Chapter Text
FeBatista se sentou nos trilhos do trem -o trem não estava desativado e não havia nada de errado com ele, mas por algum motivo, todos só pararam de o usar de uns tempos pra cá, e sem pessoas dentro dele, o trem não tinha mais porque circular, por isso não estava correndo nenhum risco em se sentar ali- enquanto observava Abaddon andando de skate sobre as águas, ele realmente sabia o que estava fazendo e cada manobra era executada com maestria, como se fosse uma memória muscular deixada por Scott em seu corpo
Talvez houvesse mais informações assim escondidas em seu subconsciente…?
Ele, então, voltou a se aproximar do anjo, o skate se movia e o menor nem precisava se esforçar, como se as pequenas ondas do mar calmo estivessem o levando em frente. Suas expressões eram vazias, ele não parecia estar gostando nem desgostando de fazer isso, mas por algum motivo ele sempre voltava. O menor parou logo abaixo de Fe, que sorria gentil em sua direção
– Não parece muito divertido pra você só ficar aí em cima me olhando… – seus olhos verdes o fitavam de forma indecifrável, no momento o anjo queria apenas apertar aquelas bochechas redondinhas
Riu baixinho, sentindo um quentinho em seu peito, “ele se importa se eu estou me divertindo ou não?” - essa ideia o divertia, lhe trazia uma esperança que nas últimas semanas ele achou que tinha perdido
– Mas se você estiver se divertindo, eu não ligaria em passar o dia todo apenas sentado aqui te observando – não planejava ser tão direto logo no início, deixou escapar mas não se arrependeu disso.. não quando viu o rosto de Abaddon ganhar um tom rosado bem levinho
– Mas… Por que? – tudo em FeBatista confundia o anjo caído
O mais velho deu duas batidinhas no espaço vago ao lado dele, chamando o castanho em um pedido silencioso para sentar-se ao seu lado para eles terem aquela conversa que Fe julgou ser um ótimo ponto de partida para onde queria chegar. Abaddon em um segundo o fez, rapidamente escalando os trilhos, se sentando e pondo o skate ao seu lado
Estar tão próximo dele assim o fazia sentir um frio na barriga estranho, era uma sensação extremamente familiar, mesmo sem nunca ter sentido isso antes, era quase um dejavu
– Porque eu me importo com você Abaddon.. e quero que esteja feliz – os olhos verdes o olhavam confusos enquanto ele dizia o que parecia ser outra língua de tão sem sentido que soou em sua mente
– Mas, por que? – repetiu em um tom mais claro – Por que você se importaria? – se ninguém se importava, por que ele seria diferente? Ele não queria mais apenas ficar quieto e aceitar esse interrogatório ou monólogo bizarro que eles tinham sobre a sua própria vida. Era a vez de Aba fazer algumas perguntas
– É difícil explicar… – olhou o horizonte, as águas do mar refletindo o brilho do sol – …Eu te conheço a tanto tempo que é difícil só não sentir nada – sorria de canto, mesmo que sua entonação fosse um tanto quanto triste
– Mas eu não… Como? – “essa conversa de novo?” passou pela sua cabeça, ele não pode controlar, mas uma vez, no mesmo ponto de novo e de novo. Eles realmente nunca se cansavam disso, mas Abaddon jurou a si mesmo que não deixaria acontecer novamente, eles não iriam o usar de novo, essa aqui seria apenas uma conversa, seja lá o que esse anjo estivesse tentando arrancar de si, ele não iria conseguir
– A sua vida não começou a 10 dias atrás – ditou o óbvio – Não pense que eu vou ser igual aos outros que apenas tentaram te forçar a responder algo que você não sabe… Eu só quero.. te ajudar a tentar entender um pouco mais do que tá acontecendo com você, tudo bem? – se explicou logo de uma vez para evitar estresse desnecessário, visto que Abaddon não parecia estar muito contente com esse papo, não queria que ele tivesse que passar por isso mais uma vez
– …Você sabe o que aconteceu? – franziu o cenho, sem saber se se sentia melhor em saber que ele não o forçaria a tal coisa, mesmo que não acreditasse muito em suas palavras, ou se se sentia desconfortável por ele saber mais da sua vida do que si próprio, coisa que não era difícil de se encontrar atualmente - ele realmente não queria mais falar sobre isso, era como uma repulsa trêmula por baixo de sua pele, mas algo na postura dele o dizia que não precisava ser assim. Todos sempre iguais, com mesma ideias, mesmo princípios, mas… Só mais uma chance, isso não vai matar ninguém, não é mesmo?
