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𝗺𝗮𝗿é 𝗾𝘂𝗲𝗻𝘁𝗲, charlos lesainz

Chapter 5: ⸺ㅤ𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨𝐫𝐢𝐚 𝐚𝐧𝐭𝐢𝐠𝐮𝐚ㅤ﹫ㅤ02

Chapter Text


⡞⠳⣄⣀⣠⠞⢷

꒪ ㅤׅㅤ(✿◞◟) ㅤ˚ㅤSenti o amor todos os dias desde que te conheci.ㅤ ꕮㅤ

𝗖𝗮𝘀𝘀𝗶𝘀, Françaㅤ⸺ㅤ15

𝗖𝗮𝘀𝘀𝗶𝘀, Françaㅤ⸺ㅤ15 . 05 . 2024
(ㅤQuartaㅤׅㅤFeiraㅤ)

៶ㅤㅤㅤㅤㅤ๑ㅤㅤㅤㅤㅤㅤ⁺

O despertador tocou pela primeira vez às 6h15. Carlos já estava acordado ⸺ deitado de bruços, o rosto virado para o lado direito, o olhar preso na cadeira de madeira coberta por roupas ao lado do armário.

Uma luz sutil começava a invadir o quarto ⸺ lenta, preguiçosa. Era um aviso de que o sol estava nascendo.

O homem suspirou. Estava cansado, exausto ⸺ tanto física quanto mentalmente. Sabia que precisava sair de casa, pelo menos, às 8h30. Não deveria procrastinar ou desejar fundir-se aos lençóis. Não podia.

Os pés deslizaram vagarosamente para fora do colchão. Com um pequeno impulso, ergueu o corpo, sentando-se na beira da cama. Os cotovelos se apoiaram nas pernas, a cabeça caiu entre as mãos.

Milhares de pensamentos começaram, mais uma vez, a invadir sua mente.

E se ele não passasse na entrevista? E se não conseguisse aquele emprego? ⸺ Desistiria se não conseguisse? Não, certamente essa não era uma opção. Como ficaria Hector? Como ajudaria em casa? Ele precisava de conseguir; necessitava.

Aquilo era um problema. Naquele momento, tudo era.

Ergueu a cabeça lentamente, os olhos se fixaram no guarda-roupa à frente. Inclinou o corpo suavemente, as pernas flexionaram. Levantou-se com esforço.

Caminhou devagar em direção ao armário; os dedos tocaram a madeira. Por breves momentos, não fez nada, apenas ficou ali, encarando o móvel.

Passados cerca de 40 segundos, abriu ambas as portas. Uma vasta quantidade de peças de roupa surgiu. A cor azul destacando-se entre as demais.

As mãos começaram a deslizar pelos trajes suspensos, e ele mergulhou novamente em uma linha dúbia de pensamentos.

Deveria ir com uma roupa mais formal? Ou seria forçado demais? Talvez fosse melhor ir com algo mais leve, assim como no dia anterior. Mas, e se perdesse aquela chance graças à vestimenta? Não poderia arriscar.

O movimento parou assim que encostou na borda de uma camisa social de linho verde oliva; uma das poucas que tinha naquela cor. Parecia uma boa opção.

O olhar desceu para a parte inferior do armário, procurando por uma calça adequada. As bootcut brancas chamaram a sua atenção imediatamente.

Bom. Confortável. Não é muito exagerado, mas também não é muito simples. Perfeito.

Retirou as peças e fechou as portas. Se abaixou; abriu uma das gavetas mais pequenas e escolheu uma cueca boxer branca. Pegou as roupas e seguiu para o banheiro.

Acendeu a luz, entrou e encostou a porta. O ar gélido abraçou-o. Desta vez, não olhou para o próprio reflexo. Virou-se de costas para o espelho, despiu-se e entrou diretamente no chuveiro.

Abriu a torneira, a água começou a cair. O vapor quente preencheu o espaço, os vidros embaçando. O banho durou cerca de trinta minutos.

Rápido, necessário.

Se secou, trocou de roupa, lavou o rosto, tentou ajeitar o cabelo.

E, pela primeira vez naquela manhã, olhou para o espelho.

Bonito. Apenas bonito.

Quando saiu do quarto, a casa ainda estava mergulhada em um silêncio profundo. Todos dormiam.

Ouviu o sino da igreja tocar; eram sete da manhã.

Desceu as escadas; a madeira rangendo suavemente sob seus pés. As luzes da sala e da cozinha ainda estavam desligadas; acendeu-as. Observou o primeiro piso ganhar uma tonalidade de amarelo claro lentamente.

Andou em direção às três janelas da sala; abriu uma por uma. A luz exterior se fundiu à luz interior.

O vento começou a balançar as cortinas com calma; o ar fresco invadindo o espaço.

Seguiu para a cozinha. Repetiu o processo: abriu as duas janelas, permitindo que a luz e o ar entrassem e se acomodassem. Se aproximou do balcão, abriu um dos armários, pegou uma caneca com a mão esquerda e, com a outra mão, pegou a caixa de leite esquecida em cima da mesa.

Encheu a caneca, o líquido quase transbordando. Ele sorriu. Pousou a caneca novamente no lugar, abriu um dos armários inferiores e pegou uma pequena sacola de pão. Tirou um e guardou os restantes novamente no local.

Não se sentou; não precisava. Ficou ali, em pé, com as costas encostadas no balcão. Bebia o leite com calma, comia o pão sem pressa.

O olhar ficou preso no relógio. Os ponteiros giravam fleumaticamente, quase como se estivessem prestes a parar. Aquilo chegava perto de ser uma hipnose.

Carlos apenas voltou à realidade quando um grito, vindo do lado de fora da casa, atravessou a cozinha. Os olhos se moveram para a janela, fixando-se na rua estreita.

Três jovens completamente bêbadas entraram no seu campo de visão. Uma menina alta e loira. Outra ruiva, de cabelos curtos e cacheados. E a terceira, morena; olhos amendoados, um sorriso elegante mas descontraído, vestido longo e vermelho, cabelo liso. Nenhuma delas tinha mais de dezessete anos.

Sainz olhou novamente para o relógio. Eram 7h40. Voltou a olhar para a janela. Pelo estado delas, estavam voltando para casa. O homem fechou os olhos com força, pensou em Hector. Não disse nada, não fez nada. Abriu-os segundos depois e desviou-os do exterior.

