Chapter Text
— Você tem as chaves de casa? Não sei a que horas eu chego hoje.
— Sim.
— Seus documentos? Celular?
— Na minha bolsa.
Lorena suspira e passa as mãos pelo cabelo. — Você trouxe a marmita que eu preparei?
— Está aqui, meu amor — Eduarda sorri, encantada com o nervosismo da namorada. — Se quiser, pode me acompanhar até a delegacia.
— Posso? Sério?
Boquiaberta, tendo dito aquilo só de brincadeira, Eduarda pisca devagar.
Oito meses depois de ter levado um tiro, ela finalmente recebeu sinal verde para voltar ao trabalho. Não nas mesmas condições, é claro. Mas depois das últimas semanas de consultas com a hepatologista e o nefrologista, e após uma série de testes psicológicos, os médicos da saúde ocupacional revisaram toda a documentação e emitiram o parecer.
Eduarda Fragoso, detetive da Polícia Civil da delegacia de Aclimação, é considerada apta para se reintegrar à instituição em funções administrativas.
Como resultado, hoje é seu primeiro dia de volta ao trabalho depois de mais de meio ano sem sequer se aproximar do perímetro da delegacia. Algo que, se lhe perguntassem, foi por ordem de seus superiores. Mas se estivesse obrigada, sob juramento, a dizer a verdade, teria que admitir que foi por causa da manipulação quase extorsiva de Paulinho e do delegado.
— Se... se você quiser, amor.
Não é preciso dizer mais nada.
Lorena encontra uma vaga para estacionar o carro e acompanha Eduarda até a delegacia, como se fosse sua babá.
Gostaria de dizer que é ela quem guia Lorena, mas isso seria uma falácia. A namorada segura sua mão com força, como se temesse que Eduarda pudesse fugir dela a qualquer momento. O que não vai acontecer. Mas, mesmo assim, Eduarda permite. Porque desde que a junta médica se reuniu e ela recebeu o e-mail comunicando que podia voltar ao trabalho como detetive – mesmo com todas as restrições que isso significa, presa à sua mesa sem poder participar dos operativos –, a morena tem andado tão inquieta que sua angústia, como um espectro, a persegue até debaixo dos lençois.
E isso Eduarda sabe não porque Lorena tenha confessado seu desconforto, mas graças aos anos de observação que deram à ruiva o privilégio de se autoproclamar especialista em decifrar o porquê de cada uma das formas como o humor de Lorena se manifesta. Seja felicidade, seja tristeza, seja raiva ou, neste caso, seja uma preocupação que cala fundo até os ossos.
Olhares curiosos seguem o casal enquanto percorrem os corredores que levam ao escritório de Eduarda. Uma miríade de rostos cujos olhos transmitem a pena coletiva que ela sabe que seus colegas sentem por ela. Um tipo de compaixão que, mesmo gentil, já não é mais necessária.
Sem um ponto de apoio e se sentindo um pouco insegura com a incerteza de seu retorno, Eduarda mantém o olhar fixo no chão. Deixando que Lorena seja sua bússola temporária. É por isso que a invade uma surpresa genuína ao ver um cartaz de boas-vindas pendurado atrás de sua mesa, e seu melhor amigo com um canhão de confete nas mãos.
— Quando quiser, querido — o delegado Jairo diz antes de dar um tapinha nas costas de Paulinho.
— Peraí, chefe — ele responde, tentando fazer o confete explodir. Sem sucesso. — Acho que travou.
Eduarda estica o braço. — Me dá isso aqui.
Paulinho puxa o confete de volta. — Tá maluca? Nem ferrando. É meu.
—- Relaxa, Stingy.
— Paulinho, para de passar vergonha — o delegado intervém. — Dá o confete pra menina.
— Se quebrar, a culpa é sua, hein.
Incrédulo, ele entrega o canhão de confete a ela, que o faz funcionar com um rápido movimento de pulso. Tiras de papel crepom colorido flutuam no ar. Elas rodopiam e vão perdendo força aos poucos, descendo devagar, como cinzas depois de um incêndio.
Paulinho resmunga. — Eu já tinha afrouxado.
— Aham.
— Sério! Tô com esse negócio na mão há 20 minutos, Juquinha. Já estava meio aberto quando você tirou de mim.
— Ou seja, você está dizendo que eu não consigo fazer nada sozinha e preciso da ajuda de outra pessoa? — ela arqueia uma sobrancelha, tentando provocá-lo. — É isso? Acha que eu sou muito fraca.
— Eu não disse isso! Chefe... chefe, fala pra ela que eu nunca disse isso — Paulinho agita os braços, parecendo agitado.
Seu chefe suspira e cobre o rosto com as duas mãos. Acostumado como está com as brigas infantis dos dois, apenas balança a cabeça e se volta para Lorena com evidente constrangimento.
— Vai ter que me desculpar, meu anjinho. Esses dois esquecem que já passaram do ensino médio. E, pior ainda, que são adultos profissionais.
Covinhas se formam nas bochechas de Lorena quando um sorriso desponta em seus lábios. Apesar das desculpas do delegado, ela apoia o queixo no ombro de Eduarda.
— Já conheço os dois, então tudo bem. Sei que criar duas crianças dá trabalho.
Por mais que Lorena não possa vê-la, Eduarda faz um biquinho dramático. — Ai, amor...
Paulinho ri. — Até sua namorada sabe que você é um pé no saco.
Com cuidado para não incomodar a morena, Eduarda dá um soco no ombro do melhor amigo. — Você tá no mesmo pacote, seu idiota.
Não espera que ele responda. Em vez disso, se solta com cuidado do abraço da namorada e caminha em passos discretos até sua cadeira.
