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a rainy day in seul (i still cant fall asleep)

Summary:

04:57AM

os dois tinham voltado a se deitar na cama com pernas emboladas e braços dados, olhares demorados e pesados sendo envolvidos pelo sono, lábios ainda quentes e corações borbulhando em seus peitos.

Notes:

não falei que ia ter continuação? sou um cara que cumpre minha palavra ok! E EM MENOS DE UM MÊS AINDA! cara que milagre, falando de outro assunto, não vou mentir tenho leve inveja das situações que eu próprio escrevo

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

o pôr-do-sol era um paleta velha e usada de um artista que continuava sua busca por inspiração, uma mistura de azuis escuros úmidos, tons de laranja quentes, rosa bebê ao meio e o começo de alguns pontos brancos espalhados pelo céu, estrelas, um jovem observava quieto, olhos vidrados nas cores inéditas daquele dia

6:51PM

após observar um pouco mais, yoongi voltou a realidade, tentando balançar em seus braços suas três apostilas novas, que em dois dias no máximo estariam sujas como as antigas, e botar seus fones de ouvido ao mesmo tempo, lo fi hip hop sempre presente, quando ele conseguiu botar um fone uma voz o chamou, distante, o estacionamento em frente a faculdade estava vazio, a escuridão o encarando de volta, chamou outra vez, agora mais perto, mas ele não se preocupou em procurar o dono da voz, já sabia quem era

“hyung, eu sei que você não é surdo” yoongi ouviu o ainda sussurrado por hoseok no final da frase “mas você poderia responder quando eu te chamo, parece que você tá me ignorando de verdade”

yoongi riu, o barulho abafado pelo seu cachecol, hoseok franziu a testa “não é engraçado, e se eu precisasse de ajuda? e se eu estivesse sendo sequestrado?”

“aí você teria feito muito mais barulho” yoongi olhou para hoseok pelo canto do olho, estava bem vestido, como sempre, usando uma jaqueta bege com camiseta preta estampada por baixo, pequenas marcas de cores vivas chamando atenção para o centro do tecido escuro, calça jeans azul-escuro larga o suficiente para ser considerado algo fashion e não desleixado, nos pés hoseok vestia o mesmo par de converse preto, parecia que tinha saído da capa de uma revista de skate dos anos noventa. enquanto yoongi vestia seu velho moletom da hurley, que o fazia se sentir menor ainda já que apenas as pontas dos dedos eram visíveis quando deixava os braços ao lado do corpo, cachecol de tricô vermelho, calça jeans preta, justa, rasgada, e botas que o davam uns dois centímetros a mais de altura, ainda não o suficiente para ser capaz de beijar hoseok na boca, pensou, voltou a encarar o céu escurecido quase por completo.

yoongi sentiu um pingo em sua bochecha, “vai chover”

“vem pra minha casa, é mais perto daqui” falou hoseok enquanto pegava as apostilas de yoongi “eu te ajudo, vamos” a mão dele passou de leve na de yoongi, que teve de reprimir um arrepio, as mãos de hoseok estavam geladas

“só se você fizer café pra mim” yoongi disse, os dois andavam lado a lado, a diferença de altura notável

hoseok desviou o olhar do caminho e encarou ele, sério, antes de dar um sorriso de mil watts “claro, tudo pelo meu hyung favorito”

o coração de yoongi não começou a bater acelerado como o de um rato preso numa ratoeira

10:36PM

yoongi não detestava a faculdade, afinal, foi o lugar onde ele e hoseok tinham se conhecido, na cafeteria, brigando sobre quem compraria o último bolinho de morango, os dois acabaram dividindo e levando seu respectivo pedaço consigo, quando yoongi chegou em casa, não tinha trazido apenas a metade de uma massa calórica e industrializada, tinha trazido também uma voz irritante no fundo de sua cabeça que falava “ele era bonitinho, vai! devia ter deixado o bolinho com ele seu tolo, será que liga pra esse negócio tanto assim? será que ele tá vendo alguém no momento ou tá livre? porque você brigou por isso se nem tá com fome?”, yoongi suspirou, deixou o doce na mesa da cozinha e foi dormir.

