Chapter Text
Depois de se aprontar para dormir, Yor estava sentada na beira da cama, pensando em tudo o que aconteceu naquela noite. A ligação inesperada, a notícia excelente, o banquete que parecia ter saído de um restaurante chique, a alegria da Anya chamando-a de mamãe, Loid sendo divertido com o amigo, sendo atencioso com Anya…
Ela sentiu seu coração aquecer com as lembranças.
– O Loid é um pai maravilhoso.
O telefone tocou novamente – Será que é o Yuri? Tem uns dias que ele não liga, coitado. Deve estar sobrecarregado com o trabalho.
Ela caminhou até a sala e atendeu o telefone
– Alô?
– Oi, Yor. Eu te acordei?
– Loid? Não, eu ainda não tinha ido dormir. Aconteceu algo?
– Não. E sim. Não é nada demais, é só um convite.
– “Outro convite?” – Pensou ela. – Pode falar.
– Bem, a Anya me pediu um presente como recompensa, e por influência do Franky, ela me pediu um castelo.
– Um castelo? Como você vai dar um castelo de presente a ela?
– Eu não vou. Soube que está tendo uma exposição em um Palácio da antiga família real de Ostania, e resolvi levá-la amanhã. E ela quer que eu te convide, porque, segundo ela, uma princesa precisa de uma rainha. – Ele sentiu suas orelhas esquentarem ao dizer as últimas palavras. Yor também corou do outro lado do telefone, e ouviu uma gargalhada distante no fundo da ligação.
– Ahh, se a A-Anya quer que eu vá, então e-eu aceito o convite. – A voz dela não tinha firmeza nenhuma e transparecia o grau de nervosismo em que ela se encontrava.
– Você não tem nenhum compromisso, não é? Não vou atrapalhar você?
– Não, não, imagina, Loid. Eu estou livre amanhã.
– Então, posso te buscar às 14 horas?
– Pode sim.
– Então, combinado. Amanhã a gente se vê. Boa noite, Yor.
– Certo. Boa noite, Loid.
Ela jurou ter ouvido Loid gritar irritado o nome do amigo antes de desligar o telefone. E ela estava certa. Franky provocou Loid durante a ligação, o que o deixou irritado.
– Qual é o seu problema, Franky?
– Você é tão piegas. Falou exatamente as palavras que sua filha disse pra ela. Você tinha que ver a sua cara, você ficou tão constrangido que suas orelhas ficaram vermelhas – ele soltou outra gargalhada.
– Não acorde a Anya. – Ele estava com as pontas das orelhas vermelhas de novo. – A Anya me faz viver tantas coisas que eu não gostaria.
– Talvez você precise viver um pouco de aventura. Você faz tudo por ela porque ela é o seu mundo, Loid. E ela tem sorte em te ter como pai.
Franky podia ser irritante, mas era a pessoa a quem Loid confiava segredos. Ele era um amigo que o fazia ver as coisas como elas são. Ele via além do que Loid poderia perceber.
*******
Loid havia terminado de pentear os cabelos de Anya e colocar seus enfeites de cabelo preferidos, que combinavam com os chifres de sua pelúcia que ela chamava de "senhor quimera”.
– Tô pronta! Obrigada, papai.
Ela usava um vestido branco com pequenas flores azuis, com mangas curtas bufantes, e uma calça capri branca por baixo.
– Olha, a gente tá combinando. O papai tá de azul também! A mamãe tem que ir de azul! Vai ser o reino azul da princesa Anya! – ela levantou os bracinhos, mostrando sua animação.
– Não sei o que a Yor vai usar, então não espere que ela vá de azul.
Loid usava uma calça cor caqui de sarja de algodão, uma blusa branca e uma camisa social azul com os botões abertos por cima.
A conversa entre pai e filha foi interrompida por alguém batendo na porta.
– Descabelado.
– E aí, criança.
– O que você tá fazendo aqui? Você sabe que a gente vai sair – Loid parecia irritado.
– Vocês iam sem mim? Eu que dei a ideia e vocês iriam me deixar de fora?
– Eu que pedi um castelo.
– Mas você queria só um pacote de amendoim.
– Tá Franky, você vem. Vamos logo. A Yor tá esperando.
******
Yor não sabia o que vestir.
– Não posso usar o vestido de festa. Nem o que Loid me deu, eu não quero que ele me entenda mal. Tenho que levar em conta que hoje está muito quente, e eu posso acabar desmaiando com essas roupas quentes. Por que eu tenho pouquíssimas roupas?