– Não exatamente.. mas eu sei quem você é, e não, eu não estou falando do Scott, eu to falando do Abaddon – se aproximou mais e tocou seu nariz descontraidamente, sorrindo ao vê-lo piscar surpreso após o toque inesperado, aliviando pelo menos um pouco o clima pesado que havia se formado. Sua aura leve irradiava ao seu redor, trazendo consigo uma nova percepção - ele era o único hostil e distante ali e não parecia certo incinerar as flores de um jardim tão lindo quanto esse. Pela primeira vez alguém parecia estar diretamente interessado em sua pessoa e não em quem ele “deveria” ser, porém, algo o fazia ter um pé atrás, talvez seja pela quantidade de vezes que tentaram arrancar isso de si, mas suas palavras pareciam vazias enquanto seu tom de voz era puro e genuíno, de alguma forma que ele não sabia explicar
Sua mente se sentia culpada em querer o afastar, mas seu corpo parecia já ter outros planos pra ele - pra eles
Já estava cansado de todo mundo apenas ir atrás de si para encontrar esse tal de Scott que todos sempre falavam. Esse não era ele, era essa pelo menos uma das poucas coisas que ele podia ter certeza
– Me falaram antes… algo parecido – desviou o olhar, também focado na água do mar que batia contra as pilastras dos trilhos do trem – Por que todos eles querem que eu seja o Scott?... Eu nem conheço esse cara… –
– …Você é um anjo, Abaddon – não havia outra forma de explicar que não fosse tão direta. Apenas soltou então – Mas não é como eu – baixou o olhar, pensando bem em quais palavras dizer – Quando foi criado, nosso criador queria que você fosse algo que você não era. Que gostasse de algo que você não gostava, e no fim… Ele fez com que você deixasse de ser um anjo por causa disso – se lembrava bem de como tudo aconteceu, se culpando até hoje em como Scott se machucou mentalmente e fisicamente, mesmo depois de já terem se perdoado
– Criador…? – se esforçava para tentar acompanhar – Esta falando de Deus? –
– Sim.. estou – concordou com a cabeça – Abaddon é um anjo.. ou era pelo menos, Scott é a versão de você que caiu dos céus – como um tique nervoso, o castanho, enquanto o ouvia, passou a cutucar e brincar com seus próprios dedos, puxando e arrancando algumas pelinhas – O Scott jurou pra Deus e o mundo que não voltaria a ser o que ele era antes.. mas por alguns motivo.. o Abaddon tá aqui agora –
Os olhos verdes miraram os azuis mais uma vez, começando a compreender um pouco, mas ainda tinha muitos pontos soltos que ele não sabia nem como questionar
– O Scott é…? –
– Você é o Scott… Ou melhor, o Scott é o Abaddon, mas o Abaddon não é o Scott… Eu imagino que seja por isso que você não se lembra das coisas – explicava com paciência, mesmo com medo de acabar dizendo o que não devia. Um erro, apenas um erro já seria o suficiente para o afastar. Esse já era a sua segunda chance, se ele errasse outra vez não haveria uma terceira - não conseguia deixar de se sentir nervoso em relação a isso
Permanecia com o olhar fixado no de cachos dourados, realmente focando toda a sua atenção no que ele dizia, mas sua expressão ainda era tão confusa. Parecia que um gatilho em sua mente precisava ser ativo para ele voltar a realidade, gatilho esse que os dois não faziam ideia do que poderia ser. FeBatista suspirou, e o olhou de volta quando percebeu que o olhar do anjo caído estava sobre si, não desistiu de o explicar e não iria desistir -isso já era algo bem claro em sua mente, não cometeria o mesmo erro duas vezes-, porém… tava tão difícil - em muitos sentidos, ele não tinha um norte para seguir. Olhou o sol no horizonte mais uma vez, que agora já começava a se pôr, pintando o céu em lindos tons de vermelho e rosa
A cor que Scott o ensinou a amar
