Chapter Text
O Rio Tietê continua fedido.
Era nesse pensamento que Lorena se ancorava para suportar a viagem desnecessariamente longa de Higienópolis até a Zona Leste, porque se concentrar no odor pútrido do rio – que nem depois do processo de despoluição havia deixado de lhe causar dor de cabeça – era menos torturante que ouvir Leonardo reclamando o caminho inteiro.
Em tese, a distância não era tão grande assim. No entanto, a capital paulista sempre dava um jeito de esticar o tempo para tudo, e não seria diferente em plenas 14h30 de um sábado. O jogo de Eduarda estava marcado para 15h e, ansiosa do jeito que a Ferette era (ainda mais no que se tratava de sua paixão), ela passou a manhã apressando o outro Ferette para que eles saíssem o mais cedo possível. O plano era sair pontualmente às 14h, porém o garoto enrolou tanto para terminar sua partida de LOL que demorou demasiadamente para almoçar, contribuindo para os futuros cabelos brancos da irmã.
Quando finalmente entraram no carro de aplicativo, pouco mais de vinte minutos depois do horário previsto, mas ainda razoável para que chegassem a tempo, o bendito motorista resolveu dar o gancho para acabar com a esperança de paz que Lorena tinha pelo resto da viagem.
A final do campeonato seria sediada no Sport Club Corinthians Paulista, o SCCP, como geralmente era, já que clube contava com um enorme complexo de tênis com capacidade suficiente para competições como essa. Bastou o homem – Jonas, o nome do linguarudo – perguntar se o endereço estava certo, para Leonardo, que até então não sabia aonde estavam indo, começar a perturbar o juízo de Lorena. Léo, palmeirense fanático, implicou incansavelmente com o fato do destino pertencer ao time rival, e havia o agravante de Jonas ser outro torcedor assíduo do Palmeiras e dar corda para o garoto.
Lorena não dava a mínima para time de futebol algum, mas estava quase se declarando corinthiana roxa só para contrariar o bocudo do irmão e o motorista inconveniente.
O motorista finalmente encostou na entrada do clube; Leonardo se despediu do motorista com um aperto de mão firme, como se já fosse amigo próximo do homem – aquele tipo de camaradagem instantânea que a garota não sabia se era coisa de torcedor de futebol ou de homem, ou ambos –, ao passo que Lorena praticamente se ejetou do carro, cuspindo um “boa tarde” e disparando em direção ao arco da entrada.
Naquele sábado, Lorena e Leonardo não seriam os únicos a passarem o dia fora. Zenilda tinha um julgamento marcado do outro lado da cidade que demoraria a tarde inteira, e somado a todos os trâmites jurídicos que levavam bastante tempo, ela tinha saído de manhã com perspectivas de retornar apenas à noite. Lorena aproveitou a oportunidade para pegar emprestado – não roubar, beleza? – o Ballon Bleu de Cartier do armário da mãe, e era esse mesmo relógio que já marcava um pouco mais de 15h, escancarando no pulso dela o atraso. Ela amaldiçoava o irmão mentalmente por possivelmente fazê-la perder um tempo precioso para conversar com Eduarda antes da partida.
— Pra que essa pressa, Lorena, puta merda!
Leonardo, seguindo o passo apressado da irmã, perguntou ofegante enquanto eles quase corriam rumo às quadras, as quais se localizavam depois das piscinas, segundo o guia detalhadamente descrito por Eduarda e mais ainda pelo Google Street View.
— Nós estamos atrasados, cabeçudo! — Respondeu impaciente — E de quem será que foi a culpa, né? — Alfinetou.
— Em minha defesa, se eu soubesse que você ia me trazer pra esse lugar nojento eu nem teria vindo.
— Você quem me encheu o saco pra vir! Só pra me atrapalhar, ainda por cima.
— Nossa, eu fico lisonjeado com a questão que você faz da minha companhia, irmãzinha.
Lorena revirou os olhos, porém sua irritação voou pelos ares no instante em que sua percepção registrou a terra avermelhada do saibro e reconheceu uma certa cabeleira ruiva presa num rabo de cavalo.
Para sua sorte, o jogo ainda não havia começado, e Juquinha nitidamente ainda estava na etapa de aquecimento; pelo visto a cultura de atraso do povo brasileiro funcionou ao favor de Lorena naquela tarde. A atleta dava uma corridinha engraçada na lateral da quadra, movimentando os braços de um lado para o outro, arrancando um sorrisinho da morena que assistia de longe.
Quanto mais perto Lorena chegava, melhor podia ouvir o senhor de barba branca – o treinador se chamava Jairo, se não lhe falhava a memória – gritando com diversão e autoridade ao mesmo tempo:
— Solta esse braço, minha filha! Não dá pra controlar a raquete com uma vassoura no lugar dos ossos!
Rindo, Lorena direcionou o olhar para a aquibancada em busca dos rostos conhecidos que sua amiga – amiga? Crush? Paquera? Menina que gostava? – havia garantido que compareceriam: Paulinho e Gerluce, os melhores amigos de Juquinha. Os dois iam a todos os jogos que podiam, até substituindo os pais de Eduarda no papel de torcedores principais quando os mais velhos viajavam, de acordo com ela. Não foi necessário forçar a vista, pois eles estavam logo nos primeiros assentos.
Sem contar o hilário totem de papelão com a cara de Juquinha que Paulinho segurava.
Lorena não conseguia imaginar o que havia compelido Eduarda a aceitar que seu melhor amigo levasse uma foto gigantesca de seu rosto acoplada à figura de um troféu – que com certeza tinha sido o primeiro desenho em fundo de png encontrado pelo garoto para enviar à gráfica – para torcer por ela, mas se encontrava profundamente grata pela risada mais sincera da semana.
Assim que Paulinho a avistou de volta, usou a cara gigante da amiga para acenar na direção dela, indicando para que ela se sentasse junto a ele e à namorada, que sorria largo e também a chamava para perto.
Arrastou o irmão rabugento, cujo mal humor relativo à rivalidade futebolística ainda não havia sido quebrado pela comicidade do totem, para onde o casal estava. Depois de acomodados nos assentos, Leonardo devidamente apresentado e já trocando figurinhas com o outro rapaz, Lorena assistia Eduarda agora empunhando a raquete, trocando algumas bolas fracas com a adversária para ambas terminarem o aquecimento.
— Ela gosta mesmo disso, né?
Lorena olhou para o lado com a fala de Gerluce, que mudou de cadeira para sentar no lugar do namorado e ficar ao seu lado sem que ela percebesse, visto que estava focada mais na jogadora e menos na torcida.
— Engraçado, eu já assisti ela jogando um milhão de vezes e sempre me surpreendo. — Continuou — Só aquecendo ela já tem um sorrisão bonito desses no rosto.
— Acho incrível que ela sabe fazer tudo. — Lorena suspirou, tentando não parecer tão apaixonada (se conseguiu, difícil dizer) — É boa em matemática, cantar, tocar instrumentos, no plural, joga tênis, e sabe lá o que mais.
— A nossa queixuda. — Gerluce brincou, e as duas riram alto.
— A Duda tá quase assim. Nunca vi alguém arrumar tanta coisa pra fazer como ela.
— Né isso, menina! Olha que eu aviso: se ela não sossegar o facho, vai ter burnout antes dos dezoito. — Gerluce exclamou, em seguida virando o olhar para onde o de Lorena havia se mantido: em Eduarda — Mas vou te contar, me dá gosto ver ela em quadra, sabia? Em nenhum outro lugar ela é tão… livre, eu diria.
Nesse momento, a etapa de aquecimento se deu por encerrada com um apito. Ambas as competidoras se sentaram nos bancos de seus respectivos lados da quadra; Juquinha aproveitou para tomar um pouco de água. Ela olhou para onde sabia que estavam seus amigos e abriu uma expressão surpresa quando seus olhos encontraram os de Lorena, que lhe abriu um sorriso com covinhas e tudo, junto a um aceno tímido. Eduarda falou algo com o treinador, o mais velho assentiu, e ela começou a ir em direção à arquibancada.
À medida que Eduarda se aproximava, Lorena sentia seu corpo esquentar – e não só por causa do sol de rachar daquela tarde. Alguma coisa sobre a nova versão de Duda que desbloqueara era diferente, da melhor maneira possível, de todas as formas que havia a visto até então.
Os cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo perfeito, deixando o pescoço dela (o qual Lorena tinha certeza que continuaria exalando o mesmo perfume absurdamente viciante mesmo com o suor) à mostra, a pele começando a avermelhar em decorrência do esforço físico e da exposição ao sol. Ela vestia um conjunto clássico do esporte: regata polo e saia azul claro, os quais expunham seus braços e pernas torneados, enviando um curto-circuito direto pela espinha de Lorena e fazendo-a perder os sentidos momentaneamente, complementados por uma viseira de mesma cor. A composição como um todo conseguia deixá-la ainda mais linda – nem os tênis esportivos cor de marca texto eram capazes de estragar isso – e a Ferette perdeu o ar com a visão.
— Lorena, oi! — Eduarda disse, pendurada na grade entrelaçada que separava o público da quadra — Não é que você veio mesmo?
— E você tinha alguma dúvida de que eu vinha? — Lorena riu, pondo-se de pé e segurando na divisória de ferro, sua mão perigosamente perto da mão da ruiva — Não ia desperdiçar a oportunidade de ver a nossa Sabalenka brasileira em ação nunca.
Juquinha pareceu lisonjeada com a comparação à atleta, pois abriu um sorrisão ao ouvir isso. Ponto para Lorena, que pesquisou “tenistas mais famosas atualmente” poucos minutos antes, no uber, e escolheu a primeira que apareceu.
— Fico feliz que tenha vindo me prestigiar. Só não liga muito pro Paulinho, ele tende a ficar meio exaltado quando se trata de qualquer esporte.
— Isso é verdade. — Gerluce confirmou. Lorena normalmente ficaria irritada com alguém se metendo em uma conversa dela com Duda, mas não conseguiria nutrir sentimento negativo algum por uma pessoa tão simpática quanto ela — Eu até avisei pra ele tentar não te assustar hoje, mas não posso prometer nada.
— Acho que se fosse pra eu me assustar com alguma coisa, seria com esse totem de papelão. Mas tudo que eu fiz foi rir, e muito, então…
— Ai, nem me fale desse treco. — Juquinha corou instantaneamente e abaixou a cabeça, escondendo o rosto atrás da mão e se encolhendo de vergonha contra a grade, enquanto as outras duas garotas riam — Se eu soubesse que ele ia meter uma dessa, nem tinha chamado esse doido.
— Ah, qual é, vai dizer que não é legal que seus melhores amigos te apoiem tanto?
— Opa, opa! — Gerluce interrompeu — Pode me tirar dessa, eu não tenho nada a ver com esse papelão. Literalmente papelão, inclusive! Isso é coisa do Paulo, euzinha só venho pra torcer pela minha amiga.
— Obrigada, Luce.
— Vocês são muito é sem graça, isso sim!
Paulinho, como o bom fofoqueiro que era, ouviu a conversa delas mesmo imerso em uma outra conversa com Léo. Não pôde deixar de defender sua honra, claro.
— Ih, chegou o assunto. — Eduarda disse baixinho, só para Lorena ouvir — Sai pra lá, seu maluco! Olha a vergonha que cê tá me fazendo passar! — Gritou de volta, seu tom acusatório contrariado pela felicidade estampada em seu rosto.
— Se vale de alguma coisa, Paulinho, eu apoio a sua maneira criativa de torcer. — Lorena deu seu pitaco.
— Até que enfim, alguém que me entende! — Ele se esticou para trocar um high five com a garota — É muito difícil ser diariamente maltratado pela minha namorada e minha irmã, sabe, Lorena?
— Ô, amor, quanto drama!
Gerluce segurou o rosto do namorado e o deu um selinho carinhoso. Paulinho num instante perdeu o bico infantil que carregava nos lábios, como um pastor alemão que, apesar de parecer intimidador, se derrete em manha no carinho do dono. Da dona, no caso dele.
