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River não se importava de encontrar a cama vazia ao acordar. Ela realmente não ligava para isso. A vida com o Doutor era assim, você gostasse disso ou não. Uma hora ele estava ali e na outra ele não estava e não havia nada que alguém pudesse fazer para mudar isso.
Nem juras de amor, nem jantares a luz de velas ao som das Torres Cantantes de Darilium, nem roubos a espaçonaves de milhões de anos no futuro deles, nem tentar matá-lo nem amá-lo mais desesperadamente que qualquer coisa no universo.
No fim de tudo, não havia nada que River pudesse fazer para mantê-lo ao lado dela, naquele lugar que era a casa deles, sem que ele partisse uma hora ou outra. Por mais que ele negasse ou insistisse — e ele insistiu muito e muitas vezes nas últimas semanas — o pôr-do-sol não criava raízes.
Não era assim com o idiota de gravata borboletas, com o cavalheiro do sorriso gentil e certamente não — embora ela o amasse ainda mais por tentar — seu idiota de cabelos grisalhos, sorriso difícil e o melhor par de corações do mundo.
River sorriu, passando a mão nos travesseiros e respirou fundo o ar que ainda estava carregado do aroma dele. Era como alguma colônia da Terra, século 21, junto com o cheiro de livros e o dela mesma. River mergulhou os pés nas pantufas fofas, conferiu o relógio e amarrou o roupão. Ela amava o Doutor, com suas palavras bonitas e suas promessas, mas ela não era mais uma garotinha curiosa e desesperada para entender o mundo, embora continuasse igualmente apaixonada.
Desceu as escadas em um piscar de olhos. O pequeno bangalô que instauraram nas proximidades das Torres não tinha nem um terço do tamanho da T.A.R.D.I.S, mas era elegante e tinha um pouco dos dois. Seria uma pena quando ela o deixasse, mas ainda assim…
Ela foi interrompida por um barulho alto e inconfundível de panelas caindo. O único coração de River bateu acelerado e ela correu o restante do caminho até a cozinha. O gosto da bile chegou em sua garganta no momento em que ela viu as luzes acesas, iluminando o seu Doutor, já vestido com um protótipo de terno desleixado, mas de certa forma elegante.
Você é uma grande idiota, River Song.
Eu tenho motivos, não tenho?
Cale a boca, não discuta comigo, idiota, ainda não acordei direito.
Ela suspirou. Ótimo, agora estava falando sozinha.
“River?” O Doutor gritou, erguendo-se com um salto de trás da bancada. “O que está fazendo aqui? Eu te acordei?”
Acalmando a tempestade em sua cabeça, River mandou à merda as vozes dentro de si e forçou uma expressão tranquila. “O que eu estou fazendo? Doutor, são três da manhã. O que você está fazendo aqui?”
“Você devolve perguntas agora? Uhn. Estou fazendo café. Não queria ter te acordado” resmungou ele, enquanto batia uma panela contra o fogão.
River sentou-se no banco de frente a ele e se concentrou em observar seu marido. Ele estava vários centímetros mais alto agora. Os cabelos castanhos deram lugar a um tom grisalho que se convertia em cachos abertos. Algumas vezes, eles deitavam na cama e ela podia passar horas apenas acariciando-os.
“Não me acordou. Eu só… tive um sonho ruim” ela respondeu por fim. O Doutor cruzou a distância que os separava como um raio, seu nariz se chocando com o dela.
“Mesmo? Quem eu tenho que matar?”
River riu e foi uma gargalhada sincera. Ela tivera que se acostumar com esta nos últimos dias porque aquela regeneração, embora muito menos piadista, facilmente conseguia fazê-la sorrir. “Eu estou bem, meu amor. Melhor agora, é claro”.
Ela soprou um beijo para o Doutor, que apenas a observou de volta. “River… Sem segredos, lembra?”
“Só os que são melhores quando estão guardados” ela retrucou. “Mas não fuja do assunto. Três da manhã. Por que veio destruir a cozinha?”
“Isso é ofensivo” resmungou o Doutor, lançando um olhar de esguelha para o forno. “Eu sei cozinhar, River”
“Claro que sim, meu bem” Ela murmurou de volta, um sorriso se espalhando por seu rosto. “Mas o que, exatamente…?”
“Eu quis fazer uma surpresa. Mas já que alguém não consegue ficar na cama…” O coração de River bateu mais forte — costumava ser assim, quando o Doutor fazia coisas assim.
Viver juntos era… complicado. Ambos costumavam se encarar, as vezes, sem saber como reagir a proximidade ou ao tempo que tinham para estarem juntos. Esse era um daqueles momentos em que a domesticidade era estrangeira e nenhum dos dois tinha o que falar para romper o silêncio.
Então eles apenas o mantinham. River assistiu enquanto o Doutor tentava, meio sem jeito, arrumar a mesa com uma refeição da Terra. Ele a puxou para perto, para um abraço, apesar de todos aqueles protestos sobre não dar abraços e tudo o mais.
“Estou aqui, tudo bem? E vou estar aqui pelo tempo que precisar”. O Doutor sussurrou em seu ouvido. River mergulhou o rosto em seu ombro, permitindo que o abraço escondesse seu rosto molhado de lágrimas.
Era um daqueles momentos que ela se sentia uma tola por chorar. E realmente, realmente River não se incomodava em acordar sozinha. Mas era realmente muito melhor quando o Doutor estava ao lado dela, perto dela, por isso River o puxou para mais perto e por um breve instante, menor que a bilionésima parte dos vinte quatro anos que eles tinham, ela apenas mergulhou o rosto contra o pescoço dele e sentiu seu perfume.
