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Lovecats

Summary:

Numa pequena vila perto das montanhas existia um jovem rapaz com os mais belos olhos cor de amanhecer. A sua beleza superava a sua fama e já tinham sido inúmeros os cavalheiros de terras próximas que ouviram rumores sobre ele. Uns diziam que ele sabia fazer magia e que era assim que encantava as pessoas, outros afirmavam que era algum tipo de criatura etérea. Mas, o rumor mais interessante, era o de que nunca ninguém tinha conseguido conquistar o seu coração e só quem conseguisse roubar a chave presa na coleira do seu gato é que teria direito à sua mão em casamento.

Notes:

Somos as duas grandes apreciadoras da Disney e de contos de criança e portanto tentamos passar essa vibe de fábula nesta fic. (Palavra-chave: tentamos).

Eu sou de Portugal e a minha amada Nobody é do Brasil o que significa que o texto está tanto em ptpt como em ptbr porque escrevemos isto como sendo um semi-rp. Acho que não usei nenhuma expressão demasiado típica minha (ou demasiado típica da Terra das Capiva--- bah, perdão, dos Gaúchos) mas qualquer dúvida é só perguntar.

Está meio sem revisão e pedimos desculpas à priori pelos erros de formatação porque enfim...A Fic está também publicada no Nyah.

Edit: a fic foi revisada e levemente alterada em 04/03/2022, tornando a leitura mais fácil.

Work Text:

Lovecats

Numa pequena vila perto das montanhas existia um jovem rapaz com os mais belos olhos cor de amanhecer. A sua beleza superava a sua fama e já tinham sido inúmeros os cavalheiros de terras próximas que ouviram rumores sobre ele. Uns diziam que ele sabia fazer magia e que era assim que encantava as pessoas, outros afirmavam que era algum tipo de criatura etérea. Mas, o rumor mais interessante, era o de que nunca ninguém tinha conseguido conquistar o seu coração e isso fazia do rapaz um objetivo a conseguir para muitos. 

Havia apenas um pormenor. Atsushi vivia com o seu pai adotivo numa das casas mais afastadas da aldeia, isto porque Fukuzawa, mesmo sendo um homem justo e franco, continuava a apreciar a sua solidão longe dos olhares curiosos dos vizinhos. A casa era espaçosa, mas simples, e albergava nela a estranha e alongada família que aos poucos ele fora construindo. Ninguém sabia como é que Fukuzawa tinha tantos filhos, muito diferentes entre si, sem ser casado nem nunca ter sido avistado com uma mulher. Tal facto, aliado a todo o misticismo e segredos que rodeavam a estranha família, deixava até mesmo os mais céticos de pé atrás em se aproximar demasiado. Afinal, para conseguir cortejar Atsushi era necessária a aprovação do seu pai e este só a daria se o filho estivesse realmente interessado.

Os mais corajosos tinham tentado: entre serenatas à janela e entrega de lustrosas rosas vermelhas… de tudo tinham feito para chamar a atenção do rapaz. Só que nada parecia resultar. Atsushi vinha sempre à janela e sorria educadamente, agradecendo mas sempre informando que tinha de recusar o pedido.  Quando o abordavam no meio da rua ele ficava um pouco atrapalhado e tentava-se afastar até que eventualmente os homens impacientes e as mulheres invejosas tornassem este ritual mais forçado e bruto: esperavam por Atsushi à saída de casa não lhe dando liberdade nenhuma, faziam multidão à sua volta por onde quer que fosse… Temendo que tivesse de ficar isolado em casa para evitar tudo isso, falou com o seu pai e arranjaram a solução perfeita que de imediato foi anunciada aos pretendentes da vila:

Teria a mão de Atsushi em casamento o cavalheiro ou dama que conseguisse a chave para o portão de casa. Chave essa que se encontrava presa na coleira de Jinko, o gato riscado branco e preto de estimação da família. Para obter a chave era preciso apanhar o felino e a superação desse difícil desafio daria a algum pretendente a satisfação de se poder casar com Atsushi.

O problema? Jinko, apesar de ser um felino de porte pequeno e magro, era um animal extremamente hábil e parecia deslizar magicamente entre pernas e mãos daqueles que tentavam apanhá-lo. Fazia já dois anos que ninguém conseguia segurar o tal gato, e Atsushi já sentia que a paciência dos aldeões começava a terminar: as tentativas de captura de Jinko tornavam-se cada vez mais perigosas e violentas, uma das piores sendo quando um homem se utilizou de armadilhas iguais as para urso para tal propósito. Toda a família ficou preocupada ao ver o pobre e amado Jinko com a pata ferida, e por meses apenas um dos irmãos, Oda, foi visto pela aldeia para comprar comida e remédios.

Até se pensava em terminar a tal caça ao gato, mas o próprio Atsushi implorou ao pai para que permitisse a continuação do jogo. Ele tinha fé que Jinko tinha aprendido sua lição e que não se machucaria mais.

Embora preocupado, Fukuzawa aceitou os pedidos do filho caçula, e a caçada continua.

A verdade é que havia um segredo. O truque para tirar a chave da coleira de Jinko era simples: bastava ser meigo com o gato e ganhar a confiança dele. Se alguém o tentasse apanhar ou tocar à força ele fugiria e com isso a probabilidade de conseguir a chave ia pelos ares. É que Jinko era um gato muito seletivo das pessoas que se aproximava mesmo sendo muito curioso (e por isso quase cairá em armadilhas várias vezes) e quanto mais tempo passava menos ingênuo sobre o assunto ele ficava.

As mulheres da aldeia interessadas em apanhá-lo tentavam suborná-lo com comida e falavam para si num tom de voz agudo e irritante. Se conseguiam pegar em si ao colo, apertavam demais e era desconfortável, uma delas chegou a vestir-lhe um vestidinho de renda como se fosse algum tipo de boneca. Os homens dividiam-se em duas categorias: os que o tentavam manipular com engenhos e os que de impacientes quase o tentavam matar. Vinha daí a lacuna, o pretendente tinha de levar a chave a Fukuzawa mas nunca ninguém disse o que podia acontecer com o gato.

Mesmo assim, Atsushi tinha algo em mente: um homem, ou mulher, que não tratasse bem um animal nunca poderia ser digno de casar consigo.

Numa noite chuvosa, entretanto, todas as experiências de Jinko com os arredores da aldeia e o conhecimento de onde os pretendentes montaram armadilhas foram postas à prova quando o felino foi capturado ao ser seguido por alguns homens.

Ele teve o azar de prender a patinha numa armadilha para coelho (que, claro, era ótima para apanhar gatos), e foi puxado para cima de um galho de uma árvore velha que balançava com o vento gélido da tempestade.

Os miados altos e desesperados do gato ecoaram pela noite fazendo com que as corujas começassem a piar ao serem acordadas e os animais se assustassem nas suas tocas.

Dois homens deram um high five pelo bom trabalho e aproximaram-se pelo caminho de lama em risadas altas.

“A armadilha é minha, o gato é meu!”, um deles disse.

O outro resmungou, empurrando o ‘amigo’ para o lado:

“Nem vem! Eu vi ele primeiro, você quem me seguiu pra cá!”.

“Mas quem montou a armadilha foi eu!”.

“Eu não quero saber! Você nem gosta do Atsushi, só quer comer ele!”, empurrou-o.

“Igual a você, seu pedaço de merda!”, e agarrou o outro.

Os dois, então, começaram a brigar e, escorregando na lama, rolaram colina abaixo, continuando a trocar socos e pontapés. O pobre Jinko, esquecido por um momento, voltou a miar, tentando se soltar da armadilha enquanto sentia frio. Mordia como conseguia a corda, mas suas pequenas presas não eram muito úteis. Logo, a exaustão o impedia de ficar agarrado à corda, e Jinko ficou de ponta cabeça.

Estava perdido.

Não tinha passado muito tempo quando uma figura se aproximou. Aquela zona da floresta não tinha muita luz mas a pessoa trazia uma lamparina na mão e vestia uma capa negra tão longa que se camuflava também na noite.

Assim que viu o gato pendurado, a figura acelerou o passo e tirou uma faca do bolso.

“Idiotas.” , ele resmungou sozinho, tinha uma voz rouca e baixa e isso alertou Jinko. O felino começou a barafustar de novo. Já não conseguia miar mas tentava morder a mão que cortava a corda e o rapaz de vestes negras resmungou ainda mais, “E tu és idiota também! Pára de me morder!”

O gato ignorou-o, a adrenalina voltava a percorrer seu corpo pequeno, já que tencionava fugir, mas o rapaz foi mais rápido e embrulhou-o na ponta da capa para o imobilizar. Demasiado cansado para conseguir lutar ou escapar, Jinko resignou-se ao seu destino. Pelo menos o tecido da capa era quente e ajudava-o a secar. Enquanto adormecia por exaustão, percebeu apenas que o rapaz ainda resmungava baixo, por vezes tendo ataques de tosse sempre que acelerava o passo.

🐱

Quando despertou, Jinko teve preguiça de abrir os olhos. 

Estava deitado em algo confortável e os seus sentidos aos poucos retomavam: ouvia o barulho da chuva a bater em vidro e do crepitar do fogo perto de si, cheirava a comida, estava seco e quente. A única coisa que não parecia muito bem era a sua pata dorida pela pressão da corda.

A corda!

Abriu os olhos bem aflito e tentou perceber onde estava, sem muito sucesso. Parecia uma sala pequena e aconchegada, muito arrumada, apenas iluminada por velas e pela lareira. 

“Calma, Bola de Pêlo”.

O felino deu um pequeno salto, o seu pêlo eriçado, e virou-se na direção da voz rouca. Um rapaz pálido e muito magro, vestido com roupas escuras e com o cabelo negro de pontas brancas  encarava-o com alguma curiosidade.

Ele estava sentado no sofá e ao seu lado estava a longa capa negra estendida a secar, a coleira com a chave pousada sobre um dos braços do móvel pequeno e aconchegante.

Jinko bufou, arqueando as costas, mas o rapaz continuou com uma expressão neutra até se levantar. O gato então começou a rosnar mas o humano nem se tentou aproximar e passou por ele para a cozinha, voltando uns momentos depois com um prato com pedacinhos de frango cozidos. Pousou perto dele e voltou a sentar-se no sofá.

“Eu não sei como é que o teu dono te dá uma tarefa tão estúpida e perigosa e não vê que és cabeça de vento”, limitou-se a dizer.

O felino continuava em posição de alerta, mas o cheiro agradável da comida começava a baixar suas defesas. Encarou o homem misterioso, que tossia enquanto bebia chá, e moveu os bigodes.

Não se lembrava de já tê-lo visto pela aldeia…

“Que ideia mais ridícula de colocar uma chave”, o homem pegou a chave na mão, “no pescoço de um gato minúsculo para ganhar o coração de alguém”. Jinko se encolheu. Se ele tinha a chave, tinha o direito de se casar com Atsushi. “Francamente”, voltou a resmungar, erguendo-se e se aproximando de Jinko. 

Olhou para o felino, que lhe mostrava as presas, e deixou a chave ao lado do prato com frango.

“Pode comer. Descanse, sua pata está bem, mas precisa ficar em repouso”, explicou numa voz rouca e baixa, voltando a se acomodar no sofá, um livro sobre o colo.

O gato ficou a observá-lo por mais uns momentos, meio que esperando alguma mudança de atitude mas… o estranho rapaz sequer lhe estava a prestar atenção, demasiado focado no seu livro.

Aproveitando a brecha, Jinko atacou o frango (tinha mais fome do que pensava) e mal terminou pegou na coleira com a boca e foi esconder-se por baixo de uma poltrona junto da lareira.

