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Mantenha a casa arrumada enquanto eu estiver fora

Summary:

Yi-seo exigiu que Saeroyi mantivesse a casa arrumada enquanto ela estivesse fora, porque ela pretendia voltar.

Work Text:

 

30 de dezembro de 2020

Jo Yi-seo se encostou na parede e torceu seus dedos.

Ela sabia que Park Saeroyi não era do tipo que usava sua boca para sustentar carrancas e bicos mal-humorados. O comum era ele manter os lábios trabalhando em sorrisos gentis, que tornavam seus olhos duas linhas curvadas.

Era raro vê-lo nervoso, com o semblante indicando que o mundo era um lugar muito infeliz, mas mais raro ainda era vê-lo com o cabelo fora da precisão do corte que mantinha desde a adolescência.

Yi-seo estava presenciando um desleixo atípico e aquilo causou profunda revolta e apatia a um só tempo; a pessoa que ela amava sempre mantinha o corte de cabelo antiquado não importava o quê, porque aquele corte de cabelo representava tudo o que ele era: regrado e simples.

E embora Yi-seo fosse muito dissemelhante dele — ela tinha problemas com regras e nada tinha de simples —, tudo que não fosse próximo ao que Saeroyi era, causava certa amargura e falta de interesse, por isso ela entristeceu mais: o Saeroyi que observava naquele momento, andando de um lado para o outro no corredor clínico e frio, nada parecia com o seu Saeroyi.

 

02 de fevereiro de 2021

Yi-seo olhou para o que um dia odiou.

O poá cinza no fundo azul era horrível e desafiava o gosto refinado dela. Saeroyi, o desafio personificado, quis colocar aquela poltrona em um lugar de destaque no quarto dos dois e, como sempre acontecia com tudo que envolvia um pedido e um sorriso do homem, ela cedeu.

Yi-seo lembrou-se de quando fora levada para o colo dele enquanto ainda abominava o objeto. Suavemente, ela recebeu um beijo pequeno no pescoço, um aperto afiado em sua cintura e palavras sussurradas contra sua pele. Desde então, a poltrona horrível tinha renascido como um bem precioso para ela, que guardava recordações importantes.

Ela queria que Saeroyi estivesse lembrando de algo como aquele dia, mas ele estava sentado na poltrona e chorava de um jeito que não deixava imaginar coisas diferentes de dor, mágoa e sofrimento.

Yi-seo quis intervir, dizer a ele que tudo estaria bem logo, mas ela não era capaz de dominar palavra ou ação nenhuma. Só o que podia fazer era esperar e clamar ao desconhecido para ver aqueles olhos enxutos e felizes novamente.

 

11 de março de 2021

A batida de fora da casa ressoou e ele encolheu-se na parte de dentro.

Uma porta estava separando Saeroyi de algum conforto que Toni, Hyun-yi e Seung-kwon poderiam proporcionar. Lentamente, as mãos dele acariciaram a madeira e seus dedos, bastante acostumados com o positivo, pareciam implorar para tocar a maçaneta e abri-la.

Yi-seo sabia que tudo estava errado naquela cena. Saeroyi não rejeitava ou renegava pessoas, ele as acolhia, como se seus braços compridos fossem condicionados a abraçar todas de uma só vez. Além disso, aquelas pessoas que estavam do outro lado não faziam parte de uma camada comum, elas eram suas boas amigas.

Quando foi que Yi-seo viu Saeroyi afastá-las? Não, jamais havia acontecido. Ela jamais viu um simples arranhão na pintura transgressora do quarteto estelar e jamais presenciou um silêncio vertiginoso e solitário como aquele saindo do seu marido.

Yi-seo ficou desesperada quando Saeroyi entrou no quarto e bateu a porta com raiva e agressividade, coisas que só apareciam nele em situações muito específicas. Ela sentou-se sobre os joelhos no tapete do vestíbulo e admitiu para seu próprio coração que o amor da sua vida estava em seu pior momento, e não poder ajudá-lo em coisa minúscula que fosse, a fez envergar de dor.

 

11 de março de 2017

As meias novas de Yi-seo eram realmente ridículas.

Quem no mundo adicionaria ao seu armário, muito elegante e dentro da moda, um par roxo estampado por gotas amarelas, estranhas e pequenas? Apenas Saeroyi tinha esse poder.

Ela empurrou sua cabeça para trás, sentindo os cabelos bebês da nuca agarrarem-se ao suéter muito vermelho que usava. Yi-seo analisou os pés, os seus e os dele, entortando a boca que insistia em querer sorrir, e achou que constrangimento não podia ser combinar meias com seu noivo, porque ela estava possuída por uma boa sensação; boa e quente.

