Actions

Work Header

Dessa vez

Chapter 2: Fica

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Eu passei a levar atividades para fazer na tenda de edredom. Baralho de cartas, um livro, papel e giz de cera. A maior parte das coisas eu fazia sozinha, para passar o tempo. Outras vezes, eu me senti à vontade de ler um livro para Jax, ou de mostrar algum desenho idiota. Continuei contando fofoca como se estivéssemos em uma festa do pijama e tivéssemos treze anos. Eu e Jax passamos mais tempo juntos naqueles dias que antes de ele abstrair. Eu reclamei disso algumas vezes para ele também, e acreditei que ele reagiu quando rolou alguns dos olhos e se afastou para o outro canto da tenda.

Às vezes, eu o acompanhei até o aquário para que não ficasse preso o tempo todo na tenda. Claro, Zooble me ajudou, sozinha eu não teria conseguido. E reconheço que todas as vezes em que ele nadava ao meu redor por dentro do aquário, meus olhos manifestavam uma ternura quase preocupante. Digo preocupante porque, algumas vezes, me perguntaram se eu queria conversar sobre ele. A verdade é que eu só conseguia conversar sobre ele com a Ragatha.

Ragatha falava sobre como era antes, quando eles eram mais próximos. Eu escutava. Às vezes eu também falava. Não era muito. Não tinha muito o que falar. Mas, às vezes, eu precisava contar a minha saudade para ela antes que eu tentasse despejá-la nele e ele a transformasse em culpa.

Eu parei de conversar sobre ele com pesar depois de alguns dias, não sei quantos. De início, pensei que fosse paranoia minha, mas eu podia jurar que ele estava… menor. Literalmente menor. No dia seguinte, não notei diferença significante, mas continuei visitando e cantando até ele dormir. Um tempo depois, eu achei que ele estivesse ainda menor.

Dias foram passando e ele parecia cada vez menor. Meu peito não sabia se desdobrava-se de alívio ou de receio. No início, os outros discordaram do avanço dele, mas chegou a um ponto em que negar era impossível.

A gente precisou se esforçar muito para não fazer disso um alvoroço. O alívio, o receio e o medo passaram por todos nós, seja qual fosse o motivo, seja qual fosse a intensidade. Mas, em mim, tudo se anunciava através da ansiedade e do aguardo.

Quanto menor ele parecia, mais interativo também pareciam estar. Em algum momento, o formato dele até mesmo se assemelhou com o de um coelho, com orelhas cheias de polígonos pontiagudos e olhos. E, apesar de tudo, quanto mais consciente ele parecia, mais idiota também parecia. Quando eu tentei cantar Daisy Bell para ele dormir uma vez, chegou a me dar um coice, o que fez a gente tentar se destruir no soco, obrigando o Caim vir separar a gente e desfazer o glitch em mim. Eu devia sentir raiva, mas tudo o que eu consegui sentir foi felicidade, rindo o tempo inteiro, arrancando risadinhas de quem tivesse vindo nos separar também.

E as coisas continuaram assim até que eu passei no quarto dele e peguei um dos livros que ele talvez nunca tivesse lido. Segui para o nosso castelinho de roupa de cama e entrei com uma lanterninha de luz baixa. Por um momento, tive dificuldade de encontrá-lo, mas logo percebi a respiração movimentando um amontoado de lençóis. Sentei logo ao lado e abri o livro.

— Olha, eu sei que você odeia quando eu leio, mas eu fiquei curiosa com esse aqui da sua estante. Talvez seja legal a gente ler junto, não é?

Nenhuma resposta, como esperado.

— Ótimo, que bom que concordamos.

Eu li algumas páginas, talvez dois capítulos no máximo, antes de ouvir um ruído por debaixo dos lençóis. Parei a leitura imediatamente.

— Jax? — mas ele não respondeu.

Tentei continuar lendo, mas duas páginas depois, o barulho soou mais alto, como uma reclamação.

— Hmm — aquilo não pareceu o ruído de abstração. Pareceu uma voz.

Derrubei o livro e o movimento debaixo do edredom deu um espasmo e parou. Devagar, eu me aproximei e me desfiz de coberta por coberta. O meu corpo reagiu antes da mente, fazendo brotar lágrimas dos meus olhos e me aproximar.

