Chapter Text
缘分 ou yuánfèn (mandarim) - O destino entre duas pessoas. Descreve a crença de que os relacionamentos são predestinados. Essa palavra é frequentemente usada para expressar a ideia de uma conexão especial, destinada a acontecer, mesmo que não permaneça.
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Hinata levantou os olhos para encarar a mulher parada a porta. Ela já a havia visto andando pelo seu departamento antes, ouvindo o som do seu salto contra o piso do chão. Ela era elegante, sempre maquiada, devidamente alinhada com roupas de caimento perfeito a seu corpo. A Hyuuga tinha dificuldade em se lembrar do nome dela, porém sabia que ela era uma das supervisoras. Ouviu dizer, pelos corredores, que ela era uma ex-ninja de Kumogakure, que ajudou a sua nação a se restabelecer após a grande guerra.
A Hyuuga não se lembrava dela na guerra. Mas sabia que sua memória não era de confiança devido as suas fugas mentais de sua realidade. Naquele momento a mulher passava por entre as salas, observando as tarefas de todos. Senhor Ono, chefe da repartição acompanhava a mulher. Seus cabelos escuros, presos em um rabo de cavalo, destacavam-se em seu rosto de pele levemente bronzeada. Assim que ouviu o barulho do salto se aproximar de sua sala, Hinata se levantou, caminhando até porta. Ao abri-la, percebeu que os outros funcionários já se encontravam no corredor, dando boas-vindas a mulher.
Seus olhos se encontraram. Viu um pequeno sorriso surgir no rosto da mulher ao encará-la. Hinata rapidamente a reverenciou.
- Senhora Aikyo, essa é-
- Hyuuga. – A mulher respondeu o homem. Hinata sentiu um frio na espinha. Nunca lhe chamavam pelo sobrenome por ali.
Percebeu que Aikyo forçou um sorriso a ela e continuou caminhando. Um frio na espinha a deixou inquieta, enquanto ainda observava a mulher.
As reuniões gerais como aquela sempre lhe deixavam desconfortável. Estar trancada em sua sala minúscula, exercendo suas funções no automático, sempre lhe deixava de fora do mundo que acontecia pelos corredores. Obviamente existiam os comentários sobre ex-ninjas que apareciam por ali, sem contar a curiosidade de alguns civis sobre a vida ninja. Porém, por sorte do destino, ninguém lhe questionava, ou parecia curioso a seu respeito. Seu sobrenome era de conhecimento geral, mas nunca ouvira ninguém o falar alto. Hinata voltou os olhos a figura de Aikyo, que discursava para todos ali sentados e atentos.
- Inclusive, acho importante todos aqui reconhecerem o papel fundamental que a repartição exerce. – A mulher disse, andando de um lado para o outro. – Cada um de vocês aqui dentro é parte essencial para que a vida ninja, que rege tão bem nossa sociedade, melhorando nossa economia, turismo, nos trazendo modernidade, seja eficiente e completa.
Hinata olhou em volta, por um segundo, e encontrou colegas com cicatrizes visíveis. Alguns, sem alguma parte do corpo. Talvez aquele discurso fosse injusto com todos aqueles ali. Eles não eram o apoio da sociedade ninja. Eles eram a parte constituinte, que por motivos claros, tiveram que ser deixados de lado. Remexeu-se na cadeira, ainda mais desconfortável.
- Senhor Ono? – O homem se levantou da cadeira que ficava mais ao fundo. – Me permite a participação dos funcionários?
O Senhor Ono arrumou os óculos, sem entender muito bem o objetivo da morena. Concordou em seguida, forçando um sorriso.
- Hinata Hyuuga, pode se levantar, por favor?
Sentiu seu sangue gelar. Seus olhos se abriram, em susto, e ela olhou em volta para ver se realmente aquilo era real. Ao seu lado percebeu colegas a encarando, esperando alguma ação dela.
Suando frio Hinata se levantou e reverenciou a mulher, desajeitadamente.
- Você foi uma jounin, não foi?
A Hyuuga apenas concordou. Suas mãos já ficando úmidas.
- Acho que você, melhor que ninguém aqui, sabe como é a vida ninja, não é? Poderia dividir alguma coisa conosco?
Ela respirou fundo, puxando o ar pela boca. Sua respiração começava a ficar descompassada.
