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Where the Light Won't Find Us

Summary:

O Beco da Perdição é o bairro mais pobre de Washington, capital dos Estados Unidos. Vendo a população dele sofrer por conta da Recessão causada pela Crise de 29 e o aumento drástico de ladrões e estupradores, Clarke Griffin decide fazer justiça com as próprias mãos, se tornando a Vigilante do bairro.

Não muito longe dali, a detetive Lexa Woods tenta impedir o avanço de um serial killer no Beco. Conhecido apenas como o Assassino, ele já matou três mulheres tarde da noite no bairro e parece ter tomado gosto pela coisa.

Os destinos das duas mulheres tão diferentes, mas com a mesma sede de justiça, vão se unir de modo inesperado.

Chapter 1: Even While You Sleep, I Will Find You

Chapter Text

O soco acertou Clarke Griffin em cheio no nariz. Ela sentiu a cabeça zunir. O inchaço começou tão logo ela se afastou para recuperar o fôlego. Aquela briga não estava indo como esperava.

Clarke tinha esperanças de ganhar nos primeiros minutos, mas já se passava quase dez e o garoto com quem lutava não caíra nenhuma vez. Maldição, ela xingou em sua mente. Ele era magrelo, porém tinha uma força que nunca vira em nenhum dos ladrões que circulavam pelo Beco da Perdição. Se não reagisse logo, provavelmente iria perder a luta e então sua reputação estaria por um fio.

Ela esperou que o adversário se aproximasse. Ergueu as mãos em punhos e aguardou. Do lado de fora do ringue, ela ouvia gritos lhe apoiando e a incitando para avançar. A luta acontecia num local sem muita iluminação, por isso Clarke não conseguia enxergar o olhar de seu adversário. Presumia que queria espancá-la da mesma maneira que ela desejava.

De supetão, Clarke atacou. Lançou-se contra o magricelo e meteu-lhe um soco de direita, arrancando palmas da plateia. Ele cambaleou, mas o golpe não fez mais que isso. Clarke xingou em voz alta, provocando o adversário. Ele limpou o sangue que saía de seu lábio e sorriu com os dentes vermelhos.

Clarke engoliu em seco. É, ela perderia essa. O magrelo avançou para cima dela e socou seus braços levantados até conseguir uma brecha para acertar seu rosto. Clarke tentou aguentar o quanto pode, porém já estava fraca. Assim que olhou fundo nos olhos do adversário, ele deu-lhe um gancho de esquerda que fez seus braços fraquejarem. O magrelo aproveitou a vantagem e deu um soco no estômago de Clarke, seguido de outro golpe em seu maxilar. Clarke ajoelhou, gemendo, e seu adversário terminou a luta com uma cotovelada na parte de trás de seu pescoço.

Clarke caiu deitada no chão e aceitou a derrota como boa perdedora que era. Ela ficou no chão enquanto o juiz dava a vitória para o magrelo e a multidão ia à loucura.

Ninguém lhe ajudou a levantar. Ninguém se importaria se ela morresse ali mesmo. Era como as coisas aconteciam no Beco da Perdição. Clarke já deixara muitos oponentes no mesmo chão que agora deitava. Era a primeira derrota dela desde que se tornara a Vigilante do bairro. Talvez assim as suspeitas que o povo tinha de sua verdadeira identidade diminuísse.

Ela lutava mais pelo dinheiro do que pela suspeita. Pike, o dono do clube da luta, dava uma quantia boa para quem ganhasse mais de cinco lutas seguidas. Hoje, no entanto, ela provavelmente voltaria para o casebre que morava com nada. Clarke rezava que sua amiga Raven não tivesse apostado todas as suas economias nela.

— Sua inútil! — exclamou uma voz que Clarke conhecia bem. Lá estava os pés de Raven na sua frente. — Eu apostei 10 pratas em você e perdi tudo! Porra, Clarke!

— Raven, ela acabou de ser espancada. — Octavia, outra amiga de Clarke, tentou acalmá-la. — Vamos levantá-la e então contamos sobre o dinheiro.

Clarke agradeceu a bondade de Octavia com um olhar. Ela se levantou com dificuldade e viu que não havia mais ninguém no ringue a não ser as três. Podia ouvir a voz alta de Pike em seu escritório. O magrelo deveria estar recebendo seu prêmio naquele momento.

— Você foi bem até à quarta rodada — elogiou Octavia. Clarke se apoiava nela para sair do ringue. Raven rondava as duas e às vezes lançava olhares de ódio à Clarke. — Mas aquele garoto acabou com você. Sabe quem é?

— Não faço ideia.

— Seja quem for, vou apostar nele na próxima — comentou Raven, azeda.

— Você é uma péssima amiga, sabia? — Clarke contrapôs, apertando o local onde o magrelo lhe dera o soco na barriga.

Raven não respondeu. Clarke, Octavia e Raven eram companheiras de casebre, por assim dizer. Clarke morava na mesma casa com Raven, e Octavia vivia no andar de cima com seu irmão e marido. Os cinco trabalhavam duro para manter o lugar. Ninguém tinha dinheiro suficiente para sair do Beco da Perdição, então era melhor ficar com gente conhecida do que pessoas estranhas — e acredite, havia muita gente estranha circulando pelo bairro.

— Griffin! — Pike chamou quando Octavia levava Clarke para a porta de saída do clube. — Esqueceu do seu pagamento?

Charles Pike era um homem alto, careca e com um cavanhaque muito bem feito. Ele possuía cicatrizes nos braços por conta da sua participação na guerra e, apesar de suas histórias sempre parecerem divertidas, Clarke conseguia sentir a tristeza de seu relato toda vez que os descrevia. Ele tinha chegado a sargento major do exército dos Estados Unidos, um ato e tanto para um homem negro, e todo mundo no Beco o respeitava por isso. Porém, ao voltar da guerra, Pike não conseguiu arranjar nenhum emprego digno e começou a incentivar lutas no bairro, se tornando ilegalmente um pequeno empresário.

