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Sem Volta

Chapter 10

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Depois da adrenalina de quase ter morrido e ter confessado seus sentimentos por Joon-Hee, a calma da rotina dos dias seguintes era quase estranha. Eles voltaram a se revezar entre dirigir e dormir no banco de trás, Joon-Hee continuou tentando ensinar coreano a Grant -- com a diferença de que agora, quando ele conseguia pronunciar alguma coisa direito, ela prometia um beijo na próxima parada. 

    Tinha sido tão natural começar a namorar Joon-Hee que o lado romântico dele se perguntava se tinha sido o destino que tinha feito Grant comprar uma passagem para a Coreia, entre todos os lugares. Eles estavam em uma sincronia que ele nunca tinha tido com mais ninguém. Uma parte dele se preocupava se tudo não era só fruto das condições, da adrenalina e das emoções fortes -- mas quando eles estavam juntos, ele sentia que nada podia dar errado quando ela estava com ele. 

    Caramba, ele tinha se apaixonado rápido. E a breguice dele tinha aumentado exponencialmente, pelo jeito. 

   

***

 

    A rotina se estabeleceu, e por mais que eles ainda estivessem fugindo, era difícil se lembrar disso quando Grant estava dirigindo horas intermináveis à noite quando Joon-Hee estava dormindo e não podia fazer companhia. Esse tempo era dividido entre o tédio e a paranoia de ficar olhando pelo retrovisor observando cada carro preto atrás dele, e suspirando de alívio quando eles tomavam outra saída. 

    A monotonia só foi quebrada dias depois. Eles pararam em uma lojinha de beira de estrada para reabastecer as provisões, o dinheiro estava começando a acabar, e nenhum dos dois aguentava mais comer salgadinhos de qualidade duvidosa, mas não tinha muito o que eles podiam fazer sobre isso. Grant e Joon-Hee estavam na fila para o caixa quando ele bateu o olho nos jornais que estavam à mostra. Em destaque, bem no meio da primeira página, estava uma foto de Joon-Hee. 

    “Ei, olha ali,” ele disse, apontando para os jornais com o máximo de discrição que ele conseguia. Os olhos dela se arregalaram, e ela pegou um exemplar. Grant estava aprendendo a falar coreano, mas ler era mais complicado -- era um alfabeto diferente, afinal. “O que tá dizendo aí?”

    “Isso não faz sentido,” ela murmurou enquanto lia a notícia. 

    “Joon, eu não sei o que tá escrito.” 

    “Ah, verdade. Tá dizendo que eu -- bom, essa pessoa na foto, mas eu nunca estive aí! Isso não faz nenhum sentido,” ela disse.

    “Será que é photoshop?”

    “Sei lá, isso tá muito estranho,” ela disse, ainda lendo. 

    “Mas o que eles tão dizendo que cê fez?”

    “Tá escrito que eu roubei um protótipo de mineração de radianita de uma empresa chamada Kingdom, na Alemanha. Eu nunca nem fui pra Alemanha,” ela reclamou em voz baixa, olhando ao redor para ver se ninguém estava prestando atenção na conversa deles. 

    O atendente da loja chamou o próximo da fila, e ela colocou o jornal na sacola junto com a comida que eles tinham comprado e entregou para o atendente, dizendo bom dia. O atendente respondeu educadamente, colocando os itens deles na sacola, até que ele pegou o jornal. Ele olhou da foto na primeira página, olhou para Joon-Hee e de volta para a foto. 

    Grant deu um passo à frente dela, começando a falar alguma coisa sobre a forma de pagamento. Nem ele sabia muito bem o que ele estava falando e ele conseguia ouvir a própria pronúncia horrível, mas o atendente parou de se preocupar com Joon-Hee enquanto tentava decifrar a gramática sem sentido de Grant. Ainda assim, quando eles saíram, ele percebeu o atendente lançando um olhar desconfiado para ela. Joon-Hee colocou o capuz da jaqueta, claramente desconfortável, enquanto eles voltavam até o carro. 

    Grant pegou a direção enquanto Joon-Hee terminava de ler a notícia. 

    “Se eles tão tentando colocar a opinião pública contra a gente, eles deviam ter feito um trabalho melhor que dizer que eu fui pra Alemanha,” ela disse.