- D-Desculpe... Eu?
Voltara a gaguejar. Sentiu-se ainda mais patética.
- Claro. Você é de um dos maiores clãs de Konoha. – A mulher sorriu. – Possui um dos maiores kekkei genkais do mundo ninja, lutou na guerra ninja. Eu admiro o seu currículo.
- E-Eu... – Tentou respirar fundo, fechando os olhos. – Eu não sei se-
- Senhora Aikyo, não se incomode com isso, todos nós sabemos-
A morena se voltou ao Senhor Ono, que tentou intervir:
- Não é incômodo algum! Aliás, acho muito importante compartilharmos nossas experiências! Ainda mais de uma Hyuuga! Vamos Hinata, conte a todos como chegou até aqui.
Ela olhou em volta. Sentia uma porção de olhos a encarando. Queria ser engolida pelo chão debaixo dos seus pés, queria poder sumir instantaneamente. Não conseguiu disfarçar as lágrimas que enchiam seus olhos. Segurou-as, não deixando que descessem por seu rosto. Mas sabia que o nó em sua garganta era difícil de ignorar.
- E-Eu fui uma jounin. – Mordeu os lábios. – E... E eu...
Seus olhos encararam o Senhor Ono. O homem a olhou complacente, sem jeito. Ali Hinata soube que ele sabia de sua história. De onde viera, de como chegara ali. Talvez ele estivesse ouvindo seu coração bater tão forte, que era impossível ignorar. O homem parou ao lado da senhora Aikyo.
- Olha só a hora, nosso chá já está sendo servido em minha sala! – Ele sorriu. – Infelizmente temos que encerrar por aqui. Obrigado a todos por darem boas-vindas a senhora Aikyo, podem voltar a seus afazeres!
Conforme o local foi esvaziando, Hinata se encaminhou a passos rápidos para sua sala, trancando-a. Precisava acalmar sua própria respiração, seu nervosismo. Mais um dia em que se sentia uma fracassada. Lembrou-se da pasta em sua gaveta e chorou silenciosamente.
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O som de copos batendo sobre as mesas e as vozes paralelas não atrapalhava a conversa amistosa dos quatro que ocupavam uma mesa próxima a janela do restaurante. Ali estava Naruto, ao lado de Jun, e do outro lado estava Temari e Shikamaru. Entre goles de saquê e de outras bebidas variadas, os casais riam.
- Você é um chato, Shikamaru!
O moreno sorriu.
- Não, é você que é sem paciência. – O Nara sorriu, tomando um gole de sua bebida. – O cara só estava tentando explicar como funcionava o sistema dele. Por isso que eu nunca mais te levo nas visitas técnicas das provas chunnins.
- Tínhamos que verificar um monte de coisa e o cara não parava de enrolar! – Temari disse, olhando para Naruto e Jun. – Eu e ele já tínhamos entendido o sistema.
- Qual é, Temari. Você nunca foi conhecida por ser muito paciente.
Naruto falou e Jun se enroscou em seu braço.
- Eu estou de prova. Temari-sama é uma ótima parceira de trabalho, mas nada paciente!
- Tá bom, tá bom. Vamos mudar de assunto! – A loira disse, disfarçando um sorriso. Tomou um gole de sua bebida, mas logo voltou a falar. – Sabe quem eu encontrei hoje? Sakura e Ino. Estavam indo para o hospital. Shikamaru me contou do projeto da clínica infantil.
Naruto terminou de mastigar um sushi que estava na mesa.
- Nós estamos investindo nisso. Sakura é uma ótima médica.
- E Ino é ótima na psicologia. – Completou Shikamaru.
Jun se voltou a Naruto:
- É uma clínica para crianças apenas?
- Sim. É voltada a saúde mental das crianças.
- Uma ótima ideia! – Jun concordou.
- Sabe, apesar de me chamarem de impaciente hoje umas três vezes... – O resto do grupo riu. – Eu tenho consciência sobre muita coisa. Ainda mais no mundo ninja, sabemos o quanto precisamos fortalecer os jovens.
Shikamaru olhava sua noiva, admirado.
- Estamos pensando no futuro abrir uma clínica para adultos também. – Naruto tomou um gole de sua bebida. – Quem sabe.
O suspiro alto de Jun fez o Uzumaki encará-la.