Virou-se para a bancada; lavou, secou e guardou a caneca no armário.

Andou em direção às escadas, subiu-as. Retornou ao quarto, foi em direção ao banheiro e escovou os dentes. Evitou mais uma vez o próprio reflexo. Antes de sair do quarto, pegou o par de botas wingtip pretas.

Fechou a porta com cuidado, passou os olhos pelas outras ainda trancadas.

Andou em passos suaves até o quarto do filho. Abriu a porta, pousou as botas do lado de fora e entrou.

Hector dormia profundamente em posição fetal. Uma pequena pelúcia de gatinho entre seus braços. Carlos aproximou-se devagar e se abaixou ao lado da cama. Os dedos se moveram automaticamente em direção à cabeça do menino. Ele desviou os fios de cabelo que caíam sobre a testa da criança.

Observou-o por um minuto inteiro. Se inclinou, depositou um beijo suave em sua bochecha e se despediu.

⸺ Adiós, mi luz. ⸺ sussurrou. ⸺ Papá no va a tardar mucho.
( Adeus, minha luz. O Papai não vai demorar muito. )

Disse enquanto se levantava e caminhava para fora do quarto, fechando a porta com um cuidado extremo.

Pegou novamente as botas e calçou-as. Desceu as escadas, apagou as luzes do primeiro andar e saiu pela entrada principal.

O ar exterior era convidativo. Ameno; não muito quente, não muito frio.

Apesar do horário precoce, as ruas já estavam cheias. Algumas pessoas corriam ou caminhavam; outras começavam a sair de casa. Havia movimento. Sempre havia.

O espanhol começou a caminhar sem rumo pela calçada.

Passou pelos cafés ainda fechados ⸺ costumavam abrir apenas às oito; ainda faltavam dez minutos ⸺ eles nunca abriam antes, mesmo que pudessem. O mesmo servia para mercados e estabelecimentos públicos; a única exceção eram os bares e os postos de abastecimento, que funcionam vinte e quatro horas.

Atravessou a rua. Parou perto de um dos altos muros; abaixo corria o mar turquesa. Observou o movimento, quase imperceptível, das ondas.

Ficou ali parado.

Ouviu o sino tocar; oito badaladas. Um lembrete de que eram agora oito da manhã e de que faltava apenas uma hora para a entrevista.

Ele permaneceu ali durante trinta minutos, apoiado no muro, olhando para o mar.

O horário combinado aproximava-se cada vez mais. A peixaria ficava somente a dez minutos dali.

Afastou-se do muro, olhou uma última vez para a água e voltou a andar. Passou pela livraria onde conhecera Alexandra, ainda fechada; depois, pelo mercado de Russell e, por fim, pelas pequenas barraquinhas que começavam a abrir.

Às 8h45 estava em frente à peixaria. Já estava aberta; ele podia ouvir vozes no interior ⸺ familiares. Carlos não entrou. Ficou ali, parado do lado de fora, observando o mundo acontecer, enquanto esperando por um horário mais próximo, mais aceitável.

Olhou para o relógio no pulso: 8h55. Cinco minutos antes do combinado.

Perfeito.

Assim que entrou, a campainha tocou. Os passos se tornaram mais hesitantes, o corpo começou a ficar tenso. O olhar preso entre o chão e as paredes.

A primeira coisa que sentiu foi um olhar pesado sobre si, seguido pelo cheiro insuportável de peixe fresco. O barulho que antes ouvia cessou por breves segundos.

⸺ Pensei que ia ficar guardando a porta para o resto da vida. ⸺ a voz firme de Alex cortou o ar. ⸺ Diga-se de passagem que seria um péssimo segurança.

Carlos virou a cabeça devagar. Ali estavam eles: Albon e Russell, olhando fixamente para ele.

O loiro não deveria estar no mercado? Perguntou-se mentalmente.

Sainz deu um sorriso leve ⸺ claramente nervoso e envergonhado.

⸺ Perdão. ⸺ se desculpou. ⸺ Eu não sabia se deveria entrar antes, parecia muito cedo. ⸺ explicou.

George assentiu. Virou-se para Alex, deixou um beijo em sua testa e se afastou devagar.

⸺ Boa sorte. ⸺ sussurrou para ele, porém, alto o suficiente para que o espanhol ouvisse. ⸺ Passo para te buscar depois. ⸺ se despediu, enquanto caminhava em direção à saída.

Albon apenas sorriu. Manteve o olhar no marido até que ele deixasse o espaço, e depois, voltou-o para Sainz novamente.

⸺ Vamos aproveitar que não temos clientes. ⸺ disse sem cerimônia, andando até uma porta de madeira nos fundos.

Carlos seguiu-o.

Caminharam em silêncio.

Quando chegaram, Alex abriu a porta. Uma sala com paredes em tons de azul claro e decorações laranja foi revelada. Era bonita, viva.

Eles entraram. O gerente primeiro, Sainz depois, fechando a porta com um pequeno empurrão.

Os olhos de Carlos percorreram a sala atentamente.

Uma mesa grande no lado direito, com três cadeiras; duas à frente e uma atrás. Em cima dela havia: um computador, um pequeno caderno, um copo vazio e um vaso com Peônias Itoh, as famosas Callies Memory. Eram lindas.

⸺ São bonitas, não são? ⸺ Albon questionou. ⸺ Russell costuma trazer algumas todas as semanas. ⸺ disse.

Sainz olhou para ele. Peônias? Todas as semanas?

Ele sabia: Peônias simbolizavam, acima de tudo, o amor, a beleza e a boa sorte. Eram comuns em casamentos; e os antigos diziam que elas representavam uma relação feliz e duradoura. Porém, eram caras e raras. Pelo menos, era assim na Espanha.

Russell tinha bom gosto para flores; infelizmente, o mesmo não se podia dizer quando o assunto era decoração. O mercado era a maior prova disso.

⸺ Senta aí. ⸺ a voz de Alex quebrou a sua linha de pensamentos.

Viu o homem apontar com o queixo para uma das cadeiras que ficavam em frente à mesa, enquanto se sentava na que estava atrás.

Obedeceu: sentou-se, ainda olhando para as flores.

⸺ Existem muitas aqui? ⸺ Carlos perguntou, referindo-se às Peônias.