Sua mesa está exatamente como ela a deixou, bem antes de ir para a Chacrinha naquela noite fatídica. Nem um único grão de poeira à vista. Seu punhado de canetas coloridas no suporte, ao lado da garrafa vermelha de vidro. E, por último, seu distintivo – cujo dourado brilha como se tivesse sido polido.
É realmente bom estar de volta.
Este é o seu propósito. Este é o sonho pelo qual tanto lutou. Estas quatro paredes cheias de prateleiras enferrujadas e processos por arquivar são o espaço que ela batizou como seu lar. E, de coração, Eduarda se alegra de que a vida tenha lhe dado uma nova chance de voltar.
As rodinhas da cadeira rangem pelo atrito com o chão, e ela se vira para ver seu chefe, seu melhor amigo e sua namorada com os olhos cravados nela.
Jairo sorri. — É bom ter você de volta, meu coração.
— Mas vocês só vão me ter aqui meio período — ela suspira. — Pelo menos por enquanto. Acho que ter levado o abdômen cheio de chumbo colocou uma etiqueta na minha testa dizendo frágil, manusear com cuidado.
— Quinze minutos da sua presença já bastam pra deixar todo mundo daqui querendo pedir transferência.
— Olha só, Paulo Reitz, você não vai–
— Ele tem razão, não tem? — Lorena intervém, parecendo um anjo enquanto crava uma faca em suas costas. — Você é craque em tirar alguém do sério em segundos.
Com a ardência da traição latente no peito, Eduarda cruza os braços.
— Que isso, meu amor? Como você fala uma coisa dessas da mulher que te ama e te adora?
— Eu te conheço, Eduarda Fragoso — a namorada diz enquanto se aproxima dela. A ruiva coloca uma mão em sua cintura, e Lorena se inclina para lhe dar um beijo na cabeça. — Posso confiar que a senhorita não vai arrumar confusão e vai voltar pra casa sã e salva?
Ela se envergonha um pouco ao ver que seu chefe e seu colega de trabalho assistem em primeira fila como Lorena manda nela. Mas isso não impede que um sorriso bobo ilumine seu rosto no mesmo instante em que assente, obedecendo à vontade da namorada.
— Claro que pode, minha vida — ela sussurra, e seu sorriso se alarga quando Lorena segura seu queixo e pressiona os lábios contra sua bochecha. — Te vejo mais tarde, no nosso lar.
Quando a porta se fecha atrás de Lorena e restam apenas os três na sala, Paulinho se vira para olhá-la com os olhos brilhando de vontade de zombar dela.
O silêncio dura exatamente dois segundos.
— Pode, minha vida.
— Paulo.
— E ainda tem a audácia de me chamar de pau mandado.
— Cala a boca ou vou fazer questão de garantir que o próximo detetive a tirar licença médica por tentativa de homicídio seja você.
O caminho até a casa de praia dos pais dela é tão familiar e tranquilo quanto sempre foi ao longo de toda a sua vida.
Lorena se ofereceu para dirigir, ciente de que é à noite que os sentidos de Eduarda começam a ficar turvos por causa dos poucos remédios que ela ainda toma. E assim, ela olha para a frente durante todo o trajeto. As fileiras de árvores que margeiam a estrada à medida que começam a descida rumo a Angra dos Reis. A ausência de carros a essas horas da noite. O ar quente e salgado que entra pelas janelas entreabertas e balança seus cabelos.
Todos esses são presságios do começo de um ótimo fim de semana.
E, apesar de já estar animada com a ideia de passar uma noite a sós com Lorena na casa da praia, ela mal pode esperar que Maggye, Gerluce e Viviane cheguem para dar início de verdade à despedida de solteira.
Lorena e Eduarda chegam à casa sem grande alvoroço. Com as pálpebras pesadas e os corpos dormentes, elas descem do carro para sentir a brisa costeira grudar na pele fria.
Como a dama que é, a sua namorada pede a Eduarda que se afaste enquanto tira a bagagem do porta-malas e pega as chaves na bolsa.
Eduarda enfia um dedo nos passadores da calça de Lorena, acompanhando seu ritmo.
— Amor, você sabe que eu não vou morrer se carregar uma mala, né?
— Eu sei — Lorena responde e se vira para trancar a porta. — Mas você é minha princesa, e eu vou te tratar como tal.
Cativada pelo brilho dos olhos verdes de Lorena, ela sorri e balança a cabeça, cedendo a todos os desejos da namorada.
— Tudo bem.
— Quer fazer alguma coisa antes de dormir?
O canto de seu lábio se ergue num sorriso travesso. — Tipo o quê?
Lorena revira os olhos. — Sei lá, mulher canalha. Ler um livro ou dar um mergulho na piscina.
— Melhor não, amor. Você ficou o dia todo na faculdade, deve estar exausta.
— Tô... mas...
— Mas nada. A gente vai ter amanhã, depois de amanhã e, se tudo der certo, a vida inteira pra aproveitar. Então, se você quer dormir, vamos dormir.
Lorena segura seu rosto com as duas mãos e a beija. Um beijo que a faz se sentir como se fosse feita de areia, desmanchando aos poucos sob o toque da namorada.
Quando se afastam, Lorena roça o nariz no dela. — Me espera no nosso quarto, tá? Vou beber água.
Eduarda suspira, rendida. — Tá bom. Mas não demora
Quando Lorena sai do banheiro depois de tomar um banho rápido, Eduarda já está na cama, recostada contra a cabeceira. A ruiva a observa com a precisão de um falcão enquanto a namorada deixa a toalha cair para vestir a calcinha e uma camiseta velha de algodão que provavelmente pegou no armário de Eduarda enquanto arrumava as malas.
