de casa sozinha, seus pais apenas a deixavam sair da casa deles quando a viatura já estava ligada, Lorena a segurava no apartamento até as agentes chegarem apesar de o prédio inteiro estar tecnicamente liberado. Eduarda não podia sair do apartamento sozinha. A invariabilidade disso não foi suficiente para mantê-la ali.
Impaciente demais para esperar o elevador, Eduarda desceu correndo os quatro lances de escada até o térreo, atravessou o lobby e travou diante das portas de vidro quando viu Lorena na calçada... discutindo com Leonardo? As duas portas abafavam as palavras, mas os dois pareciam agitados, e, quando Leonardo se aproximou de Lorena, Eduarda abriu as portas, desceu correndo os degraus até a calçada e foi prontamente empurrada contra o muro do prédio.
Ela piscou e precisou de um segundo para entender que uma das agentes da escolta a estava segurando contra a parede.
– Me solta – ela ordenou, mas a agente não se mexeu. – Mariana, me solta. – Ela tentou empurrar o braço de sua cintura. – Lorena!
Lorena e Leonardo finalmente perceberam sua presença.
– Ah, olha só quem resolveu aparecer – Leonardo riu com escárnio. Estava bêbado.
– Duda, volta lá para cima – Lorena pediu.
Leonardo riu mais alto.
– É, Dudinha, volta lá para seu castelo. Fica aí escondida atrás da sua cavalaria sem precisar encarar as merdas que você fala.
– Não fala assim com ela! – Lorena respondeu, virando de novo para Leonardo.
Ele ignorou a irmã. Eduarda tentou encará-lo por cima do ombro da agente.
– O quê que você falou para ela, hein? Fala para mim também. – Ele tentou se aproximar, mas Lorena se colocou na frente dele. – Anda, fala!
– Vai para casa, Léo – Lorena disse, empurrando contra seu peito. – Você está bêbado.
– Não encosta em mim, Lorena! – Leonardo respondeu, empurrando o braço de Lorena para longe. Eduarda tentou se desvencilhar do braço da agente mais uma vez quando viu Leonardo encostando em Lorena, mas ela a empurrou contra a parede de novo e Eduarda parou. – Minha conversa é com a tua amiga.
– Vai para casa, Léo! – Lorena repetiu, empurrando seu peito mais uma vez. Ela olhou para Eduarda brevemente. – Duda, vai lá para cima. Você não pode ficar aqui fora.
– O quê que você falou para a Viviane?
– Duda...
– Fala, garota! O quê que você falou?!
– Não fala assim com ela!
– Você não põe limite então eu tenho que colocar, né, Lorena?!
– Colocar limite?!
– Essa menina só causa confusão desde que apareceu da sua vida! Estava tudo bem antes de você trazer uma...
– Olha lá o quê que você vai falar, Leonardo – Lorena interrompeu.
Leonardo riu de novo.
– Vai defender, é? – ele perguntou, depois olhou para Eduarda de novo. – Ela adiou o casamento por culpa sua. O quê que você falou?
Eduarda travou. Lorena olhou entre ela e Leonardo de cenho franzido.
– A Vivi adiou o casamento? – ela perguntou.
Leonardo riu alto.
– Por culpa da tua amiga. – Ele apontou para Eduarda, depois olhou para ela. – O quê que você fez, hein? Fala! Fala! Fa...
– Eu disse que já que ela queria ajudar com os custos do casamento vocês podem fornecer a farinha para o chef que eu contratei.
Eduarda se arrependeu assim que falou. A incredulidade nos olhos de Lorena era totalmente diferente da que ela vira nos de Paulinho, imprevisível de um jeito que a deixava nervosa, e o silêncio veio pesado. Eduarda tinha prometido para si mesma que encontraria uma forma de engolir a presença de Leonardo pelo resto da vida, que não colocaria Lorena na posição de ter que escolher entre eles. Não queria viver uma vida em disputa constante, e agora, por um descuido, ela temia que não só tinha criado o cabo de guerra do qual tanto fugira como também fizera a corda arrebentar para seu lado. A aliança parecia pesar uma tonelada em seu dedo.
Leonardo empurrou Lorena para o lado e deu alguns passos na direção de Eduarda, mas parou quando a agente da escolta se mexeu. Eduarda a ouviu falar alguma coisa no rádio.
– Eu me arrependi – ele disse, a voz de repente contida, ríspida onde ela estava antes agitada.