Dali, observou o homem a ler por horas a fio e, ao terminar o livro, assoprar as velas e olhar para o gato. Jinko, mesmo cansado, tentava se manter em alerta, mas seu anfitrião apenas colocou mais lenha na lareira e seguiu para o quarto.

Assim que o silêncio se instalou, ele permitiu-se relaxar junto do calor e enrolou-se, demasiado cansado e ainda dorido para tentar fugir.

O problema foi na manhã seguinte: acordou com o humano, que conseguira alcançá-lo por debaixo da poltrona, a colocar-lhe a coleira de novo e assustou-se, já dando um salto e sibilando ameaçadoramente. O rapaz não parecia muito impressionado nem tão pouco se importou com o arranhão que apanhou. De novo a falar sozinho e baixo, foi buscar uma toalha e embrulhou Jinko nela para o imobilizar.

“Pára de miar como um condenado! Vais pôr toda a gente a olhar para mim”, resmungou e franziu o sobrolho, encarando-o. Tinha uma expressão tão séria que Jinko conseguia quase imaginar o dono da sua casa assim. “Vamos embora, antes que chova de novo.”, disse e num gesto rápido voltou a colocar a capa sobre os ombros e saiu para atravessar a orla da floresta até chegar à aldeia. Ainda era cedo, não havia muita gente na rua, e o rapaz apressou o seu passo até chegar à casa da família Fukuzawa.

Bateu na porta sem muita paciência (Jinko tentando entender o que acontecia), e quando Fukuzawa atendeu, o rapaz apenas estendeu o gato embrulhado na toalha e resmungou:

“Diga ao seu filho que essa ideia de deixar o gato da família aos perigos desse bando de loucos por causa de uma chave idiota é a pior coisa que eu já ouvi. E tenham um bom dia!”.

E foi embora.

Fukuzawa ficou ali à porta com um gato confuso embrulhado no colo. Pestanejou algumas vezes, vendo o rapaz de negro afastar-se e estava a tentar lembrar-se de onde o conhecia quando ouviu Oda chamar toda a gente para o desjejum.

Olhou para o gato:

“Vieste a tempo”, disse, fechando a porta atrás de si após entrarem em casa.

Jinko soltou um suspiro, e Fukuzawa o colocou no chão. Uma luz azulada envolveu o gato, que transformou-se em sua forma original: Atsushi.

Fukuzawa tirou sua capa e estendeu ao filho, que cobriu sua nudez e sorriu.

“Obrigado”, encolheu-se sob o tecido longo, tentando aquecer-se.

 O mais velho assentiu, ajeitando-lhe a franja que caía sobre os olhos bonitos.

“Está machucado? Como ele o capturou?”.

Atsushi balançou a cabeça, a perna esquerda a mancar de leve.

“Só dói um pouco… e ele não me capturou, ele…”, olhou para a janela, procurando pelo moreno. Claro, ele já estava longe, e Atsushi suspirou, “Ele me salvou…”.

Fukuzawa suspirou, estranhando o olhar perdido e confuso de seu caçula.

 “Eu avisei que era má ideia sair com todo aquele temporal. Quase que tive de pedir ao Kunikida para te procurar. Ele está de péssimo humor essa manhã”.

Atsushi só imaginava a cara do seu irmão adoptivo mais velho quando o visse pendurado numa árvore por uma pata. Não, pior, só imaginava o sermão.

“Está tudo bem”, garantiu com um pequeno sorriso, “Vou só vestir alguma coisa e venho comer, estou esfomeado…”.

Fukuzawa assentiu novamente e pousou a mão no ombro dele, realmente preocupado com o bem-estar de sua família.

“Tem cuidado para a próxima. Sabes que não tens de fazer nada disto…”. A voz calma tentou trazer um pouco de juízo ao rapaz, mas esse apenas sorriu para si:

“É a forma mais fácil… É apenas meu segundo acidente desde que começamos essa tarefa. Prefiro isso do que ser abordado a cada dois segundos por pessoas que querem se casar comigo…”.

“Eu sei…” , respondeu num suspiro , apertando-lhe de leve o ombro. Sabia que a decisão era totalmente de Atsushi, e embora se preocupasse com o filho, deixou-o ir se ajeitar para o café da manhã.

Enquanto aguardava por Atsushi, foi para a cozinha onde já o caos estava instalado.

Ranpo estava sentado todo torto na cadeira com um corvo no ombro a quem dava migalhas de pão, Kunikida estava de avental a resmungar sobre a sujeira, usando um espanador para limpar as prateleiras mais altas, e Oda acabava de fazer panquecas - todas em diferentes formatos, a de Atsushi sendo gatinhos gorduchos.

Eram uma estranha família mas funcionavam.

“O Atsushi voltou”, Fukuzawa anunciou ao entrar na cozinha.

Kunikida resmungou alto, colocando as mãos nos quadris:

“Assim que ele aparecer por aqui eu vou puxar as orelhas dele! Eu falei diversas vezes para ele não sair ontem e ele não me ouviu!”.

“Tem calma, Kunikida. Ele é um gato. Gatos não obedecem”, Oda comentou, calmo como sempre, mas seu irmão mais jovem continuou a reclamar:

“Isso não é justificação! Ele já tem uma cicatriz enorme numa das pernas, um dia ele aparece morto em casa!”.

O ruivo suspirou.

“Eu entendo a sua preocupação, mas a decisão é do Atsushi…”.

A pequena discussão continuou até o mais jovem dos quatros irmãos entrar, já a esfregar a nuca por nervosismo. Seus irmãos olharam para si, e Atsushi percebeu que era ele o assunto do momento:

 “Bom dia… Eu não vos queria ter preocupado…”.

Oda aproximou-se e pousou a mão nos seus cabelos, despenteando-o. Ele estava sempre sério, mas era o mais doce de todos eles.

“O que importa é que estás bem. Conseguiram a chave?”.

Atsushi mostrou a chave, balançando-a de leve.

“Sim e não… um rapaz pegou a chave, mas me devolveu”.

Enquanto Oda e Kunikida piscaram, Ranpo riu tanto que sua barriga chegou a doer:

“Acho que há alguém nessa aldeia que não é apaixonado por você, Atsushi~”.

O grisalho corou na hora e sentou-se assim que Oda pousou uma panqueca à sua frente:

“H-Há muita gente nessa aldeia que não é apaixonada por mim!”, reiterou.

“Não é culpa dele que haja pessoas obcecadas, Ranpo”, o loiro resmungou ao sentar-se e encarou o mais jovem, “Estás magoado?”.

Atsushi balançou a cabeça.

“Não é nada, foi um mau jeito”, disse, optando por ignorar o pormenor da armadilha, “Aquele rapaz deu-me comida e abrigou-me da chuva, está tudo bem”.

Kunikida piscou, ajeitando os óculos sobre o nariz.

“Realmente, ele cuidou de você, ignorou a chave e o devolveu ao nosso pai. Pelo menos há uma pessoa sensata na aldeia”.

“Oh, mas ele vive na floresta, como nós”, o mais jovem disse, a boca cheia de panqueca.

Oda, então, lhe estendeu um guardanapo e perguntou:

“Perto de um riacho?”.

“Acho que sim?”.

“Conheço-o”.

“Tu conheces toda a gente”, Ranpo disse enquanto ignorava a panqueca para poder comer do pote de chocolate à colher, “Tens o dom da socialização ”.

Oda suspirou e tirou-lhe o pote da mão para usar nas suas panquecas, Ranpo fazendo biquinho.

“Não, ele restaura arte e artefatos. Eu precisei de compor aquela estátua que o Ango trouxe da última vez que nos veio visitar. É uma lembrança do Oriente rara e o Ryuunosuke conseguiu deixá-la como nova”.

Atsushi encheu sua panqueca de chocolate, sendo observado por Fukuzawa em silêncio.

“Ryuunosuke? Esse é o nome dele?”.

Oda assentiu.

“Sim, ele vive recluso, vai à aldeia apenas para comprar alimentos, materiais e ir aos correios”.

“Ou seja, a pessoa mais esquisita da aldeia inteira encontrou-te~” , Ranpo disse, dando um pedaço de panqueca ao corvo que estava no seu ombro.

Atsushi fez biquinho.

“Esquisito ou não, pelo menos não forçou a casar com ele”.

Kunikida deu um estalido com a língua.

“Por isso é que isso da chave não é boa ideia. Diz que não queres casar com ninguém e-”.

“Ou que queres ser padre!”, Ranpo sugeriu.

“Quietos, por favor”, Fukuzawa pediu. “Essa foi uma escolha de Atsushi, e assim como ele respeita as escolhas de vocês, espero que façam o mesmo quanto às dele”. 

Atsushi agradeceu ao pai com um sorriso, e os irmãos, ainda curiosos, queriam saber:

“Mas me diz uma coisa, Atsushi: se ele pegou sua chave, ele tem o direito de se casar com você, mesmo a devolvendo, não?”, Ranpo questionou.

O grisalho pestanejou.

“Eu não sei?”, era muito cedo para pensar com coerência, “Ele teria de me devolver em pessoa”, deu de ombros. “Ele entregou o gato com a chave ao pai, não a mim.”.

Ranpo assentiu, descansando o queixo na mão esquerda.

“Sim, mas ele não teria como devolver à você se você é o próprio gato. E, se for parar para pensar, ele devolveu a chave ao Jinko, e você é o Jinko. Então, via de regra, dá no mesmo e agora você está noivo de alguém que nem te quer~”.

Atsushi encarou-o emburrado.

“Se ninguém souber disso, eu não preciso de cumprir”.

O baixinho deu uma risada alta, fazendo carinho no corvo, e Fukuzawa suspirou:

“Ele só pode casar se a pessoa quiser, já há variáveis que cheguem”.

Ranpo soltou outra risada, e Atsushi fez biquinho.

“Pára de ser chato, Ranpo, ou eu não trago mais doces para você!”, ameaçou.

Ranpo fez um draminha básico, sendo ignorado pelos demais da família, e o resto do café da manhã prosseguiu como sempre: muita conversa e muita implicância.

🐱

No outro lado da aldeia, Ryuunosuke Akutagawa preparava-se para voltar para casa, levando consigo algumas caixas que tinha no correio. Várias comissões, um pouco de toda a parte, para ele arranjar. Na praça, ouviu dois caçadores se queixarem que alguém tinha destruído as armadilhas para apanhar o maldito gato e sorriu para si mesmo.

Iniciou o percurso para casa e a meio, já na floresta, viu uma enorme raposa vermelha com a cabeça pousada numa velha e enferrujada armadilha que não funcionava mais. A raposa estava de barriga para o ar, as patinhas dobradas e fingia-se morta. Como Akutagawa sabia disso? Já tinha visto aquela mesma raposa fazer aquilo dezenas de vezes. O motivo? Ele nem sequer queria saber. Se há humanos loucos de certeza que há animais loucos igual, certo?

A raposa fez um barulhinho muito característico que não era exactamente um ladrar, mas sim um grito agudo que mais se assemelhava a uma mulher desesperada. Akutagawa abrandou o passo só para observar e percebeu que havia uma outra raposa, bem mais pequena, que se aproximou da primeira e rosnou antes de lhe morder a cauda e arrastar para longe da armadilha. 

Akutagawa suspirou, levando a mão até a testa e esfregou ali. Já tão cedo, eles a fazer bagunça.

“Dazai, não cansa de incomodar o Chuuya?”.

A raposa grande fez um barulho que lembrava uma risada e esticou a pata para cutucar a ponta do nariz da outra raposa. A outra rosnou e largou a cauda dele para lhe morder a pata.