Do conforto do colchão, Eduarda aprecia como a luz dourada e suave repousa sobre os ombros de Lorena. Uma entidade etérea cuja divindade Eduarda quer alcançar – não para possuí-la, mas para se agarrar a ela e assim nunca ser rejeitada por ser uma mera mortal.
Nunca acreditou muito na ideia de que a possibilidade de voltar ao Jardim do Éden fosse definida pelas boas ações praticadas em vida. Ainda assim, o anjo diante dela faz com que Eduarda não queira fazer outra coisa além do bem, apenas para que possam dividir o céu quando este mundo já não existir para elas.
A pele pálida de Lorena parece macia enquanto engatinha sobre o colchão até chegar a Eduarda. E o aroma natural de Lorena faz sua boca salivar quando a namorada se senta em seu colo, com cada uma de suas pernas longas envolvendo sua cintura.
— Oi.
— Oi, minha vida — Lorena murmura, aproximando o nariz do pulso dela para sentir seu cheiro. — Já tomou os remédios?
— Tomei.
— Então vamos dormir?
Eduarda dá um tapinha de leve em sua bunda. — Vamos.
No entanto, ao que parece, Lorena não tem a menor intenção de deixar o reino dos sonhos levá-la ainda. Ela apoia a bochecha no ombro de Eduarda e suspira enquanto suas unhas percorrem a pele das costas dela por baixo da camiseta.
— Estou tão animada com o casamento da Maggye — Lorena admite baixinho.
O calor de suas palavras bate contra o pescoço de Eduarda, arrepiando cada centímetro de sua pele.
— Eles estão juntos desde que eu conheço a Maggye, e agora vão virar marido e mulher e... — o jeito como ela suspira é permeado de anseio — é tão bonito ver o quanto eles se amam, não acha?
Eduarda não consegue ver o rosto da namorada, mas a conhece o suficiente para saber que, se olhasse em seus olhos, encontraria os cílios longos e escuros batendo devagar. Ou o verde de seus olhos ainda mais claro por causa das lágrimas de felicidade.
— Acho.
— Eu quero tudo isso, sabe? Quero me casar com o amor da minha vida e ser feliz para sempre.
Uma risadinha escapa de Eduarda. — É mesmo? E quem é o amor da sua vida?
Lorena a encara com um sorriso ainda mais radiante que o dela.
— Tem uma mulher com o cabelo da cor das chamas, da cor do céu no pôr do sol. Ela tem uns olhos grandes e castanhos, como os de Bambi, e um sorriso tão bonito que poderia fazer até o diabo se apaixonar por ela — Lorena diz. — O único problema é que ela é tão baixinha que às vezes é difícil de achar. Mas sim, esse é o amor da minha vida. Minha princesa. Meu sol. Meu coração inteiro. Você a conhece?
Tentando não rir mais ainda, ela morde o lábio e finge que está pensando. — Acho que não a conheço, mas parece a sua mulher ideal.
— Ela é.
— E se essa mulher te dissesse agora mesmo pra você se vestir, pra vocês duas irem ao cartório e se casarem imediatamente?
— Eu diria que essa mulher sempre teve o poder de me convencer — Lorena põe as mãos em seu rosto para cobri-lo de beijos —, mas eu quero me casar de vestido, com buquê e uma cerimônia com as pessoas que a gente ama. Quero que todo mundo saiba que você é só minha.
Ela não tem certeza se o tremor em suas mãos se deve aos imunossupressores ou ao desejo quase visceral que sente pela mulher em cima dela. Seja como for, seus dedos tremem ao deslizar pelas costelas de Lorena, para cima e para baixo. As duas tremem. As duas respiram com dificuldade.
— Eu faço o que você quiser — sua voz já soa rouca enquanto deixa um rastro de beijos ao longo da mandíbula de Lorena. Depois, prende delicadamente o lóbulo de sua orelha entre os dentes. O fogo lambe suas entranhas quando um gemido escapa dos lábios da namorada. — A gente ainda está encontrando nosso equilíbrio e se redescobrindo, tanto como pessoas quanto como casal. Mas eu quero que você saiba que é isso que eu quero, Lorena. Eu me casaria com você sem pensar duas vezes. Não existe nada que eu deseje mais do que ser a sua esposa. Vale a pena esperar a vida inteira por você.
O sorriso de Lorena é tão sincero que faz o peito de Eduarda apertar com todo o amor que guarda ali dentro.
Para provocá-la, a morena passa a língua pela borda do lábio antes de beijá-la. — Já sei, meu amor.
É uma recompensa quase divina quando Lorena segura a barra da camiseta e a tira, revelando-se diante do olhar afortunado de Eduarda. Ela é tão linda, em todos os sentidos. A curva da cintura, os contornos do abdômen, o peito corado enquanto arqueja.
Eduarda treme com uma fome mal contida, uma das mãos cravada em um punhado de cabelo escuro e a outra pressionada contra a curva da cintura de Lorena, como se tivesse medo de que o momento acabasse se saísse do lugar; nessas condições, é impossível esperar que ela resista aos seus instintos primitivos. Uma de suas mãos sobe e o polegar roça o mamilo da namorada. O fôlego de Lorena falha diante da intenção clara. Após alguns segundos, o tom descontraído se dissipa para dar lugar ao desejo real – a alegria some de seus olhos verdes, cedendo espaço àquele fogo concentrado que enlouquece Eduarda.
Com total intenção, ela faz de novo, mais devagar, delineando com a ponta dos dedos os bicos que vão endurecendo lentamente, prendendo os mamilos no V de seus dedos e os girando de um jeito que faz Lorena gemer.
