Chapter Text
Sante estava morto. As bruxas sumiram. As coisas estavam diferentes.
Foram sete longos dias. Toda a cidade de Serra estava em luto por Sante. Eles foram obrigados a ficar em luto. Muitos tinham medo de Sante, apoiavam sua caçada às bruxas, mas a verdade é que muitos tinham medo de serem os próximos acusados de bruxaria. Os Benandanti andavam pelas ruas durante o período de luto, nenhuma mulher ou menina podia ser vista andando sozinha. As crianças não podiam mais estar desacompanhada de seus pais. As pessoas que pareciam suspeitas aos olhos dos Benandanti eram interrogadas. Algumas nunca retornavam.
Pietro não apareceu. Spirto era quem comandava o grupo nas ruas. O filho de Sante estava em casa, ninguém o via ou ouvia notícias suas, ele só conversava com Spirto. Os dois líderes dos Benandanti. Cesaria não podia acreditar. Nenhum deles merecia aquela posição. Spirto era um traidor, esteve o tempo todo protegendo aquela bruxa com quem andava se encontrado escondido.
E Pietro não merecia nem por um minuto comandar os Benandanti. Além de não estar preparado e nunca ter feito parte do grupo, tinha protegido todas aquelas mulheres até alguns dias atrás. Tinha desafiado Sante, duvidado de Cesaria e feito de tudo para salvar as bruxas.
Ele tinha tanta culpa pela morte do pai quanto as bruxas.
E agora os dois haviam decidido que comandariam os Benandanti. Era injusto. Sante teria dado o comando para Cesaria, ela sabia. Ela era a que melhor estava preparada. Enquanto Pietro esteve em Roma estudando, Cesaria estava ao lado do pai. Pietro nem sequer sabia o que devia fazer em seguida.
Ela tomaria de volta o que era seu. Esperou o período de luto passar, ficou todo aquele tempo em seu próprio quarto, não confiava mais nos homens de seu grupo, eles a olhavam de forma estranha desde que ela tinha desafiado Pietro no dia da morte de Sante. Mas agora eles a escutariam.
Na primeira oportunidade que teve, apareceu na reunião dos Benandanti. Estavam presente mais de quinze homens, ela não reconhecia todos. Pietro dava ordens ao grupo e era apoiado com gritos e espadas levantadas ao céu.
– Pietro! – Ela gritou, parando na frente dele. – Você não pode ser o líder dos Benandanti. Muito menos você, Spirto. – Cesaria disse com toda a fúria que vinha guardando nos últimos dias.
Ela percebeu os homens apertando o punho das espadas, aproximando-se dela como se fossem atacar. Ela era melhor. Era melhor do que qualquer um deles. Era a mais dedicada, a melhor lutadora com a espada, conhecia melhor a floresta, e principalmente conhecia melhor os ideais dos Benandanti.
– O que disse, Cesaria? – Pietro a questionou, com um olhar frio que ela nunca tinha visto em seu rosto. Ele não tinha dormido nos últimos dias, sua aparência estava péssima, olhos profundos, cabelo desajeitado e roupas cheirando mal. Pietro estava fora de si. Ela só não sabia se era a morte de Sante ou a traição de sua namoradinha.
– Você não pode liderar os Benandanti. Não está preparado para isso, não sabe nada sobre nós e ainda ama aquela bruxa que matou o seu pai. Você nem mesmo sabe usar uma espada. Você desafiou o seu pai e desacreditou dele todas as vezes.
– E quem você acha de deve liderar os Benandanti, Cesaria? – Ele perguntou rindo, acompanhado por risos dos outros homens. – Você? Uma mulher? Vocês acham que Cesaria deve nos liderar, homens?
Ouvir aquelas palavras doeram em seu coração. Sentia raiva por Pietro dizer aquilo, raiva por seus amigos o apoiarem, e acima de tudo, sentia raiva porque aquelas palavras só refletiam o que todos sempre haviam pensado dela. No fim, eles nunca a aceitariam, não importava o esforço que ela fizesse.
– Uma mulher não pode nos liderar. Mulheres são bruxas. Morte às bruxas! – Os homens gritavam, alguns riam e debochavam dela. Pietro apenas a olhava, sem expressar qualquer emoção. Ele não era mais o Pietro por quem havia se apaixonado, o garoto que conhecera durante toda a vida.
– Eu vou vingar a morte de meu pai, Cesaria. Vou fazer o que vocês não conseguiram. Matar todas as bruxas, começando por aquele menino. Vou acabar com todas elas.
– Você não era assim, Pietro. Você não pode me culpar pelo o que aquela menina fez com você. Eu sempre estive ao seu lado. Enquanto isso você defendia bruxas que matavam crianças e mulheres, elas mataram a sua mãe e o seu pai. Você nunca se importou comigo, e agora me destrata ainda mais. Isso só prova que você não tem o direito de liderar o grupo. Sante nunca concordaria com isso.
