Chapter Text
Algumas horas haviam se passado desde que Paulinho e Celina deixaram a cobertura de Eduarda para que ela pudesse descansar, o que foi uma percepção um pouco falha, visto que a última coisa que a ruiva conseguiria fazer seria pegar no sono.
Deitada sozinha em sua cama enorme, mantinha os dois braços atrás da cabeça, olhando para o teto em uma insônia incessante e reprisando os momentos do dia.
Pensava que, a essa hora, Maggye já deveria ter entregue o distintivo e recebido uma ordem de suspensão das atividades da polícia de Los Angeles. A essa hora, Lorena e Gabriela deveriam estar dormindo juntas, em uma cama, e sentiu um pequeno vazio olhando para o lado e se vendo só, naquela cobertura gigantesca. Lembrou de buscar respostas sobre sua invulnerabilidade e sair com ainda mais perguntas ao descobrir que Lorena não era um anjo enviado para destrui-la. E então...lembrou do beijo. Afinal, poderia ser chamado de beijo? Um simples selar de lábios, mas que, até agora, fazia o estômago do Diabo se revirar por algum motivo não descoberto? Lorena sentia a mesma coisa? Se lembrava do beijo? Significou algo para ela? Ou melhor...por que eu me importo tanto com essas perguntas? Eduarda pensou. Teria tido algum significado para ela mesma?
Eduarda bufou, se remexendo entre os lençóis caros e tentando abandonar aqueles pensamentos.
Voltou a fechar os olhos, tentando enganar o corpo para que dormisse de uma vez, mas o "ding" do elevador soou, não tão discreto, atraindo toda a tenção de Eduarda.
- Celina, eu falei que queria ficar sozinha. - Sem olhar para a entrada do quarto, repreendeu a amiga, mas em um tom tranquilo.
Mas quando a voz respondeu, Eduarda se sentou na cama abruptamente e virou-se para a entrada com os olhos arregalados, pensando ter se confundido. Mas não...
- Achei que pudesse querer a companhia da sua mãe. - A voz, mais do que familiar, mas não ouvida durante séculos, soou nos ouvido de Eduarda como a maior surpresa daquele dia.
Violeta estava na porta do quarto, encostada no batente e observando a filha com um olhar materno cheio de carinho, mas também guardava outras coisas nas íris escuras. Saudades, preocupação, medo e...culpa? A ruiva não saoube distinguir, apenas levantou da cama em um salto, mas não se aproximou.
- MÃE?! - Exclamou boquiaberta, sem saber como reagir àquilo.
A última vez que viu a mãe, os tempos eram outros. A humanidade, criação de seu pai, ainda estava nos estágios iniciais. O Inferno havia sido criado apenas para ela e, consequentemente, a última vez que viu Violeta tinha sido segundos antes de descer ao reino das chamas. Muitos séculos no tempo normal, milênios do tempo do Inferno. Maldita relatividade de Einstein que afetava o espaço-tempo dos planos divinos e que prolongava os anos eternos de tortura das almas atormentadas no submundo. Desde então, o rosto e a voz de sua mãe não passavam de memórias bem guardadas.
Ainda boquiaberta, a ruiva sentiu seus olhos se banharem em lágrimas, mas nenhuma caiu pelo seu rosto pálido. Diferente de Viioleta que, com o os lábios trêmulos e o rosto começando a molhar por lágrimas, avançou na direção da filha em um abraço apertado.
Inicialmente, Eduarda não reagiu. Depois de alguns segundos e conferindo a materialidade daquilo, enlaçou os braços ao redor da mãe e suspirou, inalando o cheiro de baunilha e paraíso que exalava da mais velha.
Então a deusa de toda a criação estava na Terra...
- Minha filha... - Com a voz embargada, Violeta não soltava o abraço. - Eu senti tanta saudade de você, tanta...
E aquilo trouxe Eduarda de volta para a realidade.
- O que voc- Gaguejou. - O que você tá fazendo aqui?
Se soltou do abraço e se afastou o suficiente para olhar nos olhos da mãe. Violeta respirou fundo.
- Eu senti, meu amor. - Revelou com sinceridade. - Eu senti você morrendo, escutei você falando com o seu pai e, depois...senti sua confusão. Te senti se machucando por dentro...
Eduarda apenas negava com a cabeça, não entendo aquilo.
- Depois de milênios você sente que eu precisava de você? - Trincou os dentes, depositando uma leve acidez no tom de voz. - Depois de me ver naquele lugar, torturando pessoas, querendo fugir e não conseguindo, você me escuta falando com o meu pai e vem? - Riu, mas sem humor algum. - Não consigo acreditar em você.
E a verdade é que Violeta esperava aquela reação. Conhecia a filha. E também sabia de coisas que Eduarda não fazia ideia, mas que não tinha como revelar ali, daquela forma, naquele momento. Preferiu suspirar e dar um passo para trás, mostrando para a mais nova que não estava ali para discutir.
- Olha, você pode não acreditar em mim, afinal você é a única de toda a nossa família que não mente, mas...eu te senti morrer, minha filha.
Eduarda quase gargalhou.
- Então eu precisei quase sangrar até a morte pra você resolver me visitar? - Eduarda estava sendo sincera. Partia o coração dela falar daquela forma com a mãe, mas estava no escuro há tantos anos, que não conseguia olhar a situação de outra forma. - Escuta o que você tá dizendo, mãe! - E então passou pela mãe, descendo do pequeno degrau do quarto e caminhando com os pés descalços até o bar.