Clarke franziu o cenho.

— Mas eu perdi a última…

— Peculiaridades — interrompeu Pike, dando um sorriso amarelo. Ele entregou vinte dólares na mão machucada de Clarke. — Você é minha melhor lutadora. Só não deixe que os outros saibam disso.

O magrelo passou pelo grupo no exato momento que Pike terminou a frase. Ele encarou Clarke por alguns segundos antes de abrir a porta e sair noite afora. Clarke mordeu o lábio sangrando e fez uma expressão confusa.

— Quem é ele? — Ela apontou para a porta e direcionou a pergunta a Pike.

— Mais um garoto com sonhos. Disse que chegou a Washington tem pouco tempo e precisava de dinheiro para se manter. Derrotou todo mundo com muita facilidade.

— Não brinca — disse Raven, olhando de soslaio para Clarke.

— Valeu, Pike — disse Clarke antes que Raven pudesse falar outra coisa. Ela apertou a mão do homem e sentiu seus calos e anéis contra sua mão dolorida. — Nos vemos semana que vem.

— Ele parecia treinado — comentou Octavia baixinho. — O jeito que ele te deixou quase inconsciente no final… aquele golpe era do exército, já vi Bellamy praticando um dia.

— Mas ele é um moleque — retrucou Raven. — Não deve ter idade para entrar em exército nenhum. E se tivesse, duvido que iriam ensinar coisas de um tenente para um simples soldado.

Clarke ponderou. Dentro do ringue, os movimentos de Aden pareciam normais a ela. Contudo, também estranhava que um rapaz tão jovem e magrelo soubesse de golpes e artimanhas ensinadas no exército. Além disso, a história que Pike contara não cheirava muito bem para ela. Todo mundo procurava evitar o clube. Aden parecia jovem demais para se meter em confusões daquele tipo.

— Vou me preocupar com isso amanhã — Clarke disse de maneira resoluta. — Meu nariz está inchado demais para que eu pense em qualquer outra coisa.

— Lincoln vai deixar você inteira de novo — disse Octavia com um sorriso complacente. — Ninguém vai lembrar que um novato quebrou seu nariz.

Clarke forçou uma risada. Suas costelas arderam em dor.

— Assim eu espero.

 


 

— O que descobriu?

— Não muito. Tem uma garota lá, Griffin. Nós lutamos e ela perdeu. Mas o dono do clube ainda deu dinheiro a ela.

Lexa soltou um muxoxo de impaciência. Não se interessava nas atividades ilegais que aconteciam no Beco da Perdição. Estava focada em apenas um único criminoso. Desde agosto ele assassinava friamente mulheres indefesas e o chefe de polícia de Washington a colocara no caso.

Era a primeira vez que pegava um caso por conta própria. Pouco a pouco a história se espalhava pelos bairros ricos da capital dos Estados Unidos e seu chefe a pressionava ainda mais para encontrar culpados. Ela estava tentando, mas seu assassino sempre lhe escorregava pelas mãos.

Não era fácil ser uma mulher e detetive nos anos 1930, ainda mais com a situação do país. Lexa, órfã pela guerra e por causa da gripe espanhola, não tinha muitos recursos e se esforçou o dobro do que qualquer policial meia boca de seu distrito para se sentar naquela mesa. Mesmo assim, eram poucos os policiais que realmente a respeitavam.

Aden era um deles. O garoto se tornara seu protegido desde que entrara na força policial, trabalhando duro como agente disfarçado em vários casos. Agora, sua missão era descobrir se o assassino procurado tinha uma base no Beco. Tudo o que Lexa tinha apontava para aquela região pobre de Washington. As mulheres assassinadas ou moravam ali ou trabalhavam por perto. Todas eram inexistentes aos olhos da Lei.

No entanto, Lexa não deixaria suas mortes caírem no esquecimento. Ela as traria justiça. Descobriria a verdadeira identidade do assassino e faria o homem apodrecer na cadeia. Tiraria o chefe de polícia do seu pé e seria respeitada entre os policiais.

— Você sabe do Vigilante? — Aden indagou, tirando Lexa de seu devaneio.

— Vigilante? — repetiu Lexa, confusa.

— Parece que está querendo capturar o assassino por conta própria. O Beco inteiro só fala disso. Alguém está ajudando eles. Digo, fazendo por eles mais do que nós fazemos.

— Não é preciso muito — disse Lexa amargamente. Ela reconhecia como a polícia de Washington era falha. Seu distrito ficava próximo ao Beco e deveria ser responsável pelo policiamento do local, mas todo mundo sabia que não era o que acontecia. Seus policiais trabalhavam em áreas nobres da cidade e só voltavam ali para bater o ponto.

Se realmente houvesse algum vigilante no Beco da Perdição, Lexa deveria agradecê-lo por fazer seu trabalho. Porém, não iria deixá-lo roubar sua glória de capturar o assassino. Isso ela iria fazer por conta própria. Com a ajuda de Aden, é claro.

— O povo venera ele — continuou Aden. Lexa sentia a animação do garoto crescendo. — Me falaram que o cara acabou com dois ladrões pulando de cima de um telhado e não machucou nada. A menina assaltada o viu indo embora como se nada tivesse acontecido.

Lexa arqueou a sobrancelha de maneira descrente. Deveria ser mais uma história contada em clubes para impressionar os outros. Funcionara, pois Aden andava para lá e para cá em seu escritório descrevendo as ações que ouvira sobre o tal vigilante. Não queria acabar com a emoção do garoto, então o deixou falando sem realmente prestar atenção.