a situação em que os dois se encontravam no momento parecia um leve deja-vu, os dois dentro do apartamento de hoseok brigando sobre quem ficaria com o último pãozinho de canela (que acabou caindo no chão, para o desespero de ambos) enquanto a máquina de café produz barulhos horrendos como os de uma senhora de idade tossindo os pulmões para fora do corpo, era uma máquina velha, hoseok era um estudante de faculdade, não tinha dinheiro suficiente para uma melhor.

yoongi estava sentado na mesa preparando seus materiais para o estudo, hoseok suspirou dramaticamente, se apoiando na bancada da cozinha “essa seria uma ótima hora pra ter um cachorro chamado pingo, eu poderia mandar ele lamber o chão e ele ia ficar muito feliz” disse ele

yoongi fez uma cara de desaprovação “eu tenho quase toda certeza que cachorros não deveriam comer nada cheio de açúcar, principalmente a cobertura de um pãozinho de canela, é praticamente só açúcar, até formigas não iriam aguentar tanta doçura” falou enquanto fazia uni-duni-tê em uma questão de múltipla escolha “e pingo, sério mesmo? que aleatório”

hoseok ignorou a última pergunta “ah você entendeu hyung” disse fazendo bico “mas ter um cachorro sozinho seria muito trabalho sabe, eu queria ter alguém que cuidasse dele comigo”

yoongi o olhou, confuso, depois voltou para as atividades “não tem várias pessoas na faculdade procurando por colegas de quarto? você podia falar com alguém se está tão interessado em um cachorrinho” yoongi decidiu escolher a letra D de Deus, vai que um milagre acontece

hoseok suspirou de novo, dessa vez mais dramático “você realmente- tá, esquece, o café tá pronto, preto?” yoongi fez que sim com a cabeça

um silêncio confortável se instalou no ar, cada um com sua caneca de café, cada um com seus materias abertos, yoongi com suas infinitas apostilas e hoseok com suas novas aquarelas, o tempo foi passando quietamente, a chuva começou a cair mais forte, era noite de sexta feira, a televisão da sala, ligada por hoseok, mostrava em baixo voluma cenas multicoloridas e supersaturadas de um filme de ficção científica dos anos 90, a tosse da máquina de café havia parado, a chuva caindo contra a porta de vidro da pequena sacada eram uma reafirmação constante de que o tempo não tinha parado e a vida na cidade de Seul continuava, com ou sem os dois.

12:07PM

talvez um dia hoseok iria se arrepender de ter oferecido cerveja para yoongi, ele abriu uma para si, cansado de pintar flores em tecido pela milésima vez, era um projeto pessoal dele, mas ele não iria deixar yoongi sair de seu apartamento sem antes falar sobre certas coisas, certos sentimentos, não que para isso precise beber, ele não acreditava em coragem líquida ou algo do tipo, mas uma cerveja não parecia ruim no momento.

12:23PM

talvez um dia hoseok iria agradeçer a todas as entidades místicas por ter oferecido cerveja para yoongi, ele não era do tipo extrovertido, super animado que falava pelos cotovelos, essa descrição se encaixa mais com hoseok, mas a fraqueza de yoongi com bebidas alcoólicas era uma benção.

a cada gole as orelhas de yoongi ficavam mais vermelhas, ele ria de tudo que hoseok falava, quase caia mesmo estando sentado a todo momento, e por último mas com certeza não menos importante, ele ficava muito grudento, o min yoongi que hoseok conhecia só permitia contato físico em certas ocasiões, um abraço era quase como uma ameaça mortal, mas não quando ele estava bêbado, seria difícil diferenciar um bebê coala dele nesse caso, hoseok notou

os dois estavam no sofá, uma maratona de ficção científica estava passando, mas nenhum deles estava prestando atenção, as cervejas descongelando e criando piscinas na mesinha de centro, yoongi estava dando risinhos do nada e por nada, tudo era tão engraçado para ele que estava agarrado no braço de hoseok, quase deitando nas coxas definidas deste.