    “Mas o que eles iam querer com isso? Eles podiam falar a verdade e já ia ser  o suficiente pras pessoas terem medo. Pra quê inventar essas coisas?” 

    “Eu não sei,” ela disse, largando o jornal, frustrada. “Só sei que vai ficar mais difícil ainda a gente ir pra qualquer lugar agora. Já tinha um monte de notícias sobre eu e você, e agora tem ainda mais. O que a gente vai fazer? Não tem como a gente ficar dirigindo aqui pra sempre.”

    Grant vinha pensando nisso fazia dias, mas a verdade é que eles não tinham o que fazer. 

    “A gente tinha que ir pra outro lugar. Sair do país, sei lá,” ele disse. “Mas se eu fizer qualquer coisa com a minha identidade, eles vêm atrás da gente, eles sabem o meu nome.”

    “A gente vai ter que sair da Coreia em algum momento,” ela disse. “Mas como a gente faz isso sem ser pego na fronteira? E se eles perceberem, nem vai fazer diferença, se eles te seguiram da Inglaterra até aqui eles seguem a gente pra qualquer lugar.” 

    Grant suspirou, frustrado. “E nenhum de nós é bom em ser discreto.”

    “Não tem o que fazer,” ela disse. “A gente não vai conseguir.” 

    “Ei, calma aí,” ele disse sem pensar. “Tá tudo bem. Cê sabe que a gente vai conseguir sair dessa, né?” 

    “Como? Grant, não tem o que a gente fazer. Eles vão pegar a gente mais cedo ou mais tarde.” 

    “Eu sei que a gente consegue. Não sei como, mas a gente tá junto. Eu sei que com você eu consigo fazer qualquer coisa,” ele disse, olhando para Joon-Hee e sorrindo. “A gente vai fazer isso juntos.” 

    Joon-Hee corou, mais vermelha que ele já tinha visto ela ficar, e achou alguma coisa muito interessante para olhar do lado de fora da janela. 

    “Ei, tá tudo certo?” ele perguntou. 

    “Sim,” ela disse, olhando de volta para ele e imediatamente desviando o olhar de novo. “Só olha pra estrada. Eu não quero morrer depois de tudo isso porque você não tava prestando atenção.”

    Grant riu. “Cê sabia que você é linda quando tá envergonhada?” 

    Ela ficou ainda mais corada. “Cala a boca,” Joon-Hee murmurou, mas ele percebeu um sorrisinho que ela estava tentando esconder. Ele riu de novo e voltou a atenção para a estrada. 

    Ele ainda não sabia o que eles iam fazer, mas ele tinha certeza que eles iam achar um jeito. Ele não tinha dito aquilo só por dizer, ou só para tranquilizar Joon-Hee. Entre a forma como ela pensava rápido em uma emergência, o talento dele para não morrer e as habilidades dos dois, eles conseguiriam achar alguma maneira. Ele acreditava nisso totalmente, ou melhor, ele tinha que acreditar. Eles não tinham feito tudo aquilo só para acabar perdendo a luta no final. 

    Ele olhou para Joon-Hee, ainda olhando pela janela tentando disfarçar o quanto ela tinha ficado sem graça com a demonstração de afeto de Grant. Ele observou a forma como o cabelo claro dela emoldurava o seu rosto, a curva dos seus lábios, o jeito que ela traçava as linhas da tatuagem nos braços quando ela estava preocupada. 

    Ele não tinha dito nada que não era verdade. Ele sentia, bem no fundo, que se a situação pedisse, ele conseguiria quebrar qualquer barreira se fosse por ela. Porque ele se importava, porque ele não ia deixar que nada pudesse acontecer com ela -- mesmo que fosse muito mais provável que ela fosse salvá-lo que o contrário. Se Grant pudesse resolver tudo, se eles só pudessem ter um pouco de paz, e um ao outro…

    Por essa ideia, ele realmente sentia que ele conseguia fazer qualquer coisa. 

    Essa convicção desapareceu quase completamente algumas horas depois, quando eles chegaram a um trecho de tráfego mais lento, e Joon-Hee olhou pela janela e viu que a razão era uma bloqueio da polícia. 