Albon riu baixinho.

⸺ Não, elas são exportadas, e elas costumam ir para apenas para os maiores mercados. ⸺ disse. ⸺ Então, se quiser encontrar Peônias por aqui, só indo até Marselha. 

Sainz olhou para ele, abrindo a boca para falar, porém, sendo interrompido antes mesmo de conseguir.

⸺ Sim, George vai a Marselha todas as semanas para comprar Peônias. ⸺ respondeu Albon, antecipando-se. ⸺ Se é isso que quer saber.

O espanhol assentiu.

⸺ Ele faz isso desde que nos conhecemos. ⸺ explicou. ⸺ Há mais de dez anos que recebo Peônias. Como deve imaginar, elas não crescem no inverno, então, nessa época, recebo chocolates todas as semanas. ⸺ disse, rindo.

Carlos sorriu. Um pequeno brilho de curiosidade surgindo em seus olhos.

⸺ Dez anos? ⸺ perguntou.

Era muito tempo. Era toda uma história; era metade de uma vida compartilhada.

Albon concordou com a cabeça.

⸺ Nos conhecemos na Inglaterra. ⸺ começou. ⸺ Eu saí da Tailândia com vinte anos, fui para Cantuária para entrar em Kent e, ironicamente, não consegui entrar. Eu tinha conseguido uma bolsa, mas as vagas fecharam de um momento para o outro. Não deu.

Por breves segundos houve silêncio. Um pequeno sentimento de amargura e raiva pareceu infiltrar-se no ar.

A vida era injusta, ambos tinham esse conhecimento.

⸺ Na época, eu morava em um pequeno apartamento. Não tinha espaço para nada. ⸺ continuou. ⸺ Eu não contei para ninguém sobre Kent. Fiquei umas semanas sem fazer nada e, no meio de tudo isso, tentei procurar emprego e acabei conseguindo trabalho como faxineiro em um hotel. ⸺ disse, rindo.

Sainz apoiou os braços na mesa. Ele estava realmente interessado.

⸺ Uma noite, eu estava terminando de limpar o chão de um dos corredores do segundo piso, e, do nada, um cara saiu correndo do quarto sessenta e três, com um copo de vinho na mão. ⸺ pausa. ⸺ Eu não sei como aconteceu, mas ele simplesmente tropeçou e derramou o vinho no carpete. ⸺ ele sorriu, visualizando mentalmente o momento. ⸺ Eu tinha acabado de limpar aquele lado. Já eram quase duas da manhã; eu só queria ir para casa. Eu fiquei tão puto.

Carlos riu baixinho.

⸺ Era ele? ⸺ perguntou o espanhol.

Alex assentiu.

⸺ Era. ⸺ respondeu, rindo. ⸺ Eu comecei a gritar com ele, começamos a brigar e eu fui demitido. ⸺ suspirou. ⸺ Umas semanas depois, ele veio me procurar com um buquê de Peônias e me pediu desculpa. ⸺ sacudiu a cabeça lentamente. ⸺ Pelo que eu descobri, ele foi à administração interna do hotel para tentar descobrir quem eu era e onde eu morava. ⸺ revirou os olhos, sorrindo.

O espanhol acompanhou o sorriso.

⸺ Depois disso, começamos a conversar. ⸺ continuou. ⸺ Ele era jogador de futebol; camisa vinte e três. E bom, ele era PÉSSIMO. ⸺ riu. ⸺ Ele me convidou quatro vezes para assistir às partidas e, depois disso, parou de jogar.

Os olhos de Albon pararam nas flores.

⸺ Ele me pediu em namoro depois de dois meses. ⸺ pausa. ⸺ Emocionado, né?

Carlos riu, concordando com a cabeça.

⸺ Começamos a morar juntos poucos meses depois. ⸺ disse. ⸺ Ele conseguiu trabalho como caixa em um mercado local, e eu como ajudante numa clínica veterinária.

⸺ E como vieram parar em França? ⸺ perguntou Carlos.

⸺ Quando completamos seis meses de namoro, ele foi demitido. Nessa mesma noite, ele me levou para jantar em um restaurante "chique". ⸺ sorriu. ⸺ No meio da refeição, ele olhou para mim e apenas perguntou se eu aceitava ir com ele para fora da Inglaterra.

Albon baixou o olhar.

⸺ Sabe, eu não tinha nada a perder. ⸺ suspirou. ⸺ Não tinha conseguido entrar em Kent, e a bolsa valia apenas para aquele ano. Essa oportunidade já não existia. ⸺ explicou. ⸺ Então eu aceitei. Nós nos mudamos para a França depois de um mês, e nós nos conhecíamos apenas há sete. Acho que, para muitas pessoas, isso foi uma completa loucura. Mas, naquele momento, pareceu certo.

Houve novamente um breve silêncio.

⸺ Não tínhamos nada. ⸺ Alex levantou o olhar. ⸺ George sabia falar francês; eu não. ⸺ riu. ⸺ Conseguimos alugar uma casa em Limoges; na época, eram quase 430 € por mês. Não era caro; não se compararmos com os preços atuais e com outras cidades.

Sainz assentiu. Era verdade; agora, alugar uma casa em Limoges passava dos 600 €.

⸺ George começou a trabalhar como ajudante no restaurante de um amigo; e eu fui com ele. Conseguimos juntar um bom dinheiro e, depois de uns três anos, ele sugeriu que nos mudássemos para cá, para Cassis. ⸺ continuou. ⸺ Viemos. Moramos em um apartamento durante dois anos, e então, ele insistiu em tentar abrir uma loja. ⸺ pausa. ⸺ Passamos um sufoco enorme com papéis e com autorizações, mas conseguimos.

Ele olhou para Carlos, sorrindo.

⸺ E foi assim que surgiu aquele mercado horrendo. ⸺ comentou.

Sainz riu, Albon também.

⸺ Na época namorávamos há seis anos; ele me pediu em casamento como comemoração. ⸺ sorriu. ⸺ Casamos no ano seguinte, em março. Eu trabalhava com ele no mercado, mas, depois de um tempo, eu pensei em abrir um negócio à parte. Daí surgiu a peixaria. ⸺ suspirou. ⸺ Novamente, foi um sufoco com papéis e autorizações; ficamos meses tentando conseguir permissão. Mas, no fim, deu certo.