Sentados no sofá, os dois começaram uma batalha inofensiva de caricias ágeis. Yi-seo ficou presa no meio das pernas de Saeroyi e não se esforçou bravamente para sair, afinal, era exatamente ali que ela queria estar: totalmente orgulhosa do seu novo par de meias favorito e envergada de tanta felicidade.

 

30 de abril de 2021

Yi-seo ficou ao lado de Saeroyi quando ele se sentou à beira da cama.

O corpo adormecido sobre o colchão demonstrava paz e serenidade, tudo que Saeroyi não possuía ao fazer juras de amor melancólicas e súplicas para que o corpo vazio despertasse.

Yi-seo implorou para que a força da sua vontade fosse capaz de movimentar algum dos dedos travados, fosse capaz de fazer a lâmpada do quarto do hospital falhar por um ou dois segundos, ou fosse capaz de fazer o vaso de girassóis espatifar-se no chão. Poderia ser qualquer uma dessas coisas ou outras tão sobrenaturais quanto, ela só precisava que uma delas indicasse a Saeroyi sua presença e que ela estava tentando voltar para a vida, voltar para casa.

Yi-seo não sabia quanto tempo mais aquilo duraria, às vezes, achava que seria para sempre. Ela já não suportava mais estar presa em um mundo em que não estava viva nem morta, que não era quente nem frio, que não era dia nem noite. E ela suportava menos ainda ver Saeroyi definhado como uma flor desidratada a cada vez que terminava uma visita e nada indicava que Yi-seo acordaria algum dia.

 

30 de abril de 2014

Yi-seo pensou sobre uma resposta.

Ela não era muito otimista, vislumbrava os fins das coisas de formas tão assombrosas quanto abstratas, mas quando pensava em Saeroyi, não conseguia ver fim, muito menos um que não fosse agradável e amoroso.

Sempre que ela pensava em sua vida atrelada à dele, enxergava a relação sadia e pacífica que construíram, pedaço por pedaço, em seus longos anos de amizade, que, gradualmente, tornou-se sentimento que deixava Yi-seo acordada em fascinação durante à noite e com pensamentos românticos durante o dia.

Ela compreendia que namorá-lo trazia riscos, alguns deles fatais para a amizade, talvez, mas desde que se beijaram pela primeira vez, assim como em todas as vezes seguintes, o peito chamuscado dela sussurrava, falava e gritava que eles precisavam dessa oportunidade, que tudo valeria a pena.

Yi-seo deu o seu sim e sorriu com a frieza dos dedos macios que agarraram os seus por debaixo da mesa da cafeteria. Eles continuaram conversando depois, as palavras namorada e namorado se repetindo a cada três frases. E os sorrisos que ela viu ele dar aquele dia foi como ver uma flor desabrochar cheia de vida ao ser hidratada todos os dias.

 

07 de maio de 2021

Ela ajoelhou-se ao lado do vaso sanitário e o viu vomitar.

Somente naquela semana, foi a quinta vez que Saeroyi colocou veneno dentro do corpo e, em seguida, foi obrigado a expulsá-lo. Yi-seo desesperava-se ao vê-lo buscando refúgio em caminhos destrutivos.

Aquele pesadelo estava piorando à medida que Saeroyi perdia suas esperanças. Ele já não tentava manter-se sóbrio ou mascarar seu estado, deixava que todos soubessem que não conseguia mais lidar com seu corte aberto, expelindo dor o tempo inteiro.

As atitudes ensandecidas de Saeroyi estavam aproximando Yi-seo cada vez mais, porque era sempre o nome dela gritado nos momentos furiosos da embriaguez dele e era sempre o nome dela balbuciado no sono ansioso de algum tempo depois.

Então, Yi-seo pensou que podia se conformar em ser um espectro e ver os anos passarem perpetuamente, mas ela precisava salvá-lo. Se assim não fosse, o que de mais bonito possuía seria miserável em seu sentido: o amor que dedicava a Saeroyi não era capaz de intervir em nada?

 

12 de junho de 2021

Saeroyi ressonava pesado.

Ele puxava o ar com dificuldade, o que não condizia com o seu corpo firme. As suas bochechas estavam vermelhas, assim como suas pálpebras e seu nariz. Ele adormeceu exausto do choro e da aflição.

Yi-seo caminhou cuidando para não fazer barulho, esquecendo ao longo dos passos que sua presença era indiferente, muda e insípida, e deitou-se junto a ele, o colchão aceitando sua forma como se ainda estivesse dentro de um corpo de carne e osso.

