Chapter Text
Uma se sentia arrasada de mil maneiras possíveis, assim como frustrada. Nem ela entendia o porquê de não ter atacado o Rei e a garota que já deu tamanha humilhação. Ben tinha sido gentil com ela e lhe entregou a esperança de melhorar sua vida; provavelmente foi por isso que ela cedeu.
Ela foi fraca. Ele não foi o primeiro mocinho que havia lhe prometido liberdade e não seria a primeira vez que seria esquecida. Uma rosnou.
Por que mais uma vez no dia teve que pensar na princesa? A vilã sentiu sorte por não tê-la visto no baile. Entretanto isso não foi por causa de esforço próprio; a filha da bruxa estava tão absorvida no medo de falhar na missão e com o nervosismo de ser anunciada dama da corte que só consegui olhar para Ben e Mal – e para garota para quem entregou sua bolsa. Depois que seu encanto foi quebrado, tudo ficou turvo pelo ódio, somente a fada madrinha e alguns rostos aleatórios apareceram em sua frente. Nenhum deles pertencia à garota que conheceu na infância.
Uma emergiu para ver para onde iria, ainda era difícil se localizar em mar aberto. Viu a Ilha dos Perdidos. “Lar” pensou com ironia. Ela entraria pelo rochedo tão familiar que ficava na parte detrás da ilha. Na verdade, ela não sabia por que voltaria, mas ela não conhecia nada do mundo do lado de fora do domo. A imagem de si mesma solitária e perdida não lhe atraía.
Um barulho de motor irritante invadia seus pensamentos. Parecia baixo e distante quando o notou, mas se aproximava cada vez mais. Quando finalmente olhou para trás, viu uma lancha a menos de dez metros de onde ela estava. Graças a pouca luz e distância, a cecaelia não conseguia ver quem pilotava. Por segurança, submergiu.
O barco, para sua surpresa, parou bem perto de sua localização. Uma estranhou e pensava em seu próximo passo quando ouviu uma voz. Não tinha um pingo de autoridade, mas era extremamente familiar, ainda que mais madura:
— Uma! Eu te vi submergir. Eu quero conversar com você.
Melody... A garota que parecia querer voltar a invadir não só sua mente como sua vida. Era o que faltava para completar seu dia fatídico. Uma ficou sem reagir, não sabia como nem se deveria encarar a situação.
— Uma, por favor, apareça.
Ela fazia um pedido temeroso com sua voz canora. A filha de Ursula sentia que seu turbilhão de emoções poderia influenciar suas ações agora; conforme ela foi ensinada, ou ela deveria tratar tudo com indiferença – quando não havia a possibilidade de vitória – ou transformar todos os sentimentos em raiva. Uma sempre gostou mais da raiva.
Ela estava confiante, não completamente já que voltara a seu tamanho normal. A vilã não conseguiu continuar gigante por muito tempo, gastara muito de sua energia. Pelo menos conseguiu manter sua forma meio polvo.
Uma emergiu com sua expressão mais ameaçadora e rancorosa que conseguiu reunir. Ela também fez questão de movimentar seus tentáculos na água. Olhou para a garota sentada no banco do piloto. A luz da lua e a recente proximidade ajudaram sua visão.
Lá estava Melody. Seu rosto e corpo tinham amadurecidos, era de se esperar aos dezesseis anos. Entretanto eram os mesmos olhos azuis brilhantes e curiosos; o mesmo cabelo negro rebelde que voava com o vento; os mesmos lábios finos que se espremiam em apreensão. Seu porte atrapalhado parecia ter sumido e dado lugar a um ar gracioso. Ela estava linda como uma verdadeira princesa.
— O que quer, Melody? – sua voz parecia venenosa – Você acha que não fui humilhada o bastante por um dia?
— Eu não vim para te humilhar, eu...
— Não?! – Uma a interrompeu, ela temia amolecer com o que Melody pudesse dizer – Parece que veio aqui para caçoar do meu fracasso.
— Eu nunca faria isso! Vim, porque me importo com você.
— Não! Você nunca se importou! – sua raiva crescia à medida que encarava a filha da sereia – Você não se importou nem um pouco em todos esses anos que eu fiquei presa naquele inferno na terra.
— Isso é mentira. – a princesa conseguiu ficar mais firme na voz – Eu quis te tirar de lá, você lembra.