O olhar de Alex percorreu toda a sala.

⸺ Compramos uma casa. A peixaria e o mercado estão indo bem. ⸺ disse.

O tailandês parou por breves segundos.

⸺ É uma história longa; não acho que temos tempo para ficar aqui conversando sobre ela, mas, eu e ele estamos felizes. ⸺ retomou. ⸺ Todos os dias ele insiste em vir me deixar e, depois, em vir me buscar. ⸺ riu. ⸺ Você vai se acostumar com a presença dele aqui. ⸺ finalizou.

Carlos assentiu, um sorriso discreto no rosto; porém, verdadeiro.

Dez anos. O número repetiu-se em sua mente.

Albon olhou para o relógio; já eram 9h40.

⸺ Vamos começar com a entrevista? ⸺ perguntou, rindo.

Sainz se recompôs na cadeira.

⸺ Claro. ⸺ pausa. ⸺ Vamos.

Alex abriu o pequeno caderno, pegou uma caneta e olhou para Carlos.

⸺ Então, me dê seu nome completo. ⸺ pediu.

O espanhol suspirou, começando a ficar novamente nervoso.

⸺ É um pouco longo... ⸺ disse, o tom de voz baixando.

O tailandês apenas assentiu, abrindo o caderno.

⸺ Carlos... é ⸺ hesita. ⸺ Carlos Sainz Vázquez de Castro Cenamor Rincón Rebollo Virto Moreno de Aranda Don Per Urrielagoiria Pérez del Pulgar. ⸺ disse.

Alex levantou o olhar, rindo.

⸺ Sério? ⸺ perguntou, vendo Carlos assentir em resposta. ⸺ Repete, devagar.

Sainz obedeceu, repetiu pausadamente, observando o homem anotar, e respondendo sempre que Albon perguntava se algum dos nomes estava certo.

⸺ Entre nós, fica apenas Carlos Sainz Vázquez. ⸺ disse Alex.

Carlos concordou com a cabeça, dando um leve sorriso.

⸺ Me fale sobre você. ⸺ pediu. ⸺ O seu estado civil, de onde você vem, como era a sua vida antes, a sua experiência... tudo. Eu quero saber tudo.

Novamente, houve um breve silêncio.

⸺ Eu nasci em Madrid, no dia 1 de setembro de 1994. ⸺ começou.

⸺ Trinta e um anos? ⸺ interrompeu Albon.

⸺ Isso. ⸺ o espanhol respondeu, vendo Alex escrever.

⸺ Eu estou noivo de uma mulher escocesa, tenho um filho de sete anos, nascido na Escócia também, porém, ele tem dupla nacionalidade. ⸺ retomou. ⸺ Estou em Cassis há dezessete dias, então, neste momento, eu estou morando com a minha família. No caso, com eles os dois, e com meus pais e minhas duas irmãs.

Albon assentiu, escrevendo.

⸺ Nós tínhamos uma pequena empresa de automóveis na Espanha, mas tivemos que fechar por motivos econômicos e pessoais. Eu trabalhava como administrador e técnico. E, quando eu era mais novo, mais ou menos aos dezesseis anos, eu trabalhei como ajudante de um mecânico. Então, de certa forma, eu estou acostumado com o atendimento ao público. ⸺ explicou. ⸺ Estudei Engenharia Mecânica na UPM, dos dezoito aos vinte e dois.

Alex continuava anotando.

⸺ Não sei nada de francês, absolutamente nada. E, talvez, seja meio estranho procurar trabalho aqui sem saber sequer falar o idioma, mas eu realmente preciso. ⸺ pausa. ⸺ Eu sei falar espanhol, inglês, italiano e um pouco de alemão. ⸺ suspirou. ⸺ E, em breve, francês. ⸺ riu, um riso tenso.

O outro homem sorriu, mantendo o olhar no caderno.

⸺ Assim como eu disse ontem, eu odeio peixe e não sei absolutamente nada sobre pescada ou pesca. ⸺ admitiu. ⸺ Mas eu quero aprender. Realmente quero. ⸺ concluiu.

Albon riu, levantou o olhar, fixando-o no espanhol.

⸺ Nós precisamos muito de ajuda aqui. ⸺ começou. ⸺ E tenho quase certeza de que você não quer ficar no atendimento, correto?

⸺ Sim. ⸺ respondeu sem hesitar.

⸺ Acha que consegue se virar na reposição? ⸺ perguntou. ⸺ Não precisa falar francês frequentemente; eu duvido que os peixes falem e, se falarem, acho que eles não vão querer conversar.

⸺ Ah, claro. ⸺ disse, um sorriso discreto surgindo em seu rosto.

⸺ Apenas precisa fazer a inspeção, a preparação, a reposição de gelo e gerir o estoque. ⸺ disse. ⸺ Ou seja, o único momento em que poderá precisar gastar o seu francês, ou o seu inglês, será na gestão do estoque.

Carlos assentiu.

⸺ Terá companhia na inspeção e na preparação, então, não é o fim do mundo não saber nada sobre peixe. ⸺ apontou. ⸺ Pierre irá ajudá-lo.

⸺ Certo.

⸺ Costumamos receber novas cargas a cada dois dias; quase sempre vêm durante a manhã, mas, às vezes, algumas chegam durante a tarde, porém, é raro. ⸺ explicou. ⸺ Se for melhor, nós podemos colocar você no turno da tarde.

⸺ Se fosse possível, eu adoraria. ⸺ respondeu.

⸺ Com certeza. ⸺ Albon ligou o computador. ⸺ O turno começa às 14h e termina às 22h. ⸺ informou. ⸺ O valor inicial é de cerca de 1890 € mensais, já com os bônus do horário noturno incluídos, e o vale-alimentação é pago à parte, aproximadamente no valor de 180 €.

Carlos travou por uns instantes. O valor se repetiu em sua mente: 1890 €. Era bom, muito bom. Talvez não fosse o ideal para sustentar sete pessoas, mas era o suficiente para ele, para Rebecca e para Hector.

Sabia que as irmãs, os pais e Donaldson procurariam trabalho em breve. Blanca já estava tratando disso. Se eles conseguissem, e se cada um contribuísse com pelo menos 200 euros para ajudar em casa, seria ótimo. Era um começo, mesmo que, naquele ponto de vista, fosse pequeno.

⸺ Por mim está ótimo. ⸺ disse.