Violeta seguiu, mas sempre mantendo uma distância pacífica.
- Eu sei o que isso tudo parece. Mas você também sabe que eu não podia simplesmente sair da Cidade Prateada e entar no Inferno. - Eduarda abriu a boca para responder, segurando uma garrafa de whisky e um copo baixo, mas Violeta continuou. - Até porque nenhum dos seus irmão fez isso. Só você podia, filha.
Eduarda bateu com força a garrafa e o copo no alcão de mármore, desviando da estrutura e parando na frente da mãe.
- Então você admite que eu fui largada lá, sozinha?
- O que eu tô querendo dizer, é que há mais nisso do que você pode saber agora. E eu não vou nem tocar no assunto de que ir para lá foi ideia sua. - Agora Violeta falava num tom de voz que Eduarda se lembrava bem até demais. Era o mesmo de quando levava bronca depois de aprontar junto com o Paulinho ou provocar outros irmãos. Ficou em silêncio, ouvindo a mãe, mesmo contrariada. - Agora eu tenho dois dos meus filhos aqui na Terra, por algum motivo, e eu ainda sinto muita coisa em você, filha. Você não é mais imortal, e eu te ouvi implorando para salvar uma vida humana. Você está diferente, e eu sinto que o seu irmão também está.
Sobre Paulinho, Eduarda não poderia opinar muito. Suas converas com o irmão eram breves, ainda estavam se acertando no acordo de paz que fizeram. Mas Violeta estava certa sobre uma coisa...ela estava diferente. E, agora, sabia o porquê. Ou melhor...quem.
- Como se não fosse o meu pai tirando a minha imortalidade só pra me fazer voltar pro Inferno. - Eduarda debochou, desviando o olhar.
A mãe se aproximou devagar, colocando o rosto da filha entre suas mãos.
Eduarda baixou a guarda e fechou os olhos.
- Seu pai não fez nada disso, Duda... - A ruiva abriu os olhos, curiosa. - Mas isso você tem que descobrir sozinha. E algo me diz que você já tem uma ideia... - A mãe, sábia, sorriu em cumplicidade vendo a expressão surpresa da filha.
E Eduarda sabia mesmo o que a deixava vulnerável, só não fazia ideia do motivo.
- É, talvez...
Então Violeta começou a puxar Eduarda pela orelha até a cama enquanto a ruiva resmungava diversas expressões de dor.
- Eu não acredito que você tá acordada esse horário e bebendo! - Dizia desacreditada, ainda segurando a filha pela orelha. - Agora você deita nessa sua cama enorme e dorme que amanhã a gente conversa!
Mas Violeta sorria, e Eduarda escondeu um sorriso também. Sentiu falta daquele...instinto materno.
***
O dia em LA amanheceu ensolarado e deixando a noite anterior distante demais.
Lorena fazia o café enquanto deixava Gabi dormir mais um pouco antes da aula. Queria deixar a menina faltar aula, mas precisava trabalhar e não podia mais contar com Maggye. Sentiu a raiva subir só de lembrar o nome da ex.
Continuou pegando uma caixa de suco na geladeira, mas assim que colocou na mesa, ouviu a porta dos fundos se abrir.
As únicas pessoas que entravam por ali, sem serem convidadas e de forma abrupta demais, eram Eduarda e...ah não.
Lorena se virou para a porta na mesma hora que a possibilidade passou pela sua cabeça.
- Minha filha!!! - Zenilda sorriu de orelha a orelha, se aproximando em passos largos.
Lorena quase não teve tempo de sair de trás da mesa quando a mãe a prendeu em um abraço apertado. A detetive retribuiu em reflexo, mas ainda confusa.
- Mãe?
- Meu Deus, mas já está agindo como se eu fosse uma desconhecida? - Zenilda, se afastando do abraço, perguntou bem humorada. - Senti saudades, meu amor.
Antes que Lorena pudesse falar qualquer coisa, a voz de Gabi apareceu seguida de pequenos passos rápidos na cozinha.
- VOVÓ!!! - A menininha gritou se jogando nos braços da mais velha, que a agarrou com força e rodou com ela no ar.
- Amor da vovó, que saudades eu tava de você. - Zenilda disse de olhos fechados enquanto a detetive observava, ainda tentando entender a presença da mãe.
Zenilda viajava muito por conta do trabalho, costumava visitar a filha e a neta em ocasiões especiais, ainda mais em memória de Leonardo, o pai de Gabi, filho de Zenilda e irmão de Lorena.
A detetiva tentou se lembrar de alguma data que fizesse a mãe chegar ali sem avisar, e a única próxima era o aniversário de falecimento de Léo e da esposa, Viviane, no acidente de anos atrás. Até fazia sentido Zenilda estar presente naquele momento, mas a mãe costumava avisar.
- Gab, vai colocar seu uniforme pra mana falar com a vovó, pode ser? - Lorena pediu à pequena, que acenou em concordância e correu para o quarto.
Zenilda observava a cena com o coração na mão, vendo a filha desempenhar o papel de mãe.
A mais velha se sentia culpada por não assumir a guarda de Gabriela depois do falecimento do filho e da nora, afinal seu trabalho exigia muito tempo disponível e muitas viagens. Se lembrava de Lorena quando criança, reclamando de como fingir ser mãe de bonecas era chato, desde sempre sendo questionadora e com o coração ativista. Nunca quis se casar, até entender que poderia fazer isso com uma mulher, e filhos nunca tinha sido um assunto recorrente. Até o acidente. Até Lorena assumir Gabriela, recém nascida, e virar uma tia, que se chama de irmã, mas desempenha o papel de mãe. Zenilda se orgulhava muito da filha, e enchia o seu coração de amor vê-la como mãe.