Diante de um beliscão um pouco mais forte, Lorena balança os quadris por instinto, e Eduarda consegue sentir o calor contra seu abdômen mesmo através da barreira da calcinha.
A sua namorada geme, com a respiração presa na garganta. Eduarda deixa um beijo em seu ombro nu, raspa os dentes contra o ângulo delicado da clavícula e do peito, e então envolve um mamilo ereto com os lábios antes de forçar os joelhos dela para separá-los ainda mais. E embora não dê para ver, o quarto está silencioso o suficiente para que as duas escutem o quão molhada Lorena já está enquanto abre as pernas.
— Você sempre fica assim, né?
Eduarda suspira ao redor do mamilo molhado de saliva, enquanto uma das mãos deixa o seu lugar para deslizar em direção à pélvis dela. Com dois dedos cuidadosos, afasta a calcinha preta de Lorena e abre sua intimidade, revelando o botão úmido de seu clitóris. Suas coxas começam a tremer de antecipação. E quando Lorena finalmente se abre para receber seus dedos, é de forma lenta e deliberada. É tão excitante vê-la cavalgar sua mão que Eduarda fica sem palavras. Tudo o que consegue fazer é pressionar para a frente, em silêncio, mas persistente, e foder Lorena até os músculos do braço arderem pelo esforço e o som da cama balançando roçar o perigo.
Fazer amor parece exatamente como em Londres. Mas, ao mesmo tempo, é algo completamente diferente. Ambas estão mais maduras, mais em sintonia com seus corpos e com o que lhes dá prazer do que antes. E assim, Eduarda toca o corpo de Lorena como um maestro regeria sua orquestra. Toca os lugares certos, morde nos momentos exatos e a beija profundamente quando Lorena parece prestes a desmoronar.
É a música delas que ecoa na intimidade do quarto, e ela se alegra por serem as únicas ali. Sente ciúmes só de pensar que outra pessoa pudesse ouvir os sons manhosos e roucos que a namorada solta enquanto ela lhe dá prazer.
— Não para… por favor, não para.
— Não vou parar — ela sussurra contra a pele do pescoço dela, dando leve mordidas. — Você é tão linda, meu amor. Você é tão linda e está tão molhada.
Mergulhada no prazer, deixando marcas com as unhas nas costas de Eduarda, Lorena joga a cabeça para trás, subindo e descendo nos dedos da namorada.
— Puta que pariu, Duda, amo sentir você dentro de mim. Você… nossa, você me faz sentir tão bem. Mas eu quero mais, amor… preciso de mais.
Eduarda não precisa perguntar o que Lorena quer. Ela sente, ela vê; o desejo é potente e viciante. Consegue sentir o pulsar do clitóris de Lorena refletido no seu próprio, o formigamento na parte interna da coxa pela antecipação, os fios de necessidade, amor e uma excitação aguda, quase dolorosa. Ali, ela empurra um terceiro dedo dentro dela, que é engolido rapidamente por suas paredes. De imediato, a morena se aperta ao redor dela e crava os dentes em seu ombro com tanta força que ela sabe que, ao amanhecer, ali florescerá uma marca.
Eduarda ama momentos assim. O êxtase de tudo isso – saber que a paixão entre elas ainda arde com o mesmo fulgor de outrora. Saber que só ela tem o privilégio de ver Lorena desse jeito. Nua, faminta, despida de qualquer pudor enquanto se desfaz por inteiro. Por isso faz da própria vida uma missão, a de descobrir tudo o que as faz bem, uma à outra, para beber até a última gota dessa jornada.
Não demora muito até que os gemidos de Lorena subam de tom, um sinal de aviso de que ela está perto. E Eduarda sente o prazer de Lorena percorrê-la como um eco agradável, estremecendo enquanto o deleite corre por ela, redobrando seus esforços até que sua namorada tremule em seus braços e implore por libertação.
— Vai — arqueja Eduarda contra o peito dela, deixando o mamilo de Lorena deslizar para fora de sua boca para poder morder a pele macia ao lado dele. — Goza todinha em mim, Lorena, por favor, quero ficar encharcada de você.
É uma onda que arrebenta do nada, e ela geme seu orgasmo na boca de Eduarda enquanto goza em uma enxurrada no colo da namorada. Uma coisinha selvagem enquanto Eduarda a guia através das réplicas, sussurra palavras doces em sua têmpora e esfrega suas dobrinhas até que a morena se acenda de novo.
É celestial, decide Eduarda no período suave logo após o segundo orgasmo de Lorena, com a morena sentada de frente no seu colo e agarrada aos seus ombros. Lorena fica macia e vulnerável desse jeito, nua e respirando fundo contra o ombro de Eduarda, parecendo acolher a mão livre de Eduarda que desenha formas em sua pele, enquanto a outra continua enterrada a três dedos de profundidade dentro dela. Lorena não parece disposta a abrir mão daqueles dedos, apertando-se quando Eduarda começa a retirá-los, então elas ficam onde estão por mais um tempo. Conectadas e completas.
Não tem certeza de quanto tempo passa até que Lorena recupere os cinco sentidos, mas a confirmação vem quando a namorada se move para sair de cima dela. No entanto, não vai muito longe porque Eduarda a segura para mantê-la no lugar.
Eduarda sorri ao ver como Lorena, evidentemente, recupera o fôlego que estava segurando.
— É injusto que, além de ser gostosa, engraçada e incrivelmente detalhista, você também seja tão boa em me fazer gozar.
Ela não consegue evitar o riso. — Fico feliz em ter ajudado.
Lorena roça o nariz pelo maxilar dela, antes de morder seu queixo. — Agora é a minha vez.
A ruiva balança a cabeça. — Você não precisa fazer isso.