— Só que nunca voltou. – a vilã bufou uma risada – Simplesmente se esqueceu de mim ou encontrou coisa melhor para fazer?
— Eu fui enganada – Melody olhava para o lado como se tentasse encontrar as palavras certas para amenizar essa situação – eu tinha feito um acordo com Morga...
— Morgana? – Uma interrompeu novamente, essa história ela conhecia – Sabe que ela é minha tia, né? Mas eu também fui enganada. Por você! – seu coração pesava enquanto falava, mas também sentia uma pressão na garganta que tinha que libertar – Eu passei dois dias inteiros esperando você aparecer, achando que algo de horrível poderia ter acontecido contigo!
— Uma...
— Não! Você veio até aqui e vai ter que me escutar. – respondeu mordaz – Eu tinha me importado com você! Pior, eu pensei em ser boa por causa de você! – Uma tomou uma respiração profunda – Eu pensei que, se fosse para eu ser livre e viver contigo, eu teria que seguir as leis de Auradon e estava bem com isso. Eu fui contra tudo o que aprendi sobre como ser uma grande vilã só por causa de você!
A filha de Ursula tomava respirações profundas para se conter. Ela chegou a sentir um formigamento nos olhos e precisava se reprimir o quanto antes. Melody já não conseguia olhar para a garota e abraçava o próprio corpo.
— Até que minha tia apareceu na Ilha. Ela me disse que tinha sido derrotada por você e, quando ela foi condenada, você estava comemorando com sua família e seus novos amigos. Você simplesmente se esqueceu de mim. – Seu tom votou a ficar enfurecido – Por quê? Por que você não precisava mais de mim com seus novos amigos? Ou porque você descobriu de quem eu era filha e teve medo?
— Sim! – Melody gritou com a voz embargada de choro e voltou a encará-la – Eu tive medo de você! Quando Morgana me prendeu, ela disse que você tinha sido conivente com o plano e eu acreditei. E até há uma hora eu tinha dúvidas se você tinha me enganado naquele tempo ou não.
Uma deu uma risada seca.
— E com certeza, com minha tentativa patética de pegar a varinha e quase matar o rei, você deveria chegar à conclusão de ficar o mais longe de mim o possível.
— Não – Melody não se importava de deixar as lágrimas transbordarem de seus olhos, porém um sorriso acanhando apareceu em seus lábios – Quando eu vi seu rosto depois do discurso do Ben, eu vi aquela mesma garota boa que queria uma vida melhor, vi que você nunca mentiu para mim. – ela deu uma pausa, tentou conter um soluço sem sucesso e mais lágrimas apareceram – Eu errei com você, Uma. E sei que nunca me desculparei o suficiente com você.
Uma olhou para o lado e engoliu um suspiro para conter a emoção. Ela tinha prometido a si mesma que não se afeiçoaria pela princesa novamente.
— Legal – Uma voltou ao tom rancoroso – Mas, se você tinha dúvida se eu tinha participado do plano de Morgana ou não, por que nunca foi tirar satisfações comigo? – mais um bufo como risada enquanto olhava para cima – Eu passei quase um ano indo no nosso ponto de encontro uma vez na semana. Era impossível eu te atacar do lado de dentro.
— Eu fui impedida de ir ao mar.
— Você sempre foi impedida! – sua raiva parecia voltar com a sensação da hipocrisia – Mas você ia mesmo assim.
— Eu não posso mais nadar, Uma! – Melody retorquiu em mesmo tom.
Uma ficou quieta a espera de resposta.
— Não consigo mais nadar, nem andar, nem mexer meu corpo da cintura para baixo. – a filha da sereia empurrou a cadeira de rodas detrás do assento do piloto, se apoiou no braço da cadeira e jogou seu corpo nela – Uma semana depois da minha luta com Morgana, eu não consegui mais sair da cama com minhas próprias pernas. Os médicos disseram que era por causa da poção que Morgana usou para me transformar em sereia. Nem a fada madrinha pôde me ajudar.
O peito da cecaelia ficou mais pesado. Ali estava o motivo de Melody nunca ter voltado. Só que seu coração não queria se amolecer, ela já teve muitas esperanças desfeitas pela garota afrente dela. Quando sua voz finalmente saiu, ela parecia cansada e desanimada:
— O que você veio fazer aqui, Melody? Você me disse que estava arrependida e que sua vida é triste, e agora?
