Work Text:
Albafica acordou assustado. Esqueceu que, atipicamente, dividia sua cama com outra pessoa. Além de tê-lo ali, movendo-se e roncando, ainda por cima era alguém que gostava de abraçá-lo durante a noite. Sua respiração demorou a normalizar, enquanto o outro não parecia ter sido influenciado pelo súbito despertar do dono da casa. Correu os olhos azuis pelos longos cabelos quase brancos que contrastavam com o edredom vermelho escuro.
O que significava aquilo ou por quanto tempo duraria? Não tinha respostas, tampouco fazia sentido tê-las. Respirou profundamente, um tanto mais calmo, abraçando os joelhos, descobrindo as costas de Minos ao fazê-lo.
Não queria entrar em surto, nem ao menos fazia ideia do motivo pelo qual deveria surtar. Tampouco sabia se o cara a seu lado era uma boa razão para tal. Àquela altura, apenas de ter alguém ali, Albafica retomava um pouco da sensação de ser quem realmente era. Talvez fosse um pouco — ou muito — assustador pensar se a pessoa com quem dividia a cama importava ou se qualquer outro o faria ter um pouco disso de volta.
Sorriu, cobrindo a boca com ambas as mãos. Ao invés de ficar matutando sobre isso, apenas aproveitaria. Com Minos, sem Minos. Poderia se dar ao luxo de ficar com ele o tempo que fosse, contanto que estivesse feliz consigo mesmo, como há muito não era. Tentou apanhar a coberta para jogar por cima do dorminhoco e perdeu-se, mais uma vez, admirando os detalhes da tatuagem imensa que cobria não só as costas, mas uma grande porção dos braços do bonequeiro.
“Todos aqueles anjos com suas asas coladas…”
Deu um pulo da cama, correndo até seu antigo quarto, ainda decorado como quando era garoto. Procurou pela caixa de CDs, escondida em algum lugar do closet, o lugar onde a maior parte de suas bugigangas de adolescente, de quando morou em Atenas, estava guardada. Achou o disco com a capa de fundo branco, estrelando duas anjinhas sorridentes. Apanhou também o aparelho de som, muito usado há eras longínquas, levando tudo para a cozinha.
A máquina de waffles esquentava enquanto ele batia a massa, vestindo a camisa social que jogara no chão do quarto na noite anterior, desabotoada, cuecas e chinelos fofinhos, presente de seu irmão. Apertou o botão de play, batendo com o indicador ao lado da maquininha, logo após despejar a mistura na chapa furadinha. A jarra da cafeteira já pingara metade da sua capacidade, quando o primeiro riff terminou. Era justamente a primeira música do álbum que estava em sua cabeça quando despertara.
Surte
E entregue-se
Não importa o que você acredita
Fique calmo
E seja o idiota de alguém neste ano...
Cantava, nostálgico. Há muito não ouvia coisa alguma daquela banda. Aliás, há muito não escutava, voluntariamente, algo que não fosse música pop dos anos 2000. Colocava a mesa para dois, buscava suas geléias...e mel! Adorava mel com os waffles!
Minos acordara sozinho, o que era algo estranho. Sabia que a natureza de Albafica era sonolenta, por demais, inclusive. Tinha a escova de dentes enfiada na boca quando ouviu os passos apressados, notando o vulto que apanhava uma peça de roupa do chão. Decidiu dar um jeito no cabelo com um coque desalinhado, já que era o melhor que poderia fazer sem necessitar de uma quantidade exorbitante de creme para ajudar com os nós que formaram-se por dormir com a cabeleira solta. Vestiu meias para poder calçar as pantufas, procurou por uma camiseta e desceu até a cozinha, ainda sem vestí-la. Riu não só por presenciar a cena, mas também por adorar aquela música.
Abraçou Albafica pelas costas, cantando rente a seu pescoço:
Mas cuidado
Todos aqueles anjos com suas asas coladas
Por que no fundo
Eles estão apavorados e assustados
Se você não ficar olhando
Ficaram ali, na lida dos waffles, ainda abraçados, cantando juntos o refrão da música. Albafica teve sua boca coberta na estrofe seguinte, enquanto Minos a recitava, de uma forma muito mais provocante do que Billy Corgan jamais fez.
Conte-me todos seus segredos
Não posso fazer nada a não ser acreditar que sejam verdade
Conte-me todos seus segredos
Eu sei, eu sei, eu sei
Deveria ter ouvido quando você me contou
— Não sabia que você também gostava deles. — Albie desligou a máquina e empurrou Minos com força contra o balcão, invertendo a situação.
— Não sabia que você gostava de qualquer coisa que não tivesse uma coreografia.
Minos apanhou um pedaço da iguaria do café-da-manhã, o enfiando na boca do outro, que respondeu, com o tom ranzinza de sempre, levando o prato servido à mesa:
— Você não sabe de muita coisa.
O bonequeiro o seguiu com os olhos, debochado, como de praxe. Esperou que sentasse e derramasse o mel sobre o prato. Quando Albafica estava prestes a pescar um waffle quente para jogar por cima da lambança que fizera, Minos o impediu. O moço dos cabelos brancos passou o indicador por cima da louça, apanhando uma grande quantidade de mel, o depositando sobre seus lábios. Repetiu o movimento, dessa vez levando o dedo à boca do outro. O garfo audacioso foi deixado de lado e Albafica o ajudou na tarefa de remover a odiosa coisa doce demais de seu corpo.
Deveriam esperar que os waffles esfriassem, afinal de contas.
Subiram ao quarto, apressados, deixando as poucas peças de roupas que vestiam pelo caminho. Antes de chegarem à metade das escadas, Albafica voltou, ligeiro, somente para buscar seu rádio.
