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— Eu não vou nadar por você.
Se Rin não estivesse na sombra e sim sob a luz do sol como Haru, não teria arregalado os olhos daquela maneira. Ele não podia acreditar que seu velho amigo de infância estava lhe negando uma coisa tão importante: a sua oportunidade de seguir em frente.
Enquanto a irritação cresceu dentro de seu peito Rin deixou a confortabilidade que possuía o lugar debaixo daquela árvore e diminuiu a distância entre ele e Haru, este último por sua vez surpreendeu-se quando foi empurrado contra a grade, seus olhos azuis brilhavam com uma emoção indecifrável e intensa.
— Você vai nadar por mim! — Rin exclamou tentando parecer ameaçador mesmo sabendo que tal tom agressivo não teria o mínimo efeito em Haru.
Haru era sempre tão inexpressivo e misterioso, suas mágoas e receios jamais mostravam o rosto, deixavam-se esconder nas dependências daquele ser magrelo e melancólico. É claro que havia exceções, sim, havia. E as exceções de Haru eram uma das coisas preferidas de Rin, coisas com as quais ele sonhava em noites dominadas pelo nervosismo e pela raiva, coisas que o acalmavam magicamente.
Haru sorrindo espontaneamente para ele sem qualquer motivo aparente.
Haru com as bochechas coradas devido a algo inconveniente que Rin havia dito.
Haru deixando as lágrimas se derramarem ainda que ele não quisesse revelar a razão pela qual estava chorando.
Rin não havia se dado conta do quanto sentia falta dessas coisas até o presente momento, a ironia era que em todos esses anos Haru não saíra de sua mente nem por um segundo, entretanto os pensamentos que eram direcionados a ele estavam nutridos com o sentimento da rivalidade. O maior desejo de Rin era vencer Haru e ele conseguira, porém não estava satisfeito. Como ele poderia estar satisfeito, não é mesmo? Haru não havia levado a competição a sério e era apenas isso que Rin exigia nesse momento.
Era só o que ele queria.
Apenas isso.
— É só isso o que você quer? — indagou Haru pegando o outro desprevenido, Rin sentiu como se seus pensamentos estivessem passando acima de sua cabeça como um filme.
E então ele foi obrigado a fazer a si mesmo a tão malfadada pergunta.
O que mais ele queria de Haru?
Rin sabia exatamente qual era a resposta e sabia também que não poderia voltar atrás e esquecer, não agora que eles estavam tão perto um do outro.
— Feche os olhos — Rin pediu tentando disfarçar sua ansiedade.
Ele esperava que Haru o questionasse ou que negasse o comando e fosse embora sem olhar para trás, mas isso não aconteceu. Os olhos azuis de seu velho amigo de infância começaram a se esconder vagarosamente atrás das pálpebras e em menos de um segundo — Rin se viu contando cada milésimo daquele curto período de tempo — Haru aguardava o seu próximo passo, era como se ele soubesse o que estava por vir.
Talvez não houvesse nenhum filme composto por seus pensamentos rodando acima de sua cabeça, talvez Haru apenas fosse capaz de lê-los como fizera tantas vezes no passado.
Por que Rin não era capaz de fazer o mesmo com o outro?
Não, ele não podia ler os pensamentos de Haru, mas podia senti-lo.
Sua mão direita deixou o ombro de Haru e viajou até seu peito, era um ato tão bobo e infantil, pensou Rin — sentir as batidas do coração de alguém. Mas ainda que fosse algo estúpido Rin ficou curioso com aquela velocidade.
O que Haru estava sentindo? Ansiedade? Raiva? Amor?
Rin sorriu à simples menção daquela última palavra em sua mente, felizmente Haru encontrava-se impossibilitado de enxergar isso.
Por um instante Rin se viu absorto em devaneios e hesitações, no entanto ele logo se lembrou de que não tinha muito tempo, afinal de contas eles estavam do lado de fora da loja de esportes em pleno dia ensolarado. A qualquer momento alguém poderia aparecer e presenciar aquela cena.
Rin deixou escapar um último suspiro e — ainda sentindo os batimentos cardíacos do outro — se aproximou de Haru e uniu seus lábios com os dele. Não havia tensão ali, nem mesmo exaltação, na verdade não havia qualquer sentimento de euforia naquele ato.
Alívio, delicadeza e afeto, eram esses os sentimentos presentes naquele beijo.
Rin sabia que não tinha muito tempo, mas mesmo assim não queria se separar de Haru, não outra vez.
— Onde será que está o Haru-chan? — falou uma voz conhecida ao longe.
O beijo terminou de um jeito exatamente oposto pelo qual começou: rápido e desesperado.
Haru ainda estava com os olhos fechados e Rin tentou não pensar muito no motivo, ele apenas precisava sair dali.
— Eu... — Rin detestava perder o controle da sua fala, como o enxergariam de modo ameaçador se ele cometesse esse deslize mais vezes? — Lembre-se do que eu disse, leve nossa competição a sério.
Haru abriu os olhos, não só isso, ele também pegou o braço de Rin e se desvencilhou daquela cerca empurrando-o para trás.
— Eu vou fazer isso, mas não se sinta mal se perder! — Rin não sabia dizer se o outro estava sendo receoso ou agressivo. — Não pense em desistir da natação nem sequer uma vez se for derrotado, ouviu bem?
— Eu não vou perder — Rin falou antes de dar as costas para Haru e sair de cena.
— E tem mais uma coisa. — Ele não parou de andar, mas continuou ouvindo o que Haru tinha para dizer. — Eu só pratico nado livre.
Livre.
Rin então não pôde deixar de se questionar se algum dia veria-se livre daquele sentimento que nutria por Haru há tanto tempo. E não, ele não estava se referindo à rivalidade, mas sim àquela palavra que foi capaz de erguer um sorriso em seu rosto depois de tanto esforço para ele se manter sério como seu velho amigo de infância.