Esperava que essa história de vigilante não chegasse aos ouvidos do chefe. Não podia exatamente compactuar com esse tipo de gente, mas entre as ondas de assalto a banco e gente roubando comida para sobreviver, a polícia podia usar um civil querendo restaurar a paz em seu bairro.

O relógio atrás de sua mesa bateu meia-noite e Lexa gentilmente expulsou Aden do distrito. Ele morava a duas quadras dali e, mesmo que fosse muito bom em lutas, ainda era perigoso andar pelas ruas à noite. Ela poderia dizer o mesmo, embora gostasse de ficar até tarde no trabalho. Era uma das formas de provar aos policiais que estava determinada em completar seu caso. Muitas vezes dormia no distrito para estar sempre pronta a qualquer coisa.

Ela trancou a porta de sua sala e olhou ao redor. Tudo estava silencioso. O prédio era dividido entre os bombeiros e a polícia, e os plantonistas dormiam nos sofás espalhados pelo saguão. Na ponta dos pés, ela saiu do distrito sem trancar a porta da frente.

A lua brilhava no meio do céu, iluminando o caminho de Lexa até sua casa. Na verdade, morava em um apartamento pequeno com um único quarto e uma cozinha minúscula. Ela tinha condições para alugar algo melhor em outra parte da cidade, mas isso significaria morar longe do distrito policial. Ela era dedicada ao trabalho e não se conformaria com uma vida confortável enquanto trabalhasse na área pobre da cidade.

A lanchonete embaixo de seu apartamento já estava fechada. Antigamente, o lugar funcionava como um bar, porém com a Lei Seca agindo na cidade, o dono o transformou — mesmo que ainda vendesse álcool ali depois das oito da noite. O prédio era relativamente novo, com uma pintura marrom-avermelhada que fazia-o sumir em meio à cidade. Era isso que Lexa procurava: não ser notada.

Ela subiu as escadas para seu apartamento sentido o peso das horas extras de trabalho nas costas. Desde que lhe jogaram o caso do Assassino do Beco, não sabia o que era tempo livre. Ele matara três mulheres embaixo do seu nariz e ela não podia ter um minuto de folga. Não se permitiria a isso.

Estava tão cansada que sequer trocou seu terno por um pijama. Deitou-se na cama da maneira que estava, tirou os sapatos e aconchegou o melhor que pode no cobertor ralo que tinha. Antes que percebesse, os seus olhos se fecharam e caiu no mundo dos sonhos.

 


 

O grito de terror ecoou por todos os casebres do lado esquerdo da rua. Pensando que fosse um sonho, Clarke se recusou a abrir os olhos. Os sacolejos de Raven, no entanto, não a permitiu que continuasse na cama. O semblante da amiga era de completo pavor, e por isso Clarke imediatamente se levantou. Nunca vira Raven com aquela expressão antes.

— O que houve? — Clarke perguntou enquanto colocava uma camiseta e se esforçava para sair do casebre com Bellamy e Lincoln querendo fazer o mesmo.

— Parece que houve outro assassinato — disse Bellamy levianamente. Ele se afastou da porta para que Clarke e Raven passassem na frente.

Logo após sair do minúsculo casebre, Clarke se deparou com uma pequena aglomeração em frente ao número 89, duas casas abaixo da sua. Não havia sinal da polícia, apenas curiosos que saíam e entravam no local sem o menor pudor. A garota comandou o comboio de sua casa e empurrou os vizinhos na tentativa de entrar no lugar.

Ela conhecia quem morava ali, por isso foi um choque ao entrar no único cômodo e se deparar com um corpo totalmente aberto deitado na cama. Clarke se sentiu tonta e se apoiou em Raven, que também não estava se sentindo bem. Ela se obrigou a manter o olhar no corpo, porque mesmo sem ter qualquer sinal de reconhecimento, sabia quem era.

Harper McIntyre era uma garota doce que acabara de completar 26 anos. Sua vida não era a mais difícil dos que viviam no Beco, mas ela tinha sua cota de tragédias assim como todo mundo. Trabalhava no hospital do bairro e quando se encontrava disponível, tratava as feridas de Clarke, sem jamais questioná-la onde as arranjara.

As mãos de Clarke se fecharam em punhos e ela tentou não deixar que suas lágrimas caíssem no chão empoeirado da casa de Harper. Nenhuma das vítimas do assassino fora tão picotada como Harper, seu rosto estava irreconhecível, seu coração estava colocado dramaticamente na cabeceira da sua cama junto com um de seus rins. Parte do seu seio esquerdo fora jogado de lado próximo à lareira. Seu torso era uma confusão de ossos, pele e carne.

— Não há sangue — observou Clarke. Ela suspirou e tomou coragem para se aproximar do corpo. Assim como nos outros casos, o assassino drenara todo o sangue da vítima.

Clarke pediu para que Raven e Lincoln tentassem controlar a multidão que se juntava do lado de fora. Quando conseguiu manter todos longe, fechou a porta do barraco de Harper e analisou a cena do crime.

Não havia rastros de arrombamento na porta da frente ou na que levava ao quintal, mas isso não provava nada. Poucas pessoas que moravam na rua tinham maçanetas com fechaduras eficazes. Clarke era uma delas. Muitos iam e vinham dos vizinhos e sequer se importavam com isso. Apesar da pobreza, eram unidos e Clarke jamais desconfiaria que algum de seus vizinhos fosse o assassino.

Ela se agachou próximo ao corpo e examinou de perto o torso de Harper. O assassino fizera questão de deixar sua marca registrada: três triângulos entrelaçados no braço esquerdo da vítima. Era assim que Washington inteira sabia dos crimes que tinham ligação a ele. O significado, no entanto, permanecia um mistério para a polícia e a população.