    “Merda, eles tão olhando quem tá em todos os carros. Grant, eu acho que eles tão procurando a gente,” ela disse. 

    “Como que a gente vai sair daqui?” ele perguntou, mais para si mesmo que para ela. A estrada tinha barreiras dos dois lados, então eles não iam poder sair da pista com o carro. Eles teriam que fugir a pé, mas isso chamaria atenção demais. 

    Eles não tinham outra opção. 

    “Okay, a gente não vai esperar chegar lá no bloqueio. Quando eu disser já, cada um corre pra um lado, e a gente se encontra depois,” ela disse. “Despista os caras que vierem atrás de você, encontra um lugar seguro e me espera que eu te encontro. Se eu não aparecer…”

    “Você vai,” ele disse, segurando a mão dela. Ela assentiu, determinada mas ansiosa. 

    “Toma cuidado,” ela disse. 

    Ele a puxou para um beijo. Ele só esperava que não fosse o último. 

   

***

    Estava começando a ficar cansativo fugir daqueles agentes. 

    Grant se enfiou entre dois carros estacionados poucos segundos antes de um grupo de soldados virar a esquina, e eles passaram direto correndo pelo lado dele. Ele esperou alguns segundos, tendo certeza que eles tinham ido embora, e saiu do seu esconderijo com um suspiro de alívio. Ele foi para o lado oposto que os soldados tinham ido, tentando colocar mais distância entre eles. 

    Grant mal tinha andado dois blocos quando Joon-Hee desceu de um telhado próximo bem na frente dele, puxando-o para dentro de um beco. Eles se abraçaram e trocaram um beijo rápido, aliviados mas ainda tensos, embora Grant não conseguisse evitar um sorriso.

    “Conseguiu despistar eles?” ela perguntou. 

    “Sim,” ele disse. Ele colocou uma mão no ombro dela, e se surpreendeu quando a sua mão saiu suja de sangue. “Joon, cê tá bem?”

    “Pegou de raspão, não é nada,” ela disse. 

    “Calma aí, eu tenho alguma coisa na minha mochila que dá pra usar de curativo,” ele disse, tirando a mochila das costas -- e percebendo imediatamente o que parecia ser uma flecha com uma ponta reta presa à mochila. 

    “Que porra é essa?” Joon-Hee perguntou. “Algum tipo de dardo rastreador?” 

    “Sei lá,” ele disse, puxando a flecha. Ela saiu com facilidade, e ele a jogou no chão e esmagou a ponta sob o sapato. “A gente tem que sair daqui.”
    Ela fez que sim com a cabeça, mas assim que os dois se viraram para sair de lá, a entrada foi bloqueada por um único homem. 

    Joon-Hee conseguiria sair dali facilmente com um salto para um dos telhados ao redor -- ela já tinha feito isso outras vezes -- mas Grant não tinha essa opção. Se eles queriam sair dali juntos, eles teriam que enfrentar aquele homem. Ele viu Joon-Hee se preparar para um confronto, e fez o mesmo, conjurando uma bola de fogo nas mãos. 

    “Eu não estou aqui para lutar com vocês,” disse o estranho. 

    Joon-Hee e Grant trocaram um olhar. 

    “Cê não tá com eles, então?” Grant perguntou. 

    “Não. Me desculpem pela flecha, mas eu precisava encontrar vocês antes deles.”

    “Então o que você quer?” Joon-Hee perguntou, desconfiada. 

    “Meu nome é Sova. Eu estou com uma organização que tem os mesmos inimigos que vocês,” ele disse, levantando as mãos para mostrar que não estava armado e dando um passo para a frente, deixando um raio de luz bater no seu rosto. Sova era alto, musculoso, com o cabelo loiro comprido meio preso, deixando à vista o seu rosto sério e maxilar forte. Ele era intimidante, mas Grant tinha que admitir que ele era muito atraente. A cicatriz que atravessava um dos olhos dele, que brilhava em um azul artificial destoando do outro olho, contribuía para a sua aura ameaçadora. Mas Grant não via em parte alguma da sua roupa o símbolo do uniforme de todos aqueles que tinham perseguido ele e Joon-Hee até agora. 