Leonardo, até então excluído da conversa, contorceu o rosto em uma feição de pura confusão.
— Ué, vocês dois são irmãos? — Indagou, apontando o dedo alternadamente entre Paulo e Eduarda.
— Do coração, sim. — Os dois disseram ao mesmo tempo, de forma tão automática que deixava nítido que aquela não era a primeira vez que respondiam àquela pergunta assim.
— Meu Deus, eu acho a coisa mais linda quando vocês falam que são irmãos do coração!
Gerluce apertou a bochecha do namorado e se recostou sob a amiga através do ferro entrelaçado, explodindo de fofura. Lorena compartilhou o sentimento, no fundo sentindo-se até um pouco triste por não fazer parte daquele ciclo de tanto amor.
— Hã… como assim? — Leonardo manteve a cara de tacho. A irmã quis bater nele por ser lerdo daquele jeito e envergonhá-la, especialmente na frente da garota que ela gostava e de seus melhores amigos.
Os três se entreolharam discretamente – Lorena percebeu, mas Leonardo claramente não – e acordaram silenciosamente sobre quem iria explicar. Eduarda era paciente, mas não com homens; Gerluce menos ainda; Paulinho não tinha muita paciência para ninguém além da namorada, para a melhor amiga em um dia bom. Porém, como companhia masculina padrão do outro Ferette por aquela tarde, a lerdeza dele seria sua responsabilidade.
— É que nós fomos basicamente criados juntos desde criança. Tá vendo aquele careca simpático ali, que fica apitando e gritando na cara da Juquinha? — Apontou para o treinador, que estava ocupado falando com o juiz sentado na cadeira alta rente à rede.
— Ele nem é careca, Paulo! — Gerluce riu alto — Respeita o teu tio e o resto de cabelo que ele ainda tem na cabeça.
— Tsc! Careca, calvo, mesma coisa. O que importa são minhas belas mechas, que vão durar pra sempre, porque minha genética é abençoada. — Se gabou, antes de voltar a esclarecer as coisas — Enfim, aquele é o Jairo, irmão do meu pai e melhor amigo do pai da Eduarda. Ele é padrinho tanto meu quanto dela, e cuidou da gente tanto quanto nossos pais. Daí viramos quase os filhos postiços dele, por isso falamos que somos praticamente irmãos.
— Ah, tá. — Leonardo finalmente entendeu.
Enquanto isso, Eduarda, ainda apoiada com uma mão na grade, encarava o rapaz com uma expressão desconfiada. Os olhos semicerrados, as sobrancelhas franzidas e o queixo empinado denunciavam que ela o analisava em silêncio, se perguntando quem diabos era aquele menino perguntando sobre a natureza da sua relação com seu melhor amigo.
Inquisidora, se inclinou um pouco mais para frente, o ferro maleável cedendo ao seu peso e encostando no braço de Lorena. Ela sentiu-se arrepiar da cabeça aos pés com a combinação do calor, do cheiro e da visão de Eduarda se aproximando daquela forma. O barulho da grade junto da pose da ruiva lhe passaram a impressão que – em um outro cenário além da realidade – ela seria deliciosamente encurralada. Lorena mordeu o lábio inferior inconscientemente com o lindo trabalho de sua imaginação fértil.
— Licença, mas você é…? — Eduarda perguntou, tentando ao máximo não soar rude.
— Esse é o Leonardo, meu irmão. Ele também estuda na nossa escola, só que no terceiro ano. — Lorena apressou-se para responder, vendo que Léo demoraria para compreender que a coisa era com ele — Eu não sabia muito bem se o seu convite se estendia a mais alguém, só que ele insistiu muito pra vir, aí eu pensei que talvez não tivesse problema. Ia te avisar, mas no meio da correria acabei esque-
— Não, não, relaxa. — Duda a tranquilizou, prevenindo seu retorno à velha tendência de vomitar palavras — Tem problema não, eu só queria saber. Tudo bom?
Falou com o sorriso que não chegava aos olhos, e Leonardo acenou desajeitadamente em resposta. Pelo visto, Lorena não era a única Ferette nervosa na presença da ruiva – porém certamente a única a receber a plena simpatia dela.
— Quanto mais gente na torcida melhor, né? — Disse Gerluce.
— Sim, claro! — Leonardo finalmente se espertou — Quando minha irmã disse que vinha assistir um jogo seu, eu soube que não podia perder. Com todo o respeito, você é uma celebridade entre a galera, entende? E lá em casa então…
Lorena arregalou os olhos e passou o braço por trás de Gerluce para dar um beliscão no irmão, que falava demais.
— Ai!
— Sou, é? — Eduarda ignorou o resmungo de dor e deu um sorriso convencido para Lorena, que (para variar) corava. Ao lado dela, Gerluce segurou o riso.
— Sem modéstia, Juquinha. — Paulinho, sem nem saber, salvou a pele de Lorena — Metade das medalhas que tanto exibem naquela espelunca de escola são suas.
De longe, o apito soou estridente, encerrando o papo sem pedir licença.
— E agora tá na hora de você ganhar mais uma. — Ele sorriu, e ergueu novamente o bendito totem de papelão.
— Bora, Juquinha, a postos! — Jairo a chamou da quadra.
— Hã, prazer, viu?
Claro que Leonardo escolheu o momento mais inoportuno para querer cumprimentar Eduarda propriamente. Pior: estendeu a mão para que ela apertasse, mesmo a grade estando no caminho e impossibilitando o contato. A ruiva o olhou meio estranho, mas ainda se esforçou para ser educada.
— É… prazer também.
— Léo, pelo amor de Deus, a grade… — A Ferette mais nova disse entredentes, mortificada.
— Ah, é… — Ele recolheu o braço.
— Misericórdia, como esse menino é meu irmão? — Dessa vez a atleta riu de verdade.
— Também não sei. Você é muito mais legal, na minha opinião.
Aproveitando a proximidade, Eduarda virou a cabeça um pouco para o lado e se inclinou para deixar um singelo beijo na bochecha de Lorena através do vão da grade, como despedida antes do começo da partida.
O movimento foi tão rápido que quem piscou o perdeu; mesmo Lorena mal registrou o que aconteceu. O choque pelo gesto inesperado só foi vencido pela sensação molhada onde o suor dela ficou, bem como pela eletricidade que se espalhou por sua pele, previamente avermelhada do calor e agora escarlate do fogo.
Era provável que Gerluce, Paulinho, Leonardo, o resto do público, até os espíritos de tenistas que possivelmente assombravam o lugar (depois de não engatarem na carreira e não conseguirem reencarnar pelo assunto mal resolvido) tivessem visto aquilo. No entanto, Lorena não poderia ligar menos. Foi para o céu e voltou em questão de milissegundos, não se importaria com qualquer um além de Eduarda, não pensaria em nada além dos lábios dela em sua bochecha – pela segunda vez!!!!!! – naquele momento.
— Tenho que ir, gente, valeu aí!
E correu em direção ao seu padrinho/treinador próximo à rede.
Algo em Lorena se deprimiu por saber que, a partir daquele instante, não conversaria mais com Juquinha até o fim do jogo, o qual demoraria bastante. Na verdade, nenhum período de tempo com Eduarda, por mais longo que fosse, era suficiente, nunca. Sempre restava o não dito, algo interrompido logo quando estava ficando bom. Bem, pelo menos iria passar as próximas horas assistindo-a jogar, e de bônus tinha ganhado um beijinho na bochecha – uma recompensa e tanto.
Alguns minutos das jogadoras repassando as táticas com seus treinadores depois, o juiz deu o primeiro apito da partida.
Tendo sido a vencedora do cara ou coroa, Eduarda – ou melhor, Juquinha – teve o poder de decidir se queria começar sacando ou se queria escolher um lado da quadra. Preferiu ter o primeiro saque; desse modo, sua adversária foi presentada com a recompensa de iniciar a disputa do lado da rede onde o sol batia nas costas, e não no rosto.
Oficialmente, a final da Copa São Paulo de Tênis Juvenil na categoria 18 anos havia começado. Estava entre Eduarda Fragoso e Larissa Becker quem subiria no pódio e levaria o troféu para casa.
A outra competidora era uma morena de cabelos cacheados, vestida com uma roupa de modelo similar à da ruiva, só que na cor amarela. Aparentava maior nervosismo que Eduarda; mas se chegara na final, era porque suas habilidades não eram de se jogar fora.
Juquinha pingou a bola algumas vezes no chão de saibro, respirando fundo. Ergueu o braço que empunhava a raquete acima da cabeça, jogou a bola mais alto, e sacou cruzado com precisão.
A bola pingou no quadrado direito do lado de Larissa e seguiu para o fundo da quadra sem nem dá-la a chance de rebater. Fragoso 15x0 Becker apareceu no telão.
Um ace, ótimo começo.
Lorena viu Eduarda sorrir com os gritos da plateia; devia saber exatamente de onde vinham os mais altos deles. Paulinho em destaque, que comemorou como se fosse o último ponto da vida da amiga.
A metade do primeiro set chegou relativamente em pouco tempo, sem muita dificuldade para Juquinha, que segurava a vantagem de 3x1.
Lorena tinha, sim, pesquisado como funcionava o básico do tênis, mas ainda ficava bastante confusa com a maioria das regras; em especial, com a contagem. Seu irmão – apesar do tanto que se gabou sobre ser um conhecedor de esportes – se provou quase tão ignorante naqueles aspectos quanto ela, portanto Lorena rapidamente passou a contar com Gerluce como sua comentarista particular. Demorou um tantinho mais que o normal para que a Ferette compreendesse que as jogadoras trocam de quadra apenas quando a quantidade de games totaliza um número ímpar, porém ela eventualmente assimilou a informação.
O quinto game foi iniciado por Larissa, e então mais duas pessoas recém-chegadas se juntaram ao grupo na arquibancada. Focada nos sons que a ruiva soltava quando rebatia a bola (definitivamente não lembravam em nada gemidos, não, nunca), Lorena foi a última a notar as novas presenças. Somente quando sentiu um dedo cutucando de leve seu ombro, ela parou de sonhar acordada e se virou.
Levantou primeiro o olhar, vendo uma mulher mais velha de cabelos lisos castanhos com franja, vestindo roupas que, apesar de serem de um extremo bom gosto, não pareciam tão adequadas para o clima quente, e um par de óculos escuros de uma elegância sem tamanho. O sorriso e os olhos dela eram do tipo que acolhiam automaticamente qualquer pessoa para quem ela olhasse. De imediato, Lorena pensou que ela lembrava muito Eduarda. Podia até ser a mãe dela.
— Tudo bem, querida? — A mulher perguntou, levantando os óculos escuros — Deixa eu adivinhar: você deve ser a Lorena! Minha filha fala muito de você.
Puta merda, é a mãe dela!
Não entre em pânico, Lorena, por tudo que há de mais sagrado.
— O-oi! Oi, sim, sou eu, Lorena!
Gaguejou, levantando-se de supetão, rezando para não parecer atrapalhada demais, e cumprimentou a sua (se tudo fosse de acordo com o planejado) futura sogra.
— Dona Violeta Fragoso, certo? A Eduarda também fala muito da senhora. Só coisas boas. — Deu um sorriso adorável, apesar de nervoso.
— Olha, bom saber que ela fala bem de mim. — A mãe de Duda riu — E nada de “senhora” ou “dona”, viu, minha linda? Fico me sentindo velha desse jeito, já tenho pavor desses meninos me chamando de “tia”. Pode usar simplesmente “Violeta”, por favor.
Afagou com uma mão o ombro da mais nova e lhe lançou uma piscadela, da exata forma como Eduarda costumava fazer. Lorena sentiu a tensão em seus músculos diminuir de leve, a familiaridade do gesto lhe passando tranquilidade, ainda que não viesse da mesma pessoa.
— Tudo bem, do- digo, Violeta. — Sorriu largo, as covinhas aparecendo — Muito prazer em lhe conhecer.