Não demorou nem dez segundos para os dois estarem aos guinchos e a rolar pelo chão. Akutagawa deu de ombros e seguiu o seu caminho apressadamente - ainda não tinha entendido se aquilo era algum tipo de ritual de acasalamento e, francamente, depois de toda a barulheira que ele ouvia durante a noite com os guinchos e uivos, preferia nem saber.

Chegou em casa e foi direto para a sua grande mesa de trabalho, abrindo aos poucos as caixas e pacotes com objetos para restaurar. Um em específico lhe chamou a atenção: uma pequena estátua de madeira de um tigre branco aninhado numa pantera negra.

“Inusitado”, murmurou para si mesmo e começou a trabalhar na peça.

🐱

A curiosidade matou o gato e a audácia trouxe-o de volta, é assim que o ditado corre. E no caso de Jinko, ou Atsushi, nem isso o impediria de fazer exploração.

Tinha ficado verdadeiramente intrigado com Ryuunosuke. Nos dias seguintes esperara que ele fosse aparecer do nada e reclamar a sua mão em casamento mas nada aconteceu. Nem uma única carta, ou presente, nada.

Farto de estar em casa a olhar para as dezenas de flores que tinha recebido nos últimos dias (nenhuma dele ), decidiu sair para voltar a procurar o estranho rapaz de negro.

Conhecia bem a floresta, e mesmo que nunca tivesse ido até a casa de Ryuunosuke antes, chegou lá sem grandes problemas. A janela estava entreaberta, deixando que a brisa da manhã refrescasse o local, e Jinko/Atsushi sentou-se ali no parapeito, observando o rapaz a trabalhar. 

Demorou quase uns dez minutos até que ele parasse de se focar nos pequenos pormenores que arranjava na estátua e levantasse a cabeça, dando um gritinho ao ver o felino na janela.

“Hey! Que pensas que estás aqui a fazer outra vez?”. O gato miou, se encolhendo, e Ryuunosuke suspirou. Levantou-se e seguiu até a janela, abrindo-a melhor caso o felino quisesse entrar, "Não caiu em nenhuma armadilha hoje, hn?". Recebeu outro miado em resposta e não resistiu em esticar a mão para fazer carinho na cabeça do gato, “Devias ter mais cuidado, tem alguns idiotas que são capazes de te matar só por causa dessa chave.”. Viu o gato piscar (ele o entendia?), e sorriu de leve, "Se quiser entrar, farei peixe grelhado para o almoço", disse, acariciando atrás das orelhas de Jinko antes de voltar para a sua mesa.

O gato pestanejou e saltou de imediato para cima da mesa, desviando-se elegantemente de todos os animais miniatura feitos em barro que tinha por ali. Ryuunosuke encarou-o.

“Tinha mesmo de ser em cima da mesa? Mal-educado”. Jinko se encolheu, descendo da mesa imediatamente e se aproximando pelo chão. Ryuunosuke suspirou, puxando um banco para perto de si, "Caso queira me ver trabalhar, que seja daqui", disse.

O gato miou em agradecimento e saltou para o banco, sentando-se naquela pose de ‘pão de forma’ enquanto o observava a pintar pormenores dourados num vaso de aspecto antigo. Ryuunosuke tinha os dedos longos e pálidos e trabalhava com as tintas com um cuidado enorme, quase suave. Aquilo intrigava Atsushi. Como é que alguém que resmungava até sozinho e parecia reclamar com tudo conseguia ser tão delicado? Percebeu, também, que ele tinha a respiração muito chiada e por vezes tossia.

Olhou na direção dele, notando pela primeira vez como ele tinha olhos de um cinzento muito claro. Ao sentir-se observado, o rapaz olhou para si e pestanejou.

“Que foi?”.

Atsushi soltou um miado baixo, e Ryuunosuke suspirou outra vez, o pincel fino sendo mergulhado na tinta antes de adornar o vaso.

"Esse vaso veio de muito longe. A dona diz que pertencia à sua avó, e que gostaria de manter a peça na família. Houve um pequeno acidente e uma parte se quebrou, estou consertando isso", explicou.

Ótimo.

Agora falava com gatos.

O gato deu um miado em resposta e o rapaz suspirou. Bem dizia a sua irmã que ele passava sozinho tempo a mais. 

"Não era suposto andares a servir de isco aos homens da aldeia? Eles não te vão encontrar se ficares aqui a ouvir-me a falar sozinho.".

Jinko se acomodou no banco, o rabo a balançar. Passar o dia a correr feito louco daqueles monstros? Não, obrigado. Atsushi preferia ficar na tranquilidade que era a casa de Ryuunosuke. 

O rapaz suspirou, entendendo. Voltou a consertar o vaso, sempre explicando ao gato o que estava fazendo.

E assim se iniciou o ritual deles: todas as manhãs, Jinko aparecia na janela. Ryuunosuke já deixava o banco dele perto da mesa de trabalho, e o gato ficava ali por horas a observar o rapaz a trabalhar. Às vezes Ryuunosuke explicava o que fazia, e às vezes havia um silêncio entre eles. Mas era um silêncio gostoso, leve.

Atsushi gostava da presença de Ryuunosuke, e a muito custo voltava para casa no fim do dia, sempre após o artesão tomar seu café.

A rotina não passava despercebida a Fukuzawa mas ele tentou não dar importância: sabia que o seu filho detestava ficar em casa sem fazer nada e andar a fugir pela aldeia e a pedir colo às velhinhas era um dos seus passatempos. Notou, no entanto, que ele voltava sem fome e bem menos nervoso e irritado, mas não fez perguntas.

Quando o Outono passou e chegou ao Inverno, as primeiras neves caindo logo, Ryuunosuke mudou-se para a sua sala para trabalhar. Perto da lareira quentinha e com mais chá para sobreviver, era-lhe muito mais agradável trabalhar ali sentado no chão do que no seu escritório frio que sempre piorava a sua tosse. O gato continuava a aparecer todos os dias apesar da neve e de congelar as almofadinhas por baixo das patas e tinha descoberto algo fantástico: se ficasse deitado no colo de Ryuunosuke enquanto este lia, tinha direito a receber cafuné entre as orelhas durante horas. O medo, já há muito perdido, pelo rapaz era agora substituído por um ronronado bem alto e miados mimados que acabam sempre com JInko de barriga para ar a pedir mais carinho.

Numa dessas vezes, os olhos cinzas de Ryuunosuke desviaram-se do livro para o encarar e ele sorriu levemente.

“Nem sequer orgulho de gato tens, hum? Não devias mostrar a tua barriga a ninguém”.

Atsushi nunca o tinha visto sorrir.

O gato miou, se esfregando na mão do artesão, que voltou a sorrir e acariciou-lhe os pêlos macios e alvos. Podia ter um semblante sério, mas Atsushi percebia que ele tinha um bom coração. 

"Certo, certo… eu faço carinho".

O ronronado aumentou de volume e o gato fechou os olhos em contentamento. Ah, se ao menos Ryuunosuke lhe tivesse devolvido a chave…

🐱

Com o Inverno não vinha só o frio, vinham também os dias mais curtos e as luzes brilhantes e o mercado de Natal na praça principal da aldeia. Vários artesãos e comerciantes de outras aldeias juntavam-se ali durante vários dias e traziam uma alegria diferente a todos. As ruas enchiam, as pessoas juntavam-se perto das fogueiras ou dos vendedores de álcool e chocolate quente. E nem mesmo a família Fukuzawa se privava disso. 

“Edgar! Edgaaaar~!”, Ranpo puxou a manga do homem alto que ia ao seu lado, “Quero pipocas!”

O tímido Edgar, todo encolhido de frio num casaco negro cuja gola era feita com penas de corvo, encarou-o.

“M-Mas Ranpo, temos de jantar primeiro e só depois é a sobremesa”.

Ranpo fez biquinho.

"Mas pipoca é salgada, logo não é sobremesa!", disse, esfregando a bochecha no ombro dele, "Compra pipoca~".

O mais alto suspirou e olhou para a barraquinha que vendia sacos de pipocas. Não conseguia negar nada ao baixinho.

“Certo… Atsushi, queres também?”.

O grisalho, que olhava para todos os lados como se estivesse à procura de alguém, pestanejou e sorriu levemente ao perceber que Poe falava consigo.

“Ah… Não, obrigado”.

Edgar assentiu, já pegando sua bolsa com o dinheiro. Ranpo, entusiasmado, quase saltitava até o vendedor de pipoca, pedindo a maior porção, claro.

Atsushi riu um pouco da situação (Edgar era uma pessoa tão paciente), voltando a olhar para as pessoas no festival.

Sabia que Ryuunosuke era uma pessoa reclusa, mas havia tanta variedade de artesanato nos festivais, que ele tinha esperanças de vê-lo por lá.

E seu coração pulou uma batida ao reconhecer aqueles belos olhos cinzentos pela multidão. 

Sorriu, se aproximando do artesão com passos apressados:

"Ryuunosuke!".

Foi curioso como o encontro deles não foi assim tão diferente como o primeiro. O rapaz de negro assustou-se (eram poucos aqueles que se davam ao trabalho de descobrir o seu primeiro nome) e encolheu-se na sua capa negra, franzindo o sobrolho ao reconhecer Atsushi. Nunca o tinha visto pessoalmente mas a fama dos belos olhos cor de amanhecer era até conhecida para si. Apenas nenhuma das descrições que tinha ouvido de Atsushi era justa com a real beleza dele. 

O grisalho tinha uma longa capa azul escura com pêlos brancos na gola e o frio deixava-no um pouco corado. Com o vapor da sua respiração e os olhos iluminados pelas luzinhas da decoração, ele mais parecia um personagem das ilustrações antigas que Ryuunosuke tanto adorava. 

O seu coração deu um salto, instantâneo, e subitamente o frio e a brisa gelada do inverno desapareceram por uns breves segundos. Na verdade, até o barulho à sua volta cessou e por mais amontada fosse a multidão, o moreno não viu mais ninguém a não ser aquele rapaz grisalho, praticamente da sua altura, escondido entre o pêlo branco da gola e um sorriso para si. Para si… A pessoa mais desejada da aldeia estava a sorrir para si. A pessoa mais desejada-

A magia quebrou toda nesse momento porque o artesão só se lembrou de uma noite de chuva e de um gato ferido deixado para morrer, tudo por causa de uma chave.

Cruzou os braços na defensiva e resmungou:

“Tu! Tu és o idiota assassino de gatos”.

Atsushi piscou, sentindo seu peito apertar.

Ele? Um assassino?

Se encolheu de leve, as bochechas se tornando mais avermelhadas pela vergonha que sentia no momento.

"E-eu não sou assassino algum, Ryuunosuke…", tentou se explicar, "Jinko está bem… e por sua causa!", sorriu de leve.

O moreno bufou e não usava consigo o tom de voz suave a que Atsushi tanto se tinha habituado.

“Minha causa? O gato é teu. Tu é que devias ser responsável por ele estar bem e não o deixares por aí à mercê dos estúpidos que fazem qualquer coisa para lhe tirar a chave nem que seja cortar-lhe a cabeça!”.

Atsushi se encolheu outra vez, sentindo uma tristeza enorme pelas palavras rudes vindo de Ryuunosuke. Nem parecia aquele artesão gentil que cuidava tão bem de Jinko…

Limpou uma lágrima que teimou em cair, forçando um sorriso simpático.

"Eu… Desculpe… Com licença…", pediu e saiu dali um pouco apressado, sentindo um nó na garganta.