- Adultos ninjas?
- Claro. – Shikamaru deu de ombros. – Para a população ninja no geral.
- Isso seria perda de recursos, qual é.
Naruto encarou sua namorada, sem entender.
- Perda de recursos? – Repetiu, tentando seguir sua lógica.
- Claro. – Ela umedeceu os próprios lábios. – Adultos ninjas são conscientes o suficiente sobre o pode acontecer em campo. Sobre perdas, traumas. Já deveriam entrar na vida ninja fortes o suficiente. Tanto fisicamente quanto emocionalmente.
- Muitos de nós só entendemos nossa capacidade depois de nos tornarmos ninjas.
Temari olhava para Jun, parecendo incrédula.
- Todo ninja tem que estar preparado.
- Mas nem sempre estamos. – Shikamaru apoiava os braços sobre a mesa, inclinando seu corpo, encarando a mais jovem. – Imprevistos acontecem no campo de batalha.
- Eu não falo de vocês. – Sorriu, de forma sarcástica. – Vocês estão na lista das pessoas mais fortes do país do fogo, praticamente. Eu falo daqueles que entram em batalha, aceitam ser ninjas e quando algo pode ser previsível em campo acontece, viram às costas a vida ninja no geral. – Ela gesticulou, dando de ombros. – Pessoas assim são fracas. Nunca sequer deveriam ter se tornado ninjas.
Naruto e Shikamaru trocaram olhares. O loiro se sentia extremamente desconfortável com o rumo daquela conversa.
- As coisas não acontecem assim, Jun. Nem tudo é previsível.
- Mortes não são previsíveis quando se é um ninja? – Ela perguntou olhando o Nara, tomando um gole de sua bebida. – Alguém que não se recupera disso é uma pessoa fraca, sem força alguma, que não serve para ser ninja.
Temari cruzou os braços.
- Você diz como se tivéssemos que corresponder uma receita de como é feito um bom ninja. Não é assim que funciona. Cada pessoa tem uma resposta diferente ao que acontece, e isso é o que nos faz humanos e também bons ninjas.
- Se é assim, por que existem exames chunnins, genins, jounins? Esses exames servem não para avaliar quem é bom e quem não é, mas sim para eliminar os fracos.
- Não é isso.
- Naruto, querido, você tem um coração bom demais. – A ironia no tom de Jun o incomodava. – Você é um exemplo disso. Saiu mais forte depois de tudo o que passou. É assim que um verdadeiro ninja deve responder a situações difíceis.
Shikamaru encarou o hokage. Por um instante teve a impressão que Jun não sabia nem um terço do que Naruto realmente havia passado.
- Você acha que eu não tenho traumas?
Todos na mesa ficaram em silêncio. A ruiva o olhou, parecendo surpresa por alguns segundos. Logo ela suspirou alto, sorrindo levemente.
- Se você teve soube superar.
- Não Jun, eu não disse que se eu tive. Eu disse se eu tenho. Tô falando do presente.
- Mas você é hokage-
- Independente de quem eu seja. Hokage, jounin, genin. – Virou sua cabeça para encarar Jun. – Eu tô imune a traumas?
- Se você tivesse tantos traumas assim, você não seria o hokage. Esse é meu ponto.
O silêncio voltou a mesa. Temari virou o restante de saquê em seu copo. Respirou fundo e ia começar uma nova frase – tentando a todo custo mudar de assunto – mas foi interrompida pela voz do Uzumaki.
- Bom, eu tenho uma porrada de traumas. E eu aposto que metade das pessoas que passaram pelo mesmo período que eu, também tem.
- Mas você não faz terapia alguma! – O tom de Jun era sarcástico. – Por que defende que isso seja investido a adultos?
- Você é quem diz que se as pessoas são traumatizadas elas não servem para ser ninjas. Eu defendo que se elas têm traumas, e querem tratar deles, elas podem muito bem fazer isso e continuar a ser ninjas.
Jun riu, mais uma vez.
- Eu não tô achando graça.
- Ah Naruto, eu duvido muito que você confiaria a sua vida a alguém com uma cabeça fraca.
- Cabeça fraca, Jun? – Agora era Temari quem falava. – Como você é capaz de dizer isso? Você tem ideia de quanta coisa horrível nós fomos expostos e estamos aqui de pé? Ter feridas, mágoas, cicatrizes sobre isso não deixa nenhum ninja de cabeça fraca.