Eduarda decidiu que não tinha muito como a situação piorar e disse:
– É fácil se arrepender depois de ser pego, né, seu safado.
– Eu entreguei as provas contra meu pai, sua maluca!
– Vai embora, Leonardo! – Lorena apareceu na frente do irmão de novo, empurrando contra seu peito com força renovada. – Vai para o flat, para a casa do Rogério, para a casa do caralho, para onde você quiser! Some daqui!
Leonardo encarou Lorena. Parecia surpreso, como se estivesse esperando uma reação completamente diferente dela, e, para ser sincera, Eduarda também tinha esperado. Não sabia qual, exatamente, talvez que Lorena acolhesse Leonardo, mas definitivamente não imaginara que ela o expulsaria dali. Por longos segundos, os irmãos apenas olharam um para o outro, e então Leonardo encarou Eduarda e apontou para ela.
– Você vai ligar para a Viviane e consertar isso – ele disse.
Eduarda pressionou as mãos contra a parede às suas costas para se estabilizar.
– Se eu ligar vai ser para dizer que ela devia te chutar de uma vez.
Leonardo avançou de novo e, no instante seguinte, perdeu o impulso quando outra agente da escolta apareceu de repente e agarrou seu braço. Foi visivelmente simples controlá-lo – a bebida o tinha desequilibrado o suficiente para facilitar o trabalho da nova agente –, e Eduarda assistiu à detenção com uma sensação de distanciamento quase cínica. Não tinha medo de Leonardo, nunca tivera, mas tinha medo da influência que ele tinha sobre Lorena, e agora, enquanto o observava ser conduzido para a viatura descaracterizada estacionada do outro lado da rua, Eduarda percebeu que estava tremendo.
Aparentemente tinha sim como piorar. A aliança era uma âncora em seu dedo. Eduarda se perguntou se era possível que o fim delas viria por algo tão simples assim, se era possível que uma história que ela acreditara que seria para sua vida toda acabaria por um erro tão básico, tão evitável, tão impensado. Tudo porque ela não conseguira se segurar diante da ideia de um casamento duplo que ela poderia ter suportado. Teria que explicar para seus pais como ela conseguira estragar tudo por uma besteira. Teria que desmontar o apartamento que era para ser a casa delas. Teria que descobrir o que fazer com o vestido porque Emily jamais aceitaria que ela o vendesse. A aliança começou a incomodar e Eduarda a puxou do dedo em um impulso e a segurou na mão fechada com força.
– Vocês duas deviam subir. – Eduarda piscou e olhou para cima para ver que a agente tinha finalmente se afastado dela. – Nós vamos deixá-lo dormir na viatura. Você vai querer registrar a ocorrência?
Eduarda quase riu. Para quê?
– Não – ela respondeu, pressionando o metal da aliança contra a palma da mão. Seus tios e seus avós ficariam decepcionados; eles estavam animados para o casamento. – Deixa para lá.
A agente assentiu e abriu a porta de entrada do prédio para Eduarda e Lorena. Eduarda arriscou um olhar para Lorena, mas se arrependeu quando viu a forma como ela a encarava e decidiu se adiantar e ir na frente para não ter que olhar de novo para Lorena. Não ainda. Teria que cancelar os contratos das empresas que tinham contratado – não tinha ideia de quanto custariam as rescisões.
Eduarda cruzou o lobby, ignorou o elevador no térreo e subiu as escadas em silêncio. Sabia que Lorena a estava seguindo – seu corpo sempre sabia quando Lorena estava perto –, mas não conseguia olhar para ela e ver em seus olhos o mesmo fatalismo que estava sentindo, não conseguia ver de novo o medo, o nervosismo, a agitação que vira na calçada. Segurou a aliança com mais força e sentiu o fio do aro pressionando contra a palma da mão. Teria que inventar alguma coisa para fazer com o ouro.
Elas entraram no apartamento ainda em silêncio – Eduarda tinha deixado a porta destrancada, seu pai teria um chilique se soubesse. Ela gastou o tempo que conseguiu trancando a porta dessa vez, girou a chave e testou a maçaneta com um zelo completamente desnecessário, respirou fundo, acendeu a luz e finalmente criou coragem para dar as costas para a porta. Quando parou no arco do hall de entrada e viu Lorena andando de um lado para o outro da sala, a cena a lembrou de outra madrugada, de outra conversa, da mesma sensação de não saber o que fazer.