Ela analisou o rosto bonito que recebeu seus melhores beijos e sentiu-se afogar. Yi-seo tinha desespero, saudade e cansaço a encobrindo da maneira mais cruel e insuportável. Por que não lhe era permitido falar com Saeroyi e tocá-lo por apenas três minutos ou um pouco além?

Yi-seo mordeu seu lábio com força. Ela não teve consciência entre o pensamento e o gesto de aproximar-se da bochecha seca de Saeroyi, mas aproximou-se; pairou sua mão sobre ele.

Ela não queria ceder aos seus delírios de mulher apaixonada, no entanto, ela podia jurar que sentia a calidez da respiração dele irradiando por sua palma. E em um ímpeto corajoso, Yi-seo aproximou-se mais, não sentindo textura sob seus dedos, tocou o nada, mas a febre estava lá, latente como um raio de sol.

 

28 de dezembro de 2020

Yi-seo deslizou sobre gelo com uma graciosidade duvidosa.

Para ser honesta, ela preferia estar no conforto pacífico da sua casa aquecida e não patinando em uma temperatura menor que cinco graus, mas Saeroyi era um homem de quase um metro e noventa com alma de um garotinho inocente de não mais que um metro e meio, e ela adorava isso. Yi-seo fazia sacrifícios, como passear pelo gelo, quando se tratava da felicidade dele.

Ela não era ruim com atividades que envolvessem movimentos pacientes, mas, diferente de Saeroyi, ela não tinha tanto do vigor instintivo para a patinação ou qualquer exercício físico. Ainda assim, Yi-seo renegou as iniciativas do marido de tentar conduzi-la pela pista congelada, porque ela não gostava de se sentir incapaz — obviamente, ela podia deslizar sobre o gelo sozinha.

Yi-seo soltou a mão de Saeroyi e tentou se empurrar com maior entusiasmo. Primeiro, ela impulsionou a perna direita, depois, a esquerda. Ela repetiu o movimento quatro vezes até tomar uma velocidade que os sentidos apontavam ser impetuosa demais. Em um rompante, a falta de cautela cobrou-lhe e a gravidade tornou-se sua pior inimiga. Ela foi ao chão.

Yi-seo quis sorrir por sua queda tola, mas a dor em sua cabeça começou a engrandecer e piorou quando Saeroyi correu para alcançá-la. Antes que sentisse os dedos dele em seu corpo novamente, ela foi pega por uma vontade assombrosa de fechar os olhos, como se o sono estivesse surgindo em proporções estoicas.

Ela tentou levantar, mas não conseguiu. O chão parecia enfeitiçá-la enquanto a dor chegava à sua nuca, às suas costas e às suas pernas. Contudo, Yi-seo assustou-se de verdade quando percebeu que não tinha compreensão de uma palavra sequer que Saeroyi, de joelhos ao seu lado, dizia.

Ela o observou levar o celular até a orelha e chocou-se ainda mais com o sangue cobrindo a luva cinza que ele usava. Aquilo foi o estopim para que os cinco graus virassem zero, menos dois, menos dez. Ela estava congelada de medo, não conseguia respirar.

Yi-seo sentiu a consciência afastando-se do seu domínio, como um animal fugindo do fogo nas árvores que habitava. A última coisa que ela pôde presenciar foi Saeroyi chorando e a última coisa que pôde entender foi que estava entrando em um pesadelo, que não permitia a latência de nem mesmo um raio de sol.

 

25 de julho de 2021

Saeroyi sempre tinha o mesmo pesadelo.

O processo de reviver o pior dia da sua vida era sempre o mesmo: ele tentava anestesiar-se com bebidas fortes, falhava, chorava, gritava em uma tentativa malvada de desprende-se da dor, falhava novamente, chamava por Yi-seo até a garganta arranhar, sentia-se esgotado demais para mexer qualquer músculo e, por último, acabava dormindo.

O seu sono não trazia paz, porque ele sempre era levado para o dia 28 de dezembro de 2020. Não antes, não depois, sempre ali, onde viu Yi-seo soltar-se do seu toque como uma menina teimosa para minutos mais tarde cair e sofrer um trauma na cabeça.

Em todas as outras vezes que Saeroyi teve o pesadelo, ele acordou logo nos primeiros segundos do acidente, seu corpo exigia o despertar, mas aquele dia foi diferente... Saeroyi não conseguiu fugir e viu-se no exterior de si mesmo. Viu-se ligar para a emergência e viu-se chorar desolado ao ver a vida de Yi-seo alastrando-se pelo gelo em um vermelho denso e escuro.