Lorena, vendo a expressão de quase choro da mãe, se aproximou.
- Mãe, tá tudo bem?
Zenilda fungou e se virou para a filha, concordando com a cabeça. Abriu um sorriso radiante.
~e
- Tá tudo ótimo, é só que...é lindo te ver assim com a Gabi.
Lorena suspirou e sorriu também, passando as mãos pelos cabelos da mãe.
- Quer tomar café com a gente? Ainda precisa me contar porque não avisou que vinha. - A detetive puxou uma das cadeiras da mesa, oferecendo para a mais velha, que se sentou.
- Vou só tomar um suco, já comi no aeroporto, ai vim direto.
Lorena se sentou na cadeira ao lado, se virando de frente para a mãe.
- Tem algum trabalho por aqui? - A voz era casual, mas tinha uma pontada de fragilidade no fundo. Sentia falta de ter a mãe por perto, já que vivia apenas com Gabi. Durante um tempo ainda teve Maggye, mas agora só o nome da ex lhe causava enjoo.
- Cancelaram um evento e me deram uma semana de folga. Vim visitar meus bebês. - Zenilda explicou, em seguida suspirou. - E também não queria ficar sozinha no dia que completar mais um ano do acidente... - A mais velha desviou o olhar e Lorena acariciou as costas da mãe, sentindo a dor.
Tinham perdido a mesma pessoa, ao mesmo tempo que perderam pessoas diferentes.
Ainda era o Léo, mas Zenilda perdeu o filho, Lorena perdeu o irmão. SItuações tão iguais, mas tão diferentes...se apoiavam, mesmo sabendo que nunca conseguiriam se ajudar completamente.
- É... - A mais nova suspirou. - E você vai ficar em um hotel?
Zenilda pareceu despertar, saindo dos pensamentos anteriores.
- Ah, é...eu ia pegar um quarto em algum hotel em Mid Wilshire. - Se serviu de um copo de suco de laranja.
- Mãe, por que não me pediu pra ficar aqui? - A filha sugeriu. - Tem um quarto vazio, e eu passo boa parte do dia fora.
- Ai, meu amor, eu não queria te atrapalhar. - A mais velha se defendeu.
- Cancela a reserva, fica aqui.
- Mas e a sua vida privacidade?
- Você é minha mãe. - Lorena riu e a mãe acompanhou, pensando que as vezes se esqueciam desse detalhe. - E vai ser bom deixar a Gabi um pouco com você.
- Ai, já me ganhou. - Zenilda comentou e a detetive fez uma falsa expressão de ofensa, sugerindo que a mãe tinha mais interesse na neta. - Brincadeirinha.
- Eu até ia deixar a Gab faltar aula hoje, tivemos um dia daqueles ontem mas não ia ter com quem deixar ela. - Lorena se ajeitou na cadeira.
- Mas é claro que eu fico com a minha menininha. - Zenilda nem precisou pensar duas vezes. - Depois você vai me contar o que aconteceu de tanto ontem, mas agora vem cá... - Se aproximou da filha, diminuindo o tom de voz. - A Maggye não tava vindo buscar a Gabi?
Lorena se levantou revirando os olhos, fingindo que iria pegar alguma coisa nos armários só para desviar do assunto.
- Não toca nesse nome. - A detetive pediu.
Zenilda fez uma careta.
- Brigaram de novo?
Lorena riu, completamente sem humor.
- Foi a gota d'água, mãe. - A detetive voltou para a mesa, mas não se sentou.
- Tá, entendi que não é uma boa hora. - Levantou as mãos, se mostrando inocente. 2 segundos depois, abriu uma expressão maliciosa. - E tá saindo com alguém?
Lorena abriu a boca, surpresa com a pergunta e pronta para negar. Assim que foi falar, uma voz interromepeu.
- A Lore tá namorando a tia Duda. - Gabi se meteu na conversa, aparecendo sem perceberem a presença dela. Já vestia o uniforme, mas a camisestava estava ao contrário e os cabelos desajeitados.
Zenilda virou de Gabi para Lorena com a expressão mais curiosa e boquiaberta possível. Lorena gaguejou e se desesperou para explicar.
- Eu não tô namorando ninguém, ok? - Disse enquanto alternava o olhar entre as duas, e repreendendo a pequena.
- Mas você gosta muuuiiitttoo dela. - A menininha gesticulou. - Lembra que você disse que até atirou nela? - Gabi não fazia ideia da enrrascada que estava colocando Lorena.
Zenilda tinha os olhos brilhantes até ouvir a última frase.
- Como assim você atirou na sua namorada?
Lorena segurou um grito frustado e passou as duas mãos no rosto, depois mexeu nos cabelos buscando paciência.
- EU NÃO NAMORO A EDUARDA!! - Disse em alto e bom tom, apontando para as duas buscando que elas entendessem.
Gabi começou a rir enquanto Zenilda escondeu um sorriso.
Mas como tudo que é ruim pode piorar, a porta dos fundos voltou a se abrir. E se uma das duas pessoas que entravam por lá era sua mãe, então só poderia ser...puta que pariu.
- Eu ouvi meu nome. - Eduarda surgiu na cozinha, pegando uma torrada e mordendo antes de olhar para as mulheres.
- Tia Duda!! - Gabi correu até as pernas da ruiva, que tentou fugir e desgrudar a menina de si.