— Eu quem diga! Tava ansiosa pra conhecer essa tal amiga que a Eduarda tanto fala. Há um tempão que é só “a Lorena não sei o que, a Lorena não sei o que lá”...
A garota em questão ficou violentamente vermelha, seu coração errando uma batida. Saber que era vista pela garota por quem era apaixonada, ao ponto de virar assunto recorrente entre ela e os pais, trazia-lhe uma sensação avassaladora de boa.
— De vez em quando, rolando o feed, vejo seus vídeos para a fundação do seu pai. Meus parabéns, você é um talento para a comunicação, viu? — Bajulou-a — E preciso dizer: como você é linda, Lorena! Esse cabelo sedoso, essa pele perfeita, essas covinhas, esses olhos, seu estilo…
Lorena teve a impressão que viraria um tomate a qualquer momento. Havia se preparado para uma partida de tênis – e para não implodir em si mesma quando visse Eduarda toda suada jogando –, não para ser regada de elogios, ainda mais pela mãe de Duda. Mas não podia negar que era incrível.
— Assim eu fico sem graça, Violeta.
— Deixa disso, menina. — Dispensou a timidez dela com a mão, rindo — E já não basta tudo isso, você ainda é alta. Como alguém que trabalha com moda, afirmo que você daria uma ótima modelo.
— Tem que ver ela do lado da sua filha, tia Vi. — Paulinho falou de intrometido — A Juquinha vai de baixinha pra anão de jardim perto da Lorena.
Violeta deu uma gargalhada gostosa que ressoou pelo ambiente o qual, por regra, deveria ser silencioso, ao menos enquanto a bola estivesse em jogo. Lorena sentiu lá no fundo, o conhecido medo de estar atrapalhando. Ninguém reclamou; não existia motivo para se preocupar tanto com as opiniões dos outros e se impedir de viver algo feliz – o restante do grupo nitidamente não se importava, falavam alto, desimpedidos. Contudo, não podia evitar a agonia interna, embora em essência o momento fosse super agradável.
— Rique, vem cá! — Violeta chamou a atenção do marido, que trocava um aperto de mãos com Leonardo depois de ter dado um abraço apertado em Paulinho e Gerluce.
— Oi, amor, o que foi? — A mulher apontou para Lorena com um braço, o outro estando ao redor dos ombros dela em uma postura quase maternal, e a expressão dele se levantou quando presumiu quem era a garota — Não vai me dizer que essa é a famosa Lorena!
— Eu mesma, doutor Henrique. — Cumprimentou, ainda um tanto acanhada.
— Que isso, que doutor o quê! — Ele riu, não hesitando em puxá-la para um abraço caloroso também — Doutor ficou no tribunal, querida. Hoje e aqui eu sou o pai da Eduarda, e apenas isso.
Lorena também queria alguém que fosse seu pai, e apenas isso. Ou pelo menos em primeiro lugar, já daria pro gasto. Eduarda tinha sorte.
— Vocês são muito importantes pra ela. A Duda sempre fala coisas lindas de vocês.
— Ih, Lorena, não fala isso, se não ele vai chorar. — Violeta brincou.
Ou melhor, avisou, porque os olhos de Henrique começaram a marejar no mesmo instante.
— A lá, não falei? — Ela revirou os olhos amorosamente e afagou o braço dele — Meu marido é uma manteiga derretida, querida. O pior é que eu pari uma miniatura menor ainda dele, e agora tenho que lidar com dois chorões em casa.
— Um homem não pode se emocionar por ser amado por sua filhinha? — Perguntou, a voz comicamente embargada.
— Vê se pode isso, Lorena!
Paulinho e Gerluce, que acompanhavam atentos a interação e conheciam aquela família como se fizessem parte dela, riam junto. Lorena sorria grande, as bochechas pareciam que iam rasgar a qualquer momento. Agora entendia porque Eduarda era do jeito que era, no melhor dos sentidos.
Até que o momento foi quebrado pela plateia gritando, mais alto que das últimas vezes. Todos olharam ao redor, perdidos; menos Leonardo, o único que havia continuado com foco total no jogo.
— Converteu, caralho! Primeiro set no papo! — Léo gritou, e Lorena lançou para o irmão o mais severo olhar de repreensão que conseguiu por causa do palavrão na presença dos Fragoso, mas ele não deu bola.
Nem qualquer outra pessoa do grupo, visto que a primeira reação de todos foi comemorar o set vencido por Juquinha. Lorena ficou feliz, obviamente, contudo sentiu uma sensação ruim de ter perdido a parte mais importante, de não ter acompanhado as jogadas, de ter traído seu voto interno de não desviar a atenção de Eduarda por um segundo sequer. Era incrível conversar com os pais dela, mas a Fragoso que mais importava para Lorena venceu o primeiro set e ela não viu.
Na quadra, Eduarda abriu um sorrisão e deu um soquinho no ar, olhando em um reflexo para a plateia. Ao avistar os pais, entregou a raquete para Jairo e saiu correndo em direção à arquibancada, uma empolgação infantil (e muito fofa) impressa na sua linguagem corporal.
— Pai, mãe! Vocês vieram!
— Claro que viemos, minha princesa! — Henrique se encostou na grade e deu um beijo na testa da filha — Imagina que iríamos perder você ganhando mais um título.
— Não comemore antes da hora, seu Henrique…
— É verdade, querido. — Violeta deu outro beijo na testa da filha através do vão do ferro entrelaçado — Você sabe que é um baita de um pé frio.
— Minha nossa, como gostam de me atacar!
— Tio, da última vez que o senhor falou isso, a Juquinha perdeu de lavada. — Disse Gerluce, arrancando risadas de todos, menos de Henrique e sua versão mini.
— Estou sendo acusado de tacar praga na minha própria filha?!
— Ei! Não foi de lavada também, peraí! E era só o campeonato do clube, não valia nada importante. — Eduarda resmungou.
— Ai, meu Deus, quanto drama! — Violeta exclamou — Tá vendo, Lorena, o que eu passo com essas duas crianças em casa?
— Estou vendo, Violeta. — Lorena riu, corada com a menção a si na frente da ruiva.
— Ah não, mãe! Não acredito que vocês dois já foram falar mal de mim pra Lorena. — Eduarda ficou ainda mais pirracenta, e extremamente adorável aos olhos da Ferette — Não bastava o Paulinho, meu Deus…
— O que eu tenho a ver com isso, sua curupira?! Olha que eu rasgo esse teu rosto que mandei imprimir com todo o carinho, hein. — Ele deu a língua para a amiga.
— Melhor ainda, nunca te pedi essa cafonice. — Ela devolveu a implicância, dando a língua para ele de volta.
— Ah, eu achei tão bonitinho…
— Para, pai!
— Viu? Até o tio gostou, sua chata!
— Vai se ferrar, Paulo!
— Chega, vocês dois! — Gerluce interrompeu, tentando se manter séria.
— Obrigada, Luce. — Violeta agradeceu, contendo o riso — Só você mesmo pra colocar limite nessas criaturas. Eu mesma já larguei de mão, o que sobreviver o Jairo termina de criar.
— Sobrou pra mim, minha amiga?
O padrinho de Eduarda e Paulinho, que não iria ficar de fora da reunião de família, se juntou à afilhada do outro lado da grade. Chegou bem a tempo de ouvir seu nome sendo citado, e entrou de penetra na conversa.
— Você sabe que nem eu, nem o Rique, nem o Guilherme temos o seu pique pra aguentar esses moleques se digladiando, né?
— Fracos, é isso que vocês são! — Falou, bem-humorado.
— Somos mesmo. — Henrique riu e concordou — Fale, meu amigo! Como estás?
— Estou ótimo, meu caro. Quanto tempo, não, parceiro? Quase um mês! — Sorriu para o casal de amigos — Nem sabia que vocês vinham hoje, a Juquinha tinha dito que estariam fora até a próxima semana.
Lorena discretamente franziu o cenho. Eduarda havia mencionado uma vez que os pais viajavam sem ela com certa frequência, mas por tanto tempo assim? Ela estava sozinha em casa há um mês? Será que ficava com o padrinho, ou outra pessoa da família? Estranho, Duda nunca lhe disse nada sobre isso. Lorena tinha apenas assumido que eles passavam um ou dois dias de alguns fins de semana em casal, então essa informação era uma grande novidade.
Teria que ir a um veterinário para ver a pulga que se instalou atrás de sua orelha outro dia.
— Pois é, pai, vocês não iam voltar só domingo que vem? Eu nem avisei nada sobre a final ser hoje… — Eduarda questionou, o tom de voz mais baixo que o normal.
— Tu não, mas eu sim. — Paulinho respondeu, recebendo olhos castanhos arregalados de incredulidade e advertência em troca da amiga — Qual é, Juquinha! Alguém tem que contar pros teus pais dessas coisas, né? Se você não faz, eu faço.
— Pra que perturbar eles com isso, cara? — Ela protestou, parecendo agoniada.
— Como perturbar, Eduarda? — A expressão da mãe dela suavizou — Amor, nunca é um incômodo pra mim e pro seu pai prestigiar seus jogos. Claro que não pensamos duas vezes em adiantar a volta.
— Eu não quero atrapalhar vocês, poxa…
— Você não atrapalha nunca, minha filha. — Henrique reafirmou, sorrindo.
De novo, o juiz assoprou o apito.
— Bem — Jairo colocou uma mão firme sob o ombro da afilhada — tá na hora de voltar pra batalha, né?
— É. — Ela deu um sorriso amarelo — Até depois, gente.
— Até, meu amor! — A mãe dela disse.
— Boa sorte, minha filhota. — O pai falou — Cabeça no jogo, hein? Não esquece de-
— Ela sabe, Henrique! — Jairo gritou de longe, já posicionado no lugar do treinador na outra beira da quadra.
Lorena esperava que Eduarda fosse se despedir dela antes do segundo set também, mas a ruiva recebeu um aceno de cabeça da mãe, se virou e começou a andar para seu banco de novo sem lhe direcionar um sequer olhar. Tudo bem, Lorena entendia. Não conseguia não se sentir minimamente desapontada, mas tudo bem.
Engoliu a decepção a seco e sentou-se na arquibancada enquanto observava Juquinha apressadamente beber um gole d’água e enxugar-se com uma toalha, o desejo irracional de ser a primeira e última pessoa para quem ela olhava correndo por suas veias. Não fazia sentido querer ser a prioridade de Eduarda quando os pais dela estavam lá, Lorena sabia. Ainda assim, queria.
O segundo set não estava indo muito bem para Juquinha. Em menos de cinco minutos, Larissa, sua adversária, converteu o primeiro game e estava a um ponto de quebrar o segundo, o placar 15-40 exibido no telão do clube.
Não era o fim do mundo, claro que não. Ainda tinha muito jogo pela frente, mesmo que Becker levasse o segundo game; Fragoso ainda poderia muito bem passar na frente até o sexto. Entretanto, a forma como ela estava sacando – sem a mesma força de antes, meio insegura, precisando do segundo saque muito mais vezes que no primeiro set – era o suficiente para levantar preocupação com o rumo que Eduarda estava tomando.
Talvez tivesse a ver com isso o fato de que ela não exatamente descansou no intervalo entre um set e outro, nem discutiu mais táticas com Jairo – ao contrário da adversária, que havia passado esse tempo repassando estratégias de jogo com sua treinadora, e claramente voltou mais forte em decorrência disso. Essa hipótese, levantada pelo pensamento acelerado de uma Lorena tensa na arquibancada, era fortalecida pelas constantes viradas da cabeça ruiva para o lado, em busca de certas pessoas na plateia. Por mais que Lorena quisesse que fosse ela mesma a ser procurada pelos olhos castanhos, notava que eles sempre olhavam na direção dos pais. Não poderia culpá-la.
Eduarda quicou a bolinha no chão, jogou-a para cima e sacou.
Direto na rede.
