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kiss me on the mouth

Summary:

Alguns dias, Jungkook não podia nem ao menos olhar para Jimin sem sentir a familiar pontada em seu peito, o volume que crescia dentro de si, roubando seu fôlego, ameaçando se derramar por entre seus lábios. Nesses dias, Jungkook tentava permanecer o mínimo possível na presença do mais velho, mesmo que a dor de não estar com Jimin fosse quase tão forte quanto a dor das pétalas subindo por sua garganta.

 

[jikook • au • hanahaki disease]

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

 

 

 

 

 

 

 

Narciso (daffodil): renascimento, novos começos; amor não correspondido. Uma única flor de narciso prediz um infortúnio.

 

 


i.

Fazia três ou quatro dias que Jungkook ficara doente. Seus olhos ainda ardiam um pouco e seu nariz continuava a escorrer, mas a sensação de morte e o gosto péssimo em sua boca haviam diminuído. De vez em quando ainda era acometido por uma tosse seca, garganta arranhando e cabeça doendo, mas a sensação de peso em seu peito não parecia mais estranha do que o normal para alguém resfriado.

(Oh, como estava enganado).

Sentado em um banco de madeira, envolto em um cobertor felpudo, braços apoiados sobre a bancada da minúscula cozinha, Jungkook observava enquanto Jimin preparava alguma coisa para os dois comerem. Ou melhor, enquanto Jimin requentava algo para Jungkook comer. O mais velho se movia com confiança pelo pequeno espaço, abrindo portas e gavetas, pegando potes e talheres, falando o tempo todo. Jungkook, dopado pelos remédios e cabeça estufada de muco, acompanhava cada movimento, sem entender uma palavra, um sorriso bobo no rosto.

Ali, em meio a cozinha do pequeno apartamento que Jungkook dividia com outras duas pessoas, Jimin parecia tranquilo, confortável, em casa.

Jungkook sentiu uma fisgada em seu peito.

- Tudo bem aí?

Ouviu Jimin perguntar, porém, antes que pudesse responder, Jungkook sentiu a dor fina em seu peito aumentar, tomando-lhe o fôlego, transformando-se em uma crise de tosse. Curvando-se sobre a bancada, Jungkook levou uma mão enrolada no cobertor até sua boca, olhos fechados com força, seu corpo sacudindo a cada tossida.

- Jungkook!

Em um instante, Jimin estava parado em frente a bancada, uma mão repousando sobre o ombro de Jungkook e outra segurando um copo d'água, murmurando baixinho. Jungkook, ainda trêmulo e sem ar, aceitou o copo oferecido com um pequeno aceno. Sua garganta e peito doíam, sua visão embaçada, mas tudo isso deixou de importar ao olhar para a mão com a qual cobrira a boca enquanto tossia: entre seus dedos e o tecido macio do cobertor, algumas poucas pétalas repousavam, brancas e delicadas.

Jungkook piscou lentamente, um frio arrepio percorrendo sua coluna.

- Você está bem?

A voz preocupada de Jimin o tirou de seus pensamentos. Com um pequeno susto, Jungkook fechou os dedos sobre as pétalas, escondendo-as. Inclinando o rosto em direção ao mais velho, acenou brevemente com a cabeça, suspirando pesadamente.

- Estou sim. - Respondeu, sua voz rouca.

Jimin apenas o observou por alguns segundos, expressão preocupada, a mão antes apoiada sobre o ombro de Jungkook agora percorrendo seus cabelos. Jungkook estremeceu levemente, fechando os olhos ao sentir os pequenos dedos em sua franja, a sensação de aperto crescendo novamente em seu peito.

- Vá se deitar, sim? - Disse Jimin após alguns segundos de silêncio, sua mão repousando contra a testa de Jungkook. - Quando eu terminar, eu levo a comida para você.

- Não precisa, Jiminie.

- Jungkook.