Shikamaru encarou Jun.
- Essa sua ideia não faz sentido algum. Os maiores ninjas que conhecemos passaram por situações terríveis.
- Mas eles não tinham um centro de terapia. Tampouco tiveram chance de se afastar do caminho, do destino deles. – Ela olhava Temari e Shikamaru. – Agora se vocês investem em uma área dessa para adultos, já imaginaram a quantidade de ninjas com essa mesma desculpa para se afastarem das funções? E ainda sim quererem o prestígio em serem considerados ninjas! Pessoas assim deveriam se aposentar de uma vez e nunca mais voltarem a ser ninjas. – Ela encheu seu próprio copo. – Assim deixam de ser um fardo para o sistema ninja.
Todos ficaram incrédulos por um momento.
- Eu não tô acreditando que eu tô ouvindo isso.
- Querido-
- Isso é muito insensível da sua parte. Além de ser... – Naruto a encarou. – Ignorante.
A face surpresa de Jun não mudou a postura do loiro.
- Você está me chamando de ignorante?
- Não. Eu estou dizendo que essa opinião é ignorante. – Naruto tornou a virar seu corpo totalmente a ela, olhando-a furtivamente. – Ninjas não são um produto, uma fabricação. Você diz como se todos fossem iguais. E não são um fardo, isso é absurdo.
Jun o olhou, incomodada.
- Vamos mudar de assunto.
- Não, você vai me ouvir. – Sua feição era de incredulidade. – O meu trabalho é garantir o bem-estar dos ninjas, da população de Konoha. Se o bem-estar deles dependem de assistência, cabe ao meu gabinete cuidar disso. Eles dão a vida por esse lugar, é mínimo que eu faço!
- Naruto-
- O meu papel não é como o ninja mais forte para entrar em batalhas, mas para proteger Konoha! Que tipo de hokage eu seria se descartasse as pessoas assim, como você diz? E que prestígio tão grande é esse que se tem quando estão sofrendo?
A ruiva ficou em silêncio. Seus lábios de fecharam em uma linha dura.
- Eu não sei que beleza é essa que você vê em uma vida rodeada de sangue, morte, luta-
- Eu vejo o mesmo que você viu quando sonhou em ter essa vida, em ser hokage. Se é tão duro assim, por que você não abre mão?
Naruto ficou mudo. Seus olhos se desviaram para qualquer lugar que não fosse a face de Jun.
Queria dizer que seu sonho em ser hokage não era para ter prestígio.
Ele queria ser amado. Queria ser bem quisto. Queria proteger quem o amava, quem ele poderia amar. Entretanto, voltando os olhos a ela atenciosamente, quis guardar aquelas palavras para ele, apenas.
Os olhos azuis dele pareciam impassíveis. Tomou ar e seu tom era baixo.
- Para o que mais eu sirvo, Jun? Além de ser um ninja de alto padrão, que conquista mulheres bonitas e fortes como você?
De repente, nenhum som foi ouvido. Ninguém da mesa disse mais ou fez mais alguma coisa além de voltarem as suas bebidas.
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Queria sumir. Desejava que a terra sob teus pés a engolisse por completo. Queria poder desaparecer como um passe de mágica. Sua respiração era descompassada, como se o oxigênio ao seu redor houvesse dissipado. Hinata olhou as paredes de seu cubículo, olhou o teto, esperando que as lágrimas desaparecessem. Nada adiantava. O relógio já se aproximava das sete horas da noite. Em breve os seguranças fechariam a repartição. Sabia que tinha que sair dali.
Algumas batidas em sua porta a tiraram de seu torpor por alguns segundos.
- Senhorita? – Era uma voz masculina. – Está tudo bem? Precisamos trancar as salas-
- E-Está. – Hinata se levantou, exasperada. – Já estou saindo.
Alguns minutos depois ela saiu de sua sala, caminhando rapidamente para a saída sem olhar para trás. Sabia que querer se esconder do mundo, querer sumir não era a solução. Ela sabia tão bem que por diversas vezes fazia o possível para tentar se esquecer dessas ideias. Mas lá estava ela, caminhando rapidamente para nenhum lugar em específico, com esses pensamentos se repetindo, doendo em si.