Pegou outra bolinha, respirou fundo, e sacou de novo. Dessa vez, deu certo. Larissa rebateu no forehand, e elas começaram o rally.
Juquinha, que anteriormente tomara uma postura de ataque com facilidade, agora estava cada vez mais recuada para o fundo da quadra. Lorena podia não entender quase nada do esporte, mas estar nessa posição nitidamente não era vantajoso para quem quisesse pontuar. Se antes ela avançava para mais perto da rede, rebatendo as bolas de primeira – um voleio, pelo que Gerluce ensinou – e reduzia o espaço da adversária, agora era Eduarda quem estava sendo colocada para correr quando tinha que buscar a bola, obrigada a se colocar na defensiva.
Nesse ritmo, Becker chegou na metade do set com 3x0 – com uma péssima bola que Fragoso mandou para fora, ainda por cima. O grupo estava incrédulo, especialmente Paulinho.
— Não é possível, puta que pariu. — Passou as mãos pelo rosto, exasperado — Cacete, Juquinha, o que é isso? O que aconteceu contigo? — Pegou o totem e encarou o rosto de papelão da melhor amiga em pura descrença.
— Ô, minha irmã… — Gerluce murmurou atrás da mão que cobria sua boca.
Eduarda estava estática no meio da quadra, aparentava não ter processado o ponto ridículo que perdeu. O coração de Lorena apertou.
— Me dá uma dó ver ela assim, amor… — Violeta comentou.
— Nem me fale. — Henrique estava quase chorando, para variar — Ela se cobra demais, Leta.
Mais uma novidade para Lorena. Ela, que tinha constante contato com a tão doce e compreensiva Duda, acostumada a estar no papel de ter o barulho de sua mente silenciado pela calmaria da ruiva, não considerara que Eduarda Fragoso tinha também seus momentos de desequilíbrio. Ouvindo a leitura que o pai de Eduarda fez da filha, sentiu-se ignorante – no mínimo ingênua – por simplesmente ter assumido que a ruiva era boa em tudo sem esforço, e não considerar que ela enfrentava suas próprias inseguranças como qualquer outra pessoa.
Jairo foi até o juiz, sinalizando com as mãos que pedia tempo. Puxou a afilhada de lado assim que a permissão foi concedida, levando-a para sentar no banco e entregando-a sua toalha. Ele a observou secando o suor da testa sem dizer uma palavra.
— O que tá rolando? — Lorena perguntou para ninguém em particular.
— Conhecendo meu padrinho, ele vai dar uma bronca épica nela agora. — Paulinho respondeu.
— Mas também, depois dessa mer-
— Quer calar a boca, Leonardo?! — Cortou a fala do irmão irritada, antes que ele fosse ainda mais inconveniente na frente da família de Eduarda.
Paulinho tinha razão, porque Jairo não demorou para começar a esculhambar Eduarda. Não dava para ouvir com clareza o que ele dizia, mas era inconfundível a aparência de um treinador ralhando uma atleta depois de uma queda brusca e repentina de desempenho.
Passados quase três minutos inteiros da ruiva com a cabeça baixa, absorvendo os gritos sem protestar, o árbitro mandou ela voltar ao jogo.
Iniciou o quarto game do set sacando, e novamente a bola foi na rede. Lorena ouviu lamentos ao seu lado, mas manteve os olhos concentrados na ruiva, que permaneceu impassível com o erro. Ela realizou o segundo saque, e esse sim foi como deveria ser. Larissa não teve dificuldades para realizar a devolução, mas seu backhand não foi tão forte e deu à Juquinha a possibilidade de avançar na quadra, ao invés de ficar presa no fundo como estava sendo antes.
Apesar de cometer alguns erros bobos, Eduarda estava conseguindo equilibrar o jogo. Venceu seu primeiro game do set com um ponto de vantagem, logo em seguida conseguiu quebrar seu segundo. Estava encostando: Becker 3x2 Fragoso no telão.
Após um quinto game acirrado, porém, Larissa – ciente da súbita retomada de fôlego da ruiva – aproveitou que ela estava adiantada demais e a encobriu com a bola, aumentando sua vantagem para 2x4. Juquinha não esboçou reação; parou para tomar água e voltou cerca de um minuto depois. Devolveu os saques com maior segurança, não se deixou ser encurralada, e quebrou o serviço pela terceira vez naquele set. Não comemorou.
Nem bebeu água, só fez passar a toalha pela testa e o pescoço. Entre o apito de fim e o de começo, travava o olhar no chão avermelhado. Levantava o rosto somente para jogar, e a partir daí todos os movimento dos globos oculares e do resto do seu corpo eram em função da bola, e somente dela. Lorena podia não praticar nenhum esporte de alta performance, mas tinha uma boa noção da importância da conexão mente-corpo quando se faz exercício graças ao yoga e à meditação. Notou que Eduarda parecia imersa nos próprios pensamentos – ou talvez o contrário: não pensava em nada. Podia ser que a mente vazia, quando se trata de esportes, não seja oficina do diabo, e sim a condição para que os músculos se soltem dos grilhões da consciência.
E que músculos. Como se o dia já não estivesse quente o bastante, com a visão de Eduarda flexionando os braços, das pernas grossas firmes no chão – fosse quando ela estabilizava sua postura, fosse quando corria de um lado para o outro para buscar uma bola fora de seu alcance – e da cara fechada, com a mandíbula travada e as sobrancelhas franzidas acima dos olhos mais escuros que o usual, Lorena teve a impressão de que iria pegar fogo ali mesmo.
Juquinha havia começado a jogar com raiva – Lorena não fazia ideia se era da adversária, do andamento da partida, do mundo, ou dela mesma, mas tinha certeza que era a raiva mais atraente que alguém já demonstrou nos mais de 4 bilhões de anos deste lindo planeta – e foi esse mesmo sentimento, somado a muita raça, que a levou ao empate.
4x4. Quem fizesse o próximo estaria apenas a um game de distância do segundo set. Se fosse Eduarda, aquilo significaria o fim da partida, a medalha dourada no peito dela. Violeta e Henrique deram as mãos; Gerluce e Paulinho fizeram o mesmo, com a adição de um beijo dele na têmpora dela; Leonardo se arrastou para a beira do assento; Lorena teve vontade de roer as unhas.
Juquinha lutou bravamente para encerrar o jogo logo, mas sua adversária não desistiria tão cedo. Larissa venceu o quinto game dela após uma deuce – com o placar 40-40, levava quem abrisse primeiro a vantagem e marcasse em seguida – acirrada, na qual a Advantage foi primeiro de Fragoso e por fim de Becker. O set foi finalizado por uma bola que a ruiva mandou para fora, para sua infelicidade. 6x4, 1-1, iriam para um terceiro set.
Pela primeira vez em longuíssimos minutos, Eduarda demonstrou sua frustração em voz alta:
— Que droga! — Esbravejou, arrancando a viseira e por pouco não a tacando no chão igual o Seu Madruga fazia com o chapéu.
Jairo a mirou duramente, cessando a birra antes dela propriamente começar. Com o osso roído e o rabo entre as patas, o cão arrependido voltou para o banco, com mandamentos explícitos do treinador para se acalmar e agir como gente.
— Eu não entendo. — Lorena declarou sua confusão para Gerluce — A bola pingou na quadra, foi dentro, eu vi! Como que o ponto não foi da Duda?
— Você vê essa linha branca que marca um retângulo menor? Deixa uma espécie de “corredor” nas laterais, assim, bem estreitinho. — Violeta ouviu, e foi quem quis explicar — Esse corredor só é usado em jogos de duplas, querida. No simples, a área jogável é menor, portanto, quando a bola cai ali, é considerado fora. Entendeu? — Clarificou, gentil.
— Ah. Que merda.
Ouviu o palavreado que ela mesma disse para a mulher – que não era não somente a mulher que rezava para ser sua futura sogra, como também uma das consultoras de moda mais respeitadas da América Latina – e congelou no lugar.
Maldita seja a minha boca grande.
— Não! Ai, meu Deus, desculpa, dona Violeta! Eu-
— Lorena. — A mais velha pousou uma mão sob o joelho dela, a expressão tão séria que fez a Ferette arregalar os olhos de medo — Quantas vezes eu vou ter que te pedir para não me chamar de “dona”?
E ela riu, desfazendo a falsa seriedade. Os neurônios de Lorena cancelaram a encomenda de cortisol feita meio segundo antes.
— É uma merda mesmo, querida. — Violeta suspirou, por fim.
O árbitro declarou o início do terceiro set: o que decidiria de quem era a vitória.
Eduarda entrava em quadra muda e saía calada. Na primeira rodada de pontos, perdeu por muito pouco. Não se abalou, entretanto. Venceu com ampla vantagem as próximas três seguidas. A animação dos torcedores na arquibancada crescia, as energias renovadas – Paulinho até voltou a levantar a Juquinha de papelão, que passara o último set virada para baixo no banco atrás dele.
Como já se sabe, não era como se Lorena tivesse uma noção aprofundada do esporte – provavelmente ter utilizado como material de base cortes de jogos profissionais não tenha sido a escolha mais sábia, porque ela viera esperando algo muito mais rápido, e simplesmente não é assim que as partidas amadoras funcionam (ainda mais no saibro, piso que por natureza é mais lento). Mesmo assim, era perfeitamente capaz de identificar que Eduarda estava jogando quase como um demônio.
A raiva quieta que transparecia no olhar e na forma como ela passou a se portar no set anterior aumentou tanto em intensidade quanto em quietude. Tomou uma postura agressiva no jogo, no sentido de sempre acabar se colocando na frente e reduzindo ao mínimo o espaço da adversária; devia estar se vingando de todos os pontos em que fora colocada para correr e se esticar atrás da bola no fundo da quadra, pois agora era ela quem utilizava tal estratégia. A ruiva nem comemorava seus pontos, nem um soquinho no ar, nada; apenas dava um aceno de cabeça e voltava a jogar com a exata mesma concentração.
Lorena sentiu seu corpo inteiro aquecer, pior que antes. Cada vez que Eduarda rebatia a bola com um grunhido, cada vez que ela deslizava pelo saibro, cada vez que o rabo de cavalo ruivo balançava, cada vez que reparava na feição séria dela, a alma da Ferette ia ao céu e voltava. Sua situação interna era deplorável – ocultando algumas partes particularmente vergonhosas – e ela estava quase explodindo tentando se conter, pois não podia dar esse mole na presença dos amigos e dos pais de Eduarda; nem na frente de seu irmão, não obstante. Quando chegasse em casa, com certeza mandaria uma dúzia (ou mais) de mensagens no grupo com Maggye e Samantha para surtar.
Entendeu o que Gerluce quis dizer ao constatar que dava gosto de vê-la em quadra. Que Juquinha era diferente. Livre.
Transfixada, hipnotizada, em transe, mal percebeu que o placar chegara no empate de 5x5. Isso significava que não era o próximo game que encerraria a partida: para vencer, uma das duas competidoras precisava de dois de vantagem, ou seja, levava quem ganhasse mais dois games.
Com muita luta, Larissa tomou a frente. O placar marcava 6x5 para ela, tensionando os ombros de todo o público. Ela deu um sorriso convencido para a treinadora, que fez um joinha com as duas mãos. Jairo, não tão discretamente quanto queria, revirou os olhos. Por outro lado, Eduarda permaneceu neutra. Ainda poderia empatar e levar para o tiebreak – não era tarde demais, afinal.
Simultâneo ao agudo do apito, uma música tocou de repente.
Todos olharam ao redor confusos, exceto por Lorena. Reconheceu facilmente os primeiros segundos de PIMP - 50 Cent, o toque do celular de Leonardo. Nos últimos dois meses, quando ele configurou o aparelho para reproduzi-la toda vez que recebesse uma ligação, ela brigava com ele: em primeiro lugar, era ridículo que um garoto branquelo e burguês como Léo se apropriasse dessa música. Em segundo lugar, seria muito vergonhosa a primeira vez que o telefone dele tocasse em público e a batida estourasse do nada.