01:42AM

yoongi tinha sua cabeça no colo de hoseok, que fazia cafuné no cabelo dele

hoseok observava como os olhos de yoongi iam fechando devagarinho, devagarinho, e como abriam de leve quando o filme produzia um barulho mais alto que o normal, observava também a face de yoongi, a curva de seu nariz, seus lábios semi-abertos, suas bochechas coradas, se o paraíso fosse uma pessoa, seria esse yoongi, quase sendo levado embora pelo sono e pelo álcool em seu corpo.

hoseok não se considera sortudo, mas sentiu tanta felicidade naquele momento por poder ter yoongi perto de si, que suas emoções eram mais vívidas e quentes que as de alguém que acabou de ganhar na loteria, na verdade, ele tinha sim ganhado na loteria, poder conhecer yoongi foi o seu bilhete, se tornar mais próximo de yoongi foi a expectativa de que ele seria o ganhador e ter yoongi ao seu lado naquele momento era o grande prêmio

03:29AM

a maratona havia acabado, yoongi caiu no sono, hoseok não sabia oque fazer, era difícil pensar direito quando já se passava das duas da manhã, você está bêbado e o seu melhor amigo, possivelmente namorado num futuro próximo, está deitado no seu colo

por preguiça de continuar a pensar no que fazer, hoseok ergueu yoongi como se fosse uma noiva e o levou para o quarto, era espaçoso o suficiente para ambos

um cavalete esperava silencioso pela dupla no canto esquerdo do cômodo, no centro do piso um tapete felpudo deita confortavelmente, o edredom floral e confortável da cama king size de hoseok chamou os dois, uma janela enfeitada com luzes de natal na parede contrária da porta mostrava o horizonte urbano e úmido de seul, as cortinas balançavam devido a briza trazida pela chuva, o chão laminado estava frio para os pés descalços de hoseok, que continuava a segurar yoongi como se fosse ele a resposta de todas as perguntas existenciais já feitas pelo homem, com muito cuidado e admiração

ao som da chuva e sentindo a briza fria em seus braços, hoseok deitou yoongi suavemente na cama para não acordá-lo, sucesso, ele se acomodou ao lado do mais velho e virou para o lado, olhando as fotos que tinha coladas na parede com sua irmã no primeiro dia em seu novo apartamento, aquele foi um dia nublado, porém extremamente animado, hoseok não parava de cantar enquanto movia caixas e mais caixas para dentro, a irmã dele ria e o acompanhava na farra, foi um dia bom.

hoseok foi forçado a sair da lembrança querida quando sentiu um braço ao redor de seu tronco, ficou tenso, tinha acordado yoongi?

ele tentou virar minimamente, o suficiente para ver se realmente tinha acordado o outro, fracasso, o minimamente se tornou em “vou virar meu pescoço como a menina do exorcista, ou pelo menos tentar né”

olhos escuros o encaravam, quase indistinguíveis na escuridão do quarto, porém a luz das luzes de natal foscas traziam aos olhos de yoongi algo nostálgico, um encontro num parque de diversões, o melhor natal em família que já tivera, a saída na madrugada com os amigos em direção a praia, yoongi era tudo isso e muito mais. as lembranças que já foram e ainda vão ser, esse era yoongi.

“achava que você tava dormindo” resmungou yoongi

hoseok o observou, o cabelo desarrumado, as bochechas inchadas de sono, os lábios rosados “eu achava que você tava dormindo” retrucou

yoongi murmurou algo baixo demais para ser entendido, voltou a fechar os olhos

a mão de hoseok foi ao encontro da bochecha de yoongi, acariciando-a de leve, fazendo movimentos circulares com o polegar, a respiração de yoongi ficou incerta e bagunçada, abriu os olhos novamente

hoseok o encarou, pode sentir as próprias pálpebras ficando mais pesadas, sua consciência estava o traindo pelo sono sem culpa nenhuma, mas tinha que fazer algo a respeito do que sentia e tinha que ser agora