Não podia ir para casa. Não queria. Olhou para os lados, entre as pessoas que sequer a notavam, e decidiu no lugar que sabia que seu choro não seria questionado.
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Enquanto caminhavam pelas ruas, Naruto não ousou dizer uma palavra. Ao seu lado Jun o acompanhava absorta em pensamentos. Ocasionalmente sentia os olhos dela encarando sua lateral. Já eram quase dez da noite, os comércios noturnos estavam funcionando normalmente. Uma ou outra pessoa cumprimentava o hokage ao se depararem com ele passeando pelo local. Ele retribuía o cumprimento com um sorriso aberto.
Jun pensava nas vezes que achava que conhecia seu namorado. Que julgava seu sorriso o mais sincero, aberto. No entanto, quando o sorriso surgia assim, facilmente no meio de uma noite caótica, ela se perguntava quantas vezes seu sorriso havia sido realmente sincero.
- Naruto.
Ele se virou a ela ao ouvir seu nome. Ambos pararam no caminho.
- O que acha de pararmos em alguma loja, comprarmos morangos, chocolates – A ruiva se aproximava dele, tocando em seu peito. – e irmos para o seu apartamento?
Ele soltou o ar com força. Os olhos dela tentavam o seduzir, em vão.
- Acho melhor deixarmos para outro dia.
Jun puxou sua mão para si.
- Você está chateado comigo.
- Não é isso. – Naruto olhou em volta por um momento. – Eu tô cansado, tive um dia cheio.
Jun esperou que ele disse mais alguma coisa, que se justificasse. Ele continuou mudo.
- Então vamos para o seu apartamento, descansar.
- Jun-
- Eu estou tentando consertar as coisas, você não tá vendo? – Ela falou impaciente. – Eu sei que machuquei você, mas você também me machucou.
Naruto franziu as sobrancelhas.
- Eu te machuquei?
- Você falou de mim como se eu fosse fútil.
O Uzumaki quis retrucar. Quis responder o que realmente pensava.
- Eu não te acho fútil. – Falou, soltando o ar de seus pulmões. – Eu falava de mim. De que eu... – Não queria mais falar naquele assunto. – Eu tenho muitas questões.
Jun umedeceu os lábios. Ambos estavam parados em uma esquina, sem tanto movimento. Ela pegou nas mãos dele, olhando-o de forma complacente.
- Você é o homem mais forte de todo o país de fogo.
Naruto tomou coragem. Talvez se tentasse falar seu coração ficasse mais leve.
- Jun... As coisas que eu passei foram... – Respirou fundo. – Foram uma merda. Será que... – Engoliu em seco. – Eu fico me perguntando se tudo valeu a pena.
Seu peito continuava pesado. Subitamente, o mundo parecia ter diminuído e ele se esquecera que estavam no meio da rua.
- Olha só para você. – Jun se aproximava, sorrindo levemente. – Você não teria chegado onde está se não fosse tudo o que passou.
O Uzumaki abriu os lábios levemente. Seu rosto se contorceu com as palavras de Jun. Não sabia muito bem o que esperava da réplica dela, mas sabia que não era aquilo que ele esperava ouvir. Aquelas palavras tampouco o acalmaram. Ele desviou os olhos dela, não conseguia proferir nada.
- Vamos para o apartamento?
O loiro apertou as mãos dela entre suas mãos.
- Você se incomoda se eu te acompanhar até o hotel e depois ir para casa? Eu preciso pensar, dormir.
Jun fingiu um sorriso, concordando. Os dois continuaram o caminho.
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O relógio marcava duas e trinta e sete da manhã. O sono parecia uma mera ideia, longe de ser concretizada. Seus olhos pousaram na xícara de chá que esfriava sobre a mesa, sua cabeça pesava. Naruto se levantou, indo até o armário de sua cozinha e tirou de lá um pacote de biscoitos amanteigados. Comeu alguns, fechou o pacote e voltou a se sentar no sofá.
Hoje ele não tomaria nenhuma pílula. Prometeu a si mesmo que pelo menos por aquela noite faria o possível para que o sono viesse de forma natural. Sentia o corpo, a mente, tudo em si cansado. Estava exausto. Imaginou o que o sono não demoraria, porém, ao ver as horas viu que estava enganado. Suspirou alto e voltou-se ao chá. O vento da noite parecia ter esfriado. Tomou um gole e seus olhos se voltaram para a janela.