— Eu sinto muito — murmurou Clarke, ainda ao lado de Harper. Seu corpo inteiro doía, tanto física quanto mentalmente.

Deveria ter protegido seus amigos melhor. Ela se aventurava pelas ruas do Beco para proteger aquela população tão destratada pelo distrito policial ali perto. Ela queria pegar o assassino e fazê-lo pagar pelo que fizera, não só por Harper, e sim por todas as mulheres que ele já matara até agora. A contagem só aumentava e Clarke continuava sem nenhuma pista de sua real identidade.

Sentia que o povo do Beco esperava que ela aparecesse com o assassino e não a polícia. Mesmo que ninguém soubesse sua real identidade, Clarke ouvia as mulheres comentando sobre o Vigilante nas vendas e homens discutindo o mesmo nas tavernas. Agia nas sombras porque sabia que, uma hora ou outra, alguém iria aparecer para ameaçar sua família. Octavia, Raven, Bellamy e Lincoln eram a sua família.

Harper era uma amiga querida e se fora violentamente. Quanto tempo ela tinha para que qualquer um de seus colegas de casebre morressem pelas mesmas mãos que assassinara sua vizinha?

— Clarke! — Raven exclamou ao abrir a porta, assustando a garota. — Nós temos que ir. A polícia já chegou e vai cuidar de... bem... você sabe.

Ela já se acostumara com a falta de tato de Raven, mas, naquele momento, apenas lançou um olhar furioso à amiga. Clarke continuava agachada próxima à Harper e mandou Raven ir embora sem ela. Era a Vigilante e estava na hora de ter uma conversa com quem quer que estivesse no comando policial daquele caso.

Clarke não esperava, no entanto, que a detetive encarregada do caso fosse a mulher mais bonita que já vira em toda sua vida.

Seu terninho passava mais autoridade do que qualquer policial à paisana que Clarke encontrara pela cidade. Era muito bem alinhado, de cor preta, mesmo que desse para perceber que não vinha das lojas caras do centro. O cabelo longo e castanho estava preso em um rabo de cavalo bem justo e seu rosto sem nenhuma maquiagem estava com uma expressão determinada.

A detetive se impôs dentro do cômodo de Harper com uma única olhada. Ela examinou o lugar atentamente e então seus olhos pararam em Clarke, como se a garota também fosse parte da cena do crime. Clarke sustentou seu olhar e as duas se encararam, tentando reconhecer pontos fracos uma da outra, por longos minutos. Enfim, a detetive se cansou e pediu para que Clarke se levantasse com apenas um gesto.

— Obrigada por manter toda aquela gente do lado de fora — disse a detetive de maneira dura, como se agradecimentos lhe doessem na alma. — DCPD está no comando agora.

— Vocês deveriam estar no comando quando a primeira mulher foi morta — retrucou Clarke, se aproximando da detetive e enfiando o dedo no seu peito. — Não quando a quarta vítima está deitada nessas condições na própria casa!

A detetive mordeu o lábio e assentiu à provocação de Clarke. Ela recuou, sem entender. Se fosse qualquer outro policial, em especial um homem, Clarke já estaria a caminho da delegacia por desacato a autoridade.

— Tem razão — concordou a mulher, colocando as mãos na cintura. — Nós fomos bastante irresponsáveis de ignorar os assassinatos. Estou trabalhando no caso desde o início e cada mulher morta é como um soco no meu estômago.

Clarke sabia que não podia tomar a palavra de um policial como verdade, mas a detetive parecia realmente arrependida de não ter dado devida atenção ao caso. Ela se perguntou se a mulher teria recursos suficientes para comandar uma operação daquele tamanho em um dos bairros mais pobres de Washington.

— Detetive Alexandra Woods. — A mulher estendeu a mão para Clarke. O seu rosto não expressava nenhuma emoção, mas Clarke imaginou que ela não se apresentava assim para todo mundo.

— Clarke Griffin. — Aceitou a mão de Alexandra e a apertou com firmeza. — Espero que a partir daqui a senhora consiga fazer um trabalho melhor.

— Senhorita — corrigiu a detetive com um sorriso mínimo. Então, voltou à fortaleza que era até segundos antes. — Você conhecia a vítima, Clarke?

Alexandra pegou um bloco de notas junto de uma caneta e escreveu tudo o que Clarke falou sobre Harper. Ela ficou impressionada com o conhecimento de medicina da mulher, mesmo que não pudesse realmente afirmar que sua linha de pensamento era verdade até que os legistas chegassem. A detetive tirou o que ela podia tirar de Clarke, desde o número da casa de Harper até o que os vizinhos do casebre faziam para sobreviver.

Clarke não viu opção a não ser contar o que sabia. Apesar de ter sua própria investigação, sabia que jamais teria os contatos que a polícia tinha ou tecnologia para descobrir sozinha quem era o assassino. Não confiava em policiais, porém a detetive parecia certa da cabeça. Só havia algumas peças em seu quebra-cabeça que não encaixavam totalmente.

— Seu depoimento esclareceu muitas coisas para mim, Clarke — Alexandra disse em tom de agradecimento. — Onde posso encontrá-la se precisar de você de novo?

— Duas casas acima — apontou Clarke para a esquerda. — É a porta com a maçaneta dourada.

— Obrigada. Chamarei você à delegacia se precisar.

Clarke fez uma careta que não passou despercebido pela detetive.

— Algum problema? — ela indagou com a sobrancelha arqueada.

— Nós do Beco não gostamos muito de delegacias — admitiu Clarke, dando de ombros. — Ou policiais.

Alexandra assentiu como se soubesse do que Clarke estava falando.