Lorena poderia ter enfiado uma faca no próprio peito. Pensou em enfiar na cabeça assim que viu a mãe desviando o olhar de Eduarda para a filha, sem parar.
- Nossa, detetive, não tem nem uma manteiguinha pra passar na torrada? - Foi dar um passo até a mesa, mas estagnou assim que viu a mulher mais velha sentada ali, olhando para Eduarda com curiosidade demais.
- Ah, oi! - A ruiva sorriu.
Zenilda se levantou, analisando a mulher de cima a baixo com um sorriso impressinado nos lábios.
- Nossa, minha filha. Que mulher elegante... - Olhou diretamente para o rosto da ruiva. - e muito bonita.
Eduarda deixou a confusão de lado assim que ouviu os elogios.
- Ah, muito obrigada! Todas falam isso. - Lorena revirava os olhos pensando em se jogar da janela baixa. - Inclusive hoje demorei pra sair de casa porque fiquei 2 horas vendo fotos minhas. Ai fui no banheiro e o espelho me roubou toda a atenção.
Zenilda fez um breve sinal de concordância com a cabeça, como se aprovasse algo.
- E tem senso de humor. - Definiu. - Por que nunca me disse dela, Lorena? - Zenilda perguntou diretamente para a filha, que tinha a expressão estressada e envergonhada ao mesmo tempo.
Suspirou vendo a mãe esperando uma resposta e Eduarda da mesma forma, ainda com a torrada na mão e um sorriso convencido no rosto. Nem viu Gabi subir em uma cadeira e abrir o freezer saqueando um pote de sorvete.
- Mãe, essa é a Eduarda, minha parceira de trabalho. - Disse entredentes, buscando uma ajuda divida. - Eduarda, essa é minha mãe, Zenilda.
A ruiva depositou toda a sua atenção na mais velha, impressionada.
- Mas olha só...que genética boa, detetive. - Zenilda adorou a atenção. - Sua mãe parece até a sua irmã, uau!
Lorena quase se enfiou debaixo da mesa.
- Ok, já deu, né? O que veio fazer aqui? - Cruzou os braços, questionando a ruiva.
Eduarda se lembrou o motivo de estar ali. Sua mãe, Violeta.
Acordou e ficou de bobeira na cobertura, quase se esquecendo da aparição surpresa da noite, afinal a mulher já não estava mais lá. Foi quando desceu e encontrou a mãe em uma das banquetas do bar, conversando com Celina, que tinha a maior expressão de confusão possível. Quando a loira viu Eduarda, a ruiva sabia que teria que dar explicaçõe, e pior...teria uma conversa com a mãe. Engoliu em seco e entrou no seu Corvette dirigindo até a casa de Lorena, buscando uma fuga em algum caso bem longe de sua casa e da boate...longe de Violeta.
Essa hora, até Paulinho deveria saber da notícia.
- Ah, então... - Riu, sem graça. - Vim te buscar pra gente resolver assassinatos, ué. - Deu de ombros e Lorena semicerrou os olhos, sabendo que a história estava mal contada.
- Você nem gosta de trabalhar. Vai, desembucha.
Eduarda desviou o olhar para a mãe de Lorena, que assistia à interação. A detetive, constrangida, puxou a ruiva para um canto mais afastado.
- Vai, me conta. - Cruzou os braços. - Sei que você adora invadir a minha casa mas também sei que você tá escondendo coisa.
Eduarda suspirou, contrariada.
- Parece que o dia das mães chegou mais cedo, detetive. - Lorena não entendeu. - Minha mãe apareceu na minha casa ontem de noite e quer conversar comigo.
Aquilo surpreendeu a deteive, já que Eduarda não falava muito da família. Parece que não foi só ela que recebeu uma visita materna do mais absoluto nada.
- É, mas não tem nenhum caso agora. Vai ter que conversar com a sua mãe. - Lorena definiu.
Então Zenilda, de longe, chamou as duas.
- Lorena, não precisa esconder que está namorando essa linda mulher, minha filha. Podem conversar na minha frente.
Lorena ficou mortificada enquanto Eduarda, mesmo confusa, começou a gargalhar.
A detetive puxou sua jaqueta da cadeira e em seguida arrastou Eduarda pelo braço até a porta da frente.
- É, aposto que deve ter algum assassinato precisando de investigação. - Abriu a porta e se virou para dentro, já jogando a ruiva para fora. - Mãe, cuida da Gabi e não deixa ela acabar com aquele pote de sorvete. - Gabi, escondida no balcão da cozinha, se levantou com a boca suja e com uma colher sabendo que foi pega no flagra, mas a irmã já fechava a porta. Assim, fugiu da situação e respirou fundo, aliviada.
Do lado de dentro, Zenilda sorria com sabedoria, achando graça da situação e rindo ainda mais da cara de Gabriela, a cara de criança que sabia que tinha aprontado.
Lá fora, no carro da ruiva, Eduarda encarava Lorena, curiosa.
- Que foi? - Questionou, colocando o cinto.
- Vai ter que me explicar o que foi aquilo lá dentro.
Lorena cerrou os dentes e fuzilou Eduarda com olhar.
- Dirige, Fragoso.
E Eduarda riu, mas obedeceu sem questionar mais.
***
Como se o universo colaborasse com as duas mulheres que dirigiam até a delegacia, um telefonema convocou as duas para uma cena de crime. Ambas suspiraram aliviadas assim que receberam a ligação, quase agradecendo por alguém ter sido morto naquele dia. Errado? Talvez, mas parecia melhor do que conversarem com suas mães. Enquanto mudavam o trajeto, Eduarda quebrou o silêncio.