Antes que pudesse descobrir, Lorena parou no meio da sala e a encarou.
– Você não gosta do Leonardo – ela disse. Afirmou, na verdade. Não tinha dúvidas. Eduarda não viu razão para negar, então não disse nada. – Eu achei que você só não tinha gostado da ideia de um casamento duplo, mas você não gosta dele. – Eduarda permaneceu em silêncio. – Por conta da Casa de Farinha?
Eduarda focou no metal da aliança pressionando contra sua pele e respondeu:
– Entre outras coisas.
– E quando que você estava planejando me contar? – Lorena perguntou, mas continuou antes que Eduarda pudesse pensar em uma resposta. – Qual que era o plano, Duda? Porque eu não estou entendendo. A ideia era você guardar isso para o resto da vida? Se obrigar a tolerar...
– Não sei.
– ... a presença dele para sempre? Ia passar a vida toda fingindo para... O quê? Não me contradizer? Não me falar que eu estava sendo uma imbecil?
– Não!
– A ideia era deixar o ressentimento acumular até você não conseguir olhar na minha cara sem pensar no Leonardo?
– Não! Meu Deus do céu, Lorena, não!
– Então o quê, Eduarda?! O quê que estava passando na sua cabeça quando você decidiu não me contar que você tem nojo de um cara que eu trouxe para a sua vida?
Eduarda sentiu os olhos ardendo e buscou o apoio mais próximo até encontrá-lo na parede da sala.
– Eu não falei nada de nojo – ela disse, respirando fundo e controlando o tom de voz novamente. Torceu para não terem acordado a vizinha.
O olhar que Lorena lhe lançou era quase incrédulo.
– Não precisava – ela respondeu. – Eu vi.
Eduarda pressionou as costas contra a parede, respirou devagar e tentou controlar o ritmo do coração.
– Ele é seu irmão – ela disse, forçando-se a manter a calma apesar das lágrimas e da respiração entrecortada. – Eu não queria que você tivesse que escolher entre...
– Eu já escolhi. – Eduarda travou e pensou em uma corda arrebentando. – Eu te escolhi no dia que eu te vi. O quê que... – Lorena passou as mãos pelo cabelo e soltou um barulho frustrado. – Você não precisa me proteger dos seus sentimentos, Eduarda. – O silêncio que caiu sobre elas foi tenso. Lorena sorriu antes que Eduarda conseguisse encontrar o que dizer. – Acertei, né?
Eduarda não respondeu – nem precisava. Ela às vezes se surpreendia com quão bem Lorena a conhecia. Não sabia exatamente o porquê da surpresa – nunca tentara esconder parte alguma sua para começo de conversa –, mas às vezes Lorena dizia ou fazia alguma coisa que deixava claro que ela prestava atenção e Eduarda nunca sabia como reagir. Era um conforto desconcertante, de certa forma, descobrir de novo e de novo que tinha alguém ao seu lado que estava sempre observando, sempre ouvindo, sempre atenta. Ou tivera alguém assim? Não sabia. Até poucos segundos antes, tivera certeza de que sua discussão com Leonardo tinha provocado o fim delas, mas ali estava Lorena, em pé no meio da sala, conhecendo-a inteiramente e sorrindo um sorriso triunfante que não parecia ter lugar em um término.
Eduarda se perguntou se tinha deixado alguma coisa passar.
– Eu só quero te poupar de algumas coisas – ela disse, um pouco sem jeito.
Com um sorriso agora mais gentil, Lorena enfiou as mãos nos bolsos do short do pijama, deu de ombros e deu um passo na direção de Eduarda antes de parar de novo.
– Não precisa – ela respondeu. Eduarda viu a forma como Lorena a observava com uma cautela redobrada, como se estivesse esperando alguma coisa. Eduarda não conseguia imaginar o quê. – Fala comigo, Duda – Lorena pediu.