– Meu pai não está mais aqui, Cesaria. Eu estou, eu sou o líder agora? Você está me desafiando?
Pietro expressava raiva nos olhos, parecia estar descontando em Cesaria toda a mágoa que sentia por Ade. Estava gritando com ela por ser uma mulher. Aquilo doía em seu coração, mas ela precisava falar a verdade para ele.
– Eu acho que você não está preparado para isso, não deve ir atrás das bruxas ainda. Nenhum de vocês está preparado para isso, elas vão matá-los. Pietro não sabe o que está fazendo, ele não vai ter coragem de fazer algo quando ver aquela menina.
Os gritos começaram, eles pareciam não ouví-la. Gritos de acusação, de traição. Seus homens, seus companheiros, as pessoas em quem ela mais confiava. Estavam todos contra ela, acusando-a de bruxaria, de apoiar e defender as bruxas. Acusando-a de trair os Benandanti, de trair Sante e Pietro.
– Cesaria, você precisa entender uma coisa. Eu vou matar todas aquelas malditas bruxas. Vou matar quem estiver em meu caminho e vou torturar cada pessoa que tiver alguma informação sobre elas. Eu vou espalhar medo e autoridade por toda Serra, e aquele que ousar me desafiar será morto. E eu vou começar por você.
Os dois se encararam. Pietro procurava nela algum sinal de que tinha entendido e aceitado as ordens dele. Mas Cesaria não demonstrava estar de acordo, muito pelo contrário, só demonstrava desafio e negação.
Naquele momento Cesaria soube que não significava mais nada para Pietro. Não passava de alguém que ele havia conhecido uma vida atrás. Ele iria matá-la. Ela podia ver em seus olhos e sentir em suas palavras.
Ela precisava fugir. Precisava fugir o mais rápido possível. Seu lugar não era mais com os Benandanti.
– Prendam-na! – Pietro gritou, afastando-se do grupo.
No mesmo instante os homens sacaram as espadas e a rodearam. Cessaria não sabia mais o que pensar. Rapidamente eles começaram a atacá-la, mas Cesaria ainda era a melhor entre todos eles. Derrubou o primeiro, o segundo e o terceiro. Enquanto lutava contra os homens que haviam sido seus amigos, ela corria para a saída, em direção ao seu cavalo. Estava quase chegando quando Adriano parou na sua frente, a espada em seu pescoço. Adriano era meu melhor amigo, seu companheiro, tinham passado muito tempo juntos desde que Pietro começara a estudar em Roma.
Os dois trocaram olhares, Cesaria sabia que teria que lutar com ele, e estava prestes a fazer isso quando Spirto correu em sua direção, tentando acertá-la. Foi um erro para ele, e uma chance para ela. Spirto tinha bom coração, más era péssimo com a espada. Cesaria girou, sua espada contornou o braço dele, desarmando-o. Ela pegou a pequena adaga que sabia que ele guardava na cintura e pressionou o pescoço dele.
– Para trás, todos. Ou eu vou matá-lo. Nós poderíamos ter resolvido tudo isso juntos. Você está cometendo um erro, Pietro. – Ela disse, suspirando e sabendo que aquele era um momento decisivo. – Eu sinto muito que as coisas tenham acabado assim.
Ela arrastou Spirto até seu cavalo, sem tirar os olhos de Pietro. Pegou uma sacola que continha armas pequenas e algumas velas, amarrou tudo e, por fim, jogou o garoto para longe. Com movimentos rápidos, Cesaria montou o cavalo e saiu correndo. Não viu se foi perseguida, não ouviu os gritos de Pietro, Adriano ou qualquer outro, não pensou o que faria em seguida.
Ao acordar naquela manhã, Cesaria não pensou que seu dia terminaria assim. Na verdade, ela não tinha ideia do que faria agora que estava sendo caçada e não podia voltar para a cidade, não era seguro, os homens a prenderiam na primeira oportunidade.
Conhecendo bem os caminhos por onde o grupo patrulhava, Cesaria entrou em uma pequena trilha que a levaria para longe, sem que fosse vista. Não conseguia avançar muito rápido por conta mata fechada, mas estava bem escondida e isso era suficiente naquele momento.
Ela sabia que só existia um lugar em que poderia se esconder. Só existia um lugar naquela floresta que os Benandanti não a pegariam. O problema é que ela não sabia chegar até lá, não fazia ideia de como encontra-lo.
Suspirando, ela tirou os colares da sacola, olhando-os com atenção em busca de pistas. Não encontrou nada. Precisava seguir em frente e encontrar algo antes do sol se pôr.
Sem olhar para trás, Cesaria fugiu para o interior da floresta.
