Chapter Text
A cabeça de Azula bate com força contra o chão de pedra.
O som é seco.
Um estalo abafado, seguido pelo silêncio.
E então o sangue.
Azul. Escuro. Ainda quente. Denso.
Ele escorre devagar da fenda aberta na lateral do crânio, se espalhando como tinta derramada, formando uma poça que cresce em círculos perfeitos ao redor dela. O cheiro metálico sobe junto, misturado ao cheiro de pó e medo.
Ela sempre foi um pouco cética sobre aquela história de que, na hora da morte, o cérebro te mostra um filme da sua vida.
Mentira.
Não tem filme nenhum.
Só tem frio.
Um frio que não é do mar. Muito menos é o abraço da água que ela conhece desde pequena.
É um frio que morde por dentro dos ossos. Frio que suga o calor da boca, dos dedos, das pálpebras.
Muito frio.
Tanto que a dor até some.
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— AZULA! —
A voz de Luck e Idia rasga o ar ao mesmo tempo. Desesperada. Quebrada.
Idia tenta correr.
Mas a cabeça pesa uma tonelada. A visão embaça nas bordas, como se alguém estivesse esfregando vidro sujo por dentro dos olhos. As mãos tremem tanto que ela nem sente os próprios dedos. O corpo travou. Paralisia de pânico.
Ela não consegue se mexer.
Por um segundo, os olhos nublados de Azula se abrem.
Encontram os de Idia.
Não há reconhecimento. Só cansaço. Só entrega.
E aí vem a lembrança.
Ortho.
O corpo dele caindo na frente dela. O sangue. O mesmo silêncio.
O estômago de Idia revira.
Ela vai vomitar, Setes.
Ela vai vomitar.
O ácido sobe, queimando a garganta, misturado com o pouco de pão que ela comeu horas atrás. O gosto é azedo, podre, e faz a cabeça girar mais rápido que o impacto.
— Idia! — Luck despenca do ar e começa a orbitar ao redor dela feito um cometa desesperado, batendo nas roupas, no cabelo, procurando corte, procurando por qualquer coisa que indicasse machucados graves— Qual é! Não desligue agora! Me olha!
Mas os olhos dela não focam.
Ao redor, as peças do jogo de xadrez rangem. Se arrastam. Cercam.
Pequenos cliques de madeira contra pedra. Um por um. Fechando o círculo.
— Merda... —
Pela primeira vez em muito tempo, o corpo pequeno de Luck treme. De verdade. Não de raiva. De medo. Aquele medo antigo, de criança, de não conseguir salvar ninguém.
Enquanto o pânico engole os dois, Guppy apenas observa.
Tranquilo. Quase entediado.
Ele está ao lado de Azula. Ao lado da poça azul que já alcançou a ponta do aquário.
— Quando eu era só um bebê — ele diz, com a voz mansa de quem conta história antes de dormir — minha mãe dizia que a melhor forma de começar o dia era com um balde de água.
Ele gira com aquário até Azula. O vidro se arrasta no sangue.
Mais perto. Mais perto do rosto pálido de Azula.
Sem pressa.
E então ele pula.
O corpo escorregadio corta o ar e cai para fora.
Toda a água do aquário desaba de uma vez na cara de Azula.
Um choque gelado.
A água se mistura com o sangue, dilui o azul, e escorre pelos lábios entreabertos dela.
A água bate no rosto de Azula e escorre de forma agoniante de se observar, a falta da sua respiração faz qualquer um duvidar de milagres.
Mas Guppy permanece tranquilo e até empolgado com a situação.
Por um segundo, nada.
Só gosto de sal, sangue e de vidro quebrado na boca.
E então arde.
Arde por dentro do crânio.
A poça azul em volta da cabeça dela ferve, borbulha, e começa a voltar para onde estava.
O sangue corre ao contrário, subindo pela fenda do osso, costurando a pele, fechando o buraco como se uma agulha invisível estivesse puxando tudo de volta.
Azula arqueia as costas no chão. Um som preso sai da garganta.
Não grito. Não é suspiro.
É simplesmente o som de um corpo lembrando como respirar.
Será que era assim a sensação de nascer?
O frio que tinha mordido os ossos dela some de repente, substituído por um calor que espalha dos dedos até a nuca. Quente. Vivo. Errado de tão certo.
