Chapter Text
Acabei me atrasando para o trabalho, já que fiz questão de assistir toda a entrevista com o Jiraiya. Descobri que ele assim como eu continuava solteiro, mas que ao contrário de mim que dediquei toda a minha fase adulta a vida ordinária trabalho-casa-casa-trabalho, ele havia viajado o mundo, o que lhe deu inspiração para seus livros.
Ao chegar ao trabalho passei o dia desligada, com o seu rosto vindo em minha mente nos momentos mais aleatórios possíveis. Acabei ultrapassando a minha conta de cigarros diárias que tinha imposto a mim mesma em uma tentativa de diminuir o ritmo. Como médica eu sabia que não deveria fumar muito, porém ao longo dos anos eu não vinha conseguindo diminuir a quantidade, creio que cada dia mais ansiosa com as questões cotidianas. Então como medida instaurei um limite a mim mesma. Eu só poderia fumar seis cigarros por dia, o que já acho uma quantidade alta, mas ao mesmo tempo boa o suficiente para que eu conseguisse não ultrapassar.
Bem, neste dia, consegui alcançar doze cigarros, o que acabou chamando atenção de minha amiga Shizune que trabalhava comigo. Eu estava saindo para a área de fumantes já com o meu décimo segundo em mãos quando Shizune me parou:
- Você novamente aqui? – Ela perguntou com um tom meio bravo.
- Novamente? Como assim? – Respondi me fazendo de boba tentando evitar a bronca que eu sabia que viria. Shizune ficava brava que até hoje não parei com o vicio que começamos na faculdade a 14 anos atrás.
- Não se faça de idiota, Tsu. Hoje eu acho que você passou mais tempo aqui fora do que trabalho. – Ela falou brava com as mãos na cintura.
- Ah... talvez. Mas é só hoje, você sabe que sigo à risca o meu limite de cigarros diários.
- Sei... quantos já foi hoje?
- Acho que este é o décimo segundo – Eu disse e logo em seguida acendendo o cigarro.
- DÉCIMO SEGUNDO? O que aconteceu? – Ela perguntou já preocupada – Faz tempo que você não fuma essa quantidade.
- Eu vi uma entrevista do Jiraiya na televisão. E sei lá, me colocou neste humor estranho em que sinto que perdi algo, mas que na verdade eu nunca tive. De repente tudo ficou estranho. Não sei explicar. Então estou vendo se consigo tirar isso da cabeça.
- Jiraiya está dando entrevista porquê? – Ela perguntou curiosa já que conhecia ele somente de minhas histórias.
- Publicou um livro que está em alta. Não sei se te contei naquela época em que nos conhecemos que este era o sonho dele. E ele está tão feliz, você tem que ver Zune, a felicidade no rosto dele contando do livro. É a coisa mais linda! Fiquei tão feliz quando vi.
- E eu achando que você já não gostava dele depois de tudo aquilo que viveu com o Dan, está toda emocionada! – Ela disse com um sorriso no rosto.
- Eu não sou mais apaixonada romanticamente por ele, mas sempre vou gostar dele. – Eu disse após uma tragada.
- E me explica os doze cigarros?
- Ah, sei lá. Vou terminar este e focar em trabalhar.
- Boa sorte! – Ela disse saindo da área de fumantes.
Terminei o décimo segundo e jurei que não iria fumar mais nenhum. Só não imaginei que seria uma tarefa tão difícil. Passei o resto do dia ansiosa e inquieta, algo parecia não estar certo comigo. O que ele tinha despertado em mim? Eu não conseguia compreender! Eu realmente não conseguia imaginar que eu ainda estivesse apaixonada por Jiraiya, tudo já tinha o que? Uns vinte anos! Vinte anos desde que trocamos o primeiro e único beijo entre nós. E depois disso houveram tantos outros homens! Eu fiquei noiva, pelo amor de Deus. Eu não ficaria noiva se eu estivesse apaixonada por outra pessoa.