Ela puxava roupa por roupa que estava pendurada no cabide, sem tirar de dentro do guarda-roupa. Até que seu dedo tocou em um vestido que ela nunca usou. Era um vestido antigo, uma recordação. Ver aquele vestido trouxe boas lembranças, mas ela nunca ousou usar o vestido que pertenceu à sua mãe.
– Mas talvez… – Ela puxou o cabide e olhou o vestido de linho, que agora parecia um pouco gasto, comparado à época em que ela o guardou.
O vestido tinha um tom bege, meio amarelado, com um decote coração discreto, mangas três quartos com pequenas flores brancas e douradas bordadas nelas e botões forrados. Era levemente ajustado na cintura, e o comprimento da saia, que era fluída, ficava entre o joelho e a panturrilha, tendo um leve babado na ponta. Havia um bordado branco detalhado no acabamento da gola e dos punhos.
Ela o vestiu delicadamente, e ao se olhar no espelho, lembrou de quando era a mãe que estava dentro dele. Ela alisava o tecido com cuidado, pensando se deveria sair assim. Foi quando ela ouviu alguém batendo na porta. Ao atender, foi surpreendida por Loid e Anya.
– Loid? Que hora é essa? – ela se esticou e olhou para o relógio na parede – Ai não, nem vi que já estava na hora que marcamos.
– A mamãe não tá de azul.
Para Loid, que estava paralisado, Yor estava brilhando com a luz do sol entrando pela janela do apartamento, bem atrás dela, e sua mente estava em pane – “Yor está muito bonita neste vestido. Não de uma maneira comum, como outros achariam. Mas de uma maneira que eu não… entendo” – Ele engoliu a seco – Deixa a Yor usar o que ela quiser, Anya.
– Só vou pegar minha bolsa e já venho. – Ela entrou correndo pegou a bolsa, se olhou no espelho e viu que não tinha feito seu penteado preso. – Não acredito que vou ter que ir de cabelo solto – Naquele momento ela viu como estava parecida com a mãe.
Correndo para a sala, ela disse sorrindo
– Pronto. Vamos?
Anya segurou a sua mão, e enquanto elas andavam, ela disse – O vestido da mamãe é muito bonito, mesmo não tendo nem uma gotinha de azul. – Yor sorriu e respondeu – Também acho ele muito bonito.
Loid as observava enquanto caminhava atrás delas. Mas saiu desses pensamentos quando lembrou que Franky já devia estar impaciente os esperando no carro.
******
– Aqui não é um castelo.
– Não, mas é um lugar onde as princesas moraram.
– Princesas moram em castelos. O Bondman salvou a princesa Honey da torre gigante do castelo.
Loid se abaixou, ficando da altura dela – Mas ali é só um desenho. Princesas de verdade moram em locais como esse, Anya.
– De verdade, papai?
– Sim, de verdade. Vamos entrar?
– Vamos!
A entrada para visitação do Palácio era em uma pequena bilheteria que ficava na entrada lateral do prédio. Eles compraram os ingressos e entraram. O local era imponente, com grandes lustres, mobília luxuosa, grandes pilastras com capitéis cheios de pequenas esculturas. As paredes eram forradas não com papel de parede, mas com tecidos estampados.
Eles viram pinturas de membros da família real nas paredes, esculturas, bustos, instrumentos musicais, como um enorme piano de cauda marrom que Anya queria tocar. Também haviam manequins com trajes que as pessoas usavam no dia a dia no Palácio, até mesmo as roupas dos empregados.
– Esse vestido é da mesma cor do seu, mamãe.
– Olha, é verdade. – Yor se aproximou do vestido exposto e o observou – Ele também tem pequenos bordados, mas não de flores.
– A mamãe usa roupa de rainha!
Yor sentiu o rosto esquentar ao ouvir as palavras da menina.
Do outro lado da sala, estavam os trajes reais. Os olhos de Anya brilharam e ela saiu correndo em direção a eles. Os manequins estavam sentados em duas grandes poltronas, e vestidos com roupas chamativas, de tecidos caros, e uma manta púrpura cobria os ombros da “rainha”.
– Cara, que coroa bonita é essa! – Franky se aproximava para olhar para os detalhes da coroa, incrustada de pedras preciosas e com camurça vermelha na parte interna. – Olha o cetro do rei! Isso aqui brilha mais do que o sol!
Ele e Anya estavam bastante animados, pareciam duas crianças se divertindo. Loid os observava conversando, com os braços cruzados sob o peito, quando Yor se aproximou dele.
– As vezes sinto que tenho dois filhos. Nem parece que ele é mais velho que eu.
Yor sorriu – Ele anima bastante a Anya. Ela deve gostar muito de ter ele como tio.
– Papaaaaai! – Anya correu em direção ao pai com os braços abertos e abraçou a perna dele. – Você é um rei, papai. E eu sou a princesa.