— Eu quero. Eu preciso. Acho que se eu não te comer agora mesmo, eu vou enlouquecer.
Depois de ouvir essas palavras, Eduarda se sente tão excitada que é impossível ignorar o quanto precisa disso, por mais que não consiga se mover o suficiente para pedir ela mesma. Está úmida, inchada e latejando depois que a namorada gozou em cima dela, e a umidade entre suas pernas fica mais evidente quando Lorena a incentiva a se deitar nos travesseiros, esticada contra o colchão.
Ela deixa Lorena despi-la lentamente, tirando o pijama de seda peça por peça até deixá-la nua. Da cabeça aos pés. Em silêncio, ao ver Lorena morder o lábio enquanto a observa, Eduarda aperta o punho para evitar suplicar que a toque.
Lorena acena para si mesma, satisfeita com o que vê. — Gostosa pro caralho. E só minha, de mais ninguém.
A confiança inebriante que a namorada irradia enquanto se inclina sobre ela faz com que abra as pernas o máximo que é humanamente possível, mesmo sem a ajuda de Lorena. Cada centímetro do seu corpo está exposto, e Lorena absorve tudo como se fosse o predador e Eduarda, sua presa disposta.
Começa com beijos úmidos por todo o peito, mordiscando com cuidado a pele de seus seios firmes. Depois, beija ao redor das cicatrizes de seu abdômen definido com uma devoção que contrasta com o caráter hedonista do momento. Quando Lorena chega ao umbigo de Eduarda, a ruiva está prestes a explodir, e a morena passa a língua pela pele sensível entre os ossos do quadril de Eduarda para celebrar seu sucesso.
Lorena desce ainda mais até sua boca se mover pela coxa de Eduarda, até roçar o nariz na dobrinha úmida onde a coxa se une à sua intimidade. Os dedos dos pés de Eduarda se encolhem, olhando para Lorena com uma espécie de admiração.
— Porra — murmura Eduarda, e então a boca de Lorena está em seu clitóris.
Lorena não começa com suavidade e, diante da primeira pressão insistente, o quadril de Eduarda dá um solavanco tão forte que Lorena precisa empurrá-lo para baixo com o antebraço. A força disso é quase tão inebriante quanto a própria sensação, e Eduarda não tem outra escolha a não ser gemer e cravar o calcanhar nas costas de Lorena, com uma das mãos agarrada ao cabelo macio dela.
Eduarda aperta os dentes. — Coloca os dedos dentro de mim.
— Assim? — murmura a morena, afundando o dedo não muito fundo nela para provocá-la.
Seu quadril começa a seguir a língua de Lorena, de forma vaga no início e depois se elevando com mais intenção, e sua mão livre passa de agarrar os lençois a flutuar com incerteza na parte de trás da cabeça de Lorena. Antes que Eduarda possa duvidar de si mesma, Lorena a segura e a puxa para o lugar, focando cada neurônio que não está perdido em seu sexo para demonstrar o quanto a deseja.
Eduarda entende o recado. Seus dedos se apertam no cabelo preto e, com uma confiança renovada, eleva o quadril enquanto puxa firmemente o cabelo de Lorena ao mesmo tempo. Lorena geme sem vergonha contra seu clitóris, amando quando a namorada é um pouco rude.
— Meu amor… — geme.
Seus olhos estão abertos, o olhar fixo no rosto de Lorena em vez de jogar a cabeça para trás enquanto ela a lambe com entusiasmo, e Lorena faz questão de dar um pequeno espetáculo. Passa a língua para cima de um jeito que faz os olhos de Eduarda se arregalarem, terminando com um beijo suave em seu clitóris, garantindo que Eduarda possa ver a umidade que cobre a metade inferior do seu rosto.
Lorena, lenta e minuciosamente, descobre pontos fracos que Eduarda nem sabia que tinha. Nunca tinha tido isso, nunca tinha conhecido alguém tão entregue na busca pelo prazer mútuo, alguém que se importasse tanto em fazê-la se sentir bem a ponto de esquecer o mundo inteiro só para se concentrar adequadamente na tarefa em questão.
A boca de Lorena está ocupada, mas a dela não, e seus gritos são tão desenfreados quanto o movimento de seu quadril. Eduarda está tão perto. Prestes a gozar com a namorada entre as pernas. E, se conhece Lorena minimamente, sabe que ela vai querer saborear até a última gota.
Quer durar mais do que está durando. Quer que essa nova e requintada sensação se prolongue para sempre, ficar nesse limbo erótico até que uma delas ou as duas morram de prazer. Mas a língua de Lorena volta a trabalhar em seu clitóris bem no momento em que ela tira o polegar e o substitui por dois dedos, levando-a até um limite que ela não sabia que tinha; e a sensação, ao colidir com a realização de um conceito em que vem pensando há anos e a doce e ardente emoção de fazer algo tão primitivo, chocam-se e se misturam até que ela vê luzes brancas atrás das pálpebras, e goza irremediavelmente contra o rosto de Lorena e sobre seus dedos.
Depois que Lorena termina de limpá-la com a língua, dá uma mordida brincalhona na carne da parte interna da coxa, fazendo Eduarda soltar um suspiro. Lorena se levanta com um sorriso preguiçoso, os olhos verdes brilhando, e a beija profundamente, fazendo-a provar a si mesma em seus lábios.
Enquanto estão ali deitadas na cama, emaranhadas nos lençois enquanto a pele suada seca rapidamente sob o ar-condicionado, Eduarda envolve Lorena em seus braços e beija a nuca dela. Então, a namorada parece se dar conta de algo.
— Ainda bem que você disse que a gente só ia dormir, né?