— Ah, os legistas chegaram. — Alexandra espiou pela janela e acenou para dois homens de branco. Ela se virou para Clarke e apertou sua mão novamente. — A sua ajuda foi imensa, senhora Griffin. Mesmo com o desacato, a polícia de Washington está em débito com você.

— Senhorita — corrigiu Clarke. Ao contrário de Alexandra, ela não sorriu, mas deu uma piscadela para a detetive.

Clarke saiu da casa de Harper e evitou as perguntas constrangedoras dos vizinhos até estar a salvo no próprio casebre. Não havia mais ninguém ali. Todos já tinham ido trabalhar. Clarke era a única que não conseguia um emprego “bom”. Suas refeições eram pagas com o dinheiro de lutas desde que completara 18 anos.

Ela cresceu no Brooklyn e teve uma infância feliz até que a Grande Guerra aconteceu e seu pai foi morto no front. Abby, mãe de Clarke, entrou em depressão profunda e nunca mais foi a mesma. Jaha, grande amigo da família, ofereceu para pagar a internação de Abby em um asilo.

Desde então, Clarke vivia sozinha. Jaha até ofereceu para pagar-lhe uma faculdade, mas ela recusou. Não podia colocar em palavras o tanto que adorava o homem pelo que fizera por sua mãe, porém não podia pedir mais. Ela se mudou para Washington e conheceu Raven ao salvá-la de um assalto. Sem dinheiro para hotel ou lugar para morar, Raven a aceitou em sua casa simples no Beco.

Lutar estava em seu sangue, Clarke poderia dizer. Jaha contava inúmeras histórias sobre como seu pai era um grande boxeador. Ela já assistira algumas de suas lutas ao vivo e o venerava. Antes de partir para a guerra, seu pai lhe ensinara muito de boxe e outros tipos de luta. Com sua morte, Clarke jamais completou o treinamento, porém levou o conhecimento que obtivera para sempre consigo.

Ela desabou em sua cama e sentiu as dores da luta da noite anterior. Ainda não se recuperara totalmente. Lincoln era um bom enfermeiro, mas Harper era a única na rua realmente formada na profissão. Sem ela, como Clarke iria cuidar de seus ferimentos? Tinha poucos amigos e ela não pretendia aumentar seu círculo de amizade só para ter um médico particular.

Não estava com sono, tampouco. A mente dela voltava à primeira troca de olhares entre ela e Alexandra. Como os seus olhos verdes brilhavam mesmo com a falta de perspectiva no trabalho que fazia. Clarke conhecia aquele olhar. Ela já o vira em um reflexo depois de desacordar dois ladrões. Clarke amava o que fazia, mesmo com as reviravoltas, as exaltações e um ou outro soco que levava. Sentia que a detetive passava pela mesma coisa.

Será que Alexandra sabia da existência do Vigilante? A polícia nunca tinha lhe perseguido ou tomado conhecimento de seus atos. Pelo que sabia, não havia informantes do distrito no Beco da Perdição. Não ficou surpresa com isso, porém. A força policial no Beco era tão fraca que a visita da detetive hoje valeria para os próximos três meses.

Clarke soltou um suspiro e olhou para as louças sujas do jantar e do café na pobre pia. O ponto negativo de trabalhar à noite é que lavava todas as louças. Era uma boa ocupação depois da manhã tensa que tivera, pensou.

Com esforço, Clarke se levantou e se preparou para deixar as louças com um brilho excepcional ou então enfrentaria as consequências de Raven Reyes.

 


 

Quando Aden mencionara Griffin, Lexa imaginou uma mulher enorme e seguiu em frente. Não se interessava pelas maneiras que Aden conseguiria a informação, apenas que ele a conseguisse. Ao chegar na cena do crime, sua percepção mudou completamente, pois Griffin não era nada como pensara. Ela era amiga da vítima e lhe deu um depoimento preciso sobre o assassino e seu modus operandi. Seus instintos disseram que ela era confiável desde o instante em que pusera seus olhos em Clarke.

Mesmo assim, ainda tinha que ouvir a palavra dos legistas. Deixou a cena do crime para seus colegas e partiu para a delegacia onde o chefe da polícia estava lhe esperando. No caminho, comprou um jornal que ilustrava a manchete “Polícia fracassa em trazer assassino à justiça”, sem ainda saber dos acontecimentos dessa manhã. Lexa temia a fúria do chefe e a reação da imprensa quando descobrissem que o assassinato daquele dia era o mais violento até àquele momento. Ela sabia que não trazia resultados e esperava que fosse tirada do caso em poucas horas.

Não era uma policial incompetente, ela se lembrou repetidas vezes durante o percurso até a delegacia. Era um assassino em série e qualquer coisa que sabia sobre homicídios era jogado de lado. Ele não cobria nenhum dos protocolos que Lexa estudara na academia. Aprendera a estudá-lo ao longo dos meses, mas não era o suficiente. O Assassino estava sempre um passo à frente.

Ao chegar à delegacia, cumprimentou a secretária do chefe com um aceno de cabeça e pediu para vê-lo. Como esperado, Titus já a aguardava. Lexa entrou no escritório e tentou não encarar a cabeça careca do chefe enquanto ele andava em círculos por sua mesa.

— Estamos com problemas, Alexandra — disse Titus, indicando a cadeira para que Lexa se sentasse. — O secretário de segurança está no meu pé há dias e eu não posso mostrar nada a ele. Sabe por quê?

Era uma pergunta retórica, por isso ela limitou-se a esperar Titus explodir.

— Porque eu não tenho nada! — Titus bateu com a mão na mesa e Lexa se sobressaltou por reflexo. — Seis meses, Alexandra, e eu não tenho nada! Esse cara anda matando mulheres a torto e a direita e a polícia não têm nada para entregar ao secretário ou à imprensa! Sabe como isso me deixa?