- E o que deu da sua ex? - Perguntou olhando de relance para a detetive, pensando se aquele assunto não era muito ruim.
- A "detetive estúpida"? - Lorena respondeu olhando pela janela.
A ruiva fez uma careta.
- É, pra você estar usando o apelido que eu dei é porque a coisa tá séria...vou pedir os direitos autorais.
A detetive deixou um riso breve escapar e negou com a cabeça.
- Não sei ao certo ainda, mas aparentemente ela foi suspensa e vai ter que passar com alguns processos que eu não tô interessada em ir atrás. - O carro ficou silencioso por um momento, até Lorena se mexer no banco, desconfortável, e deixar sua indignação falar mais alto. - Aquela ridícula me viu passar por um Inferno por causa da porra daquele caso de Lennox e nunca me disse nada! Ela tava no meio daquilo tudo e me viu ficar sem parceiros, quase sem emprego, e continuou fingindo que ia me ajudar a resolver!! - Lorena esbravejava, e Eduarda se encolhia no próprio banco como se ela estivesse levando a culpa. Nem pensou em interromper para falar que o Inferno não era bem daquele jeito, apenas escutou como uma criança levando bronca da mãe. - Meu Deus, e eu ainda fui casada com ela...eu quase VOLTEI com ela! - Lorena queria se xingar, se bater.
- É, talvez isso tenha sido obra do meu pai. - A detetive direcionou um olhar fuzilante para a ruiva. - Ok, vou ficar quieta.
- E eu ainda não entendi como você pareceu levar um tiro, ficou com as roupas cheias de sangue, mas não tinha nem um arranhão! - Mais uma coisa que estava deixando a mais alta completamente indignada.
- Eu vou mesmo ter que repetir que eu sou o Diabo? - Eduarda olhou diretamente para a detetive, que apenas suspirou impaciente e desceu do carro assim que o veículo parou atrás de algumas viaturas. - É, acho que ela não quer ouvir... - Sozinha no carro, disse para si mesma antes de descer.
Adentraram a casa protegida por policiais e peritos, já acostumadas às cenas que viam. Eduarda, mesmo tendo trabalhado em poucos casos, já conseguia enxergar certos padrões nos crimes, e se orgulhava internamente, e silenciosamente, daquilo.
Lorena já tinha um olhar tão avançado que só de olhar para o corpo, para o ambiente por 10 segundos e para os suspeitos, já saberia montar toda a narrativa do crime.
O corpo, de um homem de aproximadamente 30 anos, estava em decúbito dorsal no tapete de um quarto simples, um quarto sem marcas de arrombamento assim como a porta de entrada e as janelas pelas quais Eduarda e Lorena passaram até o quarto. Mas ainda não poderia confirmar que o assassino tinha acesso à casa.
Flora apareceu, com sua câmera e maleta, pronta para passar as informações que já tinha e com o seu sorriso natural de sempre.
- OIII!!! - Abraçou Lorena e Eduarda como se fizesse aquilo todos os dias. E pior que fazia, com todas as pessoas que já achava ter virado amiga. - E aí, gente? Tudo certo? Fiquei sabendo daquele policial ontem de noite... - Fez uma expressão conspiratória. - Aquele cara devia ter passado a vida toda sem fazer uns rituais de limpeza de energia.
- É, deve ter sido isso sim. - A ruiva resmungou enquanto Lorena continuava passando os olhos pelo ambiente.
- Ai, é verdade! - Pareceu se lembrar de algo extremamente importante. - Eu descobri que a garçonete da sua boate também gosta de - se aproximou do ouvido de Eduarda para sussurrar. - Guerra nas Estrelas.
Eduarda segurou uma risada, sabendo que Celina guardava aquele segredo com unhas e dentes, mentindo até mesmo para a ruiva sobre gostar ou não.
Lorena, vendo a interação secreta sentiu um leve desconforto, mas ignorou.
- Prrefiro não saber como você descobriu isso.
Flora riu, mesmo não pegando o segundo sentido.
- Ela parece muito legal. Acha que ela toparia fazer uma maratona com doces e lua cheia? - A perita perguntou. - Sabe, é a primeira amiga minha que gosta de Star Wars.
Eduarda sentiu sua mente se abrir em um plano maquiavélico. Sabia que Celina odiava companhia, e que Flora a irritaria desde o primeiro segundo. Parecia perfeito para irritar a amiga, apenas pelo simples prazer do tédio.
- Acho que você pode tentar. Passa lá na boate, ela tá por lá. - Abriu um sorriso radiante. - Leva essas pedras malucas que você tanto fala pra ela.
Flora sorriu de orelha a orelha com a ideia, gostando de se aproximar de Celina como uma nova amiga.
- Você é genial, sabia?
Eduarda deu de ombros.
- Sabia, mas pode falar de novo que eu gosto de ouvir. - Flora realmente iria falar, mas Lorena interrompeu.
- Ok, já chega. - Se enfiou entre as duas. - O que descobriu, Flora?
A perita pareceu se lembrar do que fazia ali.
- Ah, verdade. Então - Se agachou do lado do corpo da vítima enquanto indicava o que falava com o dedo. - o rosto está intensamente congestionado, com coloração arroxeada. Tem algumas equimoses irregulares e escoriações, fora essas marcas de unhas que parecem ser tanto da vítima quanto do assassino. Tudo indica estrangulamento manual.