O coração dá uma pancada. Outra. Outra. Outra. Outra.
Forte demais. Como se tivesse esquecido o ritmo e agora estivesse correndo para compensar.
Ela tosse. Água e sangue saem pela boca.
Pisca uma vez, duas para ter certeza.
A visão volta embaçada, cheia de luz branca, e a primeira coisa que ela vê é o teto rachado. A segunda é uma coisa embasada meio azul que deve ser a Idia, ainda branca de susto. (Mais pálida que o normal) E o pequeno bichinho felpudo orbitando-a.
E a última é Guppy.
Molhado. Tranquilo. Como se tivesse acabado de jogar uma bola cheia de água em alguém enquanto repõe a água do aquário com bolhas de sabão.
Azula leva a mão trêmula até a lateral da cabeça.
Não tem ferida. Não tem dor.
Só tem o cabelo colado, encharcado, e o gosto metálico que ainda não saiu da língua.
Ela ri.
É um som baixo, quebrado, meio histérico.
Porque por 10 segundos ela sentiu o frio da morte. E agora está viva e completamente encharcada
— ...Que droga de balde de água foi esse? — a voz sai rouca, falhando.
O corpo ainda treme, mas não de frio.
De choque. De alívio. De raiva por quase ter morrido.
Luck para no ar, boquiaberto.
Idia desabou de joelhos e começou a chorar e rir ao mesmo tempo de alívio.
E Guppy só inclina a cabeça.
— Minha mãe tinha razão — ele diz, animado e inabalável.
Azula fecha os olhos de novo por um segundo.
O coração ainda está acelerado. Mas bate.
Ela está viva. E isso é a coisa mais mórbida e mais bonita do mundo.
Porém!
O mundo não é somente peixinhos, água, e arco-íris, longe disso!
Durante esse pequeno intervalo sentimental, a peça da Rainha tinha tomado a frente novamente, pronta para vingar seu pequeno peão que havia sido brutalmente cremado.
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—Idia agora é finalmente o nosso momento — Lucky fala empolgado e com as energias renovadas, se abaixando para flutuar na altura de sua garota mágica.
O susto de ver Azula morta foi grande para ambos, mas se tinha um momento digno para se erguer era agora.
Idia ainda se recuperava, abraçando o próprio corpo enquanto tentava se recompor após o surto de risadas e lágrimas.
Levantar-se e lutar.
Ela precisava fazer aquilo, quando voltasse para o próprio dormitório poderia descansar e se isolar por um BOM tempo.
— Eu sei... — Ela finalmente se ergue, respira fundo enquanto decide não olhar para a sua amiga no momento.
Ainda estava atordoada e precisava ficar com a sanidade em níveis altos.
— É a minha vez de jogar agora —
Colocando a ponta do sapato metálico no chão e arrastando para o lado, faíscas tão azuis quanto o fogo de Grim surgem, formando labaredas de fogo tão altas quanto as paredes da sala modificada.
Uma barreira circular simples, mas eficiente o suficiente para ganhar tempo.
— Luck... Hora de trabalhar. — Idia diz enquanto caminha em direção às chamas
— VAMOS BOTAR PRA FODER! — Luck fala animado enquanto segue ela.
Ambos desaparecem em meio ao fogo.
Azula observa a outra monitora sair.
Ela foi realmente deixada sozinha em meio ao fogo com um peixinho cabeçudo?
— Mas que merda... — Azula olha em volta aflita.
Não conseguia enxergar direito porque estava sem os óculos, só via as chamas azuis e ouvia o som de coisas sendo queimadas juntos com chiados agoniantes.
O que estava acontecendo?!
— Ca-ta-pim-bas! Minha nova parceira parece tão maneira! — Guppy, ou seja lá qual for o nome que ela ouviu antes, fala com uma voz super empolgada.
Ela também escuta o som de algo arredondado e feito de vidro rodando ao redor dela. Um aquário talvez?
— Quem tá aí? E-eu não consigo enxergar, então mesmo que eu quisesse conversar contigo eu ainda preciso dos meus óculos — A menina miope tenta falar do modo mais modesto possível para não acabar assustando seja lá o que esteja rondando ela.