“Pessoas assim deveriam se aposentar e deixar de serem ninjas de uma só vez.”
A conversa no restaurante, no caminho ao voltar para casa, se repetiam em sua mente. Jun não era uma pessoa ruim, tinha certeza disso. Era dura, cética em alguns aspectos, entretanto era forte e determinada. Ela não sabia da dimensão real da vida ninja, não como ele, Shikamaru, Sakura, Sasuke.
Não como Hinata. Pensou nela. Pensou, por um breve segundo, o que ela lhe diria da própria situação. Qual seria sua opinião se estivesse com ele no restaurante.
Olhou para o céu através da porta de correr que dava para sua varanda. Não achava Hinata fraca, nunca havia pensado isso sobre ela. Queria vê-la em sua melhor forma – como já havia visto – lutando, mostrando sua capacidade. Pensar nela tirava as ideias sobre ele mesmo. Nunca pensara em Hinata como alguém que deveria desistir. Sentiu seu coração descompassar.
Sem refletir muito sobre, levantou-se e foi para o meio de sua sala, sentando em posição de lótus. Suas pálpebras e seus olhos mudaram de cor, e em segundos ele localizou o chakra que procurava.
Franziu a testa. Algo estava errado. Ela estava no cemitério naquele momento. Seu chakra estava instável.
Abriu os olhos e, ainda em modo senin, vestiu sua blusa e os sapatos ninjas. Saiu em disparada pela porta sem pensar. Seus passos eram apressados.
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Hinata não sentia seus joelhos doerem encostados ao chão mesmo que estivesse apoiada sobre eles. Suas lágrimas inundavam seu rosto, mal podia enxergar o nome de Neji na lápide. Tudo doía, tudo pesava. Não conseguia respirar direito, não conseguia se mover.
Ela queria morrer. Queria tanto, tanto, sumir pelo ar da noite. Queria tanto que seu fracasso fosse como uma doença terminal, que a comesse por dentro e desse fim a si mesma. Que sua voz morresse como um sussurro, que fosse possível partir só para não sentir mais nada. O rosto de Aikyo veio à mente. Encheu-se de vergonha.
Como seria possível explicar o próprio fracasso?
As pessoas a sua volta sabiam que era fraca. Que seu sobrenome era apenas um enfeite, que seus olhos não prestavam mais. Por que ela precisava se explicar? Puxou o ar para seus pulmões. Desejava tanto poder trocar de lugar com Neji, desejava poder ter partido. Tinha certeza que ele brilharia como ninja, como um exemplo a ser seguido. Ele nunca seria um fardo como ela, escondido numa sala qualquer se prestando a um serviço qualquer.
Levantou, cambaleando, tentando recuperar o ar, inutilmente.
- Você nunca... – Disse, baixo, encarando o nome de seu primo. – Você nunca deixaria inocentes morrerem como eu deixei.
O choro vinha ainda mais forte dessa vez e suas pernas fraquejavam.
Ela não conseguia dizer mais nada, não conseguia se mover.
Queria morrer.
Queria sumir.
Queria estar enterrada no lugar de seu primo.
Suas mãos tremiam tanto, seu coração parecia pesar uma tonelada. Suas pernas não se moviam. Seus olhos embaçavam.
Repentinamente, achou que caiu no sono ou que sua mente estava tão confusa que começou a alucinar.
Não sentia mais seu corpo e também não mais sentia o ar frio da noite. Sentia apenas algo quente sob seu rosto, puxando-o para perto. Sentiu braços em volta de si, um circulando sua cintura, outro segurando sua cabeça, acariciando seus cabelos. Sentiu que suas lágrimas agora molhavam um tecido laranja, que ia contra sua face.
Sentiu o perfume dele, sentiu sua pele quente e ouviu sua voz dizer seu nome em um múrmuro distante.
Naruto abraçava seu corpo com força. A alucinação parecia real demais.
Hinata, com o corpo inerte, deixou seu rosto afundar no peito dele. Suas lágrimas caiam sem impedimento algum e assim percebeu que não era sua imaginação lhe pregando peças.
O abraço de Naruto era tão real, tão preciso, que seu choro só se fez aumentar.