A verdade é que o jeito leve, animado e meio maluco de Flora escondiam o quanto ela era boa no que fazia. Não foi por acaso que, entre milhares de concorrentes, ela foi a aprovada para o cargo no departamento.
- Aposto 100 dólares que a família vai falar que ele não tinha inimigos. - Falou diretamente com a perita, enquanto Lorena fazia anotações mentais.
- Ah assim não vale, é aposta ganha. - Flora respondeu.
- Esse quarto tá bagunçado demais pra ser só desorganização... - Lorena começou a falar. - Tem coisas que não deveriam estar no chão...teve luta, a vítima tentou resistir. Só que...acabou estrangulada.
- Essa foi uma morte de perder o fôlego. - Eduarda comentou com as mãos no bolso. Flora riu e fez um hi-five com a ruiva, falando ter sido uma boa piada. Lorena revirou os olhos assistindo às duas brincarem juntas.
- Flora, acha que consegue achar DNA nas unhas ou na cena do crime? - A detetive perguntou.
- Nas unhas vamos tentar no laboratório, mas se foi mesmo alguém conhecido, o DNA em alguma coisa no quarto não vai ser o suficiente para comprovar nada.
Lorena suspirou, sabendo que era verdade.
Eduarda começou a olhar os livros em uma das estantes do quarto, e exclamando em empolgação quando viu uma trilogia. Levantou para que as duas mulheres vissem também.
A detetive apenas ignorou, mas Flora começou a rir.
- Safadinho. - A perita disse.
Era a trilogia de 50 tons de cinza.
- Tá, quem achou o corpo? - Lorena, profissional, perguntou para um dos policiais ali perto.
- Foi o irmão dele. - Apontou para a sala, onde mais membros da família estavam sentados em um dos sofás. - A família toda chegou ao mesmo tempo.
Eduarda se aproximou da detetive, vendo um pequeno sorriso nos lábios de Lorena.
- Você geralmente odeia quando tem muitos supeitos de uma vez... - A ruiva estranhou.
- Perfeito. - Lorena comentou. - Mais tempo longe das nossas mães. - Soltou uma piscadinha para Eduarda, que parou pra pensar que realemnte fazia sentido.
Determinadas a passar a tarde toda ali, começaram a caminha até a sala com uma paciência inabalável. Mas não por muito tempo.
Um policial entrou correndo na casa.
- Ferette. - Chamou pela detetive, que se virou para ele. - O vizinho da frente acabou de confessar.
Lorena e Eduarda tiveram as expressões de empolgação arrancadas de uma vez, até os ombros caíram em desânimo.
- Ah não! - Reclamaram ao mesmo tempo. Parecia até cômico.
Uma hora depois, já tinham encontrado gravações das câmeras da rua mostrando o vizinho entrando na casa na hora do crime e saindo atordoado. O motivo, pelo que ele disse, eram dívidas de apostas. Uma cobraça que escalonou para uma briga e um estrangulamento. O vizinho acreditou que a vítima tinha apenas desmaiado, mas depois que viu a polícia chegar percebeu que tinha o matado.
Lorena cuidava do processo decepcionada, pensando que teria que encarar a mãe. Eduarda pegou de volta os livros na prateleira e começou a ler páginas aleatórias, sem conter algumas risadas.
Nada tinha corrido como o planejado. Quando todos se dispersaram, Lorena e Eduarda ficaram sozinhas sem saber o que fazer.
- É, parece que o universo tá conspirando pra reuniões famliares...fazer o quê? - A detetive aceitou, resignada.
- Fale por você. Acabei de conseguir um horário com a minha terapeuta e vou fazer hora lá. - Deu de ombros, vendo Lorena se indignar.
- Achei que estivéssemos juntas nessa.
- Convenhamos...a conversa com a sua mãe é sobre você estar ou não namorando o Diabo. - A detetive corou na hora, não sabendo que a ruiva realemnte tinha ouvido um pedaço da conversa dela com Zenilda. - É, eu ouvi. - Respondeu à pergunta que a morena nem precisou fazer. - E, no meu caso, a conversa é sobre milênios no Céu, no Inferno e agora na Terra. Então, tô indo comer as balinhas de goma do consultório da Gerluce.
- Sendo que você deveria tratar dessa sua cabeça estranha. - Lorena debochou.
A ruiva olhou para o relógio em seu pulso, vendo que estava na hora.
- É, vou tentar não me atrasar dessa vez. - Abriu a porta de seu carro. - Quer carona?
- Não precisa, vou chamar um carro de aplicativo e passar no mercado pra fugir mais um pouquinho da dona Zenilda.
- Bom...ainda bem que eu não sou você. - A ruiva brincou e entro no carro enquanto Lorena, do lado de fora, negava com a cabeça com um sorriso nos lábios.
- Maluca...
***
Era verdade que Eduarda estava indo ao consultório para fugir de Violeta e para comer as balas de goma, mas claro que tinha um motivo a mais. Ainda precisava falar do dia anterior com Gerluce, como se a terapeuta tivesse todas as respostas do mundo e guardasse só para se sentir superior...ou para quem pagasse mais. Essa era a perspectiva de Eduarda, uma pessoa, ou Diabo, que não tinha a noção exata das coisas da Terra, coisas humanas...sentimentos. Sem saber que aquilo, sentimentos, não eram exclusividade da espécie humana, ela só nunca tinha sido ensinada sobre o que eram, como eram.