Dito e feito: Leonardo ficou vermelho e saiu para atender a ligação tropeçando nos próprios pés. Quando voltou, as notícias não eram boas.
— Mana. — Falou mais para dentro do que para fora, no ouvido da irmã.
— Fala. — Disse Lorena, sem tirar os olhos de Eduarda, que lançou uma bola cruzada fantástica.
— Lorena, é sério. Presta atenção no que eu vou dizer, tem a ver com a mãe.
— Agora eu fiquei preocupada. — Ajeitou-se no assento e ficou virada para o irmão — Aconteceu alguma coisa com ela?
— Tudo que ela disse foi pra gente voltar pra casa o mais rápido possível.
— Mas ela já voltou? Aconteceu algo grave, tipo, ela se machucou ou algo assim?
— Não sei, Lorena.
— E você não perguntou o que houve, seu estrupício?! — Gritou sussurrado.
— Não deu tempo, porra! — Ele exclamou no mesmo tom — Ela tava chorando muito, quase não deu pra entender. Você queria que eu pressionasse ela?
— Como chorando muito, Léo? — Lorena ficou atordoada.
— Isso mesmo que você ouviu. Me parece urgente. Odeio ser o estraga-prazeres, mas acho que vamos ter que ir embora mais cedo.
Ao lado dos irmãos Ferette, os Fragoso – tanto os oficiais quanto os honorários – explodiram em comemoração. Demorou alguns segundos para Lorena entender que Eduarda havia conseguido empatar, mesmo com o telão exibindo o placar. Pelo o que ouviu alguém dizer de relance, isso determinava o jogo terminaria em um clássico tiebreak de 7 pontos.
— Se bem que falta só esse game, né?
— Léo! Tá maluco? E a nossa mãe?
— Poxa, esperar só mais um pouquinho de nada não vai fazer diferença…
Sob condições normais de sanidade, Lorena teria negado veementemente. Teria achado a mera sugestão um absurdo. Teria chamado o irmão de ingrato e o acusado de ser um péssimo filho para a mãe deles. Altas chances de dar-lhe um belo tabefe também.
Sob o feitiço da vista de Eduarda suada e suja de terra avermelhada, prestes a conquistar a vitória, engoliu a ansiedade em seco e aceitou ficar.
— Tá bom. Só mais um pouquinho de nada.
Seu estômago afundou em culpa, mas ficou.
Quanto mais o tempo passava, as bolas voavam e os olhos verdes corriam de um lado para o outro, mais Lorena se sentia enjoada e mais rápido seu coração batia. Abrira mão do seu autocontrole; roía as unhas e balançava as pernas freneticamente, ao ponto de Gerluce olhar para ela preocupada. Todavia não perguntou, sentiu que não era da conta dela.
Pressionada, Larissa tentou enviar a bola fora do alcance de Eduarda, que estava atacando adiantada na segunda metade da quadra. Não o fez com a força necessária, entretanto, e um drop shot – uma curtinha, um toque leve que não faz muito mais que passar por cima da rede e dificulta a vida de quem estiver na linha de base – foi tudo que Juquinha precisou para conseguir o match point. Estava a um único ponto de vencer o campeonato, e poderia marcá-lo com um simples saque.
— Vamo, Eduarda, pelo amor de Deus!
Lorena ficou envergonhada ao perceber que a frase saiu bem mais alto do que era originalmente sua intenção. O embaraço piorou quando até a própria Eduarda parou seu ritual de pingar a bolinha no chão e a fitou diretamente.
O tempo desacelerou, como se Cronos em pessoa – em titã, será? – tivesse manipulado a realidade naquele instante. Pareceu eterna a fração de segundo em que Eduarda abriu um sorriso de canto de boca em outros contextos passível de ser descrito como cafajeste e piscou para ela.
Mas que mania insuportável essa ruiva maldita tem de me deixar sem graça!
Sabe-se lá se isso melhorou ou piorou o nervosismo de Lorena. Bem possivelmente, só mudou o motivo principal dele. Mas que sentiu sensações intensas, sentiu.
Juquinha sacou a bola com rotação no backhand da outra garota, o qual não era um dos seus pontos fortes, forçando nela uma devolução de menor velocidade, além de fazê-la se entortar ligeiramente. Rebateu na paralela sem pressa e a adversária correu para alcançar a bola. Conseguiu. Então pequena esfera verde-limão manchada de vermelho iniciou uma tragetória oblíqua por cima da ruiva. Larissa caíra precisamente na armadilha dela.
Eduarda ergueu a raquete e mandou um smash na diagonal, distante o suficiente do eixo de gravidade de Larissa de forma que ela não tivesse chance de buscar a bola. Com toda a força que tinha, cravou tanto uma marca mais pronunciada no saibro quanto o seu tão antecipado match point.
Fragoso 2x1 Becker. Eduarda era a campeã.
A pequena torcida explodiu em comemoração. Todos levantaram com um grito – Paulinho e o bendito rosto de papelão, obviamente o mais importante – ao mesmo tempo que Eduarda finalmente se permitia comemorar, pulando e dando um soco no ar, a feição enfim livre para demonstrar sua felicidade.
O resto dos acontecimentos passaram enevoados na percepção de Lorena. Lembra-se de ver a ruiva correr para abraçar o treinador/padrinho antes de qualquer coisa, depois trocar um aperto de mãos respeitoso com a adversária, a treinadora dela e o árbitro. Assistiu de longe quando as portas que separavam a arquibancada da quadra foram abertas e a ruiva foi envolvida pelos braços da mãe, e em seguida pelos do pai, que levou consideravelmente mais tempo que a esposa – muito possivelmente chorando. Lorena esperava pacientemente a sua vez.
— Lorena, a gente tem que ir.
A voz de Leonardo deu-a um puxão cruel de volta para a realidade.
— Mas… mas…
— A mãe tá ligando de novo, mandou mensagem também. Já enrolamos demais.
— Ué, vocês já vão? — Perguntou Gerluce, também aguardando sua vez de congratular a amiga, ao passo que o pai babão ainda recitava um discurso emocionado para a filha.
— Nossa mãe pediu pra voltarmos logo pra casa desde um pouco mais cedo. A gente ainda conseguiu esperar terminar a partida, mas temos que ir. — Leonardo explicou. Lorena estava engasgada com as próprias palavras.
— Poxa, que pena… A Juquinha tava toda animada pra sair pra comemorar com todo mundo na pizzaria mais tarde. Fez questão de escolher um local com opções veganas pra você e tudo, minha irmã.
Que bacana! Realmente faltava mais um motivo pra eu me sentir mal!
— Ei, será que vocês não conseguem ir depois? — Gerluce se animou com a ideia que lhe surgiu — Encontram a gente lá, não sei… Tia Vi!
— Oi, querida. — A mais velha chegou ao lado dela.
Gerluce explicou que os irmãos Ferette estavam indo embora mais cedo, lamentando, e propôs novamente que encontrassem uma solução para terem a chance de celebrarem como Eduarda havia intendido. Leonardo estava agoniado, checando o celular constantemente, e Lorena estava sobrecarregada de estímulos demais para reagir.
— Se for da sua vontade, Lorena, nós podemos lhe buscar na sua casa quando sairmos. Vocês dois. — Violeta ofereceu.
— Rápido, o uber tá a um minuto daqui. — Léo sussurrou no ouvido da irmã.
A ansiedade em relação à urgência que a mãe não contava via telefone, a pressa de Leonardo, a proposta gentil de Violeta, a vontade de não se despedir nunca de Eduarda e a necessidade patológica de agradar a todos pesava nas costas de Lorena como uma prensa hidráulica. Com uma cajadada só, tinha o dever de matar esses quatro coelhos – o que era um absurdo de se pedir a uma vegana.
— Chegou! Vamos, agora.
Por fim, respondeu o que seria mais fácil. O que não abria margem para ser questionado.
— A… a gente vê!
Ela nem conseguiu se despedir propriamente das pessoas, pois Leonardo saiu puxando-a sem um resquício de paciência (rude). Pode ser que tenha ouvido um “tchau” ou outro, mas a única coisa que seus sentidos registraram foi a imagem de Paulinho girando Juquinha – a de carne e osso e a de papelão – nos braços, ela sorrindo para iluminar bairros, cidades, países.
Mais uma vez, Lorena perdeu Eduarda no ar. Mais uma vez, a vez de Lorena não chegou.
Até a próxima, eu acho. Vou te esperar, Duda.
Durante o caminho de volta para casa, reinou um silêncio sepulcral. A mente de Lorena era um misto de lamento com desassossego. Corria por suas veias um pressentimento ruim acerca do que encontraria quando chegasse em casa. Não conseguia parar de imaginar o que raios fora capaz de desestabilizar tanto sua mãe, geralmente firme na postura inabalável, da mulher que ri seja das graças, seja das desgraças; que se recompõe frente a quaisquer perturbações à sua estrutura. Casada há quase 20 anos com quem era, Zenilda criara uma armadura de ferro. Para ela ligar em prantos pedindo ajuda, ainda mais dos filhos, a quem ela nunca queria preocupar, era porque algo de muito grave havia acontecido.
Não era preciso verbalizar em alto e bom som: os dois tinham altas suspeitas de que o pai tinha muito a ver com aquilo.
Desceram do carro de aplicativo, agradecendo à motorista, e subiram o elevador no mesmo silêncio. As portas de metal se abriram diante da cobertura, de onde nada se ouvia. Trocaram olhares tensos antes de abrirem a porta; esperavam confusão, gritaria, hipocrisias berradas aos ventos gélidos do ar-condicionado, invisíveis através das enormes janelas de vidro do apartamento, mas nada. Nada que seguia a cartilha de Santiago Ferette.
A primeira onda sonora a fazer vibrar os tímpanos desde que chegaram foi o bip dos botões da fechadura eletrônica. O segundo barulho, do arrastar da porta excessivamente grande pelo porcelanato. O terceiro, um soluço sufocado. Esse aumentou o estado de alerta de ambos.
Lorena registrou antes que Leonardo a mãe deles encolhida no sofá.
Disparou na direção dela. Ajoelhou-se em frente de Zenilda e segurou com toda a delicadeza o rosto inchado de choro da mãe, que abriu os olhos devagar. Sem forças, ela não chegou a sequer se assustar com a chegada silenciosa dos filhos.
— Mãe… o que aconteceu?
Nada a preparou para a resposta que saiu sofrida da boca de Zenilda.
— Eu peguei o pai de vocês na nossa cama com a Arminda.
Ao completar 13 anos, Lorena ganhou uma viagem em família a Londres de presente.
Na época, não ficou muito animada. A ideia fora de Zenilda, porque uma maratona de The Crown a deixara fascinada pela ideia de visitar o Castelo de Windsor, e Lorena (apesar de ter zero encanto pela Inglaterra) não contrariou a mãe. Suas forças para contestação eram gastas exclusivamente com os homens da casa, que arranjavam qualquer motivo para desqualificá-la, então não valia a pena se indispor com sua única aliada dentro do núcleo familiar. Além do mais, Leonardo tinha acabado de ser reprovado no primeiro ano do ensino médio, e – por uma vez na eternidade – todo o desgosto do patriarca estava concentrado no primogênito, não na caçula. Ela é que não iria voltar a atenção para si reclamando do destino; era uma recém-adolescente revoltada, não idiota.
Viajaram 6 meses depois do aniversário dela, no começo de dezembro, pois queriam viver o inverno londrino e visitar os tradicionais mercados de Natal. Queriam comer waffles e fudge, tomar chocolate quente e mulled wine, o vinho quente com especiarias pelo qual Santiago era apaixonado. Não era tão bom quanto o Glühwein alemão original, segundo ele, mas matava a vontade.