Saeroyi virou seu rosto e fechou seus olhos. Ele não queria presenciar aquilo de novo. Ele implorou para acordar e sair dali, e algo identificou seu desalento. Ele sentiu dedos entrelaçando-se aos seus em uma quentura que ia contra toda a frieza daquele inverno interminável. Saeroyi ainda não tinha aberto seus olhos, mas já sabia quem foi socorrê-lo.

No instante em que ele finalmente permitiu-se espiar, seu coração sentiu alegria pela primeira vez em muito tempo. Yi-seo estava em sua frente, linda como uma alvorada, limpa de maquiagem, de sangue e de lágrimas.

“Oi”, ela falou e Saeroyi sentiu vontade de chorar. A voz de Yi-seo era uma das coisas favoritas dele, porque era sempre tão melodiosa, que parecia conceder os seus maiores desejos. E estar com ela novamente era o único desejo que o fulminava da meia-noite ao meio-dia, do meio-dia até a nova meia-noite.

“Oi”, Saeroyi sussurrou, incapaz de formular palavra além dessa.

“Eu quero que venha comigo”, Yi-seo pediu e o lábio de Saeroyi tremeu com o choro batendo em seus olhos. Ele confirmou — para qualquer pedido de Yi-seo, seu corpo era permanentemente vinculado ao sim.

Ele andou de mãos dadas com ela, deixando para trás o seu eu inconsolável do dia 28. O toque dela era tão real e fascinante, que não lhe coube questionamento de como saíram daquele lugar sombrio e foram parar no quarto em que dormiram juntos durante tantas noites felizes.

“Sente-se na poltrona, por favor.”

O novo pedido de Yi-seo fez Saeroyi pensar que ela sabia que suas pernas estavam prestes a ceder. Ele sentou sem autoridade sobre o corpo, apenas deixando-se cair. Ela acomodou-se sobre as coxas dele e a proximidade foi suficiente para que as emoções dos dois explodissem em suas gargantas.

“Eu senti tanto a sua falta”, disse Saeroyi, enrolando a cintura da esposa em um abraço, um que ilusionava não precisar ter fim.

“Eu também senti sua falta”, Yi-seo respondeu, amarrando seus braços no pescoço dele. Ela alojou seu rosto na curvatura do ombro de Saeroyi, podendo sentir o perfume e a textura da pele.

Minutos se passaram e eles caíram em um silêncio. Yi-seo afastou-se para encarar os olhos do marido e seu coração ganhou novas manchas ao ver o cansaço em suas linhas.

Ela tocou as bordas do rosto de Saeroyi e o beijou, com o amor queimando na língua e na saliva, porque quando se tocavam nesses termos, íntimos e devotados, algo remendava. Ela queria remendá-lo. Ela precisava remendá-lo.

 

25 de julho de 2016

Yi-seo e Saeroyi estavam discutindo.

“Yi-seo, por favor, se acalme e vamos conversar”, Saeroyi disse com a voz tranquila, mas algo de divertido escapava.

“Eu estou conversando”, Yi-seo devolveu inflada, com as bochechas vermelhas de destempero. Ela andava da esquerda para a direita na sala da casa dele, pisando duro, apontando o dedo, colocando as mãos na cintura e suspirando alto, como um cavalo enfurecido.

“Não, você não está.”

“É claro que estou, mas se você quer mesmo ter uma conversa decente, responda a minha pergunta!”

“Eu já respondi: eu não estou escondendo nada de você!”

Yi-seo o encarou, os olhos brilhando emoções incontidas. Ela sabia que ele estava escondendo alguma coisa, sim. Saeroyi estava estranho fazia duas semanas. Ele sumia durante horas, finalizava ligações logo que ela se aproximava, andava cochichando pelos cantos com Hyun-yi, como se fossem dois agentes da polícia secreta, e desviava do assunto quando ela perguntava do que se tratava, como se ela fosse a inimiga número 1 da justiça do país.

E mesmo acumulando sentimentos desconfortáveis por todas aquelas esquisitices, Yi-seo se controlou bem, mas desde que viu uma compra em uma joalheria de luxo na fatura do cartão que ela e seu namorado compartilhavam, ela não conseguiu mais afastar o ciúme e a mágoa. Para quem ele tinha comprado uma joia? Para ela não tinha sido. No início, Yi-seo ainda esperou o presente, mas ele nunca veio.

Ela não queria acreditar que Saeroyi estava mantendo segredos justamente quando o relacionamento deles estava indo tão bem, mas as respostas escorregadias e a insistência dele em fazer-se de desentendido, não deixavam Yi-seo pensar em outras alternativas.

“Você está vendo alguém?”

“O quê?”

“Eu não te faço mais feliz? Você está envolvido com outra pessoa, é isso?”, a voz dela saiu em um fio quebradiço.

