Chapter Text
Bakugou descansava e ouvia música no lobby da U.A., Kirishima estava à sua frente sentado no chão com os cadernos e lápis sobre a mesa, estudando — ele ficava surpreendentemente quieto naqueles momentos e Bakugou não conseguia evitar em sentir um certo orgulho do amigo, do fruto do trabalho que estava fazendo em ajudá-lo. Isto é, ajudar na maneira Bakugou de ser, berrando e ameaçando.
O dia seguia perfeitamente até Kaminari e Mina chegarem com uma pilha de cartões, jogando-os em cima do material de Kirishima.
— Ei! — reclamou Kirishima. — Não dava pra colocar isso em outro lugar?
— Não — respondeu Mina com um sorriso enorme no rosto. — Chega de estudar, Kirishima, você precisa se preparar para o festão que vai ter esse fim de semana!
— Eu não chamaria de festão, eu chamaria de O Magnífico Baile Eletrizante! — exclamou Kaminari fazendo pose.
Bakugou continuava com seus fones de ouvido no volume máximo, mas não estava completamente alheio ao assunto, pois com um rabo de olho pôde visualizar perfeitamente o conteúdo daqueles cartões que, na verdade, acabaram sendo convites.
TERCEIRO BAILE ANUAL DE OUTONO
“Diante dos últimos acontecimentos, a escola acredita ser uma boa ideia adiantar o Baile de Outono para que os alunos possam relaxar e aproveitar esse próximo final de semana.”
Professora Midnight e Professor Present Mic
Nenhuma surpresa, só aqueles dois indivíduos poderiam organizar algo do tipo. Como Bakugou não tinha interesse naquilo, voltou a prestar atenção em suas músicas somente, mas a conversa continuou entre os outros três e a impressão era de que falavam mais alto do que qualquer outro som ali.
— Vamos, Kirishima, nós temos que convidar garotas legais! — dizia Kaminari. — Tem umas garotas do segundo ano que são muito gatas!
Mina deixou escapar uma gargalhada escandalosa.
— Qual é a graça? — questionou Kaminari.
— Você acha mesmo que alguma garota do segundo ano vai querer ser vista com você?!
— E por que não, Mina?
Kirishima tentava abafar o riso e Bakugou já estava começando a se irritar, estavam estragando seu momento de paz e silêncio. Claro que ele poderia muito bem ir para a solidão do seu quarto, mas havia chegado ali primeiro naquele dia, os outros são quem precisavam sair.
— Você tem que parar de andar com o Mineta — Mina disse a Kaminari —, está ficando mais idiota do que já era por causa dele.
— Ah, eu não vou ouvir você, Mina! — Kaminari então virou-se para Kirishima que agora tentava encontrar seu lápis debaixo daqueles convites. — E então, Kirishima, vamos?
Bakugou sentiu-se observado e quando ergueu a vista do celular encontrou os olhos vermelhos de Kirishima encarando-o, o que durou apenas um segundo, pois o amigo rapidamente dirigiu-se a Kaminari outra vez.
— Não, cara, eu não estou a fim — respondeu.
Bakugou estava sendo observado de novo, tinha certeza, dessa vez por Kaminari, que porra era aquela? Estava prestes a xingar alguém.
— Ah, já entendi — falou Kaminari —, você só se mete em fria, Kirishima, boa sorte.
— Eu não entendi. — Mina mal conseguia esconder sua curiosidade.
— E depois eu que sou o idiota! — rebateu Kaminari. — Vamos, temos que entregar isso para o resto do pessoal.
Apesar de ter sua paz restaurada, Bakugou ficou com uma pulga atrás da orelha, não agradava-lhe nem um pouco ser alvo de pegadinhas, fofocas ou seja lá o que Kirishima e Kaminari fizeram analisando-o daquela maneira.
— E então — Kirishima começou a dizer —, você vai nessa festa?
— Tenho mais o que fazer do que ficar vendo um bando de imbecis se esfregando uns nos outros — respondeu Bakugou sem perceber que havia tirado seus fones para ouvir melhor Kirishima. — Você vai?
— Não, eu… acho que vou ficar estudando. Aliás — Kirishima levantou-se e pegou suas coisas —, eu vou pro meu quarto fazer isso, sabe, antes que alguém mais queira jogar convites em cima dos meus cadernos. Vejo você depois.