– … Eu não tenho ideia do porque você voltou a ser o Abaddon assim tão do nada, muito menos porque você não se lembra das coisas… – baixou o olhar para as ondas que se chocavam contra os pilares que sustentam os trilhos do trem, produzindo um som agradável e nostálgico de quando foi a primeira vez a uma praia, pouco tempo depois que o Scott caiu, naquele dia, o ruivo o mostrou que em terras existem belezas muito preciosas e que deveria ser preservadas, belezas essas que ficam incrivelmente mais lindas diante a memórias queridas… Seus olhos se encheram de água ao reviver memórias tão vividas e importantes com o demônio, se lembrava até hoje de como era a sensação da areia em seus pés, da brisa suave e fresquinha que vinha do mar e da presença tão revigorante do anjo caído ali… Mas precisava focar no que estava acontecendo agora e não no que aconteceu a mais de 600 anos atrás – Me diz… – chamou baixo – …Você tem alguma ideia do que poderia fazer suas memórias voltarem? – chutou qualquer coisa. Estava cansado disso
– … Não, como eu… – se forçou a desviar o olhar também, olhando pra baixo, pras ondas, buscando o que o Fe estava olhando no momento. Ficou assustado, o que o deixou tão triste assim do nada? E mais uma vez, o cacheado fez seu coração apertar e bater errado, triste ao ver que ele estava triste, mesmo sem saber o motivo, mesmo sem o considerar um amigo – Como eu poderia saber…? – ditou por fim em um fio de voz
Queria poder fazer alguma coisa para ele se sentir melhor, algo dentro de seu corpo se remoía o deixando agitado. Antes que percebesse, seus próprios olhos começaram a lacrimejar, sabia que se não se segurasse, iria chorar como um bebê
O que aquilo tinha de tão importante para si?
Por que estava prestes a chorar agora?
Um suspiro embargado vazou por seus lábios quando sentiu sua mão tocar a do mais alto que estava apoiada no chão, no espaço vago que havia entre eles. Seu corpo inteiro se arrepiou ali, não teve coragem para se afastar, até porquê o que ele realmente queria era se aproximar ainda mais mesmo que tentasse conter isso e fingir que não era verdade
Mas e se ele o visse assim? Quase chorando por um motivo que ele nem saberia dizer qual era…. Como um bebe chorão
Sentiu vergonha pela primeira vez
Vergonha de si mesmo
Vergonha de algo que nem aconteceu
– Aba..? – sua voz soou baixa e… preocupada? Agora, em vez de se arrepiar, seu corpo todo travou no lugar
Ele viu. Ele está vendo
Mas por quê a ideia dele o achar frágil o deixa tão… triste? perdido? Ele não tinha palavras para descrever
– O que foi? – o loiro perguntou mais uma vez, não entendendo o motivo dele ter acabado de ver a primeira lágrima descer dos olhos esverdeados, olhos esses que eram inocentes demais para carregar todo esse peso e dor com eles – Porque você está chorando? – poucas delas continuaram a escorrer por seu rosto que ainda sim, continuava a ter uma expressão neutra demais para o que tava acontecendo, ele não parecia triste nem irritado -
Apenas… quebrado
Era claro, óbvio, havia muitas partes faltando ali. Seja lá quem fez isso, o quebrou em pedaços e espalhou os cacos por aí, como se ele não passasse de algo insignificante e completamente descartável
Segurou sua mão, a trazendo para o seu colo, entrelaçando seus dedos e mais uma vez foi um toque que mexeu com o coração de Abaddon, cada vez o deixando mais e mais perto de algo inevitável
Seus dedos acariciaram com gentileza e carinho a mão que estava arranhada e machucada em alguns pontos, não era nenhum ferimento grave, apenas mais alguns dos arranhões que o anjo caído arrumava por aí ou acabava provocando em si mesmo, sendo proposital ou não. Mesmo não sendo nada sério, Fe beijaria cada um deles e colocaria curativos em cada um deles mesmo sem nenhuma necessidade, apenas para ter a absoluta certeza de que aquelas mãozinhas ficariam bem mais um vez
Não queria ter que o ver assim, doía mais do que achava que iria doer
O castanho apertou forte o tecido de seu short, tentando parar de chorar, tentando focar no mínimo carinho que recebia, carinho esse que mesmo sendo pequeno, o fez perceber que ele não precisava mais tentar segurar tudo isso só para si e se conter dentro de sua própria mente. Ele não precisava apenas obedecer a essa consciência fantasmagórica em seu corpo, ele não iria ficar sentado nessa jaula sem nem ao menos tentar sair
Praticamente se jogou no mais alto em um impulso inconsciente, apertando sua mão e apoiando a cabeça em seu ombro