Eduarda ficou, pelo menos, 5 minutos em silêncio no sofá do consultório apenas devorando as balas dispostas em um pote de vidro na mesa de centro. Gerluce encarava, analista e curiosa, sabendo que a ruiva estava tentando esconder algo de si mesma e, consequentemente, da doutora também.
A última conversa delas tinha sido sobre a questão da vulnerabilidade, mas sabia que Eduarda não lidaria com aquilo da forma mais adequada. Já conhecia a paciente o suficiente.
- Tá bom, já chega. - Gerluce chamou a atenção de Eduarda que parou no meio de uma mordida na bala de goma. - O que aconteceu?
Eduarda não mentia, mas também não contava tudo.
- Adoro essas balas. Grudam no dente mas é divertido. - Desviou o olhar para os doces.
Gerluce arqueou uma das sobrancelhas, aguardando a vontade da paciente.
- Certeza que é só isso? - Instigou.
A ruiva ficou em silêncio por alguns segundos encarando a terapeuta, então respirou fundo e encostou as costas no sofá.
- Bom, vamos ver...ontem eu descobri que a detetive não é um anjo enviado pra minha destruição, aí a gente, sei lá, se beijou? Então a pirralha dela foi sequestrada por um lunático, a ex dela mostrou que era mesmo uma canalha estúpida, eu morri, voltei pro Inferno, falei com o meu pai de forma unilateral, renasci e aí minha mãe apareceu. - Eduarda falou rápido até demais, despejando aquele tanto de informações sem contexto no colo da terapeuta, que tentava escutar com calma tudo que a ruiva falava. - Foi isso, resumindo bem o resumo.
Eduarda foi pegar mais balas a fim de ocupar a boca para não precisar responder mais nada, mas Gerluce, ainda com todas as engrenagens em sua cabeça rodando em potência máxima para entender tudo, fechou o pote de doces quase nos dedos de Eduarda e encarou diretamente a ruiva.
- Vocês se beijaram? - Estava quase boquiaberta. Sabia exatamente que Lorena era um interesse de Eduarda, mesmo que a própria ruiva não soubesse dizer isso. Sabia que a conversa sobre vulnerabilidade pudesse abrir janelas na mente da paciente, mas nunca esperaria que ela realmente fosse fazer grandes gestos. Poderia apostar que Eduarda fugiria, mas um beijo? Essa era nova. - Como????
- Sério que você só ouviu essa parte? - Resmungou. - Sei lá, doutora, não foi um beijo beijo. - Gesticulou. - Tipo, geralmente com as mulheres eu faço bem mais coisas, você sabe bem disso.
Gerluce corou, mas ignorou.
- Foi ou não foi um beijo?
- Ah, foi um selinho só. - Tentava convencer a si mesma disso, afinal nunca se sentiu tão afetada nem com beijos longos ou coisas mais íntimas, mas aquele simples selar de lábios contestava tudo o que Eduarda achava que era. Tudo o que já tinha visto em toda a sua existência.
- E isso importou? - Gerluce fez a pergunta de ouro.
Não quis responder.
- Você ouviu eu falando que morri, fui pro Inferno, falei com Deus, voltei a viver e minha mãe, a deusa de toda a criação, apareceu na Terra? - Cruzou as pernas e deixou as mãos em cima dos joelhos, desviando o assunto.
Gerluce respirou fundo, buscando paciência.
- Tá, por favor, traduz. Eu não consigo entender essas suas metáforas.
Eduarda trincou o maxilar.
- Não são metáforas, doutora. - Disse entredentes. - Eu fui ajudar a detetive com o policial psicopata, e como eu fico vulnerável perto dela, ele atirou em mim e eu tava quase morrendo, então tive que pedir misericórdia para Deus, meu pai, e acabei voltando ao Inferno por alguns minutos. Aí ele me deu o prazer da vida novamente, em troca de algo que ele não disse, afinal falar comigo parece ser um grande problema pra ele, mas a principio tinha sido a vida da detetive, sei lá. Depois desse dia infernal, quase que literalmente, minha mãe veio atrás de mim.
A terapeuta fechou o caderno que segurava, suspirando em busca de um milagre. Não conseguia entender a ruiva, cada sessão parecia mais impossível. Não conseguiria fazer o seu trabalho daquela forma. Mas Eduarda, olhando para uma das paredes, começou a se mostrar mais frágil e voltou a falar.
- Eu não sei, sabe? Aconteceu tanta coisa na minha família maluca antes de eu acabar no Inferno...nunca mais vi ninguém além do Paulinho. Agora minha mãe aparece, reabrindo essa parte da minha vida na Cidade Prateada, aí meu pai me responde e...e ainda tem a Lorena... - Seu olhar estava perdido, estava começando a abrir seu coração pela primeira vez. Estava um pouco trêmula, mas não conseguia mais seguras aquelas palavras. - Eu achava que eu queria aquilo...que eu queria comandar o Inferno. E então, eu fugi pra Terra, pra Los Angeles. Conheci uma pessoa que parece ser a única que pode me destruir e eu não sei o motivo, e aí minha mãe aparece só porque eu morri por alguns minutos. Eu não entendo, dout-
Gerluce interrompeu, já impaciente.
- Eduarda. - Chamou, sem humor algum. - Eduarda! - Chamou mais alto, fazendo a ruiva olhar.
- Oi. - Estava perdida em devaneios.
A terapeuta levantou as duas mãos em impaciência, quase em rendição.