O moreno pestanejou, não indo a tempo de o impedir de ir embora. Queria só chamar a atenção de Atsushi para o que estava a acontecer e não fazê-lo chorar! Mais ainda, não foi a tempo de sequer lhe perguntar o que ele queria… ou como sabia o seu nome.

Suspirou, voltando a observar os artesanatos, agora já sem muita vontade. 

🐱

Atsushi corria apressado para fora da multidão quando esbarrou em um rapaz moreno que lhe era conhecido.

"Atsushi~ Oh, por que está chorando?".

O mais baixo balançou a cabeça, limpando o rosto.

"Oh, não é nada, Dazai…".

Dazai pestanejou e coçou o queixo.

“Ninguém chora por nada, Atsushi”. O grisalho desviou o olhar e o mais velho suspirou, tirando um lenço do bolso, “Vá anima. Ia mesmo agora comprar chocolate quente para levar ao Anão. Queres vir beber connosco?”. 

Atsushi aceitou o lenço, limpando o rosto decentemente.

"Seria bom… Só preciso avisar algum dos meus irmãos…", disse.

Dazai sorriu, lhe abraçando pelos ombros.

"Eu levo você até o Odasaku~"

“Sabes onde ele está?”, perguntou enquanto olhava ao redor, tentando encontrar o ruivo.

“Sim, tenho bom faro”, piscou-lhe o olho, sorrindo atrevido.

“Conheces o meu irmão pelo faro?”.

Dazai deu uma risada.

“Nah. Mas conheço o cheiro de curry e o Oda nunca está longe do curry.”

Atsushi sabia que era verdade e atravessaram a praça inteira até chegar ao outro lado. Ele reconheceu logo de imediato o seu irmão mais velho.

"Odasaku~", Dazai chamou, se agarrando no pescoço do ruivo.

Oda tossiu de leve pelo susto, limpando os lábios antes de se dirigir ao amigo.

"Dazai, olá”.

“Por aqui neste maravilhoso dia de festival?”.

O ruivo sorriu.

“Sim, vim passear com a minha família mas fui abandonado. E o Chuuya, por onde anda?”.

Dazai deu de ombros.

“Deve ter sido caçado por alguém e agora faz parte de um cachecol ou de um casaco”. Oda apenas encarou o moreno, que coçou a nuca e pigarreou. Sabia que seu amigo detestava esse tipo de humor, e logo se endireitou: "Ele está em casa. Pediu um chocolate-quente.", explicou, "O Atsushi vai comigo, tudo bem?".

O mais velho assentiu, olhando para seu irmão.

"Não volte tarde, parece que vem nevasca por aí".

O mais jovem mostrou-lhe a língua, rindo em seguida.

“Eu sei cuidar de mim, mano”.

Oda sorriu, lhe bagunçando os cabelos.

"Eu sei. É um rapaz esperto", disse, recebendo um sorriso carinhoso de Atsushi, "Divirtam-se", Oda desejou.

Os mais jovens despediram-se e depois de ir buscar os chocolates quentes seguiram para a casa de Dazai. Ele morava na mesma direção que Ryuunosuke mas bem mais perto da aldeia apesar que tanto ele como Chuuya amavam andar pela floresta na sua forma de kitsune. Durante semanas aterrorizaram toda a gente da vila porque os uivos e guinchos que davam eram muito altos e assustadores (vez ou outra Dazai chegou mesmo a invadir o galinheiro de um homem que olhou para Chuuya de cima a baixo com segundas intenções) mas agora toda a gente sabia que aquelas raposas eram mais ou menos pacíficas e mantinham outros animais selvagens longe (e não atacavam os galinheiros com a frequência de uma raposa normal… Só às vezes… Dazai era muito possessivo).

Atsushi tinha conhecido ambos quando criança, na sua forma gato, porque se perdera na floresta e desde aí se tornaram amigos.

Chuuya, dos dois, era o mais resmungão, mas também o mais gentil. O ruivo vivia a reclamar de tudo e de todos, puxava as orelhas de Atsushi como se fossem irmãos, mas sempre estava lá pelo felino quando era necessário. 

Atsushi adorava andar com as kitsunes, mas sabia que precisava ignorar  98% dos "conselhos" de Dazai. O moreno era divertido e realmente gostava de Atsushi, mas, nas palavras de Chuuya, ele era um idiota suicida que só tinha merda e pornografia (que era outro tipo de merda) na cabeça. 

Não que o grisalho achasse que saber quais cogumelos venenosos eram melhores para comer fosse de todo um ensinamento inválido (afinal, agora Atsushi sabia que cogumelos evitar), mas eram esses os tipos de conselhos que Dazai dava.

A casa dos dois era pequena e nada especial por fora, mas por dentro era um autêntico luxo. Chuuya vinha de uma família abastada e tinha nascido num berço de ouro. Não fazia as coisas por menos. O baixinho estava sentado no sofá quando eles entraram e sorriu ao ver o chocolate quente e Atsushi.

“Bem-vindo, Jinko. Vejo que foste arrastado pela Miséria para aqui”.

O grisalho sentou-se no sofá perto da lareira e sorriu.

“É, o Dazai convidou-me… Disse que havia chocolate quente”.

Chuuya sorriu de novo, sem mover-se do sofá.

"Se ele não colocou veneno, tem sim". 

Atsushi piscou, olhando para Dazai.

"Ele não faria isso… faria?".

O ruivo lhe piscou o olho.

"Cogumelos".

Ele ficou a olhar para o seu copo em dúvida, cheirando a ver se havia algo de estranho, mas não.

“Chuuuuuya~ Não podes garantir que não há nada no teu” , sorriu, encostando-se no ombro dele e o ruivo só o encarou de lado.

“Posso, porque se tivesse eu agradecia. É que morto pelo menos não tenho de aguentar contigo”.

“Tu gostas de aguentar comigo”, esfregou o nariz gelado na bochecha dele como sempre fazia na sua forma de raposa.

“Um dia faço um cachecol contigo, Múmia”, resmungou, sem veneno nas palavras, e Atsushi bebericou seu chocolate-quente.

"Mas mudando de assunto, por que estava chorando, Atsushi?", Dazai questionou, e Chuuya franziu o cenho.

"Estava chorando? Por que?".

“Eu-”.

“Alguém te magoou?”, o ruivo questionou, sentando-se mais direito, “Algum idiota tentou disparar contra ti?”.

“Não eu-”.

“Conseguiram apanhar-te?”.

Dazai tentou ajudar:

“Finalmente descobriste que o mundo é um lugar terrível e negro e a força da depressão despedaçou-te naquele momento?”.

“Múmia”.

“Que foi? Acontece comigo muitas vezes”, deu de ombros.

Atsushi suspirou e baixou o olhar.

“Não… Não foi isso”, bebericou seu doce, o olhar perdido, "Apenas… Ryuunosuke é um rapaz curioso…"

Houve silêncio por uns segundos (os mais velhos trocaram um olhar) e quando Atsushi os encarou ambos tinham um sorrisinho de raposa.

“Oh, já conheceste o Akutagawa, foi?”, Dazai disse num tom demasiado doce e demasiado simpático.

Tom esse também usado por Chuuya.

“Não me digas que ele te apanhou?”.

Atsushi balançou a cabeça.

"Não… Digo, mais ou menos.", suspirou, explicando a situação para o casal desde a armadilha até o encontro deles no festival. 

Chuuya bebeu o seu chocolate todo enquanto ouvia a novela e tanto ele como Dazai começaram a rir.

“Ah Atsushi! O Aku é assim mesmo. Ele diz o que pensa e não tem filtro”.

Dazai concordou.

“Ele acha que és uma pessoa terrível por deixares o teu gato em perigo por causa da chave.”.

"Mas eu sou o gato!", Atsushi retrucou, e as kitsunes riram.

"Mas ele não sabe disso. Ignore o Aku, ele é um bruto mesmo", Dazai disse.

O grisalho franziu de leve o sobrolho, pensativo.

“Não é. Ele é sempre meigo com o Jinko...”.

“Oh não. Chu, sabes o que isto é?”.

“Sei, Múmia”.

“Claro que sabes, sentiste isto por mim desde a primeira vez que me viste”.

Chuuya rosnou.

“Eu senti vontade de esganar você, Múmia idiota”.

“Pois não, mas nosso querido Atsushi está apaixonado!”.

O felino piscou, pendendo a cabeça para o lado direito.

"Apaixonado?", riu, "Isso é impossível, eu mal o conheço!".

Chuuya pousou o queixo sobre a mão.

“Certo, então qual é o problema? Se ele foi rude contigo só tens de te afastar”.

Atsushi voltou a piscar, logo soltando um suspiro.

"Eu queria conhecê-lo melhor… e na minha forma original".

"Mas por que?", Dazai questionou, e o ruivo o apoiou:

"Isso não faz sentido", Chuuya suspirou, "Mas o Aku não é uma má pessoa é só bruto…", explicou, movendo a mão direita em círculos pelo ar, "Um bruto ranzinza que gosta de trabalhar com coisas delicadas", concluiu.

Atsushi sorriu de leve.

"Por isso gostaria de conhecê-lo melhor… O trabalho dele é tão fantástico!", suspirou, "Ryuunosuke possui uma paciência encantadora e eu adoro vê-lo trabalhar enquanto me explica… bem, explica ao Jinko sobre o que ele está ajeitando ou a história do objeto trabalho", Atsushi dizia, os olhos brilhando de empolgação, "Kunikida também faz belos trabalhos com a caligrafia dele, mas o trabalho do Ryuunosuke… me envolve de uma forma que não sei explicar".

Dazai descaiu-se no sofá de forma dramática até ficar todo encostado no ruivo.

"Chuuya, é oficial, ele está perdido.".

Atsushi se encolheu como se fosse uma criança a fazer algo errado, e Chuuya apertou a orelha de Dazai até ele se afastar de si a reclamar.

"Não é assim tão mal. É a primeira vez que vejo o Atsushi interessado por alguém".

O felino balançou a cabeça.

"É só curiosidade pelo trabalho dele, já disse!", fez biquinho. 

“Eu também tenho curiosidade no trabalho do Chuuya. Especialmente quando ele se ajoelha e-”

O ruivo atirou-lhe com uma almofada, irritado.

“Calado!”, suspirou e voltou a encarar o mais jovem. “Olha, pelo trabalho ou não, isso não é problema nenhum. E pelo menos enquanto estás com ele ninguém te vai tentar apanhar e ao mesmo tempo não precisas de ficar fechado em casa”.

Atsushi concordou, a casa de Ryuunosuke era um lugar seguro. Para além dele, nunca tinha visto mais ninguém lá ou sequer nas proximidades… Ele vivia completamente isolado. 

“E assim fazes companhia ao Aku”, Dazai disse, voltando a encostar-se em Chuuya como raposa teimosa que era, já passando o braço pelo ombro dele (e o baixinho aconchegou-se ali), “A ver se ele fica menos mal-humorado”.

Suspirou.

"Mas ele me detesta… Disse que sou um idiota assassino…", se encolheu na poltrona.

Chuuya coçou o queixo:

“Põe-te no lugar dele. Ele acha que estás a condenar o teu gato a ter de andar fugido e a cair em armadilhas por negligência”.

Atsushi assentiu.

"Eu entendo a opinião dele, mas como posso me aproximar?".

Dazai espreguiçou-se, usando isso como desculpa para se deitar no colo do ruivinho.

“Isso é fácil. Leva alguma coisa para ele restaurar, ora.”, sorriu, vendo o jovem Atsushi pensar. Conseguia até ver uma fumaça a sair daquela cabecinha platinada, como se as engrenagens estivessem a funcionar com certa dificuldade.