Alex assentiu.

⸺ Pode começar quando? ⸺ perguntou.

⸺ Quando você quiser. ⸺ Sainz respondeu, rápido demais; desajeitado.

O tailandês riu, concordando com a cabeça.

⸺ Podemos começar amanhã, então?

⸺ Com certeza!

⸺ Certo. ⸺ Alex sorriu. ⸺ Hoje eu te apresento a peixaria, e amanhã às 14h você começa. ⸺ informou.

⸺ Tudo bem. ⸺ respondeu Carlos.

Viu Albon se inclinar para o lado, abrir uma das gavetas e retirar um papel, ⸺ que supôs ser o contrato, ⸺ e colocá-lo em cima da mesa, arrastando-o com os dedos na direção de Carlos.

⸺ Lê e, se estiver de acordo, assina na primeira e na última página. ⸺ pediu, pegando uma caneta e entregando-a ao outro homem.

O espanhol pegou as folhas, lendo uma por uma com cautela.

Continham informações sobre privacidade, salário, folgas, extras, horários, conduta, uniformes e tipos de pesca e mercadoria. Assinou os termos de responsabilidade na última folha e os de consentimento na primeira.

Deslizou as folhas, juntamente com a caneta, na direção de Albon.

Este assentiu, pegou os papéis e imprimiu uma cópia. Nenhum dos dois falou durante o processo. Sainz apenas acompanhava os movimentos do outro com os olhos.

Viu Alex se levantar e caminhar até uma prateleira ao lado da mesa. Pegou uma pasta e guardou ambas as cópias do contrato. Certamente, havia uma terceira evidência daquele, porém, guardada digitalmente.

Carlos sabia disso.

O tailandês colocou tudo novamente no lugar e caminhou até a saída, dando um leve toque no ombro de Sainz.

⸺ Vamos. ⸺ disse, abrindo a porta.

Carlos se levantou, arrumou a cadeira e, desta vez, saiu antes de Albon. O gerente seguiu-o, trancando, por fim, a sala.

⸺ Eu costumo ficar na peixaria o dia todo, então, se não me encontrar trabalhando nas máquinas, estou aqui. ⸺ apontou com o queixo para a porta que acabara de fechar.

⸺ Certo. ⸺ respondeu.

Alex passou novamente à frente, guiando Carlos pelo espaço.

Caminharam em silêncio.

Sainz observava melhor a loja.

Era grande. No lado direito estavam três arcas enormes. Virado para a porta principal, havia uma espécie de balcão; ao lado, uma vitrine de peixes que cobria e seguia a parede de um lado ao outro, e no fundo, já encostado ao lado esquerdo, havia mais uma arca.

Todos os móveis eram de aço. Serras, balanças, uma limpadora de mariscos e uma limpadora de mexilhões, escamadores, máquinas de filetar, um esterilizador de facas e embaladoras a vácuo ⸺ tudo fazia parte do cenário.

Decorações de cerâmica em formato de peixe preenchiam as paredes, juntamente com algumas fotos de pescadores, de pescadas e uma mais discreta de Alex e George.

Chegaram a uma pequena porta de ferro no lado esquerdo. Albon abriu-a e deu passagem para Carlos entrar.

Uma sala branca foi revelada. O ar frio bateu contra o rosto de Sainz.

Havia uma pequena mesa de aço, diversas máquinas de gelo e câmaras frigoríficas.

Era ali. Era naquele lugar que iria trabalhar.

⸺ Esta é a sala de reposição. ⸺ disse Alex. ⸺ Ali atrás ⸺ apontou para uma outra porta no fundo da sala. ⸺ estão os uniformes.

Os olhos de Carlos começaram a explorar o espaço.

⸺ Pode pegar qualquer um que for do seu tamanho. Com certeza temos muitos sobrando que nunca foram usados. ⸺ continuou. ⸺ Peça ajuda a Pierre amanhã; ele saberá melhor.

Sainz assentiu, sem olhar para ele.

⸺ Amanhã você fará um teste com as máquinas. Temos um pequeno manual, e você terá ajuda com isso. ⸺ pausa. ⸺ Mas, se é formado em engenharia, não vai morrer aprendendo.

O espanhol olhou finalmente para o homem.

⸺ Já alguém morreu aprendendo aqui? ⸺ perguntou, sério.

Alex travou, tentando entender se a questão era real. E então, ele riu. Os olhos encontraram os de Carlos. Era possível notar um leve pânico escapando através deles.

⸺ Não, claro que não. ⸺ respondeu. ⸺ Mas não queira ser o primeiro.

O europeu não disse mais nada. O rosto começou a ganhar um sutil tom rosado; estava envergonhado.

⸺ Interpretação não é o seu forte. ⸺ Albon constatou. ⸺ Você vai adorar o Pierre.

⸺ Ele é igual a você? ⸺ Carlos perguntou, sem pensar.

Alex riu novamente.

⸺ Não. ⸺ disse. ⸺ Ele é insuportável, porém, nós gostamos dele.

Então são parecidos. Pensou Sainz.

⸺ Ele vai explicar melhor sobre a reposição. ⸺ retomou Alex. ⸺ Ele manda na equipe de repositores; você deve e precisa obedecer a cada ordem dele. No total, ele lidera três pessoas, contando com você. ⸺ informou. ⸺ E vocês dois vão trabalhar no mesmo turno. Vai ter que se acostumar.

⸺ Quem são os outros? ⸺ questionou.

Albon andou novamente até a porta, dando, mais uma vez, passagem a Carlos.

⸺ Oscar e Ocon. Eles cobrem o turno da manhã, entre as 8h e as 14h. ⸺ respondeu. ⸺ E não, antes que pergunte, eles não estão aqui. ⸺ esclareceu. ⸺ Eu pedi para que viessem mais tarde; o movimento às quartas de manhã é fraco, então, eu consigo cuidar sozinho. E eu precisava entrevistar você; com eles aqui seria quase impossível.

⸺ Barulhentos?

Alex negou com um leve movimento.

⸺ Animados. ⸺ corrigiu-o.

Carlos passou pela porta, sendo seguido pelo gerente. O barulho alto da mesma batendo ao ser fechada ecoou pelo espaço.

⸺ O banheiro é ali. ⸺ indicou Albon, apontando para uma pequena abertura atrás do balcão, coberta por um grande lençol preto.