— Jax? — eu o chamei.

Seu corpo não estava coberto de olhos. Sua pele era coberta de pelinhos ralos e cor de lavanda, ainda que estivesse pálido e houvessem restos poligonais o manchando aqui ou ali.

— Jax! — o chamei de novo.

Encolhido no chão, ele murmurou mais uma vez, como se estivesse com dor de cabeça ao levantar de manhã depois de dormir tempo demais.

Num impulso impensado, pousei a mão nas suas costas cobertas pelo macacão cor de salmão. Imediatamente, ele se virou para mim, com os olhos abertos e pulsando em diversas cores diferentes, com a expressão assustada de quem não sabia onde estava.

— Jax, tá tudo bem — eu tentei dizer suave — Tá tudo bem, você tá comigo agora.

Seu rosto se contorceu em dúvida e receio, passando o foco de mim para as próprias mãos, as quais eu gentilmente segurei, o fazendo alcançar mais uma vez os meus olhos.

— Tá tudo bem — insisti — Fica comigo. Dessa vez, fica comigo.

Eu me aproximei devagar, deixando tempo de ele se afastar se quisesse. E talvez ele quisesse, mas não fez isso. Nem mesmo quando meu rosto tocou o seu peito e meus braços envolveram o corpo seu magrelo. A respiração dele era alta e acelerada, o corpo tremia e ele parecia que ia quebrar a qualquer segundo.

Não apertei o abraço, apenas o mantive, o aguardando como havia feito em todas aquelas semanas. Todos aqueles meses. E eu aguardaria por mais quantos anos fossem precisos.

Minhas mãos faziam carinho em suas costas, subindo e descendo. Meu rosto aqueceu com as lágrimas insistindo em cair contra o meu consentimento. Aos poucos, ele foi se acalmando, até que parou de se mover. Ficamos os dois parados por alguns segundos e, quando eu ia me afastar para ver se ele estava bem, foi quando seus braços me apertaram de volta com uma força que eu desconheci.

— Idiota — sua voz soou quebrada.

Eu ri e me forcei contra o seu abraço para alcançar seus olhos com os meus. As cores não mais se alternavam. O amarelo, ainda que pálido, estabilizou em um olhar que não sabia se me julgava ou me chamava. Talvez estivesse fazendo os dois.

— Idiota é você — eu ri fraquinho, levando as mãos às suas bochechas, cravando meus olhos nos seus, depois em seus lábios —, seu otário.

E por algum acesso, eu o puxei até que sua boca colasse na minha. Eu não saberia dizer se ele estava muito frio ou muito quente, mas as mãos dele seguraram com uma delicadeza incomum na minha cintura assim que devolveu o beijo, amolecendo e soltando o ar que ele talvez nem soubesse que segurava contra a minha pele. O contato não foi tão longo, mas teria durado um pouco mais se a voz de Ragatha não tivesse invadido a tenda, chamando pelo meu nome em uma pergunta que eu nunca sequer ouvi.

Nossos olhos a seguiram e ela travou no meio de um passo, sem saber se corria para longe ou para perto. As lágrimas brotaram antes de conseguir decidir, o rosto se desmanchou em um choro avermelhado e soluçado em segundos. Aos poucos, as pernas dela se aproximaram arrastando-se pelo chão felpudo e se dobraram de joelhos à nossa frente.

Soluçou algumas vezes antes de socar sem força alguma o ombro de Jax, do que ele não reclamou com mais de um desviar de olhos. Socou de novo e mais uma vez antes de puxar a nós dois para um abraço, que ele não conseguiu devolver com algo além de encostar o rosto no ombro dela.

Aquele dia foi uma sequência de sustos e choro e grito e briga. Até mesmo Jax chorou quando Zooble e Gangle o receberam… depois de alguns gritos.

Nada foi exatamente fácil a partir dali. Nada nunca tinha sido fácil. Mas, naquele dia, ele dormiu no quarto dele. E, no dia seguinte, eu abri a minha porta sem medo de ver a dele.

Notes:

Eu precisava urgentemente de um respiro, um carinho na alma, eu tô morando na fanfic de que esse arrombadinho volta.

Notes:

A Goose conseguiu, ela criou um desenho que acabou com a minha vida, parabéns pra ela, que orgulho!