Outra pergunta retórica. Lexa permaneceu quieta.

— Eu estou para ser exonerado. — Titus finalmente se aquietou e se sentou atrás de sua mesa. Ele encarou Lexa profundamente. — E, se for, posso garantir que você vai junto comigo.

Lexa engoliu em seco. Sabia que era sua hora de dar alguma explicação ao seu chefe, mas não tinha nenhuma carta na manga. Não tinha nenhuma carta em lugar nenhum, na verdade. Sua melhor opção era entregar o distintivo por qual tanto lutara e se contentar em arrumar um emprego de secretária num escritório qualquer.

— Não vai me dar nenhuma resposta satisfatória? — Titus indagou depois de alguns minutos de silêncio profundo.

— Não posso ser desonesta, senhor — respondeu Lexa. — O Assassino está fora do meu alcance. Achei que pudesse ser melhor que ele, mais esperta que ele, mas fracassei. Deixei aquelas mulheres morrerem. Não há ninguém que possa...

Uma ideia surgiu no fundo da cabeça de Lexa. Ela poderia unir forças com alguém. Alguém que conhecia a região do Beco e suas mulheres. Alguém que se dispunha a ajudá-las quando a polícia não fazia. Alguém com tendências suicidas que colocava a população na frente mais do que tudo.

Ela pediria ajuda ao Vigilante.

— Então...? — Titus chamou sua atenção.

— Me dê mais duas semanas, senhor — pediu. Seus olhos desesperados pareceram convencer Titus. — Duas semanas e vou juntar pistas sobre o assassino e, se possível, pegá-lo.

Se possível? — perguntou Titus, irritado.

Lexa se levantou, determinada.

— Eu vou pegá-lo.

E saiu do escritório do chefe. Sentia suas mãos tremendo. Apenas quando estava para entrar em seu carro e voltar à sua delegacia que percebeu um pequeno problema em seu engenhoso plano.

Ela não conhecia o Vigilante. Não sabia sua real identidade e o trabalho de Aden ainda estava no começo. Como faria para encontrar o Vigilante pelas ruas? Supôs que ele não trabalhava em plena luz do dia, então Lexa teria de esperar até à noite para começar a procurá-lo.

Lexa não sabia muito sobre o Vigilante. Sabia que sua primeira aparição no Beco era anterior ao início da onda de assassinatos e que atuava principalmente ajudando mulheres. Seus métodos, como ele parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, alguns detalhes da sua aparência para começar a pensar em uma identidade... Lexa não fazia ideia. O Vigilante era um caso de outro detetive de seu distrito. Nunca se interessara por ele.

Aden mencionara que o Vigilante tinha interesse em pegar o Assassino por conta própria, mas Lexa não o permitiria. Queria trabalhar em conjunto sim, mas precisava do crédito para livrar ela e Titus da demissão iminente. Imaginou que teria de trabalhar o conceito com o Vigilante. Esperava que ele não fosse tão bruto quanto Aden o pintara.

— Preciso de todos os arquivos que você tem no Vigilante — pediu Lexa ao detetive que cuidava do caso assim que chegou na delegacia.

Gustus a olhou como se estivesse pedindo o impossível.

— Vai pegar outro caso para não resolver, Woods? — ele zombou, rindo da própria piada.

— Acredito que o Vigilante esteja conectado com o Assassino — respondeu Lexa sem se deixar abalar.

— Espero que esteja — murmurou Gustus, levantando-se e indo até uma das prateleiras atrás de sua mesa. Ele pegou um arquivo grande e entregou nas mãos de Lexa com uma expressão mal-humorada. — Faça bom uso. Pegue-o para mim e fique com todo o crédito. Sei que está precisando.

O estômago de Lexa se revirou de raiva, mas ela não daria aquele gostinho à Gustus. Arrumou a pasta em seu braço e entrou em seu escritório, pronta para estudar cada pedaço do Vigilante que a polícia tinha conhecimento sobre.

Lexa não precisou de muitas horas do seu trabalho para ler tudo o que Gustus tinha reunido sobre o Vigilante. Ao que parecia, o seu colega estava tão perdido quanto ela em relação ao seu caso. Havia mais especulação do que qualquer outra coisa. Gustus enumerou as testemunhas por ordem cronológica e todos os depoimentos eram apaixonados demais para que Lexa tirasse qualquer conclusão concreta.

As descrições sobre a aparência do Vigilante também não eram exatas o suficiente. Alguns afirmavam que ele era alto e ágil, com “habilidades super-humanas”, o que fez Lexa rir. Outros já diziam que era uma criatura encorpada que conseguia derrubar ladrões com apenas um soco. Ele usava os telhados para se movimentar e frequentemente era visto derrubando os criminosos com um golpe bem dado.

A única coisa congruente em todos os depoimentos era que o Vigilante sempre ajudava as mulheres primeiro. Isso fez Lexa pensar. Havia homens bons no mundo, tinha quase certeza disso, mas ela duvidava que existiria um homem tão interessado em mulheres a ponto de protegê-las de crimes. Se existisse, ele definitivamente contaria para os quatro ventos o que fazia na calada da noite.

O Vigilante era uma mulher, concluiu Lexa sem muito esforço. Somente uma mulher protegeria outra com tanto afinco. Tal como ela desejava fazer pelas mulheres mortas no Beco da Perdição.

Restava agora descobrir quem. Ao pensar na manhã que passara no casebre da pobre garota morta daquele mesmo dia, Lexa não teve dúvidas quem deveria contatar para resolver aquele mistério. Ela olhou para o relógio na parede da sua sala. Era quase seis horas, horário da troca de turno, e Aden deveria voltar à delegacia a qualquer momento.