Sainz seguiu-o com o olhar.

Ótimo. O banheiro era atrás da vitrine principal.

Sentiu o estômago revirar. O rosto se contorceu ligeiramente. Não. Ele precisava ficar ali. Tentaria não usar o banheiro; era uma solução simples.

⸺ Não faça essa cara. ⸺ pediu o tailandês. ⸺ Lá dentro existem três portas, três banheiros diferentes. ⸺ começou a explicação. ⸺ Nada contamina ou é prejudicial para o peixe. Não é nojento.

Carlos nem tinha pensado nisso.

⸺ Agora, se o seu problema é o cheiro do peixe... ⸺ pausa. ⸺ Recomendo que venha trabalhar com uma máscara de gás. ⸺ brincou.

Assim que terminou a frase, sentiu o olhar do espanhol sobre si.

⸺ Nem pense nisso. ⸺ suspirou. ⸺ Esqueça o que eu falei.

Sainz riu.

⸺ Você costuma usar uma também? ⸺ perguntou, divertido.

Albon sorriu.

⸺ Não. ⸺ respondeu. ⸺ Eu não abriria uma peixaria se não gostasse do cheiro de peixe.

Por segundos houve silêncio.

Quem gosta do cheiro de peixe? Que cara estranho. Pensou.

⸺ Você tem razão. ⸺ disse Carlos.

Alex assentiu, o sorriso ainda no rosto.

⸺ Bom, acho que terminamos por hoje. ⸺ avisou. ⸺ Alguma dúvida?

Carlos parou, raciocinando. Parecia perdido nos próprios pensamentos.

Realmente tinha conseguido o emprego? Era apenas isso? Estava tudo certo?

⸺ Nenhuma.

O tailandês cantarolou baixinho.

⸺ Ótimo. ⸺ pausa. ⸺ Pode ir, se quiser.

Novamente, silêncio.

⸺ Tem certeza? ⸺ Carlos perguntou, hesitante. ⸺ Está tudo certo, então?

⸺ Sim. ⸺ respondeu o outro homem. ⸺ Pode ir, vejo você amanhã. ⸺ disse, enquanto andava em direção a uma das grandes arcas.

⸺ Ah... Certo. ⸺ começou. ⸺ Certo, eu vou indo então. ⸺ as palavras sairam confusas.

Viu Albon se inclinar para a frente; mais concentrado no peixe do que nele.

⸺ Adeus. ⸺ despediu-se simples, sem olhar para trás.

⸺ Adiós. ⸺ o espanhol escapou naturalmente.

Alex sorriu para si mesmo ao ouvir o sotaque e, então, ouviu os passos de Carlos se afastarem e andarem em direção à porta.

Ele é estranho. Todos nós somos.

♥︎

O ar exterior recebeu Carlos calorosamente. O sol estava alto, havia mais gente na rua. Continuava tudo igual.

O sino tocou novamente. Desta vez, marcava as onze horas. Passara cerca de duas horas com Alex.

Por alguns instantes, tudo pareceu mais leve. Tinha finalmente conseguido um emprego. Talvez não fosse o melhor, mas era algo. Rebecca ficaria feliz, e, certamente, os pais e as irmãs também.

E, naquela manhã, ainda voltaria a tempo de almoçar com a família.

Começou a caminhar pela calçada. Não queria ir para casa ainda; não de mãos vazias.

Procurava por alguma lojinha de lembranças, ou algo que pudesse comprar para levar.

Os olhos pararam em uma loja de brinquedos. A mente viajou até Hector; ele iria adorar. O corpo moveu-se automaticamente.

Entrou na loja.

Havia centenas de brinquedos espalhados por diferentes prateleiras. Um pequeno barquinho de pesca chamou sua atenção de imediato. Ele aproximou-se do objeto, observando-o mais detalhadamente.

Era um La Provençale¹ . Lindo. Uma listra azul, outra branca e, por fim, uma vermelha. Duas velas latinas.

Simplesmente belo.

Olhou para o preço, 75 €; não era caro.

Pegou o barco e dirigiu-se até o caixa.

⸺ Bonjour ! ⸺ cumprimentou o atendente, esticando a mão para verificar o objeto. ⸺ Excellent choix.
( Bom dia! Ótima escolha. )

Carlos entregou-o e sorriu.

Retirou o cartão do bolso, passou em cima da maquininha, marcou o código e esperou que a compra fosse autorizada. Demorou menos de 40 segundos.

O jovem colocou o barquinho dentro de uma sacola e entregou-a a Sainz.

⸺ Merci. ⸺ disse, o francês saindo carregado.
( Obrigado. )

O atendente assentiu, sorrindo também.

O espanhol andou em direção à porta e saiu da loja. A sacola balançava levemente com o movimento.

Hector era apaixonado por barcos.

Ele amava a praia, adorava histórias sobre o mar, e filmes e animações sobre peixes. Porém, assim como o pai, ele odiava o sabor do peixe. Era irônico; ser tão apaixonado pelo oceano e, de certa forma, odiar peixe.

No seu aniversário de cinco anos, levaram Hector para ver uma exposição de barcos históricos em Madrid. Carlos nunca esqueceu o momento em que viu os olhos do menino brilharem com um encanto quase irreal; aquela tinha sido a primeira grande magia da vida para a criança.

Continuou andando. Desta vez, parou em frente a uma floricultura. Pensou nas irmãs e em Becca, e então, entrou na loja.

Diversas flores cobriam o lugar. Pediu duas Calla Lily amarelas e uma cor de rosa. As amarelas eram para as irmãs. A cor de rosa, para Rebecca.

Pagou, agradeceu e retornou à rua com mais uma sacola na mão.

Olhou para o relógio; eram 11h30. Demoraria, pelo menos, vinte minutos para chegar a casa.

Começou a caminhar nessa direção. Continuou sem fazer mais paradas.

Sorria quando via as crianças brincarem ou os animais correrem de um lado para o outro, divertidos.

Às vezes, sentia algumas partículas de água atingirem o seu rosto enquanto passava perto do mar turquesa. A brisa, tornando-se mais fresca, disfarçando brevemente o calor.

Entrou na rua de casa depois de um tempo. As janelas estavam abertas e, mesmo pelo lado de fora, conseguia ver uma leve movimentação.

