Chapter Text
Ela estava indignada. Não, dizer que Raquel estava indignada é leve demais. Ela estava furiosa, puta da cara, com sangue nos olhos! Ela tinha certeza de que pelo menos umas três veias da testa dela já estavam saltadas, imagina se ela pudesse vomitar pra Alicia todas as palavras que estavam vindo em sua mente!
Será que essa mulher não tinha entendido NADA do que ela falou na porra dessa última meia hora de reunião? Que merda era essa que ela estava propondo?! A vontade de Raquel era se levantar daquela cadeira de escritório e agarrar Alicia Sierra pelos cabelos, até que entrasse naquela cabeça ruiva o absurdo que era pedir a Raquel uma coisa dessas!
Não, Raquel, você precisa dela como sua agente. Pensa em tudo o que você trabalhou nas últimas décadas, em tudo que você sonhou em fazer no futuro. Pensa na Paula...
Pela Paula. Engole esse sapo pela Paula.
E foi assim, mentalizando o sorriso infantil de sua filha, o brilho nos seus olhos quando sorri, que Raquel conseguiu pelo menos acalmar um pouco a respiração e controlar a sua própria língua. Agora ela só precisava de um...
- Posso? – perguntou a atriz enquanto apontava para um lápis, que estava em um porta-trecos sobre a mesa de sua possível futura agente.
- Claro. – respondeu Alicia, meio cética quanto a reação de Raquel à pergunta que poderia ser o grande divisor de águas de sua carreira.
Raquel pegou o lápis amarelo, segurou-o com a boca e então prendeu seu cabelo com ele. Mais uma respirada profunda, olhos fechados por uns milissegundos a mais que uma piscada normal levaria, ombros relaxados... Era literalmente tudo ou nada agora, porque Paula era seu tudo, e a possibilidade de perder a guarda de sua pequena era infinitamente pior que qualquer outra coisa nesse mundo.
- Eu tenho apenas uma condição – falou em tom sério a loira – pelo menos o papel eu preciso conseguir por mérito próprio.
Alicia tirou o pirulito da boca e sorriu confiantemente:
- Vou agendar o teste agora mesmo.
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Sérgio já ouviu muita merda sair da boca de Andrés. E quando ele diz muita, é MUITA MESMO. Mas ele jamais pensou que os absurdos que dominavam a vida pessoal de seu irmão um dia alcançariam o âmbito profissional.
Andrés levava a arte cinematográfica muito a sério. Por mais troglodita que ele fosse com as pessoas com as quais se relacionou emocional e fisicamente, sempre exerceu com extremo respeito e profissionalismo como produtor de filmes. Se não pelo ofício em si, mas pela beleza da arte e o reconhecimento que ela trazia para ele.
Por isso a ideia de manchar uma de suas obras primas por um simples golpe publicitário não fazia o menor sentido na cabeça de Sergio. A ideia de manchar uma de suas obras primas e ainda por cima querer envolver seu irmão nessa loucura?! Insanidade total!
- Aonde estão as câmeras? – perguntou Sergio enquanto se virava desajeitadamente para olhar cada canto da sala. – Andrés, eu já te avisei que não me sinto confortável com essas pegadinhas de making off, não importa o quanto o público goste.
- Ah, hermanito, assim você me ofende! Eu já não te prometi depois daquela buzinada que jamais faria uma coisa dessas? Desde quando eu deixei de cumprir com a minha palavra?
Dessa vez nem o próprio Andrés consegue segurar o sorriso debochado, dada a ironia do que havia acabado de falar. Sérgio estava pronto para começar a listar todas as vezes que seu irmão o deixou na mão, quando foi interrompido.
- Ok, sem necessidade de responder! Até porque dessa vez não é nenhum tipo de brincadeira e elas vão chegar aqui a qualquer momento.