- Está tudo bem, Jiminie, eu estou bem. - Respondeu, sorrindo apertado para Jimin e recebendo um olhar preocupado como resposta, o mais velho o observando atentamente por alguns segundos. Mexendo-se em seu assento, inquieto, Jungkook esperou até que Jimin lhe desse as costas para voltar a observar as pétalas em sua mão, seu olhar perdido.

 

 

ii.

Sua garganta doía.

O dia já havia nascido, luz pálida entrando pelas frestas da janela, mas o quarto permanecia imerso em sombras. Os sons abafados da rua misturavam-se ao farfalhar baixo dos lençóis, compondo uma sinfonia apática, desafinada, pintando o ambiente em tons de cinza.

Deitado de lado sobre o colchão velho, pernas encolhidas contra seu abdômen, Jungkook encarava o espaço a sua frente, olhos teimosamente fixos nas partículas de poeira dançando pelo ar. No canto de sua visão, o relógio sobre a mesa de cabeceira brilhava vermelho-sangue, assombrando-o, forçando-o a se lembrar de algo que sua mente tentava esquecer.

Jungkook sentiu sua respiração prender em sua garganta, o cheiro de cobre infestando o quarto, gosto metálico tomando sua boca.

Sua garganta doía.

O som estridente do despertador cortou o silêncio, arrastando-o dos pensamentos vazios que o tomavam. Fechando os olhos por alguns instantes, Jungkook respirou fundo, pigarreando baixinho, uma careta dominando sua expressão ao engolir saliva amarga. Suprimindo um pesado suspiro, levantou-se da cama, jogando cobertores e travesseiros para o lado, movimentos longos e vagarosos. Deixou o quarto sem olhar para trás, tropeçando, sem ver para onde ia.

No chão do quarto, um travesseiro jazia largado, fronha azul bebê abarrotada, manchada de vermelho e branco.

 

 

iii.

Primeiro, uma coceira incômoda surgia no canto da sua garganta, irritante, fazendo com que sua respiração se tornasse mais profunda, entrecortada. Depois vinha a tosse, deixando tudo em carne viva, olhos lacrimejando, pétalas caindo de sua boca, por entre seus dentes. Algumas poucas, no começo, duas ou três, o número crescendo com o tempo, se tornando várias, uma avalanche em branco delicado, pétalas de narciso saindo manchadas com pontos vermelho-escuros, brilhantes.

 

 

iv.

Alguns dias eram piores do que os outros.

Alguns dias, Jungkook não podia nem ao menos olhar para Jimin sem sentir a familiar pontada em seu peito, o volume que crescia dentro de si, roubando seu fôlego, ameaçando se derramar por entre seus lábios. Nesses dias, Jungkook tentava permanecer o mínimo possível na presença do mais velho, mesmo que a dor de não estar com Jimin fosse quase tão forte quanto a dor das pétalas subindo por sua garganta. Nesses dias, Jungkook corria para banheiros, salas vazias, cantos escondidos, e se deixava entregar, tossindo pétala atrás de pétala, peito arfando, até ter uma flor, um buquê, um jardim inteiro. Até que seus pulmões se esvaziassem completamente de ar, oxigênio dando lugar a pétalas e folhas e espinhos, o gosto de sangue se espalhando por sua boca, sua língua, lágrimas escorrendo por seu rosto, branco misturado com vermelho no chão, entre seus dedos, nas costas da sua mão.

Outros dias, porém, eram quase como se tudo estivesse normal. Quase como se Jungkook pudesse conversar, sair, brincar, tocar Jimin sem medo, sem se preocupar com nada, sem ter que esconder a agonia queimando-o por dentro, deixando nada além de terra arrasada. Nesses dias, Jungkook podia olhar para o sorriso de Jimin sem sentir sua respiração falhar, guardando cada pequeno detalhe em sua memória; podia ouvi-lo falar por horas, segurá-lo em seus braços, sentir dedos pequenos, mas masculinos, por entre os seus. Nesses dias, quando Jungkook não se sentia sufocar - respirando fundo, inalando e exalando lentamente, preenchendo cada célula de seu corpo com a presença do mais velho - era quase como se Jungkook amasse Jimin, e Jimin o amasse também.