“Oh… Acho que meu irmão possui alguma coisa para arrumar… O Ango vive lhe enviando presentes”.

“Pronto, tenta isso. Ele raramente recusa trabalho” , Chuuya disse, indo distraído acarinhar os grossos cabelos ondulados de Dazai, que já fechava os olhos e sorria como raposa satisfeita que era.

Atsushi também sorriu, agradecendo pelo chocolate-quente e se levantando.

“Muito obrigado por tudo, mas acho melhor voltar para casa”, disse, vendo Dazai já a pedir beijinhos para Chuuya, que lhe cobria a boca com a mão e respondia ao felino:

“Cuide-se. E ignore o mau-humor do Aku. Ele é assim com todo mundo”, garantiu.

Atsushi sorriu mais uma vez, desejando as boas-noites antes de sair para a noite fria e nublada em direção à sua casa.

🐱 

Na manhã seguinte, que pronunciava mais nevasca após uma noite fria, Atsushi percorreu a floresta com um grande embrulho nos braços. Tinha a boca seca por causa do frio, e as bochechas estavam vermelhas como carmim, deixando seu semblante ainda mais jovial e delicado. Estava ansioso para ver Ryuunosuke e, quem sabe, acabar com o mal-entendido entre eles.

Avistou a casa do artesão, e bateu na porta com o coração aos pulos.

Esperou alguns momentos até que um muito confuso Akutagawa apareceu à porta, pestanejando várias vezes como se ainda estivesse a processar porque raio ele estava ali.

“Eu venho em paz”, Atsushi apressou-se a dizer e levantou o embrulho, “Soube que fazes arranjos em esculturas e pinturas… S-Só queria saber se me poderias ajudar”.

O artesão voltou a piscar, vendo o rosto corado (e belo) de Atsushi. Ele possuía olhos tão vivos e brilhantes…

“Entre”, convidou, e Atsushi sorriu o sorriso mais belo e radiante que Ryuunosuke já havia visto.

“Obrigado!”, disse e entrou, fingindo não conhecer aquela casa como a palma de sua mão (excluindo o quarto do moreno), “É um artefato que pertence ao meu irmão, mas eu disse que podia trazê-lo até você, já que ele é muito ocupado…”, disse, sempre sorrindo.

O desconfiado Akutagawa não conseguiu evitar um pouco de curiosidade. Sabia que o noivo de Oda tinha de viajar imenso em trabalho e como tal enviava sempre as lembranças mais peculiares desde pequenos pratos de porcelana a miniaturas de lugares icónicos. Com o transporte era normal que se danificassem e por esse motivo Oda era um cliente frequente seu.

“Certo. Vou tentar ver o que posso fazer.” , disse, tossindo levemente ao sentir a sua voz falhar e acabou por suspirar, “Chá?”.

Atsushi sorriu, assentindo.

“Sim, por favor!”, disse e desembrulhou o que trazia: um belíssimo (e pesado) prato ornamental de cerâmica. Os detalhes eram em ouro e prata, e, no centro do prato, estava desenhado um símbolo que o artesão não reconhecia. Ao observar as partes que precisavam ser restauradas, Ryuunosuke não conseguiu evitar a curiosidade:

“Esse símbolo…?”. Atsushi se aproximou, parando ao lado do moreno (e podendo sentir seu perfume) e lhe apontou.

“É a junção dos emblemas da nossa família e da família de Ango. Será o emblema deles após o casamento”, explicou com delicadeza, demonstrando o carinho que sentia por Oda e o noivo.

Akutagawa assentiu.

“Entendo. Vou tentar colar as partes que desprenderam e retocar as cores”, encarou o grisalho, “Deve demorar algum tempo, é um trabalho delicado e tenho outras coisas para fazer antes”.

“Leve o tempo que precisar”, Atsushi disse, sorrindo docemente para o artesão (que retribuiu o olhar e percebeu o quão próximo o outro estava), “Não temos pressa”.

O salto que o coração de Akutagawa deu foi o suficiente para o fazer afastar e tossir levemente. Não. Não ia cair naquilo como o resto dos idiotas da aldeia. Oh não.

“Certo. Quando estiver pronto eu entrego”, murmurou e aproveitou a deixa para ir buscar o chá.

Atsushi sorriu (ele estava a ser gentil consigo!) e se deu ao luxo de se sentar no banco destinado a Jinko. Ficou ali a observar os trabalhos de Ryuunosuke, aguardando-o.

Ele voltou com um tabuleiro, tudo muito direito e organizado com uma chávena de chá e algumas bolachas. Pestanejou ao vê-lo no banco que Jinko usava, lembrando-se do gato na hora.

“A poltrona é mais confortável”, murmurou em sugestão  (lembrando Atsushi da maneira como Poe costumava falar) e foi pousar as coisas na pequena mesa no outro lado da sala.

Atsushi saltou elegantemente do banco, e sorriu.

“Desculpe, gosto do seu trabalho…”.

Akutagawa voltou a pestanejar confuso e murmurou um agradecimento.

Ao contrário do que acontecia quando era Jinko ali, ele não começou a falar das peças que compunha ou a reclamar de como o seu pote de tinta preta acabava rápido demais. Na verdade, aquele Ryuunosuke parecia calado demais, polido demais por educação. Era estranho para Atsushi.

Suspirou e bebericou o seu chá (perfeito) antes de encarar o moreno.

“Sobre o que se passou na feira…”

Akutagawa abanou com a cabeça e o seu tom defensivo de antes voltou:

“Eu não vou pedir desculpas por ser sincero. Então é melhor concordarmos em discordar e não falar no assunto a menos que queiras discutir comigo. O Jinko não merece ser tratado assim por egoísmo e nada me vai fazer mudar de ideias sobre isso.”.

Atsushi balançou a cabeça também, colocando a xícara de chá sobre a mesa.

“Eu queria me desculpar por ter saído daquela forma. Você não precisa concordar com meus projetos, e eu não precisava ter agido como agi”, disse, pegando o artesão desprevenido. Ryuunosuke o encarou, e Atsushi prosseguiu, “E obrigado por cuidar de Jinko e deixá-lo ficar aqui com você. Ele adora vê-lo trabalhar”, sorriu, “Ele adora você ”.

O moreno pestanejou, um pouco acanhado.

“Está na natureza dos gatos rondam aqueles que lhes dão comida. Não lhe faço mais nada. Mas aflige-me que ele atravesse a floresta todos os dias só para vir para aqui. Está cheia de armadilhas.”, disse, “Nem o Da- Nem as raposas têm andado por aí.”.

Atsushi riu.

"Ele não vem pela comida, acredite. E Jinko conhece a floresta muito bem. Ele caiu naquela armadilha porque não a enxergou no escuro".

Akutagawa cruzou os braços.

“Um gato que não vê no escuro? E tu deixas que ele sequer saia de casa? É um gato mimado de colo!”. 

O rapaz piscou.

"Claro que eu-- que ele enxerga no escuro! Mas ele estava a fugir naquela tempestade e--", suspirou, balançando a cabeça, "Podemos mudar de assunto? Aprecio sua companhia e não gostaria que discutíssemos…".

O moreno continuava na defensiva e um tanto desconfiado. Ninguém ia falar consigo só porque sim. 

“Não prometo que não roube o Jinko para mim um dia”, murmurou mas acabou por suspirar e bebericar o seu chá antes que tivesse outro ataque de tosse, “E já se sabe quando é que o Oda casa?”.

Atsushi não se comportaria que o artesão roubasse Jinko… se ele soubesse que Jinko, na verdade, era ele mesmo…

"Ango volta no final da estação. Devem se casar na primavera", sorriu, voltando a beber seu chá.

“Faz algum sentido”, concordou, “É sempre mais bonito quando as cerejeiras estão em flor. O Oda fala sempre com muito carinho sobre ele, espero que sejam muito felizes”.

Sorriu, assentindo.

"Também espero. Bem, os dois são muito felizes já agora, mas desejo ainda maia felicidade a eles", disse, "Oda sempre cuidou muito bem de todos nós".

“Ele é muito simpático”, Akutagawa disse e sorriu levemente, “Mas é meu cliente habitual então posso estar a não ser imparcial”.

Atsushi riu.

"Ele é. Dois quatro, Oda é o mais quieto e gentil… sempre cuidou de todos nós, principalmente de mim, que sou o caçula", sorriu, "Por que não janta conosco? Assim pode tornar sua opinião mais íntima".

"Obrigado, mas vou ter de recusar.", abanou com a cabeça, "Não gosto muito de sair de casa, além disso já tenho o jantar praticamente feito é só aquecer".

Tentou não levar para o lado pessoal… Tentou.

"Oh, entendo… Caso uma noite esteja livre e com vontade de sair de casa… sabe onde moramos…".

Akutagawa assentiu, mas parecia óbvio para Atsushi que ele nunca parceria. Não era suposto isso incomodar tanto… Ficou um silêncio estranho por uns momentos mas foi o próprio Akutagawa quem o quebrou quando se levantou:

“Tenho algo para te oferecer”, foi até uma das gavetas e trouxe uma caixinha pequenina, que mais parecia de anel e deu-a ao grisalho.

Atsushi corou.

“Para mim?”.

O moreno coçou a nuca.

“Não exactamente. Na verdade é para o Jinko mas eu não lha queria colocar sem pedir autorização”. Curioso, ele abriu a caixinha e viu uma pequena medalha dourada onde estava gravado com uma caligrafia bonita ‘ Jinko ’. Ficou quieto por uns segundos e Akutagawa tossiu, “Eu sei que é idiota mas é para substituir a chave, um dia”.

Atsushi segurou a medalha e, sem conseguir se conter, beijou a bochecha de Akutagawa.

"Obrigado, Ryuunosuke. Ele vai adorar".

O pobre artesão não conseguiu conter a velocidade a que as suas bochechas ficaram vermelhas nem como o seu coração deu um pulo desmedido .Completamente perdido, foi só a tempo de tentar esconder o rosto com a mão ao tossir.

“D-De nada…”.

O felino sorriu, guardando a medalha com carinho.

"Vou deixá-lo trabalhar. Talvez Jinko venha lhe ver logo".

Akutagawa suspirou.

“Espero que não. Dizem que a próxima nevasca vai ser pior que a da noite passada... Não quero que lhe aconteça nada”.

O coração de Atsushi se aqueceu, e ele corou, não evitando sorrir.

"Ele é meio teimoso, você sabe…", sugeriu, mas o artesão o interrompeu:

"Impeça-o. Ele pode vir me visitar quando a nevasca parar", pediu, e Atsushi assentiu.

"Então ele vem amanhã", disse, ajeitando o capuz de sua capa.

“É o melhor.”, murmurou e acompanhou o grisalho à porta, que lhe sorriu.

“Obrigado pelo chá, Ryuunosuke”.

“De nada…”.

O sorriso de Atsushi aumentou e foi difícil para Akutagawa não encarar aqueles olhos tão bonitos… Depois de acenar, o grisalho meio que saltitou pelas escadas e desapareceu pela floresta, deixando o moreno a suspirar pelos cantos como um condenado.

Não, não estava encantado pelo famoso e belo Atsushi…

Claro que não…

Ou estava?

🐱

Jinko estava já no seu banco costumeiro quando Akutagawa suspirou novamente e cruzou os braços na mesa, deitando a cabeça sobre eles. A neve lá fora, tão intensa naquela manhã, dava-lhe uma preguiça de todo o tamanho.

O gato miou para chamar a atenção e o rapaz virou a cabeça na sua direção.