Batendo os dentes de frio em pleno Leicester Square Christmas Market, Lorena timidamente pediu um gole da caneca fumegante do pai, só para se aquecer. Ele olhou furtivamente ao redor, checando se a esposa estava por perto e, verificando que ela comprava biscoitos de gengibre a duas barraquinhas de distância, falou baixinho para a garota pegar só um teco. Lorena obedeceu, e eles compartilharam um risinho cúmplice entre o vapor condensado da bebida quente no ar.
Uma hora depois, ela implorou para o irmão mais velho acompanhá-la na patinação no gelo. Ele não quis – medroso desde cedo, mesmo que morresse antes de admitir –, e Santiago se ofereceu para ir no lugar dele. Quando a esposa e os filhos o olharam com uma interrogação gigante no rosto cada um, indagou risonho:
— Vocês acham que eu não posso ser radical também?
O desafio talvez tenha sido demasiado prepotente de sua parte, porque ele pegou nada mais, nada menos que três quedas. Nas duas primeiras, Lorena ficou em alerta, crente que o pai honraria o gênio forte e sairia enfezado, batendo as lâminas dos patins no gelo (se isso fosse possível). No entanto, foi surpreendida por uma gargalhada do homem. Na terceira, eles gargalharam juntos enquanto a filha o ajudava a ficar em pé. Algo mudou a partir dali.
Veja bem: a relação deles vinha tornando-se cada vez mais conturbada desde a primeira vez que Lorena teve a ousadia de apoderar-se de sua consciência e questionar a soberania de Santiago. Nada perto dos embates da segunda metade da adolescência em diante, mas sim a inevitável transição de “princesinha do papai” para filha rebelde que precisava de correção. Jovem e impressionável, Lorena encarava isso como o fim do mundo, por mais que disfarçasse bem com sua máscara de durona. Vendo seu pai se divertir com ela como nos tempos em que a menina usava maria-chiquinha, entretanto, pensou que as coisas estavam voltando ao lugar.
E, de fato, foi assim pelo resto das férias. Num dia em que Zenilda e Leonardo estavam com princípios de um resfriado, Santiago levou Lorena para dar um passeio pelo bairro. Equipados de seus grossos casacos, bateram perna por horas até a mais nova bater o olho em uma livraria charmosa na esquina de uma rua estreita. Pediu para entrarem e darem uma olhada nos livros, e o convenceu ao apontar para a plaquinha que informava que lá também serviam café.
Sentados na mesa de mogno, Lorena bebia um chá Earl Grey e Santiago bebia um expresso duplo. O celular do mais velho tocou com uma ligação de alguém que ele afirmou (em gaguejos) ser um fornecedor, e praticamente a enxotou dali para tratar de negócios em privacidade. Meio cabisbaixa, a garota corria a mão por uma das estantes lotadas de livros cujos títulos ela mais ou menos reconhecia em outra língua além do português.
— Y’know… I usually wouldn’t recommend anything from this particular aisle to someone your age.
Uma voz desconhecida entoou ao seu lado, causando um sobressalto em Lorena. Por sorte, já tinha uma boa fluência em inglês naquela época e entendeu que provavelmente não havia nada de ameaçador na interação. Ainda mais porque quem lhe dirigia a palavra era uma belíssima mulher por volta dos trinta anos de idade – pele negra retinta reluzente, os braços cobertos por tatuagens coloridas, dois brincos diferentes em cada orelha, longas e estilosas tranças, vestindo uma camiseta da Maya Angelou – que aparentava ser muito simpática. Também reparou que o sotaque dela era do outro lado do Atlântico.
— Apologies for scaring ya, girl. — A risada dela era melódica — Just noticed you seemed to be taking an interest in those.
— No problem at all. — Lorena foi botar as aulas de conversação à prova — I was only taking a look at these books. They seem… pretty cool.
— Pardon me, but I hear a bit of an accent… Not from the UK, I suppose?
— Yeah, no. Brazil, actually. I’m spending Christmas with my family here.
— Wow, you speak very good english!
— Thanks. — Lorena agradeceu com um sorriso tímido.
— I’m not from here, either. — Confirmou as suspeitas da Ferette — Moved to London from the US three-ish years ago. Opened the store just recently.
— Well, you have a very nice place.
— You flatter me, Brazil girl. — Sorriu — So, kid, do you usually read in english too?
Como revelo que nunca li nenhum livro em inglês, mas zerei as fanfics Emisue no idioma?
— Sometimes. — Soltou um arzinho pelo nariz.
— Then I think you gon’ enjoy this one.
O livro que entregou nas mãos de Lorena era uma história em quadrinhos chamada Fun Home, pela qual ela se encantou à primeira vista. A capa da edição inglesa contava com uma linda ilustração do que ela assumiu ser um pai erguendo sua filha pequena com as pernas, brincando de aviãozinho. Na tradução para a língua portuguesa, a introdução partia dessa cena assim:
“Como muitos pais, o meu às vezes podia ser convencido a me levantar no ‘avião’. Conforme eu era lançada, todo meu peso recaía sobre o eixo entre os pés dele e o meu estômago.”
— It’s a graphic novel of Alison Bechdel’s life. Much about her family, especially about her dad, which is kind of the main storyline of the whole thing.
— Who’s that? If you don’t mind me asking.
— Don’t worry, I didn’t expect you to know her at first. — Riu — I felt like I needed to introduce Bechdel to you because I heard about her for the first time myself when I was your age, and soon she became one of my favorite authors. Seemed right up your alley.
— Now you’ve made me curious.
— You’ll like it, kid, trust me. If you want to, maybe I could also show you her most famous collections of comics. It’s a series called “Dykes to Watch out For”, and it was very important for me growing up.
Mesmo tão jovem, Lorena sabia bem o que a palavra significava. No recente processo de descoberta de sua sexualidade, pesquisou embaixo das cobertas sobre tudo que tinha a ver com a história e a cultura da comunidade lésbica no ocidente; catou a sutileza. Suas sobrancelhas subiram involuntariamente em interesse.
— Lorena! Cadê você, filha?
“Era um desconforto que valia a pena pelo raro contato físico, e certamente pelo momento de equilíbrio perfeito quando eu voava sobre ele. No circo, as acrobacias em que alguém no chão equilibra o outro chamam-se ‘jogos icáricos’.”
A voz do pai a impediu de aceitar a proposta da dona da livraria. Não importava se estivessem bem no presente, ela não podia se dar o luxo de levar para casa um livro com “sapatonas” escrito na capa sem correr algum risco. Mas comprou Fun Home, que além de ser excelente por si só, tecia uma genial narrativa profundamente introspectiva e guardava um universo inteiro de referências aos clássicos da literatura inglesa e francesa. Quase um espelho da própria Lorena dos dias de hoje.
“Tendo em conta o destino de Ícaro, que desprezou o conselho do pai e voou até perto do sol, derretendo suas asas, talvez haja aí um tanto de humor negro.”
Essa viagem foi a última vez que Santiago verdadeiramente demonstrou amar a filha em um bom tempo.
Na volta ao Brasil, ela se esforçou para não chateá-lo tanto, seguindo as orientações da mãe e sua carência do pai que teve na infância. Nada adiantou. A cada bendito dia que passava, ele parecia guardar mais rancor de Lorena, por motivos que ela desconhecia. Chegou a um ponto que ela simplesmente se acostumou e passou a dar o troco: comprava as brigas, questionava até o ar que ele respirava, revirava os olhos com tudo que ele dizia, debochava do título de Comendador e da fama de benfeitor. O lar dos Ferette virou zona de guerra entre duas potências, duas faces opostas da mesma moeda.
Mas nas profundezas do inconsciente, o desejo de Lorena era que seu pai se revelasse como um homem bom e voltasse a amá-la. Mesmo com toda a raiva, com todo o desprezo às opiniões dele, mesmo escutando suas ofensas diariamente. Por anos, nutriu em segredo a esperança de que ele mudaria, por definitivo, em alguma hora. E acreditou que tal movimento começara a acontecer agora que ela estava trazendo orgulho para ele, com a popularidade dos vídeos feitos para promover a Fundação.
Acreditar era uma tarefa incrivelmente difícil no que se tratava de Santiago Ferette. Não havia personalidade mais inconstante no mundo do que o pai de Lorena e Leonardo, igualmente uma icógnita no papel de marido da Zenilda. Sempre almoçando fora de casa, trabalhando até tarde e nos fins de semana, atendendo fornecedores que ninguém sabia quem eram, se esgueirando pelos cantos, viajando “a trabalho” com a mulher do sócio… Tudo enquanto sorria para as câmeras e enchia a casa de porta-retratos de sua bela família tradicional brasileira.
“Às vezes, quando as coisas iam bem, acho que ele até gostava de ter uma família. Ou pelo menos do ar de autenticidade que dávamos à sua obra de arte. Uma natureza morta com crianças.”
Ele deve ter pensado que se safaria, que jamais seria descoberto.
“Em nossa reconstituição particular dessa relação mítica, era meu pai e não eu quem despencaria do céu.”
Lorena passou anos pensando que era ingênua de acreditar no pai, mas talvez Santiago seja quem tenha sido estúpido de cometer esse erro.
Quando receberam a notícia da traição, Leonardo e Lorena quase caíram duros no chão. O reflexo imediato foi encherem a mãe de intermináveis perguntas (o quê?! Como assim? A senhora tem certeza? Com a Arminda? Na cama de vocês, jura? Não é possível, isso não tá acontecendo, é mentira. Léo, é lógico que aconteceu! Que ódio, esse homem não passa de um canalha! Não fala assim do nosso pai, Lorena. Eu falo o que eu quiser desse cretino, não entendeu o que ele fez com a nossa mãe?! Mãe, você mandou ele pra fora de casa? Ele saiu, assim, de boa? Nem resistiu, só aceitou? A Surucucu foi com ele? Ai, meu Deus, o tio Rogério! Ele tá sabendo disso?), mas logo Lorena se deu conta do estado de total impotência de Zenilda e escolheu se calar.
Com o auxílio do irmão, conduziu a mãe até o andar de cima do duplex. Evitou a suíte master – a cena do crime – e, após ajudá-la a colocar o pijama, escovar os dentes e lavar o rosto, Lorena a deitou na sua própria cama. Desesperadamente necessitada de consolo, Zenilda pediu para que os filhos deitassem com ela (por favor, meus amores, a mamãe tá precisando muito de vocês), apesar de o sol nem ter se posto ainda. Leonardo não pensou duas vezes antes de aninhar-se nela, mas Lorena foi só depois. Alguém tinha de arrumar a bagunça deixada pelo traidor, que quebrou louças e mais louças quando foi desmascarado. Quem mais limparia a sujeira do pai, senão a filha mulher?
A mais nova fez o que pôde para melhorar o estado da cozinha e retornou ao quarto. Lá, encontrou a mãe e o irmão abraçados, entregues ao sono de cansaço emocional. Lorena tomou um banho quente, vestiu shorts de flanela mais a sua camiseta de conforto spill your guts adquirida na tour passada da Olivia Rodrigo, e aninhou-se no lado vago de Zenilda.
O sono nunca chegou. As memórias relativas a Santiago arrastavam-se pela mente de Lorena e gritavam de agonia em silêncio. Silêncio porque ela só conseguia senti-las, não expressá-las. Fazia mais ou menos uma hora que ela não emitia uma palavra, que seus olhos estavam nublados, sem uma só lágrima. Teria ela discutido tanto com seu pai que dessensibilizara-se à vilania do homem e perdera a capacidade de chorar por ele? Pensava na mãe, em como seria a vida deles dali em diante, em como Rogério reagiria quando soubesse da traição dupla, e – não que ela tivesse orgulho deste – como ficaria a reputação da família e, consequentemente, da Fundação.
Perguntava ao universo se Santiago sentia um único pingo de remorso pelo que fez. Se ele se arrependia de ter destruído a família deles. Se ele gostaria de ter sido melhor.
“Será que Dédalo ficou mesmo triste quando Ícaro caiu no mar? Ou só decepcionado com o projeto falho?”
Por sua vez, ela gostaria de esquecer todas as vezes que o pai a deu motivos para continuar o amando. Queria jogar fora todas as memórias boas com ele, pois sujá-las de mágoa não remendava os rasgos na sua alma.
