Work Text:
— Eu gosto de você — Johan falou… para a parede.
A parede respondeu? Claro que não!
Judai iria responder? Claro que não, isto é, se Johan continuasse praticando suas falas com objetos inanimados ao invés de realmente se confessar para o ser possivelmente mais animado do mundo.
— "Eu gosto de você" não parece profundo, certo? É como dizer algo do tipo “Ei, amigo, você é o meu melhor amigo, sabia disso? É, amigo”... — O jovem estapeou sua própria testa bagunçando sua franja azulada. — Ah, o que estou dizendo?! O que estou dizendo, huh?!
O drama na voz de Johan o fazia parecer estar atuando em uma grande tragédia teatral — o que seria válido se a coisa não fosse tão real, se seus sentimentos por Judai fossem só parte de uma peça escrita por outra pessoa.
— Eu não posso dizer “Eu amo você”, posso? — Johan voltou a jogar conversa fora com o concreto tingido de branco à sua frente, parecia uma espécie de terapia. — Quero dizer, seria tão assustador…
— O que seria assustador? — Johan quase se separou das pernas bambas, infelizmente a voz não pertencia à parede com a qual ele falava anteriormente. — Com quem está falando, Johan?
Judai o olhava de esguelha com curiosidade, Johan amava aquela expressão, achava uma graça o modo como as sobrancelhas se erguiam cheias de suspeita.
— Eu não estava falando com ninguém! — Johan tratou logo de dizer. — Não estava dizendo nada porquê não sei dizer, não tenho o que dizer, não…
— Não sabe… dizer? Acho que não entendi. — Judai agora coçava o queixo, ele sempre fazia isso quando tentava pensar demais em algo.
— É, sabe, as palavras são difíceis, dizer é difícil… — Não era uma total mentira, o jovem de olhos de esmeralda não fazia ideia de onde estava a coerência nas palavras que deixava escapar da boca.
— E entender você mais ainda — Judai sorriu desistindo de continuar seu trabalho de detetive para decifrar os códigos de Johan e aproximou-se do mesmo passando um braço por trás de seus ombros. — Bem, se dizer é difícil pra você então eu sugiro que encha sua boca com uns bons camarões fritos, eu estou faminto e você?
— Oh não, eu não posso comer agora, Judai, eu… — A sensação era de que nada fosse passar pela sua garganta enquanto as palavras que ele precisava dizer não saíssem do caminho.
— O que? — Judai levava o ato de rejeitar comida quase como uma ofensa pessoal. — Qual é o problema? Você está doente?
Geralmente as pessoas verificavam a febre dos outros posicionando a palma sobre a testa do suposto enfermo, mas Judai juntou sua bochecha com a de Johan fazendo seus rostos ficarem colados um no outro.
— Caramba, você está quente! — ele exclamou separando-se bruscamente de Johan e olhando fundo em seus olhos. — Deixe-me ver, você está falando sozinho, não consegue articular as palavras direito, não quer comer e está com febre… É melhor levarmos você ao médico.
— Judai, eu não estou doente.
— É o que pessoas orgulhosas dizem quando têm medo de ir ao médico, não se preocupe, não precisa ficar assustado, prometo que irei segurar sua mão o tempo todo. — E Judai começara a cumprir sua promessa antes mesmo de os dois abandonarem o quarto que dividiam, o que só fez Johan sentir sua temperatura ser elevada às alturas.
— Eu não estou com medo de ir ao médico e não estou doente — protestou o jovem de cabelos azuis desvencilhando-se, meio que contra sua vontade, das mãos do outro. — É que… é difícil…
— Eu já entendi essa parte, é difícil dizer.
— Não, Judai, é difícil estar com você e não conseguir dizer o que eu gostaria de dizer.
“Inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira…”
— Como assim? Somos amigos, você pode me dizer qualquer coisa — disse Judai com um tom levemente magoado.
— Até que eu g… — Não! “Gosto” não é profundo! — digo, até que eu a… — Ficou maluco? “Amo”? Isso é assustador. — Não, é… até que eu... aprecio imensamente sua companhia?
— Era essa a coisa tão difícil de dizer? — Johan assentiu e em seguida imaginou que talvez fosse só impressão sua o desapontamento a se instalar no rosto de Judai. — Bem — o jovem colocou as mãos nos bolsos —, eu também aprecio imensamente a sua companhia… Não, eu gosto de você… Digo, eu amo você, Johan.
— Ah… — Agora era realmente difícil dizer qualquer coisa.
— Sabe, a parede não é a única que tem ouvidos, quero dizer, ela não tem ouvidos, mas eu tenho, por isso ouvi você falando aquelas coisas… — Ao ver que Johan mais parecia uma estátua do que um ser humano de fato Judai acrescentou: — E eu… sinto o mesmo por você.
— Você me ouviu? — Seu cérebro parecia processar lentamente cada parte do que Judai dissera e, pensou Johan, certamente iria pifar quando chegasse à última. — Por que não disse antes?
— Eu estava esperando você me dizer a verdade, sinto muito. Mas realmente me preocupei de que estivesse doente.
— Não estou, é só você. — Aos poucos o jovem sentia-se mais à vontade em finalmente dizer coisas.
— Entendo, você também me deixa meio quente.
— Quente como?
— Eu não sei, tipo o sol…
— Quão quente é isso? Não me parece meio quente.
— Eu não sei, mas poderíamos perguntar ao Professor Zweinstein, ele sabe dessas coisas.
— Sobre o amor deixar as pessoas quentes?
— Não, sobre o espaço, sabe, o sol, as estrelas, os planetas, os alienígenas e todas as coisas inclusas.
— Oh…
Mas do que diabos eles estavam falando?
— Eu adoro falar bobagens com você — disse Judai rindo e esse simples ato causou uma enorme sensação de alívio em Johan que também se deixou rir. — É uma das coisas que amo em nós dois.
— Somos bons nisso — complementou Johan antes de perceber que a distância entre ele e Judai havia diminuído bruscamente. — Judai…
Dizer com certeza não era tão difícil quanto beijar o amor da sua vida sem pirar de vez, mas Johan e Judai jamais foram as pessoas mais sãs do mundo de qualquer modo.