— Eu quero que você não volte para a ilha. Quero que você venha comigo.
— Você viu as coisas que eu fiz ao Rei?! Eu quase o matei pelo menos duas vezes hoje.
— Se voltar, pode nunca ter uma segunda chance.
— Eu não tenho, Melody. Nem os mocinhos são tão tolerantes.
Uma suspirou e se virou para sair. Ela estava exausta, eram muitas emoções para entender em um dia só. Ela tinha medo de se render se ficasse mais tempo perto da garota.
— Uma, não tenha medo. Eu sei que não fui uma boa amiga, mas nem todos aqui são como eu. Dê uma chance a Auradon. – o tom de Melody parecia chegar perto do desespero.
A vilã não respondeu, suspirou e tentou começar a seguir seu caminho.
— Pelo menos venha comigo ao médico para ver se suas pernas não ficaram prejudicadas pela transformação.
Uma deu uma risada. Virou-se para responder:
— Pare de tentar se redimir, Melody. – Uma começou com um tom mais descontraído – Sabe o que é engraçado? Mesmo com toda a raiva que eu tinha de você, eu guardei aquela pulseira que eu fiz para nós duas. Eu pretendia jogar na sua cara quando eu dominasse Auradon. Ela estava na minha bolsa que eu deixei no cotilhão.
— Nesse caso, fique com a minha. – Uma ficou bem impressionada; a princesa se curvou e desamarrou algo de seu tornozelo e estendeu a mão com o adereço – Mesmo eu achando que você tinha armado para mim, também guardei a minha.
A vilã estava sem reação e só conseguia focar na expressão esperançosa de Melody e na pulseira em sua mão. Ela simplesmente não conseguia acreditar que a garota também guardou a lembrança dela.
— Fique com a minha e eu vou lá pegar a sua na festa. – a filha da sereia explicou.
Uma se aproximou devagar, como chegasse perto de um animal feroz. Ela não sabia por que pegaria a pulseira; mas também havia quase uma hora que ela não tinha ideia do que fazia. Ela ficou relutante em tocar o objeto e parecia sentir um choque quando roçou sua pele com a da auradoniana.
A pirata tinha o rosto quente, tomou a pulseira e a guardou no pulso fechado. Ela não agradeceu, mal olhou para o rosto da antiga amiga. Virou-se e seguia seu caminho.
Uma começou a sentir a distância entre as duas quando ouviu:
— Tente não quebrar nada.
A garota parte polvo parou e deu um sorriso casto. A princesa não se esquecera das conversas que tiveram. Contra sua própria vontade, virou para garota ainda com o pequeno sorriso nos lábios.
— Tente não sentir tanto a minha falta.
Uma imergiu nas águas escuras. Ela voltaria para a Ilha.
———
Uma foi ao ponto de encontro. As meninas não tinham o costume de se encontrar mais de uma vez por semana; porém Melody a pediu para encontra-la um dia depois de seu aniversário, então a pirata foi.
Era de se esperar que a filha da vilã estivesse de mau humor, era um horário bem mais cedo do que elas costumeiramente se encontravam. Por Hades, era um horário bem mais cedo que ela costumava acordar! Contudo a princesa ainda teve que testar sua paciência e fazê-la esperar.
Quando a amiga apareceu, ela estava exultante. Seu sorriso aparecia de orelha a orelha e ela não conseguia parar de se mexer. O mais estranho foi que Melody não subiu no rochedo, ela ficou com metade do corpo submergido e com as mãos apoiadas nas pedras.
— Quase meia hora, Mel-mel. – Uma reclamou.
— Desculpa, Uma – a garota não tinha uma expressão apologética.
— Pelo jeito, a festa foi boa.
— Não, foi um completo desastre. Eu nunca passei tanta vergonha em toda a minha vida.
A pirata ficou confusa, Melody falava com um sorriso tão largo que era difícil dizer se era honesta ou irônica.
— Você não parece frustrada ou triste.
— Não estou, você não faz ideia do que aconteceu comigo depois da festa.
Melody começou a falar que fugiu de casa após uma discussão com a mãe. Algo que ela não explicou sobre descobrir mais sobre família.
— Então eu peguei um barco e encontrei uma sereia. Uma sereia! Ela usa magia longe das vistas do Rei. Eu falei que queria explorar o mundo e adivinha o que ela fez – a princesa deu uma pausa dramática e levantou uma calda de peixe vermelha gigante atrás dela.