“Que bobagem é essa que você está dizendo, Yi-seo?”, Saeroyi perguntou, com as feições alarmadas, algo ofendido e algo preocupado.

Yi-seo abaixou a cabeça e pressionou dois dedos nos olhos fechados. Ela sentia vontade de chorar e um aperto rigoroso no peito. Ela o encarou mais uma vez, tendo a visão embaçada pelas lágrimas que preenchiam os olhos, mas que se recusavam a escorrer. “Se não é isso, então o que está acontecendo? Por que está se comportando desse jeito?”

 “Às vezes, você é muito... boba”, Saeroyi expirou, derretendo com a fragilidade que ela demonstrou. Ele aproximou-se dela com o semblante doce que Yi-seo conhecia muito bem. “Eu tinha planejado fazer isso daqui alguns dias, mas você está impaciente e está fazendo suposições perigosas...”

Yi-seo manteve-se paralisada enquanto deixava a respiração acelerar, permanecendo de pé apenas por uma questão de instinto. Ela o viu retirar do bolso do moletom preto uma caixa de veludo vermelha. Levou apenas um segundo para Yi-seo entender o que estava prestes a acontecer; ela sentiu o estômago virar um ecossistema, abrigo de seres alados.

“Eu tenho carregado essa caixinha para todo lugar que eu vou, tenho cuidado dela como se fosse a coisa mais importante do mundo”, ele sacudiu o objeto em seus dedos, “porque é isso que vai demonstrar que nenhuma outra pessoa poderia me fazer feliz como você faz”, ela quase dissolveu no momento em que Saeroyi abriu a caixa e a deixou ver o anel fino e prateado, com um aglomerado de pequenas gemas verdes e brancas no centro, que a lembraram da água da praia de Eurwangni. “Você é minha casa, Yi-seo. Eu quero que você seja a minha esposa, quero construir uma família com você, você só precisa me aceitar como sua casa também.”

Yi-seo deu mais um sim para mudar sua vida, avaliando se aquela felicidade era mesmo real. Ela permitiu-se alternar entre chorar, duvidar do que tinha acabado de ouvir, dizer que o amava e chamá-lo de estúpido por tê-la assustado.

Foi apenas quando o anel cobriu seu dedo e a boca de Saeroyi cobriu a dela, que todo o seu medo secou verdadeiramente. Foi apenas quando os dois se encaixaram, íntimos e devotados, que tudo remendou.

 

25 de julho de 2021

Yi-seo respirou contra a boca do marido.

Ela sentia a pulsação dele como se fosse um vetor de energia existindo apenas para alimentá-la. Ela queria permanecer naquela bolha de vida por um longo tempo, mas esse desejo estava longe da realidade do momento. Ela recuou alguns centímetros, determinada a fazer o que tinha de ser feito.

“Pare de tentar se matar, Saeroyi”, Yi-seo despejou, cortante e indelicada, causando no marido nada além de confusão.

“Do que você está falando?”

“Não se faça de desentendido agora, por favor... Você bebe todos os dias, quase não se alimenta, anda pelas ruas sem olhar para os lados, está mantendo seus amigos e a sua sogra longe, está negligenciando seu trabalho... Você está agindo como se eu já estivesse morta, mas eu não estou, então não esteja de luto!” Yi-seo pressionou o peito dele com a mão fechada, torcendo para que isso o fizesse entender. “Eu estou tentando achar o caminho de volta, mas você não está me ajudando fazendo as coisas que está fazendo." As últimas sentenças foram quase animalescas, submersas pela agonia.

“Eu...”, Saeroyi se esforçou para falar, mas não conseguiu continuar.

Yi-seo tornou a falar: “Toda vez que você tenta se destruir, eu não consigo parar de te orbitar. O seu sofrimento me prende, ele se torna o elo mais forte entre nós dois e não devia ser assim”, ela fungou e tentou limpar os olhos das lágrimas, mas só o que conseguiu foi alastrar o molhado. “O nosso elo mais forte sempre foi o amor que temos um pelo outro”, ela prendeu mechas do seu cabelo atrás das orelhas, “esse amor nos mantêm vivos, não nos mata”, Yi-seo livrou-se de algo como um engasgo, as lágrimas engrossando feito uma tempestade no litoral. “Eu preciso que você se mantenha saudável enquanto eu estou lutando para voltar. Eu preciso ter para onde voltar e você é minha única casa, Saeroyi, não esqueça isso. Não pode me deixar desabrigada.”

Chocado e com um remorso pesado no coração, Saeroyi mergulhou no fundo do mar castanho das íris dela e o lamento dele se tornou barulhento. “Me desculpe... Me desculpe... Eu pensei que...”, ele comprimiu os olhos e os lábios ao abraçá-la, do mesmo jeito que ela o abraçou. “Me perdoe, Yi-seo-ah.”