— Você não pode subir em cima de mim vestindo só calcinha e uma das minhas camisas e esperar que eu não faça nada — Eduarda brinca. — Não dá. Eu sou uma mulher de carne e osso.
Lorena ri enquanto afasta o rosto dela com um empurrão. — Meu Deus, cala a boca e dorme. Amanhã as meninas chegam cedo, e o fim de semana vai ser longo.
Eduarda aproveita o empurrão para roubar um beijo rápido antes de se deixar cair outra vez no travesseiro. Ela fecha os olhos, mas não sem antes entrelaçar os dedos aos da namorada.
— Seus desejos são ordens, mulher.
— Assim que eu gosto.
Quando o celular começa a vibrar em cima da mesa de cabeceira, Eduarda já está acordada. Mesmo assim, ainda permanece naquele limbo entre o cansaço provocado pelo êxtase de uma transa logo cedo e o estado de vigília completo.
— Amor — Lorena resmunga ao seu lado, respirando rápido e ainda com a voz rouca —, desliga isso.
Com os olhos ainda pesados de sono, Eduarda se vira para encarar as costas nuas da namorada. O lençol cobre só uma parte dos quadris dela, e Eduarda não resiste à tentação de dar um beijo no ombro antes de pegar o celular.
— Fala logo, criatura — ela responde de mau humor, sem nem olhar quem está ligando.
Só existe uma pessoa no mundo inteiro capaz de ser inoportuna em níveis estratosféricos.
— Bom dia pra você também, Juquinha — Paulinho responde. — Por que você tá com essa voz toda ofegante? Tava malhando?
Eduarda ri e afunda o rosto no travesseiro, sentindo as mãos de Lorena acariciando suas costas. — Pode-se dizer que sim. Tava fazendo um cardio.
— Uma hora dessas? São seis da manhã.
— Nem são seis da manhã, e ainda assim você achou que era uma boa ideia me ligar? — ela retruca. — Tô com a Lorena.
— Ah... ahhh, entendi. A sua... a sua médica já liberou você pra... cê sabe...
— Já faz oito meses. E, de qualquer jeito, eu não vou ficar falando da minha vida sexual com você, Paulinho.
O amigo solta um bufido de indignação. — Eu não tô perguntando da sua vida sexual! Tô perguntando do seu quadro clínico.
— Você já conhece meu quadro clínico. O resto não é da sua conta.
Lorena, que até um minuto atrás estava meio dormindo e de costas pra ela, agora está enroscada em Eduarda feito uma jiboia. As pernas dela estão entrelaçadas com as suas, um braço sobre a barriga dela e a cabeça apoiada no seu peito.
Eduarda dá um beijo na cabeça dela.
— Se você acabou de transar e ainda tá desse jeito, toda estressada, então você tá fazendo alguma coisa muito errada. Acorda, menina.
— Opa! — A gargalhada que escapa da garganta dela ecoa pelo quarto. — Tá querendo ensinar padre a rezar missa agora? Me poupe. O que você quer?
— Minha mulher já chegou?
— Ainda não, ela chega ao meio-dia. Por que você não pergunta direto pra sua esposa?
O tom de melancolia na voz dele quase dá pra sentir pelo viva-voz. — Porque ela me proibiu de ligar pra ela nos próximos três dias.
— Deve ter um motivo, não acha? — Eduarda resmunga. — Tchau, Paulinho. Você já tá estragando meu fim de semana de garotas.
— Você tem sorte de poder ficar com a Lorena. Porque cê sabe que, se tirarem ela de você, cê não dura uma semana.
— Uma semana? Tá me superestimando. Eu não aguento nem dois dias. Beijo, meu bem.
Ela desliga sem mais delongas.
Não está disposta a admitir que poderia passar horas e horas fofocando com o melhor amigo e nunca se cansaria. Mas por enquanto, tem coisas mais importantes em que se concentrar. Como, por exemplo, a deusa de cabelos pretos e olhos verdes deitada ao seu lado.
É exatamente aí que estão suas prioridades.
A pedido de Maggye, sua despedida de solteira é, na verdade, uma comemoração bem tranquila.
Elas já tinham combinado de sair pra farra no fim de semana anterior. Então, depois de passar o dia enrolando entre as ondas e brincando na areia, jantaram sem pressa e agora só restam elas cinco sentadas – Maggye, Viviane e Gerluce cada uma numa cadeira de praia, enquanto Lorena e Eduarda dividem uma só – ao redor da piscina, cuja superfície brilha como se tivesse pedaços de sol presos nela.
Com exceção dela e da namorada, que ficam numa zona segura tomando gole de água com gás e rodelas de limão, as bebidas não param de rolar. Caipirinha de lichia, mojito e uma mistura âmbar de aparência curiosa que Viviane aprendeu a fazer com o Leonardo.
Não falta muito pro sol se pôr; o céu se tinge de um tom rosado enquanto se divide entre o dia e a noite. E a brisa do mar que chega até elas começou a esfriar. Não o suficiente pra incomodar, mas o bastante pra se notar.
— Oi, meu amor, tá com frio? — Lorena pergunta ao reparar que a pele dela está arrepiada.
Eduarda balança a cabeça. — Tô bem.
A namorada franze a testa, mais que disposta a andar sobre brasas descalça se ela pedisse. — Tem certeza? Quer que eu pegue um casaco ou uma manta pra você?
— Eu só preciso de você.
Sem pensar duas vezes, a ruiva segura o rosto dela e dá um beijo demorado. Depois, volta a puxar o fio da conversa que estava tendo com Gerluce, sua maior profeta em assuntos matrimoniais.
— Sabe... — Eduarda dá um gole na bebida antes de continuar —, seu marido não parou de me ligar o dia inteiro. Acho que o coitado já tá com síndrome de abstinência de você.