— Você é um sereia!? – Uma estava espantada.
— Agora eu sou! Gamoran, a sereia, disse que agora eu seria livre!¹
— E a bruxa que quer te caçar?
— Gamoran me lançou um feitiço que me tornaria irreconhecível pela bruxa.
— Que legal, Mel-mel. – Uma estava feliz pela amiga, porém não conseguia deixar de sentir triste pela própria situação de prisioneira.
— Mas eu ainda não te disse a melhor parte – Melody estava ansiosa – Ela disse que ela tinha ainda muito mais magia, mas seu tridente foi levado para o museu de Atlântida durante o recolhimento obrigatório de itens mágicos. Se eu pegar para ela, ela não só pode me deixar sereia para sempre, como também... – outra pausa dramática – Pode tirar uma pessoa da ilha.
Os olhos de Uma ficaram estatelados. Ela não poderia acreditar, uma chance de sair da ilha. Ser livre! Era bom demais para acreditar.
— Melody – a emoção segurava sua fala – Isso parece... Falso.
— Não é. – a sereia tocou o domo – Você pode sair daí, Uma. Pode ser livre comigo! Vamos descobrir o mundo inteiro.
Nesse ponto, Uma olhava para a amiga com emoção nos olhos, como se ela estivesse na presença de seu anjo salvador.
Não, ela cortou sua imaginação de liberdade, ela tinha que voltar a realidade. Ainda deveria existir pessoas más do lado de fora da barreira.
— Calma Melody. Eu fui criada com vilões e trapaceiros o suficiente para saber que ninguém é tão bom assim para nada.
— Não tem truque. Ela quer o tridente dela de volta que o Rei Fera a proibiu. Se ela fosse má, seus objetos estariam na ala dos vilões no museu de Auradon em terra e ela estaria presa na Ilha dos Perdidos.
Uma teve que pensar na situação, sua liberdade não custaria tão pouco.
— Mas você teria que roubar de um museu. – Uma argumentou preocupada com Melody – Isso não é contra o ideal dos mocinhos?
— A Bela invadiu um castelo; Eugene roubou uma coroa; Mulan matou quase um exército inteiro com uma avalanche... – a princesa citou – Os mocinhos podem cometer erros, mas prezam o bem maior.
— Você está justificando um erro que ainda vai cometer? – a pirata ironizou.
— O bem maior é te libertar, não é? Eu farei o que for preciso.
O coração de Uma deu um pulo. Nunca alguém pareceu se importar tanto com ela. Nem sua mãe mostrou tanto carinho para ela quanto a garota a sua frente tinha.
Melody continuava a divagar sobre as aventuras que as duas teriam, mas a amiga só conseguia absorver metade. Uma seria livre finalmente! Livre, quantos na Ilha tinham essa sorte? Jamais alguém saiu de lá.
No entanto livre para quê? Ela simplesmente não poderia causar o caos e a destruição sozinha. Todos os vilões penavam em reinar sobre Auradon, mas o plano era saírem em bando. Se Uma fosse pega fazendo o mal, ela seria mandada de volta para dentro da barreira. Melody sofreria do mesmo destino por tê-la libertado e a pirata não queria isso.
A princesa merecia o mesmo sacrifício e carinho que dava para ela. Uma não acreditou nos próprios pensamentos, porém a solução para ambas viverem em paz era que Uma se tornasse boa. A ideia a estremeceu, seria uma desonra para todos os moradores da ilha. Ela deveria ter aversão a isso; mas só ter a visão de Melody – com seus olhos brilhantes, bochechas coradas e sorriso amplo – que ela não conseguia se importar menos se era boa ou má.
— Eu tenho que ir – Melody disse, por fim – Eu preciso pegar o mapa com Gamoran para saber como chegar no reino de Atlântida.
— Tome cuidado – as palavras saíram inadvertidamente da boca da vilã.
Ela se repreendeu do que dissera até ver o sorriso da sereia em resposta.
—Vou ter. Devo voltar amanhã ou depois – antes de sumir embaixo d’água, ela disse a frase costumeira – Tente não quebrar nada.
— Tente não sentir tanto a minha falta. – Uma respondeu.
Quando a sereia não pôde mais ser vista, Uma deitou de costas na barreira mágica. O sorriso largo e desinibido não parecia ter a intenção de diminuir.
Uma seria livre.