Sérgio olhou para seu irmão atônito. Ele via em seus olhos seriedade e veracidade, mas não podia ser verdade, podia? Seus olhos fitaram cada centímetro do rosto a sua frente, procurando pela mínima evidência de que tudo não passava de mais uma das mentiras desmedidas de Andrés. A única evidência que encontrou foi a de que desta vez seu irmão falava a verdade.
Sergio tinha tanta coisa para dizer, mas parece que naquele momento seu cérebro estava tendo dificuldade de processar todas as informações e ainda expressar em palavras toda sua indignação. Andrés ser inconsequente por causa de uma mulher não era novidade. Andrés se deixar levar pelo álcool, também não. Agora Andrés apostar a reputação de seu próprio irmão era uma puta novidade. Uma puta falta de respeito, joder!
Os próximos segundos se desenrolaram como que em um filme, em câmera lenta.
A boca de Sérgio já estava semiaberta, pronta a começar a descarregar o turbilhão de motivos do porquê ele jamais fingiria um relacionamento com qualquer que fosse a pessoa, muito menos em função de uma aposta que Andrés perdeu. Menos ainda considerando a prostituição de sua imagem para “alavancar o engajamento com os fãs da série”! Porque isso era uma espécie barata e distorcida de prostituição de seu nome e Andrés era o puto cafetão!
Sergio estava prontíssimo para exaurir seu irmão com todos os argumentos e contra-argumentos, que rapidamente se estruturavam em sua mente, quando algum som começou a interferir ao fundo de sua linha de pensamento perfeita.
- Andrés, o compromisso das 14h30 chegou.
E com um olhar de desculpas não muito sinceras direcionadas a Sergio, Andrés ordenou:
- Pode dizer para elas entrarem.
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- As senhoritas podem me seguir, por favor.
O coração de Raquel estava a mil por hora. O assistente do senhor de Fonollosa abriu a porta e logo ela percebeu que os outros dois participantes da reunião já estavam presentes. Agora não havia mais volta.
Andrés de Fonollosa, o produtor da série, estava sentado atrás de sua mesa de escritório. De costas para a porta estava um homem alto, de cabelos escuros, que ela acreditava ser quem interpretaria seu parceiro romântico – nos sets de filmagem e na vida real. Só de pensar a que ponto chegou, Raquel já se sentia repugnada.
Não pensa nisso, Raquel. Não há nada mais nobre nessa vida que o amor de uma mãe! Além disso você conseguiu o papel por mérito próprio. Você fez o monólogo, recebeu o call-back e deu um show em cena. E dentro das negociações com a Alicia você deixou bem claro que absolutamente ninguém do casting poderia saber sobre esse trato absurdo. Então respira fundo e ergue a cabeça, que o show vai começar!
Alicia entrou primeiro, altiva como sempre, e logo o segundo homem se levantou de sua mesa e veio cumprimentá-la.
- Alicia, bela! Que alegria te ver por aqui!
- E eu fico feliz em ver que você é um homem de palavra – disse enquanto olhava na direção do outro homem.
- Há tanto de mim pra você ver ainda, Alicia... - de Fonollosa seguiu flertando com um sorriso malicioso - Você me prometeu que sua atriz conseguiria o papel, o mínimo que eu poderia fazer era cumprir minha parte do acordo.
Raquel não sabia aonde enfiar a cara. Como artista ela era grande fã de Andrés de Fonollosa. A beleza e complexidade encontradas nos trabalhos que ele produziu no cinema e TV eram inebriantes, obras ricas em detalhes e estrutura narrativa. Agora como homem ele parecia ser só mais um dos mesmos.
Ela, melhor que ninguém, sabia o quão baixo o mundo artístico podia ser, mas jamais se imaginou fazendo parte deste circo de horrores novamente. Este foi um dos motivos que fez com que ela finalmente tomasse coragem e pedisse o divórcio de Alberto e, ironicamente, por isso que ela se meteu nesta situação. Porém, diferente do que aconteceu no seu caso, a mídia parecia ter sido bastante realista ao retratar o perfil do produtor como um grande mulherengo.
