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— Essa cadeira está ocupada?
Claro que não estava. Cuidava aquele rapaz há tempo suficiente para saber que ninguém sentava a seu lado. Talvez pelo medo de ouvirem alguma lamúria, já que ele entornava os copos a uma velocidade impressionante. Entretanto, era bonito. Ele respondeu com um aceno grosseiro, abanando a mão em um sinal de “tanto faz”.
— Por favor, um martini with a twist. E um seja lá o que que ele estiver tomando.
O outro tinha a cabeça escondida entre os braços, o cabelo caído cobrindo-lhe parte do rosto. Mesmo assim, ouvia bem. Levantou uma das mãos, fazendo um sinal de “dois”. O estrangeiro concordou com o pedido. Pagaria dois drinques. Tinha tempo, afinal de contas.
— Duas cubas libres e um martini with a twist.
Pagou, fazendo cara feia para a bebida do mocinho bonito. Pelo menos de longe ele parecia bonito. Entretanto, não trouxera seus óculos. Agora teria uma desculpa para fazê-lo erguer a cabeça e averiguar se era mesmo bonito. Ah, nunca seria tão bonito como Albafica, mas exigir isso de qualquer pessoa era impossível.
— Primeiro eu achei que era chifre, mas pela bebida foi pé na bunda mesmo…
— Quando perguntou se a cadeira estava ocupada, achei que era pra sua bunda, não pra língua. — ajeitou os cabelos negros para trás, esfregou um olho e encarou bem o sujeito ao seu lado — ah, pronto. Agora tem um estrangeiro falador do meu lado. Que dia de sorte.
— Tecnicamente, você é o estrangeiro. Não que eu também não seja. Mas, sinceramente, beber Cuba Libre num bar do Red Light District é esfregar a decadência na cara dos outros. Meu nome é Minos.
— Você veio num bar da Chinatown pra beber Martini. E errou o endereço. A Chinatown é duas quadras pra lá. — apontou para qualquer direção. Não se importava.
— Que coincidência. Mesmo lado da minha casa. — brincou com o pedaço de limão preso ao copo vazio — Mas eu não levo estranhos pra casa.
Indignado, o homem ao bar terminou o segundo copo em uma golada só, batendo o vidro contra o balcão.
— Tá achando que eu vou pra casa de qualquer mané?
— Foi assim que conheceu o ex? Tomou um pé na bunda e veio chorar no balcão onde comeram uns amendoins juntos ou alguma merda assim?
A cabeça já doía por conta do tanto que chorara, sozinho no seu apartamento. O álcool agravara a situação. Agora havia aquele chato a seu lado, que, para seu infortúnio, parecia um adivinho.
— Nem gosto de amendoim.
Mas Song Lan gostava. Bastante. E, de fato, foi justamente naquele bar que o conhecera, assistindo uma partida da Champions League, devorando um pote de amendoim, acompanhado de cerveja preta.
— Hoje ele tá com o outro. Me largou por um cara mais decente. — Minos acenou para o garçom trazer mais uma dose pra cada.
— E o que isso tem a ver com amendoim?
— Já disse meu nome e o porquê de estar aqui. Conheci ele aqui, foi há mais tempo atrás, ele trabalhava aqui. Fazia Martinis muito bons. Hoje ele deve estar fazendo Margaritas. Pro outro.
— Xue Yang. O Song Lan bebe cerveja, assiste futebol. Também não me acha decente. Não está errado.
Não tinham muito assunto. O bar já estava prestes a fechar. Xue Yang não aceitou que Minos pagasse a conta, mas deixou que o cara do cabelo estranho apanhasse seu casaco.
— Você dorme lá em casa. Tem mais bebida lá.
Ao ver o porta-retrato com a foto de um homem extremamente bonito sobre o aparador à entrada do apartamento de Minos, deu uma risada. Apanhou o celular, mostrando o papel de parede.
— Então esse é o Albafica. Ele pode conversar com o Song Lan sobre decência e essas coisas. Talvez eles se entendam.
Minos precisou olhar para a foto de perto.
— Parece bem virtuoso. Albafica com toda a certeza aprova.
O aparelho de telefone ficou ali, com a tela ligada, apoiado ao vasinho que ostentava uma rosa murcha, encarando o moço do retrato. As roupas dos dois presentes? Foi-se ao chão.
Eram dois rejeitados. Porém, ainda eram dois indecentes. E eram ambos bonitos demais para desperdiçarem a oportunidade.