“Eu já perdoei... Apenas lembre-se de tudo o que eu falei quando acordar”, Yi-seo pronunciou baixo, a voz dela ganhando distância.

“Eu estarei te esperando, não importa quanto tempo passe, Yi-seo”, Saeroyi sentiu a visão escurecer, sentia que estava sendo puxado por braços transparentes.

“Eu prometo que vou voltar”, ela levantou-se das coxas de Saeroyi e afastou-se dois passos, “mas, por favor, não esqueça... não esqueça... Mantenha a minha casa arrumada enquanto eu estiver fora.”

Yi-seo iluminava-se e dividia-se semelhante a sementes de dente-de-leão à proporção que caminhava para longe dele. Foram só mais essas esferas de luz que Saeroyi viu antes de despertar, lembrar do que houve e chorar a dor de ossos que quebravam para regenerar.

 

19 de novembro de 2021

Saeroyi manteve sua palavra.

Embora ele ainda carregasse uma dor insuportável e a saudade enlouquecedora de Yi-seo para onde quer que fosse, ele não se permitia mais ser descuidado e displicente com ele e com os outros, e nem permitia que a esperança em seu peito congelasse, porque pensar na maneira como ela prometeu voltar para ele naquele sonho, real como algo que ele pôde tocar, era como acender fogueiras, ligar aquecedores e usar agasalhos pesados.

Saeroyi cuidava da casa da esposa da melhor maneira que podia e também cuidava da sua casa: Yi-seo. Alternando seus horários com os da sogra, ele visitava Yi-seo no hospital todos os dias para pentear os cabelos pretos dela; para vesti-la com camisolas finas e cheirosas e colocá-la para tomar banho de sol através das janelas do quarto; para vesti-la com roupas felpudas e a calçar de suas meias favoritas, o par roxo e de gotas amarelas, se o dia estivesse frio.

Saeroyi dedicava-se, ainda, a hidratar a pele dela, as palmas das suas mãos, as solas dos pés e os lábios; ele dedicava-se a cortar suas unhas e limpar suas orelhas; ele dedicava-se às conversas que tinha com ela sobre os acontecimentos do dia, sobre os amigos dele e sobre a mãe dela; ele a colocava para ouvir música e dedicava-se a movimentar o corpo esguio dela simulando exercícios para que os ossos não atrofiassem.

Saeroyi gostava de pensar que sua dedicação era uma nova maneira dos dois dançarem.

 

19 de novembro de 2014

Yi-seo desviou os olhos do notebook em que escrevia a matéria para seu blog.

Ela foi atraída pela música bonita que Saeroyi, encostado na cabeceira da cama e deslizando o dedo pela tela do seu celular, cantarolava. Yi-seo não a reconhecia, mas a música tinha uma melodia suave e envolvente, como se convidasse quem a ouvisse para tomar um banho quente em um dia mortiço.

“Ei, venha aqui”, Yi-seo falou ao levantar-se da cadeira que acompanhava sua escrivaninha. Ela estendeu a mão para ele.

“Hm? O que foi?” O sorriso do homem apareceu tímido, ele sabia que estava sendo observado há algum tempo. Os olhares de Yi-seo sempre deixavam um rastro quente sobre a pele dele.

“Só venha até aqui.”

Saeroyi largou do celular e levantou-se da cama. Ele segurou a mão dela e sentiu-se nervoso quando Yi-seo o guiou para tocar a curva fina da sua cintura, mas ele relaxou ao sentir os braços da namorada acharem lugar em seus ombros.

“Continue cantarolando a música.”

Ele a obedeceu e eles entraram em um ritmo de dois passos para lá e mais dois passos para cá. Eles gargalharam com a falta de coordenação e aquiesceram com a proximidade de seus corpos. Em um momento, Yi-seo encostou sua testa no peito de Saeroyi. Ele sentiu a respiração ficar funda e ela sentiu o coração disparar.

“Eu te amo”, Yi-seo segredou, dominada por uma necessidade de ser dele, que de tão urgente, doía.

Ainda dançando, Yi-seo o beijou nas bochechas e ele a beijou nas pálpebras. Ela o beijou no queixo e ele a beijou na testa. Ela o beijou no pescoço e ele a beijou na orelha. Eles beijaram-se na boca. Instantes depois, eles ficaram nus e se conheceram em uma intimidade nova.

Eles se tocaram indiscretos, e quando se empurraram para além da linha, conectados, perceberam-se no mundo como se tivessem encontrado algo que sequer sabiam estar perdido. Eles chegaram em casa.