— Ah... Então você disse que quer isso aqui? — Guppy pega um óculos do chão e coloca nos olhos da Azula de forma desleixada.
Seus olhos finalmente conseguem focar de novo e ela pode enxergar o pequeno animal mágico a sua frente.
Um peixe, cabeçudo e estranhamente bonitinho.
Aquela coisa exalava inocência de forma preocupante, seus olhos eram tão profundos quanto um pires e provavelmente fazia eco dentro da sua cabeça gigante de boneca Lol.
— Uh... Eu acho que sim — Azula arruma levemente os óculos só para ter certeza que seu problema de visão não estava confundindo ela. Depois dessa pancada na cabeça ela pode estar alucinando.
...
— Não vamos enrolar muito! Vai todo mundo morrer! — Guppy diz, dando algumas acrobacias dentro do aquário — você vai precisar da Pedra Mágica pra se transformar!
— Pedra? — Azula repete, já com a sobrancelha arqueada no nível máximo de descrença. — Que pedra, exatamente?
Guppy não responde. Ele apenas respira fundo. Um fundo deveras suspeito.
E então começa o inferno.
O peixe cabeçudo se contorce, faz um barulho que parece uma batedeira quebrada, os olhos arregalam... e ele entra num processo agoniante, dramático e completamente desnecessário de vomitar.
Azula recua dois passos na hora.
— Pelos setes, o que você tá fazendo?! Para! — Ela tapa a boca com nojo, se lembrando da vez que Floy vomitou uma galinha inteira daquela mesma forma.
— glbhre wgjjtrh tgosgdhgf jagd —
BLEH-
Depois de 10 segundos que pareceram 1 hora inteira, Guppy para ofegante.
E na frente dele, no chão, está uma pedra de cristal mágica, mais ou menos do tamanho das pedras mágicas das canetas do colégio e brilhando com uma cor roxa vibrante.
Ele levanta a cabeça, todo orgulhoso, e faz pose.
— Tcharam! — diz, cuspindo um restinho de purpurina. — Pedra Mágica! Edição limitada! Entregue quentinha! —
Azula só encara a pedra. Depois encara o peixe. Depois encara o universo e se pergunta onde foi que errou na vida para chegar nessa situação.
Enquanto isso, mais gritos de Idia e fogo podem ser ouvidos ao fundo.
— ESTAMOS PERDENDO TEMPO!! — Guppy berra ao ver Azula estática — Rápido! Diz “Hora do espetáculo!” pra coisar os coisos coisados! Nós precisamos ajudar!
Ele entrega a pedra na mão de Azula com a expectativa.
— 1- eu não ajudo, eu faço favores por acordos. 2- oque você quis dizer com coisar coisas? —
— transformar pra lutar contra aquela coisa! Segure a pedra com carinho e diga “Hora do show logo!!! —
—” Hora do espetáculo”? — Azula revira os olhos, analisando a pedra com desgosto— Eu tenho reunião às 4, três contratos pra fechar e uma carteira de investimentos para salvar. E eu NÃO ajudo ninguém de graça. Você acha MESMO que eu vou ficar gritando frases alheias? Com uma pedra babada?!
PUFF!!!
Um clarão de luz estoura na cara dela. Forte o bastante para iluminar a sala toda a ponto de qualquer alma ali começar a achar que o arrebatamento começou mais cedo.
Azula começa a girar, girar MUITO.
Fitas envolvem seus braços e suas pernas, criando mangas bufantes e botas que super seriam úteis para pisar em alguém.
Girando mais, suas roupas vão sendo substituídas magicamente por uma roupa muito fofinha com uma saia cheia de camadas.
Penteado!
Laços!
Maquiagem!
Azula finalmente para de girar. Ela pisca, tonta e completamente atordoada...
— Pelos Setes... Essa transformação não foi feita com meu consentimento... — Ela fala em choque enquanto toca o uniforme com cuidado.
— Você ficou linda! Parece uma princesa fofa, bondosa e… mafiosa! —Guppy elogia enquanto rola ao redor dela dentro de seu pequeno aquário flutuante.
—
Guppy... — A garota de cabelos brancos suspira. — Eu vou te processar por despesa operacional caso isso tenha saído do meu bolso e definitivamente vou te processar por danos morais.