E como eu estava apaixonada! Amava o Dan com cada célula do meu corpo. Ainda hoje quando eu fecho meus olhos eu conseguia ver o seu rosto sorrindo para mim, seu rosto era a coisa mais perfeita do mundo. Como eu sinto saudade de beijar seus lábios e sentir seu toque sobre o meu corpo. O jeito com que ele me tocava, me beijava, tudo era tão doce e carinhoso que eu nunca soube de onde ele tirava tanto amor por mim.
Não é possível que alguém tivesse me amado daquela maneira tão inteira e doce. Dan me amava sem pedir nada em trocar, me amava de um jeito que eu não sabia que era possível. Os quatro anos que compartilhamos foram os quatro anos mais felizes da minha vida, disso eu tenho certeza. Eu nunca vou conseguir atingir a felicidade que tivemos.
Até hoje eu não consigo desculpar a vida por ter tirado ele de mim. Na verdade, desde que sou criança eu sou brigada com a vida. Ela é de maneira geral muito injusta comigo. Eu tenho quase certeza que ela deve ficar rindo de mim ao longo das décadas já que ela sempre faz questão de me fazer perder em todos os tipos de situação possível.
Para ser sincera, nem sei ainda como tenho emprego já que a está altura já achei que a vida teria me tirado até isso. Primeiro, perdi meu pai aos nove anos, o que me levou a mudar de escola já que minha mãe quis mudar para uma casa o extremo oposto de onde vivíamos com meu pai. Então, além de perder meu pai, perdi o bairro que eu tinha crescido, perdi os amigos que eu tinha feito. Sei que foi difícil para ela perder o marido, ainda mais com meu irmão com apenas um ano de vida.
Depois, aos dezessete anos perdi Nawaki. Uma leucemia o levou de nós de maneira tão rápida que creio que nem eu e nem minha mãe conseguimos compreender realmente o que estava acontecendo. Nesta altura do campeonato, Jiraiya me fez companhia nestes períodos horríveis no hospital, assim como também após a morte de Nawaki. Então, um ano depois fui para a universidade e Jiraiya começou a viajar para tentar encontrar algo que não sabia nomear e nunca mais nos falamos.
Neste ponto eu já tinha achado que a vida já estava cansada de me tirar coisas, afinal, meu pai, meu irmão e meu melhor amigo já estava suficiente para uma única pessoa, não concorda? Bem, se você concorda, a vida não. Quando finalmente eu achei que tinha encontrado o amor da minha vida, tudo estava indo tão bem. Confesso que no início, eu tinha ficado preocupada, a cada dia que nascia e eu me percebia mais apaixonada por Dan eu pensava: “É hoje que algo acontece e eu perco ele.” Mas depois que Dan me pediu em casamento em nosso aniversário de namoro de três anos e passou dias sem que nada de ruim acontecesse, eu realmente achava que a vida tinha se cansado. Talvez até arranjado uma outra coitada para ela ficar rindo. Engano meu.
Pouco depois de nosso aniversário de quatro anos de namoro e um ano de noivado, Dan foi atingido por um motorista bêbado no meio de uma rodovia. O motorista estava transtornado demais para conseguir chamar socorro e com isso demoraram tempo demais para conseguirem socorrer Dan e então tudo já era tarde demais.
Depois disto eu sinceramente não conseguia mais me relacionar e amar ninguém tão profundamente mais. Shizune era minha exceção. Suponho que a maldição só funciona contra homens então, Zune está salva. Dan foi minha última tentativa. Não consigo mais apostar em um relacionamento com ninguém. Estou cansada de perder pessoas importantes e hoje em dia me contento em perder em qualquer jogo de cartas. Na verdade, em qualquer coisa que eu aposto eu perco.
Desde a adolescência já tinha começado a jogar, mas após perder Dan me dediquei mais a arte de ser perdedora já que era isso que eu iria ser para sempre. Eu aceitei este lugar que a vida insistia em me dar e busquei tirar algum tipo de divertimento disto. Não tem nada mais relaxante que apostar e ter a certeza que não irá ganhar. Isso dá uma liberdade maravilhosa quando você já sabe qual será o resultado.
Sai do trabalho direto para um cassino. Já que eu não podia fumar e minha cabeça estava cheia, a solução perfeita era gastar um pouco de dinheiro para poder relaxar da maneira com que a vida me ensinou.
