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Muito tempo antes de conhecê-la, Saeroyi sentia-se constantemente dominado por emoções secas e desesperançadas, como se estivesse cheio de algo muito longe de preenchê-lo. Mesmo que naquele tempo ele estivesse disposto a aceitar que esse seria seu único legado, a presença de Yi-seo, sendo a gerente de seu bar e sua amiga malcriada, não permitia mais que ele ignorasse o desejo de pensar que poderia querer ser feliz e seguir uma vida fertilizando as inimizades do ódio, da tristeza e do cansaço.
A mulher, genial e bonita como um anjo rebelde, o deixava emocionado de maneiras grandiosas, ele podia admitir esse fato há seis meses, quando permitiu-se ir além da fumaça para enxergar que ela o revitalizava, como aquele beco moribundo em Itaewon que ele próprio ajudou a voltar a respirar. No passado sombrio, Saeroyi era denso e sobrecarregado, por isso demorou tanto — infelizes quatro anos —, mas ele já não era uma coisa nem outra, ao contrário: era plenamente consciente da onda que sua namorada fazia jorrar em sua mente, articulações e linhas cheias de sangue do corpo.
O coração dele era domado, corria para tudo que ela fazia e com tudo minimamente relacionado à Yi-seo. Saeroyi estava em um estado de adoração crescente e latejante; ele gostava de vê-la lendo com os olhos gateados atentos e a boca rosa reagindo às linhas escritas com pequenas dobras aborrecidas ou contentes. Gostava de como a pele clara dela refletia as roupas escuras e as luzes coloridas do DanBam. Gostava de como ela era física e quente ao seu redor, como um sol que só saía de trás das nuvens para felicitá-lo. Gostava de quando ela se tornava orgulhosa por conhecê-lo melhor que ninguém. Gostava de vê-la sorrir sorrisos grandes, que movimentavam todas as partes do rosto. E, sobretudo, Saeroyi gostava muito de amar Yi-seo.
Amar Yi-seo não era banal. Ela jamais o enganou sobre a condição disfuncional do seu cérebro, sobre o exercício, doloroso para ela e ainda mais para os outros, que tinha de fazer para ter senso ético, perceber as pessoas e seus sentimentos. Então, quando ela dizia coisas como “Amar você é um milagre, estive te esperando desde sempre”, ele entendia prontamente a profundidade das suas palavras e a beijava nas mãos, na boca e na têmpora, grato em níveis árduos por ser o escolhido do seu coração.
Frequentemente, aparecia em Saeroyi uma sensação doída de incredulidade por ela ser sua e habitar sua vida. O que tinha feito para merecê-la? Tinha medo de uma resposta que evocasse o fim de um sonho ou da sua boa sorte. Por isso, ele respirava entrecortado, sentindo dor na carne, se colocando a fazer mais uma das coisas que gostava: vê-la dormir, porque em dias como hoje, era a única forma de aliviar-se do medo e da ansiedade.
Agora, Yi-seo está dormindo ao seu lado, usando tranças gêmeas nos cabelos pretos e uma das camisas dele, que nela transforma-se em um vestido médio. Saeroyi a observa pelo que pode ser mais de vinte ou trinta minutos. Ali, dentro do edredom de algodão, ele sustenta sua cabeça com o braço direito e encaixa o esquerdo na cintura dela para beber do seu perfume suave.
Momentos mais tarde, Yi-seo, inquieta com o movimento, vira o corpo para deitar no peito de Saeroyi. Ela permanece de olhos fechados, mas balbucia palavras como se fosse um bebê de um metro e setenta. Ele pensa que ela continua adormecida, mas não é verdade.
“Não consegue dormir?”, Yi-seo pergunta com preguiça e rouquidão na voz. Ele a acolhe melhor cruzando os braços sobre suas costas quentes.
“Só acordei por um momento. Volte a dormir.”
“Hm”, ela murmura. Para olhá-lo e ajustar a visão à escuridão sutil do quarto, Yi-seo apoia seu queixo sobre suas mãos, que, por sua vez, se apoiam no corpo dele. As tranças emolduram seus ombros como duas fitas de tecido musseline e a franja curta abre-se no centro da testa. Desperta, ela rejeita a resposta que não acredita. “O que há de errado?”
“Não tem nada errado”, Saeroyi responde, sorrindo.