— Indra? — Lexa chamou a recepcionista pelo telefone. — Quando o Aden voltar, diga para ele subir aqui.

— Entendido, detetive Woods — disse Indra em seu tom de voz monótono.

Lexa desligou o telefone e parou em frente ao quadro que montara com informações do Assassino do Beco. Ela ainda não acrescentara a quarta vítima à parede. Solenemente, ela escreveu o nome de Harper McIntyre no quadro e colou sua foto embaixo. Parou para observar e dar um minuto de silêncio diário que as vítimas mereciam.

O modus operandi era o mesmo. Nenhuma vítima foi encontrada com muito sangue em seu corpo. Todas tinham uma parte dos órgãos do lado de fora do corpo — fígado, estômago, pulmão e coração junto dos rins, respectivamente. O Assassino fora mais cruel com Harper. Talvez ele a conhecesse? Lexa precisava anotar isso.

É claro, o que realmente definia a vítima como uma do Assassino era os três triângulos entrelaçados marcado em fogo em alguma parte da pele, como se aquelas quatro mulheres fossem de alguma forma propriedade dele, mesmo mortas.

Aqueles triângulos faziam as mãos de Lexa tremerem. Fazia com que algo sombrio surgisse de seus sentimentos mais íntimos. Uma raiva que não cabia em si. O Assassino era um sádico que provavelmente jamais tivera algum tipo de amor em sua triste vida. Lexa sentia ódio e pena, além de desprezo.

As batidas na porta a tiraram de seu devaneio. Lexa mandou que a pessoa entrasse e não se surpreendeu ao ver Aden na sua frente, ainda com o uniforme da corporação. Ele era um garoto muito dedicado e não duvidada que estaria andando pelos corredores com um distintivo de detetive em pouco tempo.

— Indra disse que você me chamou — Aden falou naquele tom sério de sempre. Rara eram as vezes que Lexa vira o garoto sorrir.

— Sim. Eu, hm, preciso que você volte ao Beco. Eu tenho uma pista sobre o Vigilante.

Aden franziu o cenho, confuso.

— Não estávamos caçando o Assassino?

— Sim, mas preciso de uma aliança com o Vigilante. — Lexa pausou. — A Vigilante. É uma mulher. Quero nomes de quem pode ser. O esquema de sempre. Não chame muita atenção para você. Escute mais do que fale. Sabe como funciona essas coisas.

Aden assentiu. Se ficou surpreso pelo fato do Vigilante ser uma mulher, ele não deixou seu rosto demonstrar.

— Devo ir essa noite? — ele indagou. — Hoje não deve haver lutas no ringue do Pike.

Lexa ponderou. Apesar da urgência da situação, ela duvidava que o bairro estaria naquela noite no clima para espionagens. Ela negou com a cabeça.

— Deixe-os enterrar a quarta vítima. Amanhã à noite você vai. Hoje, nem a Vigilante deve trabalhar.

 


 

Clarke aprendera ao longo dos meses a pisar levemente nos telhados do Beco, mas às vezes escorregava e provavelmente assustava as pessoas que moravam embaixo. Isso acontecia muito quando se distraía com algo. Naquela noite, a segunda após a morte de Harper, Clarke pensava no magrelo que vira espionando o funeral da sua amiga.

Era o mesmo magrelo que a vencera no ringue de Pike no início da semana. O Beco era uma comunidade unida e todos gostavam de Harper, mas não havia motivo para que o garoto estivesse ali. De acordo com Pike, ele acabara de chegar no bairro. Clarke estava desconfiada. Ela pensou em confidenciar a Raven o que pensava, porém imaginou que a amiga a chamaria de louca.

Nenhuma pessoa com quem dividia o casebre sabia que ela era a Vigilante. Sentia-se tentada a contar, e desconfiava que pelo menos Lincoln suspeitava da sua identidade secreta, mas era perigoso demais. Se algo acontecesse com algum de seus companheiros, ela não saberia o que fazer. Seu trabalho era isso: somente seu.

Clarke observou a escuridão que assolava o Beco. Não era todo dia que os postes de luz funcionavam perfeitamente. Com o Assassino, nenhum prestador de serviço da prefeitura queria trabalhar na região. O pânico era tanto que eles esqueciam que eram em sua maioria homens e todas as vítimas eram mulheres.

Não houve muito movimento nas últimas duas noites. Até os ladrões de carteira e estupradores em potencial tinham medo do Assassino do Beco. Clarke não sabia se sentia alívio com isso ou não. A calmaria das ruas a fazia pensar e seus pensamentos lhe distraíam dos passos certeiros no telhado. Foi pensando na identidade verdadeira do magrelo que ela pisou em falso e quase levou o casebre por onde passava abaixo.

Ela se xingou baixinho, pulando para uma plataforma mais firme. Um grito cortou a noite silenciosa. Clarke limpou a mente e ficou ereta, esperando ouvir o berro desesperado novamente. Quando o som estridente se fez ouvir mais uma vez, ela começou a correr em sua direção. A pessoa ataca estava perto, talvez um ou dois quarteirões de distância.

Clarke apressou o passo. Enquanto corria pela noite, ela colocou a bandana que usava para esconder seu rosto. Parou derrapando em uma calha, apurando os ouvidos. Tudo acontecia embaixo dela.

— Ele não vai te salvar — disse alguém cruelmente.

— Você está sozinha... — falou outra pessoa. Seu tom era mais soturno que seu companheiro.

Um som de zíper se fez ouvir. As entranhas de Clarke se contorceram ao escutar o grito mais estridente da mulher que estava prestes a ser violentada. Ela se empoleirou na calha e analisou a situação. Os dois homens pressionavam a mulher na parede contrária à Clarke. Ela desceu agilmente e caminhou de modo silencioso até os criminosos.