Aproximou-se, abriu a porta.

Foi recebido pela risada alta e exagerada de Blanca.

A irmã estava sentada no sofá jogando algum jogo de cartas com Ana. E, pela expressão aborrecida da mais nova, Blanca estava ganhando.

⸺ Chegou cedo. ⸺ comentou Ana, assim que o viu. ⸺ Não me diga que o cara se assustou com a sua feiura e você foi expulso de lá antes mesmo de fazer a entrevista. ⸺ brincou.

Blanca pegou um travesseiro e jogou-o contra o rosto da irmã.

⸺ Cala a boca. ⸺ disse, ainda rindo.

Carlos fechou a porta atrás de si, sacudiu a cabeça e aproximou-se.

⸺ Felizmente, ⸺ começou. ⸺ eu não sou como você.

Ana riu, levando as mãos ao peito de forma dramática e ofendida.

⸺ Ainda bem. ⸺ respondeu. ⸺ Eu odiaria que você fosse como eu.

Blanca se recompôs e perguntou:

⸺ Sem brincadeira, Carl. ⸺ começou. ⸺ Como foi por lá?

O homem suspirou, uma mistura de alívio e cansaço. Andou em direção ao sofá, vendo Ana abrir um pequeno espaço nele; apenas o suficiente para que Carlos conseguisse sentar ao seu lado. Colocou as sacolas com cuidado no chão e sentou-se.

⸺ Começo amanhã às 14h. ⸺ disse. ⸺ O salário é bom; é um começo. E o cara, ele é estranho, porém, é gente boa. Eu gostei dele.

Os olhos de ambas ganharam um brilho extra. Um sorriso pequeno surgindo nos dois rostos, um mais discreto que o outro, porém, ambos orgulhosos.

⸺ Que milagre, você finalmente está trabalhando e não foi rejeitado na primeira entrevista. ⸺ a voz de Ana era gentil, mesmo que disfarçada de um leve sarcasmo.

Carlos riu.

⸺ Talvez você devesse tentar também, ao invés de ficar apodrecendo deitada aqui. ⸺ disse, se referindo ao sofá.

A irmã revirou os olhos.

Blanca não disse nada, apenas olhava para Sainz com admiração. Entre eles não eram necessárias palavras, nunca foram.

Por alguns instantes, houve apenas silêncio. Um silêncio reconfortante, íntimo, familiar. Não era preciso mais nada.

⸺ Eu comprei algo para vocês. ⸺ disse, quebrando o momento e se inclinando para a frente.

Pegou a sacola, retirou as flores e entregou uma para cada uma das irmãs ⸺ não houve cerimônia.

⸺ Oh. ⸺ o som escapou de Blanca. ⸺ É linda, Carl.

Carlos apenas sorriu. O seu olhar parou brevemente no rosto da irmã; viu o sorriso pequeno, porém real, e um brilho forte em seus olhos.

Ana riu, olhando para a Calla sem dizer nada.

⸺ Era o mínimo que deveria fazer para agradecer as irmãs maravilhosas que tem. ⸺ brincou.

Sainz sorriu.

⸺ Claro, você tem razão. ⸺ pausa. ⸺ Cadê a Becca e o Hec? ⸺ perguntou.

Blanca olhou para ele.

⸺ Lá em cima. ⸺ informou. ⸺ Ela deve estar dando um banho nele agora.

Carlos assentiu. Levantou-se do sofá, pegou a sacola e subiu as escadas pela segunda vez naquela manhã.

O segundo andar estava silencioso.

Sainz bateu suavemente na porta do quarto de Rebecca; nenhuma resposta. Girou a maçaneta e entrou.

E, com certeza, eles não estavam tomando banho.

Estavam deitados na cama, Becca na posição de estrela do mar, e Hector abraçado à cintura da mãe.

O espanhol sorriu com a cena. Aproximou-se e sentou-se na beira da cama.

Ficou ali, apenas observando a ex-noiva e o filho dormirem.

Sentiu Rebecca mover-se lentamente e, de seguida, viu-a abrir os olhos devagar. O rosto ganhando uma expressão confusa enquanto erguia ligeiramente o corpo.

⸺ Voltou cedo. ⸺ disse, a voz rouca. ⸺ Está tudo bem?

Carlos assentiu.

⸺ Começo a trabalhar amanhã. ⸺ sussurrou.

Rebecca sorriu em resposta. Um brilho novo apareceu nos olhos.

Não podia comemorar; não quando o filho dormia tranquilamente ao seu lado depois de muito tempo.

⸺ E, eu comprei algo para você.

A mulher franziu o cenho, esperando.

Sainz retirou a flor da sacola, entregando-a à morena.

⸺ Carlos... ⸺ começou.

⸺ Não. ⸺ interrompeu. ⸺ Eu não estou tentando voltar com você.

Rebecca tentou conter o riso, inclinando a cabeça para trás.

⸺ Eu não ia dizer isso. ⸺ murmurou.

Carlos sorriu, constrangido. Ele realmente precisava começar a pensar antes de falar.

⸺ Ela é linda. ⸺ disse, girando a Calla entre os dedos. ⸺ Apenas isso.

O silêncio preencheu o quarto, sendo quebrado apenas pela respiração baixa de Hector.

⸺ Comprei algo para ele também. ⸺ comentou.

Rebecca levantou os olhos, retirando-os da flor.

⸺ É?

Carlos concordou com a cabeça.

⸺ Um barco. ⸺ pausa. ⸺ Acho que ele vai gostar.

A mulher sorriu.

⸺ Com certeza vai.

Novamente, silêncio. Desta vez, durou só um minuto.

⸺ Estava pensando. ⸺ começou Carlos. ⸺ Poderíamos sair um pouco. Ir até lá embaixo, ver o mar de perto. ⸺ sugeriu.

Rebecca assentiu.

⸺ Eu gosto da ideia. ⸺ disse. ⸺ Podemos ir depois do almoço.

⸺ Sim. ⸺ concordou. ⸺ Depois do almoço.

⸺ A Reyes falou que ia sair para comprar alguns ingredientes que estavam faltando na cozinha. ⸺ informou. ⸺ Ela deve voltar já já.

Carlos se inclinou para colocar a sacola no chão. Rebecca pousou a flor em cima do criado-mudo.

⸺ Okay. ⸺ respondeu, deitando-se na cama.