Lorena já tinha aceitado que não dormiria naquela noite quando ouviu a campainha tocar no andar de baixo. Achou estranho, ninguém aguardava visitas. Podia ser o porteiro com uma encomenda, mas não havia nada a ser entregue, não de sua parte. E, bem, Santiago Ferette com certeza não voltaria para implorar por perdão. Calçou seus chinelos listrados depois de desvencilhar-se da mãe com cautela, e desceu a escada em passos leves.
Abriu a porta e se deparou com a última pessoa que esperava encontrar.
— Eduarda?!
Ainda que fosse a que mais queria ver.
— Gostou da surpresa? — Abriu os braços teatralmente, sorrindo com o rosto inteiro.
— Eu… eu…
Estou chocada, estupefata, incrédula, estarrecida. Sonhando, talvez.
— Como você subiu? — Foi tudo que foi capaz de balbuciar.
— Oras, eu tenho meus truques! Já te conto, assim que tiver te explicado o motivo de eu estar aqui e garantir que não sou uma psicopata que te localizou e invadiu sua casa.
— Pois é, como que você chegou aqui? Eu não lembro de ter te passado meu endereço.
— Não vai me convidar pra entrar antes? — Fez uma carinha de coitada à qual Lorena não resistiu.
— Não seja por isso. — Sorriu fraco — Entra, Duda.
Eduarda adentrou o apartamento escuro correndo os olhos por toda a decoração, como se estivesse em um museu.
— Agora você vai me contar como soube onde eu moro?
— Um passarinho me contou. — Assobiou, brincalhona.
— Eduarda. — Lorena cruzou os braços e a mirou séria.
— Brincadeira! — A ruiva deu um riso sapeca — Quem me forneceu essa valiosa informação foi a Maggye.
— Tá, menos mal. Mas por que?
— Porque você não respondia minhas mensagens, uai!
Com a confusão, Lorena não havia triscado no telefone nem para checar o horário. Preferiu isolar-se até conseguir se convencer que o mundo exterior não existia e que seu pai não era um crápula infiel.
— Ah. Desculpa, eu… não peguei no celular desde que cheguei. Capaz de ter descarregado.
— Relaxa, Lô, tá tudo certo. Bem, agora pra esclarecer o porquê de eu ter vindo parar aqui: imagina a minha surpresa quando eu fui te chamar pra comemorar comigo e percebi que você não estava mais no recinto…
— Caramba, me descul-
— Não! — Interrompeu-a erguendo o indicador para impedi-la de falar — Sem desculpas, me deixa terminar. — Lorena assentiu zonza, distraída pela pressão nos seus lábios — A Gerluce me disse que você e o Léo tiveram que voltar mais cedo, e eu entendo completamente. Mas é que eu tava tão ansiosa pro after na pizzaria, sabe… Te falaram que eu até escolhi uma com pizzas veganas no menu?
— Não precisava ter se preocupado com isso.
— Mas eu quis. Acha que eu te convidei por educação, é?
Meio que sim, meio que não…?
— Bobagem. — Diante da falta de reação da morena, concluiu que ela achava que sim — Tá, daí minha mãe falou que tinha acordado contigo que a gente podia buscar vocês pra irem com a gente mais tarde.
Acordo era uma palavra muito forte para o que Lorena de fato disse. Talvez Violeta Fragoso tenha faltado as aulas de etiqueta para declinar um convite a la brasileira, e interpretava todos os “a gente vê” como uma afirmativa. Mas se Eduarda tinha ido atrás dela por isso, quem seria ela para reclamar?
— Quando eu digo “mais tarde”, é mais tarde no sentido literal, porque o Paulinho e a Gerluce foram com a gente pra se arrumarem na minha casa, e a Luce demora cerca de cinco dias úteis só no banho. Eu também levo um pouco mais de tempo nos meus dias de patricinha, mas qual é! Ela fica uma eternidade no chuveiro, mano! Enfim, você não tava respondendo minhas mensagens, e como eu fiquei sem energias pra me embonecar depois desse jogo e fiquei pronta rapidinho…
Eduarda estava, sim, simples. Vestia um short branco de linho, uma camisa retrô da democracia corinthiana preta dois tamanhos maior, e nos pés calçava uma papete birken de sola reta marrom e fivelas azul-marinho. No rosto, nada além dos óculos de armação retangular fina e cor bordô. Os cabelos ruivos ainda úmidos sob a expressão cansada. Linda.
— E o pessoal ainda ia demorar — continuou, alheia à Lorena se apaixonando um pouco mais —, resolvi pedir um help pra sua amiga e te perguntar pessoalmente. Não pense que estou te obrigando a ir, tá, por favor!
— Isso nem passou pela minha cabeça, calma.
— Ufa! — Brincou de agradecer aos céus — Mas e aí, topa? Se sim, eu te espero ficar pronta aqui embaixo, sem problemas.
— Não sei, Duda, não sei. — Lorena coçou a cabeça — Não é que eu não queira, é que aconteceu um negócio, e… — Parou a própria frase no meio, sem querer falar demais — Poxa, você tá aí, cansada, e eu nem pra te oferecer uma água!
— Quê? — Eduarda não entendeu a repentina mudança de assunto.
— Ai, que cabeça a minha! — Arrastou-a pela mão até a cozinha, tentando disfarçar — Você deve estar com fome, não está?
— É, acho que sim…
— Ótimo, vou fazer um lanchinho pra você. Uma coisinha pra beliscar, só pra enganar o estômago. É uma boa, né?
Lorena movia-se tal qual uma barata tonta. Abriu a geladeira com mais força que o necessário, chegou perigosamente perto de derrubar o copo que pegou do armário, foi pescar da prateleira inferior uma banda de melão para cortar, aí percebeu que precisava de uma facae foi buscar no escorredor. Então voltou ao lugar de origem para pegar o jarro de água e derramou metade do conteúdo destinado ao copo no chão. Intrigada (e, francamente, preocupada), Eduarda apenas a observava. Isto é, até ver algo que não poderia ignorar.
— Lô…
— Diga!
— O que são esses cacos de vidro e esse sangue no chão?
Merda, eu devia ter limpado direito.
Inferno, por que você teve que dar chilique e se cortar quebrando a louça, pai?! Drama desnecessário, considerando que não foi você quem levou chifre.
Lorena travou a mandíbula e abaixou o olhar, sentindo-se encurralada. Aí que Eduarda ficou em alerta total.
— Lorena, o que é isso? — Silêncio — Olha pra mim, Lorena. Que porra é essa?
Vendo que a morena não ia destravar sozinha tão cedo, Eduarda pôs a mão direita com toda a cautela sob o trapézio dela, iniciando um carinho suave. Com a esquerda, segurou delicadamente o queixo de Lorena e ergueu o rosto dela para olharem-se nos olhos.
Nas décadas iniciais do século passado, o filósofo Merleau-Ponty – um dos dinossauros da fenomenologia europeia – postulou que nós não somos seres puramente individuais que, por acaso, vivem lado-a-lado no mesmo planeta. Assim como seus contemporâneos jurássicos, Husserl e Heidegger, escreveu páginas e páginas dizendo que somos ser-no-mundo, constituídos em-relação ao mundo no qual vivemos, não cercados, mas profundamente atravessados por ele e por nossas relações com os outros.
Referente ao assunto “outros”, o francês cunhou o termo intercorporeidade para ilustrar que a experiência humana se dá na coexistência ao invés da vida dita privada, e mais: experienciamos as coisas corporalmente antes de nossa consciência agir. Em outras palavras, o corpo do outro não configura um mero objeto neutro, ele expressa algo passível de significação antes de verbalizarmos significado. Reduzindo a miúdos, somos corporalmente afetados pelo corpo do outro: seus gestos, seu olhar, sua expressão, sua postura e cada minúcia de sua presença física antecedem qualquer coisa que será dita, e podem ser os pontos decisivos na nossa decisão de nos abrirmos com alguém.
O olhar de Eduarda brilhando no escuro e o toque alentador – quentinho como a mão da deusa Héstia a lhe oferecer abrigo – dela na sua pele descoberta foram eficientes em desmontar Lorena pedacinho por pedacinho. A expressão derreteu, as sobrancelhas se contraíram, os lábios começaram a tremer, os olhos inundaram. Quando as pernas amoleceram e ela pendeu para frente, Eduarda a segurou.
— Lô, você tá segura comigo, tá bom?
Mas palavras ainda eram importantes para Lorena – espírito de poeta que tinha, como seria diferente? – e foram elas o gatilho que disparou toda a sua angústia para fora do corpo. Desabou em lágrimas nos braços de Eduarda.
— Duda, eu… O meu… — Soluçou — O meu pai… — Outro soluço, esse doeu.
— Shhh… Shhh…
Duda afagava as costas dela com toda a ternura que possuía em si. Permaneceram assim por muitos minutos até a respiração de Lorena se estabilizar.
— O sangue é do meu pai. — O som da voz dela, rente ao pescoço da ruiva, saiu embargado e abafado — Minha mãe disse que ele arremessou uma garrafa na parede e acabou se machucando. Uma taça, sei lá. — A mão nas costas de Lorena tensionou no meio do carinho e agarrou sutilmente o tecido da camisa.
— Isso é uma ocorrência normal por aqui? — Perguntou num tom grave.
— Não é.
— Menos mal.
— As coisas nunca escalonaram desse jeito até hoje. Acontece que minha mãe pegou ele e a melhor amiga dela praticamente transando na cama deles.
— Caralho…
— Aham, caralho… — Deu um riso sarcástico, descolando-se da outra garota e limpando o choro das bochechas com as mãos — Ninguém espera chegar em casa e receber uma bomba dessas. Tipo “surpresa: sua família é uma mentira!”
— Eu sinto muito, Lorena. Não consigo dimensionar o que cê deve estar passando.
— Valeu. — Fungou baixinho — Significa muito pra mim te ter comigo, Duda.
— Ô, meu Deus… — Fez um biquinho de dó e abriu os braços de novo — Vem cá, vem.
Qual escolha tinha Lorena a não ser enterrar-se no abraço dela?
— Desculpa por molhar a sua camisa.
— Preocupa não… molhar é o de menos. Agora, se tu tiver sujado ela de ranho, a gente vai ter uma conversa séria. — Lorena riu da gracinha. Previsível.
— Ixi, tarde demais.
— Vai se ferrar, garota! — Gargalhou — Beleza, eu vou te perdoar, mas só dessa vez.
— Agradeço a consideração.
— Ao seu dispor, madame.
— Mas sério — levantou a cabeça e olhou nas íris castanhas — obrigada por não fazer disso algo maior do que é.
— Claro, pô… sempre que precisar conversar, desabafar, ou só chorar mesmo, pode contar comigo.
— Manterei isso em mente. Hoje eu só… não sei, precisava soltar esse peso. Não tive tempo, nem cabeça pra processar direito toda essa maluquice. Acho que não ter efetivamente visto nada pode ter criado um bloqueio na minha mente, como se não fosse real. Até agora, não tinha saído uma gota d’água de mim.
— Talvez você precise de um desfecho pra que a ficha caia.
— Muito bem pensado. Meu pai e eu sempre resolvemos nossos dilemas de frente um pro outro, e o maior de todos eu nem presenciei. — Lorena se encostou na bancada, a lombar encostada no mármore frio — De qualquer forma, não quero pensar nisso agora.
— Compreensível. — Eduarda disse — E é por isso que eu tive uma ideia brilhante, diga-se de passagem.
— Ah, é? — Lorena soltou um ar pelo nariz, ainda meio entupido — E o que seria essa ideia brilhante, posso saber?
— Aguarde e verás.
Eduarda tirou o celular do bolso, desbloqueou o aparelho e começou a digitar. Lorena aguardou pacientemente a revelação do que ela planejava, forçando-se a não espiar a tela.