“Você está mentindo. Seu coração está disparado e você está sorrindo estranho.”
O rigor das palavras dela faz Saeroyi esquentar e transforma o sorriso dele em farelo que é levado embora por uma espécie de vento insensível. Ele exala para destravar as dobradiças do rosto. “Tem certeza que quer conversar agora? São quatro da manhã, devíamos tentar dormir.” Ele não compreende bem o motivo de ainda tentar negociar para mantê-la longe das suas preocupações. Ela as fareja como um animal veloz do topo da cadeia alimentar seguindo o sangue. Ela sempre sabe das feridas abertas dele e Saeroyi jamais poderia renegar essa regalia, porque apenas Yi-seo pode remendá-las.
“Não vou conseguir dormir sabendo que você está incomodado. Vamos lá, me conte o que está acontecendo.” Yi-seo morde a bochecha por dentro e duas covinhas ocupam o espaço de fora. Seus olhos são afiados, sequer demonstram que estiveram dormentes três minutos antes, e é assim que Saeroyi sabe que não pode mais debater.
“É que... Eu estou feliz”, os olhos dele ardem nos cantos. Yi-seo deixa suas sobrancelhas ganharem contornos apreensivos ao perceber a emoção na entonação dele. “Tenho medo de perder isso... Você... Fico pensando que vou acordar um dia e tudo vai voltar a ser amargo. Eu não conseguiria viver daquele jeito de novo.”
Com o coração espetado e com um frio desgostoso na barriga, Yi-seo desce a cabeça para beijá-lo abaixo das clavículas, bastante ciente do medo de Saeroyi. É um medo semelhante ao seu. Pessoas que por muito tempo foram infelizes, tendem a pensar em tudo desmoronando. Não é racional, é um hábito ruim, que leva tempo para ceder lugar a um hábito totalmente bom. Ela sabe que eles são esse tipo de pessoa e que ainda estão em processo de deixarem de ser.
“Eu também me sinto muito feliz e também tenho muito medo de te perder.” Ela toca no rosto de Saeroyi com os dedos abertos e ele se inclina em sua palma para aproveitar o máximo do carinho. “Mas eu lutei muito para estarmos aqui e eu nunca perdi antes, não vou começar a perder agora, então não se preocupe. O meu plano é ficar ao seu lado sempre, porque esse é meu único lugar no mundo.”
Saeroyi sente os olhos arderem mais ao tempo que o estômago parece livrar-se de uma nódoa violenta. Ele a puxa para cima para abraçá-la apertado. As pernas de Yi-seo enquadram os quadris magros dele e a respiração morna da garota em sua bochecha faz cocegas carinhosas. É confortável.
“Eu te amo, Yi-seo”, Saeroyi diz rápido, em um sopro. Ela sobe sua face e o presenteia com um dos seus sorrisos grandes, brilhante como uma pérola molhada. Ela o olha intensamente, fazendo ressoar nos ouvidos e na garganta de Saeroyi uma música que quase ninguém além dele pode ouvir. Yi-seo a ouve, a comanda.
“Diga de novo.”
Ele gira sobre o colchão para ficar em cima dela. Desse jeito, Yi-seo parece pequena feito uma boneca que caberia em seu bolso. “Eu te amo.” Saeroyi a beija na boca, recebendo bem a volta que os antebraços dela fazem em sua nuca.
“Me diga de novo, de novo e de novo...”, fala com a voz sendo um mero sussurro. Ela toca as linhas da mandíbula de Saeroyi com a ponta do nariz, sentindo a aspereza de uma barba que ameaça crescer, inebriada por uma brisa doce como aquela que sentiu no Parque Dongdaemun, quando se beijaram pela segunda vez. Em algum momento ela contaria sobre o primeiro beijo deles, mas o momento não seria esse. “Quero ouvir que você me ama todos os dias.”
“Todos os dias?”
“Todos os dias”, a frase é embebida por uma intransigência típica de Yi-seo.
“Tudo bem, falarei todos os dias.”
“Prometa.”
“Estou prometendo”, ele sorri e a beija novamente, mais profundo e mais desejoso dessa vez. Entre um beijo e outro, uma carícia e outra, ele continua, facilmente, dizendo que a ama, porque de todas as promessas que já fez, essa seria a mais simples de cumprir.