    “O Protocolo Valorant também está lutando contra a Kingdom, e nós podemos oferecer proteção,” ele continuou. 

    “E em troca?” Joon-Hee perguntou. 

    “Nós ainda somos poucos. Radiantes poderosos como vocês podem ser muito úteis nesse confronto.”

    “Então cês querem que a gente entre nessa guerra?” Grant perguntou.

    “Vocês já estão envolvidos nessa guerra, querendo ou não. Eu estou oferecendo uma chance de lutar, ao invés de fugir. E vocês não precisam fazer isso sozinhos,” Sova disse, com uma convicção que só podia vir de alguém que realmente acreditava no que dizia. 

    Ainda assim, parecia bom demais para ser verdade. Será que eles podiam confiar naquele homem?

    “Vocês viram as notícias ultimamente?” Sova perguntou. Grant conseguia sentir Joon-Hee ficando tensa do seu lado, e ele não a culpava. 

    “Não era eu,” ela disse. “Eu não sei o que tá acontecendo, mas eu não fiz nada daquilo.”

    “Eu imaginava. Você não é a primeira a ver uma cópia de si mesma causando problemas. Eu mesmo já enfrentei outra versão de mim,” ele disse. “Essas cópias têm alguma relação com a Kingdom. Achamos que eles estão usando radianita para abrir algum tipo de portal para outras dimensões. Sua duplicata não vai parar de chamar a atenção e colocar a opinião pública contra você. E não deve demorar para que apareça outra versão de você, Phoenix,” Sova disse, voltando sua atenção para Grant. 

    Grant e Joon-Hee trocaram um olhar. Será que eles tinham opção além de confiar nele?

    “A gente precisa conversar um pouco,” Joon-Hee disse, e Sova assentiu. Ela se virou para Grant. “Fica de olho nele,” ela disse em voz baixa, e Grant concordou, observando Sova enquanto ouvia Joon-Hee. 

    “O que cê acha?” ele perguntou. 

    “Eu não gosto disso, mas eu acho que a gente não tem opção,” ela disse. “Você sabe que a gente não vai conseguir fugir pra sempre, e se a gente tiver um pouco de apoio, talvez a gente consiga fazer alguma coisa.”

    “Mas e se isso for uma armadilha? E se ele tiver trabalhando com aqueles caras, ou se essa Valorant for uma coisa pior ainda?”

    “Grant, se a gente continuar sozinhos, a gente só vai acabar sendo pegos,” Joon-Hee disse. “A gente devia entrar pra essa coisa, ficar alerta, tomar cuidado, e se precisar a gente dá um jeito de sair,” ela disse, segurando a mão dele. Ela sorriu. “Você não tinha dito que a gente dava um jeito nisso juntos?” 

    Grant olhou para Sova, que estava prestando atenção no movimento na rua, totalmente alerta, e voltou a olhar para Joon-Hee. No meio de tanta incerteza, era bom ter alguém em quem ele sabia que podia confiar -- eles tinham passado por tanta coisa juntos. Ele apertou a mão dela, grato por ter ela ao seu lado. Ele sabia que, se eles estivessem juntos, ele conseguiria qualquer coisa.

Notes:

Então, eu não tenho nem como me defender pelo hiato de 4 meses totalmente não planejado, mas eu postei finalmente!!!
Eu tive um momento ruim de inspiração, final do semestre, muitos prazos, bla bla bla, mas terminei finalmente hahaha

Espero que tenham gostado! Eu adorei escrever essa fic e fico feliz de contribuir para um ship que devia ter muito mais conteúdo :)

Notes:

Então, minha amiga shippa muito o Phoenix e a Jett, e eu gosto muito deles e (surpreendentemente) não é muito popular, então eu quis escrever uma coisa legal e fofa sobre eles :)
Eu tenho planos (e um início) pra uma fic mais gay em que eles conhecem o Yoru e entram em estados variados de bi panic antes de acabarem como meu trisal favorito, mas eu nem terminei essa fic aqui direito então isso fica pra depois hahaha
Vou tentar postar em intervalos regulares mas eu ainda não terminei o último capítuo então, é, talvez tenha um pequeno hiato se a faculdade não me deixar tempo pra escrever e se a inspiração me abandonar