Work Text:
De todos os azuis existentes no mundo, aquele que mais impressionava-o era o dos próprios olhos — não pela beleza de cor simultaneamente tão pura e intensa, mas pela dor que escondia-se nela.
Impressionava-o que tal cor pudesse transbordar tanta angústia, que tal cor pudesse abrigar tantas lágrimas, que tal cor pudesse emanar tanto medo. Evitava olhar-se no espelho para não se afogar nas emoções tão funestas que vertiam dos próprios olhos azuis.
Queria poder recolher as lágrimas de todas as páginas que já lera daqueles livros proibidos que falavam sobre o mundo além das muralhas. Gotas salgadas impregnadas nas figuras de sonhos impossíveis — manchando palavras que descreviam o deslumbre de coisas que só faziam parte do mundo deles. De que elas lhe foram úteis?
Sonhara tanto, aos oito anos, aos dez, aos catorze e agora... só tinha pesadelos com os horrores que suas íris azuis haviam visto incontáveis vezes.
Ainda assim...
De todos os sentimentos que atrofiavam-lhe o peito, aquele que mais impressionava-o era a esperança ainda viva.
A esperança de que um dia seus olhos azuis derramariam lágrimas; não em cima das páginas velhas de um livro qualquer, mas junto àqueles que já não seriam apenas sonhos — junto à visão deslumbrante do mundo do qual havia sido privado, o mundo que a Armin também pertencia.