Eduarda a estudou cuidadosamente, viu a postura segura e os olhos atentos, respirou fundo, contou até três e disse:
– Eu não gosto do seu irmão. – Incrivelmente, o sorriso de Lorena cresceu, e o contraste entre as palavras e a reação foi tão inesperado que Eduarda quase conseguiu achar graça. – Não gosto do jeito como ele te tratou a vida inteira, não gosto que ele vai se livrar de qualquer responsabilidade daquele esquema horroroso, não gosto de como ele corre para você toda vez que tem um problema em vez de tentar resolver. Eu sinto nojo toda vez que lembro da história da Viviane de como eles se conheceram, eu não gosto que ele fica me chamando de amiga sua, e eu não gosto... – Ali, Eduarda hesitou, um pouco incerta sobre se devia falar o que estava pensando, mas o olhar de Lorena não tinha mudado, e ela se agarrou à confiança que tinha em Lorena e continuou. – E eu não gosto que você resolveu dar tantas chances para ele. Não entendo o porquê. Ele não fez nada para merecer tanta boa vontade sua, e eu acho que existe uma linha tênue entre perdoar e passar pano para erros muito crassos, e eu não acho que você a tenha cruzado, mas sua mãe cruzou e a Viviane também, e eu tenho medo de que você seja a próxima. – Lorena soltou uma risada contagiante; Eduarda franziu o cenho, lutou para segurar sua própria risada confusa e se perguntou se elas estavam tendo duas conversas diferentes. – Para de rir, Lorena.
– Não estou rindo – Lorena respondeu entre risadas.
– Para de rir, Lorena, é sério.
Lorena controlou o riso mas abriu um sorriso brilhante.
– Não estou rindo – ela repetiu.
– Lorena...
– Meu amor... – Lorena começou, dando mais um passo em direção a Eduarda. Parou novamente a um ou dois passos de distância. – Você acha mesmo que eu vou querer alguma coisa a ver com o Leonardo depois do showzinho dele lá embaixo? Depois do jeito que ele falou com você?
Eduarda piscou, completamente atordoada.
– Quê?
Lorena deu de ombros de novo e disse:
– Ele estava igualzinho ao meu pai. – Eduarda a encarou. Lorena ainda a estudava como se estivesse esperando alguma coisa. – Eu também não sei por que eu dei tantas chances para ele. Vínculo de infância, talvez. Ou eu só não consigo me controlar mesmo. Mas eu saí de casa para ficar com você, cortar relações com um menino que só me dá trabalho não é nada.
Eduarda só percebeu que suas pernas tinham cedido sob seu peso quando sentiu os braços de Lorena envolvendo-a e ajudando-a a se sentar no chão. Respirava com dificuldade e não sabia dizer se o peso em seu peito tinha aumentado ou diminuído, a visão estava embaçada e os sons pareciam abafados, sentia os movimentos letárgicos e as mãos estavam tremendo quando ela as apoiou no chão. Lorena parecia estar tentando falar com ela, mas Eduarda sentia como se estivesse debaixo d’água, submersa contra sua vontade e incapaz de distinguir as formas e sons da superfície. Sentia alguma coisa entre a palma da mão e o chão – não sabia o quê – que parecia ser a única coisa real naquele momento.
Depois, pouco ou muito depois, Eduarda não saberia dizer quanto tempo ficou ali, respirando um ar que não entrava, olhando para borrões que não enxergava, ouvindo palavras que não entendia, buscando solidez em algo que não distinguia. Não saberia dizer se foram minutos ou horas, não saberia dizer se disse ou fez qualquer coisa além de tudo e nada ao mesmo tempo, não saberia dizer nem o que pensou. Mas saberia dizer que Lorena permaneceu exatamente onde estava, que Lorena não a tinha abandonado, que Lorena não tinha vacilado nem por um instante. Saberia dizer que, quando sua visão clareou, a primeira coisa que viu foi Lorena.
Ela era bonita. Eduarda sabia disso, não sabia por que estava pensando nisso agora, mas Lorena era bonita. Os olhos verdes brilhavam sob a luz artificial da sala, o nariz esculpido lembrava Eduarda das estátuas que vira em Atenas e a boca desenhada, quase sempre tão séria, lhe oferecia os sorrisos mais lindos que já vira. E Eduarda amava as covinhas profundas. Lorena sempre falava sobre crianças ruivas com uma certeza que não dava ouvidos aos comentários de Eduarda sobre genes recessivos, e Eduarda gostava de ouvir seus planos – sempre quisera engravidar de qualquer forma –, mas às vezes ela imaginava um bebezinho de olhos verdes com aquelas mesmas covinhas e se apaixonava ainda mais pelas que ela já via todos os dias. Não sabia por que estava pensando nisso agora, mas Lorena estava bem na sua frente e era a coisa mais linda que Eduarda já tinha visto.
– Duda. – Eduarda piscou, um pouco confusa, e viu Lorena abrir um pequeno sorriso e se inclinar para mais perto. – Oi – ela sussurrou.