Estranho, pensou Bakugou enquanto observava o amigo desaparecer escada acima. De qualquer forma, ele não tinha absolutamente nada a ver com as esquisitices de Kirishima.
— Que seja! — exclamou para si mesmo antes de perceber que segurava os fones em sua mão.
Se qualquer outra pessoa se dirigisse a Bakugou enquanto ele estivesse ouvindo música, ela seria ignorada ou seria vítima de xingamentos chulos. Kirishima, por outro lado, parecia ter uma espécie de privilégio, ainda mais por Bakugou nem se dar conta dessas pequenas atitudes.
Agora, porém, ele havia notado, mas não existia qualquer razão para refletir sobre isso. Bakugou voltou a usar os fones, voltou a ouvir sua música, colocou os pés sobre a mesinha e os braços atrás da cabeça, fechou os olhos — um momento de tranquilidade para seu espírito irritadiço.
— Bakugou! — chamou-lhe uma voz. — Bakugou!
Alguém certamente estava implorando para levar um chute no traseiro. Bakugou abriu os olhos para ver quem era o felizardo a ter um encontro romântico com seus sapatos, era Todoroki.
— O que é?! — indagou com violência, por mais que quisesse, sabia que se meteria em problemas se partisse para a briga com o filho do Endeavor.
— O diretor quer nos ver — respondeu Todoroki.
— Por que? O que eu fiz agora?
— Creio que iremos descobrir quando chegarmos lá, não?
— Não banque o engraçadinho comigo!
Relutante, Bakugou seguiu Todoroki até a sala do diretor, a música ainda estourando em seus tímpanos.
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— Eu sei o que vocês são — disse o diretor Nezu, na verdade aquela foi exatamente sua primeira sentença quando Bakugou e Todoroki entraram na sala. — Bakugou Katsuki, Todoroki Shouto, vocês são... antissociais.
Bakugou indignou-se por ter sido chamado ali para ouvir algo que já sabia.
— Imagino que já saibam do nosso baile de outono — continuou Nezu andando de um lado para o outro com as mãos (patas?) atrás das costas. — E imagino também que já tinham a resposta na ponta da língua, suas cabecinhas gritaram "Nem pensar!", mas eu, o diretor da U.A., devo dizer que vocês são obrigados a ir.
— O que?! Não pode fazer isso! — berrou Bakugou.
— Posso e vou fazer, passamos por um momento estressante e todos os alunos, sem exceção, precisam desse momento de diversão para balançar o esqueleto.
— Com licença, senhor — Todoroki começou a falar —, mas o que vai acontecer se não formos?
— Essa é a melhor parte! Se vocês não forem vão passar duas semanas na detenção com o Present Mic gritando no ouvido de vocês!
— Isso é um absurdo! — revoltou-se Bakugou.
— Eu sei. — O diretor Nezu então adotou uma expressão sombria. — É tão bom exercer a tirania nessa escola ás vezes.
Bakugou deixou a sala batendo a porta atrás de si e bufando de raiva. De todas as coisas que ele imaginou que fossem acontecer na U.A., ser obrigado a comparecer a um baile estúpido nunca foi uma delas.
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Bakugou fez o caminho até o dormitório, não foi para seu quarto entretanto, no lugar decidiu por bater na porta de Kirishima. Deu quatro batidas antes do amigo aparecer com os cabelos vermelhos desgrenhados.
— Estudando um caralho! — exclamou Bakugou. — Por que demorou tanto?
— Acabei dormindo — respondeu Kirishima. — Aconteceu alguma coisa?
— Você acredita que vamos ser obrigados a ir naquele baile idiota de que Kaminari e Ashido estavam falando?! — disse Bakugou, havia acomodado-se na cama de Kirishima como se o quarto fosse seu. — Ou seja, sem estudos pra você nesse final de semana também.
— Que merda — falou Kirishima.
— Você não parece estar triste com isso — disse Bakugou ao perceber o semblante emocionalmente indeciso do amigo.
Kirishima logo abriu um sorriso desconcertado no rosto, suas mãos chacoalharam no ar e em menos de um segundo ele se aproximou de Bakugou sentando-se ao seu lado na cama.
— Não, eu estou muito triste sim! — defendeu-se Eijirou de uma maneira nada convincente, claro. — Então você vai mesmo?