A atenção ficou presa no teto. Hector estava deitado entre os dois, separando-os. Porém, sentia o olhar pesado de Rebecca em si.

⸺ Você gostou? ⸺ perguntou a mulher, recebendo um olhar perdido de Carlos. ⸺ Da peixaria. ⸺ completou a ideia.

Sainz não respondeu imediatamente.

⸺ Gostei. ⸺ disse. ⸺ O cheiro é horrível, a visão é ainda pior. ⸺ pausa. ⸺ Porém, o cara parece legal, o salário é bom e, esteticamente, é bonito.

Rebecca assentiu, deitando-se novamente.

⸺ Fiquei na área da reposição. ⸺ continuou. ⸺ Não vou precisar falar tanto em francês. E, trabalho apenas durante a tarde.

⸺ Isso é bom. ⸺ respondeu a mulher. ⸺ Aproveita para aprender um pouco mais, não comprou um dicionário?

Hector se mexeu devagar entre eles, ainda dormindo.

⸺ Comprei. ⸺ a voz era mais baixa agora. ⸺ Vou dar uma olhadinha nele amanhã.

⸺ Você só trabalha depois das 14h? ⸺ perguntou.

⸺ Das 14h às 22h.

Rebecca parou, pareceu pensar.

⸺ Se importa de ficar com o Hec durante a manhã? ⸺ questionou. ⸺ Eu podia aproveitar e tentar encontrar alguma coisa para fazer também.

⸺ Não. ⸺ sorriu. ⸺ Pode ir, eu fico com ele. ⸺ disse.

⸺ Certo. ⸺ respondeu, fixando o olhar no teto. ⸺ Obrigada. ⸺ sussurrou.

Sainz seguiu o olhar da escocesa.

O silêncio se instalou novamente; ficaram assim por mais de vinte minutos.

Às 12h35 ouviram a porta de casa abrir; vozes preencheram o primeiro piso.

Rebecca e Carlos se entreolharam.

Carlos aproximou-se do filho, os dedos tocando sua bochecha com cuidado.

⸺ Mi luz, ⸺ chamou, sacudindo o menino devagar. ⸺ despierta.
( Minha luz, acorda )

Nada. Rebecca gargalhou.

⸺ Amor. ⸺ tentou mais uma vez, a mão deslizando pela lateral do menino.

Ele se mexeu, abrindo os olhos lentamente. Carlos sorriu. O garoto piscou devagar.

⸺ Buenos días. ⸺ disse, baixinho.
( Bom dia )

Hector sorriu, os olhos abrindo completamente.

⸺ Papá. ⸺ disse animado, se levantando de repente.
( Papai )

⸺ Hola, mi amor. ⸺ acompanhou o movimento do filho, sentando-se na cama.
( Olá, meu amor )

Em questão de segundos, Hector estava no colo do pai, abraçando-o.

⸺ ¿Dormiste bien? ⸺ perguntou, antes de deixar um beijo suave na testa do filho.
( Dormiu bem? )

O menino assentiu.

⸺ Sí. ⸺ respondeu.

⸺ Qué bien. ⸺ disse, passando os dedos pelo cabelo do menino ⸺ ¿Tienes hambre?
( Ótimo. Está com fome? )

Hector apenas murmurou um «Sí».

⸺ A vovó deve estar preparando o almoço. ⸺ informou Rebecca. ⸺ Vamos descer? ⸺ perguntou.

O garoto olhou para trás.

⸺ Vamos. ⸺ respondeu, o idioma mudando naturalmente do espanhol para o inglês.

Hector estava acostumado com as duas línguas. Carlos e Rebecca conversavam em inglês, enquanto os avós paternos conversavam em espanhol. Ele entendia ambos perfeitamente.

Carlos levantou-se primeiro, sendo seguido pelo filho e, por fim, pela mulher.

O menino atravessou a porta correndo. Os pais ouviram o som dos pés descalços batendo contra a madeira oca das escadas.

⸺ Desce devagar. ⸺ pediu Rebecca. ⸺ Você pode cair! ⸺ avisou.

Sainz apenas sacudiu a cabeça, rindo, enquanto fechava a porta do quarto.

⸺ Buenos días, abuela. ⸺ gritou o jovem, assim que chegou à cozinha.
( Bom dia, avó )

Eles ouviram a voz do menino.

⸺ Dá o barco para ele depois. ⸺ disse Donaldson.

Ambos olhavam para as escadas, sorrindo. Viram o filho abraçar a avó, enquanto ela enchia uma panela com água.

⸺ Depois da praia? ⸺ perguntou, quase como se estivesse fazendo um trato.

Rebecca olhou para ele. Não respondeu imediatamente, esperou que Carlos retribuísse o olhar, e então:

⸺ Sim. ⸺ concordou. ⸺ Depois da praia. ⸺ disse, começando a descer os degraus.

Sainz permaneceu parado durante breves segundos, olhou novamente para Rebecca, que já estava no meio das escadas, e depois olhou para o filho, que observava a avó cozinhar.

Sorriu e começou a descer também.

Entregaria o La Provençale, mas antes, levaria o filho para ver barcos "reais".

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➺ㅤ𝗟𝗮 𝗣𝗿𝗼𝘃𝗲𝗻𝗰̧𝗮𝗹𝗲 𝟭:𝟮𝟬¹ㅤ⸺ㅤÉ uma réplica de um barco de pesca tradicional da Côte d'Azur francesa (Costa Azul)

➺ㅤ𝗟𝗮 𝗣𝗿𝗼𝘃𝗲𝗻𝗰̧𝗮𝗹𝗲 𝟭:𝟮𝟬¹ㅤ⸺ㅤÉ uma réplica de um barco de pesca tradicional da Côte d'Azur francesa (Costa Azul).

➺ㅤ𝗟𝗮 𝗣𝗿𝗼𝘃𝗲𝗻𝗰̧𝗮𝗹𝗲 𝟭:𝟮𝟬¹ㅤ⸺ㅤÉ uma réplica de um barco de pesca tradicional da Côte d'Azur francesa (Costa Azul)

♥︎

𝗨𝗠𝗔 𝗥É𝗣𝗟𝗜𝗖𝗔,
uma meia verdade.

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Notes:

⸺ㅤcomentários são sempre muito bem vindos e apreciadosㅤㅤ﹫ㅤ