Ele se abaixou e a carregou – Eu sou, é?
– É sim.
– Se você é a princesa e seu pai é o rei, quem é a rainha? – Franky tinha um tom provocativo na voz, e Loid percebeu.
– Mamãe. A mamãe é a rainha. – ela olhou para Yor, que acabou de perceber que a menina não se referia a mãe de verdade. – A mamãe é muito bonita como uma rainha. O reino da princesa Anya tá completo!
Loid sentiu o rosto esquentar, e quando ele olhou para Yor, as bochechas dela estavam levemente rosadas. Franky quebrou o silêncio que se instalou entre eles.
– Se seu reino está completo, eu não faço parte dele?
– Você é o bobo da corte, Descabelado.
Loid e Yor riram com as palavras da menina.
– Ei! Você tá ouvindo muito o que seu pai fala.
******
Quando chegaram ao jardim principal aquecido pelo sol, que tinha arbustos baixos guiando o caminho pavimentado até uma grande fonte, Anya soltou a mão de Yor e saiu correndo.
– Ahhh! Uma fonte! E tem peixinhos!
– Cuidado, Anya! Não chegue muito perto. – Loid correu atrás dela. Ele notou que o jardim tinha árvores grandes em suas extremidades, arbustos baixos aparados na frente deles, e mais a frente, um labirinto de arbustos, mais ou menos da altura de Yor, que continha setas indicando o local correto a seguir para não se perder.
Ao olhar para trás, ele apreciou a arquitetura barroca do Palácio. Janelas bem dispostas em um prédio extremamente alto, com cúpulas em ambas extremidades. Ele estava absorto com a beleza do local. E ao abaixar o olhar, viu que Yor olhava para Anya e Franky na fonte e sorria. Era como se ela pertencesse à beleza do local.
– Papai! Uma torre! Vamos subir na torre, e você me salva, igual ao Bondman.
Ele virou instantaneamente em direção à filha – Eu sou um rei ou um espião?
– Um rei espião.
Ele riu, e perguntou – Quem quer subir?
– Por mim tudo bem – disse Franky.
– Eu topo – respondeu Yor.
– Vem, mamãe – Anya segurou a mão de Yor e elas foram andando na frente.
******
Dentro da cúpula, que possuía quatro janelas, Anya estava no colo de Franky, olhando a paisagem pela janela do fundo. O vento abundante fazia com que o calor que sentiam por subir as escadas se dissipasse. Loid e Yor estavam cada um em uma das outras janelas. Ela o olhava de soslaio, e resolveu se juntar a ele.
– Esse lugar é muito bonito – ela começou falando.
– É sim. Descobri olhando o jornal.
– A Anya está muito feliz.
– E você também.
Yor corou. – Eu não tenho muito tempo pra me divertir. O meu irmão tem trabalhado bastante ultimamente, então não tenho com quem sair.
– Sim, o seu irmão. Ele falou algo sobre mim?
– Ainda não consegui falar com ele, então não sei se o Dominic contou sobre você.
– Entendo. Espero que ele fique tranquilo depois que souber.
– Obrigada, Loid. Foi uma loucura essa ideia nossa, mas parece que está dando certo.
– Eu que te agradeço, Yor. A Anya está bem mais animada. Ela não para de falar sobre você em casa. Ela me disse que você é a amiga velha dela.
Yor deu uma leve gargalhada. O som da sua voz era suave enquanto ria, e Loid notou como ela ficou genuinamente feliz ao ouvir aquilo. O vento balançava os longos cabelos negros dela. – “Ela tem uma aparência maternal. Talvez seja por isso que a Anya chama ela de mamãe o tempo todo” – pensou ele.
– A Anya é um amorzinho. – ela direcionou o olhar para Anya, que agora estava voltada para o pai nos braços de Franky. Ele se aproximou e ela abriu os braços pro pai, que a carregou. Ela deu uma flor que tirou do jardim ao pai, igual à que ela tinha atrás da orelha.
– O bobo da corte e a rainha não ganham flores? – perguntou Franky.
– Eu só tenho duas mãos, Descabelado. Desculpa, mamãe.
– Não tem problema, eu dou a minha flor para a Yor.
Ao ver o pai dando a flor a Yor, Anya disse automaticamente – Vocês estão paquerando?
– O quê? Não estamos!
– Ahm? Não estamos!
Ambos responderam ao mesmo tempo, enquanto Franky ria da situação.
Loid limpou a garganta, colocando a mão fechada em punho sobre a boca, e disse – Está começando a escurecer. Melhor irmos embora.
E assim, entre reinos azuis, torres e flores, o dia de aventura da princesa Anya terminou.