Gerluce cai na risada. — Ai, para... Eu amo aquele homem, mas esse fim de semana é sagrado. É só das meninas. E, pelo amor de Deus, você não precisa atender toda vez que ele liga, meu anjo.
— Fala isso pra ele! Ele acha que, se eu demoro cinco minutos pra responder, a gente morreu.
Lorena dá uma risadinha e faz carinho na parte de dentro do pulso de Eduarda.
— Conta outra, amor. A Duda fala como se atender o Paulinho fosse um martírio, mas a verdade é que, se ele ligou dez vezes hoje… — ela faz uma pausa dramática — ...a Duda atendeu onze.
Desanimada por ter sido flagrada e dedurada pela própria namorada, Eduarda abaixa o olhar. Fica meio sem graça ao perceber com que facilidade Lorena consegue ler nas entrelinhas dela.
Maggye balança o dedo na direção de Lorena, como quem dá razão a ela. — Sou testemunha disso.
— A cada dia que passa, a teoria da Gerluce de que existe um cordão umbilical ligando esses dois faz mais sentido — diz Viviane. — Não faz, irmã?
Ao perceber que as amigas a encurralaram, não sobra outra opção a não ser confessar a verdade para defender sua honra.
— Gente, eu tenho responsabilidade, tá? Eu preciso saber onde meus colegas estão e o que eles estão fazendo. Vai que acontece alguma coisa e eu fico aqui, igual uma trouxa, sem saber de nada?
— Juquinha, você sabe que ele também tá de folga esse fim de semana. — Gerluce encosta a mão na bochecha dela, com aquele carinho de quem já conhece todas as manias dela. O afeto que sente pela melhor amiga do marido fica estampado nos olhos castanhos. — E, sinceramente? A coisa mais perigosa perto dele é a nossa filha de dez anos pedindo pra ele brincar de alguma coisa.
Gerluce sorri.
Eduarda sorri.
— Mas eu acho tão bonitinho o quanto você se preocupa com ele... Ai, meus filhos. A amizade de vocês é muito linda. Mesmo que vocês passem metade do tempo se alfinetando.
— Eu não me alfineto com ninguém. Eu apenas apresento argumentos perfeitamente racionais. O Paulinho, por outro lado...
— Tá vendo? — Lorena interrompe, rindo, enquanto a abraça por trás e deposita um beijo na têmpora dela. — Dois irmãos separados no nascimento.
— Ah, tá bom, tá bom. Já deu. — Eduarda sente as orelhas esquentarem e dá um beliscão de leve no antebraço da namorada. — Eu vim aqui defender a honra da delegacia dos apaixonados. E vou defender, sim. Se precisar, eu vou até o fim.
O jeito entrecortado que a risada de Viviane sai é prova de quantas taças elas já tomaram. E Eduarda morde o lábio para segurar o sorriso que ameaça se formar.
Ela sabe que é exatamente assim que a paz deve soar, parecer e ser sentida. E, mesmo assim...
É difícil.
Para falar a verdade, tem sido bem complicado fazer as pazes com a realidade de ter ficado à beira da morte. Já faz tanto tempo desde o acidente e, mesmo assim, ela ainda está longe de ser quem era antes. Se é que um dia vai voltar a ser aquela versão de si mesma. Mas ela está em paz com isso. Porque, afinal, sua metamorfose a encontrou no momento certo.
E em noites como essa, quando a família que ela escolheu por conta própria se reveza para tirar sarro dela, Eduarda se enche de motivação suficiente para alimentar suas esperanças sobre o futuro. Só pra se manter ancorada na realidade.
Se a transmutação não a alcançou na forma da morte, então vai encontrá-la através do amor.
— Então vamos mudar de assunto — Viviane diz.
Eduarda bate palmas. — Por mim, tudo bem.
— Vamos falar da caçulinha do grupo — Viviane olha para Maggye. — Daqui a menos de uma semana ela vai virar esposa de alguém.
Na hora, ela sente um nó se formar na garganta e os olhos começarem a arder.
— Ah, não — Eduarda reclama com a voz embargada. — Vocês combinaram de me fazer chorar hoje. Esse assunto é muito sensível pra mim.
— Duda, todo assunto é delicado pra você — Maggye murmura, como quem fala com uma criancinha.
— Mas, meu Deus, gente... minha menina se casando. Eu conheci ela quando ainda usava aparelho.
Lorena pigarreia. — Peraí… você usou aparelho?
— Eu? Nunca. Tô falando da Maggye. Meu sorriso sempre foi perfeito.
— Gente! Vamos brindar à Maggye — Gerluce ergue a taça, já pela metade. — Um brinde à Maggye. À nossa amiga e ao amor dela. Que o casamento de vocês seja cheio de amor, paz e felicidade.
— E que venham muitos bebezinhos, porque um filho seu com o Júnior vai ser a coisa mais linda desse mundo — Lorena sorri, completamente encantada só de imaginar pequenos seres humanos tão delicados quanto cristal. Depois olha para Eduarda. — Não vai, amor?
Maggye ri. — Lorena, você vai fazer a Duda ter um treco.
— Escuta aqui, Maggye Damatta... — Eduarda aponta um dedo para ela, fazendo todo mundo rir antes mesmo de terminar a frase. — Você ainda é praticamente uma criança. Não dá ouvidos pra minha namorada.
— Pode deixar.
Lorena levanta a própria taça.
— Então... um brinde à Maggye, ao amor... e ao futuro que, tomara, todos nós possamos continuar compartilhando juntos.
— Saúde!
— Por que esse sorriso todo? — Eduarda pergunta assim que se senta ao lado de Lorena para jantar.