 

 

v.

- O que você vai fazer, Jungkook?

- Hm?

- O que você vai fazer?

Um vento gélido percorria o estacionamento vazio da pequena loja de conveniência, tornando orelhas e narizes frios e dormentes, deixando bochechas vermelhas e fazendo Jungkook estremecer involuntariamente, encolhendo-se em sua jaqueta. Com um pesado suspiro, Jungkook levou a garrafa que segurava até seus lábios, tomando um gole, rosto contorcido em uma careta ao sentir o gosto amargo da bebida. Já havia bebido mais do que o suficiente na festa - na estúpida festa que Jimin o havia convencido a ir - mas aquela era a única forma disponível de tirar o gosto horrível em sua boca.

(Gosto horrível de narciso, pétalas escapando por entre seus lábios, lágrimas de seus olhos, a memória de Jimin com outro, outra pessoa que não Jungkook, fazendo com que cada tosse fosse mais violenta, corpo inteiro sacudindo com a força, mãos trêmulas, garganta em chamas).

- Fazer sobre o quê?

Tomando o último gole de sua bebida, Jungkook olhou de relance para sua companhia, observando-o. A poucos passos de distância, escorado contra uma mureta de concreto, Namjoon segurava uma bebida frouxamente entre os dedos, fundo da garrafa formando pequenos círculos no ar, olhar fixo no asfalto. A noite estava escura, lua ausente do céu, a luz amarelada vinda do interior da loja a única coisa iluminando a expressão pensativa no rosto do mais velho.

- Sobre o seu problema, a sua doença. Sobre você e o Jimin.

Jungkook respondeu com um baixo grunhido. Não era surpresa saber que Namjoon conhecia o mal que o afligia, não realmente. Não quando a reação de Namjoon ao vê-lo curvado sobre si mesmo num canto escuro, sem conseguir respirar, pétalas brancas misturadas a sangue e a vômito deixando sua boca, sons abafados pela música e vozes altas, foi esperar Jungkook parar de engulhar o suficiente para tirá-lo dali.

(Jungkook se perguntava se Namjoon conhecia a doença de Hanahaki só de ouvir falar, ou por experiência própria).

- Você já foi ao médico? - Namjoon perguntou após o que pareceu longos minutos de silêncio.

- Sim.

- E?

Eu não sei, Jungkook pensou, fechando os olhos. Só havia duas opções, deixar que as coisas seguissem como estavam, a flor em seu peito crescendo mais a cada dia, consumindo sua vida, ou acabar logo com tudo, retirando-a com a cirurgia, arrancando de dentro de si ramos, folhas, brotos, sentimentos. Para muitos, a escolha seria óbvia, mas para Jungkook, a ideia de simplesmente deixar de amar, de nunca mais amar Jimin, era tão assustadora quanto a alternativa.

- Você tem que fazer o que for melhor para você, Jungkook. - A voz de Namjoon era baixa, calma. Jungkook sentiu seu coração apertar ao ouvir a preocupação no tom do mais velho. - Tomar a decisão certa.

Ainda sem abrir os olhos, Jungkook inclinou o rosto para cima, sentindo o vento frio daquela noite contra sua pele.

- Eu não sei, hyung. Eu não sei.

 

 

vi.

O bilhete era curto, simples, mas carregado de um peso gigantesco. As três curtas palavras ali rabiscadas o encaravam com a mesma intensidade com que eram encaradas, e Jungkook, sem saber o que fazer, permanecia parado, sem piscar, dedos contra a superfície áspera do papel.