Raquel teve seus pensamentos interrompidos por Alicia:
- Andrés, essa é Raquel Murillo. Raquel, este é Andrés de Fonollosa. Mas acredito que vocês já se conheceram, não é mesmo?
- Brevemente apenas - Raquel esticou a mão para cumprimentá-lo, dando-lhe o sorriso mais sincero possível.
- Sim, sempre gosto de assistir todo o processo de casting. – Ele pegou sua mão e deu um beijo nas costas da mesma - Alicia não havia me dito quem era sua protegida, confesso que durante o processo me pegava imaginando quem poderia ser. Fico feliz ter sido você, Raquel.
- Obrigada, senhor de Fonollosa.
Ele soltou uma risada nada charmosa desta vez.
- Por favor, me chame de Andrés, afinal, serei seu cunhadinho. – falou em tom de piada - E falando nisso, que cabeça a minha! Raquel, Alicia, conheçam Sergio Marquina, meu irmão caçula e protagonista da série.
Neste momento Raquel lembrou-se de que não estavam apenas os três na sala, e virou-se em direção a Sergio, que até o presente momento estava tão silencioso que mais parecia um objeto de decoração que uma pessoa.
Então as análises que ela havia feito da situação realmente estavam certas. Seu misterioso par romântico seria de fato o irmão de Andrés de Fonollosa. Em sua conversa inicial com Alicia, Raquel havia pedido para não saber quem seria seu... parceiro. Por motivos óbvios de que quanto menos ela soubesse, mais tempo ela poderia fingir que nada disso estava acontecendo. O que foi uma decisão sensata, dessa forma ela conseguiu se dedicar e preparar da melhor maneira possível para os testes de elenco.
Ao ver de Fonollosa nos testes e saber que o ponto crucial deste relacionamento falso seria ter alguém de fama imaculada, não foi muito difícil para Raquel juntar os pontos. Enquanto Andrés era um prato cheio para os sites de fofoca - com suas festas badaladas, casamentos e divórcios - Sergio sempre foi reportado como o bom moço, o irmão perfeito em comparação ao problemático da família. Ao menos segundo a mídia, não é mesmo?
Raquel tinha que dar o braço a torcer para Alicia. Se este golpe publicitário tinha alguma chance de dar certo e salvar sua carreira – e dar a ela uma chance de recuperar sua família-, Sergio Marquina era o cara ideal para o papel. Ela duvidava que ele realmente fosse o senhor certinho, afinal ele aceitou participar da farsa, mas pelo menos ele sabia disfarçar bem sua vida pessoal. E era só isso que ela precisava. Exceto que ele parecia estar extremamente desconcertado no momento. Será que ele estava pensando em voltar atrás?
Sergio a olhava da cabeça aos pés. Não, era mais que isso, era como se ele a estivesse analisando pedaço por pedaço e Raquel se sentiu imunda. Instintivamente sua mão direita segurou o braço esquerdo, como quem quer se proteger seu corpo do olhar intruso.
Agora não é hora para isso, Raquel, respira fundo.
E num movimento quase brusco ela levantou o braço em direção ao outro ator, fazendo questão de mostrar através de toda sua postura quão profissional seria o relacionamento deles.
- Raquel Murillo, prazer.
Apesar dos protocolos sociais, Sergio permaneceu paralisado, mexendo apenas os olhos, como se fosse um dos paparazzis tirando fotos de todos os ângulos possíveis de seu rosto.
- Perdeu alguma coisa no meu rosto? – ainda com o braço esticado Raquel pergunta, lançando um olhar desafiador para Sergio. Isso parece quebrar seu transe.
O ator abaixa seus olhos e solta um riso sem graça, ajeita seus óculos no nariz e finalmente retribui o aperto de mão.
- Sergio, meu nome é Sergio Marquina. O prazer é todo meu.