O rosto da namorada está iluminado com um amor fraternal que Eduarda não está acostumada a ver com frequência. Muito menos nos últimos anos. Mas o carinho esculpido nas feições de Lorena tem o brilho de um farol.
A morena põe a mão na coxa dela e se inclina para frente, deixando Eduarda ver a tela do celular.
— Lembra que eu te falei que, graças à Gerluce, ultimamente eu tenho ficado em contato com a avó do Raúl?
— Dona Josefa?
— Ela mesma — Lorena responde. — O Raúl começou a aula de tênis faz pouco tempo e ela acabou de me mandar um vídeo e... olha só.
O vídeo está mal gravado, isso é óbvio. Está desfocado e um pouco fora do enquadramento. Mas bem no centro há um adolescente de braços e pernas compridos demais para o próprio corpo e passos desajeitados, segurando a raquete como se ela fosse um colete salva-vidas.
Aos 13 anos, Raúl já é um garoto alto. Provavelmente destinado a alcançar a mesma altura do irmão mais velho. E quando ele se aproxima da câmera com um sorriso orgulhoso depois de acertar um dropshot, a semelhança com Lorena faz o estômago de Eduarda se revirar.
Uma dor aperta seu coração, exigindo atenção.
Já faz anos desde a última vez que ela viu o irmão mais novo de Lorena – que naquela época era só o priminho dela –, e agora sua respiração falha ao enxergá-lo sob uma nova perspectiva.
Saber que nas veias desse menino – com covinhas fundas, o sorriso torto, olhos verdes como esmeraldas, cabelo escuro e um ar de inocência que Eduarda, em toda a vida, só encontrou em Lorena – corre o mesmo sangue que corre nas veias da namorada, vai despedaçando seu coração pouco a pouco. Como pedras se corroendo sob o sal e a maré de um oceano.
Raúl é, em poucas palavras, a encarnação de como Eduarda imagina que Lorena era muitos anos antes de as duas se conhecerem. Antes de tudo. Ele parece cheio de vida, cheio de bondade apesar dos horrores que viveu em tão poucos anos. E uma onda de raiva se instala bem no centro do peito dela, como o calor no núcleo de uma estrela.
Porque essa é a vida que roubaram da namorada dela.
Aquela inocência nos olhos de Raúl é a mesma que Santiago arrancou de Lorena numa idade dolorosamente precoce.
Só de pensar nos tantos anos em que Lorena foi obrigada a carregar aquilo sozinha, acreditando que tinha destruído a infância daquele menino de forma irreparável, que tinha arruinado a vida do próprio irmão da mesma maneira que o pai deles havia arruinado a deles, Eduarda sente náuseas.
Mas, ao mesmo tempo, ela está tão cheia de amor que não tem certeza se consegue conter tudo isso dentro do corpo. É demais, o suficiente pra encher a Terra mil vezes e ainda sobrar um pouco em suas mãos.
Essa mulher aqui, que parece ter encontrado um tesouro enquanto encara a tela do celular, é a mulher de bom coração que Eduarda mais ama em todo o universo. Essa é a alma, abundante de pureza, que se sacrificou por inteiro para que ninguém mais se machucasse no raio de ação das agressões de Santiago. E hoje, nesse exato momento, mais do que nunca, ela conta com a convicção e a vontade de fazer o certo por Lorena. Com a obrigação de acordar todo dia e dedicar todo o sangue, suor e lágrimas para construir o futuro que a melhor amiga merece.
É o mínimo que ela pode fazer. Depois de tudo que Lorena fez por ela.
— Parece que tem dois pés esquerdos — Eduarda sorri. — Mas com tempo e prática, acho que temos um bom futuro tenista nas mãos.
Os olhos de Lorena se fecham quando ela sorri, e Eduarda a ama tanto que a única forma de mostrar isso é com um beijo na ponta do nariz.
Completamente encantada enquanto a observa, é Lorena quem agora passa a ponta do dedo pela ponte do nariz dela.
— Você acha?
— Tenho certeza — Eduarda responde. Então, os dedos dela se enroscam na corrente de prata que pende do pescoço da namorada. Do amor da sua vida. — Amor... se você quiser, só se você quiser e se sentir confortável, um dia a gente podia levar o Raúl pra jogar tênis no clube. Acho que seu sogro ia adorar ter um adversário à altura dele.
Aos poucos, Lorena busca o olhar dela. O verde contra o marrom. A delicadeza das folhas contra a solidez da terra.
Lorena está de boca aberta, mas as palavras não saem. E a ruiva está prestes a voltar atrás, certa de que interpretou tudo errado e, por isso, se excedeu. Mas a mão da namorada acaricia a lateral do pescoço dela e o polegar faz pequenas massagens circulares na linha do maxilar.
— Você faria isso por mim?
— Eu faria tudo por você, Lorena. E só você pedir.
Lorena olha rapidamente pros lábios dela e sorri. — Então eu vou te pedir pra sempre ser essa mulher carinhosa, leal e respeitosa que você é. Não só comigo, mas com todo mundo. Vou te pedir que toda manhã, quando a gente acordar juntas, você me lembre o quanto me ama, e–
— Eu te amo — ela não consegue evitar interrompê-la.
A atração gravitacional entre elas é inegável. E quando a namorada finalmente se inclina para dar um beijo delicado, os lábios dela formigam e uma descarga elétrica percorre todo o corpo. Da cabeça aos pés.
— Eu também te amo, minha vida.
A felicidade nos olhos dela é quase palpável.
Eduarda tem certeza de que seus próprios olhos refletem a mesma coisa.
— E, por último, eu vou pedir que você me permita te amar pelo resto das nossas vidas. Topa?
— Fechado.