“Sabes...a minha vida era muito melhor se eu fosse um gato”. Jinko se esfregou nele, recebendo carinho atrás das orelhas, "Vê esse prato? É do Oda e do noivo. Seu dono veio me trazer ontem", mostrou, "Sabe? Ele… é mais gentil do que eu imaginava. Mas ainda não aceito essa ideia idiota de fazer você correr feito doido com uma chave no pescoço".

O gato voltou a miar e o moreno suspirou.

“Esse prato vem do Oriente e tem vários símbolos. União, eternidade, amor, esse tipo de coisa”, foi apontado para os diferentes desenhos, “Eu acho isso meio clichê na verdade. O Chuuya diz que eu dramatizo demais mas não tenho culpa. Eu não entendo como é que alguém pode entregar o seu coração a outra pessoa fará fazê-lo a um estranho aleatório que trás uma chave pendurada num gato!”.

Jinko pestanejou e esfregou-se na barriga dele, já ronronando alto.

“Acho que o teu dono ia ter mais sorte se pendurasse a chave no pescoço do Chuuya. Ele é bem exigente. Acho. Talvez fosse ajudá-lo a arranjar um noivo qualificado”.

Suspirou e voltou a pousar a cabeça sobre os braços, olhando pela janela. A neve caía de forma quase assustadora.

“O teu dono parece-me uma pessoa simples mas quase todos os homens da aldeia andam atrás dele… bem, atrás de ti pela chave. Acho que com a popularidade dele, ele se daria bem o filho do presidente ou com o novo chefe da polícia. Pelo menos nunca lhe faltaria nada.”

Jinko baixou as orelhas na defensiva e mordiscou-lhe a mão, o que fez Akutagawa sorrir.

“Que foi? Essas famílias ricas têm sempre aqueles gatos de pêlo longo. Ainda arranjas uma namorada persa com pedigree.”.

Jinko miou, irritado, e mordeu a mecha de Akutagawa antes de sair do colo dele.

Atsushi não queria se casar com um homem rico! Queria se casar com alguém que ele amasse!

Akutagawa piscou, não entendendo a reação do gato.

"Jinko?". O felino sibilou, tentando a todo custo retirar a chave de seu pescoço. Ajoelhou-se ao lado dele, um pouco aflito, “Jinko!” , achou que a coleira estava a magoá-lo ou a apertar e tentou segurá-lo, “Deixa-me ajudar, espera!”, retirou a coleira com a chave, e o gato miou alto.

Akutagawa piscou, e Jinko saiu correndo dali.

Que Akutagawa ficasse com a chave!

O moreno chegou a chamar por ele de novo, agora mais preocupado, e saiu a correr atrás dele sem sequer pegar na capa ao ir para a neve.

Jinko se aproveitou de sua cor alva e de seu pequeno tamanho para se esconder, ouvindo Akutagawa chamar por si:

"Jinko! Jinko!"

Encolheu-se mais ainda, tentando ignorar como a neve lhe incomodava nas patas e ficou ali durante a quase meia hora que Akutagawa procurou desesperado por si, até a neve aumentar e ele ser obrigado a ir para casa.

Entretanto, o artesão logo voltou a sair para a floresta, agora com um pesado casaco negro para protegê-lo. Tinha o rosto corado pelo frio, e um cachecol branco e macio envolvia seu pescoço. 

Voltou a chamar pelo felino, e Jinko, ao perceber como Akutagawa estava a se sacrificar por si, se aproximou dele.

"Aí está você!", disse, a voz falhando por causa da tosse. Akutagawa abraçou Jinko, envolvendo-o com seu casaco, e voltou para casa. Ele teve uma crise forte de tosse ao fechar a porta, e Jinko miou, preocupado, "Não me assuste assim, Jinko..".

Ele continuou a miar alto e o rapaz atravessou a sala a passos largos para se sentar no chão em frente à lareira para se aquecer. Pousou o gato ao seu lado, ainda embrulhado no casaco, e dobrou-se sobre si próprio ainda a tossir. Os seus pulmões, muito frágeis, não aguentavam o frio e era doloroso.

O gato desenvencilhou-se do casaco para se aproximar dele, mais preocupado ainda quando notou que tinha um pouco de sangue na mão e nos lábios de Akutagawa.

Jinko miou desesperado e saiu a correr pela casa.

"J-Jinko…", o artesão voltou a chamar, a visão fraca, mas no instante seguinte, Atsushi entrava pela porta de sua casa, aflito:

"Ryuunosuke? O que houve?!".

O moreno assustou-se por vê-lo ali e levantou-se, tentando disfarçar a sua respiração chiada.

"O Jinko fugiu para a floresta", murmurou, a voz fraca. Ele sequer notou as roupas bagunçadas de Atsushi.

Atsushi balançou a cabeça e se aproximou dele.

"Ele foi me chamar… eu estava fugindo da nevasca e ele me achou…", lhe segurou a mão suja de sangue, "Oh, o que houve? Você está bem?", questionou, acariciando o rosto gelado do artesão. 

O rubor nas suas bochechas apareceu de imediato e Akutagawa precisou de desviar o rosto para tossir.

"Sim.", murmurou, "É só do frio.". Olhou para Atsushi de soslaio, "O que faz aqui?", o rapaz piscou, corando de leve.

"V-vim visitá-lo, mas a nevasca me pegou desprevenido… Quando Jinko me achou, vim correndo ver se você estava bem e… bem, a porta estava destrancada…".

O moreno suspirou.

"Está tudo bem. A coleira devia estar apertada demais e o Jinko parecia aflito. Tirou-a e fugiu. Deve ter achado que o ia tentar apanhar”. Afastou-se um pouco para ir buscar um lenço, "Ele parecia assustado e está tanto frio lá fora…".

Atsushi preferiu não revelar o real motivo para Jinko/ele próprio tirar a chave.

Desejava que fosse Akutagawa a entregá-la a si.

"Ele está bem… voltou para casa…", mentiu, "Estou preocupado com você…".

Pestanejou e abanou com a cabeça.

"Eu estou bem, é só do frio. Os meus pulmões são sensíveis.", repetiu, outra crise de tosse o forçando a cobrir a boca com a mão. 

Atsushi logo o socorreu: retirou a sua capa pesada e colocou sobre os ombros de Akutagawa (que tentou, em vão, dizer que não era necessário), acomodando o moreno no sofá. Em seguida, jogou mais lenha na lareira, aumentando o fogo, e se ajoelhou na frente do artesão.

"Ryuunosuke, posso usar sua cozinha?".

Akutagawa tossiu outra vez, se encolhendo no casaco quente (e cheiroso) de Atsushi.

Pode…?", disse, com a boca ainda na mão. Atsushi lhe lançou um pequeno sorriso antes de ajeitar as almofadas do sofá e convencer Akutagawa a se deitar ali. 

A muito custo, o artesão obedeceu (talvez fosse o olhar gentil ou a voz suave de Atsushi que o desarmara), e Atsushi o cobriu com a manta que ficava por ali (e onde Jinko adorava afiar as unhas).

O artesão fechou os olhos, o peito dolorido, e acabou por adormecer.

🐱

Havia se passado algum tempo quando um aroma agradável despertou Akutagawa. O artesão esfregou os olhos, estranhando um pouco onde estava. 

Ah, sim… Atsushi…

Sentou-se no sofá, olhando ao redor, e foi com curiosidade que percebeu o outro rapaz a cozinhar.

Atsushi vestia seu avental, e cantarolava alguma coisa enquanto mexia nas panelas. Akutagawa se ergueu, e Atsushi olhou sobre o ombro ao ouvi-lo se aproximar.

"Ryuu! Acordou?".

O moreno corou na hora, atrapalhando-se por causa do tom amigável.

"A-Acho que sim. A menos que seja sonâmbulo.".

Atsushi riu.

"Bem na hora!", disse, desligando o fogo e se voltando para Akutagawa, "Preparei uma sopa de legumes… e um chá de ervas. Você vai se sentir melhor depois de comer", sorriu, retirando o avental, "Desculpe, você não tinha muitos ingredientes, mas consegui deixar o caldo espesso".

Ele voltou a pestanejar,.

"Oh… Não precisavas de ter esse trabalho todo por minha causa."

Sorriu.

Ah, aquele lindo e gentil sorriso… o coração de Akutagawa vacilava sempre que o via sorrir…

"Você cuida de Jinko e o trata com tanto carinho… é o mínimo que posso fazer", o artesão abriu a boca, mas Atsushi prosseguiu: "Além de conseguir tirar a chave de Jinko".

O moreno suspirou.

"Se já sabe, por que insiste nessa ideia de chave?", murmurou, tirando a chave de seu bolso e entregando-a a Atsushi, "Ninguém pode obrigar o outro a se apaixonar. Mesmo que uma boa pessoa acabe entregando a chave, o que faz você pensar que você a amará?". 

Atsushi piscou, olhando para a chave.

Não era assim que desejava tê-la de volta por Akutagawa…

Segurou a chave, acabando por segurar a mão do artesão.

"Eu… Você tem razão, Ryuu…", o encarou, "Não haverá mais chave.".

Akutagawa pestanejou (tentando ignorar a mão quente e macia do grisalho).

"Não? Mesmo?" 

"Mesmo.", sorriu nervoso, "Acabaste de me dar a chave…"

O artesão voltou a piscar, encarando os belos olhos de Atsushi. Então, percebeu o que acontecia, e balançou a cabeça, afastando a mão.

“N-não! Não é assim que as coisas são!”, disse, tossindo de novo, “Atsushi, você não pode se entregar a qualquer um que lhe entregue uma chave! Isso é ridículo!”.

Atsushi baixou o olhar, “Mas não é qualquer um… é você ”.

"Eu sou qualquer um!", disse, "Tu não me conheces!", começou a mexer com os braços enquanto barafustava frustrado, "Eu posso ser psicopata ou assassino em série", o artesão disse alto demais, e Atsushi se encolheu.

Era idiota de achar que Akutagawa pudesse gostar de si. E não podia contar a ele que o conhecia bem. Afinal, ele era Jinko…

“Eu…”, o rapaz assentiu, limpando os olhos, “Entendo, me perdoe pela confusão”, murmurou, sorrindo de leve, “A sopa está pronta, por favor, tome o chá assim que puder, ele lhe fará bem…”, disse e pegou sua capa de sobre o sofá, “Desculpe incomodar… e adeus…”.

Akutagawa deu um estalido com a língua. Por que ele sempre fugia?

"Espera.", segurou-lhe no pulso, "Eu não te queria fazer chorar. De novo."

Atsushi balançou a cabeça.

“Oh, não é nada…”, se afastou, “Eu preciso mesmo ir… Não queria incomodá-lo…”

Akutagawa mordeu de leve o lábio e encolheu-se.

"Certo... Desculpa...".

O outro rapaz lhe lançou um sorriso triste, deixando a casa de Akutagawa sem se preocupar com a neve lá fora.

Nem esperou a porta fechar para chorar.

🐱 

Jinko não voltou mais a visitar Akutagawa.

O artesão dizia a si mesmo que era porque o gato não precisava mais fugir dos aldeões com a chave no pescoço, mas ele não conseguia evitar ficar triste com a ausência de seu amigo.

E de Atsushi…

O rapaz também não apareceu mais, e quando a encomenda dele ficou pronta, quem buscou foi Kunikida, o mais esquentadinho dos irmãos. Akutagawa chegou a perguntar sobre Atsushi, mas o loiro apenas lhe questionou o motivo da curiosidade, sendo que ele havia dado “um fora” no seu irmão, e o artesão se calou.

As semanas se passaram com uma sensação de solidão, e quando Akutagawa precisou fazer as compras do mês, seguiu sem muita vontade para a aldeia.