04:02AM

ele acabou com a distância entre os dois corpos, passando a mão da bochecha para a nuca de yoongi, que se arrepiou, hoseok notou, continuou. se apoiou com o antebraço na cama, não desviou o olhar até o momento do contato, a chuva bateu mais forte na janela, o cavalete ficou emocionado, o tapete felpudo se surpreendeu, o edredom floral esquentou e as luzes de natal piscaram, hoseok tinha beijado yoongi

o cavalete descreveria a cena desse modo: dois jovens se beijando sem mais nem menos às quatro da madrugada

o tapete felpudo pensaria mais assim: dois estudantes cansados de não beijar ninguém por muito tempo decidiram acabar com tal problema

o edredom floral diria algo desse tipo: dois meninos brincando de cabo-de-guerra com suas emoções decidiram finalmente fazer algo a respeito

as luzes de natal faria um comentário parecido com esse: ambos precisavam de alguém e ambos estavam livres naquele momento e naquele espaço

a chuva forte batendo na janela silenciaria a todos e diria: é amor

hoseok desprendeu os lábios dos de yoongi, este abriu os olhos devagarinho, vários segundos após o beijo, como se não quisesse acordar de um sonho. mas não foi assim, quando abriu os olhos por completo yoongi foi cumprimentado pelas bochechas coradas e olhos dilatados de hoseok, não foi uma miragem elaborada da mente necessitada de descanso de yoongi, era real, foi real, a chuva bateu mais forte na janela, já tinha virado tempestade desde o momento que yoongi entrou na vida de hoseok.

após um silêncio cheio de dúvida, hoseok piscou várias vezes e deu uma risada fraca “eu queria ter feito isso já faz um tempinho” sussurrou

yoongi mal se moveu, com medo de quebrar o momento, o transformar em memória, ele queria que o tempo nunca passasse, que nunca parasse de chover, que os móveis do quarto de hoseok não parassem de ser personificados, que os lábios deles não se separassem.

notando o silêncio e os olhos arregalados de yoongi, hoseok ficou nervoso e começou a se levantar da cama “me desculpa… hyung, eu… não queria-”

“como assim... queria ter feito isso, a um tempinho?” interrompeu yoongi, a voz dele era como mel, doce e pesada, enchendo a mente do outro

hoseok voltou a ficar com o antebraço apoiado ao lado do corpo de yoongi, retomando sua posição “a um tempinho… tipo.... a um tempão… eu até achava que tava meio óbvio… jurava que você ia entender as dicas e tal… mas acho que não né”

sem palavras era pouco para descrever como yoongi se sentia no momento, a um tempão?!, as palavras de hoseok giravam em sua mente, faziam piruetas e cambalhotas, hoseok gostava dele a um tempão, hoseok estava de olho nele a um tempão, hoseok gosta dele.

“eu também gosto de você” falou yoongi, sem pensar duas vezes, foi o suficiente para fazer o sangue correr às bochechas, seus olhos fugindo do encontro com os de hoseok, que deu um sorriso tímido e imitou a ação do outro, olhando para o cavalete, para o tapete felpudo, o edredom floral, as luzes de natal e a chuva batendo na janela, encarar um ao outro nesse momento parecia como um labirinto

tomando iniciativa para descobrir o que o labirinto escondia, hoseok finalmente encarou yoongi, que olhava atentamente os pincéis deixados no cavalete, estavam manchados de roxo e azul claro, como o pôr-do-sol do dia anterior

“que bom que o sentimento é mútuo” disse hoseok, sorrindo, avançando para beijar a testa de yoongi, que olhava para ele como se fosse um anjo, não era exagero, hoseok realmente era um anjo neste instante, as luzes de natal da janela refletindo nas íris escuras de seus olhos carinhosos, o cabelo preto rebelde, a mão dele encontrando a de yoongi, entrelaçando dedos.

04:57AM

os dois tinham voltado a se deitar na cama com pernas emboladas e braços dados, olhares demorados e pesados sendo envolvidos pelo sono, lábios ainda quentes e corações borbulhando em seus peitos.

o cavalete parecia mais feliz, como se fosse novo, o tapete felpudo abraçando o chão com carinho e cuidado, o edredom floral suspirava de alívio pelos novos amores encontrados, as luzes de natal piscaram uma, duas vezes e brilhavam mais ainda, repetia, piscaram uma, duas vezes e brilhavam mais ainda, repetia.

a chuva forte batendo na janela de um apartamento em seul se tornava mais macia, continuava forte como sempre, mas ao entrar em contato com o vidro não se ouvia mais um barulho incômodo e nervoso, e sim sussurros no meio do quarto escuro, risadas, mais beijos e respirações lineares, finalmente sendo tomadas pelo sono.

Notes:

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