— E eu tenho escolha? Já lhe disse, estou sendo obrigado!
— É… e isso é mesmo uma merda, cara, mas… sei lá, nós podemos ir juntos, quero dizer… você é meu amigo e…
— Certo, certo! — interrompeu Bakugou. — Você sabe que eu não gosto dessa melosidade, mas aí, você não vai querer arriscar levar foras de garotas do segundo ano com o idiota do Kaminari?
— Não, cara, eu prefiro curtir a noite com o meu grande amigo, tem algo mais másculo do que isso?
— Kirishima, a última coisa que eu vou fazer nesse maldito baile é curtir a noite!
Kirishima com certeza não imaginava que Bakugou perceberia a leve alegria estampada em seu rosto, mas Bakugou havia percebido, só questionava o motivo. O comportamento entusiasmado do amigo não era exatamente uma novidade, entretanto, ao menos normalmente, Kirishima agia de forma transparente, era até mesmo possível ler seus pensamentos. Naquele instante, porém, Bakugou não conseguia enxergar nada além de uma nuvem de imprecisão.
Ele quis perguntar.
“O que você está pensando?”
“O que você está escondendo?”
Mas é claro que a vontade continuou sendo apenas vontade. Não era a primeira vez que Bakugou queria saber mais sobre Kirishima, nem seria a última, mas se interessar pela vida de alguém era algo tão fora de seu personagem que deixava-o nervoso. Apenas deixou para lá como sempre fazia.
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Bakugou sabia que odiaria aquela noite mais do que tudo, porém tinha de admitir para si mesmo que era muito bom com nós de gravata, sentiu até orgulho de seu visual, porém o cabelo continuava o mesmo — os traumas com produtos capilares de quando trabalhou com o Best Jeanist ainda não haviam abandonado-o.
Depois de se arrumar, Bakugou foi imediatamente para o quarto de Kirishima e não ficou surpreso por ele não estar pronto. Kirishima, por outro lado, quando olhou para Bakugou, parecia estar vendo algo que nunca vira na vida, seus olhos ficaram estáticos e suas mãos — que antes lutavam com uma gravata borboleta na frente do espelho — caíram uma de cada lado de seu corpo.
— V-v-você está — gaguejava Kirishima — lind… você está demais, cara!
— E você está parecendo um tonto! Vem aqui, deixa eu arrumar essa merda!
Kirishima obedeceu-lhe sem rodeios e Bakugou, usando seus dotes fashionistas que o resto do mundo desconhecia, começou a fazer o laço da gravata do amigo. A sensação de estar sendo observado voltou-lhe à mente, tinha certeza de que os olhos de Kirishima estavam pregados em seu rosto e estranhos rodopios fizeram-se em seu estômago. A gravata estava pronta — perfeita, mas Bakugou ainda não queria levantar a face, nunca fora atormentado por esse tipo de receio antes, era estranho demais.
— Você usa creme dental de limão — comentou Kirishima, palavras totalmente inesperadas. — Eu posso sentir o cheiro do seu hálito… não tem cheiro de menta...
— Hã? — espantou-se Bakugou, não queria mostrar-se comovido, mas foi inevitável. — Por que está dizendo isso, é esquisito pra caralho!
— Eu não sei. — Kirishima foi chegando mais perto, o olhar suavizado expressava um sentimento novo e, pela primeira vez, aquela transparência assustou Bakugou. — Eu só fiquei me perguntando por um segundo como seria o gosto...
Kirishima então arregalou os olhos e se afastou abruptamente, era como se tivesse saído de um estado de hipnose, suas bochechas ficaram vermelhas e ele começou a fingir uma tosse.
— Tem gosto de limão, seu imbecil! — exclamou Bakugou tentando aliviar a tensão que tomara conta do ambiente.
— Claro, claro, obrigado por… por ter… — Kirishima apontava para o pescoço meio desnorteado. — Pelo nó! Obrigado pelo nó, Bakugou, de verdade.
Assim que saíram no corredor, os dois voltaram ao normal, ignorando o que havia acontecido no quarto, ou melhor, o que quase havia acontecido. Mas Bakugou não queria pensar na palavra que viria depois do quase, quer dizer, a ideia de Kirishima beijá-lo era…
Não, não iria pensar naquilo.
Iria esquecer tudo, assim como esqueceria aquela noite inútil.