— Olha, tô ligada que você disse especificamente sem música, mas tenha dó! Eu sou uma criatura inerentemente musical e inerentemente dependente de um ritmo. — A Ferette a olhou como se ela tivesse crescido uma segunda cabeça.
— Hã?
— Juro que é só até eu pegar o passo, depois a gente faz do seu jeito.
A ruiva então pressionou um botão na tela e não deu tempo à Lorena de continuar confusa, pois quando ela se deu por si, o famoso riff de contrabaixo já saía do sistema de som do aparelho móvel e Eduarda já a puxava pela cintura com um sorriso malandro no rosto.
“When the night has come / And the land is dark / And the moon is the only light we’ll see”
— Mentira que você escolheu Stand By Me pra tocar.
— Amou?
— Que breguice, Eduarda! — Riu mais alto do que pretendia, desacreditada na audácia.
— Tu é muito sem cultura, isso sim. Essa música é um clássico, Lorena!
“No, I won’t be afraid / Oh, I won’t be afraid”
— Dança comigo, vai.
— Se você insiste.
“Just as long as you stand, stand by me”
— Não aguento o tanto que você é convencida. — Eduarda disse, ajeitando o braço ao redor da cintura de Lorena e segurando a mão dela com a sua.
— Oi? Essa é você, cenourinha. — Começaram a balançar no ritmo da música.
— Onde que tu ouviu esse apelido, guria?!
— Jamais revelarei minhas preciosas fontes.
— Que saco, mano!
— Ei, caso a senhorita cenourinha não tenha notado, eu não sou uma exímia dançarina. — Passou o braço livre ao redor do pescoço da mais baixa — Portanto, para de resmungar e me conduz direito, Eduarda.
— Às ordens, general. — Apertou a pressão na cintura fina da morena.
“If the sky that we look upon / Should tumble and fall / Or the mountain should crumble to the sea”
“I won’t cry, I won’t cry / No, I won’t shed a tear”
Encontraram a sintonia que reservavam uma para a outra sem dificuldades, embalando-se na melodia. De repente, Eduarda falou por cima da voz de Ben E. King:
— Quero testar um negócio.
— Vish, tenho até medo desse “negócio”.
— Não confia em mim? — Levantou uma sobrancelha.
— Depende.
— Mulher de pouca fé, como me aborreces… — Olhou para cima como se lamentasse para o divino — Me deixa testar, por favor.
— Tenho opção? — A criança travessa em forma de uma garota de 17 anos acenou negativamente — Então tá.
— Eba!
Ela afastou os corpos, mantendo–os ligados somente pelas mãos que permaneceram unidas, e girou Lorena.
Uma vez.
— Ah, não. Não acredito que era essa a ideia genial.
Duas vezes.
— Mais uma?
Três vezes.
— Eduarda! Eu tô ficando tonta!
— Bem feito, quem mandou debochar da minha coreografia?!
“Darlin’, darlin’, stand by me / Oh, stand by me”
Quatro. Dessa vez, Lorena girou mais desengonçada que nas outras e seu cotovelo acabou acertando os óculos de Eduarda.
“Whenever you’re in trouble, won’t you stand by me?”
— Ai, perdão! — Abaixou-se para pegar os óculos, torcendo para que as lentes não tivessem sido danificadas na queda.
— Você devia trabalhar nessa sua tendência de se desculpar por tudo. — A dona deles não se incomodou.
— Engraçadinha.
Felizmente, as lentes estavam intactas. Lorena se levantou de volta e achou o olhar que mais amava fixo nela. A música acabou naquele instante, potencializando o impacto da visão. Contudo, ao invés de sentir nervosismo, foi tomada por uma calma absurda que fez as covinhas aparecerem para decorarem seu sorriso bobo. Ergueu os óculos à altura apropriada e deslizou o objeto pelo nariz perfeito de Eduarda, os olhos cor de chocolate fixos em si.
— Eu fico feliz que você tenha voltado a usar óculos. Combina demais com você.
— Pura influência sua.
— Que honra, então. — Riram juntas.
— Ei, a música acabou.
— Sim, eu percebi. — Lorena se fez de besta.
— Dã, lógico que percebeu. — Revirou os olhos e enlaçou a cintura dela com ambos os braços dessa vez — Tô falando que é hora de realizar o seu sonho agora, sua boba.
— Ah bom. — Correu as mãos pelos braços fortes da ruiva (talvez fosse esse seu real sonho) e juntou-as atrás da nuca dela — Se é assim, eu aceito.
Nenhuma das fantasias românticas de dançar sem música que Lorena envisionara na calada da noite previamente fazia jus à realidade. Todos os seus sentidos foram aguçados com a proximidade e a ausência de sons – fora o das respirações em conjunto. Jamais imaginou que um dia de uma descoberta familiar pra lá de infeliz terminaria com tanto contentamento, nem que Eduarda lembraria de algo tão banal que mencionara um mês atrás.
Teve uma mini epifania: Santiago Ferette era o tipo de homem que quebra todas as promessas que faz, inclusive as sacramentadas. Eduarda, por outro lado, era mulher de cumprir até as que não fez explicitamente.
— Você ainda não me contou como conseguiu subir sem tocar o interfone.
Lorena cutucou Eduarda – simbolicamente – em busca do esclarecimento que lhe faltava.
— Já disse, tenho meus truques. — Foi cutucada de novo (mas fisicamente) pela ponta da colher usada pela morena para atacar o doce de banana que dividiam em uma cumbuquinha, ambas sentadas na bancada — Ai! Credo, pra que agressão?
— Desembucha, cenourinha. — Em resposta, uma careta com a pontinha da língua entre os dentes. Eu digo, uma criançona.
— Acredita que o porteiro simpatizou comigo, menina?
— Eu diria que não, mas talvez seja erro de principiante duvidar dos acontecimentos aleatórios da sua vida.
— Sábias palavras. Hum — deu uma colherada no doce, balançando as pernas inquietas no ar — nossa, esse doce tá muito bom.
— Eu que fiz.
— Jura? Poxa vida, parabéns! Me passa a receita depois.
— Balela, Eduarda, eu nem chego perto do fogão. — A morena quis sair comemorando por tê-la enganado com uma mentirinha besta.
— Sua pateta!
— Pateta é você que caiu nessa. — Eduarda fingiu que daria um tapa em Lorena que desviou do golpe gargalhando — A Zezé quem fez. As mãos de fada são todas dela.
— Pois agradeça a ela em meu nome. E não esquece da receita.
— Ok, se você me revelar o mistério do porquê o porteiro simpatizou com você.
— Tu não larga o osso, né?
— Sou curiosa, apenas.
— Fofoquita… — Cantarolou.
Eduarda narrou – com uma boa dose de drama – a história de como o porteiro, Angélico (nome bordado no uniforme dele), notou que ela já entrara no prédio inquieta. O motivo era Lorena não atender o telefone, porém ela não teve a oportunidade de explicar a situação para o rapaz, porque ele se empolgou com a camisa da democracia corinthiana e começou a trocar ideia com ela sobre o time e todo o sofrimento pelo qual os torcedores vêm passando. Em determinado momento, liberou o acesso à garota sem questionamentos.
— Foi legal, mas eu espero, do fundo do meu coração, que nenhum bandido corinthiano tente assaltar este prédio, porque o cara vai deixar ele entrar.
— Pior que o Célio, do outro turno do fim de semana, ele não é. Aquele homem asqueroso, não contente em ficar fofocando do começo ao fim do expediente, assedia toda e qualquer mulher que passa pela portaria.
— Argh. — Fez uma cara de nojo — Mereço.
— Né?
O toque do telefone de Eduarda cortou a conversa. Ela pediu licença para atender; rápido voltou. Lambeu a sua colher e lavou-a na pia – indiferente aos protestos da dona da casa –, indicando que estava de saída.
— A delegada ligou, disse que tá aqui embaixo no carro com a galera toda.
— A delegada, no caso, sendo a sua mãe?
— Quem mais? — A careta da mais baixa arrancou uma boa risada de Lorena.
— Você não existe, Duda. — Falou meio rindo, meio se derretendo em manha — Vamos, eu te levo ao elevador.
— Não sei por que, mas eu tinha o pressentimento de que você não iria com a gente…
— Palhaça. Bora, estão te esperando.
— Peraí. — Segurou o pulso da Ferette, parando seu andar — Eu não posso ir sem falar mais um assunto com você.
— E qual seria?
— Lô, eu não vim aqui só pra te perguntar se você queria ir à pizzaria com minha família. Na verdade, a Maggye não me contou apenas o seu endereço na conversa que tivemos.
Não passou nem wifi.
Nem Judas, Margareth Damatta, nem Judas!
— O-o que…
— Lorena, ela me relatou a nota que você tirou em matemática.
Salvo pelo gongo!
Ok, a chateação com a amiga por ter aberto a boca de sacola e dedurado a nota baixa não foi embora. Mas podia ser pior: Maggye podia ter dito “Juquinha, a Lorena tem os quatro pneus e o estepe arriados por você. Dá uns beijos na coitada pra alegrar a vidinha dela, por favor” e não disse. Já era lucro.
— Ah. Isso. — Mordeu o lábio inferior, envergonhada apesar do alívio.
— Sim, isso. — Encarou a Ferette sem humor nenhum — Quando você pretendia me contar? Ou melhor, você planejava me contar algum dia?
— Eventualmente…
— Lorena.
— Foi mal! — Puxou o próprio cabelo da nuca — Eu fiquei com vergonha, tá bem? Estou com vergonha agora, inclusive.
— Não tem necessidade, não comigo. Sou só eu, Lô.
Justamente.
— E porque sou só eu, a Duda, tenho uma proposta pra te fazer.
— Lá vem. — Lorena riu de nervoso — Cheia dos planos infalíveis, né?
— Como você sabe, eu tô ocupada até o último fio de cabelo esses tempos. — Ignorou a piada (atestado de seriedade) — Porém, encerrado o campeonato, e eu tenho local de fala como a grande campeã — isso rendeu um revirar dos olhos verdes —, não estarei mais tão atolada assim.
— Não tem as olimpíadas de matemática?
— Sim, tem esse capeta. — Bufou — Mas sem o tênis me sobra um tempinho extra em casa, logo…
— Você está sugerindo que a gente volte com a tutoria? — Os olhos de Lorena brilharam.
— É. — Deu de ombros.
Sim, sim, sim, sim, sim!
— E tem como? Tipo, a sala não tá mais disponível à tarde, e eu não sei se nos deixariam reservar outra…
— E quem falou em reservar sala? Eu ia sugerir que as aulas fossem na minha casa.
Uau, tudo que eu perdi hoje mais cedo eu estou ganhando agora. É assim que os viciados em apostas se sentem? Solta a carta, tigrinho! (Brincadeirinha, solta não. Por um Brasil sem bets!)
— Nos sábados, porque é quando dá tempo. — Prosseguiu Eduarda — Sabe como é.
— Sei, sei.
— E daí, topa?
Lorena analisou o rosto dela com cuidado – concluindo que ela era, inegavelmente, o ser mais lindo do planeta. Acontece que a beleza dela não disfarçava as olheiras de panda ao redor dos olhos. Seria muito egoísta de sua parte aceitar aulas que nem precisava em função de sua paixonite e limitar as noites de sono daquela pobre coitada a toa? Se colocaria nessa empreitada de novo?
Alexander Hamilton, passar as férias com a família no norte do estado ou ficar em casa e trair a esposa? Veronica Sawyer, deixar seu namoradinho psicopata explodir a escola ou atirar no JD? Elphaba Thropp, aceitar a proposta do Mágico e viver o felizes para sempre lésbico com sua amizade homoerótica ou libertar os macacos? Wendy, ficar com o Peter Pan na Terra do Nunca para sempre ou crescer? Orfeu, não dar ouvidos às Parcas ou só uma olhadinha de nada não vai fazer mal? Jonathan Larson, aceitar que a broadway preferiu Rent ou insistir em Superbia?
— Perfeito, Duda!
Segunda opção.