Eduarda aos poucos registrou a situação. Estava sentada no chão da sala, encostada na parede, ofegante como se tivesse corrido uma maratona e... chorando, como sempre – sentiu o rosto molhado e quase revirou os olhos. Lorena estava ajoelhada à sua frente, calma e segura, observava-a atentamente e sustentava o pequeno sorriso gentil. Mantinha suas mãos nos próprios joelhos, e Eduarda percebeu que suas próprias pernas formavam uma barreira entre elas. Estava exausta – não conseguiu sair daquela posição.
– Oi – ela respondeu, imitando o tom sussurrado. Confiava em Lorena mais do que em si mesma para entender o que estava acontecendo.
– Você me deu um susto – Lorena disse, ainda gentil, ainda calma, ainda segura. Eduarda tentou imitar o ritmo de sua respiração. – Eu nunca tinha te visto desse jeito. – Eduarda descobriu que ainda tinha energia o suficiente para se sentir culpada. – Eu tive um desses uma vez, sabia? Depois de uma briga bem feia com meu pai, acho que eu tinha uns 16 anos. Mas eu estava sozinha no meu quarto quando veio e... acho que foi até melhor que ninguém tenha visto. – Eduarda imaginou uma Lorena adolescente lidando com... aquilo, o que quer que tenha sido, sozinha e sentiu novas lágrimas descendo quentes pelas bochechas. – Acho que eu devia ter ido para a terapia depois disso, mas você sabe como é minha família. E na época eu também não queria; não é fácil deixar o orgulho de lado o suficiente para admitir que a gente precisa de ajuda. E nunca mais aconteceu, então eu deixei para lá. – Lorena soltou uma risada sem graça. – Errei feio, né? Se eu tivesse ido, talvez soubesse te ajudar melhor agora.
Eduarda não tinha ideia de o que responder, então disse a única coisa que estava passando pela sua cabeça:
– Você está bem?
Lorena lhe lançou um olhar terno que Eduarda não conseguiu decifrar.
– Estaria melhor se eu não tivesse acabado de ver minha noiva tendo um ataque de pânico na minha frente sem saber o que fazer – ela respondeu. Eduarda sentiu a culpa pesar sobre todo o seu corpo. Lorena ainda a estudava com atenção. – Eu estou bem, Duda.
Eduarda tentou focar no objeto que sentia no chão sob sua mão.
– Seu irmão...
– Deixa ele para lá – Lorena disse.
– Ele é seu irmão. – Eduarda não fazia ideia de por que estava defendendo Leonardo.
– E daí? – Lorena perguntou, e então sorriu diante de o que quer que ela tenha visto no rosto de Eduarda. – Você acha que eu sou impulsiva. – Não era uma pergunta, então Eduarda não respondeu. – Tudo que eu faço é de caso pensado quando o assunto é você, Duda – ela disse. – Eu não quero errar.
Eduarda sentiu a exaustão tornando seu raciocínio lento.
– Você não está errando – ela murmurou. – Eu só não quero que você se arrependa...
– Esquece o Leonardo, Duda – Lorena disse. – Ele falou torto com você. – Eduarda a encarou e tentou disfarçar a própria confusão. Lorena pareceu perceber mesmo assim. – Você é a linha que ele não podia ter cruzado. – Eduarda não conseguia descobrir o que dizer e Lorena continuou antes que ela pudesse tentar. – Eu acho que eu não sou tão correta quanto você acha que eu sou – ela disse. – Eu sabia que meu pai estava fazendo alguma coisa errada, mas só saí de casa quando ele me mandou terminar com você. Eu sabia que o dinheiro era sujo, mas só parei de usar meu cartão e comecei a trabalhar porque eu queria morar com você. – Eduarda pensou em Lorena procurando um emprego assim que soube sobre a Casa de Farinha, mas não conseguiu dar voz ao pensamento. – Eu só me mexo quando é sobre você. E eu sei que eu não devia ser assim, eu sei que não é saudável, eu estou tentando resolver. Mas só dessa vez, só dessa vez, confia que eu sei o que eu estou fazendo. Não existe relação com o Leonardo se ele acha que tem direito de falar daquele jeito com você.
Eduarda respirava devagar. Ainda imitava o ritmo de Lorena tanto quanto conseguia – observava o movimento dos ombros e tentava seguir o mesmo compasso. Não sabia se concordava com o raciocínio de Lorena, mas sua mente estava confusa, seu corpo estava exausto e Lorena parecia ser a única coisa com que podia contar, então assentiu e sussurrou:
– Tudo bem.