FeBatista não se surpreendeu, talvez seja por já o conhecer a séculos, já conhecer seu jeito de pensar, cada canto daquele corpo e -principalmente- seu jeito de agir, independente de como estava agora seu estado espiritual, ou seja lá o que seja essa mudança na cabeça dele, ele ainda era ele mesmo. Então continuou quieto, o acolhendo silenciosamente, o permitindo chorar o quanto quisesse, se era isso que ele precisava, seria isso que iria o oferecer
Silêncio e compreensão
Nem Scott nem Abaddon gostavam de ouvir opiniões alheias sobre seus problemas, serem pressionados a dizer o que há dentro de suas mentes, dentro de seus corações, umas das poucas coisas que eles tinham em comum, o loiro presenciou isso inúmeras vezes, desde problemas sérios, até pequenas complicações do dia a dia, viu com seus próprios olhos
Então apenas ficaram ali por um tempo, observando o pôr do sol em um silêncio que ocasionalmente era interrompido pelas fungadas vindas do menor que, mesmo após tudo isso, tentava se manter inabalável
Um pouco mais de tempo pra pensar, pra entender o que de fato acontecia em sua mente
Mas parecia tudo confuso demais ao seu ver
Tinha breves memórias de quando foi tomado pela escuridão, a mesma da qual acordou no campo de lavandas, mas nada ia para muito além disso e não via como isso poderia ser relevante para resolver seus problemas de agora
…Mas foi estranho
Seja lá quem ele era, com certeza não se importava com sua existência, e Abaddon se questionava seriamente se ele realmente tinha conhecimento sobre tudo o que falou
Era surreal demais pra ser verdade
Preferiu não pensar muito sobre isso. Ninguém sabia que aquilo havia acontecido, então optou por deixar que tais acontecimentos morressem em suas memórias
Pela primeira vez, se sentiu realmente confortável em algum lugar, não querendo desmerecer a casa de Carrasqueira e do quarto que ele de esforçou pra deixar ajeitadinho e aconchegante apenas para que Abaddon pudesse morar ali, entretanto, o que estava sentindo agora era um outro tipo de conforto
Se apoiava em Fe como se eles se conhecessem a anos, o que era verdade, entretanto, essa não era a perspectiva diante dos olhos verdes
Abaddon ainda não sabia se deveria confiar tanto assim naquele anjo, entretanto seu subconsciente parecia já ter tomado aquela decisão por ele, visto que estava tão bem ali, praticamente caindo no colo do loiro… Mas não conseguia deixar de se sentir inseguro em querer tanto ficar perto dele, parecia que só assim ele conseguia sentir algo além daquele vazio absoluto
Era como se houvesse duas pessoas dentro de sua cabeça batalhando incessantemente
Entretanto, este momento em que estavam juntos foi -de certa forma- interrompido quando ouviram o barulho da warpstone ao ser usada por alguém no spawn, como esperado, aquele lugar era bem movimentado
– Não tem problema, você pode usar meu pijama – a voz de Myn sou de longe. Abaddon se desencostou, olhando pra trás, -a direção de onde a voz vinha- mesmo que a estação do trem impedisse que ele visse a garota e que a garota o visse
– Tudo bem, então, se não tiver problema – Kaory a respondeu, aparentemente indo dormir na casa da rosada
Alguns segundos se passaram e novamente o barulho da warpstone foi ouvido e em seguida o de um silêncio reconfortante, indicando que as garotas foram embora dali
– Aba.. – a voz calma o chamou baixinho, não querendo o espantar, visto que o menor mudou consideravelmente de postura após a chegada das meninas no local. Ele olhou para o loiro – Já está ficando tarde… – o sol estava quase terminando de se pôr, logo alguns postes e luzes começaram a se acender por toda a cidade, mas o anjo ainda queria continuar em sua companhia – …A gente pode ir pra minha casa… Só se você quiser, é claro, posso te acompanhar até a casa do Carrasqueira também… –
– Hum… Pode ser - aceitou sua proposta com indiferença (como sempre), mas no fundo ele realmente queria ficar mais com o loiro
Se levantaram em silêncio, um silêncio que não era muito agradável, porém também não era hostil. Os dois sabiam muito bem que tinham muito o que conversar, mas nenhum deles sabia como começar tal assunto tão íntimo assim
Fe reuniu sua coragem e em um pensamento intrusivo segurou a mão de Abaddon, que olhou para o toque, apesar disso, não falou nada e não se afastou, apenas deixou o maior o guiar de mãos dadas até o teleporte correto para chegar em sua residência