Aos poucos o inverno tinha dado lugar a uma primavera fria que deixava toda a gente ainda com pouca vontade de sair de casa. O mercado de vegetais estava muito pouco concorrido quando Akutagawa chegou lá. Detestava multidões e mesmo que a solidão lhe estivesse a incomodar no momento, ele nunca se tinha importado de estar sozinho.  Ainda encolhido na sua capa negra o rapaz foi procurar pelos vegetais frescos que precisava e ao virar a esquina uma figura afastada na rua chamou-lhe a atenção.

Reconheceu Atsushi (os belos olhos cor de amanhecer não saíram de sua cabeça todo aquele tempo), que tentava se desvencilhar de alguns homens que tentavam falar consigo.

"Ouvi dizer que não tem mais essa porcaria de chave... então, quer sair comigo?"

O grisalho sorriu nervoso.

"N-Não, eu--".

O homem ignorou e pousou a mão no braço dele.

"Vem comigo. Podemos nos divertir tanto...", puxou-o para mais perto e Atsushi tentou afastar sem muito sucesso. O homem só parou quando viu uma luz avermelhada e uma pantera negra de olhos carmim lhe rosnou alto, ecoando pelas paredes da rua.

Ainda com a mão na cintura de Atsushi, o homem estremeceu, acuado.

"Q-que porcaria é essa?!"

A pantera voltou a rosnar alto, deixando as suas presas visíveis de forma ameaçadora e começou a aproximar-se.

Atsushi aproveitou que o homem estava distraído e o empurrou, conseguindo se soltar, e saiu correndo.

A pantera saltou para o assustar, deixando o homem aos gritos nada másculos que saiu na direção oposta de Atsushi

Atsushi ainda corria, assustado.

Mas, diferente do que pudessem imaginar, ele tinha medo do homem que o assediara, não da enorme e raivosa pantera que aparecera.

Afinal, embora a fera rosnasse, Atsushi não sentiu maldade nela.

Quando ficou sem fôlego, dobrou a esquina e parou para recuperar a respiração. Ao espreitar, ainda de coração aos saltos, viu a pantera aproximar-se, calmamente, de orelhas baixas.

Atsushi piscou, ainda tentando acalmar seu coração, e sorriu.

"Obrigado por me salvar...", sorriu, "Essas coisas tem piorado com o passar dos dias..."

A pantera... Miou. Um miado pequeno, baixo e rouco que mais a fazia parecer um gatinho do que um predador felino enorme. Piscou os olhos lentamente num 'de nada' silencioso.

Atsushi voltou a sorrir, suspirando em seguida.

"Eu devia ter ficado em casa... Não posso mais vir à aldeia sozinho..."

A pantera fez um gesto com a cabeça para ele o seguir. Ia levar Atsushi até casa em segurança.

O rapaz piscou, olhando ao redor antes de voltar a prestar atenção ao felino.

Ajeitou a capa e sorriu, aproximando-se da pantera sem medo algum.

“Você é muito gentil...", disse, "Me lembra tanto uma pessoa..."

A pantera pestanejou também e não resistiu em se esfregar nas pernas dele como um gato mimado enquanto caminhava

Apesar de quase perder o equilíbrio, Atsushi riu, coçando atrás das orelhas da pantera com carinho.

"Você é novo por aqui? Nunca vi uma pantera tão linda como você..."

A pantera ronronou de novo, baixo e num timbre rouco. Era como se estivesse esquecido de como se ronronava.  Ao subirem a colina que dava acesso à casa, a pantera parou subitamente ao ver entre os arbustos um enorme e imponente lobo branco.

Atsushi sorriu, se abaixando para beijar o topo da cabeça da pantera.

"Obrigado por me proteger.", e correu até o lobo

O lobo ficou a encarar a pantera com os seus olhos muito azuis e havia um entendimento silencioso entre ambos. Atsushi acenou para a pantera uma última vez, e saiu para casa acompanhado do enorme canino.

🐱

Na manhã seguinte, Akutagawa assustou-se ao ouvir Jinko raspar na sua janela

Sorriu de leve, abrindo a janela para o felino, e Jinko pulou no seu colo.

Abraçou o gato como se fosse um peluche.

"Por onde andavas Bola de Pêlo? Tive saudades tuas."

Jinko ronronou, mimado, e miou baixo.

O artesão voltou a sorrir, deixando o gato se esfregar no seu rosto.

"Como está Atsushi? Tem cuidado dele?". Ele miou em afirmação e Akutagawa suspirou e olhou para a sua mesa onde tinha várias figuras em barro que ele estava a fazer, "Ainda bem..."

O tom deixou o gato curioso que seguiu o olhar dele e pestanejou ao ver as pequenas figuras. Reconhecia algumas: duas raposas, uma mais pequena que outra,  a velhinha que vendia fruta no mercado, o seu irmão e Ango e-

"Oh fiz uma miniatura tua.", disse e pegou num gato branco riscado, "Mas ficou desproporcional, mais parece um tigre."

Quando voltou a pousar, deixou o gato de barro ao lado de um bonequinho de cabelo branco, bochechas rosadas, capa azul onde só faltavam os olhos serem pintados

Jinko ignorou o bonequinho do gato e focou no outro, que, claramente, era uma miniatura de sua forma humana.

Piscou, usando a patinha para tentar pegar a peça.

Akutagawa não permitiu, a voz suave.

"Hey! Cuidado. Ainda não a acabei. Não consigo pintar os olhos.", suspirou, "Nunca ficam tão bonitos como os dele.". O gato miou, encarando Akutagawa. O rapaz suspirou e acariciou os pêlos macios, "Já tentei reproduzir o olhar dele... mas tal beleza é impossível... Nunca consigo acertar o tom de amanhecer ou a amabilidade daqueles olhos...".

Jinko voltou a miar e o moreno sorriu de lado.

"Ele ia odiar isso, provavelmente. Mas ele não tem de saber.", deu de ombros, "Queria fazer umas miniaturas para o bolo de casamento do Oda, um presente. É meio idiota, acho..."

Jinko se sentou, observando os bonequinhos.

Akutagawa sorriu e em seguida, suspirou.

"Ele deve me odiar, não é mesmo? O fiz chorar duas vezes...". O gato deu um miado alto e Akutagawa pousou o queixo numa mão, olhando para a outra, "No outro dia um homem chato estava a incomodá-lo.", abriu e fechou a mão várias vezes, "E eu perdi o controlo. Faz muito tempo que isso não acontecia…".

Jinko o encarou, miando.

Então Akutagawa era aquela bela pantera que o protegera?

Akutagawa suspirou mais uma vez e fez carinho no gato, achando que ele miava por atenção.

"A Gin tinha razão, eu não devia ter ficado nesta aldeia...Acho que está na altura de me mudar". Jinko miou alto, e Akutagawa suspirou, "Será melhor para todos...".

O gato se ergueu nas patas traseiras, se agarrando nos braços do artesão, que sorriu tristemente.  Então, uma aura azulada envolveu Jinko, e logo Atsushi se agarrava ao pescoço de Akutagawa.

"Ryuu, não se vá!".

Podia-se dizer que o cérebro do artesão bloqueou. A confusão com a luz azul e o súbito peso a mais no seu colo... E aquela voz…

"Atsushi?!", segurou por instinto nele, as suas mãos geladas em pele macia e quente.

Atsushi escondeu o rosto no pescoço dele, a voz embargada.

"Por favor, não vá embora!"

Ainda muito atrapalhado, Akutagawa apertou-o.

"Como-?".

O rapaz lhe deu um beijo na bochecha, os lábios macios.

"Jinko sou eu... sou um transmorfo como você, Ryuu...:

Akutagawa afastou-se um pouco só para o poder encarar, ainda não querendo acreditar no que via.

"... Este tempo todo? Como pudeste esconder uma coisa dessas?!".

Atsushi corou de leve, desviando o olhar.

"Você sabe que somos caçados... Não podemos revelar nossa identidade a qualquer um e... Você gosta de Jinko, mas não de mim..."

O moreno corou também e apertou a cintura dele por instinto.

"M-Mas tu ouviste tudo!".

Havia agora um embaraço palpável e todas as coisas embaraçosas que se lembrava de ter dito voltavam para a sua memória mais rápido do que ele desejava.

Atsushi voltou a encará-lo, os olhos claros demonstrando todo o carinho que sentia por Akutagawa.

“Por favor, me perdoe… Mas eu não queria ficar longe de você, Ryuu”, se aproximou dele, “Eu amo você, Ryuu…”, disse e o beijou.

O artesão bloqueou de novo mas não conseguiu resistir em retribuir o carinho, um pouco atrapalhado e incerto. Só piorou quando ao deslizar a mão pela lateral do corpo do grisalho se apercebeu que ele estava despido. Aflito, apartou do beijo e rapidamente pegou a sua capa para pousar sobre os ombros do grisalho.

Atsushi sorriu, cobrindo-se e voltando a abraçar Akutagawa, não o querendo longe de si.

“Eu amo você, Ryuu… mesmo que não me ame, por favor, fique e seja meu amigo…”

O moreno suspirou e esfregou o nariz no pescoço dele.

"És mesmo idiota, Jinko".

Atsushi piscou, corando de leve.

“R-Ryuu?”, chamou, e Akutagawa o puxou para um outro beijo, apaixonado e sincero. De novo, o seu coração batia tão rápido que mais parecia que ia sair do peito e Akutagawa já meio que se resignava a que Atsushi provocasse isso em si.

O outro sorriu, sentindo-se a derreter, e voltou a abraçá-lo pelo pescoço, querendo ficar mais perto dele. Akutagawa suspirou, abraçando Atsushi e o retirando de cima de sua mesa, trazendo-o para seu colo.

“Eu também amo você, Jinko…”.

"O meu nome não é Jinko", Atsushi murmurou antes de morder o lábio dele e Akutagawa sorriu de lado.

"Vai ser difícil de trocar agora".

O grisalho fez um biquinho.

"Como se chama a pantera?".

"Nem ideia do que estás a falar~".

Não usava muitas vezes a sua forma de pantera, uma vez que era um animal demasiado grande e pouco discreto que ele não controlava ainda bem. A não ser as raposas e a sua irmã Gin, mais ninguém sabia disso.

Atsushi o mordeu de novo, fazendo o artesão suspirar, e Akutagawa revelou:

“Rashoumon…”.

O gato sorriu, beijando o moreno.

“Rashoumon… eu amo você, Rashoumon…”.

O moreno fez-lhe cócegas e sorriu.

"Isso é mais estranho e tu nem sabias que eu era uma pantera”.

“Mas gosto desse nome… e gosto de você…”.

O moreno sorriu levemente, encostando sua testa na de Atsushi.

"Não quero que me trates diferente".

Atsushi sorriu também, acariciando a bochecha de Akutagawa.

“Certo, Ryuu…”

O moreno apertou o abraço e beijou-o de novo, incapaz de se manter longe dele. Tinha sentindo tanto a sua falta…

Pegou na mão de Atsushi  e pousou-a no seu peito, onde o seu coração ainda batia desenfreado

E Atsushi o entendeu. Sorrindo docemente, o rapaz o beijou, se entregando a ele.

🐱 

O lobo branco estava sentado em frente à porta de entrada quando Ranpo se aproximou.

"O Atsushi não deve dormir em casa hoje. Ele disse que ia visitar o ~amigo ~ dele.", esticou uma bolacha ao lobo, "Queres?"

O lobo aceitou a bolacha, mordiscando-a quase com elegância para não morder os dedos do rapaz  e Ranpo voltou a sorrir.

"Acha que ele finalmente vai se confessar ao artesão?". Teve um aceno de cabeça em resposta e  deu um suspiro dramático, "Falta só o Kunikida deixar de ser solteirão e-".