Lorena soltou um suspiro que pareceu aliviado, sorriu e perguntou:
– Confia em mim?
Eduarda assentiu sem hesitação.
– Confio.
Ainda sorrindo, Lorena respirou fundo.
– Posso te pedir uma coisa? – Eduarda desviou o olhar dos ombros de Lorena para encontrar seu olhar. – Coloca a aliança de novo? Você tirou lá embaixo e está me incomodando de verdade te ver sem. – Eduarda franziu o cenho e olhou para a mão direita para encontrá-la sem o anel, depois olhou para a mão esquerda e a levantou para encontrar a aliança no chão. Ah, então era isso. Um pouco incerta sobre como ela fora parar ali, Eduarda pegou a aliança do chão e a devolveu para o lugar certo, depois olhou para Lorena para encontrá-la com um sorriso aliviado. – Obrigada – ela disse, e então indicou o espaço ao lado de Eduarda. – Posso? – perguntou, movendo-se para se sentar ali quando Eduarda assentiu.
Por alguns longos minutos, elas permaneceram exatamente daquela forma, sentadas lado a lado no chão do canto da sala, escoradas na parede e em um silêncio que Eduarda aos poucos conseguiu distinguir como confortável. O ombro de Lorena encostava levemente no seu, apenas o suficiente para Eduarda sentir o movimento da respiração, e ela deu atenção redobrada a acompanhar o ritmo até finalmente conseguir respirar fundo e perguntar:
– Exagerei?
Não teve coragem de olhar para o lado para ver a reação de Lorena, mas a sentiu balançar a cabeça mesmo assim.
– Você está nervosa – Lorena disse, a voz baixa e compreensiva. – Você se segurou bem mais do que eu teria no seu lugar, eu acho. E seu pai me avisou que a escolta seria um fator de estresse. – Eduarda quase revirou os olhos quando ouviu a menção à conversa com seu pai que Lorena insistia em manter em sigilo por algum motivo; estavam cheios de segredinhos agora. – Sabe o que eu queria?
– O quê? – Eduarda perguntou.
– Queria ter aceitado sua ideia de casar no cartório – Lorena respondeu. – Ninguém cresce o olho para cima de um casamento no cartório.
Eduarda soltou uma breve risada.
– Agora já era – ela disse. – Imagina falar para a Emily que o vestido que ela fez não vai ser usado porque a gente preferiu se casar no cartório. Minha mãe viraria persona non grata na Oscar.
– E quem foi que te falou que eu não ia querer te ver no vestido de qualquer jeito? – Lorena perguntou. – Você usaria nem que fosse só para mim.
Eduarda se permitiu inclinar o ombro um pouco mais contra o de Lorena.
– Eu já vou usá-lo só para você – ela murmurou.
Lorena permaneceu em silêncio por longos segundos, e Eduarda sentiu o contato em seu ombro aumentar antes de ouvir:
– Então a gente foge. – Eduarda não conseguiu controlar o riso dessa vez; na verdade, nem tentou. Lorena era sempre tão séria que Eduarda tinha apreço especial pelos momentos em que estavam só elas e Lorena se libertava o suficiente para fazer piadinhas bestas. – É sério. Imagina só nós duas e o juiz de paz, sei lá, em uma ilha deserta. A gente faz a cerimônia só para nós duas, o juiz de paz tira umas fotos para enviar para a família e apaziguar sua designer enjoada, depois ele vai embora e você fica só para mim sem ninguém para atrapalhar. - Eduarda ouviu o sorriso na voz de Lorena. - Qual é o lugar mais isolado que você conhece?
Eduarda sorriu. Sabia que a ideia não tinha mais viabilidade, não depois de tanto tempo de planejamento, não sem decepcionar familiares e amigos que já estavam avisados sobre o casamento, mas, ali – na segurança da casa delas, na segurança da presença de Lorena, na segurança do relacionamento delas –, Eduarda se permitiu sonhar com uma cerimônia breve e uma lua de mel muito mais longa, longe de todos os problemas e tensões e pais e irmãos de São Paulo, longe de tudo menos Lorena.
Quando finalmente olhou para Lorena, encontrou aqueles olhos verdes que tanto amava já nela e disse:
– Minha família tem uma ilha.
Lorena abriu um sorriso brilhante.