Era preciso estratégias e controle da situação para vencer. Os homens que enfrentava não eram muito inteligentes, mas eram brutos e sabiam usar seu corpo para bater em outros. O que eles não esperavam era que seu adversário saberia lutar também.

Clarke cutucou as costas de um deles e arqueou a sobrancelha.

— Surpresa — ela sussurrou, sorrindo por baixo da bandana. A expressão de terror dos agressores ao perceber quem estava ali era sempre gratificante.

O homem jogou o primeiro soco, e Clarke desviou. A diferença de altura foi essencial para sua estratégia. Ela levantou a sua guarda e enfiou um soco no lado direito do homem. Ele cambaleou e Clarke aproveitou para lhe dar uma joelhada no meio das pernas. Era um golpe baixo proibido por Pike no ringue, mas não havia regras na rua.

O homem gemeu e caiu no chão. Ela terminou a luta com um chute na cabeça do adversário, que continuou no chão desacordado. Clarke se virou para o segundo homem, que acompanhava tudo como se quisesse entrar na briga. Ao ver o companheiro desmaiado, contudo, talvez tenha pensado melhor. Ela não precisou de muito para mandá-lo correr.

— Você está bem? — Clarke questionou a mulher, ainda aterrorizada pela situação. Ao olhar mais atentamente, percebeu que a vítima não passava de uma garota, talvez mais nova que ela. A raiva ferveu em seu íntimo.

A garota aceitou a ajuda para levantar. Clarke queria tirar sua bandana e confortá-la, mesmo sabendo que não poderia. Ela se afastou um pouco. Já tivera algumas vítimas que tentaram puxar sua máscara e a situação ficara desagradável para ambos os lados.

— Vai levar um tempo para me recuperar — a garota disse, acanhada. Ela fitou Clarke de maneira agradecida. Aquele olhar, Clarke pensou, fazia tudo valer a pena. — Muito obrigada.

Clarke acenou à medida que a garota ia embora na direção contrária ao que o agressor fugira. Ela usou um cano de escoamento da chuva para voltar ao topo do Beco e acompanhar a menina. No entanto, ao subir, havia outra silhueta lhe seguindo à distância. Clarke se virou e ficou encarando a sombra. Era magricela e alta. Não dava para saber se era um homem ou uma mulher.

— Vigilante — disse. Sua voz era grave e solene; um garoto, provavelmente. Clarke achou engraçado o tom de reverência que ele usava. — É difícil navegar por esses telhados. Como você consegue?

— Anos de prática — respondeu Clarke secamente. Ela tentou deixar sua voz mais grossa e diferente do normal. — Não deveria estar na cama?

O garoto soltou uma risada que mais parecia um grunhido.

— Sou mais velho do que aparento. — Ele fez uma pausa e avançou um passo na direção de Clarke. Imediatamente, ela se afastou. O garoto ergueu as mãos em um gesto de rendição. — Desculpe-me. Seremos distantes, então.

— Prefiro assim. Fale o que quer.

— Trabalho para a detetive que acompanha o caso do Assassino do Beco. Ela deseja sua cooperação para encontrá-lo e levá-lo à justiça.

Clarke arqueou a sobrancelha, surpresa, sem se importar se ele vira o seu gesto. O trabalho não estava indo bem para a polícia, isso não era nenhuma surpresa. Mas para pedir ajuda a alguém que agia ilegalmente por aí? A detetive Woods deveria estar bem desesperada.

Só a imagem da policial de terno na casa de Harper dias antes fez a barriga de Clarke dar uma gostosa cambalhota. Ela não queria admitir, mas passara os últimos dois dias pensando em Alexandra Woods. A mulher era bonita demais para seu corpo e mente surrados pela dureza do Beco, mas isso não impediu Clarke de imaginá-la de volta naquela espelunca apenas para conversar com ela.

— Isso é... inesperado — ela conseguiu falar após um tempo ridiculamente longo. — Pensei que a polícia me desprezasse.

— 99% da delegacia, sim — admitiu o garoto, anuindo a cabeça. — Nós, não. Achamos que a sua visão... intimista... da vida no Beco é o que precisamos para levar o Assassino à justiça.

— Eu não sei nada sobre o Assassino — argumentou Clarke. — Não mais do que vocês, garanto.

— Mas você vive aqui. Conhece todo mundo. Sabe a rotina do Beco mais do que ninguém. — O garoto parecia desesperado. Ele parou e respirou fundo. — Nenhum homem faria o que você fez. A detetive precisa de uma figura feminina tão forte quanto ela nisso.

O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelos miados desesperados de um gato esfomeado, longe dali. Clarke parecia ter congelado. A polícia e os meios de comunicação de Washington eram estúpidos demais para acreditar que uma mulher poderia fazer o que ela faz, então se sentiu livre por um tempo.

Mas agora, Clarke finalmente tinha um adversário à altura. Alguém que deveria entender as dificuldades que ela sentia todas as noites quando saía para bater em algum criminoso.

— Tudo bem — Clarke disse por fim. — Algumas condições: você, e apenas você, me trará informações do distrito. Encontros à noite, em lugares diferentes do bairro. Vou te falar no encontro anterior o próximo local. Sempre mantenha distância.

O garoto anotou tudo num bloquinho de notas, e Clarke tinha que admirar seu compromisso com a detetive para quem trabalhava.

— Mais uma coisa, magrelo — chamou Clarke quando o garoto acenou e se preparou para descer do telhado. — Qual é o seu nome?

— Vai me contar o seu? — questionou o garoto ironicamente.

E então, pulou na escuridão. Clarke perguntou para si se fazia a coisa certa em confiar na polícia.