O lobo encarou-o e tocou-lhe com a ponta do focinho na mão. Ranpo sorriu.

"Bem, só ele acha que ninguém reparou que ele é apaixonado pelo amigo de infância, mas--", foi interrompido por um rosnado baixo que o fez rir, "Certo, pai, eu fico quieto".

O lobo esfregou o focinho na mão dele de novo e logo ouviu um bater de asas. Um corvo aproximou-se com algo brilhante no bico e Ranpo esticou o braço para ele pousar, "Edgar!”. 

O corvo pousou no seu braço, majestoso, e Edgar esfregou o bico na bochecha de Ranpo.

“Olá! Vai me fazer bolo?". Ele deu um grasnado e Ranpo sorriu, rodando nos calcanhares e voltando para dentro de casa.

Fukuzawa ficou ali mais um tempo, mas ao perceber que seu filho mais novo não dormiria em casa naquela noite, seguiu Ranpo e Edgar. Pelo menos tinha a certeza de que ele estava seguro.

🐱 

Atsushi acordou com um cafuné bem lento e já estava a sorrir ainda bem antes de sequer abrir os olhos. Todo mimado, sentia-se quentinho e sabia estar aconchegado no peito de Akutagawa naquela agradável manhã de primavera..

O moreno beijou-lhe a testa e ele sorriu.

"Bom dia, Ryuu~".

A mão do moreno deslizou pelas suas costas desnudas e ouviu-o murmurar:

"Bom dia, Jinko..."

"Meu nome não é Jinko", fez biquinho, e o moreno riu.

"Bom dia, Atsushi.”.

Ele voltou a sorrir.

"Bem melhor."

"És mimado igual ao Jinko. Agora entendo o teu desespero por cafuné".

"Não é desespero", reclamou.

"Aham, sei"

O rapaz aumentou o biquinho, esfregando de leve  bochecha no peito dele.

"Você não recusava carinho ao Jinko! Nem sabia que era tão implicativo".

Akutagawa apertou o abraço para o aproximar.

"Não se recusa carinho a um gato."

Num falso amuo, a luz azulada envolveu Atsushi e logo o transformou na sua forma felina, ainda de orelhas para baixo como se estivesse chateado.

Akutagawa deu uma risada pela indignação alheia e abraçou o gato.

"Não acredito que tens ciúmes de ti próprio". O gato miou, ronronando bem alto ao ser acariciado, e Akutagawa lhe beijou o focinho, "Volta, não posso me casar com um gato...". O gato pestanejou e começou a histérico, entre ronronados igualmente altos, e Akutagawa riu de novo, "Não te consigo entender.".

Atsushi voltou ao normal de imediato e já se foi deitar no peito dele, pousando os braços como se fosse uma esfinge. Os seus olhos, cada vez mais bonitos pareciam brilhar:

"Casar?!"

Akutagawa tirou-lhe os cabelos da frente do rosto carinhosamente, sempre perdido naquele olhar.

"Eu devolvi a chave. Em teoria… E apanhei o Jinko várias vezes, como agora mesmo, por exemplo".

Atsushi sorriu, ainda incrédulo.

"Mas você disse--".

"Eu sei... mas eu não quero mais ficar sem você, Atsushi".

O tom sério e firme do artesão faz o grisalho corar mas sorriu feito idiota e abraçou-o pelo pescoço.

"Mesmo?"

O beijou no topo da cabeça.

"Se você ainda quiser se casar comigo...".

Ele assentiu, murmurando emocionado:

"Sim… Sim, eu quero...".

“Mesmo que haja a probabilidade de eu ser um assassino em série?”

Rolou os olhos em resposta e beijou Akutagawa com carinho, fazendo-o sorrir. O beijo inocente e emocional depressa escalou para algo mais, de novo, e o moreno dobrou as suas pernas para acomodar Atsushi entre elas, deixando que ele o fizesse suspirar e ficar sem ar pelos melhores motivos.

🐱

Quando finalmente conseguiram sair da cama foram ao almoço, decidindo que no final ambos teriam de falar com Fukuzawa já que a sua bênção era importante para Atsushi. Akutagawa concordou mas não conseguia evitar o nervosismo rídiculo que a situação lhe causava. 

Tecnicamente ele já tinha entregue Jinko/Atsushi a Fukuzawa uma vez, mas isso era diferente de ir lá avisar o sempre tão sério senhor que tencionava ‘roubar’ o filho dele permanentemente. 

Era isso e o facto de que Fukuzawa era um gigante lobo capaz de o comer inteiro se assim desejasse. E também que Akutagawa era um gigante felino. Felinos e caninos estavam destinados a um desentendimento perpétuo.

“Estás a pensar demais”, Atsushi disse enquanto subiam os últimos metros da colina para chegar a sua casa.

“Não estou”, tossiu levemente.

Akutagawa estava receoso igual por mais que Atsushi lhe garantisse que não havia problema

Ao entrar na casa, foi recebido por um corvo, uma águia, o lobo branco e uma capivara enorme além de Ranpo, que sorria:

"Olá, pantera!".

Akutagawa acenou com a cabeça, um tanto tímido.

 “Bom dia”.

Viu os transmorfos o observar por um minuto inteiro (que pareceu uma eternidade), e engoliu em seco. Aos poucos, cada um foi voltando ao normal, usando yukatas de tecido fino: a águia, Kunikida, usava uma azul marinho; a capivara, Oda, uma vermelha como seus cabelos; e, por fim, o enorme lobo, Fukuzawa, vestia uma yukata esverdeada. 

Oda sorriu de leve, Kunikida ajeitou os óculos no rosto e Fukuzawa cruzou os braços, mas acenou:

"Bem-vindo ao nosso lar".

“Obrigado”, disse, tossindo para clarear a voz. Tinha de perder o hábito de murmurar.

Kunikida olhou fixamente para o corvo ainda pousado no braço de Ranpo (a esfregar-se na bochecha dele todo mimado) e assim que percebeu a atenção do loiro em si, emplumou-se todo pelo susto e no instante seguinte transformou-se também, usando uma yukata negra. Akutagawa reconheceu-o de o ver na aldeia vez ou outra.

Edgar sorriu, tímido.

"D-desculpe, Kunikida".

Kunikida assentiu, e Atsushi riu baixinho.

"Pai…", chamou, e Fukuzawa assentiu também.

"Venham, o almoço está pronto. Gosta de curry, Akutagawa?".

Akutagawa pestanejou, concordando.

Sim…”.

“Então aproveita porque vais ter de comer chazuke umas dez vezes por semana”, Oda implicou e Atsushi fez biquinho:

“Hey!”.

Akutagawa sorriu, segurando a mão de Atsushi.

"Não me importo. Posso fazer chazuke para você todos os dias".

“Tu sabes fazer chazuke?!”, virou-se na direção dele muito rápido, “Por que nunca disseste?!”.

O artesão apenas deu de ombros, risonho.

"Você nunca perguntou".

O biquinho de Atsushi aumentou.

“Eu vou cobrar isso”.

Akutagawa passou o braço pelas costas dele.

“Sem problema”.

Atsushi voltou a sorrir, e Fukuzawa chamou mais uma vez:

"Vamos almoçar".

Seguiu atrás deles para a mesa e aos poucos o seu nervosismo se dispersava.  Sentou entre Atsushi e Edgar, já que ele parecia o menos intimidador de todos.

O estrangeiro era quieto, mas gentil, e Ranpo sempre lhe pedia para alcançar a comida, mimado. Akutagawa observava todos os familiares de Atsushi, aos poucos se sentindo em casa.

Aquela família, a partir daquele momento, seria também a sua, e Akutagawa sorriu de leve. Que Oda era um homem gentil, o moreno já sabia, mas recebia carinho de todos naquela casa.

"Pai… Viemos pedir sua bênção para nos casarmos…", Atsushi disse durante a sobremesa.

Fukuzawa assentiu, sempre sério.

“Eu presumi que sim. Já é a segunda vez que Ryuunosuke te trás a casa”.

O mais jovem corou.

“Eu não sabia que ele era o gato…”.

O lobo bebericou seu chá, calmo.

"Agora sabe".

“Sim. E pretendo mantê-lo perto de mim para a vida toda. E queria a sua autorização”.

Fukuzawa o encarou, pousando sua xícara na mesa.

"Qualquer pessoa que seja boa e ame e cuide de meus filhos tem a minha bênção", sorriu gentilmente, "Atsushi o escolheu, e se vocês se amam, só posso desejar felicidades".

O moreno relaxou visivelmente e suspirou de alívio, segurando a mão de Atsushi.

“Obrigado…”.

Atsushi sorriu, dando um beijo na bochecha de Akutagawa.

"Ryuu, vamos nos casar!".

Ele assentiu timidamente e apertou a mão dele por baixo da mesa.

“Sim…”.

O felino voltou a sorrir, deitando a cabeça no ombro dele, e Kunikida bufou.

"Espero que cuide bem do meu irmão, ou não seremos amistosos, ouviu bem, pantera?".

Ele assentiu, engolindo em seco. Kunikida parecia uma águia mesmo na sua forma humana, observando-o atentamente como uma presa.

“Certo…”

“Bah, não sejas assi!.", Ranpo disse e pousou o queixo sobre a mão, “Ele se quisesse já tinha feito um tapete com o Atsushi”, implicou.

“Eu não faria isso”, Akutagawa garantiu quando toda a gente olhou para si e Ranpo sorriu.

“Eu sei que não, bobo~ Todos nós sabemos.”

O artesão olhou para todos no recinto, e sorriu.

É, todos sabiam o quanto ele amava Atsushi. 

"Obrigado".

Fukuzawa assentiu e voltaram a apreciar a sobremesa que Edgar fizera, conversando entre si. Akutagawa começava aos poucos a sentir-se em casa e isso era uma sensação estranha, mas agradável para si. Atsushi apertou-lhe de leve a mão, ainda por baixo da mesa, e sorriu. O gesto tão simples deixava o moreno desarmado e ele não podia deixar de sentir o seu coração inchar com tanta felicidade.

🐱 

Numa pequena vila perto das montanhas existia um jovem rapaz com os mais belos olhos cor de amanhecer. A sua beleza superava a sua fama e já tinham sido inúmeros os cavalheiros e damas de terras próximas que ouviram rumores sobre ele. Uns diziam que ele sabia fazer magia e que era assim que encantava as pessoas, outros afirmavam que era algum tipo de criatura etérea. Mas, o rumor mais interessante, era o de que um jovem solitário que vivia numa cabana da floresta e que tinha por hábito fazer figurinhas de barro e falar com raposas tinha conseguido ganhar o coração dele. Aqueles que conheciam o casal, por mais inveja que pudessem ter, não conseguiam negar o amor que tinham um pelo outro.

Se era magia que Atsushi tinha, ninguém sabia dizer ao certo, mas também não importava. Nas noites de lua cheia havia quem dissesse que uma pantera e um gato riscado andavam lado a lado pela floresta, guiando forasteiros perdidos como espíritos da floresta. Ninguém se atrevia a tentar apanhar o gato agora que ele era bem protegido.

Falando em floresta, os mais estranhos animais continuavam sempre por perto dos felinos e ninguém entendia o motivo. Para além do corvo e da capivara, as raposas andavam particularmente barulhentas na época de acasalamento, assustando e dando insónia a toda a gente da aldeia. Corriam também rumores de que uma águia um tanto violenta tinha sido avistada a levar uma dessas raposas, a maior, pendurada pela cauda para atirar de um penhasco. Mas talvez isso fique para outra história.

Fim.