 

4 de março de 2022

Saeroyi lia poemas para Yi-seo.

Ele sabia que poema era o gênero de texto favorito dela, então toda semana ele comprava um novo livro e tomava emprestadas aquelas palavras para declarar-se à Yi-seo, enquanto segurava uma de suas mãos.

Lendo o amor, a felicidade e a lealdade, Park Saeroyi assustou-se com o aperto dos dedos dela em sua mão. Ele deixou o livro cair, sentindo que poderia cair também, mas ele ficou de pé, pairando sobre ela e chamando-a pelo nome. Yi-seo não respondeu, mas sua mão continuava firme na dele.

Ele pressionou o botão de emergência para chamar a médica e depois colocou-se imóvel, com medo de que qualquer movimento desfizesse o toque dela. Quando a médica chegou ao quarto, Saeroyi, relutante, a soltou e afastou-se para que a mulher de meia idade a examinasse, sendo todo o processo lento, o que deixou Saeroyi impaciente.

“O que está acontecendo, ela está acordando?”

“Não, Sr. Park, ela continua em coma.”

“Mas ela apertou minha mão, eu senti!”

“Entendo que isso possa causar confusão, Sr. Park”, a médica colocou a lanterna no bolso do jaleco e o estetoscópio de volta ao redor do pescoço, esforçando-se para não ser rude na sua objetividade. “Esses espasmos ocorrem em alguns casos, mas não significa que o cérebro do paciente esteja recobrando a consciência. É como se a perna levantasse porque bateram no joelho; não é algo realmente voluntário ou comandado.”

“Mas eu senti... Ela apertou a minha mão com força...”, ele disse muito baixo, sentindo desamparo. 

“Como eu disse antes, a situação continua sendo a mesma. Eu sinto muito.”

Aquele dia, depois daquela conversa, Saeroyi ficou tentado a voltar à estaca zero, mas lembrar das esferas de luz nascendo de Yi-seo, o segurou na direção certa.

 

26 de maio de 2022

Saeroyi arrumou o elástico do chapéu de aniversário em seu queixo.

Era o dia de Yi-seo e eles — ele, sua sogra e seus amigos — estavam comemorando com cones na cabeça, balões, bolo decorado com frutas e presentes. A ideia partiu de Hyun-yi e Saeroyi concordou. Ele estava reintegrando seus amigos e sua sogra à sua vida da forma que disse a Yi-seo que faria, e tê-los por perto agradava sua sanidade.

Saeroyi sorriu quando eles cantaram parabéns e Hyun-yi cortou e serviu as fatias do bolo. Por um momento, ele deixou seu prato de lado para alinhar o cobertor sobre o corpo da sua mulher, assustando-se com o movimento repentino que o pé dela fez.

Saeroyi reteve suas emoções ao ocupar-se da explicação que devia aos amigos do que aquele movimento significava, segundo a especialista — a sogra já sabia. Ao fim, ele ocupou-se de limpar o chão do quarto; Seung-kwon tinha deixado cair chantilly quando começou a chorar e dizer que sentia falta de Yi-seo, a sua amiga malvada.

 

17 de agosto de 2022

Saeroyi dobrou as mangas da camisa.

Ele abriu as cortinas do quarto para deixar o sol entrar e fazer seu trabalho de iluminar e aquecer. O dia estava bonito e ele decidiu que queria que Yi-seo o sentisse.

Saeroyi usou o controle para levantar a cama reclinável, segurando a cintura de Yi-seo para mantê-la firme no lugar. Ele também arrumou os travesseiros nas costas dela e foi cuidadoso ao se sentar ao seu lado.

Ele sentiu o coração pegar fogo quando viu filetes de luz amarela atravessarem o rosto dela, sua pele parecia uma tela recebendo a pintura, e foi nesse momento que, pela terceira vez, ele a viu fazer um movimento.

Saeroyi já não se assustou quando os lábios dela abriram levemente e depois fecharam. O que ele fez foi admitir que não considerava as palavras da médica uma verdade total. Ele podia sentir que aqueles movimentos não eram secos de vontade.

Ele deitou sobre o peito dela, os filetes de luz atravessando os dois. “Você está lutando muito, não é?”, Saeroyi perguntou e imaginou que as batidas do coração de Yi-seo era uma resposta afirmativa.

 

17 de agosto de 2013

Yi-seo afundou os pés na areia da praia de Eurwangni.

Ela bebia a água cor de jade com os olhos, hipnotizada pela espuma branca e pelo vento salgado. Ela gostava daquele lugar, sentia-se próxima de coisas verdadeiramente impressionantes.