- Não dá, eu achei que eu conseguia, mas não dá. - Desabafou e Eduarda franziu o cenho em confusão. - Eu não consigo te ajudar quando você fala em metáforas que só você entende!!!
- Mas doutor- foi interrompida.
- Não Eduarda, se você não começar a me falar toda a verdade, eu não vou mais poder ser a sua médica. - Eduarda abaixou os ombros, surpresa. - Eu quero entender, quero mesmo. Eu quero te ajudar! Mas eu preciso da verdade, Eduarda. Preciso que seja completamente honesta comigo sobre quem você é.
Gerluce estava dando toda a abertura, e a ruiva começou a entrar em um conflito interno. Sempre dizia para todos que era o Diabo, mas no fundo sabia que ninguém acreditava e continuava falando mesmo assim. Mas agora, que tinha a chance de provar, sentiu...medo? Medo de ser rejeitada, medo de ser vista como um monstro...por quê? Aquela era ela de verdade, era o que pensava. O Diabo no sentido mais literal da palavra. E falava aos 4 ventos sem preocupação, mas naquele momento pareceu sério demais.
- Completamente honesta? - Frágil, perguntou. - Tem certeza?
A terapeuta achou que Eduarda estava pronta para o que estava por vir. Acreditava ser só histórias complicadas de família ou metáforas usadas em autodefesa...
- Tenho! É disso que se trata as nossas sessões. - Abriu um sorriso acolhedor. - Nosso relacionamento inteiro é sobre quem é a verdadeira Eduarda Fragoso. Sem mentiras, sem metáforas.
Eduarda concordou com a cabeça, engolindo em seco e indo um pouco mais pra frente.
- Tudo bem...respondeu, relutante, mas fixou seus olhos nos de Gerluce.
A doutora achou que Eduarda começaria a contar a história de sua vida, mas o que veio em seguida fez o mundo inteiro congelar e seu estômago ir no chão. Quando viu o rosto de sua paciente se transformar em uma face vermelha, cheia de cicatrizes acinzentadas como os corredores do Inferno, e os olhos brilhando como fogo, se sentiu grudar na cadeira e perder o movimento das mãos. A boca permaneceu fechada e os olhos fixos e imóveis no rosto infernal, mas sem parecer vê-lo.
Medo, Eduarda pensou.
Viu a terapeuta tremer involuntariamente, e sentiu seu próprio coração chegar próximo de se partir.
Era um monstro.
Limpou uma lágrima que insistiu em cair e se levantou depressa, saindo do consultório e batendo a porta com força.
Do lado de dentro a terapeuta continuava igual, em estado total e completo de choque. Pânico.
Dirigindo seu Corvette na maior velocidade possível, sentia ódio de si mesma. Se sentia idiota, estúpida, monstruosa...assustou a pessoa que mais a ouvia. Viu o medo na alma de Gerluce. Queria apagar a imagem de sua mente, e tão socou o volante diversas vezes em um ódio descomunal.
Então, chorou. Soluços e gritou odiando a pessoa que era. O vento que batia em seu rosto, no carro conversível, secava em vão as lágrimas que não paravam de cair.
Era o pior dia de sua vida. Preferia ter morrido na noite anterior e permanecido no Inferno.
***
Em outra parte da cidade, Lorena chegava sorridente colocando as compras do mercado na mesa da cozinha, vendo a mãe e a irmã brincarem na sala. A casa estava mais vivida, a TV ligada em algum desenho infantil trazia sons misturados com as risadas das duas mulheres mais importantes de sua vida. O ambiente era mais caloroso e acolhedor.
Se lembrou de buscar a pizza que havia pedido e colocado a opção de retirada no balcão. Foi até seu carro para dirigir por poucas quadras até a pizzaria, ainda com um sorriso estampado nos lábios e agradecendo por aquele momento em família.
Na cobertura, Eduarda chegou destruída. Os cabelos um pouco bagunçados pelo vento, o rosto mais pálido do que o comum e as roupas arruinadas por amassados que nem ela saberia dizer de onde apareceram.
Passou pela boate cheia e viu algumas pessoas conhecidas, passando direto por todas. Jurou ter visto Flora, a perita, falando com Celina enquanto a loira forçava uma expressão de tédio, mas que em outros momemtos Eduarda teria certeza de que ela estava gostando da conversa.
Agradeceu por chegar ao seu quarto e não encontrar ninguém. Agradeceu por não ver a mãe ao mesmo tempo que agarrou a si mesma, imaginando os braços da mais velha a confortando naquele momento.
Tudo estava péssimo, então, pra piorar, a porta do elevador se abriu.
- Vai embora. - Mesmo sem saber quem era, Eduarda advertiu sem se virar, agarrada em cobertores e travesseiros olhando a cidade pela janela imensa.
- Duda... - Era a voz de Celina. Mas o tom era relutante, um pouco falho.
Eduarda se virou devagar, pronta para mandar a amiga embora, mas então viu Flora ao lado dela com o rosto pálido olhando para o celular que segurava.
Eduarda sentiu que tinha algo errado e se sentou de uma vez na cama, engolindo em seco.
Flora levantou os olhos do celular devagar, pensando em como falar.
- O que aconteceu? - Eduarda perguntou, trêmula e confusa.
- A Flora recebeu uma mensagem da delegacia... - Celina começou, devagar e desconfortável.
O ambiente pareceu 10°C mais gelado quando ouviu aquilo.
- Lorena... - Eduarda sussurrou, arregalando os olhos e olhando de uma para a outra.
- Eduarda... - Flora começou. - a Lorena sofreu um acidente de carro.