No fim, decidiu que era melhor jogar o bilhete fora. Não era como se Jimin fosse entender, realmente, e Jungkook só acabaria tendo que responder perguntas que não queria ouvir, dizendo palavras que não queria falar. Amassou o papel em uma bolinha, jogando-a no lixo, junto com as pétalas manchadas que regurgitara enquanto escrevia o bilhete.

(Me desculpe, Jimin)

 

 

vii.

Branco.

- Jungkook-ssi.

Os lençóis e roupas, os móveis, as paredes. Tudo.

- Antes de prosseguirmos com o procedimento, eu preciso que você assine este termo de responsabilidade.

Branco como a flor que crescia em seu peito, tomando o espaço em seus pulmões, arranhando sua garganta.

- Por favor, vista essas roupas. Os enfermeiros logo estarão aqui para levá-lo até a sala de cirurgia.

Como as pétalas que caíam de seus lábios, afogando-o.

- Não se preocupe, Jungkook-ssi. O procedimento é simples e rápido. Não havendo complicações, amanhã mesmo você estará em casa.

Jungkook piscou lentamente.

- Alguma dúvida?

O rosto da médica era gentil, um pequeno sorriso em seu rosto. Jungkook, voltando sua atenção para a prancheta que ela o estendia, assinou o documento, dedos quase totalmente firmes.

- Não, nenhuma.

- Muito bem. Eu vou deixar você se preparar, então. Até daqui a pouco.

Ao ouvir o som da porta se fechando, Jungkook deixou seu olhar vagar pelo quarto. Sobre o móvel ao lado da cama havia um vaso cristalino, uma única flor (um narciso, pálido, delicado , branco) descansando em seu interior.

 

 

viii.

Quando Jungkook chegou na sala, balde de pipoca em uma mão e latinhas de refrigerante na outra, Jimin estava sentado no chão, em frente à mesa de centro, um pequeno vaso entre suas mãos, dedos percorrendo delicadamente as pétalas brancas, em uma quase carícia. Jungkook, respiração prendendo em sua garganta, levou uma mão até o peito, sentindo-se estranhamente vazio.

Jimin, ainda observando a pequena flor, inclinou a cabeça em direção a Jungkook, expressão indecifrável.

- Eu não sabia que você gostava de flores.

- Eu não gosto. - Respondeu Jungkook, colocando as coisas que trazia consigo sobre a mesa de centro, sentando-se ao lado do mais velho. Seu olhar se fixou sobre a flor que Jimin analisava atentamente - um único narciso, nascido em Jungkook, pequeno, delicado, manchado de vermelho, tão dolorido - esticando um dedo para tocar numa pétala, tremendo quase imperceptivelmente.

- Hmm.

Antes que Jungkook pudesse dizer qualquer outra coisa, Jimin devolveu o vaso para a mesa, delicadamente. Talvez fosse sua imaginação, mas Jungkook achou ter visto algo no rosto de Jimin, uma expressão que durou microssegundos, antes de o mais velho voltar a olhá-lo, olhos quase fechados em um sorriso.

- Vamos logo assistir esse filme, hm? Você já enrolou demais. - Disse Jimin, aconchegando-se ao lado de Jungkook, cabeça apoiada em seu ombro.

Jungkook respirou fundo, discretamente, esperando pela familiar coceira em sua garganta, o aperto em seu peito, o ardor em seus olhos. Esperou um, dois, vários segundos, respiração suspensa, seu olhar fixo à flor sobre a mesa.

Mas não sentiu nada.

 

 

 

 

Notes:

Comentário Aleatório: O narciso da história deveria ser amarelo, mas eu roubei e disse que ele era branco, porque eu achei mais interessante. Licença poética. (Não) me julguem. Espero que vocês tenham gostado da fic. Comentários são sempre bem vindos, elogios, críticas, sempre feitos com educação. Meu muito obrigada à todes que leram até aqui.

Beijos e obrigada! Até algum dia, sei lá, quando a inspiração bater em minha porta novamente.