Saeroyi, sentado ao lado de Yi-seo, desviou os olhos de Seung-kwon, que brincava à beira da água com Hyun-yi e Toni, para olhar a amiga, percebendo que algo a chateava; talvez chateação não fosse a palavra certa, mas ele decidiu arriscar.

“Você parece chateada.”

“Eu só estou pensando, é um dos efeitos da terapia, eu acho”, Yiseo respondeu, sem olhar para ele, fazendo círculos na areia úmida com o dedão. “Você...”, ela hesitou.

“O quê?”

“Você... Você acha que eu sou uma pessoa ruim?” Ela virou o rosto para ele e ele a observou melhor. O cabelo de Yi-seo, dividido por duas cores, voava para trás, mas alguns fios agarravam seu rosto e seus olhos, que demonstravam algum tipo de sentimento arcaico. Aquilo o inquietou.

“Por que está perguntando isso?”

Yi-seo suspirou, voltando-se para o horizonte infinito. Ela sempre despencava nesse humor estranho quando saía do consultório da sua terapeuta. Ela não se sentia triste, realmente, mas existia aquela sensação cansativa de estar perdida, como se estivesse sobre uma tábua flutuando pelo mar aberto. Às vezes, ela queria ter um porto para atracar, uma casa para descansar sua cabeça e seus pés.

“Porque eu nasci... desregulada? É o que dizem...”

Saeroyi não se surpreendia mais com a condição de Yi-seo, ele já sabia fazia tempo. A novidade era vê-la falando de maneira tão emocional. E outra novidade era a chama acesa no estômago dele por causa disso.

“Bom... Eu não te acho uma pessoa ruim”, a voz de Saeroyi tornou-se seda e ele sequer tentou impedir. “Você é rude e malcriada, mas também é leal, inteligente, tem um coração grande, mesmo que não admita, e está sempre lutando para vencer a dificuldade que a vida te deu”, Saeroyi sorriu expirado, cheio de um orgulho que chocou e emudeceu Yi-seo — chocar e emudecer Yi-seo eram coisas muito raras. “Você é boa e é impressionante, Yi-seo-ah.”

Ele passou o braço por cima dos ombros de Yi-seo. Ela sentiu a pele dele aderir à sua com uma simplicidade aterradora, fazendo suas bochechas queimarem como se tivessem sido castigadas por duas balas de sal — fazê-la sentir vergonha jamais havia acontecido.

 

20 de outubro de 2022

Saeroyi trocou as flores do vaso enquanto conversava com Yi-seo.

“Hoje eu trouxe peônias e tulipas. Eu pensei em crisântemos, mas eles já estão fora da época”, ele disse e jogou as margaridas murchas na lixeira ao tempo que sorriu e negou com a cabeça. “É engraçado... Quem poderia imaginar que um dia eu saberia o nome de tantas flores?”

Saeroyi caminhou para ocupar o seu lugar ao lado da sua mulher. “Você não para de me impressionar...”, ele a segurou na mão, fazendo um carinho especial na aliança do dedo dela; o anel não saiu de lá nem um só dia. “Por sua causa, eu sou melhor e mais forte agora, você sabe, não é?”, ele beijou a aliança. “Eu não vou desistir, Yi-seo, vou lutar por você como você sempre lutou por mim e por tudo.”

Ele curvou-se, sua testa apoiou-se no dorso da mão de Yi-seo. Saeroyi ficou daquela maneira, quieto e grato, por um longo tempo. Quieto; o que se passava em sua mente e em seu coração era apenas Yi-seo e o amor que tinha por ela. Grato; Saeroyi sabia que a história deles era de encontro e permanência — eles sempre se encontrariam, se reencontrariam e permaneceriam. Um sendo a casa do outro.

Saeroyi ficou ereto, ainda a segurando. Ele olhou para o rosto de Yi-seo. O que viu no segundo seguinte foi o suficiente para atordoá-lo e fazê-lo despencar por todas as camadas da Terra para cair em uma fonte de água puríssima.

Ele ficou de pé para ficar cara a cara com Yi-seo, suplicando para que não estivesse alucinando ou dentro de mais um sonho. Medroso, ele tocou as lágrimas que escapavam dos olhos dela e esfregou duas falanges para confirmar que estavam molhadas e estavam. Aquilo que tocava era água de verdade, morna e salgada.

Saeroyi tremeu, soltando lufadas frias, o corpo quase desligando, mas a alma dele estava renascendo ao presenciar os olhos de Yi-seo lutarem para verem o mundo de novo. E quando ela estava aberta à vida, as pupilas dilatadas e cientes da imagem dele, Saeroyi a tomou pelas bochechas para dizer: “Oi.”